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terça-feira, abril 18, 2017

LOBATO, CHAUÍ, MÁRCIA HAYDÉE & O VEXAME NO XAMBREGO!

O VEXAME NO XAMBREGO – Zé Corninho não dá uma dentro, tudo sai errado. Mesmo não tendo como, ele desanda no desserviço. Até no dia que a patroa dele faz tudo pruma noite pra lá de festiva, a coisa finda no maior rebuliço. Foi assim: era uma sexta feira de comemoração, um assustado promovido pela vizinha pros casais fazer as pazes. A mulherada se reuniu na maior deliberada sobre uma noite apimentada com seus respectivos maridos e deram asas à imaginação. Tudo que queriam era dar uma amarrada cativa no funcionamento deles na hora do rala-e-rola,. Como eles andavam devendo no comparecimento, elas resolveram usar de recursos criativos pra coisa na horagá pegar fogo. Festinha, bebidas, afrodisíacos e, sobretudo, provocações eróticas regadas a utensílios escolhidos a dedo numa dessas lojas de prazer. Lá foram em comitiva, reviraram tudo pelo avesso e saíram às risadinhas sacanas, cada qual com sua estratégia romântica e maledicência no juízo: - Hoje ele me paga! Quando a noite desceu, deu-se o combinado: elas se banharam, sapecaram as roupas mais provocantes – decotes ousados, lascão na saia do tornozelo ao bico do pinguelo entre as coxas, cinturinhas a pulso de pilão espremidas por cintas arrochadas, unhas pintadas, maquiagem excessiva, cabelos alisados na marra, saltos altos, perfumes fortes e muito espalhafato. Quando os distintos chegaram – alguns já levados de bebum aos tombos -, foram todos lavados, ajeitados e embecados conforme o gosto da distinta. Tudo pronto, juntaram a reca toda na casa da vizinha e deu-se o maior rastapé até altas horas. Zé Corninho que sempre foi o maior pé de valsa, fez a dança não só com a dele, mas com a de todos, findando, pelo remexido de coxas e passos no maior xambrego, numa situação paudurescente, dele ser tratado aos beliscões, tapas, empurrões e juras vingativas. Parecia o fim da festa, mas não. As madames não queriam perder a viagem e cada qual se aboletou no maior chamego com o que era de seu, mandando ver no desfile. O que era pra ser uma noite romântica inesquecível, encaminhava pra mangação. Aí elas perderam a paciência e partiram pros finalmentes: cada qual rebocou seu traste pro seu ninho de amor. Aí que começou a dar errado mesmo. É que, por exemplo, a distinta esponsal do Zé Corninho achou de colocar umas bolinhas na perseguida dela e um anel peniano nele, coisa que nunca usaram, nem sabia como era mesmo e, no começo, parecia até que ia vingar pra lá de bom. Destá. Quando o vuque-vuque começou a rolar, a coisa não saiu lá como o previsto: as bolinhas colaram na parte interna dos beiços vaginais dela e o anel nada funcionar direito. Aí começou o como é que faz isso, como é que tira isso,e nada de dar certo. Só vexame e vira e mexe e, cada vez mais, piorando. A hora se passando, os dois agoniados, ele a ponto de ter um troço, resolveram correr pro hospital. Lá chegando deram de cara com a desgraça: além de todos os conhecidos estarem testemunhando a desandada, também os casais vizinhos já estavam sendo atendido na emergência. Vixe, deu tudo errado. Era um casal nu engatado de não se soltar enrolado no cobertor, era outro com vibrador entalado no rabo, mais outro com um preservativo engasgado na garganta, a enfermaria em polvorosa, os médicos com ar de doidos, a mundiça toda às gargalhadas, Zé Corninho e a mulher reclamando de dor, até que chega a sua vez, levam um pra cada lado, vão cuidar da mulher dele na maior zoadeira, enquanto ele se contorcia deitado na maca e a enfermeira quando viu que ele ainda está em estado interessante, aboticou os olhos no pintão do rapaz de sair gritando por socorro rua afora, o que muito ampliou sua aflição, vez que o hospital virou maior pandemônio, acarretando a intervenção de polícia, bombeiro e muuuuuitos curiosos. Se ele já estava morrendo de dor, ia agora bater as botas de vergonha, agoniado, morre mas num morre, agarrado pelo pescoço pelo atentado ao pudor, até que um médico bebaço aparece para resolver a situação. Pronto, depois do maior vexame, tudo esclarecido, todo mundo estropiado e a noite que era pra ser daquelas para lá de tórrida de gozo, findou mesmo num coro de ais e uis madrugada adentro por toda vizinhança. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

[...] Se nascemos numa sociedade que nos ensina certos valores morais – justiça, igualdade, veracidade, generosidade, coragem, amizade, direito à felicidade – e, no entanto impede a concretização deles porque está organizada e estrutura de modo a impedi-los, o reconhecimento da contradição entre o ideal e a realidade é o primeiro momento da liberdade e da vida ética como recusa da violência. O segundo momento é a busca das brechas pelas quais possa passar o possível, isto é, uma outra sociedade que concretize no real aquilo que a nossa propõe no ideal. [...] o terceiro momento é o da nossa decisão de agir e da escolha dos meios de ação. O último mento da liberdade é a realização da ação para transformar um possível num real, uma possibilidade numa realidade. [...]
Trecho recolhido da obra Convite à Filosofia (Ática, 2004), da filósofa e educadora brasileira Marilena Chauí. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

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sexta-feira, novembro 20, 2015

