quinta-feira, junho 06, 2019

CARL JUNG, HERMILO, ERNST BLOCH, PIPILOTTI RIST & PRISIONEIRO DA INSÔNIA


PRISIONEIRO DA INSÔNIA - Eis a minha face insone, noite a mais tão maior que antes para me salvar do abismo entre a ausência e o vazio das margens exauridas. Nasci na terra escura de água doce para viver na superfície inútil das coisas vãs, à procura de todos os resquícios, os restos da minha vida desnecessária, à espera do que nunca chega ou de quem nunca fica e sai aos sustos e tropeções, bússola perdida às ruas esvaziadas da madrugada que se dissipa com as disputas contaminando isolamento e o perigo das aspirações. Pervigil de queixo caído e mãos abanando, relegado a nenhum plano e plantado na recusa, levado pela porta dos fundos como um suspeito para as cucuias. Alerta de não pregar os olhos, de um lado pro outro as pegadas do sono, não é possível dormir neste país, nunca mais dormir, nunca mais qualquer instância da salvação entre seres inconclusos moldados aos murros em ponta de faca, destituídos de sonhos pelas quedas do trapézio e do chão não passam, é tudo tão exorbitante. Vigilante enquanto tudo é quase tarde da noite, o ventre emurchercido das mulheres, a garganta emudecida dos homens, nada mais que ter de partir, como quem desce o cadafalso, como quem sobe ao patíbulo para o extermínio, ou do lado de quem sobe para o de quem desce esmagado pelos sombrios rumores que perduram entre os que jamais nascerão do silêncio dos que estão sozinhos. Atento, precisa então saber direito como e onde pisar, situação aborrecida e desestimulante. Olhos vivos de quem jaz abandonado para dar adeus às expectativas e dar graças à vida por varar madrugadas anos morte a fio. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] em uma velha sociedade em declínio, como o Ocidente atual, surge uma certa intenção parcial e efêmera no sentido apenas descendente (do futuro). Então, para aqueles que não conseguem achar uma saída para a decadência, o medo se antepõe e se contrapõe à esperança. O medo se apresenta como máscara subjetivista e o niilismo, como máscara objetivista do fenômeno da crise [...] A nossa época é a primeira a possuir os pressupostos socioeconômicos para uma teoria do ainda-não-consciente e do que está relacionado a ele no que-ainda-não veio-a-ser do mundo. [...].
Trechos extraídos da obra O princípio esperança (Contraponto/EdUerj, 2005), do filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977), que em outra de suas obras Espírito da utopia (Gallimard, 1966), expressa que: [...] Tudo aquilo que outrora foi feito com amor e por necessidade possui vida própria, alcança alturas desconhecidas e nos volta marcado, como nós – vivos – não saberíamos ser, ornado de um signo muito leve, um selo de nós mesmos. Nossa visão parece mergulhar numa longa alameda ensolarada que leva a uma porta, como diante de uma obra de arte. A jarra cerâmica não é uma obra de arte, mas para merecer esse nome de obra de arte deveria parecer com ela, e já seria muito. [...].

HERMILO BORBA FILHO E A DRAMATURGIA
Hermilo Borba Filho foi um dos protagonistas do processo de modernização dos palcos brasileiros, ao longo do século XX. Pela intensidade e pela amplitude de sua atuação renovadora, tem seu nome inscrito na história recente da cultura nacional, ao lado de outros artistas e intelectuais que conseguiram, contra a inércia do conformismo, fazer com que o teatro brasileiro, tanto na encenação quanto na literatura dramática, se afirmasse como arte, e não apenas como divertimento. [...]
Trecho de Hermilo Borba Filho e a dramaturgia moderna de Pernambuco, do professor e pesquisador da UFPE, Luís Augusto Reis, extraído da obra Hermilo Borba Filho e a dramaturgia: diálogos pernambucanos (FCCR, 2010), organizado por Anco Márcio Tenório Vieira, João Denys Araujo Leite e Luís Augusto Reis. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Sem atender à tecnologia, corro para o sol no computador, e com a língua do meu cérebro, misturo as imagens em frente ou atrás das minhas pálpebras. Uma câmara mágica cheia de imagens em movimento ou vídeo significa: eu vejo.
A arte da fotógrafa, videoartista e artista visual suíça Pipilotti Rist. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE CARL GUSTAV JUNG
Não sabemos nada sobre o homem. Sua psique deveria ser estudada, pois somos a origem de todo o mal vindouro.
A obra do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, junho 04, 2019

