terça-feira, março 05, 2024

BIRGITTA JÓNSDÓTTIR, TERRY EAGLETON, JASON STANLEY & O CORONEL DE MACAMBIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do show Brasilidades, do grupo Octeto Feminino do Brasil, criado em 2020, por iniciativa da trompista Paula Graziele Guimarães, e formado por trompistas de quatro estados brasileiros: Paula de Campos, Tayanne Sepulveda, Amanda Vieira, Tamires Kamisaka e Jessica Alves (SP), Isabelle Menegasse (RJ), Paula Guimarães (BA) e Jaqueline Louzada (PA).

 

HOJE DE TANTOS ONTENS & QUASE NENHUM AGORAMANHÃ... - Era terça-feira e Jajá saíra para trabalhar. No trajeto, ao cruzar com a algazarra da criançada escolar, lembrou-se dos tempos das travessuras infantis pelo Jaraguá, das timbungadas nas ondas da Jatiúca, das traquinagens juvenis na Ponta Verde, das bebericagens na Pajuçara, ah, ali era o paraíso, o melhor lugar do mundo. Madurava encantado até o dia em que já taludo, quase homem feito, leu Dora Marsden: A vida é festa e conflito: esse é o seu entusiasmo... Firmou seu jeito e não endureceu o coração diante das coisas desagradáveis que testemunhou. Tomou partido pelo que achava certo e, de certa forma, reiterava Miriam Makeba: Eu apenas digo ao mundo a verdade. E se a minha verdade então se torna política, não posso fazer nada sobre isso... Ah, santa Mama África! Assim o fez e era assim mesmo que militava no expediente d’A Voz do Povo, enfrentando oligarquias e prisões, atentados, retaliações e humilhações. Segurou firme e não se dobrou. Destemido, cassado, peregrinou na clandestinidade. E virou coisa que muita gente esqueceu ou prefere não lembrar, se escondendo atrás do medo e emulando chacotas, quando, na verdade é o que é de memória para uso diário. Na vera, ele teve a coragem da vida para viver, como se repetisse Nelly Arcan: Eu nunca consenti com este corpo que fui acusado de arrastar até minha morte... Não fosse isso, sim, Jajá teria reaparecido. Sim, porque era mesmo terça-feira, saiu do Catumbi e nunca chegou ao trabalho, nem jamais foi visto. Ouviu-se que ele foi capturado por estranhos e lançado ao mar a 200 milhas da costa. Como assim? Outros corrigiam que ele fora incinerado numa caldeira duma usina de cana-de-açúcar. Não pode! Engrossando a confusão teve quem asseverasse mesmo que foi morto, esquartejado e jogado num rio de Avaré. Que confusão! Ninguém sabia, qualquer um estava sujeito às emboscadas, chacinas, restos nas valas de Perus para familiares contarem os mortos, como ainda hoje. O fato é que ele saiu de casa para trabalhar e desapareceu – documentos queimados para quem foi destruído e sabia lá mais quem era, já havia perdido tudo de si e sem ninguém. Ao ouvir a conversa, uma jovem curiosa: Afinal, quem é Jajá? Jayme Amorim Miranda (1926-1975). Ah, pensei que fosse algum conhecido! E saiu com o desdém de quem teimava olvidar das lições deontem e de hoje. Tortura nunca mais! Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O CAMALEÃO - Sou uma bruxa do destino \ sem roca. \ Sou um soldado com um coração mole. \ Sou uma senhora vagabunda\ com uma casa de caracol nas costas. \ Sou um piloto sem asas. \ Eu sou um elfo espacial no planeta Terra. \ Eu sou a prostituta dos seus pensamentos. \ Eu sou a deusa que surge do oceano espumante\ na concha dos seus sonhos. \ Eu sou o camaleão,\ derreto-me na imagem\ com a mesma facilidade com que uma gota de água doce\ se mistura com água salgada.\

O POEMA DA AVENTURA - Nas profundezas da montanha \ as aventuras se escondem. \ Eles são de todas as formas e feitios. \ Todos têm um final excelente,\ pois quem vive a vida em aventura\ vê o mundo de uma forma extraordinariamente especial. \ Para atrair as aventuras para os padrões do hábito\ basta fechar os olhos\ e pedir que te abracem. \ Você também pode imaginar que é transparente\ e sente o vento fluindo através de você\ em vez de ir contra você. \ Ou imagine que há pequenas asas nas suas costas\ e cada vez que você dá um novo passo você salta um pouco. \ Talvez a própria vida seja uma grande aventura\ se você usar os óculos de sol corretos.

Poemas da escritora, artista, editora e ativista islandesa Birgitta Jónsdóttir.

 

