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quinta-feira, janeiro 18, 2018

WILLIAM BLAKE, CARLOS NEJAR, FLORESTAN, ORIDES FONTELA, LEON ELIACHAR, REGINA SILVEIRA, LOUIS MALLE, LUCIANO MAGNO & LIAH SOARES

AJUSTE DE CONTAS – Imagem: Abissal (2010), da artista plástica Regina Silveira. - Tirando por mim, a vida é curta e vale muito, a gente pouco e ela é demais pro que se quer. Pelejei muito, agora sozinho na noite só resta escrever cartas e mais cartas e colocá-las no fundo das garrafas para jogá-las às correntes dos rios, quem sabe, ou gravar versos confessionais às areias das praias entre sargaços ou nas encostas, nas rochas, estradas, para serem levados aos ventos à qualquer beira de fim, ou riscar meus sentimentos mais íntimos nas bordas do tempo, em voz alta no alto de um morro, ah, como agora escrevo nada que se aproveite porque nunca fiz nem fui nada, mesmo na tentativa de fazer nada melhores a todo instante e momento, mesmo que pra nada servissem nem sirvam meus préstimos, nunca serviram, valho-me da indolência de inventar histórias com os malassombros do mundo e fantasmas frequentes que rondam minha insônia a roubar meus pesares e anseios numa brincadeira sem fim. Só me resta de mesmo sentar num banco de praça a debulhar meus prantos e lavar-me a alma por ter sido vítima do injusto, a perdoar-me pela sordidez dos meus atos e vexames, como ajuste de contas pelo que fui e deixei de ser, ah, isso não, jamais. Certamente nunca fui lá achegado a lamúrias, pois ri demais e me esbaldei oportuno às condições favoráveis, quando permite uma folga por instantinho de nada que fiz valer séculos, confesso. Por isso, sempre me achei mal-agradecido, cada qual experimenta do doce e amargo, o castigo do remorso silencioso de quantos suicidas, solitários, eu mesmo nada disso, apesar das sobradas, eu morri muitas vezes e das cinzas renasci mais de mil vezes e cá estou prestando contas pra ver do que devo e do que sou credor, se é que crédito algum ainda me reste completamente ao rés do chão, reles espantalho, homiziado de pernoite, a me fazer débil entre moucos e cegos maçantes com seus parvos alcunhas e reuniões mundanas e secretas, grupelhos de interesses a ouvirem e espiarem para tudo e nada distinguirem, meros substantivos sem significado nem vergonha em seus rostos amargurados, arrogantes, cínicos, indóceis, portadores da palavra sem verdade e a rogarem favores em nome da graça de Deus e de clemência por seus degradantes dissabores, na voz gutural de duas dissimulações, sem pressa para fazer as malas enquanto se assustam com o fim do mundo daqui a pouco. Ignorado por todos sou na generosidade do sossego sem escapar de mim mesmo, no desabafo de sentimentos enterrados no mais profundo do íntimo, um acerto de contas feito e refeito comigo mesmo, já que dos outros paguei tudo até o pato alheio, foi tudo preto no branco, um ou outro, talvez, lembre tenha sido com folga, na maioria das vezes era ali mesmo justado e pesado com percentagem de usura por impagáveis falhas e deslizes, mal-entendidos, e levasse a sério era estouro das coronárias e eu já era esquecido e desmemoriado, sem buscar o muito e de tudo que persegui a vida toda, augurando êxito aqui e ali, lavando a alma e peito ao flagrar alguma cena na paisagem, sempre um vulto de mulher a chamar atenção na calçada, maravilha da vida a me empolgar e a confirmar que Deus existe naquela majestosa assimetria bem distribuída no balanço das ancas, no perfil gracioso dos seios, a cadência dos passos no mundo das pernas e coxas, o olhar fascinante que vê e não me reconhece atordoado, o prêmio do sorriso nos lábios de festa a confirmar que sou eu o premiado. Graças! Louros e salvas pra mim, pelo que escapei de traições e perigos, pelo que perdi e nem precisava, pelo que ganhei de afeto e me fez pronto pra seguir adiante, perseguir e perseverar, resiliente, pelo menos, até amanhã, se Deus quiser. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o guitarrista, compositor, cantor, arranjador e produtor musical Luciano Magno: A máquina, Marco Zero/Carnaval do Recife & De Olinda a Los Angeles; da cantora e compositor Liah Soares: Quatro cantos & As melhores; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Baratas e formigas nos sobreviverão. Quando os átomos desintegrarem cidades e corpos, com capacetes de fereza, esses prestimosos insetos saberão o que fazer da terra, já que nós não sabemos. E talvez a concha perdida na praia restaure a última senha. [...] Toda barbárie principia na linguagem. E caminha para os gestos, fecundando a cotidiana convivência. Impõe-se uma tácita comunidade. A mais brutal selvageria é a da alma. [...] Toda ideologia é uma neblina. Envelhece à morte de um dia. [...]. Trechos extraídos da obra O túnel perfeito (Relume Dumará, 1994), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar. Veja mais aqui.

