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sábado, janeiro 03, 2026

YURIKO SAITO, MICERE MUGO, DIANA GABALDON, CATADUPAS & SONHO DA CIGARRA

 

 Imagem: AcervoLAM.

Tenho esperança nas pessoas, nos indivíduos. Porque não se sabe o que vai surgir das ruínas... O perdão de si mesmo é o mais difícil de todos os perdões...

Pensamento ao som do álbum Whistle Down the Wind (Razor & Tie, 2018), da cantora, compositora e ativista estadunidense Joan Baez (Joan Chandos Baez). Veja mais aqui.

 

Na pisada do toré (Uma canção pra cunhantã Chenoa) – Vivos olhos nativos afagam meu coração mestiço. Eram faróis na majestosa acangatara e com a graça de suas pestanas suspensas exalando o cheiro quente do afeto. E a sua delicada voz a me embalar num tapete mágico feito de nuvem baixinha passageira. É ela minha filha vestal com seu penacho de fogo, uma estrela Maire-monã que me diz da criança ainda por nascer na gravidez dos caminhos. E da sua boca juvenil os cantares semeiam anunciando os festivos renascimentos com todo brilho da palavra perdida e nela ascendemos pela chuva a lavar dentro de mim o que rega a terra e amadurece ao paladar os doces frutos e inebria com o bálsamo das flores ao olfato, abraça saberes e sabores sem que haja explicações. Não há porquês, tudo é onde qualquer domicílio e quando todos os momentos do visinvisível na festa dos milagres, que nem são só mais desdobramentos do que é uno e suas tantas outras metades pelos grãos, chuviscos, ondas do mar, remoinhos dos rios, faíscas do fogo, a brisa dos ventos, a poeira do chão abrigo dos meus mortos sagrados, o arco-íris e o avesso do ermo: oásis se expande sorridente para a profusão dos dançares das plantações, dos brincares de véspera das colheitas, dos teceres e as parições da vertigem da vida pelos abismos, o botão de rosa, as flores do jardim, o voo dos pássaros, os galhos das folhas, as pedras do caminho, o alto da montanha, os nomes chamados e as celebrações dos estiares na plenitude do Sol. E os falares reluzem as pálpebras pros olhos serenos, ternura de mãe. E o eco da voz é minha e a de todos os ninguéns, porque a Lua alumia as noites na palma da mão e revela as linhas dos recados ancestrais Quechuas, Mapuche, Navajo, Maia, Guarani, Yanomami, Haudenosaunee e de todos os originários de Abya Yala que somos. E suas mãos desenham no ar todas as fábulas do imaginário pela magia invisível das sombras das fruteiras, das oferendas dos pomares e pelos passos das estradas, contando a distância limítrofe do que há por trás de todos os mistérios: as águas são espelhos e tudo respira mostrando as coisas secretas para a alma atenta, que sente as sutis emanações pelas brechas que guardam as vozes escondidas de Iara que é Boiúna, a Cobra-Grande, com seus olhos de fogo e chifres refulgentes de quem vive no fundo dos rios e Jaci já vem com um buriti, o cipó dos sonhos, a nos avisar que Ceiuci anda faminta e não amedronta, não mais que as mais de quinhentas vagantes inexatidões mais esgarçadas, dos desfeitos laços e a esperança fugidia à espera, como uma criança desolada por ver nossos extravios, a ameaça do medo e a culpa imposta. Não mais a casa da infância destruída e os que procuram por si próprios e não se encontram, tontos com as voltas do mundo nas longas noites asfixiantes dos que ganham e perdem entre os que foram caraíbas perós e outros invasores. Porque no espelho das águas o outro lado escondido das coisas: a casca de ovo se quebra para realizarmos o dia inventando a noite enluarada, um canto proutrantos e todocês. Até mais ver.

 

Rigoberta Menchú: Os povos indígenas nunca tiveram, e ainda não têm, o lugar que deveriam ter ocupado no progresso e nos benefícios da ciência e da tecnologia, embora representassem uma base importante para esse desenvolvimento... Que haja liberdade para os indígenas, onde quer que estejam no Continente Americano ou em outro lugar do mundo, porque enquanto estiverem vivos, um brilho de esperança estará vivo, bem como um verdadeiro conceito de vida... Veja mais aqui.

Patti Smith: Liberdade é... o direito de escrever as palavras erradas... Acredito que nós, este planeta, ainda não vivemos nossa Era de Ouro. Todos dizem que acabou... a arte acabou, o rock and roll morreu, Deus morreu. Que se dane! Esta é a minha chance no mundo. Eu não vivi lá na Mesopotâmia, não estive no Jardim do Éden, não estive com o Imperador Han, estou aqui e agora e quero que agora seja a Era de Ouro... se ao menos cada geração percebesse que o momento para a grandeza é agora, enquanto estão vivos... o momento de florescer é agora... Faça com que suas interações com as pessoas sejam transformadoras, e não apenas transacionais... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Simone de Beauvoir: Mude sua vida hoje. Não jogue no futuro, aja agora, sem demora... A palavra amor não tem de modo algum o mesmo sentido para ambos os sexos, e esta é uma causa dos graves mal-entendidos que os dividem... Desejo que cada vida humana seja pura liberdade transparente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

QUERO QUE VOCÊ SAIBA

Imagem: AcervoLAM.

Quero que você saiba \ com que cuidado? \ Reguei os brotos tenros. \ você plantou \ no meu pequeno jardim. \ Agora, flores enfeitam o chão. \ As frutas estão maduras. \ Venha \ Traga uma cesta de vime resistente \ e traga consigo também \ o melhor vinho de palma \ que seu especialista em tapping \ possa preparar \ Devemos festejar e beber vinho \ até altas horas da madrugada \ dos nossos breves dias juntos \ Alegria e amor \ será o nosso dia a dia \ canções de colheita.

Poema da escritora, dramaturga, editora, professora e ativista queniana Micere Githae Mugo (Madeleine Micere Githae – 1942-2023), que foi perseguida, prasa e exilada em 1982, por conta da ditadura que se instalou em seu país, coibindo sua luta contra os abusos aos direitos humanos. A partir de 1984 tornou-se cidadã do Zimbábue: Sou filha do universo, já morei em quase todos os continentes. Escrever pode ser uma tábua de salvação, especialmente quando sua existência foi negada, especialmente quando você foi deixado à margem, especialmente quando sua vida e processo de crescimento foram submetidos a tentativas de estrangulamento.

 

VÁ DIZER ÀS ABELHAS QUE EU FUI EMBORA - [...] Você não deixa de amar alguém só porque essa pessoa morreu [...] As refeições eram o meu tormento diário; não tanto o trabalho constante de colher, limpar, picar e cozinhar — embora essas atividades fossem bastante desagradáveis por si só — mas principalmente a tarefa interminável de lembrar o que tínhamos à mão e equilibrar o esforço necessário para tornar a comida comestível com a consciência do que poderia estragar se não a comêssemos imediatamente. [...] Mas cada um de nós é chamado a viver a vida nos pequenos momentos; a praticar a bondade, a arriscar nossos sentimentos, a dar uma chance a alguém, a atender às necessidades das pessoas que amamos. Porque Deus está em toda parte e vive em todos nós. Esses pequenos momentos são Dele. [...] O corpo forma cicatrizes internas, assim como cicatrizes superficiais, quando uma ferida cicatriza — e o mesmo acontece com a mente. [...] O perdão faz com que as coisas desapareçam. [...] Ao longo dos anos, vi muitos pacientes doces, amáveis e dóceis, que sucumbiram em poucas horas às suas doenças. Os filhos da puta raivosos, irascíveis e difíceis (de ambos os sexos) quase sempre sobreviviam. [...] Quando se tem filhos, existe aquele pequeno período em que você é tudo o que eles precisam. E então eles saem dos seus braços e você fica com medo de novo, porque agora você sabe todas as coisas que poderiam machucá-los, e você não consegue protegê-los. [...]. Trechos extraídos da obra Go Tell the Bees That I am Gone (Century, 2021), da escritora estadunidense Diana Gabaldon (Diana Jacqueline Gabaldon), que também expressa: O que está subjacente à grande ciência é o que está subjacente à grande arte, seja ela visual ou escrita, e essa é a capacidade de distinguir padrões fora do caos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

