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quinta-feira, novembro 19, 2020

GUIMARÃES ROSA, MAGDA SZABÓ, IMRE MADÁCH, EMMA LAZARUS, HIROSHI OSAKA, ÁGNES BERTALAN, HERMILA GUEDES & LAGO DOS SONHOS

 

TRÍPTICO DQC: JANELONÍRICA – Ao som da abertura d’A Louca, do compositor, maestro e professor Elias Alvares Lobo (1834-1901), com a Orchestra: Orquesta Sinfonica Nacional da Radio M.E.C., condutor Alceo Bocchino. – Adormeci ainda cedo da noite e logo um sonho para lá de estranho. Não sei como fui parar num hospital e sentei-me numa poltrona da sala de espera. Sem perceber fui picado por uma seringa que fez o mundo girar e eu como se estivesse a bordo de um eritrócito navegava por correntes sanguíneas. Apareceu uma senhora jovem muito bonita e vestida à moda oriental. Ela criava palavras de três letras de um alfabeto de apenas quatro, manipulando todas as combinações possíveis, diante de tabletes de argila vitrificada. Uma mão me puxou pelo braço e fui conduzido a subir os degraus de uma escada até chegar ao topo e recepcionado por um homem corpulento que nunca vi. Vestido de um blazer com o escudo da Universidade de Cambridge, estava acompanhado de um outro muito desalinhado com seu tênis sem cadarço. Ambos me conduziram a uma visita pela dupla hélice, o núcleo e os compartimentos citoplasmático. Era tudo muito estranho. Ao retornar recebi o auxílio de um gigantesco mensageiro para uma viagem em movimentos brownianos levados pela agitação molecular de partículas coloidais por um ambiente homogêneo de baixa densidade. Não entendia nada. E me deparei numa praia de músculos na qual doutos professores dialogavam estranhos problemas científicos. Maravilhado com o cenário, fui então informado de que aquela dama oriental que vira anteriormente, nada mais era que a dama Enzima, na verdade, senhorita DNA polimerase, que presidia a replicação do código genético. A escada que eu percorri, era dela, a do DNA. Lá me explicaram que ali era o Lago dos Sonhos, local onde se cantam fórmulas mágicas que fazem com que as nuvens assumam formas fantásticas. De fato, ao recitar o estranho cântico, logo se faziam das nuvens imagens de dinossauros, gliptodontes e pterodátilos às travessuras no céu. Ao acompanhar os discursos daqueles sábios, uma inhaca me incomodava, fedentina terrível. Um deles me explicou ser estrume. Sim? Respondeu-me cortesmente que os bois são animais atômicos que funcionam da mesma maneira que centrais nucleares de alta performance. E? É que o resíduo é fertilizante e a energia que usam vem indiretamente do sol por meio das plantas que comem. Ah, tá. Curiosamente tive outras explicações muito informativas, como, entre outras, a respeito da matemática da combinação dos genes, coisas que mais pareciam aulas de ciências do ginasial e colegial, nem lembrava mais. Não sei como retornei são e salvo. Dei pela presença do físico ucraniano George Gamow (1904-1968), que apertou forte minha mão com um riso largo e foi me questionando a respeito da viagem ao lago, se havia gostado ou não, estava curioso e nem me deixava falar de tão entusiasmado com minha experiência, a ponto de me informar entre perguntas irrespondíveis e gargalhadas soltas, que ali era o único do mundo em que é possível se pescar enquanto faz um curso geral sobre termodinâmica aplicada à biologia. Hem? Ele mais rio. E muito. Foi logo me presenteando a obra Mr. Tompkin inside himself, adventures in the new biology (Allen & Unwin, 1967), dele em parceria com o microbiologista lituano Martynas Yčas (1917-2014). Nossa, que sonho estranho! Lembrei do Quintana: Sonhar é acordar-se para dentro. E foi exatamente isso que me ocorreu. Chaplin passou e me disse em tom satírico o cochicho: Falar sem aspas, amar sem interrogação, sonhar com reticências, viver sem ponto final. Mais mordaz ainda foi a inesperada chegada de Shaw: Alguns homens veem as coisas como são, e dizem 'Por quê?' Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo 'Por que não?'... Acho que estou ficando louco no meio da minha interminável solidão. Nisso aparece Anatole France: Para realizar grandes conquistas, devemos não apenas agir, mas também sonhar; não apenas planejar, mas também acreditar. Sei, com esses encontros e desencontros, me sinto o sujeito mais perdulário. Nada não, sei que a vira gira num redemoinho sem fim, não há como escapar: sempre se volta por onde passou.

 