LORCA, ZAIDAN FILHO, MARTHA GRAHAM, PAUL LANDOWSKI, MATA ATLÂNTICA, MAIDENTRIP & HORROR VACUI


HORROR VACUI – A vida é uma viagem para longe ou perto, quantos passageiros e eu lá perante o brasileto arrancado da mata, exterminado. Já não sei nada, tudo virou de ponta cabeça, porque o Sol sorriu na floração do lótus que brotou das águas turvas e paradas, enquanto fazem da manhã seguinte uma eterna noite de ontem. A casa cheia, o auditório lotado, espaços preenchidos, lacunas, hiatos, nenhum silêncio, ninguém morreu, ora, nenhum obirapiranga para remédio, porquanto achacados com a dor de muitos e nem sabem ou sentem. O caos salta aos olhos com os remorsos do vazio: a solidão. Todos me parecem como se usassem um ornamento facial da mulher Maori, do ramo sinuoso às espirais, e me avisavam: não se deve calar, é preciso dizer. A mim, a inquietação me faz falar sozinho com as paredes, coisas e invisíveis. Acho que enlouqueci no meu horror vacui, como se tivesse apenas uma Caesalpinia echinata para fazer um país. Estou só e me tomam por um louco: esquecer quem sou a deslizar na pele do outro, mas não há ninguém. Sonho sonhos que o criador esqueceu de sonhar e os mistérios nunca revelados, só tinha o pé de ibirapitanga, uma efígie de barba numa jarra belarmina, uma cerâmina shibui e bricabraques aos montes. Cá entre nós: as coisas já passaram do ponto e ninguém se deu conta, muito menos fazem o que precisa ser feito: só o olhar da morte, mãos e pés da morte, tudo para matar, a extinção do orabutã. Nesse pesadelo escatológico, ouço O Corvo de Poe, a loucura de Lovercraft, os delírios de Stephen King, as fantasias de Clive Baker, tudo é o Inferno de Dante. Não são demônios nem bruxas, vampiros ou lobisomens, nenhum desses seres horripilantes: são gentes como eu, de carne e osso, fanatismo e desencantos. Nada tão amedrontador: o pânico do terror diante da destruição. Ah, o meu horror não, não apenas, de todos: fabricar mortes, vender mortes, excretar mortes. Nenhum ibirapita para sombra no ermo e eu vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O desafio que o terceiro milênio reserva para o nordeste é convencer as elites econômicas e dirigentes do país de que é possível se integrar na economia mundial sem abandonar seus pobres e miseráveis. E que o principal ativo de uma nação é seu povo e suas tradições culturais. Países sem política de desenvolvimento regional e social e sem identidade estão destinados a ser meras plataformas de exportação para o mundo, sem cidadãos, direitos e identidade cultural [...] Vislumbram-se o nascimento de uma civilização planetária, bem como o de um novo setor público supranacional. Com o revivescimento da “comunidade”, em um registro planetário, animado por outros atores, outras solidariedades e outras políticas. É a reconstrução da ética em outros termos: não mais fabril, nem estatal; nem pública, nem privada. Local e global ao mesmo tempo. Ligada à comunidade, ao mundo da vida ou à cotidianidade. Um mundo de interação simbolicamente mediada, em que a linguagem e a significação passam a ter importância fundamental.
Trechos extraídos da obra O fim do nordeste e outros mitos (Cortez, 2001), do professor e filósofo Michel Zaidan Filho. Veja mais aqui e aqui

COMO É QUE ALGUÉM VAI DEFENDER O QUE NÃO CONHECE?
[...] Pela sua riqueza e por toda a diversidade que contém, a Mata Atlântica foi também considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
[...] Condomínios de luxo se instalam nas matas de restinga (que é como é chamada a Mata Atlântica na região das planícies, perto do mar); famílias de migrantes pobres erguem barracos e cortam árvores em áreas de preservação permanente e/ou de risco. E, assim, a nossa Mata Atlântica vai desaparecendo. Devemos desanimar? Nunca! Conhecer o problema é meio caminho andado. Repetimos: a gente só ama e preserva aquilo que conhece. Só se exerce a cidadania quando se tem conhecimento dos temas que devem ser objeto de luta. [...].
Trechos extraídos da obra Mata Atlântica: vinte razões para amá-la (Musa, 2005), da jornalista e fotógrafa Regina Helena de Paiva Ramos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MAIDENTRIP
O meu sonho é ser a pessoa mais jovem do mundo a navegar sozinha.
O documentário Maidentrip (2013), dirigido por Jillian Schlesinger, conta a história da adolescente holandesa nascida na Nova Zelândia, Laura Decker que, com apenas 14 anos de idade, se tornou a mais jovem a velejar ao redor do mundo sozinha por 518 dias, depois de um ruidoso processo que tramitou no tribunal holandês. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor francês Paul Landowski (1875-1961). Veja mais aqui & aqui.