O PAPEL DA EDUCAÇÃO ESTÉTICA NO COTIDIANO - [...] A educação estética em nosso cotidiano é, portanto, inestimável para questionar várias premissas estéticas que regem nossas vidas e sociedade, desenvolvendo o que pode ser chamado de alfabetização e vigilância estética, ao estarmos cientes das consequências dessas premissas, direcionando nosso poder reside na criação de um mundo justo, humano e sustentável, e na promoção de uma vida sustentada e enriquecida pelas relações estéticas que formamos com os outros, sejam pessoas, natureza ou mundo artefatual. Somos empoderados e responsáveis por moldar o mundo por meio de nossas práticas cotidianas, e a estética desempenha um papel surpreendentemente significativo. [...]. Trecho extraído do estudo The Role of Aesthetic Education in Everyday Life (Philosophy of Education Society of Great Britain, 2025), da filósofa e professora japonesa Yuriko Saito, que é autora da obra Everyday Aesthetics (‎ Oxford University Press, 2010), no qual analisa a sensibilidade aos objetos e às pessoas em uma ampla gama de artes e ofícios japoneses, incluindo paisagismo, haicai, pintura, cerâmica e culinária, enfatizando que o cultivo de uma atitude moral em relação às coisas é frequentemente praticado por meio de recursos estéticos. Veja mais aqui & aqui.

 

JAQUE MONTEIRO & I OFICINA DE CATADUPAS DO BRASIL

Foi lançado o livro da I Oficina de Catadupas do Brasil - 2025, uma parceria das poetas jaque monteiro, a criadora do gênero poético, ministrante e coordenadora da Oficina, e noi soul, do Projeto Pulsão Poética, que passou a ser a Madrinha da Catadupa e coordenadora da Oficina. Trata-se de um puro movimento, assim como uma cachoeira, representando inovação no cenário literário brasileiro e um gesto de amor pela língua portuguesa. O livro reúne poemas dos primeiros poetas catadupistas brasileiros. Confira a entrevista com os poemas de Jaque Monteiro aqui e detalhes sobre o livro aqui. E mais aqui.

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ADMMAURO GOMMES & O SONHO DA CIGARRA

O professor de Teoria Literária, poeta, cronista e membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), Admmauro Gommes, comenta a publicação do livro infantil O Sonho da Cigarra (Asinha, 2025), da palmarense Taciana Cruz e de sua filha Kristina Cruz, nascida na então República Theca, hoje Tchéquia. Confira aqui & mais aqui.

 

A poesia de Manuel Bandeira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Lins & a Revolução Pernambucana aqui.

A pedagogia de Paulo Freire aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Tereza Costa Rego aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Abelardo da Hora aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Geninha da Rosa Borges aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A música de Moacir Santos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A poesia de Cida Pedrosa aqui & aqui.

A arte do Mestre Vitalino aqui, aqui & aqui.

A arte de Bia Villa-Chan aqui.

Veja Portfólio aqui.

 


