terça-feira, setembro 15, 2020

BOCAGE, RUBEM ALVES, BETH FORMAGINI, NICOLINA VAZ & DEYSON GILBERT



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DOS UMBRAIS DE MIM... - O meu país arde como se o meu povo fosse o desespero dos acrófobos à beira do abismo, no cortejo de Paddy Digman do Joyce e eu pseudOdisseu errasse à procura de uma das sete vidas de Tirésias para reencontrar a Ítaca perdida, o meu Paraíso de Milton. Essa a coragem do passo adiante quando tudo é precipício na fumaça sem maçaneta, arrimo, apoio ou paredes: o rio de sudorese excessiva e a tremedeira no sorvedouro nas pontes dissolvidas para tudo despencar no frio da barriga perambeira. Desnudo no sonho o rei entre meras catábases por aclives íngremes, não olho para baixo nem posso voltar porque tudo ficou para trás com o pânico larófobo, porque caio para o báratro com o inútil instinto de sobrevivência de Ícaro sem paraquedas, alpinista nas cataratas do inevitável tropeço pelas escadas de nuvens. E ouço os versos do Soneto infernal de Bocage: Dizem que o rei cruel do Averno imundo e seja isto já; que é curta a idade, e as horas de prazer voam ligeiras... são os fios que se soltam na minha eterna corda bamba pelo meio-fio entre a vida e a morte. Ainda vivo, voo.

DUAS CENAS DE FILMESDepois de ter assistido o documentário Memória para uso diário (2007), da premiada cineasta Beth Formagini, tive a oportunidade de ainda ver o documentário Angeli 24 horas (2011), que trata sobre a obsessão pelo trabalho do cartunista Angeli e o seu dilema de artista, como também o premiado Xingu Cariri Caruaru Carioca (2016), que trata a respeito das origens e evolução do pífano na história do Brasil. Ela é formada em História, especializou-se em documentário na Universidade de Roma, foi presidente da Associação Brasileira de Documentaristas no Rio de Janeiro e trabalhou na produção e pesquisa de alguns filmes de Eduardo Coutinho. Foi dela que captei: Estamos infelizmente dominados. Se não discutirmos isso, entraremos de novo nesse período vivido no passado. Espero que a juventude de agora não volte a experimentar aquilo tudo. Tenho esperança de que as pessoas resistam, que se imponham. Esse é o alerta de que precisamos fazer alguma coisa aqui e agora, vambora.


TRÊS CONTAS NOS DEDOS SEGUINDO - (Imagem: escultura de Nicolina Vaz) – Ah, os meus dias, eram ventanias de tempestades terríveis com o esquecimento e nenhuma vontade de errar pela vida dentro de um odre de poderosos ventos e aberto para festa das sereias enlouquecedoras que me deixaram boiando num pedaço de madeira mar afora, para que findasse mendigo no meu próprio reinado em ruínas. Assim as funduras insondáveis da solidão e ao me deparar com as inscrições da tabuleta chinesa no meio dos antros do cabo Averno: Ande com calma na estrada escorregadia, pois nela se embosca o demônio do desastre. Eu sabia, um pé na frente e outro atrás, todos os caminhos levavam ao inferno. É como se do fundo do Érebo surgissem todos os pálidos espectros da minha convivência de ontens, com os seus castigos do julgamento e a minha veneranda mãe a testemunhar minha tribulação pela escuridão de charcos umbrosos. Presenciava tudo e quedava de terror como quem havia sido expulso do éden para invocar a musa, porque só havia em mim a imagem de Penélope a me esperar distante quase sem esperança, a tecer sua manta com as palavras de Rubem Alves: Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. Vivo agora e voo pra ela. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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A ARTE DE DEYSON GILBERT
A arte do artista Deyson Gilbert, que é graduado em Artes Visuais pela Universidade de São (USP), fundador e editor da revista Dazibao e que já participou de mostras e exposições no Brasil e exterior. Veja mais aqui.


segunda-feira, setembro 14, 2020

GLORIA ANZALDÚA, FRANK ZAPPA, VICTORIA BORISOVA, RICHARD SENNETT, RODOLFO LEDEL & LUIZ QUEIROGA

  DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... CATÁBASE... - Milhares de mortos nublaram o meu sorriso e a vida o meu país nas trevas, era Frank Zappa me dizendo: a estupidez é o elemento básico do universoNão havia como prever Fecamepa tão medonho e estou só como se fizesse a trilha de Lidenbrock dos manuscritos do alquimista Saknussem na viagem de Verne ao som de Wakeman, a descer pela cratera do vulcão islandês Sneffels para não sei onde. Na verdade, parece mais no aqui e agora, baixava ao inferno e não foi a minha primeira vez, nem a última, porque sou argonauta e, tal Orfeu solitário, mereço Eurídice. Lá que é aqui, a ninfa Estige era um rio do Hades e logo me veio o barqueiro Caronte carregado das almas que abandonavam seus sonhos, desejos e deveres no Aqueronte. Ele fez a vez do psicopompo e me revelou: o inferno não é onde estou, mas onde você está que era o paraíso Hy-Breazil. Não sabia e ainda estou vivo.