A DANÇA DE MARTHA GRAHAM
A dança é a linguagem escondida da alma. Ninguém se importa se você não sabe dançar bem. Apenas se levante e dance. Bons dançarinos são bons por causa de sua paixão.
A arte da dançarina e coreógrafa estadunidense Martha Graham (1894-1991). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE FEDERICO GARCIA LORCA
A Terra é o provável paraíso perdido.
A obra do poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936) aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, junho 03, 2019

MARGUERITE YOURCENAR, RAIMUNDO CARRERO, LIGIA AMADO, MABELLE BATISTA & PERPETUUM MOBILE


PERPETUUM MOBILE – Ainda tarda de ontens o que me asfixia agora de manhã, apesar de mudar como mudas plantadas: o que habita em mim o vento açoita flores e folhas. A hora passa e os que atravessam não vivem, só olhadas pelos anúncios do rádio e da tevê nos luminosos multiplicados, comida rápida ao relógio, coisas do interesse e desperdício. Quantos se perdem na correria das desocupadas cabeças ocas desorientadas, ah, meu Deus, pelas ruas indecifráveis que desconheço, esquecidas pelos néscios que possuem ali seus endereços e não moram, só zombam dos defeitos alheios e os seus nem dão conta, entediados e mantidos pela estupidez. Todos me são como atletas vigorosos, acrobatas do mundo que se esquecem, tolos pelos ares com suas boas razões duvidáveis e mil maneiras diferentes ou mais etiquetas, só passam às cambalhotas com roupas tão iguais, provas cabais do decisivo por intemperança, tudo tão igual e isso não é vida. Para mim quanta mentira e equivoco, quanta coisa fora de lugar no teatro alvoroçado das bocas tagarelas, tudo é muito cinza no abuso das cores por dentro e fora, o castigo invisível. E ademais tudo se perde para sempre e me desarrumo entre o que apouca e o abundante. Como é pequeno o que se vê no meio de tão grandiosa expectativa: só cacos e frestas, nenhuma vogal solidária, nenhum verbo de amor. Cada qual seu desencanto com a cloaca da humanidade, as roupas na mala, o corpo desnudo, nem sei mais onde moro ou morro, nem sinto fome, ao menos desengasgado pelo anverso das coisas e pressinto entre a sede e o gole, versiprosa cotidiária de quem se perdeu na frase, trovador suicida, fabricando sílabas e ritmos para emprestar ao mundo o sentimento que morreu: a indignação. Ah, não, não era isso que eu queria dizer, meu pentimento. Queria mesmo era falar da tristeza dos citros e o declínio rápido da planta, como meu coração diante de tudo isso, mais pertinente ao ato de escrever: o que viu e viveu, desesperando na palavra, doendo no verso e não dissesse para ninguém o que resta de poeta, crescendo em silêncio. Ninguém tem mesmo nada a ver com isso. Uma vida apenas, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Era no tempo do prato quente e gorduroso, suculento e salgado, muito salgado, fumegante e apimentando. Porque também era assim o centro do Recife, de muito sol e frevo. [...] Mas não acabou. Felizmente não acabou. O “era” fica por conta da mudança dos tempos – verbal e físico. Portanto, era no tempo em que o centro da cidade existia com toda a graça e movimentação. [...] Basta pedir e será logo atendido. Lembrando-se sempre da figurona de Ascenso Ferreira, o grande poeta, que depois de duas feijoadas, cantava grave e grosso: “Pernas pro ar que ninguém é de ferro”.
Trecho da crônica Uma cidade feliz. E gorda (FCCR, 2010), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte da artista visual e consultora de RH, Mabelle Marie Batista, integrante da Rede de Hortas do Bem Comum e Felicidade Comunitária e edita o blog Atelier Azul & Rosa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE LIGIA AMADO
A música da premiada maestrina e engenheira Ligia Amado, atual regente-titular da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (OSUSP) e da Orquestra Sinfônica da Universidade Nacional de Cuyo (Argentina). Ela atuou como produtora e apresentadora do programa Música e Literatura, da Rádio MEC-RJ. Veja mais aqui e aqui

A OBRA DE MARGUERITE YOURCENAR
Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer.
A obra da escritora francesa Marguerite Yourcenar (1903-1987) aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, maio 31, 2019

RAINER MARIA RILKE, JESSIER QUIRINO, ELKE KRYSTUFEK, ROBERTO CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE & MARIA JOÃOZINHO