REFLEXÃO PARA OS TEMPOS ATUAIS - [...] O recuo no tempo constitui uma função da cadeia de determinações causais e genéticas com que se opera. Raramente é aconselhável forçar a mão, na suposição de que “o passado explica o presente”. A sociedade se reconstitui e, se importa não perder os elos com o passado, nunca se deve perder de vista que é no presente que se encontram as determinações essenciais, que regulam a reprodução das estruturas e profundidade, a rapidez e a amplitude das transformações históricas em processo. No Brasil, porém, como em muitos outros “países capitalistas dependentes e atrasados” [...] O passado não se “repete” pura e simplesmente. Exigências e necessidades novas condicionam ou determinam a reprodução de comportamentos coercitivos e violentos, arcaicos ou semi-arcaidos, o que instaura um paradoxo histórico. [...] Assim, a violência institucional se cruza com a submissão reativa, a produção de apatia generalizada e a exclusão sistemática dos dominados, oprimidos e explorados. [...]. O que fica claro – e que as elites das classes possuidoras e dominantes procuram salvar do “caos” das mudanças – é que a monopolização do poder (de todas as formas de poder e, no caso, do poder especificamente político) se decide em um patamar pré-político. Os partidos apenas contam como agência de fruição, distribuição e centralização do poder entre facções dos estratos sociais privilegiados e “dirigentes”. [...] Os estudiosos do preconceito e da discrimanção raciais descobriram a essência de uma tradição mistificadora, arraigada no Brasil: o preconceito de não ter preconceito – uma fragilidade humana aparentemente universal, que deveria ser inerente a qualquer forma de ideologia e até mesmo ser assimilável aos mores inabaláveis de uma sociedade de origem escravista. É possível que a contradição entre o império da fé e as iniqüidades da escravidão tenha forjado uma espécie de entorpecimento infantil da consciência social e produzindo essa tendência complacente de dissimular as misérias humanas, transcendndo aos limites e às necessidades das ideologias. [...] De outro lado, embora não se possa separar o referido preconceito de não ter preconceito da violência sublimada e da violência elementar subjacente às relações estamentais-escravistas e às relações de classes de uma sociedade multiracial com fortíssima concentração racial da riqueza, do prestigio social e do poder, é evidente que o paradigma que vale para a representação do “não-preconceito” vale igualmente para outras representações essenciais à humanidade dos “mais humanos” (no calo, do que diz respeito à “não-violência”). A violência incorporada aos mores dos que se atribuem a responsabilidade da defesa da ordem, da moralidade ou da religião e de todo um padrão de civilização, objetiva-se como um direito natural – ou, na pior das hipóteses, como uma coação “legítima” e “necessária”, que se justifica por si mesma, por prevenir irrupções destrutivas da violência e por se institucionalizar como um “direito sacrossanto”. [...]. Trechos da obra A ditadura em questão (T.A. Queiroz, 1982) do

CASAMENTO DO CÉU E DO INFERNO – [...] As religiões dualistas sustentam que o homem possui dois princípios reais de existência, um corpo e uma alma; que a energia provem apenas do corpo, enquanto a razão, inteiramente da alma; e que Deus atormentará o homem por toda a eternidade por ele seguir suas energias. A verdade é que o homem não possui corpo distinto da alma – o chamado corpo é uma porção da alma discernida pelos cinco sentidos; que essa energia é a única vida que provém do corpo; que a razão é o limite externo ou circunferência da energia; e que a energia é o deleite eterno [...]. Extraído da obra O matrimônio do céu e do inferno (Iluminuras, 1995), do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

TALENTOQuando completou dezoito, Ingrid saiu de casa com a disposição de entrar para o teatro: - Hei de vencer, custe o que custar. Não foi mole. Durante dois meses freqüentou tudo quanto é restaurante onde vão jantar os artistas, depois do espetáculo. Só que ela não jantava: roubava uma batatinha aqui, outra ali, e ia fazendo os contatos, que hoje chamam de relações públicas. Até que um dia surgiu a primeira oportunidade e arranjou sem primeiro emprego: tinha de bater palmas, de vez em quando, pra incentivar a plateia. Mas não durou muito: uma vez bateu palma fora de hora e acabou indo pra rua. Pra arranjar colocação em outro teatro, foi duro, pois essa é uma das raras profissões que não possibilitam a tal carta apresentação. – Mesmo assim, hei de arranjar. E arranjou mesmo, porque sempre aparece um brincalhão para tirar partido da agonia alheia. O fato é que Ingrid conseguiu uma carta nos seguintes termos: “Prezado diretor, pela presente quero lhe recomendar o extraordinário talento da jovem portadora desta carta, excelente batedora de palmas de nossa ‘claque’, com uma folha de serviços digna dos maiores elogios. Graças às suas palmas, sempre estridentes e oportunas, nossas peças têm sido muito bem aceitas, tanto pelo público como pela crítica ainda não se acostumou a gostar das peças aplaudidas. De qualquer forma, como o nosso objetivo direto é o público, peço-lhe que ouça com atenção as palmas desta jovem, cujo futuro está em suas mãos (dela é claro)”. – O senhor acha mesmo que posso fazer carreira? Ingrid tremia, quando o direitor lhe pediu para bater palmas. – O senhor gostou mesmo? – Demas. Agora pode vestir a saia e passe para a outra sala pra assinar o contrato: a senhoria será a nossa principal vedete. O que é o destino. Ingrid ingressou no teatro através das mãos, mas o seu talento estava todo nas pernas. Extraído da obra A mulher em flagrante (Círculo do Livro, 1986), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987). Veja mais aqui e aqui.

AXIOMASSempre é melhor / saber / que não saber. / Sempre é melhor / sofrer / que não sofrer. / Sempre é melhor / desfazer / que tecer. / Sem mão / não acorda / a pedra / sem língua / não ascende / o canto / sem olho / não existe / o sol. Extraído da obra Teia: poemas (Geração, 1996), da poeta Orides Fontela (1940-1998).

ADEUS, MENINOS
Adeus, meninos foi inspirado na lembrança mais dramática da minha infância. Em 1944, eu tinha 11 anos e era interno num colégio católico, perto de Fontainebleu. Um de meus colegas, que havia chegado no começo do ano, me intrigava muito. Ele era diferente, discreto. Comecei a conhece-lo, a amá-lo, quando, certa manhã, nosso pequeno mundo desabou. Esta manhã de 1944 praticamente decidiu minha vocação de cineasta. É a minha fidelidade, minha referência. Deveria tê-la feito a matéria de meu primeiro filme, mas hesitava, esperava. O tempo passou, a lembrança se tornou mais aguda, mais presente. No ano passado, após dez anos nos Estados Unidos, senti que era chegado o momento e escrevi o roteiro de Adeus, meninos. A imaginação utilizou-se da memória como um trampolim, reinventei o passado, além da reconstituição histórica, em busca de uma verdade ao mesmo tempo lancinante e intemporal. Através do olhar desse garotinho que se parece comigo, tentei reencontrar esta primeira amizade, a mais forte, bruscamente destruída, e a descoberta do mundo absurdo dos adultos, com sua violência e preconceitos. 1944 está longe, mas eu sei que um adolescente de hoje pode partilhar a minha emoção. Louis Malle.
Extraído do livro Adeus, meninos (Bertrand Brasil, 1987), com o roteiro do premiado drama Au revoir les enfants (1987), dirigido, escrito e produzido pelo cineasta Louis Malle (1932-1995), baseado na própria infância ocorrida durante o inverno de 1943-44, quando na II Guerra Mundial a França é ocupada e dividida entre os invasores nazistas entre os “colaboracionistas” (cidadãos franceses que ajudam os alemães), os opositores resistentes e demais habitantes, meninos de diferentes idades assustem aulas dadas e organizadas por padres cristãos, descobrindo que um dos mais inteligentes e introspectivos alunos, veste solidéu e reza em língua hebraica. O filme revela a crueldade da guerra e a ocupação. Veja mais aqui, aqui e aqui.

