Mostrando postagens com marcador Homero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Homero. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, março 20, 2023

ALICIA KOZAMEH, ANDREE CHEDID, PRUDHOMME, HEYSE & O BICHO DO VAU

 


Ao som dos álbuns Vinha da Ida (2017) e Apneia (2022), da instrumentista, cantautora, circense e bacharel em sociologia, Livia Mattos.

 

TRÍPTICO DQP: Das lâminas e labaredas de Érebo... - O poeta sentiu a lâmina do tempo no corte profundo: a cicatriz guardava o sangue perdido e o fez singrar qual Odisseu pela névoa funesta de pesadas nuvens. Sabia desde Homero: A noite é terrível sobre os mortais infelizes. Não era o seu caso e nem se intimidou: enfrentou as labaredas de Érebo que emergia do caos e do esquecimento, saído das profundezas do Aqueronte com o coro das moiras e horas, fugindo do cárcere no Tártaro. Visível o seu ressentimento pela emboscada urdida por Nix, havia se libertado sozinho e era a primeira vez depois da Titanomaquia. Com ele as trevas da primeva escuridão nos ventos das belas tranças de Circe. Era então o vulcão da Ilha de Ross prestes a explodir sua erupção na Antártida, se agigantando como a cratera de Marte a mostrar o rio da morte e a fronteira entre dois mundos. Trouxe mulheres e homens despidos de seus legados, regurgitando a memória e lamuriando o luto dos vivos. Falsamente gentil ofereceu a imortalidade dos deuses por ser o universo, senhor dos cosmos e dos buracos negros. Não havia como escapar, todos haviam de passar por ele, como afirmara Hesíodo e os ditos das órficas e rapsódicas. Viu-se então Sully Prudhomme: Na minha alma trava-se um combate sem vencedor entre a fé sem prova e a razão sem encanto... Mais dissera Paul Heyse: Se a cabeça e o coração se contradizem, o coração acabaria por dizer: a pobre cabeça cede sempre, porque é a mais prudente... Um descuido do deus e subiu ao Monte como se recitasse o Poema em Linha Reta de Pessoa. E no topo cerziu seus poemas com a queimadura: transformava a dor em grandiosa mudança. Era como se salvasse aos primeiros raios da manhã. Sabia-se ainda vivo e voou nos versos de itinerância: até que tudo se esvaia na navalha do tempo...

 


Apocalipse lírico... - O que nunca tive não faz falta nenhuma, nem mesmo do que perdi ou ignorei. O que sei de mesmo: tudo pra ser revirado e refeito. Sim e refaço todas as horas de todos os dias. Em cada amanhecer já sou outro, tudo ficando para trás consumindo-se nos instantes e já era. Guardo comigo as palavras de Alicia Kozameh: Pego na mão o que sinto como beleza e, então, posso incluir a música que me é indispensável e o jogo de palavras... É sim o que me basta, os tons das cores musicais em cada uma das minhas vértebras. Aos poucos esqueço até de mim mesmo, só recomeço nos versos do Poema final de Andree Chedid: Onde estão as palavras, \ O fogo eterno, \ O poema final? \ A fonte da vida?... Esteja sabe-se lá onde, jamais serei o mesmo e até nem precise existir depois da desconstrução por que sou apocalipse lírico...


 

O bicho do Vau... - Um choro de menino e perscruto à toa. Logo uma das lavadeiras do lajedo: Não vá! Demorei a entender, até que ela, pálpebras baixas, olhar no vazio: Eu já tinha nascido quando a Sinhá nos trouxe para serviçais na casa grande. O coronel marido dela nunca gostou de mim: era como se eu fosse uma afronta e desconfiava do segredo da minha mãe, seria ele meu pai. Confesso: também não gostava dele e cresci assim, até tomar corpo e ele abusar de mim na volta do Vau. Fui mandada pra longe, escondida à sete chaves e tomaram-me o recém-nascido jogado na enchente do rio Jacuípe. Quantos não se afogaram investigando os gemidos pungentes. Hoje meu filho ainda chora nas profundezas do açude. É a maldição que atormenta todos aqueles que querem encontrá-lo. Silenciou... Fitou-me com insistência e me disse KateBornstein: Acho que há pouca compaixão no mundo agora, então precisamos desenvolver a nossa própria para compensar isso... Pude sentir sua dor e dela apenas o sumiço e as fatídicas notícias. Até mais ver.