A TRAGÉDIA DO HOMEM - Ao som do The Poem of Ecstasy, Op. 54 (1905-08), de Alexander Scriabin, played by the Philharmonia Orchestra and conducted by Esa-Pekka Salonen (2010). - Ela chegou nua ao amanhecer. Era Eva n’A tragédia do homem (1860 - Salamandra, 1980), de Imre Madách. Na cena escura ela recitou um trecho da cena II: E embora a luz do céu se apague no alto, aqui embaixo eu a encontro nos teus olhos: onde mais a encontrar, se não em ti, eu que devo o meu ser ao teu anseio? Se até o Sol, com seu jorro de luz, para não ficar só no mundo, pinta a própria imagem no lençol das águas e, alegre de ter par, com ela brinca, generoso a esquecer que é simplesmente um reflexo da sua própria luz, que, sem ela, se apagaria logo! Aproximou-se e quase senti sua respiração compassada num trecho da cena IV ao meu ouvido: Me esmaga, Faraó, mas me perdoa se a dor do povo não me deixa em paz! Sei muito bem que sou escrava tua e vivo só para te dar prazer, esquecer tudo o que existe em redor - grandeza e miséria, ilusão e morte - para ter riso alegre e beijo ardente. Mas quando o povo, este ser de mil braços. geme lá fora ao estalar do açoite, eu, filha do povo, e dele arrancada como um pedaço de um corpo doído, sinto em meu peito o que ele inteiro sofre. Deu uma volta ao meu redor e na minha nuca sussurrou um trecho da cena V: Na alma da gente há uma voz muito alta: a ambição! No escravo, ela está dormindo, ou, em tão baixo nível, gera o crime. Mas, provando o sangue da liberdade, é uma virtude cívica que esplende no que há de mais digno e mais grandioso. Quando é forte demais, vira-se contra a própria mãe - e uma das duas morre. Se em teu pai essa voz fosse mais forte e o levasse a trair a pátria amada, seria a maldição! Rezemos, filho! Deu mais uma volta e outra como se investigasse minha atenção. Não sei como, ouvi Lúcifer: Não passa o tempo: nós é que mudamos. Sim e ela já era a atriz húngara Ágnes Bertalan na adaptação fílmica em animação da peça, Az ember tragédiája (2011), dirigida por Marcell Jankovics. E me envolveu num longuíssimo sonho em que eu era Adão levado pelo falante Lúcifer numa visita às grandes civilizações do mundo a questionar sobre o significado da vida. Logo sou o Faraó Djoser que me apaixono por Eva agora uma escrava, e sou Milcíades conenado à morte, sou Tancredo iconoclasta, sou Kepler buscando a sabedoria, sou o sanguinário Danton e desperto entre ideias duradouras e poderosas. Não sou nada diante do penhasco. E ela, agora Magda Szabó me diz baixinho: Deus geralmente nos ignorava quando pedíamos algo, mas invariavelmente concedia o que temíamos. Eu ainda era bastante jovem, e não tinha pensado sobre isso, quão irracional, quão imprevisível é a atração entre as pessoas, quão fatal é sua corrente. Então ela afastou-se e à porta: Vem!

 


ELA OMNIRIDESCENTE – Imagem: do fotógrafo japonês Hiroshi Osaka. Curtindo o album Life Goes On (ECM, 2020), de Carla Bley with saxophonist Andy Sheppard and bass guitarist Steve Swallow. - Ela me leva pela mão e sua nudez reluz na minha gula. Num canto da sala ela me beija, vira-se de costa e me leva a comprimí-la contra a parede. Leva a minha ao seu sexo úmido e a outra a acariciar seus seios, enquanto ela me diz da poeta estadunidense Emma Lazarus (1849-1887): Parece que sempre tenho uma pequena janela voltada para a vida. Até que sejamos todos livres, nenhum de nós é livre. A poesia deve ser simples, sensual ou apaixonada. E mais se contorcia com o meu contato, meu sexo remexendo por sua carne caudalosa. Sussurrou excitada João Guimarães Rosa: É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado. Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. Felicidade se acha é em horinhas de descuido. Viver é etecetera. E o amor se fez entrega e a vida mais que eterna em nós. Até mais ver.

 

A ARTE DE HERMILA GUEDES

Quero personagens que me transformem. Tive sorte por ter surgido trabalhos maravilhosos para mim. Mas também escolho personagens que me desafiam como atriz. Como não estudei artes cênicas, a minha escola é o trabalho, a maneira como sou conduzida pelos diretores é onde aprendo. Escolho personagens que me desafiam como profissional e como pessoa, que me transformam, que possam acrescentar e com os quais eu possa aprender muita coisa.

A arte da atriz Hermila Guedes, que estreou no teatro com a peça A Duquesa dos Cajus (1999) e depois atuou nas peças teatrais: Noite Feliz (2000); Paixão de Cristo (2001-2005), Meia Sola (2003); Angu de Sangue (2004); e, no ano seguinte, Três Viúvas de Arthur. Atuou em filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes e daí por diante vários filmes levaram-na para a televisão, atuando em especiais e telenovelas da TV Globo. Veja mais aqui e aqui.

 


 


sexta-feira, janeiro 26, 2018

CHAPLIN, JORGE DE LIMA, HENRIQUETA LISBOA, TAVITO, SILVÉRIO TREVISAN, PAULA REGO, GIOCONDA AGUILAR, DANNY CALIXTO, ARTUR GOMES & O PARAÍSO BRASIL

