sábado, maio 02, 2015

MARUJA TORRES, JUSTINE, JOHN DONNE, FANNI KAPLAN & IBSEN

 


A DOR DE FANNI – Era ela uma jovem entre sete irmãos de uma família judia camponesa. Precocemente tornou-se revolucionária política aliando-se aos socialistas, tornando-se militante do partido. Não demorou muito e a primeira prisão ocorreu aos 16 anos de idade, por envolver-se com um atentado terrorista em Kiev, enviada para um campo de prisioneiros de trabalhos forçados, a katorga. Dez anos depois foi libertada com a revolução que derrubou o governo imperial. Conflitos entre revolucionários e bolcheviques, levaram-na a se desiludir com o líder, por conta da dissolução da Assembleia Constituinte, uma medida soviética autoritária pela forte intriga entre as facções. A maioria dos partidos foram proibidos por conta da oposição ao Tratado de Brest-Litovski. Decidiu-se então por se vingar e assassinar o traidor da revolução. E ao abordá-lo depois de um discurso na saída de uma fábrica de Moscou, desferiu três tiros ferindo-o gravemente. Deu-se então a perseguição implacável aos oponentes. Foi capturada, presa e, poucos dias depois, foi levada às mãos da Cheka, para ser interrogada: assumiu sozinha a autoria do atentado. Foi sentenciada à morte por fuzilamento. Daí, 4 dias depois do atentado, juntamente com outros tantos acusados oponentes, foi executada sem julgamento. Veja mais abaixo e mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Meu nome é Fanya Kaplan. Hoje eu desafiei Lenin. Eu fiz isso sozinho. Certamente não vou dizer de quem obtive meu revólver. Não darei nenhuma informação. Eu tinha concordado em matar Lenin há muito tempo. Eu o considero um traidor da Revolução. Fui expulso do Akatui por participar de um esforço de assassinato contra um oficial czarista em Kiev. Eu trabalhei duro durante 11 anos. Depois da Revolução, fui libertado. Eu era a favor da Assembleia Constituinte e ainda sou a favor dela. Depoimento da revolucionária russa Fanni Kaplan (Fanni Yefimovna Kaplan – 1890-1918), que tentou assassinar Lenin em 1918.

 

ALGUÉM FALOU: Como eu poderia ter chegado aqui? Eu vou te contar rapidamente. Momento a momento... Pensamento da escritora e jornalista espanhola Maruja Torres (Maria Dolors Torres Manzanera), que em seu livro Mujer en guerra. Más másters da la vida (Suma de Letras, 2000) ela expressou: [...] A reportagem foi enfraquecida, suplantada pelo espetáculo. Os diários Eles imitavam a televisão, o pior da televisão, o sensacionalismo. O leitor se tornaria público e depois um cliente... Fiquei aquém, naturalmente. Eu não tinha ideia do que estava por vir. Nenhum nós tivemos isso [...] As frases mais detestáveis e perigosas que um chefe pode dizer no jornalismo: O que o público quer…” Até onde eu sei, o jornalismo Ela existe para contar o que está acontecendo, quer o público, seu destinatário, goste ou não. Ou seja: informar. A grandeza do jornalismo é informar apesar da autoridade; mas também fazê-lo mesmo que isso possa causar-lhe trazer impopularidade entre sua clientela [...] O relatório que fiz na África do Sul […] a primeira parte fala sobre a brancos, e como eles se convenceram de sua superioridade racial através de sutis mecanismos messiânico-paternalistas, para encobrir o que que nada mais era do que pura e simples exploração econômica [...] Quero insistir que não devemos culpar apenas os empresários e gestores. da tendência atual do jornalismo se tornar um espetáculo; ter lutar para sobreviver em um mundo confuso onde a competição ficou selvagem. Quero enfatizar que é responsabilidade do jornalista mantém a dignidade do seu produto. É desanimador que pessoas que conseguiram desafiar a censura mais forte, não sejam tão faça o mesmo com o mercado sacrossanto [...] Daquela guerra perdida pela informação surgiu uma forma tão pouco dissidente como a realidade que reflete: um jornalismo que raramente questiona os estereótipos, raramente questiona os confiabilidade das fontes... e que ele aceita como um fato do qual não há a necessidade de bajular e estimular o leitor retorna, hoje convertido em cliente, para aumentar o consumo do produto [...]. A respeito da obra ela expressa que: [...] é a história de como cheguei até aqui fugindo da mulher que queriam que eu fosse. Minha companheira, meu amor, minha amiga, minha professora e minha juíza ao longo desta aventura se chama Jornalismo. Ele me deu países, conflitos, guerras, choques, perdas e, sobretudo, encontros. Tantos ensaios, tantas experiências que não consigo nem enumerá-los neste pequeno texto [...]. Ela é autora de obras tais como: Como una gota (1995), Un calor tan cercano (1998), Mientras vivimos (2000), Hombres de lluvia (2004), La amante en guerra (2007) e Esperadme en el cielo (2009). Veja mais aquí.

