quarta-feira, novembro 18, 2020

FERNANDO PESSOA, MARGARET ATWOOD, TOULA LIMNAIOS, CHE GUEVARA, LULA CARDOSO AYRES & SANDRA FILARDI


  

TRÍPTICO DQC: JANELA DOS SONHOS - Curtindo Pepperland, song by George Martin from the album Yellow Submarine (1968), The Beatles. - À janela os meus sonhos são muitos e vãos no crepúsculo. Estou perdido e diante de um templo repleto de morcegos sobre a selva cerrada de mandrágoras e papoulas gigantescas. O acesso é difícil e se parece distanciar o tempo inteiro. As altas muralhas exibem todas as cores do arco-íris e duas fontes jorram junto aos portões. Onde estou não sei nem o que fazer diante deste espetáculo. Luciano de Samósata surgiu em meu socorro, esclarecendo ser essa a Ilha dos Sonhos. O templo é da deusa da Noite e os morcegos são os seus pássaros. Uma das fontes é a do Sono Eterno e, a outra, a Noite Profunda: nelas a nascente do rio Viajante Noturno. A partir disso mostrou-me as portas do campo da Indolência pelas quais escapam sonhos terríveis, homicidas e pecaminosos; outras, como as de chifre, dão para o mar por onde passam sonhos verdadeiros; das de marfim brotam apenas os falsos sonhos. Não consegui ver nenhum habitante, mas ele me falou que possuem diversos aspectos, alguns pequenos, feios e desagradáveis; outros têm asas ou rostos espantosos. Logo percebi que não só ele, como outros povoavam o meu momento, a exemplo de um passante que logo reconheci, Fernando Pessoa e me falou: Tenho em mim todos os sonhos do mundo. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Logo apareceu Goethe: Gosto daquele que sonha o impossível. Ao lado dele, Edgar Allan Poe: Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite. Em seguida, Marcel Proust: Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais. Mais vale sonharmos a nossa vida do que vivê-la, embora vivê-la seja também sonhar. Por fim, Che Guevara: Sonha e serás livre de espírito... Luta e serás livre na vida. Noite movimentada enquanto me mantive sem pregar os olhos.

 


AO PÉ DA BANANEIRA – Imagem: art by Sandra Filardi - Ao som de Bananeira, de João Donato & Gilberto Gil, na voz belíssima de Bebel Gilberto: Bananeira, não sei / bananeira, sei lá / a bananeira, sei não / a maneira de ver / bananeira, não sei / bananeira, sei lá / a bananeira, sei não / isso é lá com você / será / no fundo do quintal / quintal do seu olhar / olhar do coração. – Despertei e era ela esvoaçante na manhã, cantarolava radiante. Surpreso por me encontrar à beira-mar, à sombra da Musa paradisíaca – Musaceae, a erva do paraíso, originária da região Indo-malaia e ela sim, sim, ela tagarelava sobre a pacoveira, dizendo disso e daquilo, de que não é uma árvore, é uma erva gigante! Como é? Há o mito birmanês do Pyng Hnget, de que ela foi a primeira fruta que o homem comeu por alimento. Foi? Uma lenda indiana dá conta de que os antigos sábios descansavam à sua sombra e comiam de seus frutos. Há o mito chinês da donzela espectral, que faz de tudo para salvar os amantes separados e que, ao final da empreitada, se torna uma bananeira. Nas histórias africanas ela está relacionada com fertilidade e parto, incluindo que o primeiro homem nasceu dela. Em Uganda enterra-se a placenta do recém-nascido ao pé da bananeira. Há a lenda tailandesa do Nang Tani, um espírito silvestre feminino dos bosques da lua cheia que vingam as mulheres abusadas e maltratadas e é um fantasma que habita nas bananeiras não comestíveis, mas que possuem propriedades mágicas e curativas. No sertão nordestino é corrente que aquele ou aquela que meter uma faca na bananeira no meio da noite dos festejos juninos, verá o nome do futuro noivo ou noiva, escrito com as letras tremidas do tanino, conforme registrado por Câmara Cascudo. E tem a maior! Qual? Ah, não sabe, né? Não. É que anoitecia e no percurso de um caminho deserto nas proximidades da Várzea, aqui no Recife, e lá se ouviam temíveis gemidos femininos. Como é? Um certo dia, alguém deu uma de bravo e resolveu tirar isso a limpo depois de tomar umas e outras. Espia, só. Lá chegando constatou entre temores e hostilidades que o tal gemido horripilante era produzido pela fricção das folhas da figueira-de-adão. Era? Sim, o vento fazia com que se esfregassem e geravam a horrorosa lamúria. Então, o bicado corajoso respirou fundo, puxou do facão e cortou a maior folha entre elas, levando-a como prêmio para todos. Foi uma festa vê-la virar picadinhos. Dali em diante ninguém mais temeria passar pela localidade. Só que de madrugada, mais que entupido da carraspana, resolveu o destemido ir pra casa. Chegando lá, se banhou e ao se deitar se viu enrolado pelo lençol por um braço de mulher cortado, tal como ocorreu com o corte na folha da pacobeira. Dizem que disso ele enlouqueceu narrando repetidas vezes a desventura do fato. Eita! A manhã foi curta e já é meio dia para o alvoroço dela.

 


A DANÇA DA TARDE - Ao som de Dança das Cabeças (ECM, 1977), de Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos - Ela entardeceu dançante e me falou Margaret Atwood ao arrebol: Na primavera, no final do dia, você deve cheirar a terra. Eu gostaria de ser o ar que habita você por apenas um momento. Eu gostaria de ser tão despercebida e necessária. E bailou rodopiante como se fosse a coreógrafa, performer e bailarina alemã Toula Limnaios, com seu sensual e transparente vestido encarnado. E seus pés pisaram os meus, suas pernas se enroscaram às minhas e me espremeu entre suas coxas; sua mão alcançou meu sexo aprumado ao seu, seu braço envolveu meu tórax, seus lábios às minhas faces, sua língua revolveu meus sonhos lúbricos, sua boca me tomou por inteiro, seu corpo é meu e ela dançava nua no meu coração, o nosso galope à beira-mar. E eu festejando nela Gonzaguinha: O galope só é bom quando é à beira-mar, o galope só é bom quando se pode amar... Até mais ver.