O MUNDO NA JANELA – Imagem: ArtObjeto em madeira, da escultora Georgia Gioconda Aguilar. - Abro a janela, é manhã. Sinto que sou como um rio, uma nascente. E a minha vida é como a doce água na correnteza para o mar em um dia azul ensolarado de nenhuma nuvem, solto e livre, na companhia de pássaros aos voos, bem-te-vis, sabiás, canários, a festa dos cardumes. Assim voo vida afora, horizonte franqueado ao prazer da vastidão. É assim que me sinto nesta manhã, o mundo da janela. Um sentimento diferente, como se estivesse de ressaca – sempre estou feliz de ressaca, uma simples felicidade por me ver sem compromissos, ou afazeres previstos, missão cumprida. Feliz e grato, em estado de graça. Não sei das horas, pra quê saber? Telefone mudo, nada de noticiário, pra quê? A tevê desligada, silêncio de máquinas, passantes que saúdo rua acima ou ladeira abaixo, nada de moral baixo ou vagas amabilidades, passado esquecido, tristeza que nem sei, mesmo sabendo que os caras de Brasília e tantas outras supostas autoridades nas mais diversas regiões desse nosso imenso país, ou querem acabar com o Brasil ou com a gente, o que dá no mesmo, nós somos o Brasil, eles são apenas mandriões salteadores que assumiram o poder, logo passam, passarão, tudo passa, quer queira ou não, e amanhã há de ser outro dia e quero manter a paz e a felicidade de hoje. O mundo em paz pra mim, como se não sucumbisse a tantos problemas, ah, nem quero saber de problemas, bastam os meus que só quero saber amanhã ou depois de amanhã, hoje não, hoje é dia de me sentir bem, nem dá pra pensar o que faz a vida valer a pena, tudo vale a pena, as coisas de infância relembradas, os sonhos que não nos abandonam mesmo com a idade, a crença de um mundo melhor para todos, e que o pior de tudo que possa ocorrer, no mínimo a gente negocia, esquenta as orelhas e depois sorrir só por lembrar os apertos, revertérios, tudo passa, sem dúvida, até o mais emperrado acaba passando. Alguém passa e reconheço, não lembro o seu nome, cabeça essa minha, sempre ocupada e falhando vez em quando, senão sempre, nada demais, é a idade. Ele pergunta: cadê a alma? Um outro se aproxima e: e eu é que sei? Aceno e aponto pra eles o meu coração. Não entenderam, levaram como se fosse mais uma mentira escrota dessas que a gente vê em todo momento só para dispensar certas loas. Foram pra sua agenda, moldados pelo mundo, tudo é seu negócio, fazer bonito e fugir do flagra pra não queimar o filme, tudo na manada, padronizados, dependentes do êxito, não há espaço para fracassados, por isso estou bem porque dos tropeços tirei lições inenarráveis. Nunca quis só na boa, atalhos, ou deixar retardários ao retrovisor. Sempre um dia atrás do outro, adiante, passo firme. O que importa é não sentir cólicas, não enfrentar nenhum fila, remédio algum por paliativo, apenas o coração crescido de satisfação a vagar pelos corredores e cômodos da casa, ah, o prazer do banho, depois saborear bananas, laranjas, fatias de mangas, um copo d’água que nunca sentira o frescor, e belisco o pastelão sempre delicioso, verduras, legumes, exercícios de respiração e o espírito de gratidão, isso sim, sempre, agradeço todos os dias pelo amanhecer, pela vida, pelo Sol aquecendo minha pele, pela Terra minha morada aos meus pés, pelas árvores e seu oxigênio e por embelezarem a natureza – isso enquanto dendroclastas de plantão não desertificam tudo com suas ganâncias, pois não sou estoico pra sofrer de antemão, retribuo em defesa dos verdes campos e assim aspiro a vida em sua plenitude. Nisso sinto sou maior que a mim mesmo, mesmo sabendo que sou apenas um homem na janela, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o músico e compositor Tavito Carvalho cantando seus grandes sucessos & com Zizi Possi a música Começo, meio e fim; a cantora, compositora e instrumentista Danny Calixto interpretando seus trabalhos autorais: Oásis, Odum & Do avesso; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido. Trecho do filme O grande ditador (The Great Dictator, 1940), do ator e cineasta inglês Charlie Chaplin (1889-1977), uma comédia dramática e uma sátira crítica ao momento histórico que se desenvolvia no período em que foi criado. Veja mais aqui.

O FECAMEPA & O ILUSÓRIO PARAÍSO BRASIL – [...] Em nenhuma outra região se mostrou o céu mais sereno, nem madruga mais bela a autora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos, são as mais puras; é enfim o Brasil terrenal Paraiso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios, domina salutífero clima, influem benignos astros e respiram auras novissimas, que o fazem fértil e povoado de inumeros habitantes. Trechos extraídos da obra História da América portuguesa (W.M. Jackson Incorporated, 1952), do historiador, poeta e advogado português Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), uma pesquisa realizada em arquivos de ordens religiosas da Bahia, Rio de Janeiro e São Vicente, constituída de dez "livros", que tratam desde a chegada dos portugueses até as minas de ouro de Minas Gerais. Veja mais aqui.

MAIS DO PARAÍSO BRASIL – [...] Estava, agora diante de uma bandeja de queijos variados. - Ah, o Brasil, essa imensa ilha... – dizia o conde Bassuccello, entretido em cortar um pedaço de sbrinz dos Alpes. – De fato – aparteou Nepomuceno – estamos muito isolados na América. A língua mas também... – Oh, não. Não me refiro a isso, que não deixa de ser verdadeiro – retrucou o conde, acabando de mastigar. – Falo de uma dessas ilhas utópcas cuja lenda se perde na noite dos tempos. Os senhores talvez não saibam, mas o nome Brasil em geografia já existe desde o período medieval. – Mas o Brasil só foi descoberto bem depois... Não é mesmo, Herr Nepo? – admirou-se Júlia, entretida com um delicioso queijo stracchino lombardo. – Sim, mas antes do atual Brasil já existia na Idade Média uma ilha chamada Brasil – asseverou Basuccello. – Bem existiam muitas ilhas míticas imaginadas pelos povos de então. Todas representavam o paraíso terrestre, onde não haveria discórdias nem velhice nem doenças ou morte. Eram tão perfeitas que seus habitantes não precisavam sequer trabalhar para comer. Numa dessas ilhas, imaginem, as frutas caiam dope pontualmente às nove horas, para poupar os homens do trabalho de colhê-las. [...]. Trecho extraído da obra Ana em Veneza (Best Seller, 1994), do escritor, jornalista, dramaturgo, cineasta, tradutor e ativista brasileiro João Silvério Trevisan. Veja mais aqui.

O CURURUTudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes, o barreiro ficou sonoro, como um convento de frades. Vozes roucas, foi-nã0-foi, tãs-tãs, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos, respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. [...]. Daí a pouco, da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como dois vagalumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximavam mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir; previa o perigo, porque emudecera; mas já não podia andar, imobilizado; os olhos feiíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fica do réptil arreganhou-se desmesuradamente; envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil entregando-se à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu lá se foram, ainda vivas, para as entranhas famélicas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. Trecho extraído de O anjo (Agir, 1959), do médico, escritor, tradutor e pintor Jorge de Lima (1893-1953). Veja mais aqui.

OS LÍRIOS - Certa madrugada fria / irei de cabelos soltos / ver como crescem os lírios. / Quero saber como crescem / simples e belos — perfeitos! — / ao abandono dos campos. / Antes que o sol apareça, / neblina rompe neblina / com vestes brancas, irei. / Irei no maior sigilo / para que ninguém perceba / contendo a respiração. / Sobre a terra muito fria / dobrando meus frios joelhos / farei perguntas à terra. / Depois de ouvir-lhe o segredo / deitada por entre lírios / adormecerei tranquila. Extraído da obra Lírica (José Olympio, 1958), da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Veja mais aqui.

