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sábado, julho 18, 2026

CECÍLIA MEIRELES, BERNARDO ATXAGA, SUZANA HERCULANO-HOUZEL & SANTANNA O CANTADOR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.


 

As guinadas de chué ao nababo de findar amundiçado pastafari... - Desde nascença Jeremulino apostava tudo pra dar certo. Fazia força, fincava pé e quanto mais pelejava, menos saía do lugar. Era voluntarioso, mas pé-frio, coitado. Décadas de miséria nos costados. Tudo isso durou até o dia em que conheceu Mary, que se dizia Butterworth e tratada por Mãe do Ouro: Ih, estrangeira, é? Sei lá. Tá lavando a jega, hem? E tanto afeiçoou-se, de segurar no cós da saia dela de não mais largar, pegado. Tão atarantado, enrolou-se de paixão. Estava um tanto deslumbrado: bem vestido, altas rodas, lugares granfinos, gente nos trinques - ela tinha muita grana e amigos, parecia -, a partir de agora, também eram seus nas portas escancaradas, recepções acaloradas, abraços efusivos, nunca tinha visto nada daquilo na vida: Ora, tô enturmado, meu! Agora vai! Logo no primeiro jantar associaram-se a uma dupla de magnatas, tratados por Charles e Bernie - pelo jeito estrangeiros e inseparáveis: agora era internacional, visse! E não muito tempo depois, o casal foi acompanhado por Frank, um fino médico que também era piloto de aviação. Que chique! Compadre, meu! E almoçavam num requintado restaurante com os achegados do dia, ou jantares, chás, encontros. Doutra vez era Alfred, um que descobriu um medicamento que era uma verdadeira panaceia pra cura da AIDS, câncer, lúpus e qualquer tipo de doença. Brindaram o futuro Prêmio Nobel de Química dele. Oh! Tamos juntos! E recepcionaram um ricaço hindu, o Mithilesh, recém-chegado duma negociação no Taj Mahal. Olha o requinte! Sua vida dera um giro estratosférico de 360 graus, desde que ela apareceu, pra ele se empanzinar no sofisticado, a se empolgar com os drinques, da cabeça nas nuvens e a vida no mundo da Lua, todo apurado. Foi. Apegou-se à tal largadona, os modos enxutos dela, toda recente e esvoaçante, inaugurava felicidade jamais vista: ela fascinante nos seus olhos, cativante no coração dele. Ao lado dela se sentia maior do que nunca foi. Autoconfiança ganha, dedicando a ela mais do que nem tinha. E assim foram dias movimentados, semanas agitadas, efemérides por meses ininterruptos, quase dois anos inesquecíveis, quando, de supetão e sem causa aparente, viu-se na clausura da solidão: liso, fodido e mal pago. Que foi que houve? Perdeu a boquinha: foi despejado do paraíso. Não tinha mais guarda-roupa para as ocasiões, nem comes e bebes, ninguém mais pra chamá-lo de doutor – que nem era, mal conseguira findar o ginasial, a pulso, avalie. Estava empalado pela escassez: Vida madrasta, essa, se eu fosse de passar a perna, ainda ia, embrulhava; mas perdi o crédito, soltaram os demônios pra festa do inferno. E com uma mão na frente e outra atrás, desvalido. Reparou melhor: Por que foi mesmo? Assuntou, a extravagância da punição bissexual. Como pode? Fosse gente ou bicho, assim era. Mas isso nem ligava, duas de quinhentos que fosse, nem aí; ser corno era pouco, vá lá; o pior mesmo era sentir-se rejeitado: a tragédia foi ter nascido -, só agora se dava conta disso. Passava mal, zonzo, claudicante, à beira da loucura, roendo unha de ressentimento pela dor de cotovelo: As gaias pesam fodendo tudo na cachola! Insistia em reatar a relação com ela, mas cadê-la, pronde foi, perdeu o contato. Foi-se. Bateu de porta em portão, todas sisudamente fechadas, havia ninguém pra recebê-lo: Destá, todos se passavam por amigos e agora? Quebrou a cara, lascou; alisou, fim de tudo e, sem ela, era ninguém, invisível desconhecido. Dobrava capenga a esquina da amargura e, inadvertidamente, trombou com um estranho, desculpou-se. Já seguia se escorando na parede, quando ouviu em alto e bom som: Rapaz, é você mesmo? Levantou a vista e era Marcelo, um amigo de infância que o reconhecera na hora. Como vai? Escapando. Que é que falta? Tudo. Vambora colocar o papo em dia, diga lá o que aflige! Jeremulino acompanhou o amigo, agora já bem de vida, elegante, nem parecia o maloqueiro com quem convivera na miséria décadas atrás. Agora não, arrotava contando que a mãe enviuvou e casou-se com um ricaço que o tratava por filho, herdeiro de uma companhia aérea e outros tantos bens e posses. Está precisando do quê? Rapaz. Diga! Tô f-o-fo-d-i-di-d-o-do! Ah, reencontrar e reatar com a namorada? Piongo. Como é o nome dela? Mary Butterworth! Ela? Sim. E você numa pindaíba dessa? Ela foi pior que a Rita: levou tudo, até a minha vida. Ora, tenho um amigo detetive aí que localizará ela na hora. Mesmo? Você está hospedado aonde? Na rua. Vamos pro meu hotel, vou ligar agorinha pro nosso investigador. E seguiram, atravessaram o saguão, entraram no elevador, subiram e foram bater numa suíte real, com múltiplos quartos, sala de jantar, cozinha compacta, segurança redobrada e serviços altamente personalizados. Este aqui é o meu quarto, escolha o seu, vá! Eita, agora sim, voltava a ventar favorável, sabia: a vida não ia deixá-lo na mão. Chega regozijou-se folgado, renovava as esperanças. Lá estava de novo revivendo nas alturas as coisas recém passadas. Foi se banhar e ouviu: O agente está chegando, vou ter que ir a uma reunião, fique à vontade, viu? Tá. Poucos minutos depois bateram insistente à porta. Já vai! Enrolou-se na toalha e abriu: Polícia! Ôpa! Você está preso! Eu? Algemaram-no do jeito que estava e arrastaram-no porta afora. Deram numa delegacia e, de lá, vamos por parte: chegou e foi logo empurrado pra uma sala com várias pessoas, sentaram-no à cadeira e um bafo na moleira: Vá, abra o bico? Sobre o quê? Fala! O quê? Foto! Quem é essa? Mary, minha ex-namorada. Quem? Mary Butterworth, não sei pronunciar direito! Desembucha! E contou que ela deu as costas pra ele, hoje de madrugada, num bar e sumiu. Fui na casa dela, bati, ninguém atendeu. Onde ela mora? No Sítio Groenlândia, Switzland. Hum, ricaça! Vão lá. E esses? Charles e Bernie, são estrangeiros. De quê? Não sei, são amigos dela, conheci o ano passado, só sei dos nomes. E esse? Frank. De quê? Também não sei, é amigo dela, disse ser médico e piloto, conheci pelos outros dois. E esse? Alfred. De quê? Não sei, ele está pra ganhar a qualquer momento o Prêmio Nobel pela descoberta de um medicamento aí. E esse? Ah, esse é Mithilesh, um bilionário hindu. De quê? Também não sei e é amigo dela. Todos são amigos e você no meio sem saber de nada? Sim. Fazia o que entre eles? Festas, passeios, viagens. Leve ele pra cela! Estava nu. Os outros presidiários comiseraram e já arrumaram umas vestes que foram entregues pelo carcereiro: Tomaí, porra! Era uma camisa já um tanto esfarrapada, um resto de bermuda e um par de meias furadas. Pronto, vestiu-se e quase sentiu um fiapinho de dignidade. No primeiro cochilo foi picado por uma aranha-armadeira, acometido por priapismo doloroso: Vou morrer! E ficou aos gritos. Que é que tá acontecendo? Foi levado às pressas pra enfermaria, logo levando fisgada de injeção por todo lado. Vou morrer que nem tábua de pirulito! Ê, furado! Lá pras tantas, ao sentir-se melhor, logo foi assolado por uma diarreia braba: Oxe, ele tá se acabando pelo fundo feito panela! Eita, caganeira macha! E fedorenta, meu! Catinga da peste! E tornou-se a diversão: o Zé Cagão. Nos dias seguintes foi levado pro delegado e um brabo agente mostrou uma foto e disse: Essa é sua ex-namorada? Sim, a Mary. Sabe quem é ela? Não, senhor. Passou a saber na hora: uma foragida balzaquiana, falsificadora de libra esterlina, que lavava o dinheiro num suposto bufê supostamente de sua propriedade. Esses são amigos dela? Sim. Eram Charles Ponzi e Bernie Madoff que criaram um sistema golpista, que ludibriaram muitos investidores com promessas de lucros astronômicos. Esse também amigo dela, né? É Frank. Era o mestre dos disfarces, Frank Abagnale, trambiqueiro que se passava por médico, piloto e até advogado. Esse? O Alfred. Era o curandeiro herbalista, Alfredo Bowman, picareta mais conhecido como Dr. Sebi, criador do O Cell Food e cultor de uma filosofia extravagante de vida. Esse? Mithilesh. Era o lendário caloteiro indiano, Mithilesh Kumar Srivastava, famoso por vender marcos históricos com documentos falsificados, inclusive o Taj Mahal. Minha nossa! E você não tem a ver com isso? Nem sabia quem eram! E esse? Ah, um amigo de infância. É? Sabe quem ele é? Não o via desde uns 15 ou 20 anos atrás. Era o trapaceiro Marcelo Nascimento da Rocha, piloto do crime, se passou pelo filho do dono da Gol, por VJ da MTV, por guitarrista do Engenheiros do Havaí, dono de edifícios e propriedades, está preso agora em Avaré, cumprindo pena de 16 anos. Minha nossa! E agora? Deus tenha pena de mim. O sonho de caça ao tesouro, era uma vez. Tudo vigarista e eu alesado, no meio da enrolação. Se liga no caô aí, véi! Tô frito! Anos se passaram e cumpriu pena. Ao sair da prisão não tinha pra onde ir, só tinha a roupa do couro e o terreno baldio por guarida. Fazer o quê? Juntar as bandas da bunda e sair uma rebatendo na outra. E calar a boca: quando penso, peido; quando falo, cago. E aos reclamos: Porra, fedeu, hem! Bagunçava a porratoda! Lá ia se arrastando. As horas demoravam, comovida mudez: Por onde recomeçar, não sabia. Solidão: Sou entre os que foram abandonados por Deus! Cuspiu sua palavra, seu dialeto próprio, sabia: sua hora ainda vai chegar, ah, se vai. Sua pele coriácia encorajava-o: Não foi a primeira vez, nem a última. E nem morri! Essa sua terrível sorte. A tristeza cansava no durado de semanas, sabia: a alegria tem seus perigos de vigia, convinha precaver. Amanhã ninguém sabe, tanto faz cair pra qualquer lado, a queda é uma só, até o dia em que o diabo levanta os braços, aí, já era, babau. Tá bom. É com o escorregão alheio que o povo se diverte. No mais, tudo era sempre depois de amanhã. Nas contas do dia, um perito em identificar pontos de fuga. Qual indulto naquela hora? Deu-se em estado de bicho, néscio instintivo, intensas sensações, a cólica dos intestinos, entortou-se às cuspidas, acossado por todas as culpas, pensou alto: precisava se perder para chegar aos lugares que não se acham! Ah, não há de ser nada, disse-lhe alguém. Hem? Perdido ou escorraçado? Uma e outra. Ah, tenho um santo remédio, venha! E foram até um recinto ali perto, deram-lhe banho, vestimentas e apreço. Ao redor, todos os presentes com uma caneca à mão, ofereciam: Cerveja? Já sai a comida sagrada pro nosso ritual. Animou-se com a travessa farta de espaguete. Uma ovação: Viva! Ramém! Encheu a pança e, depois das comemorações, deitaram-no numa espreguiçadeira num quarto do quintal, nem notando a presença de outros arranchados por ali. Ao amanhecer ouviu os 8 mandamentos do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador. Meteu-se na risadagem, era sua redenção. Um escorredor de macarrão na cabeça e vestimenta de pirata: Ramén! Goles na rodada de cerveja. Ramém! Toda sexta é dia santo e feriado! Ramém! E assim simpatizou-se com os pastafari, mais um neófito, entre eles, na senda, sobrevivendo de bicos, cama e comida garantida. E toda sexta pirateando: Viva Ching Shih! Ramém! Viva o Barba Negra! Ramém! Viva Anne Bonny! Ramém! Viva Black Bart! Ramém! Viva Mary Read! Ramém! Viva o capitão bucaneiro Morgan! Ramém! E tome virada de copos, empanzinamentos com as massas e lambuzado pelos molhos e espumas. Foi assim que aprendeu o riscado, assoletrando: quem na vida muito quer, finda no baú de Davy Jones. Cuidado: se salve de andar na prancha. Aprenda: pegue o que puder, não devolva nada - os mortos não contam histórias. Até mais ver.

