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sexta-feira, março 23, 2018

MARINA COLASANTI, MARITAIN, JUDITH SCOTT, CICERO MELO, EDSON NATALE & SHARON BEZALY, AMOR & PAIXÕES

SOBRE MIM MESMO, ACHO - Imagem: arte da escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005). - Ao espelho, a estrada largestreita que sou de mim, palavras, pensamentos, ações. Nada. De mim mesmo sou, de um lado, o glamouroso mundo das vitrines com o estardalhaço dos quereres na sedução das sereias; de outro, a pútrida aquosidade da miséria que me disfarço em desespero e desolação. Sou assaltado de um lado a outro e a minha face, de um lado desfigurada pelos pesadelos que saem dos sonhos para vingarem nas ruas do invisível compulsório, arrancando máscaras e engodos para serem poeira e lamaçal; na outra, as marcas da grosseria que estarrece e assombra, como se vítima de bala perdida, ou metralhada na esquina do meio dia em nome da lei da covardia. Aos meus olhos, sou de um lado atento, atônito, tudo é efêmero nas luzes da festa; no outro, os desapontamentos ao flagrante das desproporções, do grotesco, das deformações que a lágrima lava ao sentimento de se perder. Às minhas narinas os aromas das flores e os olores higiênicos que não conseguem encobrir a repugnante catinga dos deserdados sobre frascos vazios de perfumes granfinos. Ao paladar os cardápios das mesas suntuosas com o feitiço dos seus condimentos que não conseguem disfarçar o gosto de sangue na saliva, os vômitos e os excrementos das avenidas, corredores, palácios. Os meus ombros, de um lado para todos os lamentos das cabeças que não tenham onde se escostar; o outro, o peso das dores de todos os arrasados à espera da tardia justiça dos humanos. Os meus braços, o dieito como uma mãe que segura o filho a oferecer abraço solidário a quem chegar; o esquerdo, tímido em empunhar a bandeira de quem perdeu a guerra e se esconde do momento indesejável. As minhas mãos, uma à oferta do que sou mendigando afeto como quem esmola pelo amor de deus; a outra decepada em nome da sanção do não ter. As minhas pernas, uma claudica como quem não tem para onde ir; a outra, vergada pela impenitência das torturas. Os pés andejos crucificados no centro das encruzilhadas, solados no chão quente. Sou o que me resta e meu corpo arrastado no asfalto sob a engrenagem do automóvel em alta velocidade que me nega o socorro e me larga roto desfalecido e a minha carne desfiada enovela-se em gente que me rejeita e decepa meus fios e me faz enredar nas pedras, restos, folhas, insetos, santinhos, grãos, lodo, orações, esterco, capsulanas, areia, ossos, filigranas, abotoaduras, lama, pus, anéis, farelos, tampas, fiapos, seixos, galhos, graxas, retalhos, larvas, detritos, charcos, escarros e cusparadas, condenados e cadáveres, o meu ininterrupto processo na infinita estranha beleza de ser-me apenas embrulho tão inútil quanto o cúmulo da inutilidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, compositor, escritor e jornalista Edson Natale: Dharana, Pequena canção para uma mulher nua & Viajante; da flautista israelente Sharon Bezaly: Hungarian Fantasy Doppler, Flute Sonata Schulhoff & Flute Sonata Prokofiev; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Numa colméia ou num formigueiro, cada regra é imposta pela natureza, é necessária; ao passo que na sociedade humana só uma coisa é natural: a necessidade de uma regra. [...] Pensamento extraído da Introdução geral à filosofia (Agir, 1970), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972). Veja mais aqui e aqui.

DE AMOR & PAIXÕES, SERÁ? - [...] Quando, por uma razão qualquer, a relação amorosa se desfaz, o que se desfaz de fato é só a relação amorosa e não as vidas e a integridade de cada um. E o que se tem observado é que, por mais denso que tenha sido o amor, quando ele se desfaz nas relações sadias (suplementares), surgem logo novos encontros, novos namoros e seduções; o amor pode se refazer. É outro, original, porém com intensidade e qualidade semelhante ao anterior [...]. Trecho extraído da obra Utopia e paixão (Rocco, 1988), de Roberto Freire e Fausto Brito. Veja mais aqui, aqui e aqui.

