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domingo, fevereiro 21, 2016

GAY TALESE, NINA SIMONE, ERPENBECK, SEGATO, DAREL, ODISSEIA & LITERÓTICA

 

CELEBRAÇÃO DELA... – Seus olhos esbanjam a gula arraigada de sua paradisíaca exacerbação indomável – neles o abrigo para me salvar da diáspora. A sua arregalada boca murmura à vida o conluio de nossos beijos arrebatados. Seus apimentados lábios entreabertos exaltam a pulsão da oblíqua espera da sua gula insaciável – o verbo revelado. O abissal decote me chama a percorrer o vale entre as dunas apetitosas de seus aduncos seios ofertados, para que eu saboreie mangas-rosas ao meu paladar salivador – regaço da minha redenção, meu eremitério. Nos seus braços o porto seguro para ancoragem das minhas andanças, para ganhar de suas mãos a gênese dos dias e das noites. E assim reina soberana sobre meu sexo exímia manipuladora, provocando-me exaltado ao seu domínio possessivo. Inupta alvoroçada entre as minhas pernas, arranchando vasculhadora sobre o meu ventre, a remover os óbices para se apropriar da minha artilharia púbica, apoderando-se da torre devassada por seu poderio da língua serpenteante aveludada, acometendo-me com o fluxo de suas abocanhadas mais ousadas, a render-me refém de sua sagacidade sensual de arquear debruçada, ofertando-me as costas espalmadas, para me servirem de pista de pouso numa aterrissagem altiva por suas escorregadias montanhas do Cáucaso, deslizando-me pelo tobogã do seu pódice alvissareiro, a esquiar libidinoso suas fontes pudendas, meu propício hangar, porque suas pernas são os caminhos para as andanças do meu leste, meus pontos cardeais para a ilha dos sonhos e ao se abrirem todas as fechaduras escancaram-se as portas volumosas de suas voluptuosas coxas, a me convidar pra invadi-las vidente desbravador de toda a opulência de seus tesouros mais secretos. Nocê estão todos os atributos da Deusa-Mãe para tornar-se o altar da minha devoção, meu andor em procissão, engatinhando reboladora para me servir o orifício cobiçado e a gruta dos milagres e possa visitar as eventuais habitações filiais da mônada suprema, a cavalgá-la qual possante égua no cio a me levar pra Shangri-lá com seu torrencial orgasmo - tê-la meu nirvana, seu gozo minha iluminação, sua nudez a minha iniciação – do seu ventre toda verdade desvelada, o portal da eternidade, meu Shekinah. É nela o que sou da ascensão aos céus divinos. Veja mais abaixo & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

No fim das contas, existem certas coisas que você pode levar consigo quando foge, coisas que não têm peso, como a música...

Pensamento da escritora e diretora de ópera alemã, Jenny Erpenbeck. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

[...] Falar de mulheres não é somente relatar os fatos em que esteve presente, mas reconhecer o processo histórico de exclusão de sujeitos. [...]

Trecho extraído da obra Tempos diferentes, discursos iguais: a construção do corpo feminino na história (UFGD, 2014), da historiadora, pesquisadora e professora Ana Maria Colling.

 