PALMARES QUILOMBO ZUMBI & TATARITARITATÁ!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FECAMEPA & A ESCRAVARIA TODA - Ahá! Sabe da maior? Deu o créu! Foi mesmo, teve um trupé indigesto que deu num desmantelo nauseante durando uns 400 anos de remoeta! Maior parque de diversão pros colonizadores que davam de urubu só por cima da carne seca! Espia só. Tudo começa quando a maldizente monocultura escravocrata da cana-de-açúcar chega por aqui por volta de 1535, usando abusivamente do braço escravo para se sustentar economicamente. Lembra? Pois é, primeiro foram para as bandas dos índios que depois de muita sacanagem, caiu a ficha deles e se viram na maior roubada pagando um mico da peste. O que deu? O invasor botou as manguinhas de fora e invadiu terra, derrubou matas, tomou as mulheres, bufou e mandou ver. Não deu outra, né? Ôxe, o aborígene deu um freio de arrumação com um ré-pra-trás fuderoso, começando um arranca-rabo que só finda com sua quase extinção. Aí a coisa começa mudando de figura, porque como o papel de servo era para o autóctone, quando este sacou a maruagem, logo se rebelou e tudo virou para o tráfico do negro africano que era tratado talqualmente bicho, ou seja, um antropóide de cor que nem era gente na regulação das Ordenações Filipinas, que o tinha no mesmo capítulo destinado aos animais. Aí sim que deu o outro bode brabo, pois foi quando se deu o pontapé inicial num conflito que num vai terminar nem tão cedo. Pois bem, derramados na praia depois duma travessia das mais sacrificantes, os negros iam se amontoando numa infecta senzala com a mais diversa etnia de boçais e ladinos minas, nagôs, guinéus, minas-nagôs, cafres, calabares, minas-popos, hauçás, malês, jejes, grumcis, tapas, iabus, benins, mundubis, bornus, baribas, grumas, camarões, congos e cabindas, tudo para adoçar o mundo com a desgraça deles. A estratégia dos traficantes era que eles não se entendessem de jeito nenhum, senão era prejuízo certo. Sabidos. A exemplo das carnificinas que vitimaram os ameríndios, os escravos também não escaparam de castrações, amputações, extrações e torturas as mais terríveis. Isso sem falar que eram, entre outras malvadezas, punidos severamente quando famintos lambiam o querosene dos lampiões. Por isso, tinha até escravas que preferiam abortar a ver seus filhos nessa desgraceira de vida. E era justamente essa desgraça que os fraternizava para sublevar, causando a criação de quilombos que, segundo quase todos os historiadores, só deram o ar da graça mesmo na vera no final do séc. XVI. Pelo visto, como registram unanimemente, os escravos não tinham saída: ou a floresta, ínvia, impenetrável, desconhecida e hostil, ou a re-escravização. E aí, hem? Sinuca de bico. Deu no que deu, né? O quilombo era para o rei de Portugal, “(...) toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”. E a fuga era a única forma de libertação e representava um perigo: a tentativa de aqui repetir a façanha da ilha de São Tomé quando os negros tomaram pé da coisa e expulsaram os portugueses. A-há! Bem feito, hem? Destá. O caldo engrossa e a rebelião começa mesmo pra valer quando os fugitivos se deram munidos de armas de fogo, chuços, de facões e de lanças. Nasce, então, Palmares, o mais importante acontecimento do século XVII. Localizada numa imensa selva entre o rio São Francisco e o Cabo de Santo Agostinho, abrigo para os negros fugitivos, índios, mamelucos, mulatos e brancos, bem como fugitivos do serviço militar, criminosos e todos os perseguidos e deserdados da sociedade colonial. Este reduto resistiu a todas as expedições punitivas de 1630 até 1695. Como tudo tem duas faces, a guerra com os palmarinos tinha lá seus interessados, o que, segundo Décio Freitas, por causa disso – a exemplo das inúmeras campanhas e investimentos públicos de hoje -, a roubalheira comia no centro: “(...) em grande parte motivada pela desbragada corrupção que lavrava nos altos escalões administrativos da colônia. Governadores, magistrados, oficiais das câmaras e outros funcionários se apropriavam regular e impunemente das rendas da coroa”. Além do mais, uma coisa era certa: as ordens da coroa eram sempre acatadas, mas raramente cumpridas. Eita! Esse filme eu vejo hoje, né não? Igualzinho, né? Vamos lá. Os quilombos se multiplicavam chegando ao registro de 11 no Amazonas, 04 no Maranhão, 09 em Minas Gerais, 11 em São Paulo, 12 na Bahia, 08 em Sergipe e 11 em Pernambuco. Neste último, Palmares que foi primeiro comandado por Gangga-Zumba, que caiu na besteira de celebrar um tratado de paz com Portugal, findando sitiado em Cucaú e, depois, assassinado. Aparece então Zumbi, o Espártaco Negro dos Palmares, nascido no começo do ano de 1655, numa das inúmeras povoações palmarinas. Esse guerreiro chegou ao ponto ter a patente de capitão reconhecida pelo rei D. Pedro II, de Portugal, que perdoou “seus crimes” na tentativa de selar a paz, Mas tá, hem? Nem aí. E mais ainda: a turma dos senhores de engenho logo se mobilizaram para acabar com essa festinha pacífica e botando fogo no monturo com todas as influencias em Lisboa. Pois é, cada guerra com seus interesses, ora. Aí entra na história a tropa de choque dos sanguinários e violentos bandeirantes paulistas, capitaneados por Domingos Jorge Velho, promotores de briga, ruína e terror. Deram logo um treino – tipo café pequeno - e lascaram a vida duns coitados dos índios janduins. Já eram, coitados. Num foi bem assim, o bafafá deu trabalho, mas findou, a exemplo dos caetés, com a varredura geral dos nativos. O foco passa a ser Palmares, maior teitei estrepitoso. Investidas atrás da outra e nada. Vai e volta, passam os anos. Até o dia que juntaram todo ódio e partiram com tudo para acabar com o que tivesse em pé. No fim, Zumbi não morreu como conta a lenda: um suicídio se jogando no despenhadeiro. Na verdade, ele morreu atraiçoado no dia 20 de novembro de 1695, pelo negro Antonio Soares, numa cilada armada pelos paulistas que transportaram seu corpo para Porto Calvo, lavrando-se o Auto de decapitação do negro Zumbi. Quando todos pensam que a coisa se aquieta, ledo engano, meu. Eis que surge o quilombo de Ambrósio que, segundo Clóvis Moura “Tudo era de todos e não havia nem meu nem teu”, em Minas Gerais, que durou até 1746 quando foi destruído. E ainda prosseguem em Minas Gerais, tanto em 1756 como em 1864, as revoltas negras objetivando a liberdade dos cativos. Ainda no séc. XVIII grupos esparsos de escravos fugidos continuavam homiziados na região palmarina dando trabalho às autoridades coloniais. Foi quando a massa escrava brasileira – as de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro -, se rebelou de vez. Tome bronca. E lá vai logo em 1821 os escravos da fazenda Santana, Ilhéus, na Bahia, se revoltando e permanecendo na propriedade até 1824, prosseguindo em 1828 quando os cativos tentam tomar conta de tudo. Quando ocorre, então, a grande insurreição negra de 1835, em Salvador, findando só no dia 14 de maio, condenados à forca mas por não dispor de carrasco para a execução, restou o fuzilamento de todos os seus membros. Segura a onda que lá vem mais. Depois, entre os anos de 1838/41 foi a vez do Preto Cosme, no Maranhão, aderir à Balaiada. Quando finda a rebelião, o de sempre: os liberais são salvos por anistia, e os escravos sacrificados por obra e comando de 8 mil homens do coronel Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias. Pois é, Preto Cosme foi preso, julgado, condenado e enforcado em São Luis. Também Manuel do Congo, no Estado do Rio de Janeiro, em 1838, liderou uma rebelião na Fazenda Freguesia e Maravilha, quando foi aclamado Rei por todos os revoltosos. Mas, em 1839, Caxias invadiu o quilombo em pavorosa carnificina e tudo já era então, pronto, findada toda festa. Já o quilombo de Jabaquara, em São Paulo, foi formado pela ideologia abolicionista e não pelos escravos. Isso ocorre por volta de 1882, por iniciativa dos abolicionistas Américo Martins e Xavier Pinheiro, sendo escolhido Quintino de Lacerda como líder. Este quilombo finda quatro anos depois de sua criação, junto com a abolição da escravatura em Santos. Mas a coisa vai mudando e a partir de 1870, a região Sul do Brasil passa a empregar assalariados brasileiros e imigrantes estrangeiros. No Norte, as usinas substituem os engenhos de cana. Parece mais que o Brasil vai mudando de vez, acredita? Eu, hem! Ah, vamos lá. Tudo vem na esteira dos acontecimentos internacionais com a extinção do tráfico negreiro em 1850 – e o Brasil, como sempre, atrasado como porra. Depois, veio a Lei do Ventre-livre, de 1871, tornando livres os filhos dos escravos. Logo após, a lei dos Sexagenários de 1885 que contemplava os negros de mais de 65 anos. E por fim, a Lei Áurea de 1888, declarando livre todos os escravos, sendo, pois, o Brasil o último país do mundo a abolir a escravidão negra depois de quase 400 anos de regime escravista. Ô atraso, hem? Pensa que terminou por aí, foi? Então vamos aprumar a conversa. Sabe qual a remissão dos pretos então libertados? Claro e evidente que toda cultura escravista brasileira não desaparece por força de uma simples lei, nada disso. E passando a limpo: tudo aconteceu – como sempre acontece no mundo – por força do desenvolvimento econômico, custe o que custar, né? Pois bem, a revolta que criou o Estado Negro de Palmares resistiu até o fim do séc. XVIII. Foram ao todo 35 expedições. Dá pra ver os custos desses gastos e a contraproducência, tudo em nome da ambição, ganância e avareza. Seria cômico se não fosse trágico! A lição que fica dessas revoltas todas é que se adoçava o mundo com o sangue da desgraça humana. Quer a prova dos nove? Ainda há que considerar que o regime escravocrata se mantém disfarçado ainda hoje e de forma tal que nenhum órgão fiscalizador – que também é ao mesmo tempo conivente – é capaz de flagrar, punir e erradicar. Vê-se, apenas, que uma vez ou outra é feita uma incursão séria entre os Andorinhas da cana, ou nas fazendas de todos os Estados, ou qualquer esporádica intervenção combatendo o escravismo, logo é flagrada e registrada pela mídia atual, muito embora resulte no afastamento de funcionários que vão tomar na tarraqueta ou casa de caixa pregos, engavetamento de processos que viram dorminhocos dos compadrios, retaliações violentas que sapecam o pé do maluvido delator e impunidade geral reinando para felicidade dos promotores do desenvolvimento econômico do país. Inegavelmente tal escravismo disfarçado que já vinha desde sempre solapando a massacrada vida dos trabalhadores da economia privada brasileira, mascarou-se mais com a flexibilização e desregulamentação das leis trabalhistas em relações informais, subempregos, baixas remunerações, desqualificações e outras práticas abusivas arrepiando a lei e fomentando uma exploração que é protestada desde que o sujeito entra para trabalhar e não tem hora para sair e sem hora-extra nem qualquer verba indenizatória, ao bel prazer da bondade do patrão. Vê-se com isso que a escravidão só fez virar com uma cara eufemista, persistindo ainda hoje com outra nomenclatura. Precisamos, pois nos libertar de verdade. Ih, lascou, né? Pois é, gente, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!! Veja mais aqui e aqui