 

ASSOMBRAÇÕES & ARTES DE LULA CARDOSO AYRES

A arte do pintor vanguardista, desenhista, cenógrafo e programador visual Lula Cardoso Ayres (1910-1987). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


terça-feira, novembro 17, 2020

MICHEL HOUELLEBECQ, ANÍBAL QUIJANO, BONG JOON-HO, EIJI YOSHIKAWA, STAN LEE & DANIEL ARAGÃO


  

TRÍPTICO DQC: ENTRE VALES & CLAUSTROS - Curtindo La Création du monde, op. 81, para pequena orquestra (1923), do compositor francês Darius Milhaud (1892-1974), performed by the Miami University Wind Ensemble and conducted by Sheridan Monroe. - A janela e o mundo lá fora, insuportável clausura. Voo mundo afora, vagar pela terra sem rumo e a salvo das Leônidas, ponteiros desencontrados. Preciso sobreviver às lembranças para além dos limites, nunca mais refém da memória. Sei que é impossível e tento insistentemente. Piso o chão como se libertasse das ideias e a cada contorno a fêmea nua entre fissuras e sinuosidades e grutas, e identifico as faces, os lábios, os seios, o monte de Vênus, as coxas e pernas da mulher amada deitada, estendida entre galhos e raízes, troncos e plantações. Todas ali, como se as mulheres que amei um dia estivessem ali, desnudas e indefesas ao abandono. É como se parissem ali imóveis todas as cores, graus, olores e degraus, superfícies e camadas, alturas e distâncias, lonjuras tantas para meus pés erradios entre saltos pelos declives, a vertigem de tudo e o espetáculo da vida. Lá longe vejo um vulto irreconhecível que de se aproxima um tanto apressado. Prestes a cruzarmos logo o identifico, é o sociólogo humanista peruano, Aníbal Quijano (1930–2018) que me diz na ventania: Somos dominados (domesticados) e não percebemos. Lemos e repetimos frases de efeito, sem efeito (pensamentos de outros, frases de outros, na lógica do eurocentrismo na dominação colonial). Sonhamos presos em arquétipos presos. Não nos permitem sermos quem somos em liberdade. A liberdade se faz na consciência. A Colonização trouxe a mais forte e feroz forma de dominação que já existiu na história da humanidade. Na mentalidade... A luta é contra todas as formas de domínio e poder. O céu é azul sem nuvens e venta demais. Os seus e meus cabelos se assanham incontrolavelmente e quase não consigo me segurar em pé, tamanhas são as pancadas. Despeço-me e ele segue para outra direção. À primeira passada dou de cara com o escritor e editor estadunidense Stan Lee (1922-2018): Continue indo em frente, e se for hora de ir, é a hora. Nada dura para sempre. A vida nunca está completa sem seus desafios. Sim, saúdo e sigo como se enfrentasse todos os algozes num furacão. Ele seguiu o seu caminho, vou em frente e à beira do abismo, fecho os olhos sem hesitação. Sigo adiante, sempre.

 


EXPRESSO DO AMANHÃ – Desperto e não sei onde estou. Pelo barulho e balanço tumultuado, só pode ser um vagão de trem desgovernado. Insustentável situação, não há como me equilibrar, nem há quem se equilibre, o tombo e a queda é morte certa, e servirá a quem puder tirar proveito do tropeço e fraqueza. Sim, o último vagão e a gritaria do noticiário, e os crimes a se acumularem entre andrajosos com seus corpos mutilados, caolhos e cicatrizes, nervos sangrando de manetas, cochos com suas chagas e pernetas, misérias de famélicos e rotos se alimentando da carne do semelhante vencido e estraçalhado. Todos se nutrem do ódio que os fortalece para vencer o outro que é aquele marcado como inimigo quando parente ou desconhecido que lhe farta a soberba e o poder. Tudo é fome, medo e incerteza, ninguém a salvo. Sabia lá eu submerso ao mundo da Le Transperceneige (1984 - Casterman, 2013), do trio Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, porque uma bomba explodiu para que um eterno inverno hostil e gelado nos fizesse sobreviventes - na verdade, prisioneiros - naquele refúgio de um futuro distópico. Ouço o que dizem dos outros vagões, era o real em sobreviver nas cenas de Snowpiercer (Seolgugyeolcha, 2013), do cineasta coreano, Bong Joon-ho. E ouço a trama aos cochichos de uma revolução. O levante é ensaiado para tomar o controle, a animosidade toma corpo e envolve a todos. A minha pacífica natureza não encontra arrimo, todos se tornaram selvagens e não há mais limite para a violência. Ao meu lado o jornalista Luiz Cláudio Cunha avisa: Em tempos de paz, os filhos enterram os pais. Em tempos de guerra, os pais enterram os filhos. Em tempos de Condor, nem isso. A vida só se esvaindo e eu mergulhado naquela iracúndia condição. Tudo escureceu de vez, não sei como me safei. Duas crianças ao longe sorriem com um adeus. Estou indefeso e não sei onde.

 


O AMOR AO ENTARDECER – Imagem: a arte do escultor e artista francês M. Nick. Curtindo a orquestral suite para ballet, Appalachian Spring (1944), do compositor estadunidense Aaron Copland (1900-1990), performed by Symphony Orchestra of Bartók Conservatory Budapest, conducted by Gergely Dubóczky, 2017. - Não fosse a chegada dela como um redemoinho levantando tudo, jamais sairia da cama. Chegou recitando o escritor Eiji Yoshikawa (1892-1962): Eis porque / Da semente paterna recebeis o espírito, / Ao ventre materno deveis a forma. / E por causa dessa relação cármica, / Nada neste mundo se compara / Ao misericordioso amor de uma mãe: / A ela deveis a eterna gratidão. Um beijo dela e o crepúsculo no olhar anunciou a festa com uma frase do escritor francês Michel Houellebecq: A ternura é um instinto mais profundo que a sedução, e é por isso que é tão difícil perder a esperança. Tudo pode acontecer na vida, especialmente nada. E incorporou Go Ah-sung nua, para modelar ao meu toque artífice a esculpir nela o seu prazer duradouro e a minha salvação. Assim como pisei no chão de toda Terra, tateei seus recônditos e extensões, para ser nela e nunca mais voltar a mim. Até mais ver.

 

BOA SORTE, MEU AMOR

Para que fazer cinema se não for para arriscar?

O drama Boa sorte, meu amor (2012), dirigido pelo cineasta Daniel Aragão, conta a história de um filho da aristocracia sertaneja nordestina que trabalha numa empresa de demolição promovendo a mudança nas cidades. Ele encontra uma jovem estudante de música com alma de artista que o influenciará a mudar a própria vida. O amor o leva a detectar as origens das oligarquias e a herança do coronelismo. O filme é lindo e ousado, em preto e branco e marca a estreia do diretor em longas-metragens. O destaque fica por conta da atuação da atriz Christiana Ubach que brilha do começo ao fim. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, novembro 15, 2020

JURGA IVANAUSKAITĖ, PAUL HINDEMITH, ELSA MORANTE, DIANA KRALL, ALEARDO ALEARDI, ERIKA FRAENKEL & LUIZ VIEIRA

 

TRÍPTICO DQC: AINDA PRIMAVERA - Curtindo Violina, do compositor húngaro Frigyes Hidas (1928-2007), na interpretação da premiada violinista argentina Betina Stegmann, que é primeiro violino do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e do Ensemble São Paulo, professora do Curso Superior de Música (Bacharelado) da Faculdade Cantareira – A noite é plena com tantas luzes e não compreendo o buzinaço rasgando o momento, muito menos o que é comemoração ou protesto. Não sei quase nada do que é vida ou morte, quantos se matam em nome de qual causa ou por fazer valer a existência, aos acenos ou sem. Marianne Moore saúda o meu janelão: As mãos são as mensageiras do coração. Seus espinhos são a melhor parte de você. Abençoado o homem cuja fé é diferente da possessividade - de um tipo não emoldurado por coisas que aparecem. Riso tímido, olhos vivos, um jeito de me convidar para viver e eu apenas queria contar uma história, como se isso for possível depois de tantos sobressaltos. Ao seu lado, emergiu Chinua Achebe parece que adivinhando meus pensamentos: Não há histórias que não sejam verdadeiras. O mundo é infinito, e aquilo que é bom para certas pessoas pode ser abominável para outras. Sim, eu sei. Os dois trocam cortesias e eu apenas os vejo nítidos como se nem dessem pela minha presença. Olham para mim e insinuam que eu poderia fazer melhor que posso e agir na desrazão do que sempre me levou e jamais me aproveitei disso. Deveria ser doutro jeito, nunca faço como manda o figurino e sei que ainda é pouco, ousar mais e muito, isso sim. Ainda é noite e eu espero não ficar tão só, apenas.