DUAS VEZES VIVO MUITO MAIS!  - (ao som da Symphony nº 1 – The Triumph of heaven, de Victoria Borisova Ollas – Imagem art by Rodolfo Ledel) - Tem horas que voo na vida. Noutras, ela me leva. À espera do Sol e da hora de ir para não mais voltar, penso e sou o homem de Jung na raça de Vasconcelos Calderón enquanto Gloria Anzaldúa me dizia o verso do Útero sem túmulo: Padeço de um mal: a vida, / enfermidade recorrente / que me purga da morte. E era ela, luz&ar, nua e linda do inopinado como se rufassem todos os tambores da paixão com uma orquestra atacando a overture da sinfonia dos seus encantos para me embriagar pela indelével dança do amor e me fizesse de uma vez por todas esquecer pretéritos e crástinos porque tudo era agora e não mais que isso valesse a pena viver eternamente. Sou duas vezes vivo nela e muito mais.


TRÊS MIL VEZES A VIDA! - (Imagem art by Rodolfo Ledel) - Com a colagem das três decepções em cima da bucha & a resiliência em dia, persigo a vida e persevero, mesmo que o potencialmente perigoso asteroide Apolo 2020 QL2 mude de rota, errante de rumo e faça a danação de vez numa colisão que seja para que se diga que era só o que faltava este ano, enquanto Richard Sennett ironizasse a invisível tragédia que vige ao nosso redor: Não há mais o medo de violência entre "tribos", o que acontece é mais sutil, é um recuo em relação ao outro, como se o outro simplesmente não existisse. Nem me dera conta, muito embora soubesse da indiferença de todos apagando toda capacidade de indignação e nos desumanizando. Acabei de crer: indubitavelmente o inferno é aqui, só pode ser mesmo. Até mais ver.

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LUIZ QUEIROGA, O HUMILDE IMENSO
Eu num tenho bicicreta / num tenho jipe, nem carro, nem caminhão / mái, no meu jegue, nas estrada eu disparo / e até já me apelidaro, Fittipardi do sertão. / O meu jumento deixa muita gente zônza / eu já quis corrê em Monza / e ía fazê figura / mái, reparei que o bicho tem até buzina / mái num usa gasulina / e lá num tem capim gordura. / Prá passa marcha a gente aperta nas urêia / o jumento se aperrêia e voa feito um avião / cum uma isporada ele rônca na trasêra / deixa tudo na puêra, meu jumento é campião!
Fittipárdi do sertão, extraído da obra Luiz Queiroga, o humilde imenso – o criador do Coronel Ludugero (Autor, 2006), da cantora e pesquisadora Mêvinha Queiroga, reunindo a biografia e textos de Lula Queiroga, José Mário de Austragésilo e Lúcio Mauro, Luiz Maranhão Filho, além de depoimentos de Arnaud Rodrigues, Carlos Fernando, Maciel Melo, Brivaldo Franklin – Zé do Gato, José Teles, Luciano Jacinto, Detto Costa, Jorge de Altinho, Coroné Caruá, entre outros. Veja mais aqui.


quinta-feira, setembro 03, 2020

HELEN KELLER, ELEANOR HIBBERT, ABDIAS DO NASCIMENTO, MARY SHELLEY, JIŘÍ RŮŽEK, FLORENCE NIGHTINGALE & MAÍRA ERLICH


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DE ESBORRAR PASSANDO DA CONTA!?! - Gentamiga, vamos colocar um papo aqui na roda. Seguinte, o Fecamepa evoca uma simplicíssima reflexão: suponhamos que um certo desgoverno Coisonário, fictício que seja, aliciasse a todos com rebuço das suas desastrosas paixões obcecadas pelo poder e suas tempestades emocionais em que a mentira sobrepuja a verdade, o Estado sobre a Justiça, a guerra e a morte sobre a vida, o ódio sobre o amor e, disso, assim mesmo, fosse detectada um tanto de intriga, ódio e difamação. Sim, desse jeito mesmo e nos bastidores armasse de tudo sob sigilo ultrassecreto, sonegasse informações, escondesse dados, extinguisse conselhos civis, insultasse a imprensa, os outros poderes e a inteligência da população; enrolasse e levasse nas coxas as questões atinentes ao desemprego, a pandemia e a crise econômica, dificultasse a aposentadoria, enfraquecesse o SUS para que a saúde fosse tratada por qualquer coisa sob manobras e subnotificações; o meio ambiente e todos os ecossistemas passassem a ser torrados por fogaréu geral, com liberação de agrotóxicos e explosão dos índices da violência nas áreas rurais e urbanas; privatizasse para atender interesses das elites em detrimento da população; produzisse doidices polêmicas e desequilibradas no território familiar, da mulher e dos direitos humanos; provocasse relações internacionais com protocolos aviltados e desconformes; perdoasse dívidas do agronegócio e evangélicos, entregasse a Base de Alcântara, fomentasse o fascismo e práticas totalitárias, interferisse em todo aparelho estatal, propagasse notícias falsas aos montes, tivesse ligação íntima com as milícias e desenvolvesse uma gestão para lá de desastrosa que redundasse num sem número de denúncias-crimes requerendo o impeachment e outras tantas mais além de tudo, isso no campo da suposição, será que poderia ser real mesmo ou eu estou ficando doido de ver isso no aqui agora? Sério, em que lugar do mundo se sustentaria e estaria de pé mandando e desmandando? Acredito que qualquer um diante disso daria uma de Mary Shelley e, de queixo caído, diria: Contemplei o coitado... o desgraçado monstro que eu havia criado. E, com certeza seguiria o mote dela, acrescentando como glosa: O mundo precisa de justiça, não de caridade. Então vem sempre aquela voz me dizer que: o começo é sempre hoje. Com certeza, qualquer desgraça pouca não é só bobagem, e que nunca é tarde para se faz alguma coisa concordando imediatamente com Florence Nightingale: É necessária uma certa dose de estupidez para se fazer um bom soldado. Quanto mais um capitão que deu baixa em condições de extremo desatino! Será que estou fazendo a leitura certa da realidade ou estou inventando? Ora, ora, já não passou da hora da gente cobrar providências mais enérgicas? Sei não, ora, ora. Faço a minha parte mais que indignado, de luto pelos milhares que já se foram e na luta para tirar da minha frente situação tão calamitosa. Vamos simbora, gente! Ah, já ia me esquecendo: vem aí as desventuras do Capitão Cloroquina, o anti-heroi Coisonário, aguardem. 

