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terça-feira, novembro 17, 2020

MICHEL HOUELLEBECQ, ANÍBAL QUIJANO, BONG JOON-HO, EIJI YOSHIKAWA, STAN LEE & DANIEL ARAGÃO


  

TRÍPTICO DQC: ENTRE VALES & CLAUSTROS - Curtindo La Création du monde, op. 81, para pequena orquestra (1923), do compositor francês Darius Milhaud (1892-1974), performed by the Miami University Wind Ensemble and conducted by Sheridan Monroe. - A janela e o mundo lá fora, insuportável clausura. Voo mundo afora, vagar pela terra sem rumo e a salvo das Leônidas, ponteiros desencontrados. Preciso sobreviver às lembranças para além dos limites, nunca mais refém da memória. Sei que é impossível e tento insistentemente. Piso o chão como se libertasse das ideias e a cada contorno a fêmea nua entre fissuras e sinuosidades e grutas, e identifico as faces, os lábios, os seios, o monte de Vênus, as coxas e pernas da mulher amada deitada, estendida entre galhos e raízes, troncos e plantações. Todas ali, como se as mulheres que amei um dia estivessem ali, desnudas e indefesas ao abandono. É como se parissem ali imóveis todas as cores, graus, olores e degraus, superfícies e camadas, alturas e distâncias, lonjuras tantas para meus pés erradios entre saltos pelos declives, a vertigem de tudo e o espetáculo da vida. Lá longe vejo um vulto irreconhecível que de se aproxima um tanto apressado. Prestes a cruzarmos logo o identifico, é o sociólogo humanista peruano, Aníbal Quijano (1930–2018) que me diz na ventania: Somos dominados (domesticados) e não percebemos. Lemos e repetimos frases de efeito, sem efeito (pensamentos de outros, frases de outros, na lógica do eurocentrismo na dominação colonial). Sonhamos presos em arquétipos presos. Não nos permitem sermos quem somos em liberdade. A liberdade se faz na consciência. A Colonização trouxe a mais forte e feroz forma de dominação que já existiu na história da humanidade. Na mentalidade... A luta é contra todas as formas de domínio e poder. O céu é azul sem nuvens e venta demais. Os seus e meus cabelos se assanham incontrolavelmente e quase não consigo me segurar em pé, tamanhas são as pancadas. Despeço-me e ele segue para outra direção. À primeira passada dou de cara com o escritor e editor estadunidense Stan Lee (1922-2018): Continue indo em frente, e se for hora de ir, é a hora. Nada dura para sempre. A vida nunca está completa sem seus desafios. Sim, saúdo e sigo como se enfrentasse todos os algozes num furacão. Ele seguiu o seu caminho, vou em frente e à beira do abismo, fecho os olhos sem hesitação. Sigo adiante, sempre.

 


EXPRESSO DO AMANHÃ – Desperto e não sei onde estou. Pelo barulho e balanço tumultuado, só pode ser um vagão de trem desgovernado. Insustentável situação, não há como me equilibrar, nem há quem se equilibre, o tombo e a queda é morte certa, e servirá a quem puder tirar proveito do tropeço e fraqueza. Sim, o último vagão e a gritaria do noticiário, e os crimes a se acumularem entre andrajosos com seus corpos mutilados, caolhos e cicatrizes, nervos sangrando de manetas, cochos com suas chagas e pernetas, misérias de famélicos e rotos se alimentando da carne do semelhante vencido e estraçalhado. Todos se nutrem do ódio que os fortalece para vencer o outro que é aquele marcado como inimigo quando parente ou desconhecido que lhe farta a soberba e o poder. Tudo é fome, medo e incerteza, ninguém a salvo. Sabia lá eu submerso ao mundo da Le Transperceneige (1984 - Casterman, 2013), do trio Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, porque uma bomba explodiu para que um eterno inverno hostil e gelado nos fizesse sobreviventes - na verdade, prisioneiros - naquele refúgio de um futuro distópico. Ouço o que dizem dos outros vagões, era o real em sobreviver nas cenas de Snowpiercer (Seolgugyeolcha, 2013), do cineasta coreano, Bong Joon-ho. E ouço a trama aos cochichos de uma revolução. O levante é ensaiado para tomar o controle, a animosidade toma corpo e envolve a todos. A minha pacífica natureza não encontra arrimo, todos se tornaram selvagens e não há mais limite para a violência. Ao meu lado o jornalista Luiz Cláudio Cunha avisa: Em tempos de paz, os filhos enterram os pais. Em tempos de guerra, os pais enterram os filhos. Em tempos de Condor, nem isso. A vida só se esvaindo e eu mergulhado naquela iracúndia condição. Tudo escureceu de vez, não sei como me safei. Duas crianças ao longe sorriem com um adeus. Estou indefeso e não sei onde.