 

Elias Canetti: Todas as coisas que se esqueceram clamam por socorro nos sonhos... Não consigo ser modesto; muitas coisas ardem em mim; as velhas soluções estão ruindo; nada foi feito ainda com as novas. Por isso começo, em toda parte ao mesmo tempo, como se tivesse um século pela frente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Joacine Katar Moreira: Andei sempre contra a maré que nos indicava quais as nossas hipóteses, até onde é que podia ir. E eu olhava para isso não como uma limitação mas como algo que eu iria provar que não era bem assim... Veja mais aqui.

Cassandra Clare: Leia tudo! Não basta ler coisas que estão em sua zona de conforto ou coisas que você acha que já vai gostar. Experimente; experimente coisas novas e experimente novos gêneros. Se você ler muito romance, então comece a ler mistério. Se você ler muito mistério, comece a ler fantasia... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROMANCE X OU DA DONZELA POBRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Donzelinha, donzelinha \ dos grandes olhos sombrios, \ teus parentes andam Longe, \ pelas serras, pelos rios, \ tentando a sorte nas catas, \ em barrancos já vazios! \ Donzelinha, donzelinha, \ mira os santos nos altares, \ que apontam, compadecidos, \ para celestes lugares, \ onde são de ouro e diamante \ quantas lágrimas chorares! \ Donzelinha, donzelinha, \ fecha esses olhos sombrios. \ As montanhas são tão altas! \ Os ribeiros são tão frios! \ O reino de Deus, tão Longe \ dos humanos desvarios!