segunda-feira, fevereiro 15, 2016

BEAUVOIR, NIMAH ISMAIL NAWWAB, PULLMAN, ISADORA DUNCAN & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: O RAIO ERRABUNDO DO AMOR... -Como foi? Assim: ela me convidou pra jantar e saiu me arrastando pelos cantos, resolvendo umas coisas aqui e ali, conversa vai e vem, lá pras tantas parou o carro: sou Mona, sou Zé, uma coincidência aqui e ali, uma talagada com uma surpresa junto, o que se fez da vida, por onde o tempo passou, topadas, desenganos, afinidades, o livro tal que impactou, os filmes que nunca vi, os lugares onde andou e eu de queixo caído com a salada de assunto que entrava e saía pela porteira da fazenda e voltava pela janela do quarto num dia de chuviscado maneiro; das nuvens negras, dos dias de sol em pleno inverno, dos temporais no verão, o que foi e não mais voltou, como também o que retornou mais de uma vez para nunca mais, o que tinha vivido e morreu, o que subiu a ladeira e encarou o que não tinha mais fim pela frente, o que era de segunda e foi para terça, o que foi na manhã de quarta e só deu de valer cinco anos depois, numa quinta que mais parecia sexta-feira do ano passado, justo quando já era sábado quase domingo na maior pisada e se tem uma coisa que aprecio é desafio de repentista numa embolada boa: Cala boca, bestalhão, não soubesse responder, meti o freio nos queixos, a sela mandei fazer! E o que é o que é fora adivinhação, turunas no coco, de eu ficar entretido por horas no meio do mourão, às gaitadas com o desafio nos oito pés do quadrão, segurando o galope até as décimas dum martelo na maior precisão. Nem aí de ver o tempo passar. Coisa mais linda de se ver. Para encurtar a história que a coisa tem mais episódio que novela arrastada: quando dei fé, estávamos ambos nus e já era segunda-feira. Isso mesmo, já pensou? Três dias encarreados! De primeira, foram vinte e duas horas de conversas labirínticas e tome teitei, a gente botava as mãos pelas pernas e saía pelos cambitos de pinto e na volta da cancela. Parece mais que desmaiamos de tantos birinaites e blábláblá. Bastou despertar e o desjejum foram outras viradas de copos regados a toques e afagos, tome lero, cacaqui cacacá, os giros do mundo, as artes perdidas, amores desfeitos, as dores da vida, e mais que engrolasse na língua e desse disso e daquilo da gente se perder estrada de ida, caminho de volta, arrodeios e migrações mentais, cada curva na ideia chega da gente errar feio pronde ia ou se ficava. Pense numa mulher cativante, tanto falava bonito da gente se engraçar logo de chapa, inteligente de muitas sabedorias, jeitosa da gente se arranchar por perto e não querer sair mais. Ela sabia ter um poder sedutor de deixar a gente tudo de boca aberta no meio de suas histórias, feito uma Sheherazade toda reboculosa que deixa a gente babando pelos encantos e falações. E olhe que quando ela se aninhou nua pras minhas bandas, eu queria lá mais sair dali, nunquinha! Era mais de meio dia quando ela me deixou onde nos encontramos e a vida seguiu conforme a gente chega num canto e se aboleta nos ponteiros do relógio sem saber qual dos calendários passados ou vindouros na verdade está vigente. Afora o efeito em cadeia que isso causa no de dentro da gente, de se sonhar pelos dias levitando como quem está nem aí pro que desse e viesse. Ah, coisa de jamais esquecer... Quase uma semana depois, fui surpreendido numa esquina por dois policiais que me apalparam assim do nada, seguraram meus braços, um em cada lado, como se detido por uma situação enrolada que sequer entendi e fui levado à delegacia, submetido a uma série de interrogatórios sobre mim, o que fazia da vida, onde morava, documentos, familiares, perguntas disso e daquilo, sabia que queriam pelar meu couro, desbotar minha foto e queimar meu filme, só sendo. Perguntavam, respondia. O que fiz? Não podia perguntar, só responder. Findei num xilindró sob a maior ostentação, mas não escreveram nada, não me pediram nada, só me prenderam. Estava sobrecarregado de interrogações, sempre andei na linha, acho. Nunca fiz nada e só uns quatro ou cinco dias depois, não sei direito, havia perdido a noção de tudo, é que fui levado ao doutor delegado que vociferou ameaças e disse coisas que fiquei de olhos esbugalhados e cabelo em pé, sem saber a razão para tanto. Havia umas bronquinhas para minha banda, confesso, coisa passada e já fazia muito tempo; acho que juntaram as peças que prescreveram no tempo e queriam deixar tudo em dia para me ferrar na vida, não sei, pode ser que sim ou não. O advogado? Ora, ora, arrumaram um desses gravatudos todo ilustrado. De primeiro, esteve comigo e contei que não era Kafka, mas estava enrolado com o que não sabia. Ele então levantou-se e saiu sem dizer nada. Dois dias depois reapareceu dizendo que havia investigações sobre mim e que eu fui acusado de sequestro. De quem? Sigilo. Ué, como é que eu sequestrei o que não sei? Você está enrolado com o cara mais poderoso no seu pé, pronto para devorá-lo. Quem? Você sabe. Se soubesse não perguntava. Bem, se prepare; vou ver o que posso fazer. E sumiu. No outro dia, lá estava eu na frente do juiz, do promotor e o tal advogado do lado. O juiz bateu forte e me acusou dum monte de coisa que nem entendi. Passou pro promotor que parecia mais que queria arrancar a minha alma fora e me deixar mais culpado que quem comete todos os pecados dos dez mandamentos, tudo duma vez só. Foi a vez do meu advogado que se dignou a dizer apenas que eu era inocente e nada mais disse nem lhe foi perguntado. Ora, depois dos sermões de mais de hora do juiz e do promotor arregaçando firme no meu espinhaço coisas que sequer imaginei que fiz, o causídico mais fuleiro achou de não dizer nada e ficou por isso mesmo. Ora, ora. Aí eu me revoltei e pedi para falar, o juiz me mandou calar e dirigiu-se ao meu advogado: Diga pra ele que é melhor ficar calado para não piorar as coisas. Mas eu quero me defender, excelência! Você não pode se dirigir a mim, só seu advogado. Você só fala comigo quando eu perguntar. Não perguntei, fique calado. Olhei para ele assim dum jeito de vê-lo destamaínho de nada. O meu advogado notou e cochichou no meu ouvido: Fique calado que é melhor pra você, comporte-se, deixe ele julgar que eu recorro e solto você. Respirei fundo, contei até dez, errei, contei até vinte, errei e comecei a contar carneirinho até não sei quanto para controlar a raiva. Assim me entreti sem que visse a sentença do juiz. Sei que algemado estava e assim fiquei, findei de volta na mão do delegado que sorria alisando as mãos com uma cara de vingador para a minha banda. Deu-me esporro até umas horas porque eu me meti a cavalo do cão de querer enfrentar o juiz, atitude para ele besta demais e que eu merecia mesmo era umas lamboradas boas para aprender a tratar com autoridades. Ouvi tudo calado, olhando bem nos olhos dele. Ele fumaçou e disse poucas e boas. Até aí, tudo bem. A cabeça esquentou mesmo quando ele partiu para pegar na minha beca e me deu uma tapa na cara, cuspindo maior ameaça. O sangue ferveu e ceguei, não tinha quem me segurasse mais. Pense num aperreio! Saí atropelando quem estivesse na frente, nunca dei tanto murro nem nunca estapeei tanta gente, sei que derrubei um bocado de samango que apareceu, cheleleu, atrapalha-vida, levei tudo nos peitos e na força da munheca saí numa carreira desabalada pelo meio da rua, uma tuia de arma nas mãos inimigas e correndo atrás com mira na minha cabeça, o povo abrindo caminho assustado e, depois de muita perna em ziguezague, tirada de fino e saltos pinotados, alcancei o rio, mergulhei e só ouvi o zunido no juízo passando rente. Agora eu tinha realmente um problema de verdade, mas não tinham me pedido nada, não tinham nada escrito, só perguntas, nem um pule de bicho, nada, o juiz e o promotor, o advogado, tudo de boca, acho que estavam me segurando, apenas. Agora está feito. Nunca nadei tanto, até me perder de nem saber onde foi mesmo que parei, impossível me perder num rio que conhecia como a palma da minha mão, da nascente à foz; talvez delirasse, não sei, agonizando, a ponto de perder os sentidos e dar braçadas automáticas sem saber para onde, só sendo. Sei que findei já bastante exaurido, os braços doendo que só, câimbras nas pernas, goela seca, fungado pesado, era um matagal alto, ninguém por perto nem de longe; e ali quedei e me rendi de adormecer não sei por quanto tempo. Ao despertar de um pesadelo agoniado, não tinha a menor ideia onde estava nem que horas eram, se manhã ou tarde; também não sei se era o meu rio ou um dos seus afluentes, tudo era muito estranho. Só podia ser afluente. Aquelas paragens, em toda minha vida, descendo e subindo, jamais vira. Precisava pensar melhor, aprumar as ideias que estavam reviradas de não deixar entender nada e, afinal, descobrir o que havia feito para passar pelo que passei. A vida prega suas peças... eu sei. Fiquei na minha matutando. E foi só com o passar de dias e meses, aos poucos é que fui montando o quebra-cabeça e, ao mesmo tempo, tomando conhecimento a respeito dos meus digníssimos algozes. Perguntando aqui e ali a um e outro, contando com a ajuda não só do meu amigo, Orfeu, como das simpaticíssimas senhoras que pululavam ao meu redor, pude fazer um apanhando bom de cada um deles, tomando por base a observação de populares e opiniões pessoais dos inquiridos, a ponto de poder traçar um perfil personalizado deles. O primeiro e mais competitivo na repulsa popular foi o ilustríssimo senhor delegado que, por exemplo, era mais conhecido popularmente por doutor Dino, um empalitozado mediano do bigodinho ralo embaixo das ventas, viciado em dar tabefes e exímio em desancar nariz empinado e rei na barriga em quem quer que seja, principalmente se for entre os menores que ele, os frouxos peidões e os grandões que ele mirasse a capacidade de derrubá-los. Nunca aliviou na dose de suas atividades, sempre disposto a dar apertos, porradas e cacetadas em quem tivesse na sua frente ou vítima de uma investigação policial. Para sua guarida profissional, era carne e unha com o ricaço Coronelão, a ponto de ser apelidado pela maioria dos ouvidos como Capacho do Homem, e muitíssimo achegado ao juiz, gozando, inclusive, de sua simpatia e de sua digníssima esposa. Era casado, aliás, continua sendo, sem que se saiba ao certo quem é a sua esposa, vez que vive enclausurada em casa, de sequer botar um fio de cabelo fora do lar, reservando-se sua saída no carro blindado do marido para compras fora das vistas e do alcance de qualquer ser humano local. Duvido até quem a tenha visto estes anos todos. Há sempre um mal estar entre ele e a digníssima esposa do magistrado, toda vez que se encontram, em razão dela perguntar pela esposa dele e da desculpa sempre dada de que está em casa com seus afazeres, ao que ela na bucha pergunta: Por que não a trouxe, quero conhecê-la; e ele no aperto, com a mesma desculpa de sempre: Não faltará oportunidade, honradíssima senhora, logo logo ela se recuperará de mal-estar intermitente e se livrará dos afazeres de casa para vir conhecê-la pessoalmente e privar da sua nobre amizade. Os dois, a esposa do juiz e o delegado, se antipatizavam disfarçadamente, mas levavam o papo no convencional da etiqueta, não deixando a mesma de alfinetar sua displicência em não levar a coitada da pobre esposa para os eventos em que se exigia a presença de casais. Com muito tato ele saía da saia justa e se desembocava pras bandas do juiz que lhe era mais amigável, favorecendo, desta forma, que mantivesse a ele ligado sempre que precisasse. O doutor policial só não queria mesmo era conversa com a sua santidade o bispo, justamente por desencavar por meio de investigações para lá de sigilosas e, sobretudo, para tirar proveito e chantageá-lo, de umas práticas um tanto escusas e inapropriadas para uma personalidade inatacável como a do prelado, chegando ao