 


Imagem: O jardim das delícias (The Garden of Earthly Delights, Museu do Prado, Madrid), do pintor e gravador holandês Hieronymus Bosch (1450-1516). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Curtindo Lunário Perpétuo (2002), do artista e músico pernambucano Antonio Carlos Nóbrega. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ÉTICA A NICÔMACO - No Dia Nacional da Ética nada mais apropriado que uma leitura à obra Ética a Nicômaco (Martin Claret, 2012), do filósofo grego Aristóteles, no qual o autor investiga o tipo de saber que se pode obter acerca da conduta, levando em conta a situação concreta do homem, um ser que está acima do animal, mas que não pode ser definido apenas pela pura razão. Neste meio-termo se colocará o que se deve entender especificamente por virtude. Da obra destaco os seguintes trechos: Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas. Ora, como são muitas as ações, artes e ciências, muitos são também os seus fins: o fim da arte médica é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia é a vitória e o da economia é a riqueza. Mas quando tais artes se subordinam a uma única faculdade — assim como a selaria e as outras artes que se ocupam com os aprestos dos cavalos se incluem na arte da equitação, e esta, juntamente com todas as ações militares, na estratégia, há outras artes que também se incluem em terceiras —, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ser preferidos a todos os fins subordinados, porque estes últimos são procurados a bem dos primeiros. Não faz diferença que os fins das ações sejam as próprias atividades ou algo distinto destas, como ocorre com as ciências que acabamos de mencionar. [...] A julgar pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles, e os homens de tipo mais vulgar, parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos. Pode-se dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar, a vida política e a contemplativa. A grande maioria dos homens se mostram em tudo iguais a escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de Sardanapalo [...] Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se. e cresce graças ao ensino — por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que por natureza se move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportar-se de outra. [...] Numa palavra: as diferenças de caráter nascem de atividades semelhantes. É preciso, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porquanto da sua diferença se pode aquilatar a diferença de caracteres. E não é coisa de somenos que desde a nossa juventude nos habituemos desta ou daquela maneira. Tem, pelo contrário, imensa importância, ou melhor: tudo depende disso. [...] O mesmo acontece com a temperança, a coragem e as outras virtudes, pois o homem que a tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que não teme absolutamente nada, mas vai ao encontro de todos os perigos, torna-se temerário; e, analogamente, o que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se intemperante, enquanto o que evita todos os prazeres, como fazem os rústicos, se torna de certo modo insensível. [...] A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo. E assim, no que toca à sua substância e à definição que lhe estabelece a essência, a virtude é uma mediania; com referência ao sumo bem e ao mais justo, é, porém, um extremo. [...] Após estudar essas coisas teremos uma perspectiva mais ampla, dentro da qual talvez possamos distinguir qual é a melhor constituição, como deve ser ordenada cada uma e que leis e costumes lhe convém utilizar a fim de ser a melhor possível. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

SONETOS DE MEDITAÇÃO – O livro Sonetos de Meditação (Philobiblion, 1985) do poeta metafísico inglês John Donne (1572-1631) reúne seus sonetos divididos em duas partes Coroa de Sonetos e Sonetos Sacros, em edição bilíngue. O autor alcançou sua notabilidade por sua linguagem vibrante, metáfora engenhosa e pela expressão de um estilo realista e sensual que incluía sonetos, poesias amorosas, poemas religiosos, epigramas, elegias, canções, sermões e sátiras. Anunciação é o primeiro dos seus sonetos destacados: A salvação de quem a deseja está perto; / quem anda pelas terras que este mundo comporta, / quem não pode pecar – e os pecados suporta, / quem não pode morrer – e a morte é seu fim certo, / deixa, Virgem fiel, que Todos se acaentem / na prisão de teu ventre; e lá, embora não / possam pecar, e nem lhes dês a carne, vão / tê-la, para que a força da morte experimentem. / Nem criado era o tempo nas esferas, Senhora, / e estavas já na ideia de Deus, teu Filho, e Irmão; / Ele, a quem concebeste, te concebera, e agora, / Criadora do Criador, de teu Pai és mãe, / luz na treva, enclausuras em pequeno guardado / a imensidade toda no ventre abençoado. Natal é o segundo dos seus destacados sonetos: A imensidade toda no ventre abençoado, / Agora deixa o ventre, bem amada clausura / onde, por seu querer, se fez uma criatura / fragílima, e eis no mundo nosso Deus encarnado. / Mas, oh! Para ti, e ele, não há no albergue um pouso? / Na manhedoura estava, e vindo do Oriente, / estrela e magos põem a família ao corrente / do decreto de Herodes, general invejoso. / Minha alma, que teus olhos de fé por ele passes: / Ele enche o espaço todo, e não tem um abrigo? / Não era alta piedade dele para contigo / que lhe fosse preciso que dele te apiedasses? / Beija-o, e com ele foge para o Egito, vai, parte / com sua doce mãe, que a imensa dor reparte. Veja mais aqui, aquiaqui.

CASA DE BONECAS – O revolucionário drama em três atos Casa de bonecas (1878 - Veredas, 2007), do dramaturgo do Realismo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), é uma tragédia em que o autor questiona as convenções sociais do casamento retratando a hipocrisia e convencionalismos da sociedade do final do século XIX, causando muitas polêmicas, censura e grande repercussão entre feministas. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] HELMER Está tudo acabado! Você nunca mais vai pensar em mim, Nora? NORA Vou pensar muitas vezes em você, é claro, e nos meus filhos, e na casa. HELMER Posso lhe escrever, Nora? NORA Não! Nunca. Proibo-o de fazer isso. HELMER Ah, mas decerto posso lhe enviar algo. NORA Nada, nada. HELMER Ajudá-la, se você precisar. NORA Não, já lhe disse. Não aceito nada de estranhos. HELMER Nora... nunca passarei de um estranho para você? NORA (segurando a maleta) Ah! Torvald, para isso seria preciso o maior dos milagres. HELMER E qual seria o maior dos milagres? NORA Seria preciso transformarmo-nos os dois a tal ponto... Ah, Torvald! Já não mais acredito em milagres. HELMER Eu, porém, quero crer neles. Diga. Deveriamos nos transformar a tal ponto que... NORA ...que a nossa união se transformasse num verdadeiro casamento. Adeus. (Sai pela porta da saleta) HELMER (caindo numa cadeira junto à porta e cobrindo o rosto com as mãos) Nora! Nora! (Ergue a cabeça e olha em tomo de si) Está vazia, ela não está mais aqui! (Com um vislumbre de esperança) "O maior dos milagres!" Ouve-se, vindo de baixo, o bater do portão. Veja mais aquiaqui.