 


O AMOR AO ENTARDECER – Imagem: a arte do escultor e artista francês M. Nick. Curtindo a orquestral suite para ballet, Appalachian Spring (1944), do compositor estadunidense Aaron Copland (1900-1990), performed by Symphony Orchestra of Bartók Conservatory Budapest, conducted by Gergely Dubóczky, 2017. - Não fosse a chegada dela como um redemoinho levantando tudo, jamais sairia da cama. Chegou recitando o escritor Eiji Yoshikawa (1892-1962): Eis porque / Da semente paterna recebeis o espírito, / Ao ventre materno deveis a forma. / E por causa dessa relação cármica, / Nada neste mundo se compara / Ao misericordioso amor de uma mãe: / A ela deveis a eterna gratidão. Um beijo dela e o crepúsculo no olhar anunciou a festa com uma frase do escritor francês Michel Houellebecq: A ternura é um instinto mais profundo que a sedução, e é por isso que é tão difícil perder a esperança. Tudo pode acontecer na vida, especialmente nada. E incorporou Go Ah-sung nua, para modelar ao meu toque artífice a esculpir nela o seu prazer duradouro e a minha salvação. Assim como pisei no chão de toda Terra, tateei seus recônditos e extensões, para ser nela e nunca mais voltar a mim. Até mais ver.

 

BOA SORTE, MEU AMOR

Para que fazer cinema se não for para arriscar?

O drama Boa sorte, meu amor (2012), dirigido pelo cineasta Daniel Aragão, conta a história de um filho da aristocracia sertaneja nordestina que trabalha numa empresa de demolição promovendo a mudança nas cidades. Ele encontra uma jovem estudante de música com alma de artista que o influenciará a mudar a própria vida. O amor o leva a detectar as origens das oligarquias e a herança do coronelismo. O filme é lindo e ousado, em preto e branco e marca a estreia do diretor em longas-metragens. O destaque fica por conta da atuação da atriz Christiana Ubach que brilha do começo ao fim. Veja mais aqui e aqui.

 