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O mundo parou pro coração pulsar, o pensamento de Sêneca, a música de Liah Soares & a pintura de Jean Fautrier aqui.
Por você na Crônica de amor por ela, Safo, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Autran Dourado, Regina Silveira, Khadja Nin, Alexandre Dáskalos, Sam Taylor-Wood, Erika Leonard James, Eduardo Schloesser, Dakota Johnson & Kel Monalisa aqui.
Darcy Ribeiro, Autran Dourado, Damaris Cudworth Masham, Loius Claude de Saint-Martin, Juan Orrego-Salas, Irina Vitalievna Karkabi, Doença & Saúde aqui.
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A ARTE DE REGINA SILVEIRA
A arte da artista plástica Regina SilveiraVeja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, outubro 12, 2017

FERNANDO SABINO, NISIA FLORESTA, LEON ELIACHAR, HELENA KOLODY & CRAIG RUDDY

O SONHO REVELADOR – Imagem: arte do artista australiano Craig Ruddy. - Delzuito não sabia mais o que fazer: o avençado se desmanchava; o caminho certo, topava errado; o que inventasse fazer, era desconstruído no mesmo instantinho, tudo lhe fugia entre os dedos. Nem adiantava agarrar a situação pelos cornos, soltava-se a perder de vista. Disparava em todas as direções, alvos indiferentes; nada dava liga, tudo esgarçado, aos trapos. Pergunta-se o que tinha feito para merecer tudo isso, essa vida tão miserável, não podia ser, Deus estava castigando demais e isso, para ele, era injusto, não aceitava, queria, pelo menos, saber o porquê de tanto sofrimento, tantas mazelas, tantos infortúnios encarreados pra seu suplício sem fim. Restava pegar no ronco e esperar que no dia seguinte alguma luz surgisse no fim do túnel. Depois de catar os fiapos das quedas, restava sonhar vitórias. No sonho era outra pessoa, não tinha a sua feição, mas era como se fosse ele noutro tempo, coisas de mais de século atrás. Era ele, tinha certeza, diferente do que era agora, como se outra pessoa, um notável senhor de muitas posses e serviçais. Sabia ele que já havia sido abolida a escravatura, todavia, ao seu dispor muitos escravos e aos berros: A pobreza é o mal da humanidade! Inexorável, pisava a todos, negociando vidas na defesa dos seus interesses. A qualquer obstáculo, removia desafetos do caminho como quem descarta o indesejável pra lata do lixo. Pronto, resolvido. Agora, maior do que eu só Deus! Abaixo Dele, quem manda sou eu, até aonde a vista alcançar, tudo meu. E tripudiava carrasco contra indefesos ou débeis, tirava proveito de tudo, até da inocência dos imaturos: Chapéu de otário é marreta! Quando queria, estava disposto a tudo: desmoralizar, subjugar, submeter ao mando e gosto. Quando não, atrapalhava a vida de quem ousasse medir forças. De repente acordou esbaforido: Que sonho é esse? Coisa estranha. Levantou-se aturdido e, ao fazer a micção, encarou o espelho: não era ele agora, era aquele do sonho. Como? Esfregou os olhos: isso mesmo, ele era aquele com quem sonhara. Não pode ser? Impossível isso. Virou-se do lado, passou as mãos à face, retornou ao espelho, não era mais, agora ele mesmo. Aliviou-se e voltou pra cama. Tentou dormir enquanto o que sonhara martelava na cabeça. Cochilou e já se encontrava noutro sonho. Era ele agora outra pessoa diferente da anterior, diferente dele mesmo, armado até os dentes, à caça de gente malévola, fugindo da lei, bufando com a mão no crucifixo da volta ao pescoço, mão no cabresto determinando o rumo pro cavalo e a outra na arma do coldre, vigilância de não pregar os olhos por nada, montaria extenuante de dias, cansaço no encontro do chão com o horizonte, terras sem fim. Não era ele como agora, era ele noutro tempo, uns duzentos anos atrás, seguindo estrada afora, a fuga indômita. Viu-se numa cilada, muitos cavalos, tiros, gritos, tudo vinha em sua direção, fugir. Acordou-se lavado em suor. Levantou-se até o espelho: era o mesmo do sonho. Como pode ser? Fechou os olhos, era o do sonho anterior; virou-se de lado e voltou a encarar o espelho: era ele mesmo. Olhou bem firme, ora era ele agora, ora sua face transmudava para as fisionomias dos sonhos, ele antes, ele antes do de antes, tudo era ele. Como podia ser? O que isso quer dizer, hem? Eu ser outros enquanto eu mesmo? Que coisa! Sabia, era ele nos sonhos, fisionomia diferente, porém era ele, sabia, que sonhos loucos! Será que estou endoidando? Não sei, melhor não pensar, sonho é coisa tola, invenção da cachola, só pode. Só em sonho coisas mais sem pé nem cabeça. Se pensar eu endoido, arre. Melhor cuidar da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Lenine: Acustico MTV, Live in Cité & O dia em que faremos contato; a cantora russa Sainkho Namtchylak: Stempmother city, Alpha Co & Ethno Orchestra & Delco Session & Ned Rothenberg; da cantora e pianista canadense Diana Krall: Live in Rio de Janeiro, Heineken Jazzaldia & Live@Home; do músico e compositor Edson Natale: Viajante, Toque de Fada, Pequena canção para uma mulher nua, Alfacinha, Guaimbé & Nina Maika. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O Brasil tinha já fornecido grande cópia de homens ilustrados pelos conhecimentos adquiridos em diferentes universidades da Europa, e a maior parte das brasileiras (mesmo as das primeiras cidades) não logravam a vantagem de aprender a ler. [...] Dizia-se geralmente que ensinar-lhes a ler e escrever era proporcionar-lhes os meios de entreterem correspondências amorosas, e repetia-se, sempre, que a costura e trabalhos domésticos eram as únicas ocupações próprias da mulher. Este preconceito estava de tal sorte arraigado no espírito de nossos antepassados, que qualquer pai que ousava vencê-lo e proporcionar às filhas lições que não as daqueles misteres, era para logo censurado de querer arrancar o sexo ao estado de ignorância que lhe convinha. [...]. Trechos da obra Opúsculo humanitário (M.A. da Silva Lima, 1853), da poeta, educadora e escritora Nisia Floresta (1810-1885). Veja mais aqui e aqui.