BRASIL - UMA PEQUENA MOSTRA DO ESTADO DE DEGRADAÇÃO DO LITORAL BRASILEIRO
sem meias palavras ando descalço
pra pisar a lavra da palavra chão
Brasil - Uma pequena mostra do estado de degradação do Litoral Brasileiro. Mostra Cinema Ambiental: 27 de janeiro, Estação 353 - Estrada do Estreito, 353 - Macuco - São Francisco do Itabapoana- RJ. Artur Gomes & Fulinaíma MultiProjetos & Studio Fulinaíma Produção Audiovisual.

Veja mais:
Dos destroços pra solidão criativa, a literatura de Fabian Dobles, a música de Rosa Passos, a fotografia de André De Dienes, a pintura de Joan Fullerton & a poesia de Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui.
A mulher na Roma antiga, William Faulkner, Victor Hugo, Jacqueline Du Pre, Helena Saffioti, Brian De Palma, Jean-Baptiste Pigalle, Carmen Tyrrel, Elizabeth Short, Mia Kirshner, Lenita Estrela de Sá & Lia Helena Giannechini aqui.
Antonio Callado, Angela Yvonne Davis, Giovanni Lanfranco, Tavito Carvalho & Jane Fonda aqui.
A violência aqui.
O pensamento de Demócrito aqui.
O pensamento de Anaxágoras aqui.
O pensamento de Empédocles aqui.
O pensamento de Zenão de Eleia aqui.
O pensamento de Parmênides aqui.
O pensamento de Xenófanes aqui.
O pensamento de Heráclito aqui.
A fenomenologia de Husserl aqui.
O pensamento de Pitágoras aqui.
O pensamento de Anaxímenes aqui.
O pensamento de Anaximandro aqui.
Autoestima aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora portuguesa Paula Rego
Veja mais aquiaqui e  aqui.

sábado, fevereiro 06, 2016

CHAPLIN, MATURANA & VARELA, COMTE-SPONVILLE, SELMA RATIS & A TROÇA DO FABO


 Imagem: Folia Caeté, do artista plástico Rollandry Silvério.

A TROÇA DO FABO


Luiz Alberto Machado

Olhaí, gente, já que o Brasil parou mesmo desde dezembro, agora é segurar as topadas para quando tudo começar a funcionar depois do carnaval. Vamos que vamos sacolejar o espinhaço, soltar as camuflagens e botar pra frevar. Como é fevereiro, a pândega vai comer no centro do carnaval. E vamos que vamos, na santa frevada estimbungue solto na hora dos blocos, grêmios, escolas de samba, grupos de caboclinhos, guerreiros, troças, fuleragem a fole das trupes, viadagem e arteirice na bagaça, tudo lavando a engrenagem da caveira com a maior das carraspanas, para se desligar das aperturas numa esvoaçante aventura pelos dias da maior festa do mundo. Eu mesmo, gente, tô nessa e não abro nem prum trem! Estimbungue! Quero, então, chamar a atenção para um desfile que ocorrerá! Será quando uma troça invadir todas as avenidas do país. Num vai dar para ficar de fora dessa. Trata-se da Troça do Fabo. Essa merece atenção redobrada porque arrebatará todos os prêmios nacionais, internacionais e, quiçá, universais também. Vai ser o maior impado de ufanidade! Isso quando a gente provar que não só é pentacampeão do mundo no futebol ou campeoníssimo de outras baboseiras mais, como na espórtula, por exemplo. Essa vai botar pra rachar mesmo! Antes de me encherem o saco perguntando o que droga é Fabo, eu digo: é o mesmo que Fabricante de Bosta, ou seja, o que todo brasileiro em sua esmagadora maioria é. Por isso essa troça vai juntar tanto ocrídio de um olho só que se tornará a maior agremiação carnavalesca de todos os tempos, digna de menção no Guiness Book. Quem viver, verá. Ou já está vivendo no olho do furacão dela. Bem, afinal o que é um Fabricante de Bosta mesmo, hem? Simples, contraditória, paradoxal e complexamente é: aquele que leva vantagem em tudo, não bate prego sem estopa, entende de qualquer assunto, é amigo-da-onça, sectário inarredável, moralista de pau-oco, religioso de meia-tijela, enrica na Sudepone, não está nem aí para quem pintou a zebra, além de ser um verdadeiro baba-ovo. Quer mais? Tem: ele é só do contra, é um chato-de-galocha, só dá nó-cego e adora quanto mais purpurina melhor. Entre as suas características ainda convém ressaltar a sua situação de ambivalente e de digitígrado, pois quando não é Pelé vira gandula que faz gol; quando não enche o saco, manda vírus pelo computador; quando não tem o que fazer, de nada arruma uma briga; quando quer fazer alguma coisa, pega carona na ideia dos outros; quando endoida come merda dele mesmo e torra dinheiro alheio; vira cover de tudo e se aproveita da leseira dos bestas; é fã de big-brother, ouve a trilha do que chama de música às alturas dos estrondos, vende lixo por ouro e gato por lebre. Tem mais: sabido que só, ele é perito no 5 deitado, 1 em pé e 4 rodando, manjou? E isso embaixo dos cobertores, ninguém viu, ninguém sacou. Só na moita. Ainda mais: é o maior fura-filas porque se acha mais privilegiado que os outros e avança sinal vermelho porque é o fodão abençoado por Deus porque que se ele estiver na preferencial, não tem pra ninguém. Se houver óbice, usa do expediente do molha-mão pra azeitar qualquer burocracia emperrada, aproveitando para deixá-la na maior disfunção pros outros. Se tiver de cima, qualquer outro que se foda! Se estiver na baixa, oxente, lambecu da para toda serventia. Se precisar dele, viajou; se ele der por falta, presença confirmada com o maior paparicado. Se estiver certo, dá grito no maior cacarejado; se estiver errado, arrota homência, fala grosso e culpa os outros. Não perde uma, usa de todas as trapaças. E todo dia diz: se todo mundo fosse igual a mim, o Brasil seria outro! Avalie. Ah, se for dele, maior austeridade; se for dos outros, depena! Pula o muro para não gastar o ferrolho – se for dele; do contrário, adora afolosar o que é alheio; se empanzina com mortadela, arrotando lagosta; e só quer aparecer bem na fita porque está sempre nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional. Também está aboletado jupiterianamente em todas as instituições das 3 esferas do Poder Executivo e em todas as comarcas e instâncias do Poder Judiciário. É mole? Um detalhezinho importante é a de que entre os cento e tantos milhões de brasileiros desse meu brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada, quem não se enquadrou nessa descrição, das duas, uma: ou tá doido para se enturmar ou tá morrendo de inveja, se roendo todo. Como é uma troça de notáveis, por questão de segurança (e de frescura mesmo), ela sairá em dia não determinado durante o carnaval. Pode até já ter saído e desfilado, ninguém se dá conta. É porque já se amostram às escondidas e sob todos os holofotes midiáticos anos inteiros, isso desde que me entendo por gente de janeiro a dezembro, mas que só agora estão sendo descobertos sob esta nomenclatura. Quer dizer então que podem surgir na semana pré, ou de preferência enquanto todo mundo tiver sacudindo a loucura e eles aprontarem aumentando os salários dos colegas deputados, senadores, vereadores e do resto da cambada toda. Pode ser que apareçam na terça-feira gorda para desviar a atenção de alguma pinoia braba. Ou mesmo só entrarem na quarta-feira de cinzas, escondidos atrás do Bacalhau do Batata, só para não dizer que não participaram às claras. Afinal, eles existem, todo mundo vê, todo mundo sabe, mas eles pensam que são invisíveis. E incólumes. Aos interessados em se aglomerar nessa jactante e abjeta trupe, a assessoria de imprensa afirma que não haverá número limitado de participantes, podendo, pois, todo mundo se achegar bastando apenas se enquadrar entre os famigerados fascínoras enrustidos, onanistas camuflados e surrupiadores afins, mangando de si e dos cento e tantos milhões e lá vai tampão de abestalhados. Ressaltam que o desfile não procederá com alas nem nada que discrimine vez que se eles não se reconhecem, com certeza não terão nenhuma hierarquia: tudo num bolo só. Ou como se diz no popular: tudo farinha do mesmo saco. O enredo será “De como uma terrinha tupiniquim dita paraíso tropical vira uma esculhambação sideral”, animada ao som da legendária marchinha do trio Ivan, Homero & Glauco Ferreira: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí”. As fantasias vão desde cuecas endolaradas, pidões descarados, fofoqueiros da terrinha, alcaguetes da nação, servis caboetas, sorumbáticos das cagadas, misantropos dos desgovernos, tapias eurístomos, gandaieiros tardíloquos, pelegos da zona, traficantes do fisco, xumbetas bilionários, servidores da espórtula, pedófilos evangelizados, vampiros da saúde, lapiaus de merenda, sindicalistas da zona, sifrões gigantescos, propinodutos invisíveis, coroinha da bixiga-lixa e até o escambau! Tudo remontando as asneiras de quinhentos e tantos anos de vícios, safadezas e maruagens de colônia, pseudo-império, republiqueta velha e nova tocada no “Yes, nós temos bananas!”. Com certeza essa troça será manchete em todos os jornais, tvs, rádios e sites do universo. Vão dar pano pras mangas pros outros países aprenderem a como fazer de uma tragédia a mais hilariante piada universal. Afinal, tudo é carnaval! E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!!!!  Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - Não devemos ter medo dos confrontos Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas. Pensamento do ator e cineasta inglês Charlie Chaplin (1889-1977). Veja mais aqui.

