segunda-feira, agosto 11, 2008

CORDEL DE PATATIVA, KADARÉ, DOROTHY CANFIELD, DOROTHY HEIGHT, MELISSA FURNESS & VALUNA


 
A arte de Melissa Furness.


VALUNA: OS DEVERES DO CANTO & AS MULHERES - (Imagem: Melissa Furness) - Era o meu regresso e eu um angico na lua nova. Retornanças de nem saber, a vida. Já um galante pronto para festejar com elas e quem mais fosse. Primeiro era uma suposta Sophia que amava e me fazia pensar e saber, já transformada em uma possível Logos nua no prazer de criar o gozo e a viver. Se eu aprendia era maio: ninguém perderia os pássaros que cantavam no meu coração. No inverno, a pedra eu era e sentia o prazer das coisas segurando meus pés. Escutava da Terra a raiz da alegria, maior felicidade. Não recusei meu destino, o oráculo em mim; as pretensas esfinges, muitas, passavam, e eu me encontrei e me tornei, escolhi. Veio a que me era Antígona e me levou às que simulavam Erínias que me disseram talqualmente Eumênides e descobri o meu nome verdadeiro depois que disse sim mais de mil vezes a tudo. Antes, tive que matar em mim o que sou e neguei para esposar minha origem e me reconciliei: uma aliança de humildade. E me fiz outro olhar na luz que brilhou na noite, para sobrepujar o bem e o mal, o real do coração e mente apaziguada. Meus pés que estavam inchados criaram asas, aprendi a dizer sim e fui mais longe que pude e além. Cheguei à Festa do Curral, lá mamelucos na centenária Sociedade Musical Santa Cecília, levada por Manuel Fernandes Bezerra e Joaquim Francisco de Assis Aquino, do outro lado, os Bacamarteiros de Sanharó. Mais adiante o Coco da Barriguda e, lá detrás, ouvia o bloco da porca que saía me levando para a queimada de Bezerros. E de lá para Encruzilhada, Sapucarana e Boas Novas; Serra Negra, Sítio dos Remédios, Cajazeiras e Areias. Cenários que nunca vi e gostei. Cheguei à terra do Papangu, canto paratodos. Sozinho, sou demais e cada um que nem sabe o que cantar. Eu era feliz apesar de me sentir um exilado no meu chão, deserdado da própria Terra, insepulta solidão. Pisei suave para não incomodar os mortos e saudar as árvores, flores e lições. Sou deles, os que respiram. Amo a vida e as quedas porque somos. De mim os passos e ali o que já era de ontem para amanhã. Sou e somos porque a vida era para todos nós. Viva! Foi aí que percebi ser ela Sanharó para me levar à Pedra Furada de Venturosa e de lá para Grotão, Ingazeira e Tara Velho. A vida era pouca, tudo muito urgente e já sabia em ser-me os rios dos Bois e Cordeiro, e os riachos do Meio, Carrapateira, da Luiza, das Cabeceiras, Chã de Souza, da Pedra Fixa e Simão. Topei na pedra do Tubarão e logo o Peri-peri ou Morro dos Ossos, com seus blocos de granito e pinturas rupestres. Ela já era Venturosa e no arruado o lugar que passei, plantei uma flor que ninguém viu. Era o pote e o meu coração, regava eu cada passo por toda esquina. E se me vi quase não, já era mais que o desejado: uma nuvem que passou sem chuva. Como sempre andei descalço, passos no chão, um a um, mão na mão, o Sol nascia na escuridão. Abracei também pontapés, a dor era só hoje, depois muito mais. Os pés e as águas da areia que escorria entre meus dedos e só tinha o olhar hoje nem quando. Tudo era e queria o não sabido, e o que foi, hoje nem mais: agora, o que não se sabe. Ela já era Ibirajuba com as pinturas rupestres da árvore amarela que era Gameleira nas cavernas da Mandioca e que vão dar nas pedras de Delmiro e seguia para a Casa do Leite até o Alto de São Francisco. Nem deu para notar quando ela me olhou Ibirajuba, eu cantei e era muitos e nem sabia. O meu era tudo e as curvas tantas e muito mais, porque tudo era susto e havia dia. Às vezes pensava que muito era quase nada e sempre, afinal o que ficava de mesmo eram as cinzas e a gente era só um sopro no ar, como tudo. Um sopro que nem se sabe. A minha voz e ela, as muitas vozes que fui e sou, de todos e de mim. Isso amanhã e nem tanto porque só valia ontem depois do futuro que já era agora. O que tinha ido estava agora e não sou mais o que fui ou farei. De mim o que jamais passou, a mesma coisa e não, processos