DUAS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO – Nossa! Vamos pras cenas. Primeiro: que o ator, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário e ativista dos direitos humanos e civis das populações negras, Abdias do Nascimento (1914-2011), que era militar e foi perseguido, preso diversas vezes e, inclusive, expulso do exército por sua atuação no combate à discriminação racial. Segundo: que este autor criou em 1944, o Teatro Experimental do Negro, promovendo apresentações teatrais, além de convenções e congressos para debates acerca das questões raciais brasileiras, combatendo o mito da democracia racial ocorrida nos anos 1960 e, consequentemente, não resistindo aos embates, o teatro foi extinto por dificuldades financeiras em 1961. O depoimento acerca de tudo isso está no texto Teatro Experimental do Negro: trajetórias e reflexões (Estudos Avançados, 2004), oriundo da peça teatral homônima de 1959, em que ele expressa: Era previsível, aliás, esse destino polêmico do TEN, numa sociedade que há séculos tentava esconder o sol da verdadeira prática do racismo e da discriminação racial com a peneira furada do mito da “democracia racial”. Mesmo os movimentos culturais aparentemente mais abertos e progressistas, como a Semana de Arte Moderna, de São Paulo, em 1922, sempre evitaram até mesmo mencionar o tabu das nossas relações raciais entre negros e brancos, e o fenômeno de uma cultura afro-brasileira à margem da cultura convencional do país. Por conta disso, se faz necessário mencionar que o autor possui diversas obras, a exemplo de Race and ethnicity in Latin America - African culture in Brazilian art (1994); Brazil, mixture or massacre? essays in the genocide of a Black people (1989); Racial Democracy in Brazil, Myth or Reality?: A Dossier of Brazilian Racism (1977); O Quilombismo (Vozes, 1980); O Genocídio do Negro Brasileiro (Paz e Terra, 1978), entre outros publicados no Brasil e no exterior, além de filmes que vão desde O homem do Sputnik (1959), Cinco vezes favela (1962), Cinema de Preto (2005) e de documentários sobre sua trajetória. Homenagem feita e justa nestes tempos obscuros de execrável racismo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

TRÊS DECEPÇÕES EM CIMA DA BUCHA & A RESILIÊNCIA EM DIA - Imagem do fotógrafo tcheco Jiří RůžekApesar de tudo, nunca esmoreci. Situação aversiva que fosse, nunca baixei o badalo. Escapava fedendo, arriava aos farrapos e, no outro dia, pronto para outra e novinho em folha. Isto quer dizer que enverguei de quase torar de sobrar os farelos, mas depois de ter morrido um tanto de vezes, ressuscitava. Foram tantas mesmo que perdi a conta, já me acostumei a dormir entre escombros e acordar como se fosse a primeira vez e nada tivesse acontecido antes. Nunca esqueci Helen Keller: Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar. Ah, mas tem os que atrapalham e como tem! Não só jogam do contra, como impedem ou fazem de tudo para que não se consiga o que quer que seja. E se conseguir, dizem que botam o olho gordo daquilo se perder, quebrar ou emperrar na hora. O que me ofereciam de figa, simpatias e protetores curiosos, oxe, meio mundo de tranqueira para me proteger dos agouros dos maledicentes. Na minha, só me valia dos ditos daquela escritora britânica Eleanor Hibbert (1906-1993) com seus trocentos pseudônimos: Realmente acredito que existem algumas pessoas que odeiam contemplar a felicidade dos outros. Nunca se arrependa. Se for bom, é maravilhoso. Se for ruim, é experiência. Foi disso que aprendi a levar tudo como lição. Se não deu, aprendi, mesmo cônscio do fracasso recorrente. Ora, foi muito aprendizado, enormes aprendizagens. Trocando em miúdos, vivi plenamente, nada a reclamar. Até mais ver.