POR FALAR EM AMOR - [...] namoram muito e não namoram nada. Namoram muito porque têm sempre um namorado/a em campo, alguém em quem estão interessados, alguém que estão “azarando”. Mas ao mesmo tempo não namoram nada, porque essas relações são muito inconsistentes. O casal se junta e se separa com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento. Há desejo, epidérmico. Na verdade não são bem namoros, são casualidades. [...] Naquele tempo faltava uma coisa, hoje falta outra. Eu não podia me dar ao sexo. Eles não conseguem se dar o amor. [...] A tendência imediata é achar que não param em nenhum/a porque podem ter todos/as. Mas por outro lado, existe a facilidade maior de parar em um parceiro, agora que ele pode ser completo, reunindo sexo e sentimento. [...] Acontece também que são filhos diretos da baixa do amor, do descrédito da relação, e da ênfase nas emoções tonitruantes. Enquanto deixam o amor de lado, procuram terremotos emocionais no “som”, no “brilho”, nos riscos. Mas uma ideia me ocorre que me parece mais acertada. A de que os jovens estejam, de forma inconsciente, fugindo do amor justamente porque podem ter o sexo. Explico melhor: o amor é uma emoção importante, o sexo também; mas só o amor somado ao sexo constitui a emoção fundamental do ser humano. Ora, nem todos os jovens têm um mesmo grau de amadurecimento. E nem todos eles se sentem prontos para chegar ao topo do seu universo emocional. Antes todos podiam ter amor, e só os mais maduros – ou os mais inconscientes – se lançavam na completude amor/sexo. Agora acontece exatamente o oposto: tendo o sexo, evitam somá-lo ao amor, adiando a sobrecarga emocional que não se sentem capazes de enfrentar. [...] Trechos extraídos da obra E por falar em amor (Salamandra, 1984), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti. Veja mais aqui.

DOIS POEMASRETORNANDO A ÍTACA - A nave singra os sonhos nus do mármore, / Cruzando a solidão e sempre célere. / Carrega cuidadosa o nauta célebre,/ E aquele transformado em pétrea árvore. / Um lutou, desdobrou a rota bárbara / Dos dias que da vida exigem têmpera; / O outro, tecendo de ondas sua têmpora, / Transmudou-se de mundos, sempre máscara. / O primeiro se fez, de acasos, íntegro; / O segundo buscou, em rumos trôpegos, / Desvendar o inefável do seu íntimo. / Mas, ambos se perderam: mar adúltero./ Hoje, mudo, acompanho, olhos sôfregos, / Ulisses retornando ao mátrio útero. PENÉLOPE - Retornando do mar que me emoldura, / Ancoro em teus segredos, cidadelas. / De desvelos me nutres, me aquartelas / Desnudado do nauta e de procura. / Eternamente desejada e pura, / Em ti repouso rotas, amaino velas. / Dos perigos dos mares me encastelas / Em tuas celas de amor e de ternura. / Maravilhas que, meiga, me compensas / Depois de navegar, aventureiro, / Ocasos aleatórios, vagas densas, / Retorno sempre ao cais do amor primeiro, / Para recomeçar, feridas pensas, / Outras navegações, sempre janeiro. Poemas extraídos da obra O verbo sitiado (Bagaço, 1986), poeta, ensaísta e crítico alagoano Cicero Melo, selecionados pelo poeta e jornalista Iremar Marinho. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ARTE DE JUDITH SCOTT
A arte da renomada escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005), documentada no curta-metragem Outsider: The Art and Life of Judith Scott (2006), dirigido por Betsy Bayha.
2º Congresso Internacional Paulo Freire: O Legado Global & muito mais na Agenda aqui.
&
O certo & o errado no reino das ideologias, a poesia de Hélio Pellegrino, a música de Nobuo Uematsu, a arte de Mat Collishaw & Raoul Dufy, Danicleci Matias Souza & Park kids Locadora aqui.
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Versos à flor da pele na prosa de um poema, o cinema de Jean-Luc Godard, a música de Sharon Corr, a escultura de Bertel Thorvaldsen, a poesia de Elke Lubitz & a arte de Luciah Lopez aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, outubro 12, 2017