COMO LER LITERATURA - [...] Vivemos em um mundo em que não há nada que não possa ser narrado, mas também nada que precise ser narrado. [...] Gostamos de pensar nos indivíduos como únicos. No entanto, se isto for verdade para todos, então todos partilhamos a mesma qualidade, nomeadamente a nossa singularidade. O que temos em comum é o fato de sermos todos incomuns. Todo mundo é especial, o que significa que ninguém é. A verdade, porém, é que os seres humanos são incomuns apenas até certo ponto. Não existem qualidades que sejam peculiares a uma pessoa sozinha. Lamentavelmente, não poderia haver um mundo em que apenas um indivíduo fosse irascível, vingativo ou letalmente agressivo. Isto ocorre porque os seres humanos não são fundamentalmente tão diferentes uns dos outros, uma verdade que os pós-modernistas relutam em admitir. Temos muitas coisas em comum simplesmente pelo fato de sermos humanos, e isso é revelado pelos vocabulários que temos para discutir o caráter humano. Compartilhamos até mesmo os processos sociais pelos quais nos individualizamos. [...] O prazer é mais subjetivo do que a avaliação. Se você prefere pêssegos a peras é uma questão de gosto, o que não é verdade se você considera Dostoiévski um romancista mais talentoso do que John Grisham. Dostoiévski é melhor que Grisham no sentido de que Tiger Woods é um jogador de golfe melhor que Lady Gaga. [...] O teatro pode nos ensinar alguma verdade, mas é a verdade da natureza ilusória da nossa existência. Pode alertar-nos para a qualidade onírica das nossas vidas, a sua brevidade, mutabilidade e falta de bases sólidas. Como tal, ao lembrar-nos da nossa mortalidade, pode fomentar em nós a virtude da humildade. [...] O artístico está, portanto, muito próximo do ético. Se ao menos pudéssemos compreender o mundo do ponto de vista de outra pessoa, teríamos uma noção mais completa de como e por que ela age daquela maneira. Estaríamos, portanto, menos inclinados a censurá-los de algum ponto de vista externo altivo. Compreender é perdoar. [...] As obras literárias são peças de retórica e também de relatórios. Eles exigem um tipo de leitura peculiarmente vigilante, que esteja alerta ao tom, ao humor, ao ritmo, ao gênero, à sintaxe, à gramática, à textura, ao ritmo, à estrutura narrativa, à pontuação, à ambiguidade – na verdade, a tudo o que está sob o título de “forma”. [...] O erro mais comum que os estudantes de literatura cometem é ir direto ao que diz o poema ou romance, deixando de lado a forma como o diz. Ler assim é deixar de lado a “literariedade” da obra – o fato de ser um poema, uma peça ou um romance, em vez de um relato da incidência da erosão do solo em Nebraska [...] Se nos inspirarmos apenas na literatura que reflete os nossos próprios interesses, toda leitura se torna uma forma de narcisismo. [...] Arranhe um estudante e você encontrará um selvagem. [...]. Trechos extraídos da obra How to Read Literature (Yale University Press, 2014), do filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

COMO FUNCIONA O FASCISMO – [...] A política fascista invoca um passado mítico puro, tragicamente destruído. Dependendo de como a nação é definida, o passado mítico pode ser religiosamente puro, racialmente puro, culturalmente puro ou todas as opções acima. [...] A política fascista pode desumanizar grupos minoritários mesmo quando não surge um estado explicitamente fascista. [...] Na política fascista, as mulheres que não se enquadram nos papéis tradicionais de gênero, os não-brancos, os homossexuais, os imigrantes, os “cosmopolitas decadentes”, aqueles que não têm a religião dominante, são, na sua própria existência, violações da lei e da ordem. Ao descrever os negros americanos como uma ameaça à lei e à ordem, os demagogos nos Estados Unidos conseguiram criar um forte sentido de identidade nacional branca que requer protecção contra a “ameaça” dos não-brancos. [...] Os perigos da política fascista advêm da forma particular como desumaniza segmentos da população. Ao excluir estes grupos, limita a capacidade de empatia entre outros cidadãos, levando à justificação de tratamentos desumanos, desde a repressão da liberdade, prisão em massa e expulsão até, em casos extremos, o extermínio em massa. [...] Os nazistas acreditavam que o movimento das mulheres fazia parte de uma conspiração judaica internacional para subverter a família alemã e, assim, destruir a raça alemã. O movimento, afirmava, estava a encorajar as mulheres a afirmar a sua independência económica e a negligenciar a sua tarefa adequada de produzir filhos. Estava espalhando as doutrinas femininas do pacifismo, da democracia e do “materialismo”. Ao encorajar a contracepção e o aborto e, assim, reduzir a taxa de natalidade, estava a atacar a própria existência do povo alemão. [...] A política fascista não conduz necessariamente a um Estado explicitamente fascista, mas mesmo assim é perigosa. A política fascista inclui muitas estratégias distintas: o passado mítico, a propaganda, o anti-intelectualismo, a irrealidade, a hierarquia, a vitimização, a lei e a ordem, a ansiedade sexual, os apelos ao coração e o desmantelamento do bem-estar público e da unidade. [...] Para o fascista, as escolas e universidades existem para doutrinar o orgulho nacional ou racial, transmitindo, por exemplo (onde o nacionalismo é racializado) as conquistas gloriosas da raça dominante. [...] a política fascista cria um estado de irrealidade, em que teorias da conspiração e notícias falsas substituem o debate fundamentado. [...]. Trechos extraídos da obra How Fascism Works: The Politics of Us and Them (Random House, 2018), do filósofo Jason Stanley. Veja mais aqui.

 

O CORONEL DE MACAMBIRA

[...] Viva! \ Ora viva! \ A aeromoça do céu! \ A aeromoça do céu \ tem as asas da esperança \ de um futuro que há de vir! \ Viva! [...].

Trecho extraído da peça teatral O coronel de Macambira – poesias com palavras incompletas (FCCR, 2005), do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). Veja mais aqui e aqui.

 

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terça-feira, fevereiro 27, 2024

OLGA RAVN, MARIANNE VAN HIRTUM, JAMES CLEAR & BABAU DA MÃO MOLENGA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Der Freischütz J277: Overture (1997), da maestrina e compositora australiana Simone Young, regendo a NHK Symphony Orchestra.