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A FOTOGRAFIA DE MAÍRA ERLICH
Gosto de enxergar a fotografia como algo muito além de ser só um registro, a fotografia tem muitas oportunidades de ser algo maior, mais profundo e transformador para muita gente. Você produzir uma foto que faça uma pessoa repensar todo o mundo dela eu acho isso um poder incrível.
A arte da premiada fotógrafa Maíra Erlich. Veja mais aqui & aqui.


quarta-feira, setembro 02, 2020

SHAKESPEARE, BALZAC, ALDIR BLANC, CITTABELLA & COISAS DO RECIFE


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... O REINO DE DUAS CARAS - O Fecamepa vai firme e forte, mesmo com a censura do Nassif & outra aqui e acolá, o reino do imbrochável Coisonário segue mitômano e peçonhento, a comandar a patetada ministerial desqualificada: uma Doidamares endemoninhada (gente, sei que ela é infeliz, mas alguém tem que dá uma picada aprumada para derreter o queijo dela; sei que quem for precisará estar munido de uma bravura indômita, vez que ela não é tão feia, mas é do mal, carece de antídoto e muita coragem, periga virar depois uma besta fera do estopô calango, destá); um MalthusGuedes que para se manter bailando desvairada para os ricos, precisa matar os pobres; o suspeitíssimo boiadeiro dendroclasta SavoRiconarola abrindo a porteira da destruição dos ecossistemas; e outros tantos desclassificados alienígenas que afundam a patriamada na desgraça cloroquínica & outros quetais inventados nos costados endoidecidos deles, enquanto chafurdam na punheta coletiva dos seus mandos, mudando a geografia e até o alinhamento dos planetas na sua sanha estupidológica, para fabricar a sua pseudologia absolutista. Sabia, a história se repete, já advertira Balzac que, como sempre, para cada caso: Há duas histórias: a história oficial mentirosa, que se ensina, a história ad usum Delphini; depois, a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos e que é uma história vergonhosa. No caso do aldrabão dos coisominions, como diria Macbeth de Shakespeare: uma história contada por um idiota, cheia de ruído e de furor e que nada significa. Agora, Brasil, durma com um barulho deste!!! Vambora, gente!

DUAS CRATERAS E NÃO É NA LUA - Aqui a coisa está empenada demais, verdadeira Cittabella: se a gente escapa da abissal pandemia, despenca no desgoverno. Não dá outra, ou lá ou loa e muitos. Revivemos aquela remota e ignota Cidade dos Buracos, antes tida como de localização desconhecida, agora comprovadamente aqui, tenho certeza e bato no peito: Brasilzilzilzilzil. A respeito alerta a escritora e tradutora italiana Lia Wainstein (1919-2001), no Viaggio in Drimonia (Milão, 1965), que precisamos, a exemplo dos habitantes de Cittabella, nos familiarizar com as diferentes espécies de buracos. Os mais comuns e menos preocupantes são do tamanho de uma caçarola. Os redondos, com bordas denteadas, resultado de um súbito colapso da camada superior – cor de berinjela – que repousa sobre uma camada mais mole, marro-terrosa. Observa ela que Quando chove, os buracos se transformam em pequenas poças lodosas, onde não é raro encontrar uma pobre borboleta com as asas presa na lama. Os habitantes de Cittabella caminham enfiando os pés nos buracos, de maneira desajeitada, ou dando passos largos e cuidadosos para não quebrar as bordas. Adverte, porem, que, por ordem de perigo, vêm certos buracos enormes e profundos que podem facilmente engolir duas casas. Ensina a escritora que O povo de Cittabella é conhecido por seu modo de andar peculiar: caminham sempre como se estivessem procurando alguma coisa. Fazem isto por vários motivos: porque estão num bairro cujos buracos não lhes são familiares; ou porque estão procurando (sobretudo para satisfazer suas famílias ansiosas) por algum primo do interior recém-chegado e que parece ter desaparecido; ou porque o cocheiro perdeu mais uma junta de cavalos. Neste último caso, é melhor desistir logo da busca, pois essa tarefa é raramente coroada de sucesso. Lições estas inestimáveis para quem vive driblando constrangedoras situações aversivas como estas que mergulhamos já faz uns cinco anos e, desde março, em dose dupla. Vamos nessa, ora se.

TRÊS PINOTES & UMA ATITUDE ESTOICA - Outrora quisera mais tempo para viver, hoje não mais, idade indefinível, dúvidas além da conta. Não tenho mais jeito, a experiência do silêncio me livra hoje de bons bocados e mais nada para fazer, nem um minuto a mais nem a menos. Recolho as raízes do meu chão, estão em mim no meio dos detritos que sobraram de espécies que se podiam chamar de humanas, ramagem por meus ossos, músculos e o que aperta e dói aqui, o que se ausenta e sinto falta. Este memento mori, não apenas jogos de palavras, coisas que nem se sabe e feitas assim do nada, e disso tento tirar todo proveito para redimir as omissões de antes, desavergonhado compasso escancarado às grandes ventanias do destino. Sigo pálpebras atentas para a descoberta no que encontro e no que perdi, ouvido no ar e nenhum comedimento. Sei que o que é primário não será nunca secundário, embora deixe tanto para depois, a posteriori, sensatez indefesa para judiciosa reflexão. Tenho o temperamento generoso em alta densidade geográfica, sempre procuro algum olhar perdido na minha notoriedade precária senão prejudicada, criada no dedo e sempre assim solícito, pudera, reputação carente na minha militância ginocrata, porque sei que ao encontrá-la ela bailará linda Frances Charlotte Greenwood nua e eclipsada no meu corpo para alcançar minha alma e me fazer recitar Lamas do saudoso Aldir Blanc: Ter coragem de olhar / pela última vez / e mentir calmamente: / quem sabe?... Talvez... / como se a última vez / ficasse pra outra vez... e me salvará como se não houvesse mais jeito de morrer, a saber que sou juiz que não me interrogo lá muito bem, apesar de rigoroso e um tanto polido, perdoará a rir comigo da minha própria careta. Até mais ver