Imagem: Negra nua, do artista intermídia, desenhista, programador visual e publicitário libanês radicado no Brasil Samir Mattar.


Curtindo o álbum musical Missa dos Quilombos (1982, Ariola/Universal Music), de Milton Nascimento em parceria com Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra.

PALMARES, A GUERRA DOS ESCRAVOS – No livro Palmares, a guerra dos escravos (Graal, 1982), do jornalista e historiador Décio Freitas (1922-2004), trata sobre homens livres e escravos, Angola Janga, guerra e rebelião, a guerra do mato, Ganga-Zumba, Zumbi, Cruzada contra Palmares, os que preferiram morrer, relatando que a escravidão negra no Brasil foi marcada por sucessivas revoltas e protestos armados, sem paralelo na história de qualquer outro país do Novo Mundo, mas ainda tratados como episódios marginais pela história oficial brasileira. Trata-se da reconstituição histórica e documentada sobre o mais importante desses movimentos - a 'República de Palmares' - um século de luta armada dos negros contra o regime escravocrata de trabalho em que se fundava a economia colonial. Da obra destaco o trecho: [...] A marginalização das revoltas escravas obedeceu a múltiplos e fortes interesses históricos, entre os quais ressaltam como mais óbvios os de preservar os mitos habilmente elaborados e hoje solidamente arraigados do caráter pacífico daquele processo e da brandura do sistema escravista brasileiro. Ainda que a marginalização estivesse implícita na obra que implantou as bases do historicismo oficial brasileiro, a História Geral do Brasil, de Francisco Adolfo Varnhagem, somente veio a ser teorizada por Nina Rodrigues, casualmente o pioneiro dos estudos sobre o negro. As revoltas escravas constituíram, segundo Nina Rodrigues, não casos de protesto social, mas fenômenos de criminalidade multitudinária ou, na melhor das hipóteses, de regressão tribal. A tese fez fortuna tanto mais rápida quanto que legitimava a repressão às revoltas escravas e conferia aos amos um papel historicamente progressista, como quando proclama, por exemplo, que com o esmagamento de Palmares se eliminou a maior ameaça à civilização do futuro povo brasileiro. Quando o contrário é que é verdade: o mal proveio precisamente da incapacidade dos escravos de destruírem um sistema econômico e social que bloqueava o progresso do Brasil. [...]. Veja mais aqui.

O QUILOMBO DOS PALMARES – O livro O quilombo dos Palmares (Civilização Brasileira, 1966), do escritor, advogado e etnólogo Edison Carneiro (1912-1972), trata sobre a campanha nos Palmares, os negros no quilombo, as investidas holandesas, as primeiras expedições, Fernão Carrilho, o assalto final e a questão de terras. Da obra destaco os trechos: A floresta acolhedora dos Palmares serviu de refugio a milhares de negros que se escapavam dos canaviais, dos engenhos de açúcar, dos currais de gado, das senzalas das vilas do litoral, em busca da liberdade e da segurança, subtraindo-se aos rigores da escravidão e às sombrias perspectivas da guerra contra os holandeses. [...] O quilombo dos Palmares foi um Estado negro à semelhança dos muitos que existiam na África, no século XVII – um Estado baseado na eletividade do chefe mais hábil ou mais sagaz, de maior prestigio e felicidade na guerra ou no mando [...] Os Palmares constituíram-se no inimigo de portas adentro de que falava um documento contemporâneo, de tal maneira que o governador Fernão Coutinho podia escrever ao rei (1671): Não está menos perigoso este Estado com o atrevimento destes negros do que esteve com os holandeses, porque os moradores, na suas mesmas casas, e engenhos, têm inimigos que os podem conquistar... O quilombo era um constante chamamento, um estímulo, uma bandeira para os negros escravos das vizinhanças – um constante apelo à rebelião, à fuga para o mato, à luta pela liberdade. As guerras nos Palmares e as façanhas dos quimbolas assumiram caráter de lenda, alguma coisa que ultrapassava os limites da força e do engenho humano. Os negros fora do quilombo consideravam imortal Zumbi – a flama da resistência contra as incursões dos brancos. [...] Veja mais aqui.