A ÁRVORE DO CONHECIMENTO – A obra A árvore conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana, de Humberto R. Maturana e Francisco J. Varela, trata de assuntos como conhecer o conhecer, a organização do vivo, história, reprodução, hereditariedade, a vida dos metacelulares, a deriva natural dos seres vivos, domínios comportamentais, sistema nervoso e conhecimento, os fenômenos sociais, domínios linguísticos e consciência humana, a árvore do conhecimento, entre outros assuntos acerca da teoria do conhecimento. REFERÊNCIA: MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. A árvore conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2001. Veja mais aqui.

O AMOR - [...] o amor não é o contrário do egoísmo; é seu efeito, sua foz – como um rio se lança no mar -, enfim seu remédio ou, como diria Espinosa, sua salvação. [...] Nunca se ama demais. Ama-se mal e mesquinhamente. [...]. Trechos extraído da obra O amor é falta ou plenitude (Zahar, 1999), do filósofo francês André Comte-Sponville.

TRÊS POEMAS -SONHO – A suíte era de motel / o amante muito oportuno / o prazer era de verdade / e a impressão do céu. PRESSA – Para que esperar / que aconteça? / quero estar / com você / acariciar, amar / quero que me beije / como antes, todinha / sinto uma falta / danada de vestir / em você uma camisinha. TEMPO II – Outro banho agora / iria tirar o peso ; das tuas pernas / o calor dos teus braços / em minhas costas / teu cheiro em meus cabelos. / Quero guardar pelo menos / por vinte e quatro horas / a prova de que fui amada. / Por que me molhar com água / quando estou molhada de amor? / Por que lavar teus beijos? / Por que deixar escorregar / pelo ralo do banheiro / as palavras ditas ou ouvidas? / Por que afogar a satisfação / da minha pele relaxada / de prazer? Por que deverei / apagar de mim você. Poemas extraídos do livro É tempo de poesia, é tempo de erotismo (Trem das Letras, 1998), da poeta Selma Ratis. Veja mais aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Leitora Tataritaritatá!!!
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quinta-feira, abril 16, 2015

HELEN DUNMORE, MILEVA MARIĆ, TZARA, ANATOLE FRANCE & LITERÓTICA

 