FERNANDO SABINO, NISIA FLORESTA, LEON ELIACHAR, HELENA KOLODY & CRAIG RUDDY

O SONHO REVELADOR – Imagem: arte do artista australiano Craig Ruddy. - Delzuito não sabia mais o que fazer: o avençado se desmanchava; o caminho certo, topava errado; o que inventasse fazer, era desconstruído no mesmo instantinho, tudo lhe fugia entre os dedos. Nem adiantava agarrar a situação pelos cornos, soltava-se a perder de vista. Disparava em todas as direções, alvos indiferentes; nada dava liga, tudo esgarçado, aos trapos. Pergunta-se o que tinha feito para merecer tudo isso, essa vida tão miserável, não podia ser, Deus estava castigando demais e isso, para ele, era injusto, não aceitava, queria, pelo menos, saber o porquê de tanto sofrimento, tantas mazelas, tantos infortúnios encarreados pra seu suplício sem fim. Restava pegar no ronco e esperar que no dia seguinte alguma luz surgisse no fim do túnel. Depois de catar os fiapos das quedas, restava sonhar vitórias. No sonho era outra pessoa, não tinha a sua feição, mas era como se fosse ele noutro tempo, coisas de mais de século atrás. Era ele, tinha certeza, diferente do que era agora, como se outra pessoa, um notável senhor de muitas posses e serviçais. Sabia ele que já havia sido abolida a escravatura, todavia, ao seu dispor muitos escravos e aos berros: A pobreza é o mal da humanidade! Inexorável, pisava a todos, negociando vidas na defesa dos seus interesses. A qualquer obstáculo, removia desafetos do caminho como quem descarta o indesejável pra lata do lixo. Pronto, resolvido. Agora, maior do que eu só Deus! Abaixo Dele, quem manda sou eu, até aonde a vista alcançar, tudo meu. E tripudiava carrasco contra indefesos ou débeis, tirava proveito de tudo, até da inocência dos imaturos: Chapéu de otário é marreta! Quando queria, estava disposto a tudo: desmoralizar, subjugar, submeter ao mando e gosto. Quando não, atrapalhava a vida de quem ousasse medir forças. De repente acordou esbaforido: Que sonho é esse? Coisa estranha. Levantou-se aturdido e, ao fazer a micção, encarou o espelho: não era ele agora, era aquele do sonho. Como? Esfregou os olhos: isso mesmo, ele era aquele com quem sonhara. Não pode ser? Impossível isso. Virou-se do lado, passou as mãos à face, retornou ao espelho, não era mais, agora ele mesmo. Aliviou-se e voltou pra cama. Tentou dormir enquanto o que sonhara martelava na cabeça. Cochilou e já se encontrava noutro sonho. Era ele agora outra pessoa diferente da anterior, diferente dele mesmo, armado até os dentes, à caça de gente malévola, fugindo da lei, bufando com a mão no crucifixo da volta ao pescoço, mão no cabresto determinando o rumo pro cavalo e a outra na arma do coldre, vigilância de não pregar os olhos por nada, montaria extenuante de dias, cansaço no encontro do chão com o horizonte, terras sem fim. Não era ele como agora, era ele noutro tempo, uns duzentos anos atrás, seguindo estrada afora, a fuga indômita. Viu-se numa cilada, muitos cavalos, tiros, gritos, tudo vinha em sua direção, fugir. Acordou-se lavado em suor. Levantou-se até o espelho: era o mesmo do sonho. Como pode ser? Fechou os olhos, era o do sonho anterior; virou-se de lado e voltou a encarar o espelho: era ele mesmo. Olhou bem firme, ora era ele agora, ora sua face transmudava para as fisionomias dos sonhos, ele antes, ele antes do de antes, tudo era ele. Como podia ser? O que isso quer dizer, hem? Eu ser outros enquanto eu mesmo? Que coisa! Sabia, era ele nos sonhos, fisionomia diferente, porém era ele, sabia, que sonhos loucos! Será que estou endoidando? Não sei, melhor não pensar, sonho é coisa tola, invenção da cachola, só pode. Só em sonho coisas mais sem pé nem cabeça. Se pensar eu endoido, arre. Melhor cuidar da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Lenine: Acustico MTV, Live in Cité & O dia em que faremos contato; a cantora russa Sainkho Namtchylak: Stempmother city, Alpha Co & Ethno Orchestra & Delco Session & Ned Rothenberg; da cantora e pianista canadense Diana Krall: Live in Rio de Janeiro, Heineken Jazzaldia & Live@Home; do músico e compositor Edson Natale: Viajante, Toque de Fada, Pequena canção para uma mulher nua, Alfacinha, Guaimbé & Nina Maika. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O Brasil tinha já fornecido grande cópia de homens ilustrados pelos conhecimentos adquiridos em diferentes universidades da Europa, e a maior parte das brasileiras (mesmo as das primeiras cidades) não logravam a vantagem de aprender a ler. [...] Dizia-se geralmente que ensinar-lhes a ler e escrever era proporcionar-lhes os meios de entreterem correspondências amorosas, e repetia-se, sempre, que a costura e trabalhos domésticos eram as únicas ocupações próprias da mulher. Este preconceito estava de tal sorte arraigado no espírito de nossos antepassados, que qualquer pai que ousava vencê-lo e proporcionar às filhas lições que não as daqueles misteres, era para logo censurado de querer arrancar o sexo ao estado de ignorância que lhe convinha. [...]. Trechos da obra Opúsculo humanitário (M.A. da Silva Lima, 1853), da poeta, educadora e escritora Nisia Floresta (1810-1885). Veja mais aqui e aqui.