Poema extraído do Romanceiro da inconfidência (Nova Aguilar, 1997), da poeta, jornalista, pintora, escritora e professora Cecília Meireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles – 1901-1964). Dela o verso: Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda... que inspirou curta-metragem dirigido por Jorge Furtado em 1989. O documentário utiliza esse trecho do poema épico Romanceiro da Inconfidência para encerrar sua crítica ao sistema capitalista e à desigualdade. O curta-metragem acompanha o ciclo de vida de um tomate, desde a colheita até ser descartado em um lixão na Ilha das Flores (1989), dirigido por Jorge Furtado, em Porto Alegre. O objetivo da obra é escancarar a desumanidade social ao mostrar que, no local, porcos têm preferência de consumo sobre os restos de lixo antes que estes sejam destinados aos seres humanos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CASAS & TÚMULOS - [...] Feliz é aquele que, como Ulisses, viu cem paisagens. [...] Não existem palavras que sejam como água destilada, insubstanciais, alheias à vida e ao mundo. [...] Existem dois tipos de literatura: uma que propõe uma jornada para fora (crimes em Norlândia, paixões na corte chinesa do século XII, traições mortais em um campus americano…) e outra que inclui uma jornada adicional, aquela que o leitor deve fazer dentro de si. [...] Sei que os laços do amor não são iguais, e que um deles, o que vai de mãe para filha, deve ser mais forte do que o que vai de filha para mãe. [...], Trechos extraídos da obra Casas y tumbas (Alfaguara, 2019), do escritor espanhol, Bernardo Atxaga (Joseba Irazu Garmendia), autor de obras como The Accordionist's Son (2003), Memorias de una vaca (1991) e Obabakoak (1988), entre outros.

 

ALGUNS SÃO IDIOTAS MESMO!... - [...] Algumas pessoas SÃO idiotas e continuarão sendo, não importa o que você faça. Isso inclui os Mansplainers; pessoas de todos os gêneros que são tão convencidas de si mesmas que não ouvem (portanto, não é possível ter uma conversa); supremacistas de todos os tipos. Meu conselho? Se eles forem reincidentes, exponha-os, chame-os a atenção - mas com o idiota desconhecido ocasional que VAI incomodá-lo sempre que você começar a brilhar, não perca seu tempo tentando educá-los. Aprenda o que puder com eles: seus "argumentos" favoritos, sua "lógica", seus padrões de retórica - depois acene com a cabeça "obrigado" educadamente enquanto eles ainda estão bajulando sua superioridade intelectual sobre você e, em seguida, livre-se deles. Aprenda com a experiência, assim como você pode aprender ao assistir a uma palestra ruim. Algumas pessoas, entretanto, NÃO são idiotas (ainda), mas podem, ocasionalmente, agir como tal. Essas são salváveis e merecem seus esforços, SE você estiver disposto a isso. Você pode tentar perguntar educadamente: "Você percebe que está parecendo que está dizendo Y em vez de X e me insultando? Você realmente quis dizer isso? Porque você está parecendo um idiota, e eu não acho que você seja um" - ou algo nesse sentido. A parte importante é enfatizar como a pessoa está agindo como um idiota, quando você não acredita que ela seja um. As pessoas não esperam a franqueza, portanto, se não forem idiotas, a franqueza educada, não agressiva, não defensiva e puramente informativa as desarmará. E se, no fim das contas, elas forem idiotas... melhor que fiquem longe, não é mesmo? [...]. Trecho do artigo Algumas pessoas SÃO idiotas, e isso não vai mudar (Escritos em Neurociências,), da neurocientista e professora Suzana Herculano-Houzel, que noutro artigo, Todo mundo precisa ter problemas (Neurociências da vida comum), ela expressa: [...] Só com sensação de controle sobre a própria vida se deixam os outros em paz. [...] Eu hoje, neurocientista, entendo perfeitamente. Aprendi que a chave para o bem-estar está na sensação de controle sobre a própria vida, e que, por definição, só há “controle” onde existe algo a ser controlado: um problema ao alcance da nossa competência. Por isso os tempos de calmaria, teoricamente ideais, nem duram, nem são ideais de fato. Se não há problemas para resolver, criamos um, e ainda chamamos de “propósito”. Pode ser chamado de hobby, projeto de aposentadoria, mas também neto, nora, vizinho – ou imigrantes e outras pessoas estranhas em aparência, ideias ou religião. Acho que agora entendo a obsessão de cada vez mais gente mundo afora em controlar a vida dos outros, num flerte global com o autoritarismo que já descamba para a execução. Quem vive cronicamente estressado com subemprego e exploração socioeconômica, apanhando da vida, precisa da sensação de controle de poder baixar o cacete em alguma outra coisa ou alguém ainda mais na miséria. Para quem vive cheio de problemas, ir às redes sociais se meter nos direitos alheios oferece o alívio temporário tão necessário à sensação de impotência. E quem vive no estado oposto de afluência descansada precisa igualmente de um novo problema para resolver. Com a vantagem de gozar de tempo e dinheiro, parte dessas pessoas vão se meter a controlar os outros que vivem situações de merda tão profunda que requerem aborto, emigração ou novas chances, negando-lhes tudo apenas porque elas podem. Como fazer com que as pessoas parem de se meter na vida alheia? [...] Alguns problemas são insuperáveis, mas a vida é feita de todos os outros. [...]. Ela é autora da obra The Human Advantage: A New Understanding of How Our Brain Became Remarkable (The MIT Press, 2016). Veja mais aqui.

 

SANTANNA O CANTADOR

Eu acho que devemos ser eternos aprendizes, para podermos evoluir com mais consciência do que somos e do que queremos... Você tem que acreditar no seu jeito de fazer as propostas. Quando a coisa é verdadeira as pessoas notam e sentem. A verdade será sempre moderna e bem aceita, mesmo que doa...

Pensamento do parceiramigo, cantor e compositor Santanna, O Cantador. Veja a entrevista que ele concedeu pra mim e outras coisas a respeito do seu talento e carisma aqui.

 

LER BEM – O concurso Ler Bem 2026, iniciativa da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (ASPA) objetiva incentivar a leitura entre estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental de escolas municipais. Este ano o Observatório de Leituras da Semed-Palmares, acompanhou o estudante Zeus Vinícius Barbosa Holanda, da Escola Municipal Professora Maria Elizabete de Oliveira Calado, em Palmares, Pernambuco, em 3 encontros, contando com o apoio do professor Emerson José Oliveira da Silva e dos técnicos da Semed, comandados pelo professor Valmir Melo. A obra estudada foi A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingts jours - FTD, 2013), do escritor francês como Júlio Verne (Jules Gabriel Verne – 1828-1906), considerado o inventor do gênero de ficção científica. Veja o ocorreu durante os encontros e treinamentos aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – O professor Emerson José Oliveira da Silva apresentou o artigo científico sob a temática A arte na educação infantil e desenvolvimento da criança na pré-escola, no Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, da Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul/PE (Famasul), de Palmares (PE), orientado pela professora Vanessa Ferreira dos Santos. Veja na íntegra aqui.