Veja mais aqui.

 


sexta-feira, fevereiro 25, 2022

STEPHEN SPENDER, KOSTÍS PALAMÁS, BERNARD CHARLOT, AMANDA ARAÚJO & NÉSTOGAS

 

 

TRÍPTICO DQP – Verba volant, scripta manent...- Ao som dos 24 preludes, op. 11, de Scriabin, na interpretação da pianista sueca Maria Lettberg. – Tudo que disse, fiz ou vivi voou. O que ficou quase nem sei: dois olhos nas escuras direções, passos sem rumo de funâmbulo, mãos soltas de quem se perdeu ou deixou escapar, peito aos ventos e circunstâncias, indiferente à maldição de Tutancâmon ou aos versos do Túmulo do poeta grego Kostís Palamás (1859-1943): ... E se você está com sede no submundo / Não beba a água da negação pobre corte de hortelã. / Não beba, ou você vai nos esquecer para sempre, por toda a eternidade... Sigo tal iconófilo sem que precise de outra oportunidade para encontrar o caminho de volta, talvez nem quisesse porque não estou pro que quer que seja, apenas prefiro o sabor náufrago da correnteza. O bom de tudo isso é que posso ouvir Amanda Araújo versejar: Dos alicerces que a vida me proporcionou / A introversão foi meu único escudo / Um silêncio mútuo se refez dentro da taberna / E quando vi já não existia conversa. Sim minha cara poeta, a festa não tem graça alguma, no outro dia só ressaca e desídia. Sei dos meus passos e mais outros quase intermináveis, mas não me cansei e sou adiante se pés sem chão ou desequilíbrio das pernas, até quando.

 


O poeta, a estação, o trem jamais virá... – Imagem: O poeta Vital Corrêa de Araújo na estação de nenhuma chegada ou partida, foto de Admmauro Gommes. - Na estação do meio dia o poeta Vital não guarda esperança, nem precisa. Ali tudo desativado, acéfalo, arbitrário e algumas coincidências: os olhos perdidos na paisagem, a calça na barra da parede, a pose para a fotografia: como se nada olvidasse da conturbada e difícil convivência entre desumanidades e coações, tal como o Pedro pedreiro penseiro do Chico e os rituais do sofrimento de Sílvia Viana Rodrigues, em que uma tela imaginária desse o tom do show dos horrores e jogos cruéis da tevê, quanta corda num mundo surreal de exceções e meritocracia do demérito nos infernos do genocídio ali da rua aqui perto agora mesmo, ouvindo insistentemente do poeta inglês Stephen Spender (1909-1995): O essencial é / Que todos os eus permaneçam separados / Apoiados em flores, e ninguém sofra / Pelo próximo. / Então o horror é adiado / Para todos até que se apodere dele / E o arraste para aquela dor incomunicável / Que é todo mistério ou nada... Mas o poeta é além de, não só espreita como uma brincadeira de outro dia após ontens e se não se passa incólume é porque algo pode ocorrer além do que vive e sonha. E há muito para fazer entre a vida e a sonhação, os olhos aberto e...

 


Néstogas... – Imagem: ArtLAM. - O quê? Se vésperas ou crástinos, o que se sabe de mesmo é que Homero primeiro escreveu Néstogas, depois é que vieram a Ilíada e Odisseia. E que Sócrates foi levado por Diotima para Néstogas: foi lá que ganhou a sabedoria dita pelo Oráculo de Delfos. E que Jesus aos três anos de idade recebeu a revisita dos três reis magos que o levou para Néstogas e só os três e os místicos sabem o que aconteceu até chegar aos trinta e três e lá vai teibei que todo mundo saber de cor... E se de anos em décadas, séculos ou milênios, assim com Mozart que trouxe de Néstogas a sua Flauta Mágica para encantar a todos e daí se propagou o que era singular em toda pluralidade, como o beijo justiçado da cambojana Rindy Sam no painel branco osso do tríptico Phaedrus do artista Cy Twombly (1928-2011): Foi só um beijo, um gesto de amor. Eu a beijei sem pensar; eu pensei que o artista fosse entender... Foi um ato artístico provocado pelo poder da Arte... Não, não, a vida não seria reduzida apenas a isso ou aos dois poemas de Marwin, nem que tenha muita sede mesmo a ponto de me pegar com pensamentos alheios ao que realmente sou, coisas da loucura iminente, incoerência irreversível da expectativa da surpresa, como se todo dia fosse a espera daquele que seria o momento exato, a horagá. Tá. E o que porra é Néstogas? O escambau, ora. Néstogas é somente Néstogas em gênero, grau & número; e o que sei de mesmo é que: antes do Fiat Luz havia apenas Néstogas! Até mais ver.