O MELHOR AMIGO – [...] Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável: – Vamos, chega! Leva esse cachorro embora. – Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais ninguém nesta vida. – E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe? – Mãe e cachorro não é a mesma coisa. – Deixa de conversa: obedece sua mãe. Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa. – Pronto, mamãe! E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros. – Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo. Trecho da crônica extraído da obra A vitória da infância (Ática, 1995), do escritor e jornalista mineiro Fernando Sabino (1923-2004). Veja mais aqui e aqui.

AS DEZ MÃES DO ANO & COQUETEL FASCINATION - As dez mães do ano: Mãe moderna é a que faz da filha uma amiga, da amiga uma irmã,do marido um filho, do filho um pai e do pai, pai mesmo, porque pai é pai. Mãe frustrada é a que tenta dezoito vezes ter um filho e tem dezoito filhas. Mãe ingênua é a que sempre diz às suas amigas: "Felizmente, a minha filha foi criada de outra maneira". Mãe aflita é a que espera sua filha chegar do baile do sábado, mas que diabo, hoje já é segunda. Mãe caxias é a que faz tricô de ouvido: passa a noite inteira mexendo com as mãos, mas não tira o olho do noivo. Mãe zelosa é a que vai jogar cartas e se lembra que esqueceu de dar a mamadeira pro menino, pára de jogar, vai lá, depois volta. Mãe vaidosa é a que vive diminuindo a idade da filha, só para poder diminuir a sua, e só não diminui mais senão acaba perdendo a filha. Mãe indecisa é a que tem dois filhos gêmeos e não sabe qual vai se chamar Ricardo, se este ou aquele. Mãe orgulhosa é a que mostra a fotografia do filho no jornal e diz: "Este é meu filho", sem perceber que a seção é policial. Mãe realizada é a que põe seu filhinho no colo e diz: "Agora você já pode casar, meu filho, hoje você completa noventa aninhos". Coquetel fascination: Arranje uma loura de dezoito a 25 anos. Nem menos, nem mais. Que seja bonita e esteja de biquíni. Depois peça a ela pra segurar o copo e comece a despejar, na seguinte ordem: duas azeitonas, duas cerejas, um pouco de cinzano, um pouco de gim, um pouco de martini, um pouco de uísque, um pouco de vodca, um pouco de vinho branco, um pouco de Coca-Cola. Ao abrir a Coca-Cola, verifique se não ganhou um Volkswagen. Se ganhou, largue tudo no chão e vá buscar o prêmio. Mas o mais certo é que não ganhe, pois esses concursos quase levaram à falência a indústria automobilística, tanto que acabaram. Os concursos, digo. Então deixe de fazer divagações, largue a chapinha da Coca-Cola e veja se a loura ainda está segurando o copo. Se não está, bobeou — porque sujeito que tem uma loura de dezoito anos na sua frente, de biquíni, e insiste em preparar coquetel, vou te contar. Extraídos da obra O homem ao cubo (Francisco Alves, 1979), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987). Veja mais aqui e aqui.

SONHAR
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo
.
Poema extraído da obra Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos (Criar, 2001), da poeta Helena Kolody (1912-2004). Veja mais aqui.

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LÁGRIMA DE UM CAETÉ
Lá, quando no Ocidente o sol havia
Seus raios mergulhado, e a noite triste
Denso-ebânico véu já começava
Vagarosa a estender por sobre a terra;
Pelas margens do fresco Beberibe,
Em seus mais melancólicos lugares,
Azados para a dor de quem se apraz
Sobre a dor meditar que a Pátria enluta!
Vagava solitário um vulto de homem,
De quando em quando ao céu levando os olhos,
Sobre a terra depois triste os volvendo...
Poema da poeta, educadora e escritora Nísia Floresta (1810-1885). Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista australiano Craig Ruddy.
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, abril 16, 2015

HELEN DUNMORE, MILEVA MARIĆ, TZARA, ANATOLE FRANCE & LITERÓTICA

 