O MELHOR AMIGO – [...] Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável: – Vamos, chega! Leva esse cachorro embora. – Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais ninguém nesta vida. – E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe? – Mãe e cachorro não é a mesma coisa. – Deixa de conversa: obedece sua mãe. Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa. – Pronto, mamãe! E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros. – Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo. Trecho da crônica extraído da obra A vitória da infância (Ática, 1995), do escritor e jornalista mineiro Fernando Sabino (1923-2004). Veja mais aqui e aqui.

AS DEZ MÃES DO ANO & COQUETEL FASCINATION - As dez mães do ano: Mãe moderna é a que faz da filha uma amiga, da amiga uma irmã,do marido um filho, do filho um pai e do pai, pai mesmo, porque pai é pai. Mãe frustrada é a que tenta dezoito vezes ter um filho e tem dezoito filhas. Mãe ingênua é a que sempre diz às suas amigas: "Felizmente, a minha filha foi criada de outra maneira". Mãe aflita é a que espera sua filha chegar do baile do sábado, mas que diabo, hoje já é segunda. Mãe caxias é a que faz tricô de ouvido: passa a noite inteira mexendo com as mãos, mas não tira o olho do noivo. Mãe zelosa é a que vai jogar cartas e se lembra que esqueceu de dar a mamadeira pro menino, pára de jogar, vai lá, depois volta. Mãe vaidosa é a que vive diminuindo a idade da filha, só para poder diminuir a sua, e só não diminui mais senão acaba perdendo a filha. Mãe indecisa é a que tem dois filhos gêmeos e não sabe qual vai se chamar Ricardo, se este ou aquele. Mãe orgulhosa é a que mostra a fotografia do filho no jornal e diz: "Este é meu filho", sem perceber que a seção é policial. Mãe realizada é a que põe seu filhinho no colo e diz: "Agora você já pode casar, meu filho, hoje você completa noventa aninhos". Coquetel fascination: Arranje uma loura de dezoito a 25 anos. Nem menos, nem mais. Que seja bonita e esteja de biquíni. Depois peça a ela pra segurar o copo e comece a despejar, na seguinte ordem: duas azeitonas, duas cerejas, um pouco de cinzano, um pouco de gim, um pouco de martini, um pouco de uísque, um pouco de vodca, um pouco de vinho branco, um pouco de Coca-Cola. Ao abrir a Coca-Cola, verifique se não ganhou um Volkswagen. Se ganhou, largue tudo no chão e vá buscar o prêmio. Mas o mais certo é que não ganhe, pois esses concursos quase levaram à falência a indústria automobilística, tanto que acabaram. Os concursos, digo. Então deixe de fazer divagações, largue a chapinha da Coca-Cola e veja se a loura ainda está segurando o copo. Se não está, bobeou — porque sujeito que tem uma loura de dezoito anos na sua frente, de biquíni, e insiste em preparar coquetel, vou te contar. Extraídos da obra O homem ao cubo (Francisco Alves, 1979), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987). Veja mais aqui e aqui.

SONHAR
Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.
Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.
É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.
Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo
.
Poema extraído da obra Viagem no Espelho e vinte e um poemas inéditos (Criar, 2001), da poeta Helena Kolody (1912-2004). Veja mais aqui.

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LÁGRIMA DE UM CAETÉ
Lá, quando no Ocidente o sol havia
Seus raios mergulhado, e a noite triste
Denso-ebânico véu já começava
Vagarosa a estender por sobre a terra;
Pelas margens do fresco Beberibe,
Em seus mais melancólicos lugares,
Azados para a dor de quem se apraz
Sobre a dor meditar que a Pátria enluta!
Vagava solitário um vulto de homem,
De quando em quando ao céu levando os olhos,
Sobre a terra depois triste os volvendo...
Poema da poeta, educadora e escritora Nísia Floresta (1810-1885). Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista australiano Craig Ruddy.
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segunda-feira, outubro 12, 2015