 


MADE IN SOLIDÃO – Imagem: arte da artista multimídia Dora Longo Bahia, curtindo Ludus Tonalis (1942), do compositor alemão Paul Hindemith (1895-1963), na interpretação do pianista russo Sviatoslav Richter (1915-1997), Live at Fêtes Musicales en Touraine, France. - Sequer percebi o trâmite da madrugada e não preguei os olhos agora na barra do dia. E se tudo amanhecia, ainda em mim a noite presente. Nenhuma história me assaltou, só queria contar o que saltita impune no coração. Impossível coordenar ideais, nem redigir outros solecismos. A zoada é grande, apesar do horário. Já me alertava Astrid Lindgren: Escrevo para divertir a criança que vive dentro de mim, só espero que outras crianças também se divirtam. Quero escrever para leitores que possam fazer milagres. As crianças fazem milagres quando leem. Tão infantil quanto, sequer milagre algum para obrar àquela hora. Pudesse eu a abraçaria, mas não estava mais ali. Só a beleza estonteante da Jurga Ivanauskaitė com seu jeito encantador: Desejo-lhe felicidade por ver como este mundo é freneticamente lindo todos os dias. Sim e eu só queria abraçá-la e com ela passar a manhã pelo entardecer, enquanto as horas bailassem no nosso prazer.  

 


VOLTA POR CIMA – Imagem: arte da artista visual, videoartista e cineasta Erika Fraenkel, curtindo Live Rio (2008), da cantora e pianista canadense Diana Krall & Orquestra de Rio de Janeiro, regência de Ruriá Duprat. Anoiteceu com acordes nostálgicos e ela apareceu do nada para me dizer Madeleine de Scudéry: Perdoa-se tudo aos amantes... e aos doidos. Por muito boa que seja a cabeça, quase nada pode contra o coração. Esvoaçante como sempre, agarrou-se em volta dos meus ombros com um beijo afetuoso a me dizer o quanto sou louco e desencontrado. Dela a boca úmida e um verso do poeta italiano Aleardo Aleardi (1812-1878): Pura é uma dor que supera todas as dores / carregue o luto em uma pessoa viva. Ela sabia que eu sucumbia inevitavelmente, sabia que pouco me restava além de claustros e vales longínquos. Diante do meu desalento era ela a escritora italiana Elsa Morante (1912-1985), altiva e voluptuosa: As liberdades não são concedidas. Elas são levados. Não espero perdão nem desejo a simpatia dos outros. Eu apenas finjo ser honesta. Quem dera fosse sempre em mim, ventania de todos os pontos cardeais para ressuscitar nela e a vida apenas seguisse sem direção. Até mais ver.

 

LUIZ VIEIRA

Quando estou nos braços teus / Sinto o mundo bocejar / Quando estás nos braços meus / Sinto a vida descansar / No calor do teu carinho / Sou menino-passarinho / Com vontade de voar.

Preludio Pra Ninar Gente Grande (Menino Passarinho), do cantor, compositor e radialista Luiz Vieira (1928-2020), autor de álbuns antológicos como

Pai, acende o lampião/Caixa d.água (Todamérica, 1951), Dona Catulina/Chova ou faça sol (Todamérica, 1952), O menino de Braçanã/Os olhinhos do menino (Todamérica, 1954), Cantiga da lembrança/Embolada mudou (Copacabana, 1958), Retalhos do Nordeste (Copacabana, 1959), Prelúdio pra ninar gente grande/Jaguaribe (Copacabana, 1962), Paz do meu amor – Prelúdio nº 2 (Copacabana, 1963), Em tempo de verdade (Copacabana, 1971), Na asa do vento (CBS, 1978), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 



 

sexta-feira, novembro 13, 2020

DAMON GALGUT, ANNICK DE SOUZENELLE, SUSAN BROWNELL ANTHONY, MELANIE DIENER, ARNULF RAINER, REYNALDO FONSECA & TRANSIÇÃO LISTRADA

 

TRÍPTICO DQC: A CIDADE É SUA CASA – Vier letzte Lieder: September (As Quatro Últimas Canções, 1948), do compositor e maestro alemão Richard Strauss, em parceria com Hermann Hesse: O jardim está de luto. / A chuva cai fria sobre as flores. / O verão estremece em silêncio, / aguardando o seu fim. / Douradas, folha após folha caem / do alto pé de acácia. / O verão sorri, surpreso e lânguido, / no sonho moribundo do jardim. / Muito tempo ainda junto às rosas / ele se detém, aspirando ao repouso. / Lentamente ele fecha / seus olhos cansados. Interpretação da soprano operística alemã Melanie Diener, Konzert zum Neuen Jahr 2006 aus dem Festspielhaus Baden-Baden. SWR- Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg. Leitender Dirigent Sylvain Cambreling. -- De um lado, o ascendente dado íngreme de casos com mortos e infectados pela pandemia; e de outro, o alvoroço eleitoral e do consumo, indiferente ao risco de contaminação. Além do mais, A praga do voto vendido grassa, o Voto Moral já escasso sucumbe aos fanatismos religiosos e às supremacias caprichosas dos estibados prepotentes. Diante da minha perplexidade, surgiu ao meu lado Susan Brownell Anthony: Quando um homem me diz: “Vamos trabalhar juntos na grande causa que você empreendeu, e deixe-me ser seu companheiro e auxiliar, pois a admiro mais do que jamais admirei qualquer outra mulher”, então direi: “Eu sou sinceramente”; mas ele deve me pedir para ser seu igual, não seu escravo. Eu oro a cada momento da minha vida; não de joelhos, mas com meu trabalho. Minha oração é para elevar as mulheres à igualdade com os homens. Trabalho e adoração são um comigo. A verdadeira república: os homens, os seus direitos e nada mais: as mulheres, os seus direitos e nada menos. Independência é felicidade. Mais diria não fosse sua indignação com um enfrentamento machista e homofóbico na esquina. Inacreditável como o desrespeito gratuito é tão comum às relações humanas, não se emendam. Eis que Michael Ende me surpreende: Pessoas sem esperança são fáceis de controlar. Há muitas coisas que não se aprendem só pensando, é preciso vivê-las. Ao seu lado Robert Musil asseverou: Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. Fechando a roda, Robert Louis Stevenson pigarreou: Não peço riquezas nem esperanças, nem amor, nem um amigo que me compreenda. Tudo o que eu peço é um céu sobre mim e um caminho a meus pés. Diante do estranhamento dos demais com a sua fala, ele arrematou: A época mais obscura é hoje. A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação. Ah, tá. Realmente, entre o monstro e o médico, quem escapa se a multidão é sempre pelo cômodo atalho e, se possível, de mão beijada, iniciativa alguma que dê trabalho, ora. Ninguém leva em conta que a cidade é sua casa, a qualquer um a concessão de governá-la.