LITERÓTICA: ELA, A HIDRA DE LERNA... – (Imagem: art by Marina Fedorova) - Ela fora criada por Hera para me aniquilar. E quando menos esperava ela emergiu da Teogonia de Hesíodo pronta para cumprir seu intento. Ao vê-la sobre as águas profundas do pântano de Lerna, pousou seu olhar faminto e enfurecido sobre mim e de lá vinha em minha direção, com seu rebolado magistral do Peloponeso, pronta para me destruir. A guardiã da entrada do Tártaro achegou-se como uma deusa alada, cheirando-me para que sentisse de perto a quentura do seu hálito enfeitiçante, o seu cheiro envolvente e a sua poderosa feição invencível. Envolveu-me corpo a corpo, seus músculos nos meus, sua ousadia invadindo minhas fraquezas, seu fraquejamento diante da minha aceitação. Dentro de mim ela revolvia meus segredos profundos, meus defeitos agregados, eliminando-os cada um deles ao me afogar em seu refúgio corporal afogueado. Ensinou-me os mistérios de Dioniso e Deméter e me fez deus diante dos seus olhos faiscantes e devoradores. Fez-se então serpente para se enroscar em meu sexo, a abocanhá-lo como uma dragoa faminta, a me lambuzar com o sobejo de seu veneno, lambendo a minha pele, purificando-me e ao me liberar das minhas próprias amarras, regenerava-se a cada estocada derramando seu sangue em meu pênis, a queimá-lo para mantê-lo cada vez mais enrijecido. Invadi a sua fortaleza e suas defesas redobradas resistiam com a minha penetração vencendo-a inescapável. Ela mais se agigantava poderosa, fazendo-me refém de sua sanha avassaladora. Os seus gozos enfim me enveneneram para que eu sucumbisse sobre seu corpo nu boiando no poço de Amymone. Foi no ápice de seu orgasmo esplêndido que ela se dissolveu cauterizada a me deixar espalmado na constelação de câncer sobre o verão boreal. Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Em um mundo sem ar, tudo o que você respira é aventura!... Somos criaturas de histórias... O anseio humano por histórias é tão poderoso, tão primitivo, que parece algo não aprendido, mas sim enraizado em nossos genes... Como indivíduos, somos moldados pela história desde o momento do nascimento; somos formados pelo que nos é contado por nossos pais, professores e pessoas próximas... Uma vez que um hábito se desfaz, os outros o seguem. Você tem que se segurar, ou a próxima coisa que você vai fazer é se encontrar desfilando pela rua em sua camisola. Hábito é tudo... Releia, reescreva, releia, reescreva. Se ainda não funcionar, jogue fora. É uma sensação boa, e você não quer ficar abarrotado com os cadáveres de poemas e histórias que têm tudo dentro, exceto a vida de que precisam... Escrever poesia faz com que você fique intensamente consciente de como as palavras soam, tanto em voz alta quanto dentro da cabeça do leitor. Você aprende o peso das palavras e como elas soam ao ouvido... Pensamento da escritora britânica Helen Dunmore (1952-2017), autora da obra Ingo (HarperTrophy, 2006), na qual ela expressa: [...] Eu queria estar longe em Ingo Longe, através do mar salgado Navegando sobre as águas mais profundas Onde nem cuidado nem preocupação me incomodam. [...]. Na sua obra The Siege (Grove Press, 2002), ela escreve: […] Eles queriam a primavera, é claro que queriam, mais do que tudo. Eles ansiavam pelo sol com cada poro da pele. Mas a primavera dói. Se a primavera pode chegar, se as coisas podem ser diferentes, como você pode suportar o que sua existência tem sido? [...]. No seu livro House of Orphans (Fig Tree, 2006), ela expressa que: […] Você está preso em ambos os sentidos. Você faz o que lhe mandam e faz coisas que você acha que vão te fazer grande, mas o tempo todo você está encolhendo. [...]. Já no seu livro A Spell of Winter ( Penguin, 1996), ela expressa: […] Você tem que continuar com uma casa, dia após dia, eu acho. Aquecendo, limpando, abrindo e fechando janelas, fazendo sons para preencher o silêncio, cozinhando e lavando, lavando e polindo. Assim que você para, pode muito bem nunca ter havido vida alguma. Uma casa morre tão rápido quanto um corpo [...]. Por fim, no seu livro The Deep (HarperCollins, 2009), ela escreve: […] Cicatrizes não importam, pequena. Elas são as marcas das batalhas que vencemos. [...].

 

ALGUÉM FALOU: Todos nós damos desculpas para nós mesmos. E deveríamos ser bons o suficiente para fazê-las para os outros... Pensamento da física e matemática sérvia Mileva Marić (Милева Марић – 1875-1948), que foi a primeira esposa de Einstein: Por tudo que conquistei na minha vida, devo agradecer a Mileva. Ela é minha inspiradora genial, minha protetora contra as dificuldades da vida e da ciência. Sem ela, meu trabalho nunca teria sido iniciado nem terminado.