DRUMMOND, LORCA, NÍSIA, LOBATO, NISE, JAKOBSON, ELIACHAR, TOZZI, MESQUITA & SEGUNDA PRA SEMANA!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DE SEGUNDA PRA SEMANA – Segunda-feira, dia internacional da ressaca. Eita! O dia amanhece devagar, tudo na meia embreagem, começando a gerar aos poucos. Liga o motor do corpo, deixa esquentar devagar pra poder cair no trampo, tudo no lentamente, quase letárgico. É que neguinho começa emborcar o copo na sexta quando larga do trabalho, emenda no sábado tomando todas e no domingo se entope de esborrar até a rendição estropiada de três dias encarreados liberando as neuras, desafogando as mágoas e todas as derrotas do cotidiano. Cabeça de férias, desligamento da labuta. Aí na segunda, depois de um esquento graduado, o Sol dá o tom do alvoroço e tudo volta a funcionar às mil maravilhas com a demonstração de que está novinho em folha, caindo no dia pra ver no que vai dar e no como é que fica. Como a vida é uma luta, muitos se valem do lamentável expediente da guerra. Arrocha! Cada qual que se cuide. É a hora de afiar a astúcia e mirar bem no alvo daquilo que traga recompensa. Todo mundo corre atrás dessas recompensas. Nem se dá conta de que, tal como Sísifo, é tudo de novo, empurrando pra cima e tornando a descer, pra novamente botar tudo em riba e embolar dia após dia, tudo de novo e bisado novamente: agenda, contatos, compromissos, reuniões, pagamentos, correria pro ganhapão, saques e coberturas, enrolações e soluções, broncas superadas ou adiadas, tem que ser sabido pra chegar na frente, e correr mais que os outros porque chapéu de otário é marreta e alguém tem que chorar pra alguém poder sorrir. É isso, ou mais ou menos isso. Por aí. Assim vai até quando passa o efeito anestésico e se constata que não há sinergia, nada dá liga nem sintonia, tá tudo revirado. Vai na raça! Torce o rabo da porca, tira leite de pedra. Dá pra perceber até que todos estão absortos com a morte da bezerra. Ora, ora. É pegar no desprevenido! É o mundo da contenda: abriu a guarda, é lona. Mesmo assim, nada dá certo, cada um por si e que apareça um doido dum heroico salvador que seja por todos nós. Vai daí a pergunta: o que há com o mundo, hem? Tá tudo de pernas pro ar. O que há com as pessoas? Alguma coisa está fora da ordem, como diz Caetano Veloso. Aí, ou se dana pro vai ou racha, ou começa a fraquejar. Acontece, porém, que cada pessoa pensa conforme seu umbigo, seus interesses e desejos. Há quem pense que todos deviam pensar de um jeito só, ou melhor, que todos pensassem e agissem conforme a razão de um que se acha dono da verdade e parte para mudar o mundo e as pessoas. Esses dessa banda insistem que estão certos e que os outros, tudinho, estão errados. Ô mundo destrambelhado! Ainda arvoram dizer que se o mundo todo pensasse como ele, seria outro: - Se houvesse dez iguais a mim o mundo seria uma maravilha! Será? Por isso dizem que quanto mais veem o ser o humano, mais adoram o cachorro. E é exatamente por isso que surge o fato de que cada cachorro se parece com seu dono - ou é o dono que se parece com o cachorro? E com isso a primeira conclusão: cada pessoa pensa diferente. E não podia ser diferente. Contudo, se cada cabeça é um mundo, por que todos não entendem que há um mundo só, esse em que todos nós vivemos, coexistimos? A Terra é uma só e cada cabeça é um mundo. Digo mais, como n’A Primavera de Ginsberg: a Terra é redonda e ainda cagam pelos quatro cantos do mundo. Ué? Pois é. Com isso, não seria mais adequado olhar pro umbigo, chamar na grande e dar uma conversada com ele a respeito de que não é o mundo nem as pessoas que deviam mudar, mas nós mesmos? A primeira guerra não está lá fora, está dentro de cada um. Quando primeiro houver paz nos conflitos interiores de cada um, quando cada um descobrir quem é e não do jeito como quer ser visto, e se conciliar consigo mesmo, aí sim, esse é o primeiro passo pra gente conseguir paz, concórdia, harmonia, sintonia e compreensão na Terra. Vamos aprumar a conversa? Então veja mais aqui

 Imagem: Veja o nu (1968 - Tinta alquídica sobre madeira, tecido e ferro), do pintor, desenhista e programador visual Cláudio Tozzi.


Curtindo o álbum que reúne a Missa a 4 Vozes para Quarta-Feira de Cinzas (1778), do compositor erudito brasileiro Lobo de Mesquita (1746-1805), Stabat Mater, do compositor do Barroco português João Rodrigues Esteves (1700-1751) e Moteto para a Semana Santa, do padre José Mauricio Nunes Garcia (1767-1830), com o conjunto Calíope (1998), direção  Júlio Moretzsohn.