 


DA NOITE & O ESPETÁCULO DA VIDA - Imagem: Carimbagem – Base (2004), performance de Luana Veiga e Ticiano Monteiro no ateliê do grupo Transição Listrada. - Deixei os convidados soltarem suas tiradas e fui tomar ar no janelão. Percebi a chegada dela, ar enigmático e som do balanço do gelo no drinque à mão, olhar perdido no horizonte anoitecido. Reticente, ela citou Damon Galgut: No final você fica sempre mais atormentado pelo que não fez do que pelo que fez, ações já realizadas sempre podem ser racionalizadas com o tempo, o ato negligenciado pode ter mudado o mundo. Vi-a insegura, transpirando certo nervosismo contido. Tomou um gole e deu-me o copo, saiu sem se despedir. Tomei um gole e logo ela voltava e se despia, sentando-se no chão e começando a carimbá-lo. Era como se sentisse o corpo no ritmo da contagem aos lábios e bem baixinho... Cento e noventa e um, cento e noventa e dois, cento e noventa e três... Acompanhando o seu ritmo pelas paredes e teto, fui me despindo e me deitei na trilha que ela havia feito no assoalho, sem me mover. Ela e a contagem, uma a uma, até deixar o quarto repleto e carimbar-se por inteiro e depois por toda minha pele... Três mil setecentos e vinte e quatro... Percebi que estava exausta, mais de três horas na sua empreitada... Suava, cansada, recarimbando tudo, a ela e a mim, até deitar-se colada ao meu corpo, completamente extenuada.

 


TUDO É DELA - Imagem: arte do artista austríaco Arnulf Rainer. Ao som da Sonata Fantasy nº 2 Op 19, de Scriabin, com Valentina Lisitsa. – Abandonados ali por longo tempo, ela me disse que se sentia como o dia em que leu O simbolismo do corpo humano: da árvore da vida ao esquema corporal (Pensamento, 1984), da escritora francesa Annick de Souzenelle e mencionou um trecho: O verbo hebraico conhecer é aquele que Moisés empregava para se referir ao conhecimento que o homem faz da mulher. O conhecimento é um casamento, uma união entre o a ser conhecido e o conhecedor. O conhecimento é amor. Virou-se pro meu lado e me abraçou com um beijo profundamente ardente. Senti sua carne estremecer sobre a minha e comungamos o prazer de um ósculo transcendental que me completava, eletrizando todo o meu corpo. E depois ela rolou e já eu sobre ela acomodando-se para que eu a possuísse completamente a se ajeitar por inteiro em mim e eu nela, o prazer extremo. Alcançamos o ápice do orgasmo e a nos beijar insaciavelmente. Foi então que ela me disse: Sabia que eu amo essa nossa liberdade? Hum, hum! E recitou Manoel de Barros: Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras - liberdade caça jeito. Sou livre para o silêncio das formas e das cores. E nos beijamos para amar até que os dias e as noites se confundissem e nos dessem uma noção do que é a eternidade. Até mais ver.

 

REYNALDO FONSECA

Faço desenhos pequenos – mas na proporção – e, depois, levo para a tela.

A arte do muralista e ilustrador Reynaldo Fonseca (1925-2019), foi professor catedrático de desenho artístico na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos fundadores da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), associação que propunha a ruptura com o sistema acadêmico de ensino. Veja mais aqui e aqui.


 

 


quinta-feira, novembro 12, 2020

FRANCA RAME, BUKOVSKI, IONESCO, ELIZABETH GASKELL, EIKOH HOSOE & MARGARIDA CARDOSO


  

TRÍPTICO DQC: QUANDONDE, AGORA!... - É noite e ouço movimento de passadas. Aguço a audição: são pisadas firmes. Inacreditável, mas sinto o inevitável: as pessoas estão se transformando em algo descomunal. Um vulto se aproxima e o reconheço com a proximidade. É Bukovski: Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo. Sim, eu compreendo. Para mim também está muito difícil. Todos, os descontentes agora conservadores, os hipócritas com a verdadeira face, a geração rivotril levada pelo vazio, enfim, o apogeu daqueles que tornaram a estupidez numa moda! Uma verdadeira manada de Fabos & Cafos: conformismo, submissão, fanatismo, alienação! Um Fecamepa! Todos com sua coleção de comprimidos, drágeas e cápsulas das mais diversas tarjas, mascarando enfermidades no conluio industrial de médicos e laboratório farmacêuticos, afinal têm remédio para tudo e uma infinidade de drogarias em cada rua -, e eu incomodado comigo, inconformado com tudo. Procurei por ele e não mais ali, era Niels Bohr: Ainda bem que chegamos a um paradoxo. Agora, há esperança de conseguirmos algum progresso. Esperança? Jogou-me na cara um provérbio chinês: Não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos agora você vai dar pra frente. É verdade, só não sei se o que vai, realmente, segue mesmo adiante ou retroage, se evolui ou regressa, ou se qualquer movimentação para tanto, chega a algum lugar além da imobilidade, afora o certo e o errado. Ouço o Buda: Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora. Não sei mais o que passou, não importa; nem o que virá, nem quandonde, só sei o que é o agora e nada mais.

 


DA MONSTRUOSIDADE QUASE FERA - Lá fora o barulho aumentava, como se um monstro provocasse o alarido. Não era: as pessoas se tornaram quase feras e digladiavam delimitando seus territórios. Ou quase isso do período eleitoral. Há quem diga ser esse enfrentamento, aquele referido pelo Martin Esslin: o sentido do sem sentido da condição humana. O implacável horror, o absurdo. E duas pessoas invadiram o meu espaço. Não os identifiquei logo, mas ouvi uma parte diálogo: Psicose coletiva, senhor Dudard, psicose coletiva é o que isso é! É como a religião que é o ópio dos povos! Pelo que ouvi, reproduziam o que foi levado para cena nos palcos até hoje, desde 1959. Não restava dúvidas tratar-se de Botard e Dudard, a certidão me veio quando um deles disse mais adiante: Peço, desculpas, chefe, mas o senhor não pode negar que o racismo é um dos grandes erros deste século. Sim, sem dúvidas. Saíram e logo me apareceu mais alguém: Quem? Nunca vi mais gordo! Logo me disse: Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, eu sou um monstro, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar para a minha cara. Tenho vergonha! (Vira as costas ao espelho) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco) Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo! Ah, era o monólogo final de Bérenger para uma Daisy oculta. Presenciei tudo até cair o pano da noite na sátira mordaz de Ionesco. A solidão e a monstruosidade humana.