JUSTINE: AS DESGRAÇAS DA VIRTUDE – O clássico da literatura erótica Justine: as desgraças da virtude (Justine ou les Malheurs de la vertu), é uma das inesquecíveis obras do escritor francês Donatien-Alphonse-François, mais conhecido como Marquês de Sade (1840-1814), que conta a história de duas damas que se tornam vítimas da bancarrota de seus familiares e se tornam passageiras à mercê da vida. Trago esse trecho inicial da obra: A senhora condessa de Lorsange era uma dessas sacerdotisas de Vênus cuja fortuna é obra de uma figura encantadora, de muito comportamento mau e de muita trapaça, e cujos títulos, por mais pomposos que sejam, não se encontram nos arquivos de Cítera, forjados pela impertinência que lhes dá forma e mantidos pela tola incredulidade de quem os dá. Morena, muito viva, de belo corpo, olhos negros e dotados de uma expressão prodigiosa, muito espírito e, sobretudo, aquela incredulidade da moda que, dando mais chiste às paixões, faz procurar com muito mais cuidado hoje a mulher em quem julgamos encontrá-lo. Filha de grande comerciante da Rue Saint-Honoré, foi criada com uma irmã três anos mais nova que ela, num dos melhores conventos de Paris onde, até os quinze anos, nenhum conselho, mestre, bom livro ou talento lhe foi recusado. Nessa época fatal para a virtude de uma jovem, tudo lhe faltou num único dia. Uma terrível bancarrota atingiu seu pai, precipitando-o numa situação tão cruel que tudo o que pôde fazer para escapar à sorte mais sinistra foi fugir imediatamente para a Inglaterra, deixando as filhas com sua mulher que morreu de tristeza oito dias após a partida do marido. Um ou dois parentes que restavam deliberaram sobre o que se faria com as moças. O que cabia a cada uma eram cerca de cem escudos e eles decidiram abrir-lhes as portas, dar-lhes o que lhes era de direito e torná-las senhoras dos seus próprios atos. A senhora de Lorsange, que então chamava-se Juliette e cujo caráter e espírito estavam apenas quase formados de modo que, aos trinta anos, sua idade quando da história que vamos contar, pareceu impressionar-se apenas com o prazer de estar livre, sem refletir, por instante sequer, nos cruéis reveses que lhes rompiam os grilhões. Quanto à Justine, sua irmã, que apenas completava doze anos, dotada de um caráter sombrio e melancólico e de uma ternura e de uma sensibilidade surpreendentes, tendo em lugar da arte e da finura de sua irmã apenas uma ingenuidade, uma candura, uma boa fé que a fariam cair em muitas armadilhas, esta sentiu todo o horror da sua posição. O rosto desta jovem era totalmente diferente do da Juliette; o que se via de artifício, de astúcia, de coquetismo nos traços de uma, admirava-se o pudor, a delicadeza e a timidez na outra. Um ar de virgem, de grandes olhos azuis cheios de interesse, uma pele resplandecente, um corpo fino leve, um tom de voz tocante, a mais bela alma e o caráter mais doce, dentes de marfim e belos cabelos louros, este o esboço rápido de uma jovem encantadora, cujas graças ingênuas e traços delicados são de um estilo fino e delicado demais para não escapar ao pincel que gostaria de reproduzi-los. As duas receberam um prazo de vinte e quatro horas para saírem do convento, deixando os cuidados de se proverem dos seus cem escudos como bem quisessem. Juliette, encantada com a idéia de ser dona de si mesma, quis por instantes enxugar as lágrimas de Justine, mas vendo que nada conseguia, pôs-se a resmungar em vez de consolá-la, dizendo-lhe que ela era uma besta, e que com a idade e o corpo que tinham, não havia porque seguir o exemplo das jovens que morriam de fome. E falou da filha de um vizinho seu, que fugira da casa paterna e agora era faustosamente sustentada por um fazendeiro e tinha sua carruagem para passear em Paris. Justine sentiu-se horrorizada com esse exemplo pernicioso e disse que preferia morrer a segui-lo e recusou-se decididamente a aceitar morar com a irmã tão logo a viu decidida a seguir um tipo de vida abominável mas que Juliette elogiava. [...] Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

EU E MINHA MANEIRA DE SER – A poeta gaúcha de Bagé Marilene Alagia Azevedo, edita o blog Eu e Minha Maneira de Ser e reúne também seus poemas no Recanto das Letras. Da sua lavra destaco Solidão: É o corpo / É a alma / É o grito... / É o coração aflito / Febre / Que queima / O interior / Luxuria / Que nas veias tem / Que grita! / Já muito além / Fazendo ouvir / Ao longe / Chamando por seu amor / Em desespero continuo / Incendiando o ser / Fogo que faz nascer / Gemidos de prazer e dor / Em busca do seu amor / Para poder ir dormir / Desejos que faz sentir / No toque firme das mãos / Gemidos do coração / Madrugadas solidão. Também merece destaque o seu Inexplicável: Explicar/ O inexplicável / Entre o êxtase / E o gozo! / Os sonhadores / êxtases / Os normais / Gozo... / Onde as vezes repouso / Depois do extase profundo/  Onde a alma vagueia / Na silhueta amada / Onde o gozo não nota / Extasiado não está! / Gozo não perde chão / Gozo sabe o que faz / Gozo tem sensações / Gozo... Pouca emoção / Ah! O gozo! / Gozo de ti / Gozo de mim / Pobres criaturas / Sem vida nenhuma / Apenas gozar! / Prefiro o êxtase / O que embriaga / Que arraza e acalma / Atira ao espaço / Navega nos braços / Em todos os espaços / Habita-o num todo / repousa no torso / Depois de saciar / Mas como explicar? / De as vezes precisa / Misturar / êxtase e gozo / Para se completar. / Inexplicável sentir / Transportar / Silhueta tão sua / Lhe deixa prostrada / Sem nunca tocar. Veja mais aqui.