NEGRINHA – No livro Negrinha (Revista do Brasil, 1920), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), destaco o conto homônimo: Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças. Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo. Ótima, a dona Inácia. Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa: — Quem é a peste que está chorando aí? Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero. — Cale a boca, diabo! No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer... Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. — Sentadinha aí, e bico, hein? Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas. — Braços cruzados, já, diabo! Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante. Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim. Que ideia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste... O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta... A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”... O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo: — Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!... Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor! Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente. Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias. — “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa. Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se. — Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias. — Traga um ovo. Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou: — Venha cá! Negrinha aproximou-se. — Abra a boca! Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois: — Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste? E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava. — Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá! — A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre. — Sim, mas cansa... — Quem dá aos pobres empresta a Deus. A boa senhora suspirou resignadamente. — Inda é o que vale... Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas. Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo. Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos. Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”? Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre. — Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa. — Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora. — Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco. Chegaram as malas e logo: — Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas. Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos. Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia... Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial. — É feita?... — perguntou, extasiada. E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la. As meninas admiraram-se daquilo. — Nunca viu boneca? — Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca? Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade. — Como é boba! — disseram. — E você como se chama? — Negrinha. As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca: — Pegue! Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena. Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se. Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos. Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida: — Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein? Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu. Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha... Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher. Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava! Assim foi — e essa consciência a matou. Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada. Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida. Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos. Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a. Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma. Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada. Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta. Mas, imóvel, sem rufar as asas. Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou... E tudo se esvaiu em trevas. Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados... E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. — “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?” Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia. — “Como era boa para um cocre!...” Veja mais aqui e aqui.

LIVRE & OUTROS POEMAS! – No livro Poemas (Unisul, 2014), do poeta Cruz e Sousa (1861-1898), organizado pela escritora e professora Eglês Malheiros, destaco inicialmente o poema Livre: Livre! Ser livre da matéria escrava, / arrancar os grilhões que nos flagelam / e livre penetrar nos Dons que selam / a alma e lhe emprestam toda a etérea lava. / Livre da humana, da terrestre bava / dos corações daninhos que regelam, / quando os nossos sentidos se rebelam / contra a Infâmia bifronte que deprava. / Livre! bem livre para andar mais puro, / mais junto à Natureza e mais seguro / do seu Amor, de todas as justiças. / Livre! para sentir a Natureza, / para gozar, na universal Grandeza, / Fecundas e arcangélicas preguiças. Também o poema Dilacerações: Ó carnes que eu amei sangrentamente, / ó volúpias letais e dolorosas, / essências de heliotropos e de rosas / de essência morna, tropical, dolente... / Carnes, virgens e tépidas do Oriente / do Sonho e das Estrelas fabulosas, / carnes acerbas e maravilhosas, / tentadoras do sol intensamente... / Passai, dilaceradas pelos zelos, / através dos profundos pesadelos / que me apunhalam de mortais horrores... / Passai, passai, desfeitas em tormentos, / em lágrimas, em prantos, em lamentos / em ais, em luto, em convulsões, em dores... o belíssimo poema Escárnio Perfumado: Quando no enleio / De receber umas notícias tuas, / Vou-me ao correio, / Que é lá no fim da mais cruel das ruas, / Vendo tão fartas, / D’uma fartura que ninguém colige, / As mãos dos outros, de jornais e cartas / E as minhas, nuas – isso dói, me aflige… / E em tom de mofa, / Julgo que tudo me escarnece, apoda, / Ri, me apostrofa, / Pois fico só e cabisbaixo, inerme, / A noite andar-me na cabeça, em roda, / Mais humilhado que um mendigo, um verme… Por fim, o seu poema Ironia de lágrimas: Junto da morte é que floresce a vida! / Andamos rindo junto a sepultura. / A boca aberta, escancarada, escura / Da cova é como flor apodrecida. / A Morte lembra a estranha Margarida / Do nosso corpo, Fausto sem ventura… / Ela anda em torno a toda criatura / Numa dança macabra indefinida. / Vem revestida em suas negras sedas / E a marteladas lúgubres e tredas / Das Ilusões o eterno esquife prega. / E adeus caminhos vãos mundos risonhos! / Lá vem a loba que devora os sonhos, / Faminta, absconsa, imponderada cega! Veja mais aqui.

ARENA CONTA ZUMBI – No musical em dois atos Arena conta Zumbi (1965), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo, destaco o seguinte trecho: [...] MERCADO – MERCADOR APREGOA SEU PRODUTO MERCADOR: olha o nego recém-chegado. Magote novo, macho e fêmea em perfeito estado de conservação. Só vendo moço e com forças. Para serviço de menos empenho tenho os mais fracos e combalido, pela metade do cobrado. Quinze mil réis o são, sete mil e quinhentos os estropiados. Escravo angolano purinho. Olham o escravo recém-chegado, magote novo, macho e fêmea cantador. CANTADOR: assim é que conta a história, que nas terras de um senhor, sentiu Zambi afamado, o chicote do feitor. (TRÊS ATORES REVEZAM-SE NA DESCRIÇÃO CIENTÍFICA, SLAIDES ILUSTRATIVOS SÃO MANIPULADOS POR UM QUARTO ATOR; UM QUINTO ARRANJA A TELA) 1 – Se desagradava ao branco 2 – Tronco. 3 – Pescoço, pés e mãos imobilizados entre dois grandes pedaços de madeira retangular. 2 – Se houvesse ofensa mais grave.3 – Viramundo. 1 – Pequeno instrumento de ferro que prendia pés e mãos do escravo forçando-o a uma posição incômoda durante vários dias. 3 – Se a ofensa requeria castigo mais prolongado. 1 – Cepo. 2 – Longo toro de madeira que o negro deveria carregar à cabeça preso por uma corrente ao tornozelo. 1 – Se fugisse. 2 – Libambo. 3 – Argola de ferro que rodeava o pescoço do negro com uma haste terminada por um chocalho. 2 – Ou então a gargalheira. 3 – Ou golilha. 1 – sistema de correntes de ferros que impedia os movimentos. 3 – Se furtasse. 1 – Prendiam-lhe na cara uma máscara de folha de Flandres fechado no occiput por cadeados e penduravam-lhe nas costas uma placa de ferro com os seguintes dizeres “Ladrão”. 2 – O “Ladrão e Fujão”. 3 – Se o senhor queria obter uma confissão do negro apertava os seus polegares com os anginhos. 2 – Dois anéis de ferro que diminuíam de diâmetro a medida em que se torcia um pequeno parafuso provocando-lhe dores horríveis. 1 – Nas falhas mais graves o negro era supliciado publicamente nos pelourinhos da cidade com o... 2 – Bacalhau. 3 – Um chicote especial de couro cru. ATOR 4 – Não há trabalho nem gênero de vida no mundo mais parecido à cruz e a paixão de Cristo do que o vosso. TODOS – Padre Antônio Vieira. ATOR 5 – E foi através desses instrumentos engenhosos que se persuadiu o negro a colaborar na criação das riquezas do Brasil. FUGA 1 – Zambi, êi Zambi. 2 – Cadê Zambi? 3 – Onde está? 4 – Curou as feridas. 5 – Tomou fôlego. 6 – Estufou o peito. 7 – Partiu. 1 – Zambi fugiu. TODOS – Zambi fugiu. NARRADOR: Negros de todos os lugares procuravam as matas fugindo desesperados. Horror a chibata, ao tronco, às torturas. Buscavam no desconhecido um, futuro sem senhor. Enfrentavam todo o perigo. Fome, sede, veneno, flecha dos índios, capitães do mato. Agonia pela liberdade. Ideia de ser livre. NEGROS NAS MATAS NICO – Não quero ser livre. Ser livre pra que? 1 – Quieto Nico, tú vem cum nóis. NICO – Pra que? Me diz. Pronde é que vão? 2 – Pra longe, pra num sei onde. NICO – Pois eu fico. No menos sei onde estou. 3 - Tú vem cum nóis que braço faz falta. NICO – Vou coisa nenhuma. Ter muita querença dá sempre em bolo. 9 – Quem é negro tem sua sorte que é essa de tai de escravo. 5 – Coisa nenhuma, sorte de negro é ganhar a mata, plantá, construir cidades, seus reis, sua nação. NICO – Quem muito quer cai em desgraça. Deixa de ser tão querençoso, mano. Aqui se come, se bebe, se tem teto pra dormir. Negro ladino consegue escapar da chibata e até que a Sinhá daqui não é das mais malvadas. 6 – Cala a boca, negro, tu já perdeu a vontade? NICO – Vontade eu tenho de saber de mim. 7 – Melhor o desconhecido do que essa prisão. NICO – Melhor se saber do que se arriscar. O que é que tem aí pela frente, me diz? Que é que tem ninguém sabe, né? 1 – Sabemo, que tem gente que já viu. Tem palmeiras, árvore de não se acabá. NICO – Palmeira e árvore e daí? (CANTAM A CANÇÃO DAS DÁDIVAS DA NATUREZA) [...]. Veja mais aqui.