 


É possível que a educação se torne sempre melhor e que cada geração, por sua vez, dê um passo a mais em direção ao aperfeiçoamento da humanidade; pois é no fundo da educação que jaz o grande segredo da perfeição da natureza humana. A partir de agora pode-se caminhar por essa via. Pois só atualmente é que se começa a julgar corretamente e a captar com clareza o que é verdadeiramente necessário para uma boa educação. É uma coisa entusiasmante pensar que a natureza humana será sempre melhor desenvolvida pela educação e que se pode conseguir dar a esta última uma forma que convenha à humanidade. Isso nos abre uma perspectiva sobre uma futura espécie humana mais feliz...

Trecho extraído da obra A mistificação pedagógica: realidades sociais e processos ideológicos na teoria da educação (Guanabara, 1976), do professor universitário francês Bernard Charlot. Veja mais educação aqui e aqui.


 


terça-feira, outubro 27, 2020

SYLVIA PLATH, DYLAN THOMAS, JEAN ACKER, GRACILIANO, ROSE NOGUEIRA, JOSÉ BARBOSA & A SEREIA DO ROBIMAGAIVER


  

TRÍPTICO DQC: PALÁVORA METAFÁBULA - Estradafora passadopasso futuronde errânbulos vidoutráfego. Realizarpar precisora, adivinhanando portabertas & realsonhalizar velacesa desertormentas. Volvouver, voltainda, vamboramanhã, desdontem jagora! Feridoída, saravento. Dylan Thomas: A bola que lancei quando brincava no parque ainda não tocou o chão. A lição de Graciliano Ramos: É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço. E faço e refaço, torno a refazer, sempre. O que foi e o que irá: todos. O que não me mata me faz viver. O que não me atiça não me falta nem existe. Quem não tem audácia não vive. Quem não se arrepende não faz.

 


A SEREIA DA LOROTA - Imagem: Art Deco handmade Sculpture nude beauty Mermaid Bronze copper Statue. - Depois do Pipoco da porra, da paixonite do besouro doido, da presepada com a culpa no cartório e das emboanças malsucedidas no Big Shit Bôbras, Robimagaiver havia desaparecido fazia tempo e, de repente, deu as caras para lá de lívido e às carreiras. Que foi que houve? Escapei fedendo! Como assim? Arfante, não dizia coisa com nexo. Aí Zé Corninho sapecou: Esse cabra mente que o cu apita! Todos concordaram e juntando curioso ao redor dele, só de mutuca para apurar a pinoia. Foi de mesmo, cara! A gente já saca tua pacutia, fidapeste! Foi mesmo! Vai-te! Vou contar. Então, conta. Seguinte: uma reboculosa daquelas que não é pro meu bico, sei o trampo que carrego, meu carrinho de mão e coisa e tal, e pelo jeito ela deu mole! Espia só: o sujeito juízo curto, mulher bonita, só dá merda! E deu. Passo o rodo, caiu na rede é peixe. E era. Foi só me abestalhar nuns xambregos bons e ineivados e lá pras tantas findar na beira do rio. Pega aqui, pega acolá. Nem aí, depois do sarro era a hora do vamos ver e ela timbungou, tirou a roupa e ficou só me atiçando. Sou lá de refugar na horagá, desvesti tudo num mergulho só. Dali a pouco no meio dos agarrados e umbigadas, um peixão passou pela batata da perna: Tem peixe grande na área! E ela se ria toda não me toques e vem e vai. Passou de novo, pelo volume, vôte, é dos grandões. Tá doido, quero lá ser devorado por jacaré ou sei lá o quê, pulei fora. Oxe, ela danou-se a cantar e a vista escureceu, tonteei e apaguei. Quando dei fé depois de num sei quanto tempo, ela era a peixa. Pode? Aí, foi pior, tive um troço com o pega-pega e só me acordei num lugar desconhecido em que ela não era mais uma peixa, era uma ave com cara de mulher! E queria me pegar. Onde já se viu? Dei uma carreira, nadei num sei quantos dias, ela atrás, grasnando, eu tome braçada, pelo jeito acho que rodei o mundo até despistá-la e chegar em casa. Ufa! Escapei fedendo, meu! Como é? A tropa toda deu sinal de lorota: E quando foi que aprendesse a nadar, desgraçado? A necessidade ensina! Ah, não! Nessa hora ia passando o doutor Zé Gulu que foi atrapalhado pela mangação e teve de ouvir todo relato do dito cujo. Ah, sim, se é verdade ou não, pela descrição do lugar que você deu, não resta dúvida que é a Ilha das Sereias. Como? Sim, é uma ilha incerta do Mediterrâneo e que muitos autores falaram deste lugar: a Odisseia de Homero, a Argonáutica de Apolônio de Rodes, a Die Lorerei de Henrich Heine e o Ulisses do James Joyce, reza a lenda: com seu canto melodioso, as Sereias atraem os marinheiros que, inconscientes do perigo, naufragam nos rochedos da ilha. Êpa! A turma com o mestre pelo canto do olho: Ô doutor, diga cá uma coisa: como é que um frebento desse passa por uma dessa e sai ileso, me diga? A turma do qual é: Nem nadar o bexiguento sabe! Onde já se viu um embola-bosta desse todo topetudo pra bancar o bonzão pra cima da gente, ora! Com todo respeito, doutor, mas não dá para acreditar numa lorota dessa!