 

CENTENÁRIO DE DAREL VALENÇA LINS – Em 2024 comemorei o centenário do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor, Darel Valença Lins (1924-2017), com a publicação do livro Dareladas, lançado tanto em Palmares, sua terra natal, como também no Rio de Janeiro. Confira como ocorreu aqui.

 


SEMANA HERMILO BORBA FILHO - Em homenagem ao advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-2017), acontecerá a Semana Hermilo, entre os dias 28 e 31 de julho, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares (PE). Confira detalhes & muito mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.

 


domingo, agosto 17, 2025

ASTRID ROEMER, AMANDA MONTELL, CRISTINA RIVERA GARZA, CUMADI FULOZINHA & ARTE DA ESCOLA


 Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] a questão-chave investigada nesta pesquisa diz respeito a desconstruções estéticas vocais - com foco na movimentação da Vanguarda Paulista - e como isso pode estar associado ao feminino. [...] buscou contribuir para uma extensa gama de pesquisas que relacionam música a questões de gênero, além de apontar a coexistência colaborativa entre diversos métodos para a análise de canção das mídias. [...].

Trechos extraídos da dissertação de mestrado sob a temática Se a obra é a soma das penas: um estudo feminista sobre as cantoras da Vanguarda Paulista (USP, 2018) e ao som do álbum Mulher Bomba (2022), da compositora, pianista, cantora, professora, preparadora vocal e ativista Luísa Toller (Luisa Nemésio Toller), em parceria com a escritora, atriz e slammer Luiza Romão.

 

Heptamerão: até que a morte os separe... - No primeiro dia era janeiro nos olhos estivais de Suzanilza, a sonhar Egipcíaca de Bandeira, como se fosse a rainha de maio da Vita de Sofrônio. Entretida com o que se tornara seu Heptameron de Navarre, mais se embalava com as leituras dos versos adorados da Soror Juana Inés, alentando-se com outras de tantas preces, quando empinava os seios para madurar nas estrelas, no afã de que de lá refletissem aos olhos do bem-amado longínquo, sabia ela não tardaria a chegar. Era o chamado do amor numa espera de séculos e por todas as suas tardes e noites suspirantes. No segundo dia do seu devaneio profundo, o espetáculo do crepúsculo outonal: lá estava ele vencendo as distâncias mais remotas para ancorar seu Pavão Mysterioso na varanda do quarto dela. Iluminada pela recepção, mais se fez bonita lua decotada, pronta pro seu senhor desejado. Ele abraçou-a com suas mãos de Proteu, dela se deixar à mercê de suas investidas por entre saia, a desabotoar seu corpo virginal castiço, com ginga pro rastapé, bate-coxa, um galope à beira-mar. Ele descobria o labirinto da intimidade dela e a cada instante reiniciava e, por azo, fruía do seu inebriante perfume arrebentando o tempo, agitando por dentro para que ela se fizesse dilúvio com seus belos adornos ao seu dispor. E mais se gabava porque o vento trazia a tormenta e tanto lhe foi dado atiçando a lareira dela, para que ela crescesse vultosa e não mais donzela, ocupando-a a instigá-la, de perder as vestes todas e ser só dele, a se queimar com o seu fogo ardente. Ela astuciosa serviu-lhe fagueira, a boca entreaberta e suas águas escorriam. Um talho recíproco em seus polegares selou definitivamente o pacto de sangue. A alvura dela imaculada o fazia claudicar extasiado diante do enlace dos nubentes. E naqueles lábios escarlates ele se lambuzou com o gosto do batom, saboreava nela tantos quantos deliciosos bem-casados. Dali talvez dias mais, ela noivava esponsal de Getulídio, um aplicado bancário de somas e contas, agora dono de seu coração e um calendário repleto de brindes e libações. No terceiro dia de quantos meses a lua de mel se prolongou com a ascensão primaveral no ramalhete diário de bem-aventurados e os dois se engalfinhavam pelos lençóis do tempo e até as horas cúmplices se estiravam pelos colchões de nuvens migratórias, impressionando-o com o Olho de Hórus no trancelim dela. Logo os filhos vieram. O primeiro a nascer foi Ínvio, um primogênito na empáfia de todas as satisfações. Um ano depois, a filha, Maria Lua, coroando o casal. E viviam para si de quase olvidar o crescimento do filho a olhos vistos, enquanto a filha engatinhava sonhos que serviam de folguedos para sua felicidade imorredoura. Definia-se a descendência, de quase não conseguirem segurar o trupé do coração. E um sobressalto repentino, a família e, o que era cor-de-rosa, agora singrava as obrigações e cuidados imprevisíveis com o espelho quase se espatifando inadvertido, trincando o vidro dos festejos. No quarto dia a invernada súbita e a dança dos erros com a morrinha, o grande não, os desacertos, quantos percalços fizeram a barra mais pesada pra eles, a poeira do deserto, puxa vida! Amargurados, sequer notaram os filhos crescidos e tomando o rumo das suas ventas. Um dia ao despertar com a braguilha pelo avesso: um brinco na orelha do filho. Como é? O alarme soava: o rapaz descobriu-se outra que não a sua, era agora Tyrésias. Com o escândalo Maria Lua minguou fazendo coro, não mais aquela porque outro era o seu teimar, João Sol – Maria Joãozinho para íntimas de sua sororidade solidária, luz própria, próprio mando e firmeza de fé. Clamores exacerbados: O que foi que eu fiz, meu Deus? Era o caos nos olhos descabelados em todas as direções: uma heresia nos seus bíblicos poréns, como se não poupasse sua condenação - Maldita androginia! O ridículo, a posteridade, a reputação, tudo revirado aos relâmpagos e trovões. Uma sentença secreta mostrando os dentes na aflição paterna. No quinto dia ensolarado, o verão era enorme como um dia de fome, lágrima alguma evaporava, não havia perdão e era o que mais punia. A notícia da tentativa de suicídio do filho liquidava de vez as forças maternas restantes e não havia como ela resistir. Na sua agonia estertorava com a ameaça de que a filha fugira de casa na madrugada. O pai se vingou: ia enxotá-los de qualquer jeito. Suzanilza estava cônscia que ia morrer, esgotada pelas demandas: era quase uma Fênix deplorada e que se fez cinzas para jamais ressuscitar - uma estrela perdida nas constelações infindas. Quando ele a viu quase uma estátua de pedra, sabia que seria nunca mais: a viuvez, os cravos de cemitérios, os choramingos, nada havia como abrandar a sua dor. O riso preso pela alegria que se fora com o teto que desabou apagando a memória, lugares e palavras. Entre as mãos escondia a face, a morte adiantava a sua parte e não moveu um dedo sequer: ela viva jamais o deixaria morrer. Agora, não mais. Era o sexto dia pluvioso, a desmemória e não podia ignorar o álbum de fotografias. Foi-se a esperança e o que ficou para trás. Naquele momento todos as memórias se esvaíram na escuridão. Tentou reabilitar-se no penúltimo degrau da escada para destruir o sinaxário, como se caçasse quem roubou o segredo de Deus e raptou para si a palavra perdida. Ali sentia e era incapaz de entender seu próprio sentimento. Muitas noites naquela longa travessia soturna com a herança apenas de cada vez contar a sua história e a sensação reiterada de nunca mais. Enfim, no sétimo era dia branco e não sabia. Passou a vida a limpo, lamentou tantas vezes terem se estranhado por coisa de pouca monta, as cenas de ciúmes, ausências punitivas, o descanso, o silêncio valetudinário, esgotava-se. E uma luz nas suas trevas: Quem é ela? Vinha calma, cândida, vestida com seu manto branco reluzente, cocar de penas brancas e, ao peito, a insígnia com um punhal branco afiado e lâmina para baixo. Quem é ela? Vinha carregando o seu bastão celeste feito de pau-brasil banhado pelos raios de Tupã, à cintura o cordão de Iara e o sorriso confortador: Sou Catxuréu: O fim será sempre o início de um novo começo... Não ouvia, nem falava. Sabia apenas que ela viera da primeira morte do mundo para levá-lo pela ponte dos que se perderam, livrando-o de Luison – o deus da morte ruim. E o acompanhou até a sua última gota de vida, era 1º de abril. Até mais ver.