XICA DA SILVA – O filme Xica da Silva (1976), dirigido pelo cineasta Carlos Diegues, é baseado no livro homônimo de João Felicio dos Santos, conta a história da escrava Francisca da Silva de Oliveira, ou simplesmente Chica da Silva (1732-1796), que foi alforriada no Arraial do Tijuco, hoje Diamantina, Minas Gerais, no século XVIII. Ela manteve durante mais de quinze anos uma união consensual estável com o rico contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira, tendo com ele treze filhos. A sua vida tornou-se um mito e após a sua morte, Chica da Silva tornou-se desconhecida do grande público. Contudo, na segunda metade do século XIX, Joaquim Felício dos Santos, nas Memórias do Distrito Diamantino, trouxe à tona a existência da ex-escrava. Posteriormente, a história de Chica foi revisitada por diversos autores em romances, peças de teatro, poemas e também no cinema e na televisão. Destaque para a atuação da atriz Zezé Motta. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A escrava, do artista plástico José Augusto Coelho.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, outubro 12, 2015

DRUMMOND, LORCA, NÍSIA, LOBATO, NISE, JAKOBSON, ELIACHAR, TOZZI, MESQUITA & SEGUNDA PRA SEMANA!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DE SEGUNDA PRA SEMANA – Segunda-feira, dia internacional da ressaca. Eita! O dia amanhece devagar, tudo na meia embreagem, começando a gerar aos poucos. Liga o motor do corpo, deixa esquentar devagar pra poder cair no trampo, tudo no lentamente, quase letárgico. É que neguinho começa emborcar o copo na sexta quando larga do trabalho, emenda no sábado tomando todas e no domingo se entope de esborrar até a rendição estropiada de três dias encarreados liberando as neuras, desafogando as mágoas e todas as derrotas do cotidiano. Cabeça de férias, desligamento da labuta. Aí na segunda, depois de um esquento graduado, o Sol dá o tom do alvoroço e tudo volta a funcionar às mil maravilhas com a demonstração de que está novinho em folha, caindo no dia pra ver no que vai dar e no como é que fica. Como a vida é uma luta, muitos se valem do lamentável expediente da guerra. Arrocha! Cada qual que se cuide. É a hora de afiar a astúcia e mirar bem no alvo daquilo que traga recompensa. Todo mundo corre atrás dessas recompensas. Nem se dá conta de que, tal como Sísifo, é tudo de novo, empurrando pra cima e tornando a descer, pra novamente botar tudo em riba e embolar dia após dia, tudo de novo e bisado novamente: agenda, contatos, compromissos, reuniões, pagamentos, correria pro ganhapão, saques e coberturas, enrolações e soluções, broncas superadas ou adiadas, tem que ser sabido pra chegar na frente, e correr mais que os outros porque chapéu de otário é marreta e alguém tem que chorar pra alguém poder sorrir. É isso, ou mais ou menos isso. Por aí. Assim vai até quando passa o efeito anestésico e se constata que não há sinergia, nada dá liga nem sintonia, tá tudo revirado. Vai na raça! Torce o rabo da porca, tira leite de pedra. Dá pra perceber até que todos estão absortos com a morte da bezerra. Ora, ora. É pegar no desprevenido! É o mundo da contenda: abriu a guarda, é lona. Mesmo assim, nada dá certo, cada um por si e que apareça um doido dum heroico salvador que seja por todos nós. Vai daí a pergunta: o que há com o mundo, hem? Tá tudo de pernas pro ar. O que há com as pessoas? Alguma coisa está fora da ordem, como diz Caetano Veloso. Aí, ou se dana pro vai ou racha, ou começa a fraquejar. Acontece, porém, que cada pessoa pensa conforme seu umbigo, seus interesses e desejos. Há quem pense que todos deviam pensar de um jeito só, ou melhor, que todos pensassem e agissem conforme a razão de um que se acha dono da verdade e parte para mudar o mundo e as pessoas. Esses dessa banda insistem que estão certos e que os outros, tudinho, estão errados. Ô mundo destrambelhado! Ainda arvoram dizer que se o mundo todo pensasse como ele, seria outro: - Se houvesse dez iguais a mim o mundo seria uma maravilha! Será? Por isso dizem que quanto mais veem o ser o humano, mais adoram o cachorro. E é exatamente por isso que surge o fato de que cada cachorro se parece com seu dono - ou é o dono que se parece com o cachorro? E com isso a primeira conclusão: cada pessoa pensa diferente. E não podia ser diferente. Contudo, se cada cabeça é um mundo, por que todos não entendem que há um mundo só, esse em que todos nós vivemos, coexistimos? A Terra é uma só e cada cabeça é um mundo. Digo mais, como n’A Primavera de Ginsberg: a Terra é redonda e ainda cagam pelos quatro cantos do mundo. Ué? Pois é. Com isso, não seria mais adequado olhar pro umbigo, chamar na grande e dar uma conversada com ele a respeito de que não é o mundo nem as pessoas que deviam mudar, mas nós mesmos? A primeira guerra não está lá fora, está dentro de cada um. Quando primeiro houver paz nos conflitos interiores de cada um, quando cada um descobrir quem é e não do jeito como quer ser visto, e se conciliar consigo mesmo, aí sim, esse é o primeiro passo pra gente conseguir paz, concórdia, harmonia, sintonia e compreensão na Terra. Vamos aprumar a conversa? Então veja mais aqui

 Imagem: Veja o nu (1968 - Tinta alquídica sobre madeira, tecido e ferro), do pintor, desenhista e programador visual Cláudio Tozzi.