O ANJO EXTERMINADOR – O filme O anjo exterminador (1962) dirigido pelo cineasta espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel (1900-1983), é baseado na peça Los náufragos, do escritor espanhol José Bergamin (1895-1983) e traz as influencias surrealistas que incidiram sobre a obra do autor, na historia de um grupo de burgueses criticando a superficialidade e o baixo nível intelectual e moral do mundo triste dessas pessoas, numa cena em que personagens ricamente esbanjadores se vêem trancafiados numa das salas de uma mansão após um jantar formal, tornados reféns de grades e portas imaginárias, numa postura de idiotia humana. Por isso, sou um assíduo apreciador da obra desse grande cineasta que desde a minha adolescência, tem se delineado por toda minha existência. Não posso, em nenhum momento menor que seja, deixar de aplaudir a grandiosidade de sua obra. Salve, Buñuel! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui , aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem do artista plástico pernambucano Darel Valença Lins.
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Veja mais sobre:
À procura da paternidade, A trombeta do anjo vingador de Dalton Trevisan, Vivendo com as estrelas de Duília de Mello, Lenda & Arte de Ernst Kris & Otto Kurz, a música de Cristina Braga & a pintura de Ernest Descals aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, a literatura de Hermilo Borba Filho, Estética da criação verbal de Mikhail Bakhtin, Estado de sítio de Albert Camus, a música de Luis Gonzaga & Guerra Peixe, a poesia de Stella Leonardos, o cinema de Ettore Scola & Sophia Loren, a arte de Léon Bakst & a pintura de Patrice Murciano aqui.
A música de Nando Lauria aqui.
Sonetos de Meditação de John Donne, Justine de Marquês de Sade, Ética a Nicomaco de Aristóteles, Casa de bonecas de Henrik Ibsen, a música de Antonio Carlos Nóbrega, O anjo exterminador de Luis Buñuel, a pintura de Darel Valença Lins & Hieronymus Bosch, Ética & A maneira de ser de Marilene Alagia Azevedo aqui.
O amor de Naipi & Tarobá, Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim, a literatura de Luiz Ruffato.Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a música de Vivaldi & Max Richter, a fotografia de Fernand Fonssagrives, a pintura de Fernand Léger, a arte de Regina Kotaka & Eugénia Silva aqui.
Penedo, às margens do São Francisco, O princípio da hipocrisia de Georges Bataille, a literatura de Adonias Filho, História da formação social do Brasil de Manoel Maurício de Albuquerque, a música de Bach & Rachel Podger, a arte de Marcel Duchamp, a pintura de Jaroslav Zamazal, a fotografia de Karin van der Broocke Zine Vanguard,& a arte de Kéfera Buchmann aqui.
Ela, marés de sizígia, Tratado da argumentação de Chaïm Perelman & Lucie Olbrechts-Tyteca, a poesia de Yone Giannetti Fonseca, Pensamento crítico de Walter Carnielli & Richard Epstein, Privatte Coletion de James Halperin, a música de Guilherme Arantes, Derek Van Barham & Vaudezilla, a pintura de Tom Pks Malucelli & Luciah Lopez aqui.
As olimpíadas do Big Shit Bôbras – O Big Bode, Os dragões do éden de Carl Sagan, A arte de furtar de Affonso Ávila, a música de Peter Machajdik, Microbiologia dos alimentos, Casa do Contador de História, a pintura de Brian Keeler & Gray Artus aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Vanguarda nordestina de Anchieta Fernandes, A arte poética de Walmir Ayala, Vanguarda e subdesenvolvimento de Ferreira Gullar, a música de Ira Losco, o cinema de Anna Muylaert, a arte de Michael Mapes, a pintura de Károly Lotz & Jean Dubuffet aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sexta-feira, maio 01, 2015

CHAPLIN, RODIN, BORGES, HESÍODO, VINICIUS, ZOLA, NELSON, PORTINARI, CHICO, HÉRCULES & PROJETO DE EXTENSÃO.

Imagem: Canavial, de Cândido Portinari

SALMO DA CANA (Luiz Alberto Machado)

Trabalhar a cana sempre nos olhos do amanhã
Trabalhar a cana sempre no breu da barriga
Havendo luz ou sol sempre e o adubo perfeito
Cogitando nas mãos para a cana florescer
A cana e a febre se confundem nas docas
Como canção de cambiteiros que cantam solar
O suor e a cana atravessada no peito
Como tortura de sangue na terra de ninguém
A casa e a cana divisam seu sonho
Transformam a fome em nó de espingarda
O trabalho perfeito justinho nas sementes
Que floram no verde de sangue escondido
Trabalhar a cana sempre nos olhos do amanhã
Enquanto a roupa já se esqueceu de viver
O cangaço a carcaça o trabuco já se faz ofegante
Não suja a cabeça nem trai coração
Sem horizonte sem festa sem ninar
Trabalhar a cana sempre no breu da barriga
Fazendo crescer a desdita risonha
De quem nem na cana pega pra chupar
Trabalhar a cana esmolando um sorriso
À beira da penúria de quem já se foi
Enterrado entre a cana e o bocejo
Trabalhar a cana sempre nos olhos do amanhã
Ilhando a cidade o ventre e o coração
O lacre dos sinos de ventos felizes
São campos de ares senis
A cana. E o ventre já não se refaz
A cara a mesma a cana a mesma
O sol o mesmo a luz e o luar
Somente a cana não pode mudar.
(Veja mais aqui, aquiaqui e aqui)