MARIA JOÃOZINHO – Eita, mulher virada na breca! Era a filha do Barão, a Maria Joãozinho, um homem escritinho, só faltava o bregueço no meio das pernas. O resto ela tinha: pisada firme, nariz empinado, jeitão de mandona. Era gente-boa, falava com todo mundo. E brincava, tirando onda para cima dos marmanjos e destemidos. Na quebra-de-braço, não perdia uma, por bem ou por mal, facilitasse ou não, deixava a cabroeira toda de farol baixo. Respeite a pontaria, era de botar pra trás atirador profissional. Um revólver no coldre, um punhal na bainha dos quartos, brincasse não, o carão comia no centro. Mulher valente, avexada. Montava de tudo, até bicho brabo ela domava. Só chegava num puro sangue, cada dia um diferente. Gostava de cavalgar mesmo num que era tão branco e grandão, que chega a brancura brilhava de doer nos olhos da gente. Logo zarpava, às carreiras com suas urgências. Se demorasse um pouquinho que fosse, soltava lorota, contava piada, virava o copo, enchia o tampo e ninguém nunca a viu bêbada caindo, quem arriava era a macharia pelos cantos, tudo engrolando a língua e trocando as pernas. Mandava, desmandava, brigava de deixar lutadores com a bunda no chão. Enfrentava tempo ruim, tangia a manada, guiava de dar cavalo-de-pau em rua estreitinha e, para acabar, ainda saía num jipe de banda, empinando só em duas rodas. Sabia de tudo: ganhava no carteado, xeque-mate no xadrez, dava tacada na sinuca de ninguém pegar no taco para uma jogada sequer. No futebol, dava drible e toque de arrodeio de deixar beque e zagueiros tudo zonzos, sacando golaço por cobertura depois de um banho de cuia no goleiro. Aquilo que era mulher-macho, fumava que só uma caipora e era achegada a uns braquearos de ficar com os olhos tudo arreados. E era bonita, a danada. Beldade de se ver. Nas presepadas dela, vez em quando dava pra ver um lance dos peitinhos miúdos soltos dentro da blusa de alça querendo pular fora, eita, coisa mais linda de se ver. Era cada decote, camisas desabotoadas, um espetáculo! Chega arrepiava de tão desejante. Pense nuns peitos lindos que tinha aquela mulher. Ah, quando ela se alvoroçava, dava mesmo pra ver a calcinha estufada com os guardados dela embaixo da saia. Dava o maior tumulto na rapaziada. Muitos corriam pros esconderijos, rendiam homenagens a fole. Pense num desmantelo! Era cada tora de coxa, vixe! Deixava os lambaios tudo desassossegados. Pernuda, chega as batatas das pernas roliças, dentro das botas, chamarem atenção dos fuleiros. Era uma branquela bonita mesmo, sem frescura, arrochada, apetitosa, tipo capa de revista. Chamava a gente tudo de chapa: Ô chapa, passaí a meiota. Bebia no gargalo, de um gole só, nem fazia careta. Limpava a boca com as costas do braço, ô beiços pidões, cangula, bons mesmo de beijar. E quem era doido? Era chá de cadeia. Pior: era encarar o bico da espingarda no meio dos olhos. Um tiro só, teibei. Lona. Um ou outro apelava e ela, macha toda, botava o atrevido no lugar. Ah, mas um dia lá, ela engraçou-se pras bandas dum crioulo dobrado que era vigilante dum banco. Foi um escândalo. O cara era parrudo, mas não dava meio caldo perto dela. A bicha era danada, casal café com leite. O sujeito comeu arrolhado e arroiado, quase se vira em dois para dar conta do fogo daquela. Ô mulher fogosa. Ela dizia que queria se perder no meio de uma seleção de futebol dessas da Nigéria, Camarão ou de um desses países africanos, cada pintudo! Ela lá no meio deles. Só se enganchava com musculosos, eles que se viam na volta dela. Braba que só uma capota choca. E eles só calados, cabeça baixa, ouvindo os desaforos dela. Deixou muitos deles de coração partido, desajuizados. Afora os casados, noivos e solteiros que endoidaram de andar atrás dela e ela nem aí, só na cotovelada e virada de queixo pro lado. Danou-se no mundo da gente nunca mais vê-la. Dizem que se casou mais de vinte vezes, deixando os maridos tudo atrapalhado. É, se não desse conta, era duas de quinhentos na hora! Aquela era uma danada de carteirinha. Homem bem soubesse só queria dela amizade; compromisso sério, vôte, só pra quem tem coragem de mamar em onça e das furiosas. Pense numa bronca! Só pra quem quer ver a morte de perto! Bote fé. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Até que ponto atos como transgredir as leis, praticar a corrupção, afrontar a moral pública são atributos comuns apenas aos homens públicos (“os eleitos”), sobre serem socialmente reprovados? Até onde são condutas comuns a quase todos (“os eleitores”), além de socialmente cometidas? [...] Talvez um pouco de tudo isso, mas sem que se deva enxergar próxima, em todas as suas cores, uma tragédia social. De um lado, porque o brasileiro ainda demonstra saber distinguir, em seu pensar, o certo do errado. Ele está, porém, cansado de ver que as leis não são cumpridas; que a Justiça, quase sempre tardia, sujeita-se a interesses pessoais e parcialidades políticas; e que o Estado nega-lhe acesso suficiente à saúde, à educação, à segurança ao tempo em que lhe impõe insuportável ônus fiscal. Esse estado de coisas precisa mudar rapidamente. De outro lado, parece estar cedendo o umbral a partir do qual vai ampliando, num crescendo, a tolerância social, inclusive a atos e condutas formalmente incriminados: ao pequeno suborno, à sonegação eventual. Como persiste resistindo uma certa indefinição entre o público e o privado por onde se imiscuem, sancionados socialmente, o nepotismo e outras formas de apropriação pessoal e familiar do Estado. São processos que devem ser estancados e pacientemente revertidos. Mais complicado será receitar o que se deve objetivamente fazer para combater a complacência dos mais “educados” (isto é, de mais anos de estudo) e dos mais jovens (acaso imaturos?) a comportamentos ilegais ou eticamente reprovados.
Trechos de Corrupção, ética e sociedade, extraídos da obra Antes tempos depois: pequenos ensaios (José Olympio, 2007), do advogado e economista Roberto Cavalcanti de Albuquerque. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE JESSIER QUIRINO
POLITICAGEM: A tal da politicagem / é o acento circunflexo / da palavrinha cocô... / é feito brigar com gambá / pois mesmo o cabra ganhando / sai arranhado e fedendo. / É dirigir dando ré / o cabra tem três espelhos / e ainda olha pra trás. / E pode prestar atenção: / na boca do candidato / é o mesmo Mané Luiz: / TRABALHO E HONESTIDADE / TRABALHO E HONESTIDADE / por quê? Porque o povo gosta de mentira! / Seu manezinho Boleiro / suplente de Merda-Viva / foi dar uma de sincero / dizendo o que pretendia: / trabalhar de terça à quinta-feira / e roubar só o normal... / Teve uma queda de votação tão pra baixo / que até inda é suplente.
COISAS QUE A NATUREZA ARRUPINA: Se o urubu cheirar perfume / morre de porre cheiroso / se o bode for pro chuveiro / morre de banho espumoso / se o oceano fosse insosso / eu insossava o bacalhau / botava insosso na bolacha / sofria de pressão baixa / era a vida aquele sal.
VIVER ASSIM É DE MORTE: Os tiros ao alvo e outro ao escuro / do policial que não policia / mataram meninos José e Maria / de tombo bi-tombo tri-tombo e hiato / sapatos sem pés e pés sem sapatos / favelas lotadas de becos pendentes / humano inumano rangendo seus dentes / travando batalha com a culpa maldada / justiça que medra, que merda, que nada / que planta maldade chumbando as sementes.
Poemas recolhidos do livro Bandeira nordestina (Bagaço, 2006), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Acho que a arte é como um orgasmo, mas se o sexo for aborrecido, não quero fazê-lo. Estou vivendo a vida que você nunca ousará viver.
A arte da artista conceitual austríaca Elke Silvia Krystufek que trabalha em variadas mídias, incluindo pintura, escultura, vídeo, fotografia, colagens & performance art. 
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE RAINER MARIA RILKE
Vivo a minha vida em círculos cada vez maiores / que se estendem sobre as coisas. / Talvez não possa acabar o último, / mas quero tentar.
A obra do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, maio 30, 2019