 

DAMAIANTI – O Maabárata é a epopeia antiga da Índia. Conta, em 32 mil versos de 19 pés, a História da Guerra dos Bárata. É atribuído a um poeta lendário de nome Krishna Dvapayana Vyasa. Nalá e Damaianti, uma das belas histórias da literatura indiana, foi contada a Iudichtira por um asceta da floresta, que tentava consolá-lo de suas desventuras provocadas pelo jogo dos dados: [...] No país dos vidarbas reinava um rei magnânimo, chamado Bima. Esse rei tinha uma filha, Damaianti, que era a mais bela entre todas as virgens. Seu rosto era mais gracioso que o gentil astro da noite, e seus olhos tornavam ridículos os poetas que enalteciam o encanto do lótus. Sua tez era pura como o ouro, seus longos cabelos afloravam a terra; seus seios delicados dir-se-iam taças vivas e dos seus lábios, de fácil sorriso, brotava uma voz que parecia sempre cantar. Bima adorava-a e dera-lhe por criadas as mais formosas jovens do país. Mas entre elas Damaianti brilhava como o relâmpago refulge nas nuvens obscurecidas. Para sentir a alma inundada de alegria bastava contemplá-la, e os viajantes que tivessem atravessado o país dos vidarbas celebravam a beleza de Damaianti por todo o mundo. Aproximava-se a época em que ela deveria escolher um marido. Amiúde perdia-se em cismares, e, enquanto as aias a vestiam e paramentavam, quase nenhuma atenção dava a suas pequenas tagarelices. Quantas vezes já tinham repetido diante dela: - Nalá é o mais belo dos reis. Quantas vezes já tinham repetido diante de Nalá: - Damaianti é a mais bela das princesas. Nalá pensava muitas vezes em Damaianti. Já não tinha prazer nas salas do seu palácio, escutava com impaciência os razoados de seus conselheiros; mal trocava algumas palavras com os emissários dos reis vizinhos. Buscava a solidão. Escondia-se no fundo de seus jardins e estirava-se sobre a relva florida à sombra das árvores copadas, de leve  fragrância. Semicerrava os olhos, e, entre o tênue rendilhado de luz e sombra, figurava vislumbrar uma aparição sutil e exclamava: - É ela, é Damaianti! A bem-amada vem para mim. Então ela se desvanecia e Nalá se enchia de pesares. [...] Damaianti vivia no reino do seu pai. Tinha revisto os filhos, ria-se com ele. Mas, quando estava sozinha, chorava, lembrando-se de Nalá, o bem-amado. [...] Damaianti levantou-se contente. Um sol diáfano banha o quarto, e no jardim cantam, baixinho, os pássaros. Ouve, ao longe, os elefantes, e relincharem alegres os cavalos. Sobe para o terraço. O ar é suave, as flores são belas. No gramado, os pavões executam sua leve dança; nos graciosos tanques brincam os cisnes reais. A manhã é bela, e Damaianti está contente. Lá longe, na estrada cheia de claridade, ela percebe um carro luminoso. Aproxima-se, aproxima-se. Como vem rápido! Guia-o um homem vestido com um traje vermelho. Eis já o carro nas ruas da cidade. Ei-lo na frente da residência de Bima. O homem vestido de vermelho desce do carro. Entra na residência real; corre através das salas; sobe ao terraço. – Damaianti! Damaianti! E solta dos ombros a capa vermelha. – Nalá! Nalá! Meu bem-amado. E Nalá e Damaiante se estreitam num longo, longo abraço [...]. Veja mais aqui.

Imagem: Nude study (Etude de Femme nue - Study of naked Woman, 1872), do pintor do Romantismo francês Henri Fantin-Latour (1836-1904). Veja mais aqui & aqui.

Ouvindo Lavoro (1999), do compositor, escritor, jornalista e músico Edson Natale. Veja mais aqui & aqui.