 


ELA ENCENA & O AMOR É REAL - Imagem: arte da atriz estadunidense Jean Acker (1893-1978) – Adentrou seminua na noite e disse: Sou Rose. A jornalista e defensora dos direitos humanos, Rose Nogueira. E passou o texto: “Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei. ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’. Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Aí me deram muitas palmadas e um empurrão. Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu filho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro”. E chorava com todos os poros, vísceras & sangue, estirada no chão e a mencionar nomes perdidos, Heleny, Marilena, Helena, Labibe, Alceri: sou todas elas e elas são em mim o último suspiro de vida. Levantei-me até ela e, num abraço, soluçava. Disse-me Sylvia Plath: Acho que criei você no interior da minha mente. Quando você entrega todo o coração a uma pessoa e ela não aceita, não dá para pegar de volta. Você o perde para sempre. Disse-lhe apenas: vivocê! E nos beijamos para a eternidade. Até mais ver.

 

O MUNDO DE JOSÉ BARBOSA

A arte do escultor, entalhador, pintor, desenhista, ilustrador e gravador José Barbosa da Silva, que organizou o Movimento Arte Ribeira, em 1963, e participou do início da Tropicália, do Cinema Novo e da Nova Figuração de artes plásticas, tendo participado de individuais e coletivas em países como Alemanha, França, Espanha, Chile, Inglaterra, USA, Suíça, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 


terça-feira, setembro 15, 2020

BOCAGE, RUBEM ALVES, BETH FORMAGINI, NICOLINA VAZ & DEYSON GILBERT



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DOS UMBRAIS DE MIM... - O meu país arde como se o meu povo fosse o desespero dos acrófobos à beira do abismo, no cortejo de Paddy Digman do Joyce e eu pseudOdisseu errasse à procura de uma das sete vidas de Tirésias para reencontrar a Ítaca perdida, o meu Paraíso de Milton. Essa a coragem do passo adiante quando tudo é precipício na fumaça sem maçaneta, arrimo, apoio ou paredes: o rio de sudorese excessiva e a tremedeira no sorvedouro nas pontes dissolvidas para tudo despencar no frio da barriga perambeira. Desnudo no sonho o rei entre meras catábases por aclives íngremes, não olho para baixo nem posso voltar porque tudo ficou para trás com o pânico larófobo, porque caio para o báratro com o inútil instinto de sobrevivência de Ícaro sem paraquedas, alpinista nas cataratas do inevitável tropeço pelas escadas de nuvens. E ouço os versos do Soneto infernal de Bocage: Dizem que o rei cruel do Averno imundo e seja isto já; que é curta a idade, e as horas de prazer voam ligeiras... são os fios que se soltam na minha eterna corda bamba pelo meio-fio entre a vida e a morte. Ainda vivo, voo.