Curtindo o álbum que reúne a Missa a 4 Vozes para Quarta-Feira de Cinzas (1778), do compositor erudito brasileiro Lobo de Mesquita (1746-1805), Stabat Mater, do compositor do Barroco português João Rodrigues Esteves (1700-1751) e Moteto para a Semana Santa, do padre José Mauricio Nunes Garcia (1767-1830), com o conjunto Calíope (1998), direção  Júlio Moretzsohn.

O LUGAR DA LINGUÍSTICA NAS CIÊNCIAS DO HOMEM – O livro Relações entre a ciência da linguagem e as outras ciências (Bertrand/Martins Fontes, 1974), do pensador russo, linguista e pioneiro da analise estrutural da linguagem, Roman Jakobson (1896-1982), aborda sobre as perspectivas linguísticas, o lugar da linguística nas ciências do homem e a linguística e as ciências naturais, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] a linguagem é um elemento constitutivo da cultura, mas, em relação ao conjunto dos fenômenos culturais, o seu papel é o de uma infraestrutura, dum substrato e de um veiculo universal. [...] Certos traços próprios da linguagem estão ligados à situação particular que ela ocupa em relação à cultura, é o caso nomeadamente da aquisição da linguagem pelas crianças e do fato de que nem nas línguas antigas nem nas atuais conhecidas pelos linguistas existe qualquer diferença e estrutura fonológica e gramatical entre estádios relativamente primitivos e relativamente avançados. [...] Assim a comunicação de pares sexuais e de bens ou de serviços surge como sendo, num grau elevado, uma troca de mensagens auxiliares, e a ciência total da comunicação compreende não só a semiótica propriamente dita, ou seja, o estudo das verdadeiras mensagens e dos códigos sobre os quais assentam, mas também as disciplinas em que as mensagens desempenham um papel pertinente embora acessório. Em todo caso, a semiótica ocupa uma posição central geral da comunicação como suporte de todos os outros ramos, enquanto ela própria engloba a linguística e esta, por sua vez, no centro da semiótica, lhe sustenta todos os outros setores. Três ciências pertencentes a um conjunto englobam-se umas às outras e representam três graus de generalização crescente: 1 – o estudo da comunicação de mensagens verbais, ou linguística; 2 – o estudo da comunicação de qualquer espécie de mensagem, ou semiótica, incluindo a de mensagens verbais; 3 – o estudo da comunicação, ou antropologia social e econômica, incluindo mensagens. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS FAZEM DAS MULHERES – No livro Direito das mulheres e injustiça dos homens (1832 – Cortez, 1989), da educadora e escritora Nísia Floresta (1810-1885), destaco o trecho do Capítulo I - Que caso os homens fazem das mulheres, e se é com justiça: Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer, e aprazer a nossos amos, isto é, a eles homens. Tudo isso é admirável e mesmo um muçulmano não poderá avançar mais no meio de um serralho de escravas. Entretanto, eu não posso considerar esse raciocínio senão como grandes palavras, expressões ridículas e empoladas, que é mais fá- cil dizer do que provar. Os homens parecem concluir que todas as outras criaturas foram formadas para eles, ao mesmo tempo em que eles não foram criados senão quando tudo isso se achava disposto para seu uso. Eu não me proporia a fazer ver a futilidade deste raciocínio; mas concedendo que ele tenha alguma ponderação, estou certa que antes provará que os homens foram criados para o nosso uso, do que nós para o deles. É verdade que o emprego de nutrir as crianças nos pertence, assim como a eles unicamente pertence o de gerá-los; se este último lhes dá algum direito à estima e respeito públicos, o primeiro nos deve merecer uma porção igual, pois que o concurso imediato dos dois sexos é tão essencialmente necessário à propagação da espécie humana, que um será absolutamente inútil sem o outro. Que direito pois têm eles de nos desprezar, e pretender uma superioridade sobre nós, por um exercício que eles partilham igualmente conosco? Todos sabem, nem se pode negar, que os homens olham com desprezo para o emprego de criar filhos e que é isso, às suas vistas, uma função baixa e desprezível; mas se consultassem a natureza nesta parte, sentiriam sem que fosse preciso dizer-lhes, que não há no Estado Social um emprego que mereça mais honra, confiança e recompensa. Basta atender às vantagens que resultam ao gênero humano para convir-se nisto; eu não sei se até por essa razão unicamente, as mulheres não mereciam o primeiro lugar na sociedade civil. Qual foi o fim para que os homens se reuniram em sociedade, senão para terem suas vidas mais seguras e pacificamente gozarem tudo que lhes apraz? Todos aqueles, pois, que mais contribuem a essa vantagem pública devem por isso obter maior porção de stima pública. Ora, as mulheres, encarregando-se generosamente e sem interesse do cuidado de educar os homens na sua infância, são as que mais contribuem para essa vantagem, logo são elas que merecem um maior grau de estima e respeito públicos. Partindo desse princípio é que se olham os príncipes como as primeiras pessoas do Estado. Nessa qualidade, ou grau de elevação, se lhes conferem as principais honras; porque supõe-se ao menos que eles se sobrecarregam de grandes cuidados, vigílias e inquietações, que exige a prosperidade do bem público. Da mesma sorte tributamos mais ou menos respeito àquelas pessoas que estão abaixo deles e que mais se lhes aproximam, porque as olhamos como pessoas mais úteis à sociedade, segundo partilham mais ou menos as fadigas do serviço público. É pela mesma razão que preferimos os militares aos literatos; porque os olhamos como um baluarte entre nós e nossos inimigos. Todos concordam em respeitar as pessoas à proporção de sua utilidade; eis pois a medida de seu merecimento. Ora, sendo essa regra aplicável a todas as circunstâncias da vida, por que não devem ter as mulheres, mais que todos, direito à estima pública, contribuindo mais, sem comparação, a seu bem-estar? Os homens podem absolutamente passar sem príncipes, generais, soldados, jurisconsultos, como antigamente e ainda hoje passam os selvagens; mas podem passar sem amas na sua infância? E se por si são incapazes de exercer esse importante emprego, não precisam indispensavelmente das mulheres? Em um Estado tranquilo e bem regido, a maior parte dos homens são inúteis em seus ofícios e inútil toda sua autoridade, mas as mulheres não deixarão jamais de ser necessárias enquanto existirem homens e estes tiverem filhos. Para que servem os juízes, os magistrados e os oficiais, senão para garantir a segurança e propriedade dos bens daqueles que, se não fosse proibido, seriam capazes de fazer justiça a si mesmos mais exata e prontamente? Porém as mulheres, mais verdadeiramente úteis, se ocupam em lhes conservar a vida para gozarem dessa propriedade. Estimam-se e recompensam-se os soldados, porque combatem para defender os homens feitos, que são tão capazes, e mesmo mais que eles, de se defenderem. Com quanta maior razão não merece o nosso sexo essa estima e recompensa, trabalhando para defender os homens numa idade em que não sabem o que são, não podem distinguir os amigos dos inimigos, e nem têm outra defesa mais que suas lágrimas? Se os príncipes e os ministros se sacrificam algumas vezes pelo bem público, a ambição é o único móvel, é para adquirir poder, riquezas e esplendor que eles o fazem. Porém, nossas almas mais generosas não atendem senão ao bem das crianças, que nutrimos e educamos, pois que todos os dias experimentamos que a recompensa que temos a esperar dessas criaturas desnaturadas, pelos trabalhos, cuidados, inquietações e infinitos embaraços, que nos causam e de que não se acha exemplo em todos os outros estados da sociedade civil, se reduz a maus tratamentos e a um desprezo repreensível para com o nosso sexo em geral. Tais são os generosos ofícios que lhes prestamos; tal é a ingratidão com que nos recompensam. Sem dúvida é preciso que os homens tenham a imaginação bem corrompida para olharem um exercício tão importante como baixo e desprezível, e para lhe recusar toda estima que na realidade merece. Com que liberalidade não se recompensa aquele que consegue domesticar um tigre, um elefante e outros semelhantes animais? E as mulheres, que passam seus belos anos ocupadas em amansar o homem, este animal ainda feroz, não serão pagas senão com desprezo? Se nos remontarmos à origem dessa injusta parcialidade, encontraremos que a única e verdadeira causa do pouco reconhecimento, que se tem aos importantes serviços que as mulheres prestam aos homens, é que eles são comuns e ordinários. Entretanto, seja qual for a recompensa, o prazer que a generosidade de nosso sexo acha em preencher esse ofício basta para que nós o desempenhemos com toda ternura e sem vistas de interesse. Eu não pretendo queixar-me de não recebermos recompensa: seja-me somente permitido dizer, que por sermos mais capazes que os homens em desempenhar esse cargo, não se segue que não possamos também desempenhar outro qualquer. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