 

SE DEU NÓ CEGO, VAMBORA DESATAR!... - Raiou o dia e quem saiu de casa guardou a direção do aceno. Outras são as instâncias do coração se não souber aonde vai dar o trajeto, qual lonjura de cafundó ou rincão. De uma hora pra outra perder-se é quase possível, nunca se sabe, nem sei quando, plagas outras à escolha. E a opção, mesmo muita, só uma. Voltar, refazer, outras alternativas pro tino. O que poderia ser não fazia a menor ideia: a vida nem sempre corre conforme pensa, às vezes passa sem noção. E o encontro, mais imprevisível. Assim a bela Senhora de Catuama, do alto de sua majestosa incandescência: O que é pragora não foi ontem nem amanhã, hoje se faz. A sede é grande e só resta o pó. Nó cego se desata. Trupé que seja, corre-se sempre o risco de cair na real, mesmo esvaindo-se entre golpes no perímetro da maldição ou bem-aventurança. Ainda ela Ann Leckie: A unidade implica a possibilidade de desunião. Começos implicam e exigem finais... Que cada ato seja justo, adequado e benéfico... Houvesse outro caminho, por certo, teria ido. Mas uma conversinha de pé-de-serra, clareando as ideias, não se abre facilmente a mão. Aí ela veio de Harold Pinter: Só se tem uma obrigação. Ser honesto. Não há mais nenhuma... Não existem distinções rígidas entre o que é real e o que não é, nem entre o que é verdade e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo... Nunca entendi muito essas coisas, muitas vozes no pandemônio do percurso interminável, por enquanto. Sei de muita gente que peleja sem um terém sequer, com a teima de salvar o canavial que não mais prospera há tempo, como coisas que custam enterrar e soçobram à beira da cova. Muitos recorrem à possibilidade de ter um sobrenome por ostentar, malfadada toada de uma prosa de não sei quantos pungentes versos. As dissensões trôpegas levaram às piores caretas, até quem sumítico das meias palavras desse a cara à tabica da finitude. Os antes gestos medidos sacudiram todos, arregaçaram as mangas e o despudor na ponta da língua cuspiu o diabo no meio das deshoras e cada um segurou como podia as pisadas nos calos, a repugnância e o delírio - valiam-se do que sequer possuíam. Nada a fazer, porventura fosse apenas estado de ânimo. Ela assistia a tudo e de soslaio: Bem-aventurados os que guardam mapas na planta dos pés e a minúcia na raiz do sangue. Com um meio sorriso ela era Amber Dawn: Quando este parágrafo terminar, esta história será toda sua... Deu uma gargalhada e desenvultou. Antes uma fumaça de adeus, pelo menos, mas não: sumiu que nem o cheiro ficou. Ficou a pinoia. Mantive a rota e a sina: descer Valuna e todo lugar por aqui se parece Dogville, avalie! Até mais ver.

 

NOITE MATEMÁTICA

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Enquanto meu fogo ferve, enquanto a lua beija minha porta, \ o dia rasteja, não mais circunscrito \ pelo rastro fumegante das estrelas. \ Ali! — A caixa verde na clareira dos mundos. \ Seu rosto falava sem parar, em saltos de doçura desconhecida. \ “Chegou a hora”, diz ela, “seu vestido agora está pronto”. \ Ela aponta uma grande ponte de balança: aquela mesma \ onde as cegonhas passeavam de muletas. \ Pergunto a ela se há mais temporadas. \ “Não”, ela diz, “já que você está nu na vida dos homens”. \ Mas esses soldadinhos risonhos não me importam. \ A única coisa que conta é este corpo, cujo sangue derramei \ para descobrir um ninho de abelhas vermelhas, \ todas ocupadas bebendo no rio das mulheres bêbadas. \ Aqueles que tanto amamos! \ Aqueles que são as nacelas do ar, \ semelhantes às corujas decapitadas \ cujas cabeças giram. \ Esses são chamados de anjos \ porque são tão instruídos quanto os demônios. \ O coração deles é uma flor silvestre \ com mais pétalas do que lágrimas. \ Em lágrimas – às vezes – \ ela passeia, como num barco louro. \ Sua comida é feita de moscas mortas \ que negligenciamos, esquecidos como estamos \ do importante papel da Geometria Rainha. \ Esta flor é a palavra que minha boca está prestes a dizer. \ Ou então cale-se: \ pois a fechadura da minha boca não tem chave. \ Esta chave não tem sexo, meu coração bate \ ao vê-la chegando, \ tão azul, na grande noite colorida.

II - Os grandes animais saíram pelas portas das sombras. \ Um pouco mais tarde, eles retornaram pelo portal \ de lesa-majestade. \ Um grande leão, afogado, flutuava na água açucarada. \Que silêncio sombrio nos palácios de neve! \ Do céu caía um calor negro, \ enquanto as moscas longas e pálidas nos acompanhavam \ até a noite, às vezes pegando nossas mãos. \ A almofada azul estava perdendo sangue, \ que escorria em jatos rápidos, \ a margarida lunar casando-se com uma camada de gelo. \ Cidade atravessada por inúmeros castiçais. \ Na margem do preto-violeta, \ o querido Dinossauro se espreguiça, \ puxando o lençol até a boca.