DUAS CENAS DE FILMESDepois de ter assistido o documentário Memória para uso diário (2007), da premiada cineasta Beth Formagini, tive a oportunidade de ainda ver o documentário Angeli 24 horas (2011), que trata sobre a obsessão pelo trabalho do cartunista Angeli e o seu dilema de artista, como também o premiado Xingu Cariri Caruaru Carioca (2016), que trata a respeito das origens e evolução do pífano na história do Brasil. Ela é formada em História, especializou-se em documentário na Universidade de Roma, foi presidente da Associação Brasileira de Documentaristas no Rio de Janeiro e trabalhou na produção e pesquisa de alguns filmes de Eduardo Coutinho. Foi dela que captei: Estamos infelizmente dominados. Se não discutirmos isso, entraremos de novo nesse período vivido no passado. Espero que a juventude de agora não volte a experimentar aquilo tudo. Tenho esperança de que as pessoas resistam, que se imponham. Esse é o alerta de que precisamos fazer alguma coisa aqui e agora, vambora.


TRÊS CONTAS NOS DEDOS SEGUINDO - (Imagem: escultura de Nicolina Vaz) – Ah, os meus dias, eram ventanias de tempestades terríveis com o esquecimento e nenhuma vontade de errar pela vida dentro de um odre de poderosos ventos e aberto para festa das sereias enlouquecedoras que me deixaram boiando num pedaço de madeira mar afora, para que findasse mendigo no meu próprio reinado em ruínas. Assim as funduras insondáveis da solidão e ao me deparar com as inscrições da tabuleta chinesa no meio dos antros do cabo Averno: Ande com calma na estrada escorregadia, pois nela se embosca o demônio do desastre. Eu sabia, um pé na frente e outro atrás, todos os caminhos levavam ao inferno. É como se do fundo do Érebo surgissem todos os pálidos espectros da minha convivência de ontens, com os seus castigos do julgamento e a minha veneranda mãe a testemunhar minha tribulação pela escuridão de charcos umbrosos. Presenciava tudo e quedava de terror como quem havia sido expulso do éden para invocar a musa, porque só havia em mim a imagem de Penélope a me esperar distante quase sem esperança, a tecer sua manta com as palavras de Rubem Alves: Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. Vivo agora e voo pra ela. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

A ARTE DE DEYSON GILBERT
A arte do artista Deyson Gilbert, que é graduado em Artes Visuais pela Universidade de São (USP), fundador e editor da revista Dazibao e que já participou de mostras e exposições no Brasil e exterior. Veja mais aqui.


domingo, fevereiro 21, 2016

GAY TALESE, NINA SIMONE, ERPENBECK, SEGATO, DAREL, ODISSEIA & LITERÓTICA

 

CELEBRAÇÃO DELA... – Seus olhos esbanjam a gula arraigada de sua paradisíaca exacerbação indomável – neles o abrigo para me salvar da diáspora. A sua arregalada boca murmura à vida o conluio de nossos beijos arrebatados. Seus apimentados lábios entreabertos exaltam a pulsão da oblíqua espera da sua gula insaciável – o verbo revelado. O abissal decote me chama a percorrer o vale entre as dunas apetitosas de seus aduncos seios ofertados, para que eu saboreie mangas-rosas ao meu paladar salivador – regaço da minha redenção, meu eremitério. Nos seus braços o porto seguro para ancoragem das minhas andanças, para ganhar de suas mãos a gênese dos dias e das noites. E assim reina soberana sobre meu sexo exímia manipuladora, provocando-me exaltado ao seu domínio possessivo. Inupta alvoroçada entre as minhas pernas, arranchando vasculhadora sobre o meu ventre, a remover os óbices para se apropriar da minha artilharia púbica, apoderando-se da torre devassada por seu poderio da língua serpenteante aveludada, acometendo-me com o fluxo de suas abocanhadas mais ousadas, a render-me refém de sua sagacidade sensual de arquear debruçada, ofertando-me as costas espalmadas, para me servirem de pista de pouso numa aterrissagem altiva por suas escorregadias montanhas do Cáucaso, deslizando-me pelo tobogã do seu pódice alvissareiro, a esquiar libidinoso suas fontes pudendas, meu propício hangar, porque suas pernas são os caminhos para as andanças do meu leste, meus pontos cardeais para a ilha dos sonhos e ao se abrirem todas as fechaduras escancaram-se as portas volumosas de suas voluptuosas coxas, a me convidar pra invadi-las vidente desbravador de toda a opulência de seus tesouros mais secretos. Nocê estão todos os atributos da Deusa-Mãe para tornar-se o altar da minha devoção, meu andor em procissão, engatinhando reboladora para me servir o orifício cobiçado e a gruta dos milagres e possa visitar as eventuais habitações filiais da mônada suprema, a cavalgá-la qual possante égua no cio a me levar pra Shangri-lá com seu torrencial orgasmo - tê-la meu nirvana, seu gozo minha iluminação, sua nudez a minha iniciação – do seu ventre toda verdade desvelada, o portal da eternidade, meu Shekinah. É nela o que sou da ascensão aos céus divinos. Veja mais abaixo & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