 

Nazik Al-Malaika: A noite pergunta quem eu sou. Eu sou sua intimidade insone, profunda e escura. Eu sou sua voz rebelde... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Annie Proulx: Somos todos estranhos por dentro. Aprendemos a disfarçar nossas diferenças à medida que crescemos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Martha Medeiros: Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo... O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ESCOTOMAS - Espumante: \ Esta área cega do campo visual \ é uma série de \ flashes de luz em movimento. \ O fato de saber \ coisas \ só porque \ o fato de imaginá-los \ a mente vê \ o que quer ver \ claramente. \ A cama. \ A cicatriz.

REENCARNAR - O luto é uma questão de excesso de ordem. \ Luto é a mesma coisa que tristeza? \ Certamente ela já teria se perguntado isso antes. \ Não sei o que ele poderia ter perguntado a si mesmo. \ Se em vez de irem a uma festa \ tivessem ficado sozinhos em casa, sem dúvida teriam chorado. \ Sem dúvida: essa frase me assusta. \ É possível que o homem e a mulher tenham ficado em silêncio em cômodos diferentes da mesma casa. \ Casas grandes acomodam a solidão de seus habitantes. \ Uma frase completa é como uma sala onde uma mulher ou um homem chora sem perceber. \ O céu nunca esteve tão azul. \ A tristeza é frequentemente expressada através do choro. \ Também é comum que a tristeza seja inexprimível. \ Tristeza é a mesma coisa que pesar?

Poemas da premiada escritora, tradutora e crítica mexicana Cristina Rivera Garza, autora de Autobiografía del algodón (2020), El invencible verano de Liliana (2021) e a sua coletânea completa de poesias, Me llamo cuerpo que no está (2023).

 

BRANCO QUEBRADO - […] E o vento alísio da tarde trouxe o ar do mar. "Como está a cozinha?", ela disse: "Vai demorar um pouco para tudo ficar bem macio." Um aceno da avó e ela correu para a cozinha para colocar tudo em fogo baixo e finalmente começar a lavar roupa. A avó entrou na cozinha, como se fosse direto para o banheiro. Parou quando ouviu a máquina de lavar funcionando e olhou para ela com curiosidade. [...] Ela continuou convencida de que havia nascido na família errada, no país errado, na época errada. E, no entanto, eles conseguiam ficar lado a lado e recuperar o fôlego na foz do Rio Suriname. [...]. Trechos da obra Gebroken wit (Prometheus, 2019), da escritora e professora surinamesa-holandesa Astrid Roemer (Astrid Heligonda Roemer), no qual conta sobre três gerações de surinameses, a avó Bee, sua filha Louise e seus cinco netos, tentando encontrar seu caminho no mundo, no Suriname e na Holanda, enquanto segredos obscuros de família estão em jogo. Em uma entrevista concedida (Center For The Art Of Translation, 2023), ela expressa que: [...] é um romance que te toca profundamente. É um livro físico. Comer e preparar refeições, beber, pensar e se envolver com a sexualidade são atividades físicas. Esse é o paradigma desses romances, que formarão uma trilogia. [...] Fundamentalmente, eu nunca tinha ido embora. Por volta da virada do século, depois da minha trilogia de 1.000 páginas, Impossible Motherland, a então respeitada revista feminista Opzij chegou a me nomear uma das três mulheres mais importantes dos últimos anos. Eu queria dar ao meu trabalho a chance de se conectar com a sociedade holandesa e alcançar uma geração mais jovem. E enquanto minha carreira estava voando alto em público, eu estava lutando com constantes arrombamentos em meu endereço residencial e com telefonemas ameaçadores de estranhos. Eu havia me libertado de certos laços íntimos. Eu estava pronta para escrever romances como Off-White e Dealer's Daughter, junto com novos poemas que expressariam minha visão de mundo cosmológica. Eu sentia um desejo intenso por um habitat de língua inglesa. Eu me estabeleci na Escócia e em Skye, de onde alguns dos meus ancestrais haviam partido para o Suriname. Eu era tão feliz lá, só eu e minha gata Steffi. Agora estou redescobrindo o lado estadunidense dos meus primeiros anos em antigas canções de amor. [...]. É também autora de On a Woman's Madness (1982).

 

A LINGUAGEM DO FANATISMO - [...] as palavras são o meio pelo qual os sistemas de crenças são fabricados, nutridos e reforçados; seu fanatismo fundamentalmente não poderia existir sem elas. [...] a linguagem não funciona para manipular as pessoas a acreditarem em coisas que não querem acreditar; em vez disso, ela lhes dá a liberdade de acreditar em ideias às quais já estão abertas. A linguagem — tanto literal quanto figurada, bem-intencionada e mal-intencionada, politicamente correta e politicamente incorreta — remodela a realidade de uma pessoa somente se ela estiver em um lugar ideológico onde essa remodelação seja bem-vinda. [...]. Trechos extraídos da obra Cultish: The Language of Fanaticism (Harper, 2021), da escritora e linguista estadunidense Amanda Montell, que noutro livro Wordslut: A Feminist Guide to Taking Back the English Language (Harper, 2019), ela expressou que: […] Um dos conselhos menos úteis da nossa cultura é que as mulheres precisam mudar a maneira como falam para soar menos "como mulheres" (ou que pessoas queer precisam soar mais heterossexuais, ou que pessoas de cor precisam soar mais brancas). A maneira como qualquer uma dessas pessoas fala não é inerentemente mais ou menos digna de respeito. Só soa assim porque reflete uma suposição subjacente sobre quem detém mais poder em nossa cultura. [...] Uma das formas mais sorrateiras pelas quais esses preconceitos se manifestam é que, na nossa linguagem, na nossa cultura, a masculinidade é vista como o padrão. [...] Se você quer insultar uma mulher, chame-a de prostituta. Se você quer insultar um homem, chame-o de mulher. [...] Também vivemos numa época em que vemos veículos de comunicação respeitados e figuras públicas circulando críticas à voz feminina – como a de que elas falam com muita fricção vocal, usam palavras como "literalmente" e "literalmente" em excesso e pedem desculpas em excesso. Eles rotulam julgamentos como esses como conselhos pseudofeministas, visando ajudar as mulheres a falar com "mais autoridade" para que possam ser "levadas mais a sério". O que eles parecem não perceber é que, na verdade, estão mantendo as mulheres em um estado constante de autoquestionamento – mantendo-as quietas – sem nenhuma razão objetivamente lógica, a não ser o fato de que elas não soam como homens brancos de meia-idade. [...].