dos devires. E tantos que ela já era a Cabeleira de Altinho, da Chata e Mentirosas, Maracajá, Molambo, da Laje da Cachoeirinha e do Morais, onde o inconformismo vinha com as notícias dos salteadores Cabanos que chegavam de Jacuípe e Panelas, ou de Caruaru e Bezerros, todos suspeitos de antes da Fazenda até a Freguesia de Nossa Senhora do Ó, em cujas terras a lei era a do mais forte. Muito tinha para ser feito porque corria ao sabor da natureza. Tomei ciência do ataque com tantos feridos, outro morto de bala perdida, a angustiosa incerteza e tanto pavor pelo Itaguaçu, Cabeça de Negro, Guaraciaba e Taquara de São Pedro, afora ninguém soubesse lá pelas bandas de Cruanhas, qual que era na verdade, se no Verde, Maniçoba, Salgado, Sacatinga, Cabanas, Catimbó, Cafundó, Camaratuba e Caruara, ninguém sabia nada, nem entendia. Ainda o agreste dos cariris, e o caru, aru aru, a fartura do bredo caruru, curuaí, jacuraru e tejus. Ela era caruaru e foi na cabeleira dela que eu passei a ser o que sou. E fomos a meio caminho entre o sertão e a mata, ô mundão, de Carapotós e São Caetano da Raposa, o Auto do Moura e o Morro do Bom Jesus. Foi lá que a banda sinfônica dos meninos de São Caetano trouxera para frente do museu, gente de todo canto, de Tapiraim, Maniçoba, Santa Luzia, Garrote Velho. E o que se soube é que do Fechado de Curralinho, os que estavam na rua Velha de Tacaimbó, os índios de Itacaité, o Cágado dos Lajeiros pelos Caldeirões de São Jaques, a seca do Piancó da Paraiba, trouxeram mais um fugitivo que encantou-se à sombra de frondosa Jurema. Ele fascinando pelas paisagens do santo das Queimadas saiu pelo Feijão e das Paixões, pela Gaiola e Pátio Velho, até a chegada ao brejo agreste das Panelas e as Cruzes de São José e Lázaro, a Maratona de Cruzes com seus bacamarteiros, bumba-meu-boi, capoeira, mamulengo, banda de pífanos e Antônio da Boneca. Fui com ela para a vila de São José do Bola ver o casamento matuto e os carros-de-bois fantasiados. Depois, o festival dos jericos, a escultura de pedra, o Escorrego do Sítio Contador, a Serra, o Cruzeiro e o Mirante Serra da Bica. Chegamos, eu e ela, pela paineira barriguda do Pedra, o boi calçado que ia pelo Olho d’Água dos Pombos, Santa e Dantas, pelo Serrote da Gameleira, o Alto do Mondé e a Pedra dos Mocós, pelo Melancias, Santa Rita e do Meio. Também o espinho agudo do Brejo da Madre de Deus, no sopé da serra o Olho D'água de Yu-py, que dava nas malocas dos Ouricury, por onde passou um certo Bernardo carniceiro que chacinou centenas de negros e exterminou Janduís lá pras bandas dos potiguaras, só sendo derrotado pelo levante dos Mascates malcriados e ingratíssimos. Era 11 de março tudo era alegria e festa, ninguém sabia nada, nem lembrava nada, se era Pindorama por Divisão, Raposa, Salgado, Malhada do Couro, e de lá pra Vila Neves, ou a planta do pau-ferro jucá, no terreno pedregoso e argila forte. Se era Canhotinho, era área dos quilombolas palmarinos que iam pelos Murici, Pestana, Limão, Palmeira, Muquem, Tabocas e do Canhoto, onde um crime passional de Matias do Tatu flagrava adultério. Foi um verdadeiro crime, estava a amada deitada nua com Chico, dele matá-lo e poupá-la, não antes chamar o Martinho para testemunhar e ser absolvido em nome da honra. Ali sempre atrocidades e barbarismos, aliás, em todo canto. Quando não, uma procissão carregava o andor e ardores de todos os que se achavam pecadores desde nascença e não sabiam qual a razão tanto, mas a fé parecia alívio em suas faces famélica e desesperançadas. Dali os Tupiniquins dos Carajós no Ipanema do Buíque, eram as águas belas que davam no Campo Grande, Curral Novo, Garcia e Tanquinho. E do caá-etê que era mato de São Caetano das bandas de Ponto Alegre, Atoleiro, Barriguda, Bastiões, Vila Araçá, Várzea Comprida, Várzea Suja e Queimada Grande. Êta, mundão! E contavam que a barcaça virou, tornou a virar! Aindagora, indagorinha mesmo da jangada mergulhavam e eu um rio inventado. Adeus, viola! O Sol já vem doutra banda. E tudo era ela e vinha dela o que teria de ser. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