JULIO CORTÁZAR, ESCOLA DE FRANKFURT, RUY JOBIM NETO, MARI KATAYAMA & O FANTASMA DO BARÃO


O FANTASMA DO BARÃO - Quando o Barão deu as caras por essas bandas, Alagoinhanduba ainda nem existia, era mesmo um povoado sem nome de gente desvalida. Aquele homem abusado com charuto no bico às baforadas, escanhoado de todos os vincos e impetuoso de ostentação, ia para tudo quanto é canto acompanhado de brutamontes e tratando tudo que encontrasse pela frente como se fosse um insulto. O séquito dele tinha mais gente que todos os moradores dali. Tanto é que o cortejo invadiu, de logo se apropriar de toda a redondeza. Pelo visto, primava pela decoração e a primeira ordem dele foi transferir tudo pro outro lado do rio. Daí, começaram a construir uma ponte para poder atravessar todo seu mando e poderio. Do lado de lá, dias intermináveis de obras: um castelo, uma capela de um lado e um galpão enorme do outro da residência, jardins arrodeando tudo, cercados e cocheiras, canavial e pastagens, um labirinto de passagens e muitas coisas trazidas, isso aos montes. O povo dali já se acostumara a ficar na beirada de cá do rio, assistindo a tudo, nada para fazer além disso, só de ver o Barão cagando raios para todo lado. Um ou outro aproveitado para mão-de-obra, escravaria braba. Trastejasse ou vacilasse na tarefa, o gogó era torado na hora, inexoravelmente. Passou-se a primeira primavera, depois o verão, chegou o outono e o inverno mandou ver de quase a enchente destruir tudo e mudar os planos para subirem o morro com as construções. O Barão arengava com os ventos, as nuvens, os dias, as noites, as estações, o rio e tudo que lhe aparecesse pela frente. Sacava da espada empunhada na mão esquerda numa luta invisível, ameaçando disparar a garrucha carregada na mão direita, desafiando até o sol, a lua e as estrelas, quem mais ousasse. A construção estava indo bem e, quase pronta, deu de aparecer mais gente: madames, meninada, familiares e serviçais, tudo uns branquelos cheios dos requintes, escoltados por uma ruma de capatazes tudo fortemente armado. Depois de atravessar a gente toda e uma tuia de catrevagem que ninguém tinha nem visto, o Barão chegou do lado da ponte e gritou: Quem inventar de atravessar pro lado de cá, vai morrer crivado de bala, comboio de desgraça! Ouçam bem, estão avisados! A ordem é para matar quem ouse atravessar essa ponte! Assim foi. Com o passar dos anos, o homem bafejava: Isso aqui vai se chamar Alagoinhanduba! Pronto, o lugar estava batizado. E cresceu a olhos vistos. Tudo girava em torno do Barão, gente que vinha dos estrangeiros, autoridades federais, políticos das lonjuras do fim de mundo, ricaços poderosos com seus cheleleus estibados, tudo gente granfina que botaram catinga em bosta e nem fediam, tudo perfumado pelas melhores fragrâncias do outro mundo dos longes. Tudo uns engravatados, chatosos e impecáveis. Vez ou outra ouvia duns pipocos: era um desavisado que caía na esparrela, enterrado ali mesmo. Era cada rojão, mais parecia São João o tempo todo. Afinal, o homem era a lei e a ordem por estas paragens. Não fosse com a cara do sujeito, aquele estava lascado do primeiro ao quinto, fritinho da silva. Questão de minutos, tudo arranjado. Ninguém se lembrava mais, outra já sucedia encobrindo tudo que se passasse. O nome dele? Barão num sei quê lá. Ninguém sabia não, era só Barão que se ouvia, pra lá e pra cá. Ele tinha mais anel no dedo que matuto de pantim, afora um molho de fitas e medalhas penduradas nos ombros pelo casaco, e um barrunfo ineivado de meter medo em tudo. Duvide não, o homem tinha topete e dos brabos. Os que ele esquartejasse ou mandasse matar, viravam tudo alma do seu exército, um bando de mortos-vivos mal-encarados que passavam pelo meio do povo com bafo de morte pronde se virassem. O Barão, na vera, viveu quase 200 anos nessa pisada. Isso não fosse uma dor lá nele no carnaval, de deixá-lo arriado, acho que ruim dos bofes como já era. Ah, mas não morreu de mesmo, não. Nada. Dizem que ele ressuscitou, ou tapiou a morte. Quem chega à beirada de cá do rio quando anoitece, vê logo ele bufando de sair fogo pelas ventas, correndo pelas terras com seu batalhão, todas as noites. Isso dizem, do muito. Ninguém é doido de conferir nem de atravessar. Acho mesmo que é o fantasma dele, oxente. Brinque não. E se um dia inventarem de revolver aquelas terras só vão achar caveiras enterradas na sua sina. Não vai dar outra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] ainda vivemos num mundo similar àquele que a Escola de Frankfurt condenava – conquanto seja um mundo no qual temos mais liberdade de escolha do que jamais tivemos antes. [...] Inegavelmente porque a dominação do homem pela indústria cultural e pelo consumismo é hoje mais intensa que nunca. Pior, o que uma vez foi um sistema de dominação das sociedades europeia e norte-americana agora expandiu seu alcance. Não vivemos mais num mundo em que as nações e o nacionalismo são a chave para o seu significado, e sim num mercado globalizado onde somos ostensivamente livres apenas para escolher o que é sempre o mesmo, livres apenas para escolher qual é a espiritualidade que nos apequena, que nos mantém obrigatoriamente submissos a um sistema opressor. [...] os escritos da Escola de Frankfurt nos são úteis agora, quando vivemos num tipo diferente de escuridão. Não vivemos num inferno que a Escola de Frankfurt criou, mas num que ela pode ajudar a compreender. É um bom momento para abrir sua mensagem na garrafa.
Trechos de Contra a corrente – Introdução, extraídos da obra Grande hotel abismo – a Escola de Frankfurt e seus personagens: Adorno, Benjamin, Horkheimer, Marcuse, Fromm, Pollock, Neumann e Habermas (Companhia das Letras, 2018), do escritor e jornalista inglês Stuart Jeffries, na qual combina reconstituição biográfica e discussão filosófica em uma prosa afiada, revelando como os pensadores procuraram discutir a política da cultura durante a ascensão do fascismo. No volume são apresentadas a biografia e ideias, além das reflexões que moldaram eventos importantes do século XX. Alguns deles foram forçados a fugir dos horrores da Alemanha nazista e se exilaram nos Estados Unidos. Ao tomar como objeto de estudo a cultura popular em suas várias formas — a Escola de Frankfurt discutiu sobre a natureza e a crise de nossa sociedade de massas —, enquanto a obra mostra como essas ideias ainda são pertinentes para os tempos das mídias sociais e do consumismo desenfreado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