III - Achando-os muito secos, \ levamos em macas, \ em paletes, em carrinhos de mão. \ Em tudo que achamos mais suspeito \ de matéria queimada. \ Dispersámo-nos nos dois sentidos, \ mas sem esquecer a rosa do deserto: \ ela ainda está viva nos cais das algas moribundas \ onde estremece uma última papoula, \ sendo apenas o armistício de si mesma. \ Dark era o filho-chacal das florestas, \ sentado em seus quadrados de vento e grama. \ E sombrios os macacos, sentados em melancolia: \ mostraram-nos apenas as suas luvas cinzentas infalíveis.

IV - O pelo de sementes prateadas não estrela \com misturas arriscadas as cavernas \ onde o Ser de touca de dormir \ abre sua porta de troncos negros soprada pelo vento. \ Uma risada demente, um fogo azul circundado de raios de vespas \ seria o seu olho ali, oh reciprocidade que sempre te suspende \ no limiar das cavernas rejeitadas? \ De dia, o grande Lustucru, ciclâmen de gelo, carrega seus passos \ nas costas, o hospital mascarado para a festa. \ Se em sua testa você desenvolver \ uma inteligência lúcida de perdiz, \ ainda assim seus olhos ocultos perderão os pelos de amianto. \ Uma fonte mais cega que um surdo feito de resina. \ Persiga esses trens de miséria \ nos trilhos flamejantes de um beijo. \ A caverna é feita de tecido iridescente \ para quem não consegue pegá-la com os dedos do Padre Egito. \ Um fardo de feno ridículo surge \ onde nossos leões jovens não dormem. \ Aqui ninguém está com a cabeça virada para trás. \ O relógio anda muito devagar. \ Vamos morrer cada vez mais! \ Já sinto seu sabor maravilhoso \ em meus dentes distantes.

Poemas da escritora & artista surrealista belga Marianne Van Hirtum (1935-1988).

 

QUE TRABALHO É ESSE... – [...] Você provavelmente diria que é um mundo pequeno, mas não se precisar limpá-lo. [...] Eu pareço um humano e me sinto como os humanos. Eu consisto nas mesmas partes. Talvez tudo o que seja necessário seja que você altere meu status em seus documentos? É uma questão de nome? Eu poderia ser humano se você me chamasse assim? [...] Por que tenho todos esses pensamentos se o trabalho que faço é principalmente técnico? Por que tenho esses pensamentos se estou aqui principalmente para aumentar a produção? De que perspectiva esses pensamentos são produtivos? Houve um erro na atualização? Se houvesse, gostaria de ser reiniciado. [...] Aqui não voamos sob o céu, mas através de um infinito adormecido. [...] Você pode dizer o que quiser, mas eu sei que você não quer que nos tornemos também, bem, o quê? Muito humano? Muito vivo? Mas gosto de estar vivo. Eu olho para as profundezas infinitas do lado de fora das janelas panorâmicas. Eu vejo um sol. Eu queimo como o sol queima. Eu sei, sem dúvida, que sou real. Posso ter sido feito, mas agora estou me fazendo. [...] Sou humano ou humanóide? Eu fui sonhado em existir? [...] Você acha que alguém vai se lembrar de nós? Quem se lembra daqueles que nunca nasceram, mas ainda assim vivem? [...] Todos os dias, minhas mãos anseiam por cavar fundo no solo para que eu possa mergulhar em sua certeza, e a terra receba minha morte e me torne sua. [...] Eu sei, sem dúvida, que sou real. Posso ter sido feito, mas agora estou me fazendo. [...] É por isso que vim vê-lo hoje, na esperança de que possa haver alguma outra função na qual eu teria menos responsabilidade, sem ter que me relacionar com o fluxo de trabalho geral na mesma medida. Eu gostaria de ser designado para esse tipo de posição. Sei que as habilidades que me foram atribuídas não serão totalmente exploradas nesse caso, mas a dor que sinto não significa nada? Atrevo-me a sugerir que tal dor impacta a qualidade do meu trabalho e, além disso, pode influenciar negativamente o trabalho dos meus colegas. OK. Eu vejo. Então eu não teria o poder da fala? Não, eu entendo. Eu, por meio deste, consinto. Quando [...] Eu também tenho em mim palavras apagadas que deveria ter dito e já não sei mais o que significam. [...] Sou uma romã madura com sementes úmidas, cada semente é uma matança que irei realizar em algum momento futuro. Quando não tiver mais sementes dentro de mim, quando não houver mais nada além de carne, quero conhecer o homem que me criou. [...] Sou como uma planta onde tudo murchou, exceto um único broto verde que ainda está vivo, e esse broto é meu corpo e minha mente, e minha mente é como uma mão, ela toca em vez de pensar. [...] É fácil conversar com você. Parece que tudo o que eu digo está certo. Eu falo e você escreve o que eu digo. [...]. Trechos extraídos da obra The Employees: A Workplace Novel of the 22nd Century (Lolli, 2020), da premiada escritora dinamarquesa Olga Ravn. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