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COISAS DO RECIFE
[...] A cidade acordava com os pregões dos vendedores ambulantes, os chamados balaieiros, que ofereciam de tudo; frutas, verduras, peixes, guloseimas, quinquilharias e serviços, desde o conserto em panelas e bacias até amolação de facas e tesouras. Muito pregões eram familiares a vários bairros da cidade, alguns alegres e zombeteiros, outros pungentes e nostálgicos: “Eu tenho a lã de barriguda para travesseiro”, gritava com voz arrastada o mulato já avançado em anos. O outro, mais moço, anunciava em tom festivo para assanhar a meninada: “Chora menino pra chupar pitomba!” [...].
Vozes tipos da cidade: o ambulante do desaforo, extraído da obra Coisas do Recife (Bagaço, 2004), do jornalista Fernando Menezes, contando sobre as equinas, assombrações, escola de cinema, referência cultural, artes plásticas, usos e costumes, música, vozes e tipos, brinquedos populares e a cozinha pernambucana. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

terça-feira, setembro 01, 2020

TARSILA DO AMARAL, MILLÔR, PINKER, SERRES, CENDRARS, ROSEMBERG CARIRY, SONIA EBLING & LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DECÁLOGO DO IMBROCHÁVEL COISONÁRIO – Nas últimas horas foram anunciadas as últimas medidas do governo em cadeia nacional e que ninguém viu! Lá vai para ciência de todos. Primeiro: Todo problema será resolvido por bem ou por mau! Não teve acordo, já era, pro saco! Essa a solução socioeconômica para tudo e todos, viva o consumo! Segundo: Todo concurso público só terá provas que avaliem a fé em Deus e o patriotismo. Entre os escolhidos, só os medíocres e chatos (do lado da gente, né?). Esta a nossa e verdadeira meritocracia. Às mulheres acrescente-se prova de remexido dos quadris e nenhum conhecimento, tenho dito! Afora isso, é fundamental que todos façam silêncio, vamos organizar esta porra de zona. Terceiro: Todos terão que trabalhar até os 100 anos ou mais! Aposentados e vagabundos serão metralhados em praça pública! Quarto: A moeda corrente nacional será o jeitinho: uma mão lava a outra e todo mundo resolve as coisas. Quem quiser estudar que pague! Será lançado um Guia Educacional só com uma regra: é pau pra lamber sabão e pau pra saber que sabão não se lambe, assim! Livro é um bocado de letras só pra fazer confusão e os dicionários não mais terão palavras difíceis que serão erradicadas para descomplicar as coisas. Quinto: A história terá apenas feitos militares e todo o resto queimado e esquecido para sempre. Todas as ruas, avenidas e logradouros voltarão a ter apenas nomes de heróis soldados e santos, chega de lugar disso ou daquilo, pronto, assim todo mundo saberá a quem obedecer e apelar. Sexto: Todos terão uma renda básica de 200 coisonários para morrer aos pouquinhos e ninguém ficará pra semente (e que morra logo, de preferência). Além do mais, viver é caro pra dedéu, só pros ricos. Sétimo: Não haverá mais fábricas brasileiras, todas serão americanas pra gente usufruir tudo do bom e do melhor dos United States. E só. Oitavo: Revoguem-se as disposições em contrário e fim de papo! (Ei, mas são dez, tem que ser dez! Por que? Porque é um decálogo. Por que? Como os 10 mandamentos, ora! Ah, é. Então bota aí...) Nono: A democracia será como as lições práticas do quartel, escreveu e não leu, o pau comeu. Pronto. (Falta uma! Taoquei, porra! Bota aí...) Décimo: Assino e determino, assim será a minha democracia de hoje em diante. (Ah, mas é a mesma coisa do nono! É isso mesmo, fechaí. Ponto final e vá pra porra!). Aí com essa, até Millôr ressuscitou: Conseguiram o que queriam: transformar o povo num cão que não morde. (Mas também não abana o rabo.) Ser brasileiro me deixa muito subdesenvolvido. Agora, pausa para o intervalo comercial! Click.