 


A PELE DA MAÇÃ – Imagem: arte do fotógrafo e cineasta japonês Eikoh Hosoe. – Tarde da noite e o escarcéu iluminava a cidade. Nem havia percebido que ela chegara nua para encenar Chame-me a bruxa, ou Ligue-me Witch, da atriz, escritora, dramaturga e ativista política italiana, Franca Rame (1929-2013): Não importa o que somos. Não importa o que você é ou quem você é. Você pode me chamar de bruxa. Por qualquer maneira minha natureza é essa. Desde sempre, desde o primeiro preguiçoso, ou a primeira vida, ou o primeiro tiro do mundo. Eu sou uma daquelas mulheres que têm alma, eu sou uma daquelas mulheres que têm visão e audição de um gato, eu sou uma daquelas mulheres que falam com árvores e formas, eu sou uma daquelas mulheres que têm o cérebro de Hipácia, Artemísia, Madame Curie. E eu sou linda. Tenho a beleza da luz, tenho a beleza da harmonia, tenho a beleza do mar tempestuoso, tenho a beleza de um tigre, tenho a beleza de dois girassóis, tenho lavanda e também tenho grama. É por isso que sou Bruxa. Sou Bruxa porque sou diferente, sou única, sou outra, sou igual, é pelas fileiras, é por dois esquemas, sou normal... sou! Eu sou uma Bruxa porque tenho orgulho de ser uma mulher-animal-cigana-artista e... engenheira maluca da minha vida. Sou Bruxa porque uso na cabeça, porque sempre digo ou penso, porque não tenho uma palavra maldosa e pruriginosa, dá uma palavra poderosa e poderosa. Sou Bruxa porque muitas vezes você odeia as Santas Inquisições deste milênio estranho, como Idade Media de tribunos da mídia apáticos. Eu sou uma Bruxa porque como ainda existem fogueiras e eu - mais cedo ou mais tarde - posso terminar dentro. E se fechou em copas. E não disse mais nada, cabeça baixa, braços espremendo os seios, mãos trêmulas cruzadas sobre o sexo túmido. Fui até ela com abraço solidário. Deitou a cabeça sobre meu ombro esquerdo e disse estudar noites a fio o texto A maçã de Eva, parceria da dramaturga com o marido, Dario Fo, e o filho, Jacopo. Alisei seus cabelos quando mencionou Elizabeth Cady Stanton: No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos de política ficamos em silêncio quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida já não fluem em nossas almas. E, um tanto hesitante, citou a escritora britânica Elizabeth Gaskell (1865-1810): Como é fácil julgar corretamente após vermos o mal que vem de julgar de forma errada. Sim, a vida é trânsito, vai e volta e torna a dar voltas sem parar. A gente não sabe o que diz, só resta viver e agora mais do que nunca! Até mais ver.

 

A ARTE DE MARGARIDA CARDOSO

A arte da atriz Margarida Cardoso (1916-1989), que tornou-se conhecida pela atuação em Song of The Sea (1953), Seara Vermelha (1964), Menino de Engenho (1965) e O Salário da Morte (1971) ela foi professora do antigo Departamento de Artes e Comunicação (DAC), que transformou-se em Departamento de Comunicação (Decom), da UFPB, tendo, também atuado no teatro ao lado de grandes nomes teatrais pernambucanos. Veja mais aqui e aqui.

 



quarta-feira, novembro 11, 2020

DOSTOIÉVSKI, ANA KATHARINE GREEN, CARLOS FUENTES, BORAT SAGDIYEV, FRANCESCA HAYWARD & HILTON SETTE


  

TRÍPTICO DQC: NOITAMANHECERES - Curtindo For Organ and Brass (2017), da compositora de vanguard sueca Ellen Arkbro - À janela, paisagens disformes e ignotas. Entre sombras, a noite é íntima da solidão. Sinto no ar a aproximação de alguém. Detecto e nada mais, nada menos que o ator, roteirista, produtor e comediante britânico Sacha Baron Cohen, aquele mesmo do pseudocumentário de humor Borat - O segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América (2007), que conta a história de um famoso repórter daquele país da Ásia Central que, em viagem aos Estados Unidos, registra os hábitos dos cidadãos estadunidenses, provocando situações absurdas por onde passa. Sim, ele mesmo, em pessoa ou miragem, sei lá mais da minha loucura solitária. Mandou ver num recado: Um esgoto de teorias fanáticas e de conspiração ameaça a democracia e o nosso planeta. Todo este ódio e violência são facilitados por um punhado de empresas de internet que representam a maior máquina de propaganda da história. Na internet, tudo pode parecer igualmente legítimo. Os algoritmos em que essas plataformas dependem amplificam deliberadamente o tipo de conteúdo que mantém os utilizadores envolvidos - histórias que apelam aos nossos instintos mais básicos e que provocam indignação e medo, superam as notícias reais, porque estudos mostram que as mentiras espalham-se mais rápido do que a verdade. Mas uma coisa está bem clara para mim: chegam a bilhões de pessoas. Pense nisto, talvez possamos parar a maior máquina de propaganda da história e salvar a democracia. Sério, era ele mesmo, não o personagem. Fez um aceno e desapareceu na escuridão. Fiquei cá comigo, ruminando nestes tempos de vazio, solidão, sindemia, neuroses, fobias, insônia e insânias, liquidez de relações, lawfare, malware, teorias da conspiração, respostas Glomares, mentiras microdirecionadas e liberdade de alcance. Tempo meio doido este, do jogo dos contrários disseminando o caos e a confusão reinante às maiores contemporizações, cada qual seu arrazoado. Eu, hem!?! Mergulhado nos meus pensamentos, ansiava pelo raiar do dia, quando ouvi Dostoiévski: É surpreendente o que um raio de sol pode fazer com a alma humana! Meu amigo, lembre-se: ficar em silêncio é bom, seguro e bonito. Quero poder falar de tudo com pelo menos uma pessoa, até comigo mesmo. Não encha a sua memória com rancores para que não falte espaço para os momentos bonitos. Não havia ninguém, era minha memória falando alto. Haja pulga ao redor das orelhas.

 


DE GYNAECOPOLIS, APHRODISIA & EROTIO – Curtindo Transfigured Night for String Sextet, Op. 4, de Arnold Schoenberg, NEC Contemporary Ensemble Concert directed by John Heiss Jordan Hall in Boston (2013) – Despertei durante a madrugada e estou lavado de suor. Na verdade, despertei de um sonho ou pesadelo, não sei, em que me encontrava numa cidade chamada Gynaecopolis, local onde reinavam as mulheres. Lá entre elas, tive o privilégio dos maiores e melhores prazeres, mas desconfiava qual seria meu destino e isso incomodava a ponto de acarretar temores. Esfreguei os olhos e, ao tentar interpretar o sonho, me deparei com um alfarrábio sobre a mesinha da cabeceira e era a publicação Mundus alter et idem sive terra Australis antehac semper incognita longis itineribus peregrini Academici nuperrime lustrata (Londres, 1605), do satirista e moralista inglês Joseph Hall (1574-1656). Intrigado com o volume, não me lembrava de tê-lo lido ou comprado. Ao folheá-lo percebi logo que era um romance distópico que contava de uma viagem do navio Fantasia aos mares do sul, visitando terras povoadas por glutões, chatos, idiotas e ladrões. Coincidentemente esse era o meu sonho. Dediquei atenção à leitura e constatei ser uma sátira menipéia que continha uma descrição sarcástica de Londres e críticas à igreja católica romana. Sim, sim. Foi durante a leitura que identifiquei o local onde fui parar no sonho, encontrando a respeito a seguinte descrição: Lá o parlamento funciona sem interrupção, uma vez que não há discriminação no exercício do poder. Todas as mulheres têm o direito à palavra e voto. Os debates são infindáveis e as participantes falam todas ao mesmo tempo. Para garantir um certo grau de estabilidade, as decisões tomadas não apodem ser revogadas até o dia seguinte. As autoridades são eleitas conforme critérios de beleza e eloquência por um júri de matronas selecionadas especialmente para essa importante tarefa. Nossa, talqualmente! Sim, mais coincidências: na minha viagem onírica, fui levado por uma delas para Aphrodisia e Erotio, também registrada na citada obra: São as províncias mais notáveis do país, onde as mulheres usam quantidades imensas de maquiagem, se vestem com tecidos muitos finos e transparentes e andam com os seios nus. Moram em casas de vidro e devotam o dia inteiro às compras para se assegurar de que são vistas. Tal como aranhas, elas observam os homens de Locania e Geilland, com quem estão constantemente em guerra. Quando seus gestos provocativos conseguem subjugar um desses homens, forçam-no a satisfazer seus desejos, mantendo-os em estábulos, onde são engordados com poderosos filtros do amor. De fato, fui trancafiado e muito bem tratado por elas, mas nenhum dos que ali passaram ou estiveram, ninguém sabia qual o destino que elas lhe reservavam. Não havia nenhuma informação por onde passei ou indicação no próprio livro, sobre o que se sucedia aos que fossem capturados naquelas localidades. Sei que aprisionado, de repente me deu um mal-estar de que algo nada agradável me ocorreria. Na minha solidão ouvi Carlos Fuentes: O passado está escrito na memória e o futuro está presente no desejo. Toda descoberta é um desejo, e todo desejo, uma necessidade. Nós inventamos o que descobrimos; descobrimos o que imaginamos. Nossa recompensa é o encantamento. Não tomar decisões é pior do que cometer erros. Todas as coisas são naturalmente feitas para mudar, alterar, morrer, a fim de permitir que outras sucedam. Procurei ao redor, não havia ninguém, meus pensamentos pregavam outra peça em mim. Ouvi ruído nas fechaduras, vozes femininas e um mal presságio se apoderou completamente de mim.