O LUGAR DA LINGUÍSTICA NAS CIÊNCIAS DO HOMEM – O livro Relações entre a ciência da linguagem e as outras ciências (Bertrand/Martins Fontes, 1974), do pensador russo, linguista e pioneiro da analise estrutural da linguagem, Roman Jakobson (1896-1982), aborda sobre as perspectivas linguísticas, o lugar da linguística nas ciências do homem e a linguística e as ciências naturais, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] a linguagem é um elemento constitutivo da cultura, mas, em relação ao conjunto dos fenômenos culturais, o seu papel é o de uma infraestrutura, dum substrato e de um veiculo universal. [...] Certos traços próprios da linguagem estão ligados à situação particular que ela ocupa em relação à cultura, é o caso nomeadamente da aquisição da linguagem pelas crianças e do fato de que nem nas línguas antigas nem nas atuais conhecidas pelos linguistas existe qualquer diferença e estrutura fonológica e gramatical entre estádios relativamente primitivos e relativamente avançados. [...] Assim a comunicação de pares sexuais e de bens ou de serviços surge como sendo, num grau elevado, uma troca de mensagens auxiliares, e a ciência total da comunicação compreende não só a semiótica propriamente dita, ou seja, o estudo das verdadeiras mensagens e dos códigos sobre os quais assentam, mas também as disciplinas em que as mensagens desempenham um papel pertinente embora acessório. Em todo caso, a semiótica ocupa uma posição central geral da comunicação como suporte de todos os outros ramos, enquanto ela própria engloba a linguística e esta, por sua vez, no centro da semiótica, lhe sustenta todos os outros setores. Três ciências pertencentes a um conjunto englobam-se umas às outras e representam três graus de generalização crescente: 1 – o estudo da comunicação de mensagens verbais, ou linguística; 2 – o estudo da comunicação de qualquer espécie de mensagem, ou semiótica, incluindo a de mensagens verbais; 3 – o estudo da comunicação, ou antropologia social e econômica, incluindo mensagens. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS FAZEM DAS MULHERES – No livro Direito das mulheres e injustiça dos homens (1832 – Cortez, 1989), da educadora e escritora Nísia Floresta (1810-1885), destaco o trecho do Capítulo I - Que caso os homens fazem das mulheres, e se é com justiça: Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer, e aprazer a nossos amos, isto é, a eles homens. Tudo isso é admirável e mesmo um muçulmano não poderá avançar mais no meio de um serralho de escravas. Entretanto, eu não posso considerar esse raciocínio senão como grandes palavras, expressões ridículas e empoladas, que é mais fá- cil dizer do que provar. Os homens parecem concluir que todas as outras criaturas foram formadas para eles, ao mesmo tempo em que eles não foram criados senão quando tudo isso se achava disposto para seu uso. Eu não me proporia a fazer ver a futilidade deste raciocínio; mas concedendo que ele tenha alguma ponderação, estou certa que antes provará que os homens foram criados para o nosso uso, do que nós para o deles. É verdade que o emprego de nutrir as crianças nos pertence, assim como a eles unicamente pertence o de gerá-los; se este último lhes dá algum direito à estima e respeito públicos, o primeiro nos deve merecer uma porção igual, pois que o concurso imediato dos dois sexos é tão essencialmente necessário à propagação da espécie humana, que um será absolutamente inútil sem o outro. Que direito pois têm eles de nos desprezar, e pretender uma superioridade sobre nós, por um exercício que eles partilham igualmente conosco? Todos sabem, nem se pode negar, que os homens olham com desprezo para o emprego de criar filhos e que é isso, às suas vistas, uma função baixa e desprezível; mas se consultassem a natureza nesta parte, sentiriam sem que fosse preciso dizer-lhes, que não há no Estado Social um emprego que mereça mais honra, confiança e recompensa. Basta atender às vantagens que resultam ao gênero humano para convir-se nisto; eu não sei se até por essa razão unicamente, as mulheres não mereciam o primeiro lugar na sociedade civil. Qual foi o fim para que os homens se reuniram em sociedade, senão para terem suas vidas mais seguras e pacificamente gozarem tudo que lhes apraz? Todos aqueles, pois, que mais contribuem a essa vantagem pública devem por isso obter maior porção de stima pública. Ora, as mulheres, encarregando-se generosamente e sem interesse do cuidado de educar os homens na sua infância, são as que mais contribuem para essa vantagem, logo são elas que merecem um maior grau de estima e respeito públicos. Partindo desse princípio é que se olham os príncipes como as primeiras pessoas do Estado. Nessa qualidade, ou grau de elevação, se lhes conferem as principais honras; porque supõe-se ao menos que eles se sobrecarregam de grandes cuidados, vigílias e inquietações, que exige a prosperidade do bem público. Da mesma sorte tributamos mais ou menos respeito àquelas pessoas que estão abaixo deles e que mais se lhes aproximam, porque as olhamos como pessoas mais úteis à sociedade, segundo partilham mais ou menos as fadigas do serviço público. É pela mesma razão que preferimos os militares aos literatos; porque os olhamos como um baluarte entre nós e nossos inimigos. Todos concordam em respeitar as pessoas à proporção de sua utilidade; eis pois a medida de seu merecimento. Ora, sendo essa regra aplicável a todas as circunstâncias da vida, por que não devem ter as mulheres, mais que todos, direito à estima pública, contribuindo mais, sem comparação, a seu bem-estar? Os homens podem absolutamente passar sem príncipes, generais, soldados, jurisconsultos, como antigamente e ainda hoje passam os selvagens; mas podem passar sem amas na sua infância? E se por si são incapazes de exercer esse importante emprego, não precisam indispensavelmente das mulheres? Em um Estado tranquilo e bem regido, a maior parte dos homens são inúteis em seus ofícios e inútil toda sua autoridade, mas as mulheres não deixarão jamais de ser necessárias enquanto existirem homens e estes tiverem filhos. Para que servem os juízes, os magistrados e os oficiais, senão para garantir a segurança e propriedade dos bens daqueles que, se não fosse proibido, seriam capazes de fazer justiça a si mesmos mais exata e prontamente? Porém as mulheres, mais verdadeiramente úteis, se ocupam em lhes conservar a vida para gozarem dessa propriedade. Estimam-se e recompensam-se os soldados, porque combatem para defender os homens feitos, que são tão capazes, e mesmo mais que eles, de se defenderem. Com quanta maior razão não merece o nosso sexo essa estima e recompensa, trabalhando para defender os homens numa idade em que não sabem o que são, não podem distinguir os amigos dos inimigos, e nem têm outra defesa mais que suas lágrimas? Se os príncipes e os ministros se sacrificam algumas vezes pelo bem público, a ambição é o único móvel, é para adquirir poder, riquezas e esplendor que eles o fazem. Porém, nossas almas mais generosas não atendem senão ao bem das crianças, que nutrimos e educamos, pois que todos os dias experimentamos que a recompensa que temos a esperar dessas criaturas desnaturadas, pelos trabalhos, cuidados, inquietações e infinitos embaraços, que nos causam e de que não se acha exemplo em todos os outros estados da sociedade civil, se reduz a maus tratamentos e a um desprezo repreensível para com o nosso sexo em geral. Tais são os generosos ofícios que lhes prestamos; tal é a ingratidão com que nos recompensam. Sem dúvida é preciso que os homens tenham a imaginação bem corrompida para olharem um exercício tão importante como baixo e desprezível, e para lhe recusar toda estima que na realidade merece. Com que liberalidade não se recompensa aquele que consegue domesticar um tigre, um elefante e outros semelhantes animais? E as mulheres, que passam seus belos anos ocupadas em amansar o homem, este animal ainda feroz, não serão pagas senão com desprezo? Se nos remontarmos à origem dessa injusta parcialidade, encontraremos que a única e verdadeira causa do pouco reconhecimento, que se tem aos importantes serviços que as mulheres prestam aos homens, é que eles são comuns e ordinários. Entretanto, seja qual for a recompensa, o prazer que a generosidade de nosso sexo acha em preencher esse ofício basta para que nós o desempenhemos com toda ternura e sem vistas de interesse. Eu não pretendo queixar-me de não recebermos recompensa: seja-me somente permitido dizer, que por sermos mais capazes que os homens em desempenhar esse cargo, não se segue que não possamos também desempenhar outro qualquer. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