DUAS DEDADAS NO ESCURINHO DO CINEMA – Naquela noite eu caminhava à toa quando ela passou por mim. Ôpa, para quem já vinha ponteando a trilha dela, não poderia jamais deixar passar. Ela se virou e sorriu a mais linda noite enluarada. Era como se a Lua em forma de mulher me fizesse enamorado Selenito, enfeitiçado por seus encantos. Vai pra onde? Passeando. Papo vai, papo vem. Estávamos próximo do cinema. Que tal? Vamos! Nem sei que filme passava, comprei os ingressos. Já começou a sessão? Já. O porteiro cochilava, entrei no meio da escuridão medonha, um zoadeiro incrível na tela. Aboletados, logo me acheguei cochichando ao seu ouvido, até ousei o braço por cima dela para facilitar a conversa, ela aquiescente, atenta. Não prestávamos atenção no filme, só um ao outro. Ao gesticular na conversa íntima, inadvertidamente rocei a mão ao seio, a outra em sua nuca, ela envolvida, achegada, virou-me a face e não pestanejei: um beijo demorado, mãos buliçosas percorrendo toda sua geografia. Foi, fomos fundo, quase às vias de fato, não fosse acenderem as luzes e me flagrarem com a mão e tudo mais na botija dela, era o fim da sessão. Não havia outra, era a última. Buscamos outra guarida, lavamos a égua. O filme? Só anos depois soube: Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1986), do Rosemberg Cariry, só revisto um dia quando resolvi ver Corisco & Dadá (1996), Pedro Oliveira, o cego que viu o mar (1999), Lua cambará, nas escadarias do palácio (2003), Patativa ave oupoesia (2007) e Os pobres diabos (2013), entre outros que vi dele e não lembro. Não sei qual a razão, mas toda vez que os filmes dele passavam, me vinha a imagem de Tarsila do Amaral me dizendo: Minha força vem da lembrança da infância na fazenda, de correr e subir em árvores. E das histórias fantásticas que as empregadas negras me contavam. Não sei, coisas muito próximas da minha existência, revejo em cada uma de suas cenas.

TRÊS ESTALOS & A EXTINÇÃO DE TUDO - (Imagem: arte da escultora Sonia Ebling Kermoal) - Apesar da pandemia e dos reiterados alertas dos cientistas sobre a proximidade da extinção humana, nem só indiferentes desfilam, como os que jogam contra contribuindo para o desaparecimento definitivo de mamíferos, inclusive humanos, pelo desmatamento, poluição e aquecimento global, conforme aquela Torre de Babel de Steven Pinker, desde os de antes dele e até agora. Como parece que o Brasil e o planeta entraram num apagão sem fim, na verdade esgotamos o planeta. E a nós apenas cabe assistirmos a tudo isso de forma passiva e conivente, enquanto poderosos estúpidos mandam e desmandam passando boiadas e tocando fogo para a ganância deles e desertificação de tudo. O que nos resta fazer senão a nossa própria parte. Resta-nos a utopia da transformação, ou como diz Michel Serres: Não há progresso sem utopia. A maioria das grandes descobertas ou a maioria dos progressos locais que fazemos vem, sem dúvida, do sonho de alguém que nos precedeu, como uma espécie de utopia. E a minha é escrever, quem sabe, alguém leia e comigo possamos fazer alguma coisa juntos. Afinal, como bem diz Blaise Cendrars: Escrever é uma percepção do espírito. É um trabalho ingrato que leva à solidão. Sim, à solidão criativa, capaz de mudar em mim e em todos nós. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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A GARÇA MAL FERIDA
[...] - Anna, chamava Gisbert. Anna, bem te acostar. – Logo vou. Mas só dali a muito minutos chegava e se aprestava para o sono, para o amor. Naquela noite eles se haviam amado muito. Nos gestos, nas palavras, na entrega que se escapava e se dava; Gisbert reconhecia a sua Anna, acrescida de uma doçura nova, mesclada a uma tristeza que ele nunca vira nela. As mãos de Anna, o rosto de Anna, o corpo de Anna, falavam, falavam. – Te amo, diziam os lábios. – Te amo, diziam as mãos. Quando se esgotara o desejo, os dois estendidos lado a lado, os olhos no teto de treliças, Anna lhe havia tomado a mão. E após um longo silêncio falara: - Eu te amei muito, Gisbert. [...]
A obra A garça mal ferida: a história de Anna Paes D’Altro no Brasil Holandês (Lê, 1995), da escritora, professora, feminista e pesquisadora Luzilá Gonçalves Ferreira, trata de uma brasileira do século XVII, cuja vida era dividida entre o sentimento da terra e suas ligações de amor com os cavalheiros flamengos, trazendo o incêndio de Olinda e a criação de Recife, a administração de Nassau com sua grande tolerância religiosa frente a um catolicismo marcado pela inquisição que fazem o pano de fundo ao exercício de amor da heroína, o qual se dá em outro plano, diferente do mundo dissoluto da colônia, que libera todo pecado ao sul do equador. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