DO CLAUSTRO, DE RUY JOBIM NETO
[...] CENA 2 (as duas clarissas já se encontram em cena, enquanto a luz abre em resistência) CECÍLIA: Vosmecê sequer tocou no pão e na água. MARIANA: Não é possível que não haja correspondência alguma do Dr. Gonçalo. Não é possível. CECÍLIA: Mas isso não é motivo. MARIANA: É motivo suficiente! (tempo) Perdão. Peço que me perdoe, Irmã Cecília. Eu tenho estado um tanto quanto fora de mim. Mas eu prometo que com muita oração e com muita alegria na alma, tudo vai se encaminhar da melhor forma possível. CECÍLIA: Por certo que vai. E agora eu peço, por amor do Cristo, que vosmecê se alimente um pouco, ao menos um pouco. MARIANA: Irmã Cecília! Houve alguma vez em tua vida em que vosmecê precisou fazer alguma coisa, em virtude de como se encontrava em determinado momento? CECÍLIA: Como assim? MARIANA: Vosmecê sabe que eu estou morrendo. CECÍLIA: Eu não sei de nada. E vosmecê, por favor, não me repita mais uma sandice dessas! Saiba que tudo o que eu fizer será para que vosmecê não se enfraqueça. Afinal de contas, pelo que eu saiba, nenhuma de nós aqui tem qualidades suficientes para atingir a santidade através de martírio. MARIANA: Não a santidade, mas a realidade. Se eu te disser que é apenas em vosmecê que eu deposito toda a minha confiança, e que diante de tudo o que tem acontecido, eu pedir a vosmecê dois favores imensos, eu agradeceria eternamente se puder ser atendida. É algo sério. Não tenciono brincar com isso. CECÍLIA: Não foi justamente nossa Santa Mãe Clara quem nos ensinou a ajudar as irmãs que estivessem descobertas e necessitadas? MARIANA: Sim. CECÍLIA: Façamos uma troca. Vosmecê come do pão e bebe da água que eu lhe trouxe e eu te serei toda ouvidos para esses teus dois pedidos. (IRMÃ MARIANA se serve e bebe um gole) Pois bem... Quais são eles? MARIANA: Eu quero me confessar contigo. E depois vosmecê me conceda a extrema unção. CECÍLIA: Vosmecê disse que não ia brincar com esse tipo de coisa. MARIANA: Eu não estou brincando. [...].
Trecho da peça teatral Do Claustro (2007), do autor teatral, roteirista, cartunista e blogueiro Ruy Jobim Neto, contando a história de uma freira está enclausurada, às portas da loucura, e precisa da ajuda de outra, em quem confia, para salvar a vida do homem por quem está apaixonada - um poeta e advogado ameaçado de degredo para a África. A ação se passa numa das celas do Convento de Santa Clara do Desterro da Bahia, no final do século XVII, em 1692. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Uma coisa que eu sei com certeza é que a beleza não é algo bonito ou limpo. Não é sobre o corpo em si, mas mais sobre a lacuna de "experiências" em todo o meu corpo que eu estou interessada. Coisas como memórias.
A arte da fotógrafa e artista visual japonesa Mari Katayama, que nasceu com hemimelia tibial – doença rara que impediu o crescimento da parte inferior das pernas e causou fissura na mão esquerda – e faz uso de autorretratos descrevendo objetos meticulosamente organizados com espaços íntimos ou em paisagens vastas e inspiradoras, homenageando o seu signo, câncer/caranguejo. 
Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A OBRA DE JULIO CORTÁZAR
Cada vez irei sentindo menos, e, recordando mais.
A obra do escritor argentino de origem belga Julio Cortázar (1914-1984) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, maio 29, 2019