O ESPIÃO ALEMÃO – No livro Cidades Mortas (1919-Brasliense, 1995), do escritor, editor e tradutor Monteiro Lobato (1882-1948), encontro o conto O espião alemão, do qual destaco os trecos a seguir: Abre a história. Escuta, só ouvirás rumores de guerra. Aquele tropel desapoderado? É a avalhancha tártara. Tamerlão, o tigre coxo, derrama sobre a Pérsia legiões de feras – e leva a chacina a proporções inauditas. Seu capricho exige em Ispagan setenta mil cabeças humanas. Cada seção do exército lhe há de fornecer uma quota. Fartos, cansados de cortá-las, os soldados entram a adquiri-las, pagando a moeda de outro cada uma. Era bom negocio, a oferta cresceu e o preço baixou a meia moeda. Reunidas as setenta mil, Timur construiu torres de crânios em redor da cidade. Ruge a sangueira além. É em Delhi. Timur, tigre precavido, antes de bater-se com Maomé IV delibera aliviar o exercito de cem mil prisioneiros incômodos. Solução magistral: degola-os... a vaga prossegue, chega a Ancira, esmaga Bajaze, o grande sultão, e passa... e acolá? Assíria. De Nínive, antro de leões famintos, descem para a carniçaria os reis flecheiros. Assurbarnipal canta os próprios feitos em inscrições chegadas até nós: “Construí um muro diante das portas da cidade e forrei-o com a pele dos chefes. A outros emparedei vivos, a outros empalei ao longo das muralhas. Fiz arrancar o couro, em minha presença, a inúmeros, e revesti paredes com esse couro semivivo. Reuni cabeças em forma de coroas e os corpos entrelacei como guirlandas”. A vuda da Assiria é toda uma primorosa carnificina. Tujklatabazar, Assurbanipal, Nabuco, Sargão – todos os magarefes reais viram a sua pericia em arrancar o couro a criaturas humanas cantada pelo poetas, comemorada pela arquitetura, admirada pelos pósteros. Timur passou. Passou a Assiria. Homens e coisas passam, mas a guerra fica. É a guerra uma permanente. O homem tem a vocação do morticínio. A arte apoteosa a carniça. Os poetas só ascendem ao épico se o bafio de sangue lhes fumega a inspiração. A beleza suprema é Aquiles fendendo crânios do frontal à nuca, e a história da humanidade não passa dum sistema potamográfico de enxurros vermelhos, musicado pelos gemidos de dor dos vencidos. A guerra sempre! Sempre guerras! A guerra dos Sete Chefes, a Guerra de Troia, as guerras púnicas, as guerras de Roma – escravos, Numância, mercenários, Jugurta, Mitridates, civil... depois as guerras de invasão. As cruzadas depois. E as guerras de religião. E as guerras dinásticas. A dos Cem Anos, a dos Trinta Anos, a guerra das Duas Rosas, a da sucessão da Espanha. A guerra americana de secessão. As napoleônicas, a russo-turca, a hispano-americana, a sino-japonesa, a franco-prussiana, a anglo-boer... depois, depois a Guerra Geral, a guerra do mundo contra a Alemanha. O rosário para aqui. Mas como não para o Ódio e como a Estupidez Humana é irredutível, o futuro verá tantas guerras quantas viu o passado. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

APELO A MEUS DESSEMELHANTES EM FAVOR DA PAZ – Na Antologia poética (José Olympio, 1979), do escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), destaco o poema Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz: Ah, não me tragam originais / para ler, para corrigir, para louvar / sobretudo, para louvar. / Não sou leitor do mundo nem espelho / de figuras que amam refletir-se / no outro à falta de retrato interior. / Sou o Velho Cansado / que adora o seu cansaço e não o quer / submisso ao vão comércio da palavra. / Poupem-me, por favor ou por desprezo, / se não querem poupar-me por amor. / Não leio mais, não posso, que este tempo / a mim distribuído / cai do ramo e azuleja o chão varrido, / chão tão limpo de ambição / que minha só leitura é ler o chão. / Nem sequer li os textos das pirâmides / os textos dos sarcófagos, / estou atrasadíssimo nos gregos, / não conheço os Anais de Assurbanipal, / como é que vou - / mancebos, / senhoritas, / - chegar à poesia de vanguarda / e às glórias do 2.000, que telefonam? / Passam gênios talvez entre as acácias, / sinto estátuas futuras se moldando / sem precisão de mim / que quando jovem (fui-o a.C., believe or not) / nunca pulei muro de jardim / para exigir do morador tranquilo / a canonização do meu estilo. / Sirvam-se de exonerar este macróbio / do penoso exercício literário. / Não exijam prefácios e posfácios / ao ancião que mais fala quando cala. / Brotos de coxa flava e verso manco, / poetas de barba-colar e velutínea / calça puída, verde: tá! / Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes: / tá! / O senhor saiu. Hora que volta? Nunca. / Nunca de corvo, nunca de São-Nunca. / Saiu pra não voltar. / Tudo esqueceu: responder / cartas; sorrir / cumplicemente; agradecer / dedicatórias; retribuir / boas-festas; ir ao coquetel e à noite / de autógrafos-com-pastorinhas. / Ficou assim: o cacto de Manuel / é uma suavidade perto dele. / Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera. / Na jaula do mundo passeia a pata aplastante, / cuidado com ela! / Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta / quando ele nasceu. / Ele não nasceu. / Não vai nascer mais. / Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho / com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar, / tragam-no vivo para fazer uma conferência. / Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo. / Não lhe, não me peçam opinião / que é impublicável qualquer que seja o fato do dia / e contraditória e louca antes de formulada. / Fotógrafos: não adianta / pedir pose junto ao oratório de Cocais / nem folheando o álbum de Portinari / nem tomando banho de chuveiro. / Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem. / Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas. / Quero a paz das estepes / a paz dos descampados / a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira / a paz de cima das Agulhas Negras / a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada / de Morro Velho / a paz / da / paz. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