POR QUE FATOS NÃO MUDAM NOSSA OPINIÃO – [...] Os humanos precisam de uma visão razoavelmente precisa do mundo para sobreviver. Se o seu modelo de realidade é totalmente diferente do mundo real, então você luta para tomar medidas eficazes todos os dias. No entanto, a verdade e a precisão não são as únicas coisas que importam para a mente humana. Os humanos também parecem ter um profundo desejo de pertencer. [...] Uma vez formadas as impressões são notavelmente perseverantes. [...] Apesar de suas crenças terem sido totalmente refutadas, as pessoas não conseguem fazer as revisões apropriadas nessas crenças [...] Compreender a verdade de uma situação é importante, mas permanecer parte de uma tribo também o é. Embora esses dois desejos muitas vezes funcionem bem juntos, ocasionalmente entram em conflito. [...] Convencer alguém a mudar de ideia é, na verdade, o processo de convencê-lo a mudar de tribo. Se abandonarem as suas crenças, correm o risco de perder os laços sociais. Você não pode esperar que alguém mude de ideia se você também tirar a comunidade dele. Você tem que dar a eles um lugar para ir. Ninguém quer que sua visão de mundo seja destruída se o resultado for a solidão. A maneira de mudar a opinião das pessoas é tornar-se amigo delas, integrá-las à sua tribo, trazê-las para o seu círculo. Agora, eles podem mudar suas crenças sem correr o risco de serem abandonados socialmente. [...] Talvez não seja a diferença, mas a distância que gera o tribalismo e a hostilidade. À medida que a proximidade aumenta, também aumenta a compreensão. [...] Há outra razão pela qual as más ideias continuam a existir: as pessoas continuam a falar sobre elas. O silêncio é a morte para qualquer ideia. Uma ideia que nunca é falada ou escrita morre com quem a concebeu. As ideias só podem ser lembradas quando são repetidas. Eles só podem ser acreditados quando são repetidos. Já mencionei que as pessoas repetem ideias para sinalizar que fazem parte do mesmo grupo social. Mas aqui está um ponto crucial que a maioria das pessoas não percebe: As pessoas também repetem ideias ruins quando reclamam delas. Antes de poder criticar uma ideia, você precisa fazer referência a essa ideia. Você acaba repetindo as ideias que espera que as pessoas esqueçam – mas, é claro, as pessoas não podem esquecê-las porque você continua falando sobre elas. Quanto mais você repete uma má ideia, maior é a probabilidade de as pessoas acreditarem nela. Vamos chamar esse fenômeno de Lei da Recorrência de Clear: o número de pessoas que acreditam em uma ideia é diretamente proporcional ao número de vezes que ela foi repetida durante o último ano – mesmo que a ideia seja falsa. Cada vez que você ataca uma má ideia, você está alimentando o mesmo monstro que está tentando destruir. [...] A maioria das pessoas argumenta para vencer, não para aprender. Como diz Julia Galef com tanta propriedade: as pessoas muitas vezes agem como soldados e não como batedores. Os soldados estão no ataque intelectual, procurando derrotar as pessoas que diferem deles. A vitória é a emoção operativa. Os escoteiros, por sua vez, são como exploradores intelectuais, tentando lentamente mapear o terreno com outros. A curiosidade é a força motriz. Se quiser que as pessoas adotem suas crenças, você precisa agir mais como um batedor e menos como um soldado. No centro desta abordagem está uma questão que Tiago Forte coloca lindamente: “Você está disposto a não vencer para manter a conversa?” [...] Quando você é gentil com alguém, significa que você o está tratando como uma família. Acredito que esse seja um bom método para realmente mudar a opinião de alguém. Desenvolva uma amizade. Compartilhe uma refeição. Presenteie um livro. Seja gentil primeiro, tenha razão depois... [...]. Trechos extraídos do estudo Why Facts Don’t Change Our Minds), do escritor estadunidense James Clear, autor da obra Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones (Avery, 2018), na qual ele expressa que: [...] Os humanos são animais de rebanho. Queremos nos ajustar, nos relacionar com outras pessoas e ganhar o respeito e a aprovação de nossos colegas. Essas inclinações são essenciais para nossa sobrevivência. Durante a maior parte de nossa história evolutiva, nossos ancestrais viveram em tribos. Ficar separado da tribo - ou pior, ser expulso - era uma sentença de morte. [...]. O autor neste sentido toca em aspectos importantes que refletem sobre o fato de o porquê as pessoas não mudarem de opinião, mesmo que suas crenças contrariem os fatos, a lógica e a sensatez quando elas estão convencidas que estão certas. Explica, portanto, como dialogar com pessoas irredutíveis, especialmente que não querem ouvir, com suas crenças e certezas inabaláveis, a outra face da realidade. Ele advoga a Lei da Recorrência de Clear que significa o efeito de mera exposição, ao abordar um tema que atravessa estudos da Agnotologia e da Etupidologia. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

BABAU, DE CARLA DENISE

[...] Eu estou em todo lugar... E lugar de mamulengo é aqui na terra mesmo, pra fazer a alegria do povo [...].

Trecho extraído da obra Babau ou a história da vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte (Cubzac, 2012), da premiada jornalista, dramaturga, escritora, atriz e produtora cultural, Carla Denise, integrante do coletivo Mão Molenga Teatro de Bonecos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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terça-feira, fevereiro 20, 2024

NATALIE GOLDBERG, ANA MARÍA RODAS, HELEIETH SAFFIOTI, HOMENS & CARANGUEJOS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da Fantasia Sul América para violino solo (2022), do compositor Cláudio Santoro; do Canto dos Aroe (2021), do compositor Roberto Victorio; e Gestures – for solo violin (2022), de Arthur Kampela, todos na interpretação da premiada violinista e professora Mariana Isdebski Salles, autora dos livros Ciência na Arte - Arte na Ciência (Paka-Tatu, 2021) e Arcadas e golpes de arco (Thesaurus, 1998). Em parceria com a pianista Laís de Souza Brasil, lançou o cd Sonatas (ABM Digistal), do compositor Claudio Santoro; e, em parceria com o violoncelista Marcelo Salles, lançou o cd Mosaico (2005) e Mosaico II (2008), com peças para duo de violino e violoncelo de compositores brasileiros; e com o Deuxiéme Trio de Villa-Lobos, gravou o cd Fantasia para violino, violoncelo e piano de Franck Bridge e Trio de Michael Colina (2008). Veja mais aqui e aqui.