LITERÓTICA: ELA, A HIDRA DE LERNA... – (Imagem: art by Marina Fedorova) - Ela fora criada por Hera para me aniquilar. E quando menos esperava ela emergiu da Teogonia de Hesíodo pronta para cumprir seu intento. Ao vê-la sobre as águas profundas do pântano de Lerna, pousou seu olhar faminto e enfurecido sobre mim e de lá vinha em minha direção, com seu rebolado magistral do Peloponeso, pronta para me destruir. A guardiã da entrada do Tártaro achegou-se como uma deusa alada, cheirando-me para que sentisse de perto a quentura do seu hálito enfeitiçante, o seu cheiro envolvente e a sua poderosa feição invencível. Envolveu-me corpo a corpo, seus músculos nos meus, sua ousadia invadindo minhas fraquezas, seu fraquejamento diante da minha aceitação. Dentro de mim ela revolvia meus segredos profundos, meus defeitos agregados, eliminando-os cada um deles ao me afogar em seu refúgio corporal afogueado. Ensinou-me os mistérios de Dioniso e Deméter e me fez deus diante dos seus olhos faiscantes e devoradores. Fez-se então serpente para se enroscar em meu sexo, a abocanhá-lo como uma dragoa faminta, a me lambuzar com o sobejo de seu veneno, lambendo a minha pele, purificando-me e ao me liberar das minhas próprias amarras, regenerava-se a cada estocada derramando seu sangue em meu pênis, a queimá-lo para mantê-lo cada vez mais enrijecido. Invadi a sua fortaleza e suas defesas redobradas resistiam com a minha penetração vencendo-a inescapável. Ela mais se agigantava poderosa, fazendo-me refém de sua sanha avassaladora. Os seus gozos enfim me enveneneram para que eu sucumbisse sobre seu corpo nu boiando no poço de Amymone. Foi no ápice de seu orgasmo esplêndido que ela se dissolveu cauterizada a me deixar espalmado na constelação de câncer sobre o verão boreal. Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Em um mundo sem ar, tudo o que você respira é aventura!... Somos criaturas de histórias... O anseio humano por histórias é tão poderoso, tão primitivo, que parece algo não aprendido, mas sim enraizado em nossos genes... Como indivíduos, somos moldados pela história desde o momento do nascimento; somos formados pelo que nos é contado por nossos pais, professores e pessoas próximas... Uma vez que um hábito se desfaz, os outros o seguem. Você tem que se segurar, ou a próxima coisa que você vai fazer é se encontrar desfilando pela rua em sua camisola. Hábito é tudo... Releia, reescreva, releia, reescreva. Se ainda não funcionar, jogue fora. É uma sensação boa, e você não quer ficar abarrotado com os cadáveres de poemas e histórias que têm tudo dentro, exceto a vida de que precisam... Escrever poesia faz com que você fique intensamente consciente de como as palavras soam, tanto em voz alta quanto dentro da cabeça do leitor. Você aprende o peso das palavras e como elas soam ao ouvido... Pensamento da escritora britânica Helen Dunmore (1952-2017), autora da obra Ingo (HarperTrophy, 2006), na qual ela expressa: [...] Eu queria estar longe em Ingo Longe, através do mar salgado Navegando sobre as águas mais profundas Onde nem cuidado nem preocupação me incomodam. [...]. Na sua obra The Siege (Grove Press, 2002), ela escreve: […] Eles queriam a primavera, é claro que queriam, mais do que tudo. Eles ansiavam pelo sol com cada poro da pele. Mas a primavera dói. Se a primavera pode chegar, se as coisas podem ser diferentes, como você pode suportar o que sua existência tem sido? [...]. No seu livro House of Orphans (Fig Tree, 2006), ela expressa que: […] Você está preso em ambos os sentidos. Você faz o que lhe mandam e faz coisas que você acha que vão te fazer grande, mas o tempo todo você está encolhendo. [...]. Já no seu livro A Spell of Winter ( Penguin, 1996), ela expressa: […] Você tem que continuar com uma casa, dia após dia, eu acho. Aquecendo, limpando, abrindo e fechando janelas, fazendo sons para preencher o silêncio, cozinhando e lavando, lavando e polindo. Assim que você para, pode muito bem nunca ter havido vida alguma. Uma casa morre tão rápido quanto um corpo [...]. Por fim, no seu livro The Deep (HarperCollins, 2009), ela escreve: […] Cicatrizes não importam, pequena. Elas são as marcas das batalhas que vencemos. [...].

 

ALGUÉM FALOU: Todos nós damos desculpas para nós mesmos. E deveríamos ser bons o suficiente para fazê-las para os outros... Pensamento da física e matemática sérvia Mileva Marić (Милева Марић – 1875-1948), que foi a primeira esposa de Einstein: Por tudo que conquistei na minha vida, devo agradecer a Mileva. Ela é minha inspiradora genial, minha protetora contra as dificuldades da vida e da ciência. Sem ela, meu trabalho nunca teria sido iniciado nem terminado.

 