O ESPIÃO ALEMÃO – No livro Cidades Mortas (1919-Brasliense, 1995), do escritor, editor e tradutor Monteiro Lobato (1882-1948), encontro o conto O espião alemão, do qual destaco os trecos a seguir: Abre a história. Escuta, só ouvirás rumores de guerra. Aquele tropel desapoderado? É a avalhancha tártara. Tamerlão, o tigre coxo, derrama sobre a Pérsia legiões de feras – e leva a chacina a proporções inauditas. Seu capricho exige em Ispagan setenta mil cabeças humanas. Cada seção do exército lhe há de fornecer uma quota. Fartos, cansados de cortá-las, os soldados entram a adquiri-las, pagando a moeda de outro cada uma. Era bom negocio, a oferta cresceu e o preço baixou a meia moeda. Reunidas as setenta mil, Timur construiu torres de crânios em redor da cidade. Ruge a sangueira além. É em Delhi. Timur, tigre precavido, antes de bater-se com Maomé IV delibera aliviar o exercito de cem mil prisioneiros incômodos. Solução magistral: degola-os... a vaga prossegue, chega a Ancira, esmaga Bajaze, o grande sultão, e passa... e acolá? Assíria. De Nínive, antro de leões famintos, descem para a carniçaria os reis flecheiros. Assurbarnipal canta os próprios feitos em inscrições chegadas até nós: “Construí um muro diante das portas da cidade e forrei-o com a pele dos chefes. A outros emparedei vivos, a outros empalei ao longo das muralhas. Fiz arrancar o couro, em minha presença, a inúmeros, e revesti paredes com esse couro semivivo. Reuni cabeças em forma de coroas e os corpos entrelacei como guirlandas”. A vuda da Assiria é toda uma primorosa carnificina. Tujklatabazar, Assurbanipal, Nabuco, Sargão – todos os magarefes reais viram a sua pericia em arrancar o couro a criaturas humanas cantada pelo poetas, comemorada pela arquitetura, admirada pelos pósteros. Timur passou. Passou a Assiria. Homens e coisas passam, mas a guerra fica. É a guerra uma permanente. O homem tem a vocação do morticínio. A arte apoteosa a carniça. Os poetas só ascendem ao épico se o bafio de sangue lhes fumega a inspiração. A beleza suprema é Aquiles fendendo crânios do frontal à nuca, e a história da humanidade não passa dum sistema potamográfico de enxurros vermelhos, musicado pelos gemidos de dor dos vencidos. A guerra sempre! Sempre guerras! A guerra dos Sete Chefes, a Guerra de Troia, as guerras púnicas, as guerras de Roma – escravos, Numância, mercenários, Jugurta, Mitridates, civil... depois as guerras de invasão. As cruzadas depois. E as guerras de religião. E as guerras dinásticas. A dos Cem Anos, a dos Trinta Anos, a guerra das Duas Rosas, a da sucessão da Espanha. A guerra americana de secessão. As napoleônicas, a russo-turca, a hispano-americana, a sino-japonesa, a franco-prussiana, a anglo-boer... depois, depois a Guerra Geral, a guerra do mundo contra a Alemanha. O rosário para aqui. Mas como não para o Ódio e como a Estupidez Humana é irredutível, o futuro verá tantas guerras quantas viu o passado. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

APELO A MEUS DESSEMELHANTES EM FAVOR DA PAZ – Na Antologia poética (José Olympio, 1979), do escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), destaco o poema Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz: Ah, não me tragam originais / para ler, para corrigir, para louvar / sobretudo, para louvar. / Não sou leitor do mundo nem espelho / de figuras que amam refletir-se / no outro à falta de retrato interior. / Sou o Velho Cansado / que adora o seu cansaço e não o quer / submisso ao vão comércio da palavra. / Poupem-me, por favor ou por desprezo, / se não querem poupar-me por amor. / Não leio mais, não posso, que este tempo / a mim distribuído / cai do ramo e azuleja o chão varrido, / chão tão limpo de ambição / que minha só leitura é ler o chão. / Nem sequer li os textos das pirâmides / os textos dos sarcófagos, / estou atrasadíssimo nos gregos, / não conheço os Anais de Assurbanipal, / como é que vou - / mancebos, / senhoritas, / - chegar à poesia de vanguarda / e às glórias do 2.000, que telefonam? / Passam gênios talvez entre as acácias, / sinto estátuas futuras se moldando / sem precisão de mim / que quando jovem (fui-o a.C., believe or not) / nunca pulei muro de jardim / para exigir do morador tranquilo / a canonização do meu estilo. / Sirvam-se de exonerar este macróbio / do penoso exercício literário. / Não exijam prefácios e posfácios / ao ancião que mais fala quando cala. / Brotos de coxa flava e verso manco, / poetas de barba-colar e velutínea / calça puída, verde: tá! / Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes: / tá! / O senhor saiu. Hora que volta? Nunca. / Nunca de corvo, nunca de São-Nunca. / Saiu pra não voltar. / Tudo esqueceu: responder / cartas; sorrir / cumplicemente; agradecer / dedicatórias; retribuir / boas-festas; ir ao coquetel e à noite / de autógrafos-com-pastorinhas. / Ficou assim: o cacto de Manuel / é uma suavidade perto dele. / Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera. / Na jaula do mundo passeia a pata aplastante, / cuidado com ela! / Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta / quando ele nasceu. / Ele não nasceu. / Não vai nascer mais. / Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho / com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar, / tragam-no vivo para fazer uma conferência. / Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo. / Não lhe, não me peçam opinião / que é impublicável qualquer que seja o fato do dia / e contraditória e louca antes de formulada. / Fotógrafos: não adianta / pedir pose junto ao oratório de Cocais / nem folheando o álbum de Portinari / nem tomando banho de chuveiro. / Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem. / Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas. / Quero a paz das estepes / a paz dos descampados / a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira / a paz de cima das Agulhas Negras / a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada / de Morro Velho / a paz / da / paz. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