ODISSEIA – […] De todas as criaturas que respiram e se movem sobre a terra, nenhuma é mais frágil que o homem. [...] Há tempo para muitas palavras, e há também tempo para dormir. [...] Não há nada mais admirável do que quando duas pessoas que se entendem perfeitamente vivem juntas como marido e mulher, confundindo seus inimigos e encantando seus amigos. [...] Um homem que passou por experiências amargas e viajou muito, passa a apreciar até mesmo seus sofrimentos depois de um tempo. [...] Um amigo com um coração compreensivo vale tanto quanto um irmão. [...] Os homens são tão rápidos em culpar os deuses: dizem que nós arquitetamos sua miséria. Mas eles eles mesmos - em sua depravação - arquitetam dores maiores do que as dores que o destino lhes impõe. [...]. Trechos extraídos da obra The Odyssey (Penguin, 2010), do poeta grego Homero. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ESPOSA DO TEU PRÓXIMO - [...] Os homens admitiam ser infinitamente fascinados pela forma feminina nua; eles apreciavam as mulheres de uma maneira distante e impessoal que as mulheres, mesmo aquelas que se sentiam lisonjeadas por tal atenção, raramente compreendiam. [...] Embora a força moral da tradição judaico-cristã e da lei tenha buscado purificar o pênis e restringir sua semente à instituição santificada do matrimônio, o pênis não é, por natureza, um órgão monogâmico. Ele não conhece nenhum código moral. Foi concebido pela natureza para o desperdício, anseia por variedade, e nada menos que a castração eliminará o fascínio da prostituição, da fornicação, do adultério ou da pornografia. [...] Ao contrário dos milhões que se masturbam casualmente em solidão enquanto olham fotos de mulheres na Playboy e revistas semelhantes, o massagista preferia uma cúmplice, uma acompanhante de aparência respeitável que o ajudasse a reduzir a culpa e a solidão desse ato de amor tão solitário. [...] Curiosamente, o caso histórico de 1868 na Inglaterra, que definiu pela primeira vez a obscenidade — conhecido entre os advogados como a decisão Hicklin — surgiu da acusação de um panfleto que descrevia como os padres frequentemente ficavam tão excitados sexualmente ao ouvirem as confissões das mulheres que às vezes se masturbavam e até copulavam com suas súditas arrependidas no confessionário. [...] O homem casado médio, se tivesse energia, poderia ter relações sexuais com várias mulheres sem diminuir o afeto e o desejo que sentia por sua esposa. Mas mulheres como Judith — ao contrário de mulheres verdadeiramente libertas como Barbara e Arlene — não conseguiam simplesmente aceitar um homem como um instrumento temporário de prazer; elas queriam luz suave e promessas, não apenas um pênis, mas o homem a ele ligado. [...] O pênis, muitas vezes considerado uma arma, é também um fardo, a maldição masculina. [...]. Trechos extraídos da obra Thy Neighbor's Wife: A Chronicle of American Permissiveness Before the Age of AIDS (Random House, 1995), do escritor estadunidense Gay Talese, que noutro livro seu, The Voyeur's Motel (Grove Press, 2016), ele expressa: [...] Se nossa sociedade tivesse a oportunidade de ser voyeur por um dia, encararia a vida de maneira muito diferente da atual. [...].

 

FEMINICÍDIO – [...] Na língua do feminicídio, o corpo feminino também significa território e sua etimologia é tão arcaica como são recentes suas transformações. Tem sido constitutivo da linguagem das guerras, tribais ou modernas, que o corpo da mulher seja anexado como parte do país conquistado. A sexualidade derramada sobre ele expressa o ato de domesticação, apropriação, ao inseminar o território-corpo da mulher. [...]. Trecho extraído da obra La guerra contra las mujeres (Traficantes de Sueños, 2016), da antropóloga e escritora argentina Rita Laura Segato, autora de obras como Las estructuras elementales de la violencia (2003), La nación y sus otros (2007), Las nuevas formas de la guerra y el cuerpo de las mujeres (2014), entre otros.

 


NINA SIMONE
– Curtindo o dvd Nina Simone Ao vivo (Kultur/Creative Arts, 2005), da pianista, compositora, cantora e ativista pelos direitos civis estadunidenses Nina Simone (1933-2003). Veja mais aqui.


Confira mais Wystan Hugh Auden, Stanislaw Ponte Preta, Anaïs Nin, Maria de Medeiros, Alberti Leon Battista, Francisco Manuel da Silva, Luli Coutinho & muito mais aqui.


Arte do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

A POESIA DE BERNARDO GUIMARÃES (1825-1884)

A ORIGEM DO MÊNSTRUO (De uma fábula de Ovídio achada nas escavações de Pompéia evertida em latim vulgar por Simão de Nuntua).

Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas idéias:
– ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.
Mas a navalha tinham o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)
– "Ora porra!" – gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
– "Estou perdida!" – trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:
"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?
Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?
Ó Adonis! Ó Jupiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo
Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...
Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina
Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
co'a voz ora as alenta, ora co'a ponta
das setas as fustiga.
Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...
Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: – "Bem-feito"!
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
– "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: – a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...

O ELIXIR DO PAJÉ

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!
Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co'a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando o co'a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!
Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pífias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a destra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?
Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
lingüiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.
Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co'engenho e arte.
Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.
Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co'os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!
Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: "Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré",
- assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co'o pé:
- Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com gentileza?"
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.
Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!
Vassouras terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...
Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...
Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...
Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!