No fim das contas, existem certas coisas que você pode levar consigo quando foge, coisas que não têm peso, como a música...

Pensamento da escritora e diretora de ópera alemã, Jenny Erpenbeck. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

[...] Falar de mulheres não é somente relatar os fatos em que esteve presente, mas reconhecer o processo histórico de exclusão de sujeitos. [...]

Trecho extraído da obra Tempos diferentes, discursos iguais: a construção do corpo feminino na história (UFGD, 2014), da historiadora, pesquisadora e professora Ana Maria Colling.

 

ODISSEIA – […] De todas as criaturas que respiram e se movem sobre a terra, nenhuma é mais frágil que o homem. [...] Há tempo para muitas palavras, e há também tempo para dormir. [...] Não há nada mais admirável do que quando duas pessoas que se entendem perfeitamente vivem juntas como marido e mulher, confundindo seus inimigos e encantando seus amigos. [...] Um homem que passou por experiências amargas e viajou muito, passa a apreciar até mesmo seus sofrimentos depois de um tempo. [...] Um amigo com um coração compreensivo vale tanto quanto um irmão. [...] Os homens são tão rápidos em culpar os deuses: dizem que nós arquitetamos sua miséria. Mas eles eles mesmos - em sua depravação - arquitetam dores maiores do que as dores que o destino lhes impõe. [...]. Trechos extraídos da obra The Odyssey (Penguin, 2010), do poeta grego Homero. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ESPOSA DO TEU PRÓXIMO - [...] Os homens admitiam ser infinitamente fascinados pela forma feminina nua; eles apreciavam as mulheres de uma maneira distante e impessoal que as mulheres, mesmo aquelas que se sentiam lisonjeadas por tal atenção, raramente compreendiam. [...] Embora a força moral da tradição judaico-cristã e da lei tenha buscado purificar o pênis e restringir sua semente à instituição santificada do matrimônio, o pênis não é, por natureza, um órgão monogâmico. Ele não conhece nenhum código moral. Foi concebido pela natureza para o desperdício, anseia por variedade, e nada menos que a castração eliminará o fascínio da prostituição, da fornicação, do adultério ou da pornografia. [...] Ao contrário dos milhões que se masturbam casualmente em solidão enquanto olham fotos de mulheres na Playboy e revistas semelhantes, o massagista preferia uma cúmplice, uma acompanhante de aparência respeitável que o ajudasse a reduzir a culpa e a solidão desse ato de amor tão solitário. [...] Curiosamente, o caso histórico de 1868 na Inglaterra, que definiu pela primeira vez a obscenidade — conhecido entre os advogados como a decisão Hicklin — surgiu da acusação de um panfleto que descrevia como os padres frequentemente ficavam tão excitados sexualmente ao ouvirem as confissões das mulheres que às vezes se masturbavam e até copulavam com suas súditas arrependidas no confessionário. [...] O homem casado médio, se tivesse energia, poderia ter relações sexuais com várias mulheres sem diminuir o afeto e o desejo que sentia por sua esposa. Mas mulheres como Judith — ao contrário de mulheres verdadeiramente libertas como Barbara e Arlene — não conseguiam simplesmente aceitar um homem como um instrumento temporário de prazer; elas queriam luz suave e promessas, não apenas um pênis, mas o homem a ele ligado. [...] O pênis, muitas vezes considerado uma arma, é também um fardo, a maldição masculina. [...]. Trechos extraídos da obra Thy Neighbor's Wife: A Chronicle of American Permissiveness Before the Age of AIDS (Random House, 1995), do escritor estadunidense Gay Talese, que noutro livro seu, The Voyeur's Motel (Grove Press, 2016), ele expressa: [...] Se nossa sociedade tivesse a oportunidade de ser voyeur por um dia, encararia a vida de maneira muito diferente da atual. [...].