YERMA – A peça teatral Yerma (1934), do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936), é uma obra popular de caráter trágico, ambientada na Andaluzia, no inicio do século XX, contando a história de uma mulher que vive o drama de não poder conceber um filho, buscando de todas as formas engravidar e enfrentando a indiferença do marido que não demonstra nenhum interesse em compartilhar da sua angustia. Da obra destaco o trecho inicial do Ato 1 -  PRIMEIRO ATO PRIMEIRO QUADRO (Ao levantar-se o pano, Yerma está adormecida, tendo aos pés uma cestinha de costura. A cena tem uma estranha luz de sonho. Entra um pastor nas pontas dos pés, fitando firmemente Yerma. Leva pela mão um menino vestido de branco. O relógio bate. Quando o pastor entra, a luz é substituída por uma alegre claridade matinal de primavera. Yerma desperta) CANTO - (Voz dentro) Nana, nana, nana, nana, nana, nana, que faremos uma palhoça no campo e nela nos meteremos. YERMA - João, não me ouves, João? JOÃO - Já vou. YERMA - Está na hora. JOÃO - Já passaram as juntas? YERMA - Passaram. JOÃO - Até logo. (Faz menção de sair) YERMA - Não tomas um copo de leite? JOÃO - Para quê? YERMA - Trabalhas muito e não tens corpo para tanto trabalho. JOÃO - O corpo enxuto de carne torna-se forte como o aço. YERMA - Mas o teu, não. Quando casamos, eras outro. Agora tens a cara branca como se o sol não te batesse nela. Gostaria que fosses ao rio e nadasses, e subisses ao telhado quando a chuva nos entra pela casa adentro. Já estamos casados há vinte e quatro meses e tu cada vez mais triste, mais seco, como se crescesses ao contrário. JOÃO – Acabaste? YERMA - (Levantando-se) – Não me leves a mal. Se eu estivesse doente, gostaria que me tratasses. “Minha mulher está doente – vou matar este cordeiro para fazer-lhe um bom ensopado.” “Minha mulher está doente – vou guardar esta enxúndia de galinha para aliviar-lhe o peito; vou levar-lhe esta pele de ovelha para resguardar-lhe os pés da neve.” Eu sou assim. Por isso trato de ti. JOÃO - E eu te agradeço. YERMA - Mas não te deixas tratar. JOÃO - É que não tenho nada. Todas essas coisas são suposições tuas. Trabalho muito. Todos os anos irei ficando mais velho. YERMA - Todos os anos... Tu e eu continuaremos aqui todos os anos... JOÃO - (Sorridente) – Naturalmente. E muito sossegados. Os negócios vão bem; não temos filhos que gastem. YERMA - Não temos filhos... João! JOÃO - Fala. YERMA - Eu não gosto de ti? JOÃO - Gostas. YERMA - Sei de raparigas que tremeram e choraram antes de se entregarem a seus maridos. E eu? Chorei? A primeira vez que dormi contigo? Não cantava ao levantar as barras dos lençóis de holanda? E não te disse: Como cheiram a maça estas roupas? JOÃO - Foi o que disseste! YERMA - Minha mãe chorou, porque não tive pena de separar-me dela. E era verdade! Ninguém se casou com mais alegria. E no entanto... JOÃO - Cala-te. Já estou cansado de ouvir a todo instante... YERMA - Não. Não me repitas o que dizem. Vejo com os meus olhos que isso não pode ser... De tanto cair a chuva nas pedras, elas amolecem e fazem nascer saramagos, que o povo diz que não servem para nada. “Os saramagos não prestam para nada”... Mas eu bem os vejo moverem pelo ar suas flores amarelas. JOÃO - É preciso esperar. YERMA - Sim; querendo (Yerma abraça e beija o marido, tomando ela a iniciativa) JOÃO - Se precisas de alguma coisa, dize-me que a trarei. Já sabes que não gosto que saias. YERMA - Nunca saio. JOÃO - Estás melhor aqui. YERMA - É. JOÃO - A rua é para os desocupados. YERMA - (Sombria) – Claro. (O marido sai e Yerma dirige-se para a costura. Passa a mão pelo ventre, levanta os braços num lindo bocejo e senta-se a coser) De onde é que vens, amor, meu filho? Da crista do duro frio. De que precisas, amor, meu filho? Do morno pano de teu vestido. (Enfia a agulha) Que se agitem as ramas ao sol e as fontes saltem todas, em redor! (Como se falasse com uma criança) Ladra o cão pelo terreiro, na folhagem canta o vento. Muge o boi ao boiadeiro e a lua me encrespa o cabelo. Que pedes, filho, de tão longe? (Pausa) Os brancos montes que há no teu peito. Que se agitem as ramas ao sol e as fontes saltem todas, em redor! (Cosendo) Filho meu, dir-te-ei que sim. Despedaçada me dou a ti. Sofre a cintura que te ofereço, e que será teu primeiro berço! Quando, meu filho, poderás vir? (Pausa) Quando teu corpo cheire a jasmim. que se agitem as ramas ao sol e as fontes saltem todas, em redor! (Yerma continua a cantar. Pela porta entra Maria, que vem com um embrulho de roupa) [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


NISE, O CORAÇÃO DA LOUCURA – O filme Nise, o coração da loucura (2015), dirigido por Roberto Berliner, conta a história da saída da prisão da médica psiquiatra e psicoterapeuta alagoana, Nise da Silveira (1905-1999), retornando aos trabalhos num hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, quando se recusa a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos. Isolada pelos médicos, resta a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início à uma revolução regida por amor, arte e loucura. A protagonista é representada pela atriz Gloria Pires, com roteiro de roteiro Flávia Castro, Mauricio Lissovsky, Maria Camargo e Chris Alcazar, roteiro final de Patricia Andrade, Leonardo Rocha e Roberto Berliner, e trilha sonora original Jaques Morelenbaum. Este filme é mais que uma justíssima homenagem a esta grande mulher e profissional que foi, indubitavelmente, umas das maiores representantes da humanização no tratamento das doenças mentais. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
O livro A mulher em flagrante (Francisco Alves, 1970), do escritor e jornalista Leon Eliachar (1922-1987), do qual destaco as pérolas: “O homem se casa para vencer a solidão, a mulher para ficar só; o homem se casa para ficar em casa, a mulher para saír; o homem se casa por descuido, a mulher por precaução. Biquini são dois pedaços de pano cercado de mulher por todos os lados”. Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá;
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MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...