BERNARDO GUIMARÃES (1825-1884)– Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, magistrado, jornalista, professor, romancista e poeta, nasceu em Ouro Preto, MG, em 15 de agosto de 1825, falecendo, na mesma Cidade, em 10 de março de 1884, sendo filho de Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz de Oliveira. Tendo sido indicado como o patrono da Cadeira n. 5 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de Raimundo Correia, em 1896, portanto, doze anos após a sua morte. Tem-se como certa a sua participação, em 1842, na revolução liberal. Bernardo Guimarães, Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa, fundaram (em 1845), com outros estudantes, a “Sociedade Epicuréia”, a que se atribuíram “coisas fantásticas”, que ganharam fama no meio paulistano. A capital paulista, na época, tinha uma população em torno de 15 mil pessoas. Com uma visão conservadora, os paulistas se escandalizavam com o comportamento dos estudantes, membros da mencionada sociedade secreta, em que os mesmos, alunos da Academia, chamavam-se uns aos outros pelos nomes de personagens do Lord Byron e tinham, como objetivo principal, colocar em prática as "extravagantes fantasias" do poeta inglês. Essa atitude era vista pelos conservadores como algo devasso, atentando contra a moral predominante na época. Já em 1847, aos 24 anos, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Nessa época, tornou-se amigo inseparável de Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa. Antes da morte precoce de Álvares de Azevedo (1831-1852), os três amigos planejavam publicar um livro de versos, intitulado "AsTrês Liras". Esse sonho nunca foi realizado. Bacharelou-se, em 2ª. época, no começo de 1852. Nesse ano publicou Cantos da Solidão, obra de poesia. Na carreira jurídica exerceu o cargo de juiz municipal e de órfãos de Catalão, em Goiás, por duas vezes, em 1852-54 e 1861-64. Depois de passar 6 anos em Goiás, o escritor muda-se para o Rio de Janeiro e, entre 58 e 60, trabalha como jornalista e crítico literário no jornal Atualidade. Retornando a Goiás em 1861, novamente como juiz municipal de Catalão. Sendo um magistrado rigoroso, mas humano, tomou uma atitude que releva a sua personalidade: decretou a absolvição, libertando todas as pessoas presas da cidade, em virtude das péssimas instalações dos presídios em que ficavam recolhidos os presos. Esta ousadia lhe rendeu um processo promovido pelo presidente da província, sendo, ao final, absolvido da acusação que lhe foi dirigida. Fixou-se, a partir de 1866, em Ouro Preto, onde foi nomeado professor de retórica e poética no Liceu Mineiro. No entanto, a partir de 1869, Bernardo Guimarães já começava a se destacar como escritor de prosa de ficção, com a publicação de seu primeiro romance, O ermitão de Muquém. Três anos depois, publica duas de suas principais obras: O seminarista e O garimpeiro. Em 1873, foi nomeado professor de latim e francês em Queluz, atual Lafayette, MG. Também esta cadeira foi extinta. Mas foi com a primeira edição de A Escrava Isaura, em 1875, em meio à campanha abolicionista, que o escritor ganhou fama e popularidade em diversas partes do mundo, pois essa obra teve ampla aceitação em mais de 30 paises, seja em forma de livros, seja como novela. Dedicando-se inteiramente à literatura, escreveu ainda quatro romances e mais duas coletâneas de versos. A visita de Dom Pedro II a Minas Gerais, em 1881, deu motivo a que o Imperador prestasse expressiva homenagem a Bernardo Guimarães, a quem admirava. Aos 58 anos, precisamente em 10 de março de 1884, Bernardo Guimarães morreu em Ouro Preto, deixando inacabadas as obras: A história de Minas Gerais, encomendada pelo imperador D. Pedro II, em 1881, e o romance O bandido do Rio das Mortes. Veja mais aqui.

REFERÊNCIAS
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BANDEIRA, Manuel. Noções de história das literaturas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
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NICOLA, José de. Literatura Brasileira das origens aos Nossos Dias. São Paulo: Scipione,1994.
ROMERO, Silvio. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympioo/INL, 1980.
SODRÉ, Nelson Werneck. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasiléia, 1976.