topete de querer prendê-lo a fim da força, pelo desvio de doações internacionais em dinheiro e mantimentos para as vítimas de uma enchente que arrasou vários municípios da região. Essa avultada dinheirama que compreendiam milhões em dólares e as fartas toneladas de mantimentos, a santíssima autoridade deu cabo de desviar de sua finalidade, negociando lucrativamente com empresas e comerciantes locais e regionais, senão nacionais, deixando a população com resíduos de migalhas dos donativos e outras porqueirinhas de somenos importância. Recaía também sobre o sacerdote a suspeita da prática de agiotagem com a dinheirama arrecadada. Essa relação ainda mais se agravou com astuta e diligente caça de padres, uns por conta de atividades comunistas tidas por ele como terroristas, e uns outros por conta da detestável prática de pedofilia com fiéis de ambos os sexos, entre outras arroladas no dossiê que era mantido em segredo a sete chaves num cofre recôndito que só ele sabia onde se encontrava. Em nenhuma dessas investidas ele foi exitoso, tendo sido pressionado por uma operação transversal de abafa, mantendo uma rixa constante levada por quebra de braço política interminável. Também não ia com a cara do promotor, a quem se referia aos cochichos entre os seus como Bichona Louca, justo porque o representante do Ministério Público deu-lhe uma enquadrada chamando na grande referente aos abusos de autoridade cometidos pela invasão sem mandatos judiciais aos domicílios e estabelecimentos comerciais, para realização tanto de acusações infundadas, como para a determinação de cotas de subvenção voluntária que, na verdade, eram para ele delegado de natureza compulsória, por conta de seus serviços prestados à população, acrescida ainda da prática costumeira de tortura e humilhações públicas e privadas, que a população chamava de sessão religiosa, tanto de fatos de todos que passassem pela sua mão findavam em deplorável estado ou estendidos em emergências hospitalares, fossem devidamente suspeitos ou não, desafetos, ou mesmo inventando acusações contra quem ele não fosse com a cara. Entre os advogados havia um pacto firmado por ele e a categoria de convivência pacífica, tendo três deles que acharam de criar asas, dois deles levaram a maior carreira de se mijar depois de uma revolvada na cara e um terceiro que o Coronelão mandou matar como presente de aniversário do compadre delegado. Depois da minha fuga, ele jurou que me daria uma pisa para me capar e depois matar aos pouquinhos de murros e pisadas e que todos tivessem isso como líquido e certo para muito em breve, tão só bastando ele colocar suas fajutas mãos sobre mim que logo seria satisfeito o seu juramento público. Só tive oportunidade de dar de cara, frente a frente, com este senhor umas duas vezes, para nunca mais. Passe bem. Por outro lado, o excelentíssimo senhor doutor juiz que era de sua íntima relação, foi identificado pela população como uma figura de metro e meio folclórica, guardando feições e inspiração em Hitler que era seu guia material e espiritual, figura bastante espalhafatosa porque gostava de prender gente ao bel prazer dele e que, por isso, passou a ser conhecido pela alcunha de Teje-Preso. Tanto é que ninguém sabe o nome dele, só o apelido. Há anos na comarca, uma vez ou outra ele gosta de sair num passeio pela cidade durante o expediente, encarando passantes em busca de identificar suspeitos e prendê-lo preventivamente antes da prática do crime. Diz ele ser uma ação cautelar de foro íntimo: encarava os olhos do sujeito, media testa e mandíbula do mal-encarado, conferia a arcada dentária e os recortes das faces, conferia a existência de tatuagem ou sinal no corpo, conferia tudo e, dependendo da situação, o escolhido ou era preso na hora, ou passava a ser investigado como suspeito, ou mesmo ganhador dumas visitinhas intempestivas até checar ao que realmente pudesse vir a ser um cidadão de bem. No tempo dele, a delegacia e o presídio que fora construído em sua homenagem e que a população chamava de Detenção do Teje-Preso, estavam superlotados, vez que ele se incumbia de instruir o inquérito, fazer as investigações e julgar na mesma hora condenado quem lhe fosse antipático. Também gostava durante esses passeios de soltar umas gracinhas para o público feminino e, mesmo antecipadamente conferindo cauteloso todos os lados, ao largar uma cantada bem dada de deixá-la sem saber se dava ali mesmo ou para onde queria levá-la, fosse, solteira, casada, viúva ou divorciada, ficava todo ancho e maior que o próprio tamanho. Não contava, entretanto, apesar de todas as suas conferências preventivas, com o aparecimento da nobilíssima esposa em flagrante, justo na hora que ele mal terminava de soltar a libertinagem: Tenha vergonha nessa cara, velho safado! E a tapa comia no centro e na frente de todo mundo. Afora as vezes que ela invadia as dependências do Fórum, batendo a porta com força, derrubando processos e suspendendo audiências ou a sessão do júri, reclamando por que ele se esqueceu de comprar o berço do neto, ou não mandou o motorista para levá-la ao cabelereiro, ou esquecido de atender ao telefone, ou coisas de pouca monta, numa verdadeira sessão de xingamentos e puxavanques. E se pegasse ele bebendo nos bares ou onde quer que fosse, virava o copo sobre sua cabeça, molhando-o todo e com o devido espetáculo escandaloso, matá-lo de vergonha perante os olhares gerais. Por conta disso, ele mantinha um relacionamento equidistante com as demais autoridades, excetuando apenas uma intimidade mais estreita com o amiguíssimo senhor delegado, que também era tratado pelos populares como o serviçal do juiz, não só preferido por ele como por sua nobre e desconfiadíssima consorte; gozando, inclusive, dos privilégios da cozinha e da sala de jantar deles. Por uma única vez estive diante desta figura impoluta para nunca mais. O promotor que só tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente no dia do meu julgamento, deu-me a impressão de que era uma pessoa aparentemente requintada, firme e presidente de tudo: Lions, Rotary, Associações e Institutos, diretor de colégios e apreciador de bailes e festas dançantes, exímio dançarino que era. O nome dele também ninguém sabia, só o chamavam de Promotor, o desalmado. Não se sabia ao certo se era casado ou não, uma vez que ele morava fora e não dividia seu espaço íntimo com ninguém da sociedade local. Mantinha uma ótima relação com todos, tendo apenas encrenca com o delegado que, a seu ver, passava da conta nas práticas de tortura e na captação de subvenções ilegais de pessoas físicas e jurídicas da cidade e região para uso próprio. Não arredava o pé de sapecar dificuldades para o seu desafeto, como também de estar sempre disposto para uma quebra de braço só para mostrar para ele quem mandava em quem. Por baixo dos panos, as más línguas corroboradas pelas insinuações vingativas do ilustre doutor delegado, davam conta que ele, o procurador, queimava o bozó, não havendo ainda hoje, quem tivesse coragem de provar ou dizer de peito aberto para todos. E só. Já o bispo era uma unanimidade local e regional, o Dom Bispo – que era mesmo o nome e o cargo, ao mesmo tempo, Bispo não sei lá das quantas -, relutante apenas com o delegado que, a seu ver, queria atrapalhar as atividades diocesanas, perseguindo padres do seu rebanho, afora fiéis e beatas, bem como de levantar falso com acusações infundadas sobre o encaminhamento que dava às suas atividades cristãs. Ele era uma figura querida pelo Coronelão, pelo prefeito Cabraí, pela digníssima senhora esposa do magistrado, pelo insigne promotor público e, sobretudo, pelo que se passou por meu advogado, uma vez que este é filho de um padre amigo seu. Há, inclusive, uma campanha capitaneada pela benemérita esposa do magistrado e por aquele que se apresentou como meu advogado, reunindo milhares de cristãos papa-hóstias e beatas, num movimento de santificação dele, tendo até agenda marcada com o papa no Vaticano para sua devida canonização. Enquanto isso, aquele que foi designado como meu defensor é um bacharel da cara lambida todo embecado, cheio do palavreado rebuscado e apelidado de Marca-Bosta – é assim que todos se referem a ele, sem que se saiba seu nome. É tido por filho de um certo padre Abinadilton, antigo pároco de Gideão-do-fundo, afilhado baba-ovo do Coronelão, sobrinho de coração do promotor, afilhado do bispo e compadre do delegado. Só não tem relações mais estreitas com o magistrado porque a digníssima esposa dele botou-lo pra fora certa vez que chegou querendo agradar mais do que o necessário. Para se livrar das garras dela e do seu esposo, conseguiu aderir à loja maçônica para se proteger, atuando como especialista em acidentes de trânsito e espólios vultosos, tomador de umas e outras socialmente, indubitavelmente falso e perito em fazer intrigas e armar cruzetas. É presidente da seccional da Ordem dos Advogados na localidade e, conforme recolhido do converseiro popular, quem tiver dinheiro pode contar com ele; liso, jamais. Por outro lado, o prefeito Cabraí nunca vi nem quero ver. Há que se levar antecipadamente em consideração que face a sua gestão desastrosa e à condução de influenciar nos resultados da pesquisa bocouvido popular no seu perfil, uma vez que tratam-no inicialmente por calhorda cheleleu do Coronelão, subindo o índice para energúmeno e, em declive mais rasteiro, ele alcançou a pecha de sem-vergonha, tido como marido das viadas, viciado em jogo e trambiqueiro velhaco que não gosta de pagar nada, nem promessa ao santo de sua devoção que desceu dos céus um dia para cobrá-lo em pleno expediente na prefeitura, armando o maior escarcéu por sua inadimplência. Houve até quem dissesse: Vá lá que o cara não goste de honrar os compromissos assumidos, mas passar calote em santo é imperdoável. No descarte ainda assinalavam que ele foi eleito e só se elegeu por conta do apoio do Coronelão que, já antes do meio do mandado resolveu passar a perna corajosamente, o que lhe garantiu o apelido de Traíra das costas ocas. Mais nada se soube nem se foi dito a respeito dele. Por fim, o eminente ricaço Coronelão que tem apenas, segundo a esmagadora maioria, uma virtude: a de ser o pai de Mona e marido da madame, dispensando-se os demais atributos porque ninguém detectou umazinha sequer: nunca vi, nem quero conhecê-lo. O que se fala dele entre os pesquisados é de titulatura variada, que vai desde pai dos pobres de mentira, entre os simpáticos; até anjo da morte, entre os que guardam resistência quanto a sua pessoa, afora infamantes cognomes não reproduzíveis aqui por conta de se tratar de extensa lista que requereria rolos e toneladas de páginas e papeis. Colocado os nomes em votação na condição de simpático, nenhum deles alcançou além da sofrível marca de zero por cento; enquanto que noventa e nove por cento dos ouvidos tacham todos eles como sabidos desinfelizes, sendo este o eufemismo mais satisfatório para ser usado do que foi apurado na minha pesquisa. Na rabeta, detectou-se que apenas zero vírgula um por cento de quem tachou-os de autoridades indigestas. Procurando saber qual a razão para tal resultado, observou-se que unanimemente havia a preferência de todos terem o direito de ficar calado a ter que mencionar que se borravam de medo só de ouvir falar quaisquer dos nomes ou que ninguém era leso suficiente para cair na esparrela de colocar para fora o que realmente pensava de cada uma dessas personagens ilustres. O melhor colocado na simpatia do povo, se assim se podia dizer, foi O Promotor por ser bastante educado e ser um bom dançarino capaz de levar uma multidão pendurada nas janelas para vê-lo dançando com alguma dama da sociedade, como rodopiando em voos solos de balé, sempre arrancando aplausos e fius-fius dos presentes e dos rejeitados... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