DAMAIANTI – O Maabárata é a epopeia antiga da Índia. Conta, em 32 mil versos de 19 pés, a História da Guerra dos Bárata. É atribuído a um poeta lendário de nome Krishna Dvapayana Vyasa. Nalá e Damaianti, uma das belas histórias da literatura indiana, foi contada a Iudichtira por um asceta da floresta, que tentava consolá-lo de suas desventuras provocadas pelo jogo dos dados: [...] No país dos vidarbas reinava um rei magnânimo, chamado Bima. Esse rei tinha uma filha, Damaianti, que era a mais bela entre todas as virgens. Seu rosto era mais gracioso que o gentil astro da noite, e seus olhos tornavam ridículos os poetas que enalteciam o encanto do lótus. Sua tez era pura como o ouro, seus longos cabelos afloravam a terra; seus seios delicados dir-se-iam taças vivas e dos seus lábios, de fácil sorriso, brotava uma voz que parecia sempre cantar. Bima adorava-a e dera-lhe por criadas as mais formosas jovens do país. Mas entre elas Damaianti brilhava como o relâmpago refulge nas nuvens obscurecidas. Para sentir a alma inundada de alegria bastava contemplá-la, e os viajantes que tivessem atravessado o país dos vidarbas celebravam a beleza de Damaianti por todo o mundo. Aproximava-se a época em que ela deveria escolher um marido. Amiúde perdia-se em cismares, e, enquanto as aias a vestiam e paramentavam, quase nenhuma atenção dava a suas pequenas tagarelices. Quantas vezes já tinham repetido diante dela: - Nalá é o mais belo dos reis. Quantas vezes já tinham repetido diante de Nalá: - Damaianti é a mais bela das princesas. Nalá pensava muitas vezes em Damaianti. Já não tinha prazer nas salas do seu palácio, escutava com impaciência os razoados de seus conselheiros; mal trocava algumas palavras com os emissários dos reis vizinhos. Buscava a solidão. Escondia-se no fundo de seus jardins e estirava-se sobre a relva florida à sombra das árvores copadas, de leve  fragrância. Semicerrava os olhos, e, entre o tênue rendilhado de luz e sombra, figurava vislumbrar uma aparição sutil e exclamava: - É ela, é Damaianti! A bem-amada vem para mim. Então ela se desvanecia e Nalá se enchia de pesares. [...] Damaianti vivia no reino do seu pai. Tinha revisto os filhos, ria-se com ele. Mas, quando estava sozinha, chorava, lembrando-se de Nalá, o bem-amado. [...] Damaianti levantou-se contente. Um sol diáfano banha o quarto, e no jardim cantam, baixinho, os pássaros. Ouve, ao longe, os elefantes, e relincharem alegres os cavalos. Sobe para o terraço. O ar é suave, as flores são belas. No gramado, os pavões executam sua leve dança; nos graciosos tanques brincam os cisnes reais. A manhã é bela, e Damaianti está contente. Lá longe, na estrada cheia de claridade, ela percebe um carro luminoso. Aproxima-se, aproxima-se. Como vem rápido! Guia-o um homem vestido com um traje vermelho. Eis já o carro nas ruas da cidade. Ei-lo na frente da residência de Bima. O homem vestido de vermelho desce do carro. Entra na residência real; corre através das salas; sobe ao terraço. – Damaianti! Damaianti! E solta dos ombros a capa vermelha. – Nalá! Nalá! Meu bem-amado. E Nalá e Damaiante se estreitam num longo, longo abraço [...]. Veja mais aqui.

Imagem: Nude study (Etude de Femme nue - Study of naked Woman, 1872), do pintor do Romantismo francês Henri Fantin-Latour (1836-1904). Veja mais aqui & aqui.

Ouvindo Lavoro (1999), do compositor, escritor, jornalista e músico Edson Natale. Veja mais aqui & aqui.

OS DEUSES TÊM SEDE – A obra Os deuses têm sede (1844 - Boitempo Editorial, 2007) do escritor francês e Prêmio Nobel de 1921, Anatole France (1844-1924), narra a história da ascensão do jovem pintor parisiense Évariste Gamelin, a longa sucessão de processos diários promovidos pela lei de prairial que o leva à loucura e o seu dedicado amor por Élodie, descrevendo os anos sombrios do terror em Paris, entre os anos II e III. Da obra destaco o trecho: [...] Na Rue Honoré, o cocheiro bateu com seu bicorne em uma efígie burlesca de Marat, pendurada no lampião. O cocheiro, alegre por esse encontro, voltou–se para os burgueses e contou–lhes como, na noite anterior, o tripeiro da Rue Montorgueil sujara de sangue a cabeça de Marat, dizendo: "E disso que ele gostava"; contou ainda como meninos de dez anos tinham jogado o busto no esgoto e como convenientemente os cidadãos gritaram: "Eis o seu Panteão!". Entretanto, ouvia–se cantar em todos os restaurantes e bares: Povo francês, povo de irmãos!... Chegando ao Amor Pintor, Élodie disse, saltando do cabriole: – Adeus! Mas Desmahis suplicou carinhosamente e foi tão insistente com tanta doçura que ela não teve coragem de deixá–lo na porta. – É tarde; ficareis apenas por um instante. No quarto azul, ela tirou o casacão e apareceu em seu vestido branco à moda antiga, cheia e tépida em suas formas. – Talvez tendes frio – disse. – Vou acender a lareira: o fogo já está preparado. Com um toque, liberou uma faísca e pôs nas brasas de sua lareira um fósforo em chamas. Philippe tomou–a em seus braços com aquela delicadeza que revela a força, e ela sentiu uma doçura estranha. E, como já cedesse sob seus beijos, libertou–se: – Deixai–me. Soltou os cabelos lentamente na frente do espelho da lareira; depois, olhou, com melancolia, para o anel que tinha no dedo anular esquerdo, um pequeno anel de prata em que a imagem de Marat, já gasta, amassada, não se distinguia mais. Olhou–o até que as lágrimas turvaram sua visão, retirou–o calmamente e lançou–o nas chamas. Então, brilhando entre lágrimas e sorrisos, bela de ternura e de amor, jogou–se nos braços de Philippe. A noite já estava adiantada quando a cidadã Blaise abriu a porta do apartamento para seu amante e disse–lhe baixinho na sombra: – Adeus, meu amor... Essa é a hora em que meu pai pode chegar: se ouvires barulho na escada, sobe rápido ao andar superior e desce apenas quando não houver mais risco de que te vejam. Para que te abram a porta da rua, bate três vezes na janela da zeladora. Adeus, minha vida! Adeus, minha alma! As últimas brasas brilhavam na lareira. Élodie deixou cair sobre o travesseiro a cabeça feliz e cansada. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