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terça-feira, setembro 23, 2014

MAJA HADERLAP, TESSA DE LOO, VERONICA FRANCO & DELIA DERBYSHIRE

 


AH, VERONICA, A LUTA PELO AMOR... – Aquela bela veneziana teve o ofício herdado da sua mãe que, ao casar-se com seu pai, abdicou de sua vida para ser a dama de um cidadão. Morreu-lhe o pai, fato que fez com quem a sua mãe regressasse de onde viera. E ao completar 16 anos, logo foi levada a casar-se com um médico amante do jogo e da bebida: o sofrimento lhe batia à porta. A jovem esposa enfrentou o arrojo da gravidez do primeiro filho aos 18 anos, enfrentou seu marido e separou-se, estava cansada de ser espancada. Logo reclamou seu dote para ser dona de sua vida. E assim o fez. Ao lado da mãe exerciam turnos distintos, levando-a a figurar entre as citações do Tariffa dele puttane. E aos 20 anos foi listada no Catalogo de tutte le principal et più honorate cortigiane di Venetia. Tornava-se a mais respeitada entre as cortigiane oneste que habitavam a cidade, uma exótica beldade culta e refinada, de vasta cultura e domínio das artes e das letras, gozava da liberdade e da autossuficiência. Não olvidava de passar diante da Igreja de Maria Formosa, mesmo que um beijo seu fosse duma valia tão avultada. Bela e delicada no trato, inteligente e culta, um dia lá seus olhos enfeitiçantes pousaram os meus. Não havia como escapar e me fez hóspede de seus banquetes, arcos triunfais, concertos e fogos-de-artifício. E fez-se presente exclusiva e particular, como se eu fosse o rei entronizado ali, levando-me ao seu ateneu. Depois de festiva noite me levou à sua alcova e lá fez-se a Dama que descobre os seios. Diante de mim o Retrato de dama em carne e osso, completamente nua e pronta pros meus caprichos mais ousados. Depois dos beijos, abraços e trocas de pernas nas mais avassaladoras das entregas, recitou-me seus sonetos e uma compilação de seus poemas. Fez-me presentear o volume de tom erótico de seus versos no Terze Rime. Deu-me o volume do Lettere familiari e diversi, o qual continha um compilado de cartas do gênero epistolar, com descrições da sua vida cotidiana. Passou a ser a musa do meu coração e de tantos artistas, como Tintoretto, Comin, a Vênus de Aretino, Montaigne, poetas tantos enamorados, como Venieri e dos maldizentes: Veronica, ver única puttana... E vencedora do duelo poética, expunha-se a mais linda cortesã da tez branca, dos cabelos acobreados, olhos claros e feições finas, enfeitada de pérolas, exultante fêmea para todos os desejos mais exaltados. Dias depois não mais a vi, sumira enfrentando perseguições por ter sido denunciada por um amante despeitado ao inexorável “Santo” Ofício, acusada de falta de zelo religioso e prática de feitiçaria. Encarcerada, viu-se declinando com a perda quase total de todos os seus bens. Não se safou de difamações, viu-se às voltas com acusações de bruxaria e encantamentos mágicos, levada ao julgamento inquisitorial por dias, finalmente libertada. Veio então a epidemia da peste que vitimou muitos, dos seus 6 filhos, apenas 3 sobreviveram à infância. Exilada e insultada por sua beleza e sedução, vistas como perigosas, servas de tiranos e demônios, manteve sua voz enfrentando quem a ousasse calar, dizendo-se uma mulher real, nunca uma deusa: ... Doce, gentil, sua valorosa amante, \ Aquela que, longe de você, na miséria vive... Estava ela prostrada de devoção, sua casa fora saqueada. Retirou-se, enclausurada em sua mansão, negociou um asilo para acolhida de outras cortesãs doentes e idosas, e o ensino de um ofício, porque todas estavam condenadas a comer pela boca de outros, a dormir pelos olhos de outros, a movimentar-se de acordo com o desejo de outros, correndo em manifesto naufrágio sempre das faculdades e da vida. A iniciativa malogrou, mas ela continuou tão admirada quanto temida, sua vida com o recheio das reviravoltas por conta de sua desafiante luta contra os padrões e com sua coragem encantadora: Amar sem razão é a única maneira de amar... A vida tornou-se obscura para a poeta do desafio, cobiçada cortesã e heroína em luta pelo amor, Veronica eterna no meu coração. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Dançamos nossa juventude numa cidade sonhada, Veneza, paraíso, orgulhosa e bonita, Vivíamos para o amor e a luxúria e a beleza, O prazer então nosso único dever. Flutuando entre o céu e a terra E bebendo em abundância a alegria abençoada Nós nos considerávamos eternos então, Nossa glória selada pela própria caneta de Deus. Mas descobrimos que o paraíso é sempre frágil, Contra o medo do homem sempre falhará... O amor é um campo de batalha e já travei muitas batalhas. O amor é um jogo em que sempre se trapaceia. O amor não é para os de coração fraco; é para as almas corajosas que ousam sentir. Ser ousada no amor é conquistar o mundo. Pensamento da poeta e cortesã veneziana Veronica Franco (1546–1591). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Isto é uma espécie de disciplina. As pessoas pensam que os compositores sentam ali com a caneta sobre o papel manuscrito, e Deus envia sua inspiração no topo da caneta no papel. Bem, em em alguns casos, parece que sim; talvez Mozart. Mas em outros casos é preciso impor uma disciplina, e a disciplina de número é uma excelente disciplina. A sequência de Fibonacci as pessoas usam há séculos. Os números da natureza; o número de folhas de uma samambaia, o número de sementes de um girassol cabeça, e como eles estão dispostos... este é o Fibonacci sequência, usada em arte, arquitetura e música. Embora quando você ouve isso na música, não é reconhecido... Meu som mais bonito na época era um abajur verde e surrado da BBC. Era da cor errada, mas tinha um lindo som de toque. Eu bati no abajur, gravei isso, fiz fade out na parte do toque sem o início da percussão... Analisei o som em todas as suas parciais e frequências, peguei os 12 mais fortes e reconstruí o som nos famosos 12 osciladores da oficina ... Pensamento da compositora britânica Delia Derbyshire (1937-2001), pioneira de música eletrônica e música concreta inglesa.