É muito importante apoiar aquilo em que você acredita... Vivo o meu sonho... Faça o que você ama...

Pensamento do cineasta taiawanês Justin Lin, que na sua filmografia estão Star Trek Beyond (2016), Fast & Furious (2013), Finishing the Game (2007), Annapolis (2006), Spotlighting (2005), entre outros.

 

ALGUÉM FALOU:

Eu não sou alguém que grita. Eu sou cantora...

Pensamento da atriz, cantora e escritora estadunidense Jessica Harper, que atuou como Suzy Bannion no filme Suspiria (1977), de Dario Argento.

 

A FACA SUTIL - [...] Cada pequeno avanço na liberdade humana foi objeto de uma luta feroz entre aqueles que querem que saibamos mais e sejamos mais sábios e fortes, e aqueles que querem que obedeçamos, sejamos humildes e nos submetamos. [...] Eu sei contra quem devemos lutar... é contra a Igreja. Ao longo de toda a sua história, ela tentou reprimir e controlar todo impulso natural. É isso que a Igreja faz, e todas as igrejas são iguais: controlar, destruir, aniquilar qualquer sentimento bom. [...] Pelo que somos, espírito; pelo que fazemos, matéria. Matéria e espírito são um só. [...]. Trechos extraídos da obra The Subtle Knife (Yearling Books, 1997), do escritor britânico Philip Pullman, autor de obras como The Golden Compass (1996) e The Amber Spyglass (2000).

 

MIL E UMA NOITES - Quando o chamado do hudud \ ecoa pelas folhas de palmeira \ carregando em suas névoas \ visões e memórias: \ Caravanas de cavalos vigorosos, \ cruzando os mares infinitos de areia, \ atravessando o oásis, \ livres, mas sob controle. \ De mulheres lavando-se nas fontes termais, \ abrigadas sob as palmeiras perenes, \ tecendo cestos, \ cozinhando, costurando, correndo atrás dos rebanhos, \ de dias repletos de trabalho. \ Visões, memórias: \ Cascata de luz estelar, \ lançando sua suave luz sobre os acampamentos, \a sombra prateada do luar \ iluminando rostos barbudos, \ meninos batendo os pés \ ao ritmo selvagem do tambor do deserto \ Dana, ya dan dan \ Cantando sobre as pérolas no distante golfo \ Dana, ya dan dan\ A brisa quente com aroma de cardamomo, \ carregando o cheiro de café fresco, \ aquecendo e crepitando nas panelas douradas com ganchos, \ para as jovens risonhas \ que espiam timidamente por trás das paredes divisórias da tenda. \ Chamas tremeluzindo na fogueira, \ madeira lentamente consumida, faíscas voando, \ dançando ao ritmo da música: dana, ya dan dan. \ O grito do hudud \ ecoa pelo ar tranquilo da manhã, \ anunciando o alvorecer de um novo século. \ Visões, memórias, \ levadas pelos ventos da mudança. Poema extraído da obra Gathering the Tide: An Anthology of Contemporary Arabian Gulf Poetry (Ithaca, 2011), da escritora, ativista e fotógrafa saudita Nimah Ismail Nawwab.