 

MINHA CUMADI FULOZINHA, DE GIVA SILVA

Somos filhos da Mãe da Mata e tivemos com ela, cada qual, as suas experiências. Justamente por isso mesmo: desde a mais tenra idade a Cumadi Fulozinha faz parte das nossas vidas. E há quem, como eu e o autor desta obra, tenha vivenciado muito e tanto, a ponto de, em si, manter sagrada as marcas ancestrais vivas em sua espiritualidade. Afinal, confesso: até hoje ela vive comigo. Além do mais, outras coisas contadas e cantadas: somos causas e consequências de histórias - todas emergentes a cada dia, a cada ano vivido, em cada momento do presente que passou agorinha mesmo. Eita! Foi. Inventamos estórias por vivermos dos porquês, fatos, fantasias, devires. Vivemos do que vem de dentro: o que é e será sempre. Enfim, somos todos hestórias (LAM).

Texto escrito por mim para a publicação do livro Cumadi Fulozinha (2025), do educador, comunicador e militante indígena Giva Silva (Givanildo M. da Silva), que é o idealizador e coordenador da Tv Imbaú. O livro que se encontra em pré-venda é memorialístico e onírico, mergulhando nas lembranças de um menino guiado pelo avô num universo de descobertas infinitas. No centro dessa jornada, como objeto de fascínio e curiosidade, está uma das figuras mais enigmáticas e fundamentais da cultura indígena e popular do Nordeste: a protetora das matas, Cumadi Fulozinha. Com uma narrativa que oscila entre o real e o imaginário, o texto evoca não apenas as memórias afetivas da infância, mas também a força mítica dessa entidade guardiã, cuja presença transcende as histórias sobre ela para se tornar um símbolo de resistência e mistério. O avô, como narrador e guia, conduz o menino (e o leitor) por um mundo, no qual os limites entre a realidade e o sonho se dissolvem, revelando a profunda conexão entre a cultura ancestral e a formação de um imaginário pessoal. Assim, a obra comemora a tradição oral, o afeto familiar e o poder das histórias que moldam quem somos—ou quem desejamos ser. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

ARTE NA ESCOLA

Arte dos alunos da Escola Municipal Ivonete Ferreira Lins & do Ginásio Municipal Fernando Augusto Pinto Ribeiro, de Palmares – PE. Confira aqui e aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Acontecerá entre os dias 18 e 22 de agosto, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares, a 18ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, com a temática Palmares de todos os saberes: cultura popular na voz do povo. Dentro da programação, no dia 19 de agosto, nos turnos da tarde e noite, realizarei a palestra Cordel, contos & causos de Palmares: Narrativas da Mata Sul pernambucana.

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 

segunda-feira, junho 09, 2025

FRANÇOISE VERGÈS, MARIELLA TORANZOS, LEONOR SILVESTRI & MÁRCIA GEBARA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Claudio Almeida (1998), Alma pernambucana (2003) e Despretensioso (2018), do violonista, compositor, arranjador e produtor, Claudio Almeida.

 

Dois semblantes & um diálogo de Janus... - Um banco de praça qualquer, dois mundos dessemelhantes. O primeiro: a face de ontem, chorosa, melancólica, perdida na memória a divagar pelas mais adoráveis recordações do tempo de antanho. As reminiscências regurgitavam dos álbuns de fotografias, como se ruminassem caricaturas dos versos de Casimiro – um melô do saudosismo às voltas com uma quase noite esquálida. Destilava nostalgias das coisas pregressas, as saudades na ferrugem dos suspiros e pesares, das perdas e quedas, taciturnidades - os bons tinham ido faz tempo, findava com o beiço virado: o que era doce acabou-se. O mundo hoje é uma desgraça. E lá não sabia onde um pipoco! O que foi? E o segundo: empolgada efígie do amanhã, sorridente pelos cotovelos de quem tomou água de chocalho, persuasivo como homem da cobra, ansiava com todos os desejos do futuro, esperando Godot com a certeza de um dia Deus daria a sorte grande com uma bolada na loteria e seguir os passos de Asimov, com os regalos da fortuna de apertar o pitoco na hora certa, o deleite de toda ventura e o porvir na coleção de amuletos egípcios como o Olho de Hórus, o Escaravelho e Ankh; e o sortilégio do Olho Grego, a Mão Hamsá, os olhos do alabastro mesopotâmico, moedas chinesas com fita vermelha, desenhos de elefantes indianos, as pedras verdes dos muiraquitãs, as bandeiras de Cirebon e otomana com a oração de Zulfiqar, o Selo Salomão, o texto do túmulo de Nida, uma figa, um pergaminho talismânico do califado fatimida dos ancestrais da família islâmica Abemayor, uma reprodução do astrológico Uraniborg, cristais de turmalina negra, trevos de 4 folhas, piritas, citrinos, uma Mezuzá, um Maneki-neko, Dreamcatchers, escapulários, cruzes, pimentas, berloques, uma ferradura e patuás, sal grosso e dentes de alho. Tudo no meio de outros estalidos! Disparos. O que houve? E não viram passar a dança legal de Eunomia, nem o balanço pacífico de Irene, muito menos os requebros justos de Dice, sequer os meneios florescentes de Auge. Cabum! O que foi isso? Entre o que passou e o que virá, olhos para onde a escolha por todas as direções, uma só alternativa e quem preferia de volta tudo o que viveu: só se sente falta quando perde. E ser lembrado, jamais esquecido. E no outro, o passado de Belchior era o que valia e nada de viver o que morreu e jamais voltará, naquela do se meu dinheiro desse ou achasse o ovo de ouro na micula da galinha, mudaria de vida, uma casa na praia, o carro novo, um foguete para ir morar na lua: para mim já foi, outro virá. Bum! Um estampido ensurdecedor. O que é que há? Outras tantas passaram desapercebidas, como o rebolado amanhecedor de Anatole, os remexidos dançantes da Musique, o bailado atlético da Ginastique, os pulos lavadores de Ninfe, os saltitantes remelexos de Mesembria, o arrasta-pé libador de Esponde, a folia oratória de Elete, a coreografia do repasto de Acte, o ritmado entardecer de Hesperis, os giros crepusculares de Disis, o naufrágio serpenteador de Arctos, nem mesmo se deram conta do jogo de Chronos e Kairós. Tudo passou. E um estouro avassalador! De novo? E caíram de joelhos na arenga pelos segundos de poucas horas, a revanche do relógio, eita, tô atrasado, verá o que é bom pra tosse: o revide temporal. Um estrondo retumbante e estarrecedor! Que é que está havendo? Para quem passado ou futuro, tudo é feito agora, presente. Eles não percebiam o que acontecia ao redor, foram tragados pela explosão. Era uma vez, tarde demais: tudo se repete, uns e outros. Até mais ver.