YERMA – A peça teatral Yerma (1934), do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936), é uma obra popular de caráter trágico, ambientada na Andaluzia, no inicio do século XX, contando a história de uma mulher que vive o drama de não poder conceber um filho, buscando de todas as formas engravidar e enfrentando a indiferença do marido que não demonstra nenhum interesse em compartilhar da sua angustia. Da obra destaco o trecho inicial do Ato 1 -  PRIMEIRO ATO PRIMEIRO QUADRO (Ao levantar-se o pano, Yerma está adormecida, tendo aos pés uma cestinha de costura. A cena tem uma estranha luz de sonho. Entra um pastor nas pontas dos pés, fitando firmemente Yerma. Leva pela mão um menino vestido de branco. O relógio bate. Quando o pastor entra, a luz é substituída por uma alegre claridade matinal de primavera. Yerma desperta) CANTO - (Voz dentro) Nana, nana, nana, nana, nana, nana, que faremos uma palhoça no campo e nela nos meteremos. YERMA - João, não me ouves, João? JOÃO - Já vou. YERMA - Está na hora. JOÃO - Já passaram as juntas? YERMA - Passaram. JOÃO - Até logo. (Faz menção de sair) YERMA - Não tomas um copo de leite? JOÃO - Para quê? YERMA - Trabalhas muito e não tens corpo para tanto trabalho. JOÃO - O corpo enxuto de carne torna-se forte como o aço. YERMA - Mas o teu, não. Quando casamos, eras outro. Agora tens a cara branca como se o sol não te batesse nela. Gostaria que fosses ao rio e nadasses, e subisses ao telhado quando a chuva nos entra pela casa adentro. Já estamos casados há vinte e quatro meses e tu cada vez mais triste, mais seco, como se crescesses ao contrário. JOÃO – Acabaste? YERMA - (Levantando-se) – Não me leves a mal. Se eu estivesse doente, gostaria que me tratasses. “Minha mulher está doente – vou matar este cordeiro para fazer-lhe um bom ensopado.” “Minha mulher está doente – vou guardar esta enxúndia de galinha para aliviar-lhe o peito; vou levar-lhe esta pele de ovelha para resguardar-lhe os pés da neve.” Eu sou assim. Por isso trato de ti. JOÃO - E eu te agradeço. YERMA - Mas não te deixas tratar. JOÃO - É que não tenho nada. Todas essas coisas são suposições tuas. Trabalho muito. Todos os anos irei ficando mais velho. YERMA - Todos os anos... Tu e eu continuaremos aqui todos os anos... JOÃO - (Sorridente) – Naturalmente. E muito sossegados. Os negócios vão bem; não temos filhos que gastem. YERMA - Não temos filhos... João! JOÃO - Fala. YERMA - Eu não gosto de ti? JOÃO - Gostas. YERMA - Sei de raparigas que tremeram e choraram antes de se entregarem a seus maridos. E eu? Chorei? A primeira vez que dormi contigo? Não cantava ao levantar as barras dos lençóis de holanda? E não te disse: Como cheiram a maça estas roupas? JOÃO - Foi o que disseste! YERMA - Minha mãe chorou, porque não tive pena de separar-me dela. E era verdade! Ninguém se casou com mais alegria. E no entanto... JOÃO - Cala-te. Já estou cansado de ouvir a todo instante... YERMA - Não. Não me repitas o que dizem. Vejo com os meus olhos que isso não pode ser... De tanto cair a chuva nas pedras, elas amolecem e fazem nascer saramagos, que o povo diz que não servem para nada. “Os saramagos não prestam para nada”... Mas eu bem os vejo moverem pelo ar suas flores amarelas. JOÃO - É preciso esperar. YERMA - Sim; querendo (Yerma abraça e beija o marido, tomando ela a iniciativa) JOÃO - Se precisas de alguma coisa, dize-me que a trarei. Já sabes que não gosto que saias. YERMA - Nunca saio. JOÃO - Estás melhor aqui. YERMA - É. JOÃO - A rua é para os desocupados. YERMA - (Sombria) – Claro. (O marido sai e Yerma dirige-se para a costura. Passa a mão pelo ventre, levanta os braços num lindo bocejo e senta-se a coser) De onde é que vens, amor, meu filho? Da crista do duro frio. De que precisas, amor, meu filho? Do morno pano de teu vestido. (Enfia a agulha) Que se agitem as ramas ao sol e as fontes saltem todas, em redor! (Como se falasse com uma criança) Ladra o cão pelo terreiro, na folhagem canta o vento. Muge o boi ao boiadeiro e a lua me encrespa o cabelo. Que pedes, filho, de tão longe? (Pausa) Os brancos montes que há no teu peito. Que se agitem as ramas ao sol e as fontes saltem todas, em redor! (Cosendo) Filho meu, dir-te-ei que sim. Despedaçada me dou a ti. Sofre a cintura que te ofereço, e que será teu primeiro berço! Quando, meu filho, poderás vir? (Pausa) Quando teu corpo cheire a jasmim. que se agitem as ramas ao sol e as fontes saltem todas, em redor! (Yerma continua a cantar. Pela porta entra Maria, que vem com um embrulho de roupa) [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


NISE, O CORAÇÃO DA LOUCURA – O filme Nise, o coração da loucura (2015), dirigido por Roberto Berliner, conta a história da saída da prisão da médica psiquiatra e psicoterapeuta alagoana, Nise da Silveira (1905-1999), retornando aos trabalhos num hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, quando se recusa a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos. Isolada pelos médicos, resta a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início à uma revolução regida por amor, arte e loucura. A protagonista é representada pela atriz Gloria Pires, com roteiro de roteiro Flávia Castro, Mauricio Lissovsky, Maria Camargo e Chris Alcazar, roteiro final de Patricia Andrade, Leonardo Rocha e Roberto Berliner, e trilha sonora original Jaques Morelenbaum. Este filme é mais que uma justíssima homenagem a esta grande mulher e profissional que foi, indubitavelmente, umas das maiores representantes da humanização no tratamento das doenças mentais. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
O livro A mulher em flagrante (Francisco Alves, 1970), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987), do qual destaco as pérolas: “O homem se casa para vencer a solidão, a mulher para ficar só; o homem se casa para ficar em casa, a mulher para saír; o homem se casa por descuido, a mulher por precaução. Biquini são dois pedaços de pano cercado de mulher por todos os lados”. Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá;
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...