 


DAS INESQUECÍVEIS DORES - Imagem: a arte da bailarina britânica Francesca Hayward. - Nem havia me recuperado do sonho ou pesadelo, quando ela entrou subitamente toda bailarina e parou no ar como se uma atriz pronta para passar seu texto: Sou Dulce, Dulce Chaves Pandolfi, fui presa no dia 14 de agosto de 1970, no Rio de Janeiro: Toda vez que o guarda abria a cela e vinha com aquele capuz, a gente já sabia que ia apanhar. Numa dessas vezes que foram me buscar, quando chego na sala de tortura, ao tirarem meu capuz percebo que era uma aula. Havia um professor e vários torturadores. Pelo sotaque, percebi que alguns não eram brasileiros, mas provavelmente uruguaios, argentinos. Então me disseram que eu era uma cobaia. Eles começaram a explicar como dar choque no pau de arara. Eu passei muito mal, comecei a vomitar, gritar. Aí me levaram para a cela e, dali a pouco, entrou um médico com outros torturadores. Ele me examinou, tomou minha pressão e o torturador perguntou: ‘Como ela está?’ E o médico respondeu: ‘Tá mais ou menos, mas ela aguenta’. E aí eles desceram comigo, sob gritos e protestos das companheiras de cela. A aula continuou e acabou comigo amarrada num poste no pátio com os olhos vendados, e os caras fazendo roleta russa comigo, no maior prazer. Essa brincadeirinha levou muito tempo, até que no sexto tiro a bala não veio. Na minha época, eu fui a única a servir de cobaia, acho que eles tinham uma ‘predileção’ especial por mim. No DOI-Codi, a barra foi pesadíssima. Teve pau de arara com choque elétrico no corpo nu: nos seios, na vagina, no ânus. Lá tinha um filhote de jacaré de estimação dos torturadores que eles colocavam para andar em cima do nosso corpo, amarrado numa cordinha. Fiquei três meses no DOI-Codi, depois fui para o Dops e, depois de um tempo, para o presídio de Bangu. Então, fui transferida para o presídio de Bom Pastor, em Pernambuco. Sim, sou ela e sou mais outras e tantas, como Diva e todas as Filhas da Dor. Ao encerrar sua encenação, ela enxugou as lágrimas, me encarou e era a poeta estadunidense Ana Katharine Green (1846 – 1935): Por mais eloquente que seja a morte, mesmo nos rostos daqueles desconhecidos e não amados por nós, as causas e consequências desta eram importantes demais para permitir que a mente se detivesse na tristeza da cena em si. Um raio de Sol invadiu o ambiente e ela mais linda que nunca ali para bailar no meu coração solitário. Logo percebeu minha carência e veio a mim sedutoramente recitando um poema do poeta e dramaturgo congolês Kama Sywor Kamanda: O semeador de tempestade legou-me a chuva, as tempestades e o céu / Quem morre em dúvida. Já não corre nas minhas veias / Apenas areia branca. As sombras inspiram pavor em meu coração / No horizonte onde meus critérios sopram, é um sol desesperado / Quem me estende a mão, me oferece à luz do dia como um amanhecer perdido / No mundo absurdo o homem é o vento que afasta as nuvens / E o poeta lançará para as crianças pobres que nascem, / As canções de nossos corações desprezados, mas esperançosos. Um beijo se fez dia para que eu fosse dela e ela minha na entrega do amor. Até mais ver.

 

ZÉ-DO-FOGUETE, DE HILTON SETTE

[…] Não restou beco, rua ou bairro por mais humilde que não o percorresse com a preocupação de ressuscitar impressões, aspectos, hábitos e odores de um passado distante. [...].

Trecho extraído do romance Zé-do-foguete (PR/SEC/FCCR, 1984), do geógrafo, professor e escritor Hilton Sette (1911-1997). Veja mais aqui & aqui.


 


terça-feira, novembro 10, 2020

ÉDOUARD DUJARDIN, EMMANUELLE RIVA, HENRY VAN DYKE, TAMARA KVESITADZE, KURBAN SAID, NINON DE LENCLOS & ISA PONTUAL

 

TRÍPTICO DQC: VIDEVERVA, VIVAMOR - A vida retangular, meus dias à janela – manhãs, tardes e noites que se confundem pelas horas de claroscuros. Como eu queria as mãos no barro da terra, os pés pelas poças das calçadas, faces aos ventos, sabores de frutas maduras... O sonho recolhido na minha clausura. Remexo livros amontoados e monturos de coisas empilhadas pelos cantos. Entre os imprestáveis - presumo, como juntei tanta coisa, meu Deus, não sei mesmo -, uma lâmpada empoeirada: O que é isso? Não me lembro de tê-la adquirido, nem nunca a vi por perto. Curioso, tento remover a poeira e, com isso, uma fumaça emerge pelo bico: Será o gênio de Aladim? Não, não era: o escritor e dramaturgo francês Édouard Dujardin (1861-1949) lendo um trecho do seu livro Os loureiros estão cortados (Les Lauriers sont Coupés - Brejo, 2005): Um entardecer de sol se pondo, ar distante, céu profundo, e massas confusas, ruídos, sombras, multidões, espaços de extensão infinita, um vago entardecer… Pois sob o caos aparente, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam. Nem havia me dado conta e já anoitecia: O tempo passava e sequer percebia. Ele sorriu enquanto eu cantarolava Gonzaguinha: Vida, vida, vida! E seja do jeito que for! Mar, amar, amor!... Ouvi sua gargalhada, mas não era mais dele, era Friedrich Schiller: O amor só é conhecido por aquele que irremediavelmente persiste no amor. Sim, sim, sei. E desapareceu do mesmo jeito como aparecera. Senti falta dela, há dias não dava as caras por aqui. A ausência dói e o amor, aquela semente que brota nos lugares mais improváveis.