 

Hélène Cixous: Eu também transbordo; meus desejos inventaram novos desejos, meu corpo conhece canções inéditas... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Anuna De Wever: Eu acredito na humanidade... Veja mais aquí.

Joyce Carol Oates: Fui criada para ter compaixão pelos outros... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

VINHETAS DE UM ESPELHO QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Ontem rasguei minhas asas. Rasguei suas dobras translúcidas com a borda do bidê. Atirei-me contra elas, chicoteando-as contra a borda como uma louca, gemendo de prazer e desgosto ao vê-las desmembradas, despedaçadas, repetidamente, até que me esvaziei. Não venha mais aqui. Estou cansado de adorar sua forma como um templo.

II - Descalço, caminho por um deserto de espelhos. Piso no vidro até que ele rache e corte meus pés. No rastro de sangue, desenhei o retrato da minha mãe. Meu coração dobrou enquanto eu dormia; agora ele não cabe no meu peito.

III - Hoje quero morrer mil mortes em seus braços. Sussurrarei em seu ouvido as palavras que inventei para chamá-lo. Feche os olhos enquanto te beijo e deixe minhas lágrimas escorrerem por suas pálpebras. Deixarei na pinta do seu rosto as tardes que amei ao seu lado. Amanhã seremos estranhos novamente. Até a próxima.

IV - Durante o mês que você levou para me deixar. Enchi o tanque de gasolina com trinta e três dólares e trinta e três centavos. Eu disse que era um presente porque era seu número favorito. Eu organizei nossas coisas. 'Amor, aqui estão os suéteres', "Aqui está seu pincel." Como se chamássemos as coisas de 'nossas' poderia me incluir no que você chamou de "lar". Comprei flores de um morador de rua. Eu queria trazê-los para você, murchos e feios, para mostrar que eu poderia devolvê-los vida.

V - Há uma cicatriz no formato dos seus dedos logo acima do meu peito esquerdo, que ficou como um resquício de todas as noites que você me segurou como apenas algo segura que escorrega. Agora há seis províncias entre nós, entre a última vez que nos beijamos e hoje, guardadas como flores murchas dentro de um livro. Às vezes ainda sinto você como um ruído preso na minha garganta.

Poemas da poeta e jornalista equatoriana Mariella Toranzos.

 

DONDE ME RAZA MUERE - [...] Tenho dificuldade em entender por que as pessoas continuam a apostar contra todas as evidências sobre o que é bom para o corpo, em termos do que aumenta sua potência ou até mesmo em posições mais apocalípticas como o fim do mundo. Neste ponto, considero isso um ato de egoísmo que incentiva o famoso "exército de reserva " de que o marxismo clássico já falava, o que me parece ter uma reviravolta na eugenia atual, onde também é necessária a seleção de pessoal, não apenas trazendo descendentes a este mundo, mas também a seleção prévia de pessoal, que envolve escolher os aptos, os saudáveis, e abortar os outros, os deficientes. [...]. Trecho da entrevista concedida ao Parole de Queer (2022), concedida pela escritora, ensaísta e professora argentina Leonor Silvestri, autora de obras como Donde me raza muere (Guarra, 2022), Acerca de las costumbres de los animales (Infamia Trascendental, 2012), El Don de Creer (Curcuma, 2010), entre outros livros publicados. Ela também se expressa: Quem vive contando mortos não quer você vivo... Sempre acreditei que devemos expandir os limites do que é concebível: envelhecer não é terrível, nem adoecer, não poder trabalhar, não poder participar deste mundo são bênçãos, vantagens. Assim como as mulheres são solicitadas a reproduzir material humano, a se incorporarem ao capitalismo com eficiência (como boas cidadãs: do aparato repressivo a uma operária ou funcionária de escritório, passando por pesquisadora universitária ou médica), elas também são solicitadas a se encarregar de selecionar pessoal adequado para tais fins. Tudo por nada mais do que amor em troca. É aí que reside o verdadeiro proxenetismo. A sociedade capitalista heterossexual patriarcal é o nosso grande proxenetismo. O trabalho sexual é apenas um exemplo de que sexo, companheirismo e afeto não precisam ser dados em troca de nada, pelo que este mundo chama de amor. O feminismo branco, hegemônico, vitimista, desempoderador, acadêmico, mercantilista, de histórias em quadrinhos (e isso também é interseccional: nem todo acadêmico é eurobranco, por exemplo) não só foi completamente incapaz de desenvolver uma teoria radical da sexualidade, como também foi completamente incapaz de desenvolver uma práxis vital empática de apoio mútuo e autodefesa. É autora do poema Pentesileia: Boa demais para ser mulher.\ Inteligente demais. \ Hábil demais. Demais. \ Demais. \ Esse arco \ Essa flecha \ que se crava \ que se crava bem fundo em \ Mim \ no momento da tua morte, \ Pentesileia. \ Preciso te matar para que você não morra. \ Preciso te matar para que eu possa te fazer minha. \ Você gostaria de compartilhar seu corpo virginal de guerreira comigo de alguma outra forma? \ Você não sabe, Pentesileia, que em épicos não há mulheres que amem mulheres? \ Eu vejo você cair \ como uma pena \ Leve sua graça de engolir \ Ferido \ Morrendo \ Agonizando. \ Mesmo assim, você resistirá \ como a leoa Penélope diante dos pretendentes. \ Terei que tomá-la à força, \ pois tudo é tomado nesta guerra, \ assim como as mulheres são tomadas nesta guerra. \ Você não sabe, Pentesileia? \ Você será minha \ mesmo que eu tenha que te matar.

 