GEORGES BATAILLE, NATALIE ROGERS, MARIO SETTE, CARMEN BEUCHAT & DAS AVESSAS PRO REVESTRÉS


DAS AVESSAS PRO REVESTRÉS – Joãotilio teve um troço de esticar as pernas assim de repente e foi bater de cara no inferno. Eita! O capeta esperava com um riso sardônico, afiando as pontas do tridente e cheio do caqueado: Chegou, foi! Joãtilio deu logo um freio de enterrar os pés no chão, chega o tinhoso chasqueou: Dê pra trás não, mô fio, tava só lhe esperando. Ah, mas logo pro inferno, meu? Queria ir pra onde, hem? Acho que merecia uma coisinha melhor! A-rá! Quer melhorzinha é? Vem cá que vou puxar sua folha corrida lá embaixo, achegue, venha. Tá doido? Esse rolo todo aí sou eu? Tem mais uns três desses, quer ver? Deus me livre! Nem se ele quisesse, mô fio. Ah, não. Ah, sim. Tem de haver um jeito de me sair dessa. Hem, hem, tem não. Vamos negociar! Você não tem nem onde cair morto, mô fio, ainda quer regatear? Claro, ora. Veja só: você morreu de ruim e se a gente fizer uma recapitulação verá que aqui você estará melhor do que onde estava. Sei não. Saberá, destá. Xô, pra lá. Nada, venha ver, se achegue, venha, você vai gostar, espie ali, veja. Quando viu, berrou: Oxe, mas é talqualzinha a vida lá na terra. Sim, mô fio, a mesma coisinha, só tem uma diferença: ninguém dorme. É mesmo? E pode fazer o que quiser! Como assim? Aqui pode tudo. Sei não, tenho opção? Hem, hem, tem não. Tem de ter! E para isso teve que suar a camisa. Não tinha lá o tino de um Camonge ou Malasartes, mas usou da sua astúcia. Caíram na maior parolagem. Vai daqui para acolá, tome lá, dê cá. O seu ajeitado parecia suspeito, porquanto cheio de lábia conseguiu persuadi-lo: Olhe, qual a garantia? Ah, está abusando das prerrogativas. Mas quero ver o purgatório como é que é. Então vá, eu espero. E foi. Chegou lá, mais parecia uma prisão: as almas todas cativas, acorrentadas, aprisionadas. Vôte! Dá pra mim não. Vou é ver o céu. Fez meia volta e caiu enchendo tudo de pernas. Saiu, andou que só, lá pras tantas, deu na portaria do céu. Não tinha ninguém. Pra falar a verdade, nem parecia céu, nem nada. Vasculhou a redondeza, viu um pitoco, apertou, enfiou o dedo uma tuia de vezes, quem sabe, seja uma campainha, nada de aparecer um pé de gente ou coisa que fosse. Lá pras tantas, depois de futucar que só, sobrecarregado de dúvidas, sentou-se no chão e matutou. Eis a revelação: É bem diferente do céu que falavam pra gente. Pra falar a verdade: o céu não existe! Nada do que disseram e pensei que tinha aprendido. Que rasteira. Ah, pensei que morrendo resolvia todos os meus problemas; mas não, estou no osso mucumbu de não sei onde e não tenho para onde arribar, afinal. Nem mesmo depois de morto eu consigo sossegar. Tem nada não, que fazer? Feliz aniversário para mim. Vou nessa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] As mulheres representa, hoje, uma força revolucionária. Estamos descobrindo nosso valor, nossa força e nosso poder. À medida que nós definirmos novos papéis – no lar e na sociedade – alteraremos o mundo. Como os homens estão se propondo a descobrir seus sentimentos intuitivos e provedores, e as mulheres estão descobrindo sua competência e assertividade, nós – mulheres e homens – podemos trabalhar juntos para nos darmos oportunidades iguais: igualdade profissional, de poder e liderança (todas as três têm sido negadas à maioria das mulheres) e igualdade de oportunidades no desempenho do papel materno, na criação de um ambiente acolhedor para a família, no direito ao lazer e a uma vida longa (coisas negadas à maioria dos homens). Se encontrarmos equilíbrio interior, encontraremos também equilíbrio entre homens e mulheres. Então, estaremos aptos a nos abrirmos para relacionamentos mais harmoniosos e ternos entre pessoas.
Trecho extraído da obra A mulher emergente: uma experiência de vida (Martins Fontes, 1993), da psicoterapeuta, artista, escritora e educadora Natalie Rogers (1928-2015), fundadora do Instituto de Terapia Expressiva Centrada na Pessoa (PCETI). Veja mais aqui.

MAXAMBOMBAS E MARACATUS
[...] O subdelegado comparecia cedo, de feltro acabanado, andar gingador, olhar duro, bengala de volta, seguido de duas ou três ordenanças de quépis de banda e compridos refles. Quase dez horas. Impaciência geral. Reclamações, berros, sapateados. – Essa joça não principia, não? – Está parecida com as obras do porto... – Ou com o bonde elétrico de Olinda... – Vai com isso! – Eu já vou lá meter o porrete nessas pastoras! Uma velha surde no trabalho e suplica: - Aquéta, minha gente. As “meninas” estão se vestindo... – Sai daí, Marocas boca de mulambo! [...].
Trecho de Um sereno no casamento, extraído da obra Maxambimbas e maracatus (Cultura Brasileira, 1935), do jornalista, escritor e professor Mario Sette (1886-1950). Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista, coreógrafa e dançarina chilena Carmen Beuchat. 
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A OBRA DE GEORGES BATAILLE
No que vai sobreviver a mim estou em harmonia com minha aniquilação. Rir do universo liberou minha vida. Eu escapei do seu peso rindo. Recuso quaisquer traduções intelectuais desse riso, já que minha escravidão se tornaria a partir daquele momento.
A obra do escritor francês Georges Bataille (1897-1962) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...