 

FEMINICÍDIO – [...] Na língua do feminicídio, o corpo feminino também significa território e sua etimologia é tão arcaica como são recentes suas transformações. Tem sido constitutivo da linguagem das guerras, tribais ou modernas, que o corpo da mulher seja anexado como parte do país conquistado. A sexualidade derramada sobre ele expressa o ato de domesticação, apropriação, ao inseminar o território-corpo da mulher. [...]. Trecho extraído da obra La guerra contra las mujeres (Traficantes de Sueños, 2016), da antropóloga e escritora argentina Rita Laura Segato, autora de obras como Las estructuras elementales de la violencia (2003), La nación y sus otros (2007), Las nuevas formas de la guerra y el cuerpo de las mujeres (2014), entre otros.

 


NINA SIMONE
– Curtindo o dvd Nina Simone Ao vivo (Kultur/Creative Arts, 2005), da pianista, compositora, cantora e ativista pelos direitos civis estadunidenses Nina Simone (1933-2003). Veja mais aqui.


Confira mais Wystan Hugh Auden, Stanislaw Ponte Preta, Anaïs Nin, Maria de Medeiros, Alberti Leon Battista, Francisco Manuel da Silva, Luli Coutinho & muito mais aqui.


Arte do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

A POESIA DE BERNARDO GUIMARÃES (1825-1884)

A ORIGEM DO MÊNSTRUO (De uma fábula de Ovídio achada nas escavações de Pompéia evertida em latim vulgar por Simão de Nuntua).

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas idéias:
– ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.
Mas a navalha tinham o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)
– "Ora porra!" – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
– "Estou perdida!" – trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:
"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?
Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?
Ó Adonis! Ó Jupiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo
Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...
Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina
Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
co'a voz ora as alenta, ora co'a ponta
das setas as fustiga.
Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...
Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – "Bem-feito"!
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
– "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...

O ELIXIR DO PAJÉ

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!
Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co'a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando o co'a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pífias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a destra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?
Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
lingüiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.
Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co'engenho e arte.
Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.
Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co'os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!
Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: "Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré",
- assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co'o pé:
- Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com gentileza?"
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.
Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!
Vassouras terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...
Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...
Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...
Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!