 A arte de Melissa Furness

DITOS & DESDITOS - Ninguém fará por você o que você precisa fazer por si mesmo. Não podemos nos dar ao luxo de estar separados. Temos que ver que todos nós estamos no mesmo barco. Temos que melhorar a vida, não apenas para quem tem mais habilidades e para quem sabe manipular o sistema. Mas também para e com aqueles que muitas vezes têm muito a dar, mas nunca têm a oportunidade. Temos que trabalhar para salvar nossos filhos e fazê-lo com total respeito pelo fato de que, se não o fizermos, ninguém mais o fará. A grandeza não é medida pelo que um homem ou mulher realiza, mas pela oposição que ele ou ela superou para alcançar seus objetivos. Sem o serviço comunitário, não se tem uma qualidade de vida forte. É importante para a pessoa que serve, bem como para o destinatário. É a maneira pela qual nós mesmos crescemos e nos desenvolvemos. Temos que perceber que estamos construindo um movimento. Pensamento da ativista estadunidense Dorothy Height (1912-2010). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Mãe não é alguém para nos servir de apoio, mas quem faz o apoio ser desnecessário. Não é bom que todos os nossos desejos sejam preenchidos; através da doença, reconhecemos o valor da saúde; pelo mal, o valor do bem; através da fome, o valor da comida; através do esforço, o valor do descanso. Existem duas maneiras de conhecer a vida; você pode se recusar a se importar até que a indiferença se torne um hábito, uma armadura defensiva e esteja seguro - mas entediado. Ou você pode se importar muito, viver muito, até que a vida o interrompa. Se déssemos, apenas uma vez, a mesma quantidade de reflexão sobre o que queremos da vida que damos à questão do que fazer com umas férias de duas semanas, ficaríamos surpresos com nossos padrões falsos e com a procissão sem objetivo de nossos dias ocupados. Pensamento da escritora estadunidense Dorothy Canfield Fisher (1879-1958). Veja mais aqui.

VIDA, JOGO & MORTE – [...] Quanto mais refletia, mais Violtsa se convencia de que a verdade só podia ser aquela. Os jovens, e mais ainda os atores, quase sempre são sentimentais. Quem nunca sonhou, nem que seja por um instante, em ser pranteado em silêncio pelo ser amado? mais ainda na manhã seguinte à primeira noite de amor, após ser abatido a tiros, à beira-mar... [...] Trecho extraído da obra Vida, jogo e morte de Lul Mazrek (Companhia das Letras, 2002), do premiado escritor albanês Ismail Kadaré, que conta uma conturbada história de amor e a trajetória de um regime em vias de extinção na Albânia. Veja mais aqui & aqui.


AOS POETAS CLÁSSICOS

Patativa de Assaré

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidad
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

PATATIVA DE ASSARÉ - Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu numa pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada. O fato de ter passado somente seis meses na escola não impediu que sua veia poética florescesse e o transformasse em um inspirado cantor de sua região, de sua vida e da vida de sua gente. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor "honoris causa" por universidades locais. Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que "para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento". O poeta faleceu no dia 08/07/2002, aos 93 anos.

FONTE:
ASSARÉ, Patativa de. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Petrópolis/RJ: Vozes/Fundação Pe. Ibiapina/Instituto Cultural do Cariri, 1984.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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HUMBERTO MATURANA, SAMANTA SCHWEBLIN, NÚRIA AÑÓ & LÍVIA FALCÃO

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