 

ISADORA DUNCAN - A bailarina estadunidense Isadora Duncan (1878-1927) desde a infância extremamente pobre, ela já dançava acompanhada ao piano por sua mãe e aos seis anos ensinava às crianças da vizinhança, chegando a abandonar os estudos escolares para, com sua irmã Elizabeth, lecionar nas famílias ricas. Aos 17 anos mudou-se para a Europa, iniciando a carreira de dançarina em festas da alta sociedade de Londres. Estudou a arte grega, inspirando-se nas figuras de frisos e vasos. Viveu em Paris, inspirando Rodin e Bourdelle, e tornando-se quase um mnito. Nos lugares por onde passou, buscava fundar uma escola que educasse através da arte, porém, só obteve êxito ao seu convidada, em 1917, à Rússia, quando casou-se com o poeta Iessenin. Sua vida foi marcada por grandes tragédias, desde a morte de seus dois filhos, afogado no rio Sena, em Paris, o suicídio de seu marido, até a sua própria morte em Nice, quando viajando em um carro aberto, a echarpe que trazia ao pescoço se enrolou numa das rodas, estrangulando-a. Ela foi a precursora da dança moderna no séc. XIX, provocando verdadeira revolução no panorama da dança de espetáculo, rompendo com os dogmas do balé e trazendo a improvisação e a espontaneidade como principais características de seu modo de dançar. Pés descalços, vestida com uma leve túnica, tendo como cenário apenas uma cortina azul, foi exaltada por uns e violentamente criticada por outros. Sua dança não pode ser descrita segundo padrões estéticos, por representar exclusivamente uma projeção de sua personalidade e de seu temperamento. Em sua época ela foi, como artista e como ser humano, sob todos os aspectos, o rompimento com a tradição e com os dogmas: sua vida transformou-se em luta incessante pela realização de seus ideias. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