MANIFESTO DO DADAÍSMO – O poeta e ensaísta romeno Tristan Tzara (1896-1963), publicou o Manifesto Dadaísta em 1918. Eis um trecho do mesmo na tradução de Ivo Korytowski: [...] Escrevo um manifesto e nada quero, digo porém certas coisas e sou em princípio contra os manifestos, como sou também contra os princípios (decilitros para o valor moral de toda frase — comodidade demais; a aproximação foi inventada pelos impressionistas). Escrevo este manifesto para mostrar que é possível realizar ações contrárias ao mesmo tempo, em um só fôlego fresco; sou contra a ação; quanto à contínua contradição, quanto à afirmação também, não sou a favor nem contra e não me explico porque detesto o bom senso. DADÁ — eis uma palavra que oferece as ideias à caçada; cada burguês é um pequeno dramaturgo, inventa assuntos diferentes; em vez de colocar os personagens adequados no nível de sua própria inteligência, qual crisálidas em cadeiras, procura as causas ou os propósitos (seguindo o método psicanalítico que ele pratica) a fim de reforçar sua trama, uma história que fala e se define. Cada espectador é um enredador, se tenta explicar uma palavra (conhecer!). Do refúgio acolchoado das complicações serpentinas, é preciso manipular seus instintos. Daí as infelicidades da vida conjugal. Explicação: Divertimento dos barrigas-vermelhas nos moinhos de crânios vazios. DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA [...] DADÁ é o sinal da abstração; a propaganda e os negócios são também elementos poéticos. Eu destruo as gavetas do cérebro e aquelas da organização social: desmoralizar por toda parte e jogar a mão do céu no inferno, os olhos do inferno no céu, restabelecer a roda fecunda de um circo individual nos poderes da realidade, e a fantasia de cada indivíduo. A questão é filosófica: de que ângulo começar a olhar a vida, deus, a idéia, ou seja lá o que for. Tudo que se olha é falso. Não considero o resultado relativo mais importante que escolher entre doces e cerejas na sobremesa. A maneira de olhar rápido o outro lado de uma coisa, para impor indiretamente sua opinião, se chama dialética, ou seja, decidir no cara-ou-coroa sob uma aparência de seriedade. Se eu grito: Ideal, ideal, ideal Conhecimento, conhecimento, conhecimento Bum-bum, Bum-bum, Bum-bum registrei com precisão o progresso, a lei, a moral e todas as outras belas qualidades que diversas pessoas bem inteligentes discutiram em tantos livros, para enfim dizer que, mesmo assim, cada um dançou segundo seu bum-bum pessoal, e que ele tem razão por seu bum-bum: satisfação da curiosidade doentia; repique de sinos privado por necessidades inexplicáveis; banho; dificuldades pecuniárias; estômago com repercussão sobre a vida; autoridade da batuta mística formulada como a peça final de uma orquestra fantasma de arcos mudos, lubrificados por filtros à base de amoníaco animal. ]...] Todo produto da aversão suscetível de se tornar uma negação da família é dadá; protesto com toda a sua força em ação destrutiva: DADÁ; conhecimento de todos os meios rejeitados até agora pelo sexo pudico do compromisso cômodo e da polidez: DADÁ; abolição da lógica, dança dos incapazes de criação: DADÁ; de toda hierarquia e equação social estabelecidas pelos valores por nossos criados: DADÁ; cada objeto, todos os objetos, os sentimentos e as obscuridades, as aparições e o choque preciso de linhas paralelas, são meios para o combate: DADÁ; abolição da memória: DADÁ; abolição da arqueologia: DADÁ; abolição dos profetas: DADÁ; abolição do futuro: DADÁ; crença absoluta indiscutível em cada deus produto imediato da espontaneidade: DADÁ; salto elegante e sem preconceito de uma harmonia para outra esfera; trajetória de uma palavra atirada como um disco sonoro grito; respeitar todas as individualidades na sua loucura do momento: séria, temerosa, tímida, ardente, vigorosa, decidida ou entusiasmada; despojar sua igreja de todos os acessórios inúteis e pesados; cuspir como uma cascata luminosa o pensamento desagradável ou amoroso, ou acalentá-lo — com a viva satisfação de que tudo é igual — com a mesma intensidade na moita, livre de insetos para o sangue bem-nascido, e dourado com corpos de arcanjos, com sua própria alma. Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ, alarido de dores crispadas, entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições, dos grotescos, das inconsequências: A VIDA. Veja mais aqui, aquiaqui.

CLIPS: TONS & SONS – Além da nossa parceria no Projeto MCLAM e do seu trabalho de radialista, produtora cultural e poeta, a querida Meimei Corrêa tem desenvolvido um excelente trabalho na edição e produção de clipes musicais e poéticos. Ela já realizou trabalhos nessa área para a cantora Clara Redig, pro cantor e compositor Jucimar Siqueira – Mazinho, pro poeta Genésio Cavalcanti e suas parcerias musicais, entre outros tantos trabalhos. Eu mesmo fui agraciado por sua generosidade e talento, quando, entre outras tantas das suas façanhas meritórias da minha eterna gratidão, fui premiado por sua inspirada dedicação contemplando meus poemas e canções com sua arte. Veja detalhes aqui, aquiaqui e aqui.

O GRANDE DITADOR – O filme O grande ditador (The Great Dictator, 1940), do ator e cineasta inglês Charlie Chaplin (1889-1977), é uma comédia dramática e uma sátira crítica ao momento histórico que se desenvolvia no período em que foi criado. Nesse filme, o grande artista faz um discurso, o qual destaco aqui: Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo. Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos. O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue. Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados: As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria. O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco: Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Mesmo agora a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Para aqueles que me podem ouvir eu digo: "Não se desesperem". A desgraça que está agora sobre nós não é senão a passagem da ganância, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano: o ódio dos homens passará e os ditadores morrem e o poder que tiraram ao povo, irá retornar ao povo e enquanto os homens morrem [agora] a liberdade nunca perecerá… Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão. Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeia quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade. No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito: "O reino de Deus está dentro do homem" Não um homem, nem um grupo de homens, mas em todos os homens; em você, o povo. Vós, o povo tem o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vós, o povo tem o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem as suas promessas, eles nunca o farão. Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Agora vamos lutar para cumprir essa promessa. Lutemos agora para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos os homens. Soldados! Em nome da democracia, vamos todos unir-nos! Olha para cima! Olha para cima! As nuvens estão a dissipar-se, o sol está a romper. Estamos a sair das trevas para a luz. Estamos a entrar num novo mundo. Um novo tipo de mundo onde os homens vão subir acima do seu ódio e da sua brutalidade. A alma do homem ganhou asas e, finalmente, ele está a começar a voar. Ele está a voar para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, esse futuro glorioso que te pertence, que me pertence, que pertence a todos nós. Olha para cima! Olha para cima! Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

IMAGEM DO DIA
O Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


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