APELO À PAZ, AO AMOR E À ALEGRIA - Irmãs e irmãos, camaradas e amigos, aqueles que conheço e aqueles que não conheço, todos aqueles que são meus companheiros na humanidade, venho a vocês com uma demanda considerável. Vocês me pediram para falar sobre a liderança de que precisamos agora. Mas o que é "agora" senão o nome da história como catástrofe? Da violência sistêmica e estrutural? Para viver, precisamos respirar, sermos acolhidos e acolhidos, amar e ser amados, criar laços familiares e comunidades. Sim, amar e ser amados. Muitas vezes esquecemos que nascemos indefesos e que essa indefesa não é uma fraqueza, mas um lembrete de que a interdependência é fundamental para a nossa sobrevivência. Essa interdependência é uma fonte de alegria em vez de angústia, de conforto em vez de desespero. Somos feitos de tantos emaranhados… Disseram-nos não apenas que o individualismo é o passo mais alto em direção ao progresso humano, mas que deveríamos desconfiar da interdependência e nos preparar para a luta pela sobrevivência do mais apto. Isto significa guerra, nada mais. De fato, temos vivido em um tempo de guerra sem fim, de guerra contra isto, guerra contra aquilo, guerra, guerra, guerra. A guerra foi normalizada, naturalizada. Não seria então a palavra guerra mais adequada para descrever o nosso mundo do que paz? Guerra contra povos indígenas, contra mulheres e crianças no Sul Global, contra queer, contra trans, contra inválidos, contra gays, guerra contra animais, florestas, rios, mares, oceanos. Capitalismo é guerra; racismo é guerra. Seus gritos por guerra são altos e constantes. Suas leis de extração e exaustão impõem o uso da violência e da força. E suas guerras são acompanhadas pelas do patriarcado. Em seu mundo, tratar corpos como resíduos, como excedentes, como lixo, foi banalizado. Nada disso é natural; tudo isso são consequências de escolhas políticas. E, como presidente, estou clamando por outras escolhas. Contra o estado de guerra permanente, eu os exorto, eu os exorto a lutar pela paz! Paz?, ouço vocês dizendo. Quando foi a última vez que falamos de paz como algo que não é excepcional, que não é um breve interlúdio entre duas guerras, o resultado de um acordo em um pedaço de papel no qual homens que nunca demonstraram interesse pela paz afixam suas assinaturas? Paz para eles é uma palavra que fala de ingenuidade e credulidade. Mas estes não são tempos de indiferença e neutralidade. Irmãos e irmãs, camaradas e amigos, isso não nos salvará. Em vez de celebrar guerras em nossos livros didáticos, em vez de encher nossas cidades com estátuas de soldados e generais, convido-nos a aprender com aqueles que lutaram por justiça e nunca abandonaram sua aspiração de humanizar o mundo. Durante séculos, comunidades imaginaram maneiras de proteger aqueles que são vulneráveis e fragilizados pelo racismo e sexismo, maneiras de proteger a terra, os animais, as plantas e o conhecimento de mãos ávidas e avarentas. Ao fazê-lo, deixaram-nos um vasto arquivo de poemas, canções, artes, manifestos, práticas e conhecimento. Houve momentos em que suas mensagens precisaram ser invisíveis para aqueles no poder, mas sua riqueza e abundância permanecem impressionantes: forjando sinais que indicam rotas de liberdade e abrigos, mantendo narrativas de resistência nas memórias, tecendo mensagens no cabelo e na terra, construindo santuários e refúgios, falsificando documentos, aprendendo a evitar as armadilhas da vigilância, ensinando como estar na clandestinidade, a mentir ao poder e a dizer a verdade ao poder, construindo escolas onde aprendemos coletivamente, ensinando o poder das plantas medicinais, a diversidade de receitas. Embora nos tenham dito que mulheres, crianças, povos indígenas, pessoas trans, queer, migrantes, refugiados, pobres, não tinham nada a contribuir para a "civilização", sabemos que é uma mentira. Sabemos que o que se chama riqueza nada mais é do que o resultado da exploração e da devastação. Nossos ancestrais, que são todos os oprimidos do mundo, jamais renunciaram ao sonho de um dia serem livres. Apesar da guerra travada contra eles, eles disseram: " Um dia, seremos livres! Sim, um dia seremos livres! " É esse amor inabalável pela liberdade e igualdade que deve ser nossa canção. Irmãs e irmãos, camaradas e amigos, precisamos aprender com este arquivo e exercitar nossa imaginação. Precisamos nos libertar dos grilhões do que se tornou normal e natural — a violência e a guerra — e que ameaça a vida de muitos em troca da riqueza de poucos. Precisamos libertar nossos espíritos, nossos corpos, nossos sentidos para imaginar a paz, coletivamente. Vamos desaprender para aprender, para que possamos reaprender. Vamos restaurar o pleno significado do toque, de segurar a mão de um estranho. Vamos abolir as prisões! Vamos abolir o patriarcado! Vamos abolir o capitalismo! Vamos abolir o racismo! Acabe com a guerra! Este não é um apelo ingênuo, estúpido ou pretensioso! A paz não é fácil. Imaginar a paz, lutar pela paz, é uma tarefa árdua. Exige liderança coletiva e horizontal. Cultivemos o amor revolucionário, o amor feminista radical. Há alegria na luta coletiva. Há alegria na justiça restaurativa. Imaginemos uma utopia, uma que nos dê a força para contestar, que seja um convite a sonhos emancipatórios. Um dia seremos livres! Por toda parte, vozes se elevam, cheias de esperança e significados. Imaginemos um espaço aberto e terrestre, uma linha temporal ascendente. Reivindiquemos o direito de sermos inacabados e contraditórios. Redefinimos criativamente a escrita de nossas múltiplas histórias. Criemos um estado permanente de curiosidade. Guardemos na memória a força, a coragem, a esperança, a força e a energia que sempre estiveram presentes. Vamos lembrar do futuro. Depoimento da cientista política, historiadora, educadora, cineasta e ativista decolonial francesa, Françoise Vergès, autora do Programme de désordre absolu: Décoloniser le musée (La Fabrique Editions, 2023), no qual expressa: [...] O universal que o museu reivindica é uma arma de dominação colonial [...]. A respeito de sua obra em uma entrevista concedida ao Observatoire d'éthique universitaire (2023), ela expressou que: [...] Quando se trabalha como eu sobre a escravidão e suas "sobrevivências" (afterlives), ou seja, a ligação entre a escravidão e o racismo antinegro hoje, interessam-nos as representações pictóricas e narrativas dos negros. Estas nunca são ilustrações. Essas imagens são constitutivas do regime de exploração e desapropriação racial. [...] Descolonização, para mim, é o que Frantz Fanon definiu como: "A descolonização, que visa mudar a ordem mundial, é um programa de desordem absoluta. Podemos ver claramente que aplicar a proposição "mudar a ordem mundial" à instituição museológica vai além da diversificação da programação. [...] É por isso que práticas e teorias em torno de um programa de desordem absoluta para atrapalhar e sabotar a máquina do capitalismo racial, fazendo a ligação entre as lutas de ontem e as de hoje e desenvolvendo especulações sobre os mundos vindouros carregam uma esperança radical. [...] O estado de guerra permanente põe o planeta em perigo. A guerra contra as mulheres, os negros, as pessoas trans, as pessoas queer, os pobres, está se intensificando. O militarismo mais implacável está de volta. Contra essa destruição programada, temos o direito de nos defender. [...].

 

TRATOS DA ARTE DE PERNAMBUCO, DE JOSÉ CLÁUDIO

[...] Quero prevenir o leitor de que abrirei um espaço enorme para citações, intervindo às vezes, inclusive, com mais citações. Pode me chamar de compilador. Já dizia Buda que mostrar vale mais do que explicar cem vezes. Não há também da minha parte a preocupação de não ser enfadonho: ninguém vai começar a gostar deste assunto a partir deste simulacro [...].

Trecho extraído da obra Tratos da arte de Pernambuco (STCE, 1984), do pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor José Cláudio (1932-2023), um dos criadores do Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), do qual publicou a obra Memória do Ateliê Coletivo (1978). Veja mais aqui & aqui.

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ENTRE LINHAS & CORES A LUZ VIBRA NA SAUDADE – A ARTE DE MÁRCIA GEBARA

Veja a entrevista de Márcia Gebara aqui e mais de sua arte aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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Arte na Escola aqui.

Diário TTTTT aqui.

Palmares – 09 de junho & Poemagens aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

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Crônica de amor por ela aqui.


 


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...