 

O BANQUETE & O PRECIPÍCIO (PISCAR DE OLHOS, A HESITAÇÃO E O ABISSAL)... - Quem não náufrago sobrevivente na roda-viva: apatetados metazoários, ruminantes do intelecto solitário, os Ocos de Eliot... Dá-se volta por cima até baixar a poeira porque nada se resolveu ou, se resolvido, nada deu fé. Só sortudo fora dessa! Pros do lado de cá a indagação de Lukáscs no pé do ouvido: Um estado de ânimo de permanente desespero com a situação mundial... quem nos salva da civilização ocidental?... Isso para quem nunca arregou da parada - mesmo que escorregasse pelo corredor público e desse num túnel sem saída como buraco sem fundo: tudo ruindo e o vexame diante do covil com toda contrafação no pé da venta – tem-se a impressão de que não passa de um impostor no buruçú do caos espaçado, valendo-se das sobras feito rufião aos gemidos na quase beatitude. É mesmo? Quem o faminto glutão engolindo tudo? Ah! É só deslembrar da morte esticando seus braços elásticos com as lâminas afiadas do tempo. É mesmo? Coisa besta, sai na urina. Ah, não, como escapar aos seus golpes letais, sem poder fazer nada, um gesto insólito, como dar de ombros, nada a ver, e tudo apodrecendo na chuvada da Ilha das Moscas de Golding. Sim, com Pampineia, Griselda de Vivaldi, Galeotto, meio mundo de gente, a discutir o que sobrou da Justiça, da Esperança, da Razão, levando lero da parábola dos anéis, os dedos que se foram, a ameaça da peste, da fome, dos monstros invisíveis e não sei lá o que mais, escorregando pelas dez jornadas de Boccaccio nas cenas de Pasolini. Danou-se! Leseira, sai nas coxas. Ah, tá! E do nada surgisse Anne Lamott: A esperança começa na escuridão, a teimosa esperança de que, se você simplesmente se levantar e tentar fazer a coisa certa, a manhã chegará. Você espera, observa e trabalha: você não desiste... E mais o patético escabroso das estranhas pelo intolerável soando nos tímpanos de forma ensurdecedora, inoculando o cinismo quase pueril. Como seria a morte? Ixe! Fogo pelando, água da muita, veneno cruel no que é fato e o que é valor, assim por diante - o desejável é seguir a lógica do xadrez dando conta do revogável. Vixe! Tem também o refutável e tudo o que foi violado, afora o protocolar considerado no acordo tácito, na ausência de domínio, tudo por conta de uma suposta isonomia. E é? Ousa-se, ataca-se até que um seja devidamente anulado com a última pá de cal. Aí, tá certo! E sacar Agneta Pleijel: Na batalha entre você e o mundo, fique do lado do mundo... Sacou? Dizem que o homem simples morreu na resiliência, chega dava gosto vê-lo romper a redoma e dormir com um olho só, avalie. Foi esfolado todo, quanta mofa. A desforra ficou nos galhos retorcidos da indiferença, intrusos fizeram a festa, quão leigos no ludíbrio das palavras e intenções, armadilhas sentimentais – será que vai nascer outro? A missão logo à tona, qual? Ah, o que mentem palavras, gestos e intenções, só equívocos. Nada, já dizia Péter Szondi: No seu lugar, uma época para a qual a originalidade é tudo reconhecer somente a cópia... Por pior que seja a súbita captura da esfinge há sempre a habituada potência da resposta estremecida, enganchada, exprimindo a miséria e a perigosa verdade para se salvar da tolice e ter o que bem possa merecer. É só uma primeira tábua em que possa se agarrar do insondável. Contudo, há de levar em consideração as armas em mãos inescrupulosas, a fome devorando, o monstro metendo medo, a desgraça irremediável, a sinceridade e a mentira alheia, quão falso e demasiado: o mundo saiu dos trilhos faz tempo. Mãos não se tocam, lábios não se beijam, braços não abraçam, pernas não se enroscam, pés não caminham, olhares não se veem, dengos não se procuram nem se satisfazem, corações não amam. Que raça é esta, hem? Nem sempre a união faz a força, às vezes rompe, opõe e dá num escambau cabeludo. Sobra o cuspe na cara: somos nossos próprios inimigos, uns aos outros, todos. Onde a obrigação de viver, a comida, a direção, só ódio e morte. Agora só na outra, meu. Viva! A vida é arte: vamos vidartear! Até mais ver.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

POETA - O antigo rito me possui \ Várias noites sem dormir \ depois que o rio de sangue cai \ Eu me afogo nele e renasço \ novo como uma moeda redonda \ como um sonho \ perfeito em minha dor \ lembrando apenas o suficiente do passado \ para construir a \ teia de aranha \ com a qual cubro minha cama de solteira.