domingo, agosto 30, 2020

BAUDELAIRE, GAUTIER, DÉLIA FISCHER, MONTESSORI, ANGELI, SÉRGIO GODINHO & BETH DA MATTA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... LEVIANDADE DEMAIS... - Apesar dos milhares de mortos diários e do estouro de casos de reinfecção, a vida parece normalizada para muitos indiferentes. Depois de quase seis meses enclausurado, saio às ruas e as pessoas para lá para e para cá, como se nada de extraordinário acontecesse no planeta. Fiéis de todos os credos saúdam entre si e não uns aos outros, o que me chamou atenção, uma discussão entre rivais religiosos. Longe de mim os donos do que dizem não mais que farsa do berço ao túmulo, os que governam sobre aqueloutros nem tão incautos assim, teimosos que são sabidos e submetem a quem do mando a caolhice para a verdade mais absoluta. Assim o fazem como se donos de tantos outros, a se acharem doutos do destino alheio para obediência e temor dos subalternos. É assim e definem o que é permitido ou proibido de sua crença furiosa com seus castigos. Faça não, senão eles inventam no exótico de suas excentricidades sofismáveis o que possa caber no entendimento das verossimilhanças mais esdrúxulas. Ah, são eles lá coisonários e se acusam de infames, sequer ouviram Maria Montessori: As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. E guerras fazem com o seu embusteiro e apoplético credo, jurando ao deus para que haja um céu pros seus escolhidos e um inferno pros desafetos. Assim, só os asseclas e só eles são os irmãos da verdade, em fé e vida, para o bem e o certo, os demais excluídos que fervam nas caldeiras demoníacas das desgraças escatológicas. Enquanto isso, explodem escândalos no noticiário com seus guias e mentores, nem se dão conta, os seus mesmo que cometam crimes cabeludos, são santos e absolvidos na fé exclusiva. Pois é, a vida passa sob todos os seus juízos sectários, incapazes da diferença. A vida passa, eu sei, vou com Théophile Gautier: Nascer é apenas começar a morrer. E viver, uma dança transformadora e muito longe disso tudo. Vou nessa.

DOIS ESTALOS E UM MONTE DE IDEIAS – No meu recolhimento de sempre, ouvia uma bela música, imagens tantas surgiram por cenário e me davam um futuro possível da conquista embalado pelos tons. No começo um tanto disformes, depois tomavam corpo e se apresentavam reais à palma da mão. Sabia de Charles Baudelaire: A imaginação é positivamente aparentada com o infinito. Como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o. A canção instrumental me embalou numa viagem imagética interminável até outra canção soar com afago: era Délia Fischer cantando bonito o Meu tempo (Tempo mínimo, 2019) e a me dizer amável & linda: Exatamente, a minha busca é essa. Busco a música, tem um acorde aqui, uma levada lá. Fico querendo entrar na música como um todo. Me vejo a cada dia mais aberta para interpretar e buscar uma visão própria, que tenha a minha marca. E do seu talento desde o Duo Fênix vou curtindo umas e tantas interpretações, a vida é outra que não esta de tanta calamidade, uma vida feita de sonhos em que viver em paz e com todos é fundamentalmente possível. Nessa também vou.

TRÊS ESTALOS & UM OUTRO OLHAR PARA AS COISAS – Ah, os meus dias, persigo tão desajeitado quanto distraído, e algo me chama atenção nas entrelinhas das coisas, isso sempre e a ponto de atentar para mínimos detalhes entre o fecundo e o necessário. É nessa hora que ouço a troça de Angeli: Quando a gente vai ficando velho, percebe que a adolescência é mais longa do que se espera. Sequer senti o tempo passar tão rapidamente, nem o envelhecimento. Ainda ontem eu pulava o muro do quintal para pegar a bola que pulou fora e a vizinha nua se bronzeando na grama, aos gritos com minha intromissão. Quantas de anteontem ou do mês passado, acho, sei lá, um dia desses aí e nem lembro. Mesmo com as dificuldades motoras, as dores nos quartos e coluna, aqueles esquecimentos imprevisíveis, mesmo assim o coração assobia como se menino entre pássaros e flores no quintal, com o Sérgio Godinho poeticamente cantando: Sem cordas que os amarrem a descoberta de novos campos. Sem memórias, livres correm velozes ou a passo, por dias soltos. Bonito esse seu Primeiro dia, assim voo e vivo. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nossa história precisa ser reescrita. Como artista e cozinheira, abri uma nova pesquisa que é a comida brasileira a partir dos índios, que têm muitas técnicas que foram apagadas da história. Aqui já havia a prática do pirão, bebida fermentada e o domínio da mandioca, por exemplo, antes dos europeus chegarem. Os povos indígenas foram muito silenciados. Há pouco conhecimento sobre sua cultura. Após essa experiência de descolonização, estou em reconciliação com quem sou de fato.
A arte da artista plástica e performática, curadora e gestora pública Beth da Matta (Judith Elizabeth da Matta Ribeiro), que também possui formação em Gastronomia e é atual diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM). Veja mais aqui & aqui. E mais aqui.