terça-feira, janeiro 28, 2020

EMERSON, HARRIET WHITNEY FRISHMUTH, CHRISTIANA UBACH, OSMAN LINS & CARTA DE GRATIDÃO


CARTA DE GRATIDÃO – O que eu fui se fez em mim para desvendar o segredo da vida e não era qualquer a infância para uma adolescência de descobertas. Meu pai morreu pobre. Nas noites de frio devorava livros da biblioteca da minha mãe: a lâmpada acesa nos meus olhos grandes. Fui hospedado na Casa da Dor pela tísica por anos. Aprendia e já me via irreverente com as velhas tradições e profissões: cada ser humano é um deus em formação. Passei a me sentir dono do mundo das sete estrelas e do ano solar. Não temia mais ser atacado por todos, que eu tivesse o solilóquio da alma sincera sob o céu. Falava, assim mesmo, praqueles que tinham ouvido e não me podiam ouvir. Até que o primeiro amor me envolveu. Ah, Ellen, como eu me apaixonei por sua beleza extrema, a presença viva nos meus diários. Fomos feitos um pro outro e a minha vida voava com o seu espírito alado, serena, amável. Quando me disse que estava pronta para morrer, não imaginava que fosse chamada pela morte tão cedo. Só eu sei a minha aflição: um anjo ia pro céu naquela manhã de fevereiro, não esqueci a paz e a alegria. Dezoito meses separaram em mim a felicidade da tristeza. Fui para a montanha do norte, vasculhar minha alma e decidir meu futuro. Ali, percebi que o homem e Deus poderiam se encontrar entre os outeiros de Roxbury, porque harmonizei o ouvido e o coração com a música da Natureza: éramos Um na Alma do Mundo. Ao retornar, não havia mais como conciliar meu saber e vivência com as tradições religiosas. Aplicava, apenas, a prática do Sermão da Montanha, nada mais. Renunciei a fé com meus ombros encolhidos. Mesmo ausente, foi Ellen quem me proporcionou a vida em Concord: um refúgio para pensar e agir. Segui devotado: a vida não se resumia apenas em mediocridade e insipidez, uma gente indefesa, difusa e prostrada, dispersa e horrorizada. Reverberava em mim a energia da Lei Suprema: o tudo e a Humanidade – a inteireza e a unidade indivisa. Deixei os cemitérios do passado, olhei para os bosques do futuro. Passei a defender a nobreza do comum, a crença dos pacíficos pioneiros: a liberdade individual e a tolerância universal, a colaboração mútua entre humanos livres na tríade viver, deixar viver e ajudar a viver. A dignidade da pessoa comum reconhecida, como se cada qual na soma do Todo: a declaração universal da interdependência. E o amor me envolveu pela segunda vez. Ah, Lydian, uma mente nobre e sincera, uma alegria muito sóbria: educada, inteligente e ativa, uma afeição além das paixões: a grandeza do amor e a sujeição de cada qual à dimensão do desamor. Amávamos cada um, ao seu modo. E sorríamos, dialogávamos, a interlocução dos dessemelhantes. Nisso, inventávamos a nossa felicidade. O seu amor aprumou meus sentimentos e passei a ser o professor da ciência da alegria à beira de tudo quanto é grande e real: que cada um se preocupasse com o seu trabalho e respeitasse o do outro. Esse o meu aprendizado panhumanista. Elas me ensinaram a amar a vida e o mundo, desinteressadamente, da forma mais natural possível. Nunca fui tão feliz, não havia mais como distinguir o que era da vida e o que era da morte: a vida, uma só. Por isso, minha eterna gratidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Toda alma é uma Vênus celestial para toda outra alma. O coração tem seus dias de festa e seus jubileus, nos quais o mundo aparece como um himeneu, e todos os sons naturais e o ciclo das estão são odes e danças eróticas. O amor é onipresente na natureza como motivo e recompensa. O amor é a mais elevada palavra que possuímos, e é sinônimo de Deus. [...]. Trecho extraído da obra Ensaios: homens representativos (Martins, 1965), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882), que primeiro amou Ellen Louisa Tucker (1811-1831) e faleceu dezoito meses depois do seu casamento. Em seguida, amou Lydia Jackson (1802-1892). A relação deles com elas estão descritas em obras como One First Love - The Letters Of Ellen Louisa Tucker To Ralph Waldo Emerson (Churchill Livingstone, 1962), de Ellen Louisa Tucker, organizada por Edith W. Gregg; Mr. Emerson's Wife (Griffin, 2006), de Amy Brown; The Essential Writings of Ralph Waldo Emerson (Modern Library, 2000); e O pensamento vivo de Emerson (Martins, 1865), organizado por Edgar Lee Masters. Veja mais aqui, aqui & aqui.

BOA SORTE, MEU AMOR
O drama Boa Sorte, Meu Amor (2013), dirigido e escrito por Daniel Aragão, conta a história de um homem de 30 anos oriundo de uma família aristocrata do sertão nordestino. Ele trabalha em uma empresa de demolição, ajudando nas diversas transformações que a cidade tem passado nos últimos anos. Ao encontrar Maria, uma estudante de música com alma de artista, ele passa a sentir a urgência por mudanças em sua própria vida. O destaque fica por conta da atuação da atriz Christiana Ubach. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
É tão fácil fazer a beleza feia e distorcer. Excentricidade e capricho não substituem estilo e domínio na modelagem. A beleza está em toda parte neste mundo, sempre esteve. Talvez os olhos de hoje não tenham sido treinados para ver, pois se o artista aprecia e entende a natureza, ele não pode ir muito longe da verdade e da beleza, que são os pilares da grande arte.
HARRIET WHITNEY FRISHMUTH - A arte da escultora estadunidense Harriet Whitney Frishmuth (1880-1980). Veja mais aquiaqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A literatura de Osman Lins aqui & aqui.
A música de Cussy de Almeida aqui & aqui.
A arte de Cícero Dias aqui & aqui.
A poesia de Mário Hélio aqui.
A taboada de Azulão, do cordelista Sebastião Cândido dos Santos aqui.
A arte de Cícero Santos aqui
&
O município de Catende aqui, aqui, aqui & aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...