OS DEUSES TÊM SEDE – A obra Os deuses têm sede (1844 - Boitempo Editorial, 2007) do escritor francês e Prêmio Nobel de 1921, Anatole France (1844-1924), narra a história da ascensão do jovem pintor parisiense Évariste Gamelin, a longa sucessão de processos diários promovidos pela lei de prairial que o leva à loucura e o seu dedicado amor por Élodie, descrevendo os anos sombrios do terror em Paris, entre os anos II e III. Da obra destaco o trecho: [...] Na Rue Honoré, o cocheiro bateu com seu bicorne em uma efígie burlesca de Marat, pendurada no lampião. O cocheiro, alegre por esse encontro, voltou–se para os burgueses e contou–lhes como, na noite anterior, o tripeiro da Rue Montorgueil sujara de sangue a cabeça de Marat, dizendo: "E disso que ele gostava"; contou ainda como meninos de dez anos tinham jogado o busto no esgoto e como convenientemente os cidadãos gritaram: "Eis o seu Panteão!". Entretanto, ouvia–se cantar em todos os restaurantes e bares: Povo francês, povo de irmãos!... Chegando ao Amor Pintor, Élodie disse, saltando do cabriole: – Adeus! Mas Desmahis suplicou carinhosamente e foi tão insistente com tanta doçura que ela não teve coragem de deixá–lo na porta. – É tarde; ficareis apenas por um instante. No quarto azul, ela tirou o casacão e apareceu em seu vestido branco à moda antiga, cheia e tépida em suas formas. – Talvez tendes frio – disse. – Vou acender a lareira: o fogo já está preparado. Com um toque, liberou uma faísca e pôs nas brasas de sua lareira um fósforo em chamas. Philippe tomou–a em seus braços com aquela delicadeza que revela a força, e ela sentiu uma doçura estranha. E, como já cedesse sob seus beijos, libertou–se: – Deixai–me. Soltou os cabelos lentamente na frente do espelho da lareira; depois, olhou, com melancolia, para o anel que tinha no dedo anular esquerdo, um pequeno anel de prata em que a imagem de Marat, já gasta, amassada, não se distinguia mais. Olhou–o até que as lágrimas turvaram sua visão, retirou–o calmamente e lançou–o nas chamas. Então, brilhando entre lágrimas e sorrisos, bela de ternura e de amor, jogou–se nos braços de Philippe. A noite já estava adiantada quando a cidadã Blaise abriu a porta do apartamento para seu amante e disse–lhe baixinho na sombra: – Adeus, meu amor... Essa é a hora em que meu pai pode chegar: se ouvires barulho na escada, sobe rápido ao andar superior e desce apenas quando não houver mais risco de que te vejam. Para que te abram a porta da rua, bate três vezes na janela da zeladora. Adeus, minha vida! Adeus, minha alma! As últimas brasas brilhavam na lareira. Élodie deixou cair sobre o travesseiro a cabeça feliz e cansada. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

MANIFESTO DO DADAÍSMO – O poeta e ensaísta romeno Tristan Tzara (1896-1963), publicou o Manifesto Dadaísta em 1918. Eis um trecho do mesmo na tradução de Ivo Korytowski: [...] Escrevo um manifesto e nada quero, digo porém certas coisas e sou em princípio contra os manifestos, como sou também contra os princípios (decilitros para o valor moral de toda frase — comodidade demais; a aproximação foi inventada pelos impressionistas). Escrevo este manifesto para mostrar que é possível realizar ações contrárias ao mesmo tempo, em um só fôlego fresco; sou contra a ação; quanto à contínua contradição, quanto à afirmação também, não sou a favor nem contra e não me explico porque detesto o bom senso. DADÁ — eis uma palavra que oferece as ideias à caçada; cada burguês é um pequeno dramaturgo, inventa assuntos diferentes; em vez de colocar os personagens adequados no nível de sua própria inteligência, qual crisálidas em cadeiras, procura as causas ou os propósitos (seguindo o método psicanalítico que ele pratica) a fim de reforçar sua trama, uma história que fala e se define. Cada espectador é um enredador, se tenta explicar uma palavra (conhecer!). Do refúgio acolchoado das complicações serpentinas, é preciso manipular seus instintos. Daí as infelicidades da vida conjugal. Explicação: Divertimento dos barrigas-vermelhas nos moinhos de crânios vazios. DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA [...] DADÁ é o sinal da abstração; a propaganda e os negócios são também elementos poéticos. Eu destruo as gavetas do cérebro e aquelas da organização social: desmoralizar por toda parte e jogar a mão do céu no inferno, os olhos do inferno no céu, restabelecer a roda fecunda de um circo individual nos poderes da realidade, e a fantasia de cada indivíduo. A questão é filosófica: de que ângulo começar a olhar a vida, deus, a idéia, ou seja lá o que for. Tudo que se olha é falso. Não considero o resultado relativo mais importante que escolher entre doces e cerejas na sobremesa. A maneira de olhar rápido o outro lado de uma coisa, para impor indiretamente sua opinião, se chama dialética, ou seja, decidir no cara-ou-coroa sob uma aparência de seriedade. Se eu grito: Ideal, ideal, ideal Conhecimento, conhecimento, conhecimento Bum-bum, Bum-bum, Bum-bum registrei com precisão o progresso, a lei, a moral e todas as outras belas qualidades que diversas pessoas bem inteligentes discutiram em tantos livros, para enfim dizer que, mesmo assim, cada um dançou segundo seu bum-bum pessoal, e que ele tem razão por seu bum-bum: satisfação da curiosidade doentia; repique de sinos privado por necessidades inexplicáveis; banho; dificuldades pecuniárias; estômago com repercussão sobre a vida; autoridade da batuta mística formulada como a peça final de uma orquestra fantasma de arcos mudos, lubrificados por filtros à base de amoníaco animal. ]...] Todo produto da aversão suscetível de se tornar uma negação da família é dadá; protesto com toda a sua força em ação destrutiva: DADÁ; conhecimento de todos os meios rejeitados até agora pelo sexo pudico do compromisso cômodo e da polidez: DADÁ; abolição da lógica, dança dos incapazes de criação: DADÁ; de toda hierarquia e equação social estabelecidas pelos valores por nossos criados: DADÁ; cada objeto, todos os objetos, os sentimentos e as obscuridades, as aparições e o choque preciso de linhas paralelas, são meios para o combate: DADÁ; abolição da memória: DADÁ; abolição da arqueologia: DADÁ; abolição dos profetas: DADÁ; abolição do futuro: DADÁ; crença absoluta indiscutível em cada deus produto imediato da espontaneidade: DADÁ; salto elegante e sem preconceito de uma harmonia para outra esfera; trajetória de uma palavra atirada como um disco sonoro grito; respeitar todas as individualidades na sua loucura do momento: séria, temerosa, tímida, ardente, vigorosa, decidida ou entusiasmada; despojar sua igreja de todos os acessórios inúteis e pesados; cuspir como uma cascata luminosa o pensamento desagradável ou amoroso, ou acalentá-lo — com a viva satisfação de que tudo é igual — com a mesma intensidade na moita, livre de insetos para o sangue bem-nascido, e dourado com corpos de arcanjos, com sua própria alma. Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ, alarido de dores crispadas, entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições, dos grotescos, das inconsequências: A VIDA. Veja mais aqui, aquiaqui.