EI - Novo amante: \ Quero te explicar bem que entre os seus olhos \ e os meus olhos \ só existe desejo. \Que sua pele branca às vezes escurece \ porque quem me marcou ainda está aqui. \ Gostaria de dizer seu nome e não posso \ porque quando abro a boca lembro de \ uma cama diferente, \ outros lábios bebendo meus seios. \ E quando eu choro \ e te agarro com tanta força \ eu não fico feliz, amor. \ É uma chama. II - Ok, \ estou preso, ciumento, inconstante \ e cheio de tesão \ O que você esperava? \ Que ele tinha olhos, \ glândulas, \ cérebro, trinta e três anos \ e agia \ como um cipreste no cemitério? III - Disseram que um poema \ deveria ser menos pessoal; \ Que falar de você ou de mim \ é coisa de mulher. \ O que não é sério. \ Felizmente ou infelizmente \ ainda faço o que quero. \ Talvez um dia eu use outros métodos \ e fale de forma abstrata. \ Agora só sei que se algo for dito \ deve ser sobre um assunto conhecido. \ Só sou honesto - e isso basta - \ quando falo das minhas próprias misérias e alegrias \ posso dizer que gosto de morangos, \ por exemplo, \ e que \ não gosto de algumas pessoas porque são hipócritas, cruéis \ ou simplesmente porque são estúpidas. \ Que não pedi para viver \ e que morrer não é algo que me atrai \ exceto quando estou deprimido. \ Que sou feito \ acima de tudo \ de palavras. \ Que para me expressar \ uso tinta e papel à minha maneira. \ Eu não posso evitar. \ Não importa o quanto eu tente, \ não escreverei um ensaio \ sobre a teoria dos conjuntos. \ Talvez mais tarde \ eu encontre outras formas de me expressar. \ Mas isso não importa para mim agora; \ Hoje vivo aqui e neste momento \ e sou eu \ e atuo como tal. \ De resto, lamento não ter agradado a todos. \ Acho que basta olhar para mim \ e tentar me aceitar \ com ossos, músculos, \ desejos e tristezas. \ E olhar pela porta e ver o mundo passar \ e dizer bom dia. Aqui estou eu. \ Mesmo que eles não gostem. \ Ver.

VAMOS VIVER VALÉRIA - Esqueçamos as coisas que dizem \ até aqueles que chegaram de barco \ do Adriático \ das Cíclades \ de Rodes. \Suas línguas viperinas \ , que poderiam muito bem ser melhor utilizadas em casos amorosos, \sibilaram o mal do cume do Citoro. \ Não, eles não ousam dizer seu nome, \ apenas sussurraram o meu \Sentem medo, \ são hipócritas, \ mentem com putinhas magrinhas, \ vão embora sem pagar o que é justo, que não é muito. \ Vamos viver Valéria, \ depois de milhares de anos \ haverá um poeta diferente \ que nos ensinará o nosso amor \ e criará outra Carmem \ que sonhará cheia de paixão \ Iremos longe \ Valéria \ nossa cama \ serão as estrelas.

Poemas da premiada escritora e jornalista guatemalteca Ana María Rodas. Veja mais aqui.

 

ESCREVER COM A ALMA – [...] Escreva o que te perturba, o que você teme, o que você não tem vontade de falar. Esteja disposto a ser dividido. [...] Somos importantes e nossas vidas são importantes, magníficas mesmo, e seus detalhes merecem ser registrados. É assim que os escritores devem pensar, é assim que devemos sentar-nos com a caneta na mão. Nós estávamos aqui; somos seres humanos; é assim que vivíamos. Que fique claro, a terra passou diante de nós. Nossos detalhes são importantes. Caso contrário, se não estiverem, podemos lançar uma bomba e isso não importa... Registrar os detalhes de nossas vidas é uma postura contra as bombas com sua capacidade de matar em massa, contra o excesso de velocidade e eficiência. Um escritor deve dizer sim à vida, a tudo na vida: aos copos de água, ao Kemp's meio a meio, ao ketchup no balcão. Não é tarefa do escritor dizer: “É estúpido viver numa cidade pequena ou comer num café quando se pode comer macrobióticos em casa”. A nossa tarefa é dizer um santo sim às coisas reais da nossa vida tal como elas existem – a verdade real de quem somos: vários quilos acima do peso, a rua cinzenta e fria lá fora, o enfeite de Natal na vitrine, o escritor judeu no cabine laranja em frente à amiga loira que tem filhos negros. Devemos nos tornar escritores que aceitam as coisas como elas são, passam a amar os detalhes e avançam com um sim nos lábios para que não haja mais nãos no mundo, nãos que invalidem a vida e impeçam que esses detalhes continuem. [...] Se você não tem medo das vozes dentro de você, não terá medo das críticas externas. [...] Escrevo porque estou sozinho e ando sozinho pelo mundo. Ninguém vai saber o que passou por mim... Escrevo porque há histórias que as pessoas esqueceram de contar, porque sou uma mulher tentando se destacar na minha vida... Escrevo por mágoa e como fazer magoar OK; como me fortalecer e voltar para casa, e esse pode ser o único lar verdadeiro que terei. [...] Brinque. Mergulhe no absurdo e escreva. Arrisque-se. Você terá sucesso se não tiver medo do fracasso. [...]. Trechos da obra Writing Down the Bones: Freeing the Writer Within (Shambhala, 2005), da escritora e pintora estadunidense Natalie Goldberg. Veja mais aqui.