 

CAMA NO CÉU - [...] A cor é uma questão de opinião pessoal. [...] Eu gostaria de saber como alguém deve viver. Eu gostaria que alguém tivesse me ensinado. Por que as pessoas que consideramos autoridades quando éramos crianças nos decepcionam nesse aspecto? Quem nos dirá o que é certo? A cruz, o crescente, a foice e o martelo, o Buda sorridente? Faça como seria feito por. [...] Como pode um rio que nasce numa floresta negra e desemboca num mar negro ser celebrado como azul? [...] As pontes simbolizam a paz e o contato humano. [...] Uma bela ponte é um poema. [...]. Trechos extraídos da obra Bed in Heaven (Arcadia, 2008), da escritora holandesa Tessa de Loo, pseudônimo de Johanna Martina Tineke Duyvené de Wit.

 

FRONTEIRAS - suas fronteiras criaram uma série \ de armadilhas e transgressões. \ nos anais da divisão a fronteira foi inscrita \ como vitoriosa. em tempo de guerra, a faixa fronteiriça \ oscilava para frente e para trás, as aldeias \ se desviavam, deslizavam para \ a periferia. seus habitantes \ selaram suas gargantas com cadeados toscos, \ vigiaram a silenciosa cena do crime \ na qual entro despreocupadamente. muitas vezes, seguido pelos \ seus olhos, eu tomava o caminho blindado para uma \ terra vizinha, para ouvir falar de tempos passados, \ quando cercas ainda ladeavam os pastos \ e um eco semelhante ligava \ todos os nomes. onde antes uma estrada passava, \ seu rastro desaparece. tudo é margem, \ esquecimento e transição. Poema da escritora eslovena-austríaca Maja Haderlap.