CLIPS: TONS & SONS – Além da nossa parceria no Projeto MCLAM e do seu trabalho de radialista, produtora cultural e poeta, a querida Meimei Corrêa tem desenvolvido um excelente trabalho na edição e produção de clipes musicais e poéticos. Ela já realizou trabalhos nessa área para a cantora Clara Redig, pro cantor e compositor Jucimar Siqueira – Mazinho, pro poeta Genésio Cavalcanti e suas parcerias musicais, entre outros tantos trabalhos. Eu mesmo fui agraciado por sua generosidade e talento, quando, entre outras tantas das suas façanhas meritórias da minha eterna gratidão, fui premiado por sua inspirada dedicação contemplando meus poemas e canções com sua arte. Veja detalhes aqui, aquiaqui e aqui.

O GRANDE DITADOR – O filme O grande ditador (The Great Dictator, 1940), do ator e cineasta inglês Charlie Chaplin (1889-1977), é uma comédia dramática e uma sátira crítica ao momento histórico que se desenvolvia no período em que foi criado. Nesse filme, o grande artista faz um discurso, o qual destaco aqui: Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo. Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos. O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue. Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados: As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria. O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco: Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Mesmo agora a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Para aqueles que me podem ouvir eu digo: "Não se desesperem". A desgraça que está agora sobre nós não é senão a passagem da ganância, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano: o ódio dos homens passará e os ditadores morrem e o poder que tiraram ao povo, irá retornar ao povo e enquanto os homens morrem [agora] a liberdade nunca perecerá… Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão. Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeia quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade. No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito: "O reino de Deus está dentro do homem" Não um homem, nem um grupo de homens, mas em todos os homens; em você, o povo. Vós, o povo tem o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vós, o povo tem o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem as suas promessas, eles nunca o farão. Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Agora vamos lutar para cumprir essa promessa. Lutemos agora para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos os homens. Soldados! Em nome da democracia, vamos todos unir-nos! Olha para cima! Olha para cima! As nuvens estão a dissipar-se, o sol está a romper. Estamos a sair das trevas para a luz. Estamos a entrar num novo mundo. Um novo tipo de mundo onde os homens vão subir acima do seu ódio e da sua brutalidade. A alma do homem ganhou asas e, finalmente, ele está a começar a voar. Ele está a voar para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, esse futuro glorioso que te pertence, que me pertence, que pertence a todos nós. Olha para cima! Olha para cima! Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

IMAGEM DO DIA
O Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


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A Biblioteca Pública Fenelon Barreto, As flores do mal de Charles Baudelaire, O estandarte da agonia de Heloneida Studart, a música de Lenine, o cinema de Amácio Mazzaropi, a pintura de Gino Severini, a arte de Walter Levy & a fotografia de Eadweard Muybridge aqui.
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