Imagem: a escultura A Porta do Inferno - em gesso. 576 x 380 x 130 cm, (séculos XIX-XX). Museu Rodin, Paris, do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

Ouvindo a antológica Construção & todo premiado álbum duplo Chico ao Vivo (1999, disco de ouro) de Chico Buarque. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


OS DOZE TRABALHOS – O poema épico Heracleia (600-aC), do escritor Peisândro de Rodes, conta uma série de episódios que submeteu o herói grego Hércules ou Herácles à penitência na realização de um ciclo de doze trabalhos para Eristeu, representante de Hera – também descritos nas métopes do Templo de Zeus, em Olímpia. Conta que Hércules, filho de Zeus e da princesa de Alcmena, era odiado por Hera, irmã e esposa de Zeus. Quando o herói casou-se com a princesa tebana Mégara, a deusa por causa disso, fez com que ele enlouquecesse e ateasse fogo em sua casa, matando mulher e filhos. Recuperando a razão, foi ter com o oráculo de Delfos, no qual tomou ciência de que ele deveria servir ao seu primo Eristeu, o rei de Argos, na realização de doze trabalhos. O primeiro deles, consistiu em matar o leão de Nemeia, com o qual ele passou a usar como armadura a pele resistente do leão. O segundo, matar a serpente de sete cabeças venenosas, a Hidra de Lerna, queimando seis das suas cabeças e enterrando a que era imortal, como também usando do veneno para as suas flechas. O terceiro era capturar o javali de Erimanto. O quarto, capturar a corsa de Cerinéia, que tinha os cascos de bronze e os chifres de ouro. O quinto, expulsar as aves do lago Estinfale, na Arcádia. O sexto, limpar os estábulos do rei Augias, da Élida, em um só dia, vez que os mesmos estavam muito sujos, tendo o herói de desviar o curso de dois rios para passarem por dentro deles para realização desse trabalho. O sétimo, capturar o touro selvagem de Minos, rei dos cretenses. O oitavo, capturar os cavalos devoradores de homens do rei Diomedes da Trácia, matando esse rei e distribuindo sua carne aos cavalos. O nono, obter o cinto de Hipólita, rainha das Amazonas, as mulheres guerreiras. O décimo, buscar o gado do monstro Gerião, que vivia além das colunas do Estreito de Gibraltar. O décimo primeiro, levar as maçãs de ouro – os frutos da Árvore da Vida - do jardim das Hespérides para Eristeu. E o décimo segundo, capturar Cérbero, o cão de três cabeças que representava a morte e que guardava o Hades, e mostrá-lo a Eristeu. Com a realização dos três últimos trabalhos, ele alcançou a imortalidade. Certa feita, em viagem com a sua esposa Dejanira, permitiu que o centauro Nesso a carregasse na travessia de um rio; nessa travessia, o centauro tentou violentá-la, levando Hércules a mata-lo com uma flecha envenada e, morrendo avisou Dejanira que guardasse seu sangue como filtro do amor. Assim ela o fez. Tempos depois, o herói apaixonou-se por uma prisioneira de nome Iole, provocando ciúmes na esposa que depositou uma túnica no sengue de Nesso e deu-lhe para vestir, queimando a sua carne, o que o levou a solicitar dos amigos que o colocasse numa pira funerária, sendo, pois carbonizado e levado para a morada dos deuses, o Olimpo (fonte: GRIMAL, Pierre. A mitologia grega. São Paulo: Brasiliense,1987). Veja mais aquiaqui.

OS TRABALHOS E OS DIAS – O poema épico Os trabalhos e os dias (Segesta, 2012), do poeta oral grego Hesíodo que viveu entre os anos 750-650aC., em seus oitocentos e vinte e oito versos trata do mundo dos mortais e sua organização sob os temas do trabalho e da justiça, enfocando o período clássico da Grécia Antiga. Destaco na obra o trecho Uma ética do trabalho: Eu falarei com a melhor das intenções, ó Perses, grande tolo: miséria aos montes te é possível tomar facilmente: plano é o caminho, e ela mora bem perto. Mas na frente da prosperidade colocaram o suor os deuses imortais, e longa e íngreme é a estrada para ela, e espinhosa no início; quando chega-se ao alto, em seguida já é fácil, por difícil que seja. Este é o homem de todo excelente: quem tudo compreende por si só, pensando no futuro e nas coisas que levam a um fim melhor.Também é nobre quem é convencido por quem diz boas coisas; mas quem nem compreende por si só nem, ouvindo a outro, coloca no espírito seus conselhos, esse é um homem inútil. Mas tu, sempre lembrado do meu conselho, trabalha, Perses, ó divina prole, para que a Fome te odeie, e te ame Deméter de bela coroa, a venerável, e encha o teu celeiro de alimento. A Fome é em tudo a companheira do homem ocioso; deuses e homens se indignam com quem ocioso vive, semelhante em caráter aos zangões sem ferrão, que consomem o esforço das abelhas, ociosos a comer; para ti seja caro organizar os trabalhos regrados, de modo que os teus celeiros se encham de alimento no tempo certo. Com trabalho os homens tornam-se ricos em rebanhos e opulentos, e trabalhando serás muito mais querido dos imortais e dos mortais: muito eles odeiam os ociosos. O trabalho não é nenhuma desonra; desonra é não trabalhar. E se trabalhares, logo o ocioso procurará igualar tua riqueza: ao rico acompanham mérito e prestígio. Qualquer que seja tua fortuna, trabalhar é preferível, se o teu louco espírito dos bens alheios desvias para o trabalho e atentas para a subsistência, como te ordeno. A vergonha não é boa para cuidar de um homem necessitado, a vergonha, que aos homens muito prejudica e beneficia: a vergonha liga-se à pobreza tal como a audácia à prosperidade. Bens não são para roubar: os presentes dos deuses são bem melhores. Pois se alguém pela força do braço grande fortuna conquista, ou a arrebata pela língua, coisas que muitas vezes acontecem, toda vez que a cobiça engana a inteligência dos humanos, e a Impudência expulsa a Reverência, facilmente os deuses enfraquecem tal homem e rebaixam sua casa, e a prosperidade o acompanha por pouco tempo. O mesmo acontece a quem maltratar um suplicante ou um hóspede, ou subir à cama de seu próprio irmão para os abraços clandestinos da esposa deste, ato sem cabimento, ou quem impensadamente ofender teus filhos órfãos, ou quem ao pai idoso no malvado limiar da velhice injuriar, dirigindo-se a ele com palavras duras. Contra eles indigna-se o próprio Zeus, e no fim dá uma dura resposta às ações injustas. Tu, porém, delas afasta por completo o louco espírito. De acordo com tua capacidade faz sacrifícios aos deuses imortais de modo limpo e puro, e queima brilhantes coxas; outras vezes torna-os favoráveis com libações e incenso, tanto ao te deitares como quando a sagrada luz do dia chegar, de forma que eles tenham coração e espírito para ti favoráveis, e tu compres a gleba dos outros, não os outros a tua [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaquiaqui e aqui.