sexta-feira, agosto 28, 2020

CZESŁAW MIŁOSZ, GOETHE, LILIANE DARDOT, RYANE LEÃO & ITAMARACÁ


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... CORAÇÃO PAÍS, PAÍS CORAÇÃO... - Quando só coração, sou mortal e apenas uma certeza no meio de emoções, afetos, epiderme e vísceras, sístoles, diástoles. Ademais, interrogações demais. Assim seja. Ouço Czesław Miłosz: A voz da paixão é melhor do que a voz da razão. Quem não tem paixão não pode mudar a história. E sobrevivo três refeições do dia, paixões demais, sono incontrolável, sede, esperas e previsões, dias livres e fartos, senão felizes ou não, diferente que seja destes tão deprimentes, horrores e ameaças. Lá fora talvez algum consolo, ninguém sabe pior ou melhor, valho-me do que sou: duas mãos, braços, pernas, olhos, músculos, ossos, ah quem tem um não tem nenhum, melhor três, assim tudo era melhor, por que não quatro ou mais, não sei, desperdiçam até o que tem de pouco e querem mais só por querer, talvez tédio ou insatisfação do possuído, só pelo maravilhamento da posse, ou lembrar do que tem ou não, afinal para alguma coisa serve a memória ao que do coração e o insondável, a inevitável catábase para que saiba da sujeição e resistência, interstícios e totalidade, a queda para as dores da tirania e depressão, abandono e torpor. É a vida e seja como for eu vou.

DOIS SUPAPOS & UM SUSTOImagem: Arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Liliane Dardot. - Quando não só coração entre notícias e alarmes, avisos de que a vida passa e eu sozinho entre músicas para alegrar o âmago e ver que a vida não é tão grave assim. E Goethe me diz que: Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira. E da felicidade que sei eu além dos instantes a cada semáforo para saber aonde fui ou onde estive, o rio corre solto ali enquanto preciso de recursos para me dizer quando seguir ou parar, segurança e prevenção. O verde diz estar livre, talvez por isso desmatem ou queimem tantas matas e florestas; o amarelo diz atenção, talvez por isso a riqueza não seja para todos, careça de cuidado para não se empanturrar e enlouquecer; o vermelho diz do perigo, tudo tão iminente agora, talvez por isso o sangue da vida não valha nada, razão pela qual se lavam honras e abatem-se vivos, quantos mortos que não são só estatísticas, um a mais e a dói fundo na alma. E tudo se faz de silêncios, barulhos, choros e risos, açodamentos e preocupações, suspeitas e danos. Entre otimismo e pessimismo vivo, eu sei mais: acho que nem tudo é só péssimo e ótimo, cada qual suas diversas formas de percepção e gradação, na verdade era só necessário um pouco mais de compaixão, eu sei e a dor é grande.

TRÊS VERSOS & MEIA PROSA – De coração para coração, eu aqui e outro ausente, são confusões sem ter nem pra quê, coisa do vai ou racha, e acelerar, frenar, debrear, seguir adiante, paralisar, não quero nada disso, só quero amar. Ih! E agora? Muitos contrariados esbravejam, poucos contemplados seguem felizes e a vida é essa corda bamba ou sorteio de loteria. O poder está louco, eu sei, e enlouquecemos juntos nessa meritocracia, mera dissimulação, escolhas escusas, eu sei e tudo vai escorrendo e descendo a ladeira, escapo o que posso para não ser levado de roldão e naufragar na areia movediça desse tempo louco. Então abro os olhos e parte do que posso compreender me é revelado, ainda bem. Ao fechá-los, o universo acontece em mim: clausura e voo entre o lírico e o épico, mansardas de antinomias, falar ou não, ter o que dizer, lembrar ou fazer e eu vencido num canto da sala. Até que tudo nela brilha e queima & ela, Ryane Leão: ouça suas cicatrizes só elas sabem o segredo da sua cura. Preciso curar minhas dores e já. Ao ver-me escurecido, quase inválido ali aos trapos, ela me disse um verso amável: meu corpo enredo pedindo o seu carnaval. Quase salto aos olhos, já nem sei quem governa o tempo porque nunca soube, ninguém sabe, nem quero saber, porque assim vivo quase sem saber de nada que acontece do outro lado da rua nem da esquina em diante, essa vida entre a vontade e a loucura, entre os instantes de gozo e o que há de tanta espera. Assim sou e há muito mais, combatente ou ambulante, sigo e voo. Até mais ver.

ITAMARACÁ, UMA CAPITANIA FRUSTRADA
[...] a freguesia da ilha de Itamaracá, que compreendia tanto a ilha como uma porção do continente que ficava limítrofe com Igarassu, já em Pernambuco. Na ilha, a vila da Conceição, com a matriz de Nossa Senhora, Casa da Câmara, candeia e pelourinho, era o principal centro, enquanto à beira mar ficavam duas povoações, a de Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora do Ó. Na ilha existiam três engenhos de açúcar e várias salinas [...]. No continente localizava-se o povoado de Pasmado [...]. As facas fabricadas em Pasmado foram famosas até as primeiras décadas do século XX. A importância desta freguesia era grande, de vez que, além das atividades artesanais, da produção de açúcar dos seus cinquenta e um engenhos, da produção de sal, da criação de gado, da pesca, de variadas lavouras, dispunha de cinco mil e seiscentos e trinta e cinco fogos e vinte e quatro mil e trinta e quatro pessoas de desobriga. [...].
Trecho extraído da obra Itamaracá, uma capitania frustrada (CEHM-Coleção Tempo Municipal, 1999), do escritor, historiador, geógrafo, advogado e professor Manuel Correia de Andrade (1922-2007). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...