BERNARDO GUIMARÃES (1825-1884)– Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, magistrado, jornalista, professor, romancista e poeta, nasceu em Ouro Preto, MG, em 15 de agosto de 1825, falecendo, na mesma Cidade, em 10 de março de 1884, sendo filho de Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz de Oliveira. Tendo sido indicado como o patrono da Cadeira n. 5 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de Raimundo Correia, em 1896, portanto, doze anos após a sua morte. Tem-se como certa a sua participação, em 1842, na revolução liberal. Bernardo Guimarães, Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa, fundaram (em 1845), com outros estudantes, a “Sociedade Epicuréia”, a que se atribuíram “coisas fantásticas”, que ganharam fama no meio paulistano. A capital paulista, na época, tinha uma população em torno de 15 mil pessoas. Com uma visão conservadora, os paulistas se escandalizavam com o comportamento dos estudantes, membros da mencionada sociedade secreta, em que os mesmos, alunos da Academia, chamavam-se uns aos outros pelos nomes de personagens do Lord Byron e tinham, como objetivo principal, colocar em prática as "extravagantes fantasias" do poeta inglês. Essa atitude era vista pelos conservadores como algo devasso, atentando contra a moral predominante na época. Já em 1847, aos 24 anos, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Nessa época, tornou-se amigo inseparável de Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa. Antes da morte precoce de Álvares de Azevedo (1831-1852), os três amigos planejavam publicar um livro de versos, intitulado "AsTrês Liras". Esse sonho nunca foi realizado. Bacharelou-se, em 2ª. época, no começo de 1852. Nesse ano publicou Cantos da Solidão, obra de poesia. Na carreira jurídica exerceu o cargo de juiz municipal e de órfãos de Catalão, em Goiás, por duas vezes, em 1852-54 e 1861-64. Depois de passar 6 anos em Goiás, o escritor muda-se para o Rio de Janeiro e, entre 58 e 60, trabalha como jornalista e crítico literário no jornal Atualidade. Retornando a Goiás em 1861, novamente como juiz municipal de Catalão. Sendo um magistrado rigoroso, mas humano, tomou uma atitude que releva a sua personalidade: decretou a absolvição, libertando todas as pessoas presas da cidade, em virtude das péssimas instalações dos presídios em que ficavam recolhidos os presos. Esta ousadia lhe rendeu um processo promovido pelo presidente da província, sendo, ao final, absolvido da acusação que lhe foi dirigida. Fixou-se, a partir de 1866, em Ouro Preto, onde foi nomeado professor de retórica e poética no Liceu Mineiro. No entanto, a partir de 1869, Bernardo Guimarães já começava a se destacar como escritor de prosa de ficção, com a publicação de seu primeiro romance, O ermitão de Muquém. Três anos depois, publica duas de suas principais obras: O seminarista e O garimpeiro. Em 1873, foi nomeado professor de latim e francês em Queluz, atual Lafayette, MG. Também esta cadeira foi extinta. Mas foi com a primeira edição de A Escrava Isaura, em 1875, em meio à campanha abolicionista, que o escritor ganhou fama e popularidade em diversas partes do mundo, pois essa obra teve ampla aceitação em mais de 30 paises, seja em forma de livros, seja como novela. Dedicando-se inteiramente à literatura, escreveu ainda quatro romances e mais duas coletâneas de versos. A visita de Dom Pedro II a Minas Gerais, em 1881, deu motivo a que o Imperador prestasse expressiva homenagem a Bernardo Guimarães, a quem admirava. Aos 58 anos, precisamente em 10 de março de 1884, Bernardo Guimarães morreu em Ouro Preto, deixando inacabadas as obras: A história de Minas Gerais, encomendada pelo imperador D. Pedro II, em 1881, e o romance O bandido do Rio das Mortes. Veja mais aqui.

REFERÊNCIAS
AMORA, Antonio Soares. O romantismo: a literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976.
BANDEIRA, Manuel. Noções de história das literaturas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
BOSI, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
BRASIL, Assis. Dicionário pratico de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
______. Vocabulário técnico de literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira. São Paulo: FFLCH/USP, 1999.
______. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Edusp, 1975.
______. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.
______. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Neclosal, 1976.
CANDIDO, Antonio: CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira, vol. 1. São Paulo, Difel, 1968.
CARPEAUX, Otto Maria. Historia da literatura ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1980.
_________. Pequena bibliografia critica da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CARVALHO, Ronald. Pequena história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: F. Briguet, 1955.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
D’ONOFRIO, Salvatore. Literatura Ocidental: autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1990.
FERREIRA, Pinto. Historia da literatura brasileira. Caruaru: Fadica, 1981.
GUIMARÃES, Bernardo. Poesia erótica e satírica. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
HOLANDA, Sergio Buarque (Org). Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979.
LIMA, Alceu Amoroso. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro:Agir, 1956.
LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Forense-Universitária/INL, 1978.
MARTINS, Wlson. A literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1967.
MOISÉS, Massaud, A Literatura Brasileira Através dos Textos. São Paulo: Cultrix, 2000.
______. História da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.
NICOLA, José de. Literatura Brasileira das origens aos Nossos Dias. São Paulo: Scipione,1994.
ROMERO, Silvio. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympioo/INL, 1980.
SODRÉ, Nelson Werneck. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasiléia, 1976.


Veja mais sobre:
Fernando Pessoa & Albert Einstein aqui.

E mais:
Isadora Duncan & Simone de Beauvoir aqui.
Hilda Hilst & Zygmunt Bauman aqui.
Renata Pallottini & Carl Rogers aqui.
Daniela Spielmann & Eric Kandel aqui.
Bertolt Brecht, Nise da Silveira, Egberto Gismonti, Galileu Galilei, Irena Sendler, Michelangelo Antonioni, Charles André van Loo & Anna Paquin aqui.
A folia do prazer na ginofagia aqui.
Fecamepa & a Independência do Brasil aqui.
Têmis, Walter Benjamim, Luís da Câmara Cascudo, Sandie Shaw, Patrícia Melo, Marie Dorval, José Roberto Torero, Julia Bond & Iracema Macedo aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA;
Art by Derinha Rocha
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.




DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...