 


O CONDOR VOA – O livro O condor voa: literatura e cultura latino-americana, de Antonio Cornejo Polar, aborda temas como critica literária, pluralidade e totalidade, o corpus da literatura latino-americana, imediatismo e perenidade, a dupla audiência da literatura de fundação da República, os sistemas literários como categorias históricas, reflexões a partir de uma relação textual entre o Inca e Palma, discursos coloniais e formação da literatura hispano-americana, José Donoso e a nova narrativa, neo-indigenismo e Manuel Scorza, o discurso da harmonia possível, condição migrante e intelectualidade multicultural, Arguedas, estatuto sociocultural, voz e letra no dialogo de Cajamarca, heterogeneidade não dialética, entre outros importantes assuntos.

REFERÊNCIAS
POLAR, Antonio Cornejo. O condor voa: literatura e cultura latino-americana. Belo Horizonte: UFMG, 2000.

EROS E CIVILIZAÇÃO – A obra Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, do sociólogo e filosofo alemão pertencente à Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse (1898-1979), na primeira parte aborda sobre o domínio do princípio de realidade, a tendência oculta na psicanálise, o princípio do prazer e da realidade, repressão genética e individual, retorno d reprimido na civilização, racionalização da renúncia, civilização e carência, recordação de coisas passadas como veiculo de libertação, a ontogênese e origem do individuo reprimido, o aparelho mental como união dinâmica de opostos, estágios na teoria dos instintos de Freud, a natureza conservadora comum dos instintos primários, a possível supremacia do principio do Nirvana, Id, ego e supergo, a corporalização da psique, caráter reacionário do superego, avaliação da concepção básica de Freud, análise da interpretação da história na psicologia de Freud, distinção entre repressão e mais-repressão, trabalho alienado e o princípio de desempenho, organização da sexualidade, tabus sobre o prazer, organização dos instintos de destruição, dialética fatal da civilização, a filogênese e a origem da civilização repressiva, heramnça arcaica do ego individual, psicologia individual e grupal, a horda primordial, rebelião e restauração do domínio, conteúdo dual do sentimento de culpa, retorno do reprimido na religião, o malogro da revolução, mudanças nas imagens do pai e da mãe, a dialética da civilização, necessidade de defesa contra a destrução, a existência de sublimação, dessexualização, enfraquecimento de Eros e os instintos de vida, livberação da destrutividade, progresso em produtividade e dominação, controles intensificados na civilização industrial, declínio da luta com o pai, despersonalização do superego, contração do ego, alienação, desintegração do princípio de realidade estabelecido, interlúdio filosófico, a teoria da civilização de Freud na tradição da filosofia oriental, o ego como sujeito agressivo e transcendente, logos como lógica de dominação, o protesto filosófico contra a lógica de dominação, ser e devir, pernamencia versus transcendência, o erteno retorno em Aristótles, Hegel, Nietzsche e Eros como essência de ser. Na segunda parte, o autor trata além do princípio de realidade, os limites históriscos desse princípio, obsoletismos da carência de dominação, hipótese de um Novo Princípio de Realidade, a dinâmica instintiva do sentido da civilização não-repressiva, o problema de verificação da hipótese, fantasia e utopia, a fantasia versus razão, preservação do pasado arcaico, o valor de verdade da fantasia, a imagem da vida sem repressão nem ansiedade, possibilidade de liberdade autêntica em uma civilização madura, necessidade de uma redefinição de progresso, as imagens de Orfeu e Narciso, arquétipos de existência humana na civilização não-repressiva, Oferu e Narciso contra Prometeu, luta mitológica de Eros contra a tirania da razão, contra a morte, reconciliação do homem  e da natureza na cultura sensual, dimensão estética, a estética como ciência da sensualidade, reconciliação entre prazer e liberdade, instinto e moralidade, as teorias estéticas de Baumgarten, Kant e Schiller, elementos de uma cultura não-repressiva, transformação do trabalho em atividade lúdica, a transformação da sexualidade em Eros, a abolição da dominação, efeito sobre os instintos sexuais, auto-sublimação da sexualidade de Eros, sublimação repressiva versus livre sublimação, aproveitamento das relações sociais não repressivas, o trabalho como ação livre das faculdades humanas, a possibilidade relações libidinais de trabalho, Eros e Thanatos, a nova ideia de razão, racionalidade da gratificação, moralidade libidinal, a luta contra o fluxo de tempo, mudança na relação entre Eros e o instinto de morte e critica ao revisionismo neofreudiano. Veja mais aqui, aquiaqui & aqui.

REFERÊNCIAS
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.


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