 

A MULHER, ENFRENTANDO A VIOLÊNCIA - [...] Como isolar o conceito de gênero? Não se deve isolá-lo de seu contexto econômico, social e político. Aliás, eu utilizo cada vez menos esse conceito, porque gênero é um conceito a-político, a-histórico e bastante palatável. Tão palatável, que o Banco Mundial só financia projetos com recorte de gênero. Se fizermos referência à “ordem patriarcal de gênero”, os projetos, certamente, não serão contemplados com as verbas solicitadas. Mas o patriarcado está aí, presente em todas as relações humanas. Chegamos ao paradoxo de os homens sustentarem a existência do patriarcado e a maioria das feministas mulheres a negarem. [...] É óbvio que não existe ninguém que consiga ficar neutro diante de uma contenda. Tenho minha posição, pública e notória, mas não tenho filiação, porque não quero perder minha liberdade de pensamento. [...] Estamos entupidos de cristianismo e isso representa uma face do fundamentalismo. Odeio fundamentalismos. [...] Não há sequer uma totalidade social; mas tão somente caos. Não gosto do pensamento pós-moderno, porque é fragmentário e projeta essa fragmentação na realidade, quando, para mim, a sociedade é uma totalidade, e a crença nisso me fez progredir teoricamente. No Brasil, sou considerada a teórica feminista, o que não significa que não sei pensar em políticas públicas, nem tampouco que não existam outras estudiosas do tema, criando teorias. Estudo o tema violência com a finalidade de lançar políticas públicas para as mulheres, oferecendo-as aos governantes, cujos meios para sua implementação estão ao seu alcance. [...] Logo, não sou apenas teórica, gosto também de pensar nas práticas, embora não me vincule a nenhum movimento, mantendo muito boas relações com todos eles. Não me agrada nada, nada, esta divisão: feminismo acadêmico versus feminismo militante. No Brasil, a academia abriu, sem resistência digna de nota, suas portas à temática de gênero e, ademais, há um trânsito fácil entre acadêmicas e militantes, sem contar o fato de que muitas militantes são também acadêmicas ou, pelo menos, leem e discutem suas leituras, não sendo, por conseguinte, apenas militantes. [...] É claro que o espaço doméstico é eminentemente feminino, mas não é o espaço da privacidade. É o espaço do trabalho não reconhecido, do trabalho não pago, do trabalho doméstico. E por que razão não é o espaço da privacidade? Porque vige um regime social, político e econômico androcêntrico ou patriarcal ou viriarcal. Em outros termos, vivemos sob o patriarcado. [...] O homem cuidava da chácara, era caseiro, e a mulher era empregada doméstica. Quando ela se referia a relações sexuais com seu marido, sua linguagem relativa a seu marido era a seguinte: “quando ele quer me usar...”. Era essa a linguagem utilizada, nunca me esqueci; e já ouvi essa expressão sendo utilizada por muitas mulheres do Nordeste, que moram aqui, em São Paulo, de paulistas e de mulheres de outros recantos do país. Ou seja, elas se consideram objetos para o uso e o abuso do seu amo e senhor. [...] Hoje, já existe uma jurisprudência de cerca de mil e quinhentos casos. É, sem dúvida, importantíssima esta terceira permissiva penal para o aborto. Há muitas pessoas lutando para a aprovação da súmula vinculante, não apenas para poupar trabalho. O juiz de primeira instância é aquele que vai para o interior e não vê mais nada, não tem universidade na cidade onde atua, ele não dá aula, não estuda. Se há um conflito entre um artigo de qualquer código comercial, tributário, penal, civil, ou qualquer outra lei isolada, de uma parte, e, de outra parte, a Constituição, é obvio que prevalece a Constituição, pois é a Lei Magna do país. Mas os juízes não estudam mais, então não percebem que estamos em outro mundo, que a Constituição acabou por derrubar vários artigos do Código Civil e eles não podem atuar segundo aqueles artigos. [...] Nós não temos como estar apenas fora do gênero, nem nós mulheres, nem os homens. Como ficar fora do gênero? Isso é impossível. O que nós podemos é lidar com todas as matrizes que nós conhecemos, simultaneamente. Então, a minha maneira de criar, porque eu não sou nenhum gênio, é: eu leio um livro, absorvo aquilo que me parece interessante, e tento avançar. Tento avançar um pouco – a ciência avança milimetricamente. Uma grande descoberta é fruto do acaso, porque ninguém é tão inteligente para ter uma ideia brilhante por semana. Então, vou fazendo o que eu posso, que é caminhar assim na criação, milimetricamente. [...]. Trechos da entrevista concedida pela socióloga Heleieth Saffioti (1934-2010), extraída da publicação Heleieth Saffioti, uma pioneira dos estudos feministas no Brasil (Estudos Feministas - UFSC, 2011) de Luzinete Simões Minella. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

HOMENS & CARANGUEJOS, DE JOSUÉ DE CASTRO

[...] Da evasão daquela paisagem humana parada e monótona. Desejo imperioso de sair de tudo. De sair de dentro de si mesmo. De sair do círculo fechado da família. Do ciclo do caranguejo. Da cidade do Recife. Um desejo desesperado de arrebentar com todas as amarras que o ligam à lama pegajosa do vale do Capibaribe e às folhas viscosas do mangue. Sair vagando pelo mundo afora com os navios que passam ao largo da costa, soltando com indiferença um arrogante penacho de fumo por suas longas e grossas chaminés [...].

Trecho extraído da obra Homens e caranguejos (Bertrand Brasil, 2003), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 PS: Esta postagem é em homenagem a dois Joões coincidentemente de Araújo: o primeiro é professor e ESO em Língua Inglesa UFRPE, João Paulo Araújo e, o segundo, bibliotecário e parceiramigo da Biblioteca Fenelon Barreto, também, João Paulo Araújo.  Procês, zis abrações.

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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...