O SEGUNDO SEXO, DE SIMONE DE BEAUVOIR - [...] O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana? Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade. Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o "seccionamento" da humanidade em duas categorias de indivíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta. Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciência que se consideram essenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Pôr a Mulher é pôr o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante. Na realidade concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-la inteiramente. Cada qual se afirmando único, a consequência é existir uma pluralidade de mitos incompatíveis e os homens permanecerem atônitos perante as estranhas incoerências da ideia de Feminilidade; como toda mulher participa de uma pluralidade desses arquétipos que, todos, pretendem encerrar sua única Verdade, os homens reencontram, assim, ante suas companheiras o velho espanto dos sofistas que mal compreendiam que o homem pudesse ser louro e moreno a um tempo. A passagem para o absoluto já se exprime nas representações sociais. As relações aí se fixam facilmente em classes, as funções em tipos, assim como na mentalidade infantil as relações fixam-se em coisas. Por exemplo, a sociedade patriarcal, apoiada na conservação do patrimônio, implica necessariamente, ao lado de indivíduos que detêm e transmitem os bens, a existência de homens e mulheres que os arrancam a seus proprietários e os fazem circular; os homens — aventureiros, vigaristas, ladrões, especuladores — são geralmente condenados pela coletividade; as mulheres, usando de sua atração erótica, têm a possibilidade de convidar os jovens, e até os pais de família, a dissiparem seu patrimônio sem sair da legalidade; apropriam-se de sua fortuna ou captam sua herança; sendo esse papel considerado nefasto, chamam "mulheres más" as que o desempenham. Na realidade, elas podem, ao contrário, apresentar-se em outro lar — o do pai, o do irmão, do marido ou do amante — como um anjo da guarda; tal ou qual cortesã, que explora ricos financistas, é um mecenas para pintores e escritores. A ambiguidade da personagem de Aspásia, de Mme de Pompadour torna-se facilmente compreensível numa experiência concreta. Mas, se se afirma que a mulher é a fêmea do louva-a-deus, a mandrágora, o demônio, confunde-se o espírito ao descobrir igualmente nela a Musa, a Deusa-Mãe, Beatriz. Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico. Não se deve confundir o mito com a apreensão de uma significação; a significação é imanente ao objeto; ela é revelada à consciência numa experiência viva ao passo que o mito é uma ideia transcendente que escapa a toda tomada de consciência. Quando, em Age d'homme, descreve sua visão dos órgãos femininos, Michel Leiris oferece-nos significações e não elabora nenhum mito. O deslumbramento ante o corpo feminino, a repugnância pelo sangue menstrual são apreensões de uma realidade concreta. Nada há de mítico na experiência que descobre as qualidades voluptuosas da carne feminina e não se passa ao mito quando se tenta exprimi-las mediante comparações com flores ou pedras. Mas dizer que a Mulher é a Carne, que a Carne é Noite e Morte, ou que é o esplendor do Cosmo, é abandonar a verdade da terra e alçar voo para um céu vazio. Porque o homem também é carne para a mulher; e esta é outra coisa além de um objeto carnal; e a carne assume, para cada um e em cada experiência, significações singulares. É, também, inteiramente verdade que a mulher — como o homem — é um ser arraigado na Natureza; ela é mais do que o homem escravizada à espécie, sua animalidade é mais manifesta, mas, nela como nele, o dado é assumido pela existência, pertence também ao reino humano. Assimilá-la à Natureza é um simples parti pris.  Poucos mitos foram mais vantajosos do que esse para a casta dominante: justifica todos os privilégios e autoriza mesmo a abusar deles. Os homens não precisam preocupar-se em aliviar os sofrimentos e encargos que são fisiològicamente a parte da mulher, porquanto "são da vontade da Natureza"; eles se valem do pretexto para aumentar ainda a miséria da condição feminina, para denegar, por exemplo, à mulher, qualquer direito ao prazer sexual, para fazê-la trabalhar como um animal de carga. De todos esses mitos nenhum se acha mais enraizado nos corações masculinos do que o do "mistério" feminino. Tem numerosas vantagens. E primeiramente permite explicar sem dificuldades o que parece inexplicável; o homem que não "compreende" uma mulher sente-se feliz em substituir uma resistência objetiva a uma insuficiência subjetiva; ao invés de admitir sua ignorância, reconhece a presença de um mistério fora de si: é um álibi que lisonjeia a um tempo a preguiça e a vaidade. Um coração apaixonado evita, assim, muitas decepções; se as condutas da bem-amada são caprichosas, suas reflexões, estúpidas, o mistério serve de desculpa. Enfim, graças ao mistério, perpetua-se essa relação negativa que se afigurava a Kierkegaard infinitamente preferível a uma posse positiva; em face de um enigma vivo, o homem permanece só: só com seus sonhos, esperanças, temores, amor e vaidade; esse jogo subjetivo que pode ir do vício ao êxtase místico é para muitos uma experiência mais atraente do que uma relação autêntica com um ser humano. Em que bases assenta, pois, uma ilusão tão proveitosa? Seguramente, em certo sentido, a mulher é misteriosa, "misteriosa como todo mundo", na expressão de Maeterlinck. Cada um só é sujeito para si; cada um só pode apreender a si unicamente em sua imanência. Deste ponto de vista, o outro é sempre mistério. Aos olhos dos homens a opacidade do para-si é mais flagrante no outro feminino; eles não podem, por nenhum efeito de simpatia, penetrar-lhe a experiência singular. A qualidade do prazer erótico da mulher, os incômodos da menstruação, as dores do parto, eles estão condenados a ignorá-los. Na verdade, há reciprocidade do mistério; enquanto outro, e outro do sexo masculino, há no coração de todo homem uma presença fechada sobre si mesma e impenetrável à mulher; ela ignora o que representa o erotismo do macho. Mas, segundo a regra universal que verificamos, as categorias através das quais os homens encaram o mundo são constituídas, do ponto de vista deles, como absolutas: eles desconhecem, nisso como em tudo, a reciprocidade. Mistério para o homem, a mulher é encarada como mistério em si. A bem dizer, a situação dela a predispõe singularmente a ser considerada sob esse aspecto. Seu destino fisiológico é muito complexo; ela mesma o suporta como uma história estranha; seu corpo não é para ela uma expressão clara de si mesma; ela  sente-se nele alienada; o laço que em todo indivíduo liga a vida fisiológica à vida física, ou para melhor dizer, a relação existente entre a facticidade de um indivíduo e a liberdade que a assume, é o mais difícil enigma implicado pela condição humana: é na mulher que esse enigma se põe da maneira mais perturbadora. Mas o que se chama mistério não é a solidão subjetiva da consciência, nem o segredo da vida orgânica. É ao nível da comunicação que a palavra assume seu sentido verdadeiro: não se reduz ao puro silêncio, à noite, à ausência; implica uma presença balbuciante que malogra em se manifestar. Dizer que a mulher é mistério não é dizer que ela se cala e sim que sua linguagem não é compreendida; ela está presente, mas escondida sob véus; existe além dessas incertas aparições. Quem é ela? Um anjo, um demônio, uma inspirada, uma comediante? Ou se supõe que existem para essas perguntas respostas impossíveis de descobrir, ou antes, que nenhuma é adequada porque uma ambiguidade fundamental afeta o ser feminino; em seu coração, ela é para si mesma indefinível: uma esfinge. O fato é que ela se veria bastante embaraçada em decidir quem ela é; a pergunta não comporta resposta; mas não porque a verdade recôndita seja demasiado móvel para se deixar aprisionar: é porque nesse terreno não há verdade. Um existente não é senão o que faz; o possível não supera o real, a essência não precede a existência: em sua pura subjetividade o ser humano não é nada. Medem-no pelos seus atos. De uma camponesa pode-se dizer que se trata de uma boa ou má trabalhadora, de uma atriz que tem ou não talento; mas se se considera uma mulher em sua presença imanente, nada absolutamente se pode dizer, ela está aquém de qualquer qualificação. Ora, nas relações amorosas ou conjugais, em todas as relações em que a mulher é a vassala, o outro, é em sua imanência que é apreendida. É impressionante o fato de a companheira, a colega, a associada não terem mistério; em compensação, se o vassalo é masculino, se diante de um homem ou de uma mulher mais velhos do que ele, mais ricos, um rapaz se apresenta como o objeto inessencial, envolve-se ele também de mistério. E isso nos revela uma infraestrutura do mistério feminino que é de ordem econômica. Um sentimento também não ê nada. "No terreno dos sentimentos o real não se distingue do imaginário, diz Gide. E basta imaginar que se ama para amar, por isso basta dizer que se imagina amar, quando se ama, para amar um pouco menos..." Entre o imaginário e o real só há discriminação através das condutas. Detendo o homem neste mundo uma situação privilegiada, êle é que pode manifestar ativamente seu amor; muitas vezes sustenta a mulher ou a ajuda, Desposando-a, dá-lhe uma posição social; dá-lhe presentes; sua independência econômica e social permite-lhe iniciativas e invenções. Separado de Mme de Villeparisis, o Sr. de Norpois é quem fazia viagens de vinte e quatro horas para vê-la. Muitas vezes ele tem ocupações, ela não faz nada; o tempo que passa com Mme de Villeparisis êle o dá, ela o toma: com prazer, com paixão, ou simplesmente para se distrair? Aceita ela esses dons por amor ou por interesse? Ama o marido ou o casamento? Naturalmente as próprias provas que o homem dá são ambíguas: tal ou qual dom é feito por amor ou por piedade? Mas, enquanto normalmente a mulher encontra no comércio com o homem numerosas vantagens, o comércio com a mulher só beneficia o homem na medida em que ele a ama. Por isso, pelo conjunto de suas atitudes pode-se apreciar mais ou menos o grau de seu apego; ao passo que a mulher quase não tem meios de sondar o próprio coração; segundo seu temperamento, terá pontos de vista diferentes acerca de seus sentimentos, e enquanto os suportar passivamente nenhuma interpretação será mais verdadeira do que outra. Nos casos bastante raros em que ela detém os privilégios econômicos e sociais, o mistério inverte-se: o que demonstra que se liga não a este ou àquele sexo e sim a uma situação. Para grande número de mulheres os caminhos da transcendência estão barrados: como não fazem nada, não se podem fazer ser; perguntam-se indefinidamente o que poderiam vir a ser, o que as leva a indagar o que são: é uma interrogação vã; se o homem malogra em descobrir essa essência secreta é muito simplesmente porque ela não existe. Mantida à margem do mundo, a mulher não pode definir-se objetivamente através desse mundo e seu mistério cobre apenas um vazio. Demais, acontece que, como todos os oprimidos, dissimula deliberadamente sua figura objetiva; o escravo, o criado, o indígena, todos os que dependem dos caprichos de um senhor aprenderam a opor-lhe um sorriso imutável ou uma impassibilidade enigmática; escondem cuidadosamente seus verdadeiros