 


DO AMOR & CIRCUNSTÂNCIAS ADVERSAS - Imagens: do premiado drama Amour (Amor, 2012), escrito e dirigido por Michael Haneke, contando a história de um casal de idosos aposentados, em que Anne é submetida a uma cirurgia mal sucedida na carótida que a deixa com um lado do corpo paralisado, destacando a atriz protagonista. – Na parede oposta uma projeção do filme me fez esquecer a solidão da noite. Durante a assistência, a porta se abre e ela adentra com um poema da atriz símbolo do amor da Nouvelle vague e poeta francesa Emmanuelle Riva (Paulette Germaine Riva – 1927-2017): Seu nome vai para a cama / em minha boca / Quando eu acordar / você já esta ai / meu sorriso / está sob seus dedos / você me mantém à distância / Eu tenho um curativo / no sextante / o corpo está à deriva / indo para o tempo / são os editos / da noite / (a) doçura louca / da liberdade. Logo se aproximou com um beijo e achegou-se ao meu lado acompanhando a projeção até o final. Fitou-me firmemente e recitou o escritor estadunidense Henry van Dyke (1852-1933): Amar não é receber, mas dar. Não um sonho ávido de prazer nem a loucura do desejo: não, nada disso é amar! O amor é bondade, respeito, paz... é simplesmente viver. E cobriu de vida a minha solitária existência e noite interminável.

 


DO QUE É CAPAZ O AMOR – Imagem: Ali & Nino - Man and Woman (2007), da escultora e artista georgiana Tamara Kvesitadze. Ao som da suíte sinfônica Pantanal (1990), de Marcus Viana, com a Transfônica Orkestra, Sagrado Coração da Terra & Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, sob a regência do maestro Lincoln Andrade. – Ao amanhecer era ela a escritora francesa Ninon de Lenclos (1620-1705): Nunca tive outra idade senão a do coração. No amor, a economia dos sentimentos e dos prazeres é a única metafísica apreciável. O amor é a comédia na qual os atos são mais curtos e os intervalos mais compridos. Como, portanto, ocupar o tempo dos intervalos senão com a fantasia? E me convidou das cinco às nove da noite para um evento no seu salão literário, estabelecido no Hôtel de Sagonne, para a encenação da comédia histórica em um ato misturada com vaudevilles e criada em sua homenagem e com seu nome, pelo Henrion – Armand Henri Ragueneau de la Chaianay (1875-1958). Aconteceriam também no mesmo horário o sarau com versos que o físico, matemático, astrônomo e horologista neerlandês Christiaan Huygens (1629-1695) fez para ela: Ela tem cinco instrumentos pelos quais estou apaixonado: / os dois primeiros, as mãos; / os outros dois, seus olhos; / Para o mais belo de todos, / o quinto que resta, / você tem que ser arrojado e ágil; a leitura do romance Memórias de Ninon de Lenclos, Cortesana del Siglo XVII (1857 – Hachette Bnf, 2017), do escritor e jornalista francês Eugène de Mirecourt (Charles Jean-Baptiste Jacquot - 1812–1880); a exposição das séries em histórias de quadrinhos Les Sept viés de l’éperier (1983/1991) / Masquerouge (2009) / Le Fou du Roy (Glenat, 1998) / Ninon secrète (Glenat, 1992), todas do artista francês Patrick Cothias; e o lançamento do livro Ninon De Lenclos: mulher de pensamento, homem de sentimento (WMF Martins Fontes, 1990), da jornalista e crítica francesa France Roche (1921-2013). Seria uma noite de consagração e com muitas homenagens, todas para ela, nada mais que merecido. Ela estava fulgurantemente linda, um colosso em forma de gente de tão exultante e glamourosa. À saída, não dispensou mencionar o poeta, escritor e jornalista argentino José Hernández (1834-1886): A oportunidade é como ferro: devemos batê-lo enquanto estiver quente. Melhor do que aprender muito é aprender coisas boas. E fomos de mãos dadas para a efeméride pelas estradas da nossa fantasia. Ao término da função, caminhamos até o boulevard de Batumi, e enamorados, vivemos a história dos amantes (E.P., 1937), do escritor azerbaijano Kurban Said (1905-1942): eu, o muçulmano Ali; e, ela, Nino, a princesa cristã georgiana, separados pela invasão soviética. E ali nos amamos para que o universo fosse festa naquela noite até outro amanhecer em nós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ISA PONTUAL

A arte da artista plástica Isa Pontual. Veja mais aqui & aqui.


 

 


domingo, novembro 08, 2020

MICHAEL SANDEL, CHRISTER HENNIX, KERTÉSZ, ANNE SEXTON, TURGUÊNIEV, MUHAMMAD IQBAL, TORQUATO NETO, CURRIN, DIVA DE FARIA & PAULO DINIZ

 


 

TRÍPTICO DQC: POEMANDANTE, PALAÁVORAS - (Aos acordes da canção Pronta pra cantar, de Caetano Veloso, nas vozes de Nina Simone & Maria Bethânia) – A minha vida à janela, pés no chão ao rés da vida - as nuvens namoram os morros limítrofes e os cobrem com as suas saias brancas por dias sem fim, enquanto o Sol cochila manso com a algazarra dos pássaros que mudam de cor a cada gorjeado, cruzando uns aos outros, num colorido de vida. Sou levado, velovoz minha primaveraneio, chuvoutonal, sai do rio pelo canavial, atravessa a província morracima, quedabaixo, estradependali acolalhures - e a cidade ora é um pastoril com margens opostas aos desaforos e injurias mútuas, quem do cordão encarnado que venha, quem do cordão azul que se vá; ora é a farra pelos quatro cantos de velas, fé e perdição. Ah, essa manada catatônica para lá e para cá noites e dias de finados, feiras e bissextos, provam apenas que o mundo é uma bola e as anedotas e desgraças pairam no ar e aquecem a vida e os sonhos dos munícipes, sempre grados e furiosos, ora com o calor escaldante, ora com o frio das névoas dos terrores. As mulheres, ah, as mulheres, todas sempre radiantes e fogosas no meu coração com sua carne incendiária, elas nem sabem que vão e carregam os olhares de cobiça no desfile delas, impunes e sedentas, como são aprazíveis e talvez a melhor entre as melhores coisas daqui. E os homens, cabeças de fósforos, vivem de alisar o polegar ao anular, coçando os escrotos e pensando que tudo é possível como nos sonhos e pesadelos: vivem de atrapalhar a si e a vida dos outros, quando não mudam de ideia e querem que o curso dos rios siga aos caprichos de forte sobre mais fracos e submissos. Entre os endinheirados devotam comícios de aplausos – meia dúzia de alma penada que amealhou, sabe-se lá como, muque, punho e munheca, e alternam poderes nas quatro festas do ano, feriados e celebrações umbigocentristas. Outros, entre os menos abastados, fazem e desfazem conforme o apadrinhamento e interesse. Entediante, senão desapontador tudo isso. Levanto a vista e o cenário superior é melhor e logo me aparece Torquato Neto da Paupéria: Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. E riu e muito. No meio da sua gaitada frouxa emergiu o poeta e filósofo paquistanês Muhammad Iqbal (1877-1938): A vida é um movimento de assimilação progredindo sem cessar. No seu caminho suprime todos os obstáculos, assimilando-os. A sua essência é a criação contínua de desejos e de ideais. O Eu procura libertar-se eliminando todos os obstáculos à sua passagem. Em parte é livre, em parte é determinado. Numa palavra a vida é um esforço no sentido da liberdade. E rimos muito e muito. Foram embora e me deixaram sozinho apreciando a panorâmica da janela. É hora de ir e lá vou eu Quixote & Bispo do Rosário, almanhã, noitadeus, velavoz galapada & peitaberto: do meu pro seu txai coração.