GERMINAL – O romance Germinal (1885 - Abril, 1979), é o décimo terceiro volume da série Les Rougon-Macquart, do escritor do Naturalismo francês Émile Zola (1840-1902), narra a greve provocada pelos trabalhadores das extrações minerais pela redução dos salários e condições de vida nos agrupamentos de trabalho, descrevendo o princípio da organização política e sindical da classe operaria. Da obra destaco os trechos: Na planície rasa, sob a noite sem estrelas, de uma escuridão e espessura de tinta, um homem caminhava sozinho pela estrada real que vai de Marchiennes a Montsou, dez quilômetros retos de calçamento cortando os campos de beterraba. A sua frente, não enxergava nem mesmo o solo negro e somente sentia o imenso horizonte achatado através do sopro do vento de março, rajadas largas como sobre um mar, geladas por terem varrido léguas de pântanos e terras nuas. Nem sombra de árvore manchava o céu; a estrada desenrolava-se reta como um quebra-mar em meio à cerração ofuscante das trevas[...] E, sob seus pés, continuavam as batidas cavas, obstinadas, das picaretas. Todos os companheiros estavam lá no fundo; ouvia-os seguindo-o a cada passo. Não era a mulher de Maheu sob aquele canteiro de beterrabas, curvada, com uma respiração que chegava até ele tão rouca, fazendo acompanhamento ao ruído do ventilador? A esquerda, à direita, mais adiante, julgava reconhecer outros, sob os trigais, as cercas vivas, as árvores novas. Agora, em pleno céu, o sol de abril brilhava em toda a sua glória, aquecendo a terra que germinava. Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grande beijo. E ainda, cada vez mais distintamente como se estivessem mais próximos da superfície, os companheiros cavavam. Sob os raios chamejantes do astro rei, naquela manhã de juventude, era daquele rumor que o campo estava cheio. Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.