sentimentos, suas verdadeiras condutas. À mulher também ensinaram desde a adolescência a mentir aos homens, a trapacear, a usar de subterfúgios. Chega-se a eles com máscara: é prudente, hipócrita, comediante. Mas o Mistério feminino tal qual o reconhece o pensamento mítico é uma realidade mais profunda. Em verdade, acha-se  ele implicado imediatamente na mitologia do Outro absoluto. Se se admite que a consciência inessencial é, ela também, uma subjetividade translúcida, capaz de operar o Cogito, admite-se que é, na verdade, soberana e retorna ao essencial. Para que toda reciprocidade se apresente como impossível, é preciso que o Outro seja para si um outro, que sua subjetividade mesma seja afetada pela alteridade. Essa consciência que seria alienada enquanto consciência, em sua pura presença imanente, seria evidentemente Mistério; seria Mistério em si pelo fato de que o seria para si; seria o Mistério absoluto. Assim é que há, para além do segredo que sua dissimulação cria um mistério do Preto, do Amarelo, enquanto considerados absolutamente como o Outro inessencial. Deve-se observar que o cidadão norte-americano, que desnorteia profundamente o europeu médio, não é entretanto considerado "misterioso": mais modestamente asseguram que não o entendem; do mesmo modo, a mulher nem sempre "compreende" o homem, mas não há mistério masculino; é que a América rica e o homem estão do lado do Senhor, e o Mistério é propriedade do escravo. Bem entendido, não se pode senão sonhar nos crepúsculos da má-fé acerca da realidade positiva do Mistério; como certas alucinações marginais, dissipa-se logo que se tenta fixá-lo. A literatura malogra sempre ao pintar mulheres "misteriosas". Elas podem somente surgir no início de um romance como estranhas, enigmáticas; mas, a menos que a história permaneça inacabada, terminam por revelar seu segredo e são então personagens coerentes e translúcidos. Por exemplo, o herói dos livros de Peter Cheney não cessa de se espantar com os imprevisíveis caprichos das mulheres: nunca se pode adivinhar como vão conduzir-se, fazem abortar todos os cálculos; na verdade, logo que os motivos de seus atos são desvendados ao leitor, elas se apresentam como mecanismos muito simples: uma era espiã, outra ladra; por hábil que seja a intriga, há sempre uma chave e não poderia ser de outro modo, ainda que o autor tivesse todo o talento e toda a imaginação do mundo. O mistério nunca passa de uma miragem, dissipa-se quando se tenta apreendê-lo. Vemos assim que o mito se explica em grande parte pelo uso que dele faz o homem. O mito da mulher é um luxo. Só pode surgir se o homem escapa à urgente imposição de suas necessidades; quanto mais as relações são concretamente vividas, menos se idealizam. O felá do antigo Egito, o camponês beduíno, o artesão da Idade Média, o operário contemporâneo, têm, nas necessidades do trabalho e da pobreza, relações demasiado definidas com a mulher singular que é sua companheira para enfeitá-la como uma aura fasta ou nefasta. São as épocas e as classes a que se concedem os lazeres do sonho que erguem as estátuas negras ou brancas da feminilidade. Mas o luxo tem também uma utilidade. Tais sonhos são imperiosamente dirigidos por interesses. Por certo, em sua maior parte, os mitos têm raízes na atitude espontânea do homem para com sua própria existência e o mundo que o cerca: mas a superação da experiência em direção à ideia transcendente foi deliberadamente operada pela sociedade patriarcal para fins de auto justificação; através dos mitos, ela impunha aos indivíduos suas leis e costumes de maneira sensível e por imagens; sob uma forma mítica é que o imperativo coletivo se insinuava em cada consciência. Por intermédio das religiões, das tradições, da linguagem, dos contos, das canções, do cinema, os mitos penetram até nas existências mais duramente jungidas às realidades materiais. Todos podem encontrar nesses mitos uma sublimação de suas modestas  experiências: enganado por uma mulher amada, um declara que ela é uma matriz danada; outro, obcecado pela impotência viril, encara a mulher como a fêmea do louva-a-deus; outro ainda compraz-se em companhia de sua mulher e ei-la Harmonia, Repouso, Terra nutriz. O gosto a uma eternidade barata, a um absoluto de bolso, que se depara na maioria dos homens, satisfaz-se com mito. A menor emoção, uma contrariedade, tomam o reflexo de uma ideia não temporal; essa ilusão lisonjeia agradàvelmente a vaidade. O mito é uma dessas armadilhas da falsa objetividade em que se lança temeràriamente o espírito de gravidade. Trata-se mais uma vez, de substituir a experiência vivida e os livres julgamentos que ela reclama por um ídolo imoto. A uma relação autêntica com um existente autônomo, o mito da Mulher substitui a contemplação imóvel de uma miragem. "Miragem! Miragem! Ê preciso matá-las porque não podemos apanhá-las; ou então tranquilizá-las, informá-las, dissipar-lhe o gosto pelas jóias, fazer delas nossas companheiras iguais, nossas amigas íntimas, associadas neste mundo, vesti-las de outro modo, cortar-lhes os cabelos, dizer-lhes tudo...", exclama Laforgue. O homem nada teria a perder, muito pelo contrário, se renunciasse a fantasiar a mulher de símbolo. Os sonhos, quando são coletivos e dirigidos, são bem pobres e monótonos ao lado da realidade viva: para o verdadeiro sonhador, para o poeta, a realidade viva é uma fonte muito mais fecunda do que um maravilhoso puído. As épocas que mais amaram as mulheres não foram a do feudalismo cortês nem o galante século XIX: foram as épocas em que — como no século XVIII — os homens encararam as mulheres como semelhantes; é então que se apresentam como verdadeiramente romanescas: basta ler Les Liaisons dangereuses, Le Rouge et le Noir, Adeus às Armas, para percebê-lo. As heroínas de Laclos, Stendhal, Hemingway não têm mistério; nem por isso são menos atraentes. Reconhecer um ser humano na mulher não é empobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de sua diversidade, de sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em sua intersubjetividade; recusar os mitos não é destruir toda relação dramática entre os sexos, não é negar as significações que se revelam autenticamente ao homem através da realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a aventura, a felicidade, o sonho: é somente pedir que as condutas, os sentimentos, as paixões assentem na verdade. "A mulher se perde. Onde estão as mulheres? As mulheres de hoje não são mulheres", viu-se qual o sentido desses slogans misteriosos. Aos olhos dos homens — e da legião de mulheres que veem por esses olhos — não basta ter um corpo de mulher, nem assumir como amante, como mãe, a função de fêmea para ser "uma mulher de verdade"; através da sexualidade e da maternidade, o sujeito pode reivindicar sua autonomia; "a verdadeira mulher" é a que se aceita como Outro. Há na atitude dos homens de hoje uma duplicidade que cria na mulher um dilaceramento doloroso; eles aceitam em grande medida que a mulher seja um semelhante, uma igual; e, no entanto, continuam a exigir que ela permaneça o inessencial; para ela, esses dois destinos não são conciliáveis; ela hesita entre um e outro sem se adaptar exatamente a nenhum e daí sua falta de equilíbrio. No homem não há nenhum hiato entre a vida pública e a vida privada: quanto mais êle se afirma seu domínio do mundo pela ação e pelo trabalho, mais revela viril; nele, os valores humanos e os valores vitais se confundem; ao passo que os êxitos autônomos da mulher estão em contradição com sua feminilidade, porquanto se exige da "verdadeira mulher" que se torne objeto, que seja o Outro. É muito possível que, neste ponto, a sensibilidade e até a sexualidade do homem se modifiquem. Uma nova estética já nasceu. Se a moda dos bustos chatos e das ancas magras — da mulher-efebo — durou pouco, não se voltou contudo ao ideal opulento dos séculos passados. Pede-se ao corpo feminino que seja carne, mas discretamente; deve ser esbelto e não empapado de banha; com músculos, flexível e robusto é preciso que indique a transcendência; preferem-no, não branco como uma planta de estufa, mas tendo enfrentado o sol universal, tostado como um torso de trabalhador. Tornando-se prático, o vestido da mulher não a fez parecer assexuada: ao contrário, as saias curtas valorizaram mais do que outrora as pernas e as coxas. Não se compreende por que o trabalho a privaria de sua atração erótica. Possuir a mulher ao mesmo tempo como personagem social e como presa carnal pode ser perturbador: em uma séria de desenhos de Peynet publicados recentemente, via-se um jovem noivo abandonar a noiva porque era seduzido pela bonita prefeita que se dispunha a celebrar o casamento. O fato de uma mulher exercer um "ofício viril" e ser ao mesmo tempo desejável foi durante muito tempo um tema de piadas mais ou menos livres. Pouco a pouco, o escândalo e a ironia se embotaram e parece que nova forma de erotismo está nascendo: talvez venha a engendrar novos mitos. O que é certo é que hoje é muito difícil às mulheres assumirem concomitantemente sua condição de indivíduo autônomo e seu destino feminino; aí está a fonte dessas inépcias, dessas incompreensões que as levam, por vezes, a se considerar como um "sexo perdido". E, sem dúvida, é mais confortável suportar uma escravidão cega que trabalhar para se libertar: os mortos também estão mais bem adaptados à terra do que os vivos. Como quer que seja, uma volta ao passado não é mais possível nem desejável. O que se deve esperar é que, por seu lado, os homens assumam sem reserva a situação que se vem criando; somente então a mulher poderá viver sem tragédia. Então poderá ver-se realizado o voto de Laforgue: "Ó moças, quando sereis nossos irmãos, nossos irmãos íntimos sem segunda intenção de exploração? Quando nos daremos o verdadeiro aperto de mãos?" Então "Mélusine não mais sob o peso da fatalidade desencadeada sobre ela pelo homem só, Mélusine libertada..." reencontrará seu "equilíbrio humano". Então ela será plenamente um ser humano "quando se quebrar a escravidão infinita da mulher, quando ela viver por ela e para ela, o homem — até hoje abominável — tendo-lhe dado a alforria". O SEGUNDO SEXO – O livro O segundo sexo: fatos e mitos, da escritora, filósofa existencialista e feminista francesa Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir (1908-1986), alcançou repercussão internacional e marcou toda uma geração interessada, como ela, na abolição do mito do éternel feminin. Tendo sofrido e vencido pela inteligência as limitações seculares imposta à mulher, expõe nessa obra suas reivindicações e denuncias, de modo que fica demonstrada sua forma lucidamente didática que contribuiu de forma decisiva para a expansão da consciência feminina na segunda metade do séc. XX. O livro trata de temos como os dados biológicos a visão psicanalítica, o ponto de vista do materialismo histórico, Montherlant ou o pão do nojo, D. H. Lawrence ou o orgulho fálico, Claudel e a serva do Senhor, Breton ou a poesia e  Stendhal ou o romanesco do verdadeiro. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

 

ELA É MINHA...

Ela não é só uma, muitas, zis papéis.

Cada qual uma afeição e na ponta de seus pés, aos meus galanteios.

Nua feição, os fartos seios pros meus floreios, deliciosa.

Nas coxas seus veios, vou por seus meios, ela é vasta e minha.

Nela aflição sequiosa, sou no que é de seu, rainha luminosa.

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