 


ESSA TAL MERITOCRACIA, QUAL É, HEM? – Curtindo Symphonie op.21 (1928), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), com a Berliner Philharmoniker, Pierre Boulez conducts (Deutsche Grammophon, 1996) - Sim, sim. No Brasil a educação é uma fôrma! Sim, isso mesmo, todos moldados no que é cristão, militarista, servil e, com aquela sabe como é - de fazer o certo, muito embora aqui o certo seja bastante escuso! Estou com Mark Twain do primeiro ao quinto, dezena, centena e milhar! Principalmente depois do fanatismo do evangélico neopentecostal! E por falar nisso, o que é da meritocracia, hem? Ah, nada melhor que ao livro A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? (José Olympio, 2020), do filósofo e escritor estadunidense, Michael J. Sandel: Quem faz sucesso tende a achar que é graças a si mesmo. Destaca ele com todas as letras que A ênfase constante na ascensão individual através da educação superior tinha um insulto implícito: se você não tiver obtido um diploma universitário e se não tiver prosperado na nova economia, seu fracasso é culpa sua. Não há ninguém a quem culpar exceto a você mesmo. Parte do problema é que as elites meritocráticas de hoje em dia sofrem uma falta de humildade. É o que chamo de arrogância meritocrática, e desafiá-la é um primeiro passo importante. E sobre a pandemia? Ele solta na lata: Uma pandemia salienta nossa dependência mútua e exige um alto nível de solidariedade social. À medida que o vírus avançava, ia ficando cada vez mais claro que aqueles que suportavam as cargas mais pesadas e realizavam os maiores sacrifícios, e que sofriam mais perdas de vidas, eram aqueles que tinham sido deixados para trás na prosperidade das últimas quatro décadas. Nem pude digerir direito, chegou logo o Ivan Turguêniev em cima da bucha: As pessoas fracas nunca põem fim a nada – ficam à espera do fim. Se esperarmos o momento em que tudo, absolutamente tudo, esteja pronto, nunca começaremos nada. Sim? Nem tomei fôlego direito e era o Imre Kertész: Não se pode viver a liberdade no mesmo lugar onde se viveu a servidão. Claro, viver é outra forma de nos matarmos a nós próprios: a desvantagem é que é um processo horrivelmente longo. Bombardeio deste, quem sai com o juízo aprumado no meio dos algoritmos & noticiários com suas ideologias de mercado e consumo mundializado, hem? Minha orelha espreita um ninho de pulgas desconfiadas, viu?

 


DO AMOR NOS TEMPOS DE TORTURA & REPRESSÃO – Imagem: arte do artista visual estadunidense John Currin. Curtindo Unbegrenzt (Blank Forms, 2020), da artista sonora, escritora, compositora, filósofa e matemática sueca Catherine Christer Hennix, associada à música drone e filiada ao AI Lab do MIT no final dos anos 70 e mais tarde foi empregada como professora de pesquisa em matemática na SUNY New Paltz - Era ela, como sempre, inusitada no palco do meu coração: Sou Diva, Maria Diva de Faria: Teve uma tortura que aconteceu na véspera do Sete de Setembro. Sei que foi esse dia porque a gente escutava o ensaio das bandas. Me levaram para uma sala com acústica de madeira. Tocava uma música de enlouquecer. Era um som como se estivessem arranhando a parede. A música foi aumentando cada vez mais. Quando eu saí de lá, minha cabeça estava latejando. Por pouco eu não enlouqueci. Lá no DOI-Codi, todo dia eu ia para o interrogatório, e as torturas eram de todas as formas, como na cadeira do dragão, e sempre nua. E eles ameaçavam as pessoas que a gente conhecia. Um dia me chamaram e eu vi o Paulo Stuart Wright encapuzado. Reconheci-o pelo terno que ele estava usando, que fui eu quem tinha dado para ele, e também pela voz. Os torturadores falavam muito das presas, ridicularizavam, gritando para você ouvir. Eram coisas libidinosas, como do tamanho da vagina de uma pessoa que eu conhecia. Uma vez, eles me chamaram para um interrogatório com um homem negro que diziam ser um psicólogo. Isso foi muito tocante para mim, porque é claro que chamaram um homem negro para eu me sentir identificada. Um dia, eles me chamaram no pátio e lá estava o satanás encarnado, o capitão Ubirajara (codinome do delegado de polícia Laerte Aparecido Calandra), apoiado num carro, e um outro ao lado dele em pé, e um bando de homens do outro lado. Ele me pôs para marchar na frente dele, para lá e para cá, para lá e para cá, durante um bom tempo. E os homens falando: “Ô negra feia. Isso aí devia estar é no fogão. Negra horrorosa, com esse barrigão. Isso aí não serve nem para cozinhar. Isso aí não precisava nem comer com essa banhona, negra horrorosa”. E eu tendo de marchar. Imagine só, rebaixar o ser humano a esse ponto… Sim, sou Diva, enfermeira presa e que até hoje não esqueço essas tiranias. Sou também, como ela, Gastone Lúcia, sou Nilda, Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri & todas as Filhas da Dor & dói demais ser viva e mulher! Fui para perto dela, beijei suas pálpebras ensopadas de lágrimas e meu abraço guardou o seu soluço por longo tempo. Depois ela levantou-se e caminhou no meu quarto, tudo cantava ao seu redor, invicta beleza e giravalada certeira que me amparava pelos cantos entre agrados e favores, a sua fome fêmea e a festa do corpo. Depois de zanzar para lá e para cá, acercou-se de mim e recitou a escritora estadunidense Anne Sexton (1928-1974): Viva ou morra, mas não envenene tudo. Eu estou sozinha aqui em minha mente. Não há mapa e não há estrada. Sim, mapas não temos, estradas quaisquer. Para mim, abraçá-la era o mesmo que a sorte de estar vivo diante da deusamante, deusalada, o privilégio de habitá-la e o beijo de sua boca vinho algum revida. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE PAULO DINIZ

Meu nome é marca ferrada / Ferrada com sangue e suor / Que o fogo da vida castiga / Castiga sem pena e sem dó / Nos longos caminhos da lida / Mistura de água e pó / Meu nome é marca ferrada / Porteira fechada de quem anda só / Eu chego lá, eu chego lá / Eu chego em cima / No alto da colina / Ninguém vai me derrubar.

É Marca ferrada (1978), música do cantor, locutor, ator e compositor Paulo Diniz, que teve entre seus parceiros Odibar e Juhareiz Correya, e musicou poemas de Drummond, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Entre seus álbuns musicais figuram Brasil, brasa, braseiro (1967), Quero voltar pra Bahia (1970), Paulo Diniz (1971), E agora, José? (1972), Lugar Comum (1973), Paulo Diniz (1974), Estradas (1978), É marca ferrada (1978), Canção do exílio (1984), Pegou de jeito (1985) e reviravolta (2004), entre outros. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...