O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO – O poema O operário em construção (Rio de Janeiro, 1959), do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980), traz a narrativa do cotidiano de um operário da construção civil que não percebe a importância do seu trabalho para a sociedade, expondo a necessidade de tomada de consciência social na função produtiva social e da percepção das condições de vida: Era ele que erguia casas / Onde antes só havia chão. / Como um pássaro sem asas / Ele subia com as asas / Que lhe brotavam da mão./ Mas tudo desconhecia / De sua grande missão: / Não sabia por exemplo/ Que a casa de um homem e' um templo / Um templo sem religião / Como tampouco sabia ;/ Que a casa quer ele fazia/ Sendo a sua liberdade / Era a sua escravidão./ De fato como podia / Um operário em construção / Compreender porque um tijolo / Valia mais do que um pão? / Tijolos ele empilhava / Com pá, cimento e esquadria / Quanto ao pão, ele o comia / Mas fosse comer tijolo! / E assim o operário ia / Com suor e com cimento / Erguendo uma casa aqui / Adiante um apartamento / Alem uma igreja, à frente / Um quartel e uma prisão: / Prisão de que sofreria / Não fosse eventualmente / Um operário em construção. / Mas ele desconhecia / Esse fato extraordinário: / Que o operário faz a coisa / E a coisa faz o operário. / De forma que, certo dia / `A mesa, ao cortar o pão / O operário foi tomado / De uma súbita emoção / Ao constatar assombrado / Que tudo naquela mesa / - Garrafa, prato, facão / Era ele quem fazia / Ele, um humilde operário / Um operário em construção. / Olhou em torno: a gamela / Banco, enxerga, caldeirão / Vidro, parede, janela / Casa, cidade, nação! / Tudo, tudo o que existia / Era ele quem os fazia / Ele, um humilde operário / Um operário que sabia / Exercer a profissão. / Ah, homens de pensamento / Não sabereis nunca o quanto / Aquele humilde operário / Soube naquele momento / Naquela casa vazia / Que ele mesmo levantara / Um mundo novo nascia / De que sequer suspeitava. / O operário emocionado / Olhou sua propria mão / Sua rude mão de operário / De operário em construção / E olhando bem para ela / Teve um segundo a impressão / De que não havia no mundo / Coisa que fosse mais bela. / Foi dentro dessa compreensão / Desse instante solitário / Que, tal sua construção / Cresceu tambem o operário / Cresceu em alto e profundo / Em largo e no coração / E como tudo que cresce / Ele nao cresceu em vão / Pois alem do que sabia / - Exercer a profissão - / O operário adquiriu / Uma nova dimensão: / A dimensão da poesia. / E um fato novo se viu / Que a todos admirava: / O que o operário dizia / Outro operário escutava. / E foi assim que o operário / Do edificio em construção / Que sempre dizia "sim" / Começam a dizer "não" / E aprendeu a notar coisas / A que não dava atenção: / Notou que sua marmita / Era o prato do patrão / Que sua cerveja preta / Era o uisque do patrão / Que seu macacão de zuarte / Era o terno do patrão / Que o casebre onde morava / Era a mansão do patrão / Que seus dois pés andarilhos / Eram as rodas do patrão / Que a dureza do seu dia / Era a noite do patrão / Que sua imensa fadiga / Era amiga do patrão. / E o operário disse: Não! / E o operário fez-se forte / Na sua resolução / Como era de se esperar / As bocas da delação / Começaram a dizer coisas / Aos ouvidos do patrão / Mas o patrão não queria / Nenhuma preocupação. / - "Convençam-no" do contrário / Disse ele sobre o operário / E ao dizer isto sorria. / Dia seguinte o operário / Ao sair da construção / Viu-se subito cercado / Dos homens da delação / E sofreu por destinado / Sua primeira agressão / Teve seu rosto cuspido / Teve seu braço quebrado / Mas quando foi perguntado / O operário disse: Não! / Em vão sofrera o operário / Sua primeira agressão / Muitas outras seguiram / Muitas outras seguirão / Porem, por imprescindivel / Ao edificio em construção / Seu trabalho prosseguia / E todo o seu sofrimento / Misturava-se ao cimento / Da construção que crescia. / Sentindo que a violência / Não dobraria o operário / Um dia tentou o patrão / Dobra-lo de modo contrário / De sorte que o foi levando / Ao alto da construção / E num momento de tempo / Mostrou-lhe toda a região / E apontando-a ao operário / Fez-lhe esta declaração: / - Dar-te-ei todo esse poder / E a sua satisfação / Porque a mim me foi entregue / E dou-o a quem quiser. / Dou-te tempo de lazer / Dou-te tempo de mulher / Portanto, tudo o que ver / Será teu se me adorares / E, ainda mais, se abandonares / O que te faz dizer não. / Disse e fitou o operário / Que olhava e refletia / Mas o que via o operário / O patrão nunca veria / O operário via casas / E dentro das estruturas / Via coisas, objetos / Produtos, manufaturas. / Via tudo o que fazia / O lucro do seu patrão / E em cada coisa que via / Misteriosamente havia / A marca de sua mão. / E o operário disse: Não! / - Loucura! - gritou o patrão / Nao vês o que te dou eu? / - Mentira! - disse o operário / Não podes dar-me o que é meu. / E um grande silêncio fez-se / Dentro do seu coração / Um silêncio de martirios / Um silêncio de prisão. / Um silêncio povoado / De pedidos de perdão / Um silencio apavorado / Com o medo em solidão / Um silêncio de torturas / E gritos de maldição / Um silêncio de fraturas / A se arratarem no chão / E o operário ouviu a voz / De todos os seus irmãos / Os seus irmãos que morreram / Por outros que viverão / Uma esperança sincera / Cresceu no seu coração / E dentro da tarde mansa / Agigantou-se a razão / De um homem pobre e esquecido / Razão porem que fizera / Em operário construido / O operário em construção. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


INFÂNCIA, IMAGEM & LITERATURA – Realizou-se nesta quinta, 30 de abril, mais uma reunião ordinária do Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, realizado pelos graduandos dos cursos de Psicologia, Jornalismo e Publicidade do Centro Universitário Cesmac, sob a coordenação do Professor Ms Cláudio Jorge Gomes de Morais. Veja detalhes aqui.

INFORME DE BRODIE – O livro O informe de Brodie (Globo, 1976), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), traz onze narrativas em que predominam os temas tema da religião da coragem, do culto do valor desinteressado e da perspectiva do fantástico como ressonância que ultrapassam a mera realidade. Da obra destaco a narrativa homônima, na tradução do escritor Hermilo Borba Filho: [...] da região infestada pelos homens-macacos (Apemen) têm sua morada os Mlch, que chamarei Yahoos, para que meus leitores não esqueçam sua natureza bestial e porque uma transliteração exata é quase impossível, dada a ausência de vogais em sua áspera linguagem [...] Outro costume da tribo são os poetas. Ocorre a um homem ordenar seis ou sete palavras, geralmente enigmáticas. Não se pode conter e grita-as, de pé, no centro de um circulo que formam, estendidos por terra, os feiticeiros e a plebe. Se o poema não excita, nada acontece, mas se as palavras do poeta os comovem, todos se separam dele, em silêncio, sob o mando de um horror sagrado (under a holy dread). Sentem que o espírito o tocou; ninguém falará com ele nem o olhará, nem mesmo a sua mãe. Já não é um homem mas um deus e qualquer um pode mata-lo. O poeta, se puder, buscará refúgio nos areais do Norte [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA – A peça teatral Toda nudez será castigada (1966), do escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues (1912-1980), traz a história de viúvo que pertence a uma família conservadora de beatas e que recebe pedido do filho órfão de um juramento de nunca mais casar-se, quando, apresentado pelo irmão insolvente, é apresentado a uma prostituta porque se apaixona perdidamente e, consequentemente, se casa. No seio da família, a esposa passa se envolver com o enteado que deseja acabar com o casamento do pai para manter uma relação livre com a madrasta. A obra foi adapatada para o cinema em 1972, pelo cineasta Arnaldo Jabor, com música composta por Astor Piazzolla, sendo premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim, dois Kikitos – melhor filme, melhor atriz e menção especial pela trilha sonora – no Festival de Gramado, ambos em 1973, e, também, a melhor cenografia no Troféu APCA de 1974. Destaque meritório de aplausos para a atriz Darlene Glória interpretando o papel da Geni, protagonista da história. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui

TEMPOS MODERNOS – O filme Modern Times (Tempos Modernos, 1936), do ator, diretor, escritor, comediante, músico, roteirista e compositor britânico Charlie Chaplin (1889-1977), no qual ele atuou, dirigiu, escreveu o roteiro e musicou, traz o personagem Carlito, o vagabundo - notabilizado pelo cinema mudo com uso de mímica e da comédia pastelão -, na tentativa de sobreviver em um mundo industrializado e moderno, fazendo uma crítica forte ao capitalismo, ao stalinismo, ao nazifascimos, ao fordismo e ao imperialismo, além de uma crítica aos maus tratos impostos aos empregados durante a Revolução Industrial, tornando-se um escravo que é substituído pela máquina, vitimando-se por um colapso nervoso. O momento mais singelo do filme é o surgimento do amor do vagabundo pela menina de rua órfã que se encontra realizando pequenos furtos para sobreviver e é perseguida pela polícia para adoção. Imperdível. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 A charge de As aventuras do homem assalariado, uma foto da mulher no trabalho & Carnival of human bondage de Magda Mraz. Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
Mãe é mãe & Deus proteja a minha, a sua, a nossa & o da mãe-joana & e das mães (do guarda, do juiz de futebol e dos políticos) que são coitadas!, Inteligência emocional de John Gottman, o teatro de Máximo Gorki, a poesia de Jorge Tufic, a música de Caetano Veloso, Travessuras de mãe de Denise Fraga, a arte de Luciah Lopez , a pintura de Gustav Klimt & Lena Gal aqui.

E mais:
A literatura de Aníbal Machado, Teoria da alienação de István Mészarós, Semiologia da representação de André Helbo, o cinema de Roberto Rossellini & Anna Magnani, a música de Keith Jarret, Erótica pornográfica de J. J. Sobral, a pintura de Jean-Léon Gérome.& Almeida Junior aqui.
Direitos humanos fundamentais aqui.
A arte de Dhara - Maria Alzira Barros aqui.
Exercício de admiração de Emil Cioran. Abril despedaçado de Ismail Kadaré, O teatro de arte de Meyerhold, Fridha Khalo, A música de Badi Assad, A pintura de Karel Appel, Carlota Joaquina & Clube Caiubi de Compositores aqui.
Brincarte do Nitolino, Tratado lógico-filosófico de Ludwig Wittgenstein, o teatro futurista de Filippo Marinetti, a literatura de Azar Nafisi, a música de Nelson Freire, a pintura de Eugène Delacroix, Augustine de Charcot, a arte de SoKo, a fotografia de John De Mirjian, a cangaceira Dadá & O eco da trombeta de Maria Iraci Leal aqui.
A sina de Agar, A nascente de Ayn Rand, o teatro de Jean-Louis Barrault, Mundos oscilantes de Adalgisa Nery, a literatura de Anita Loos, a música de Cláudia Riccitelli & The Bossa Nova exciting Jazz Samba Rhythms, a pintura de Jose Gutierrez de la Vega & Amor como princípio de Delasnieve Daspet aqui.
Canto de circo de Osman Lins, a arte de Paul Éluard, a música de Paulo César Pinheiro, o teatro de Adolphe Appia, a poesia de Alberto de Oliveira, o cinema de Pedro Almodóvar & Penélope Cruz, a pintura de Francesco Hayez & José Malhoa, A travessia poética de Valéria Pisauro & Programa Tataritaritatá aqui.
Três poemas & a dança revelou o amor... aqui.
A dança dos meninos, a poesia de Manuel Bandeira & João Cabral de Melo Neto, A dançarina de Yasunari Kawabata, A dança poética de Amiri Baraka, A dançarina do Kama Sutra de Kama Sutra, de Vatsyayana, a música de Isabel Soveral & António Chagas Rosa, a pintura de Jose Manuel Abraham, Pas de Deux & a fotografia de M. Richard Kirstel, Dança Alagoas & Ary Buarque aqui.
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O dono da razão, a poesia de Murilo Mendes, Identidade e etnia de Carlos Rodrigues Brandão, Fundamentos da educação de Maria Sérgio Michaliszyn, a pintura de Mônica Alves Torres & Jules Pascin, a arte de Francisco Zúñiga & a música de Ju Martins aqui.
Não era pra ser, nem foi, Entre a vida e a morte de Nathalie Sarraute, a música de Galina Ustvolskaya, a fotografia de Takashi Aman, o ativismo de Emmeline Parnkhurst, o cinema de Sarah Gravon & Carey Mulligan, a gravura de Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, a arte de Paul-Émile Chabas & Carlos Alberto Santos aqui.
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Eita! Vou por ali no que vem e que vai, a literatura de Ítalo Calvino, Os tempos da Praieira de Costa Porto, a poesia de Louise Glück, Neurofilosofia & Neurociências, a música de Edson Zampronha, Betina Muller & Mike Edwards, a arte de Laszlo Moholy-Nagy & Anke Catesby aqui.
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