
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: O RAIO ERRABUNDO DO AMOR... -Como foi? Assim: ela me convidou pra jantar
e saiu me arrastando pelos cantos, resolvendo umas coisas aqui e ali, conversa
vai e vem, lá pras tantas parou o carro: sou Mona, sou Zé, uma coincidência
aqui e ali, uma talagada com uma surpresa junto, o que se fez da vida, por onde
o tempo passou, topadas, desenganos, afinidades, o livro tal que impactou, os
filmes que nunca vi, os lugares onde andou e eu de queixo caído com a salada de
assunto que entrava e saía pela porteira da fazenda e voltava pela janela do
quarto num dia de chuviscado maneiro; das nuvens negras, dos dias de sol em
pleno inverno, dos temporais no verão, o que foi e não mais voltou, como também
o que retornou mais de uma vez para nunca mais, o que tinha vivido e morreu, o
que subiu a ladeira e encarou o que não tinha mais fim pela frente, o que era
de segunda e foi para terça, o que foi na manhã de quarta e só deu de valer
cinco anos depois, numa quinta que mais parecia sexta-feira do ano passado,
justo quando já era sábado quase domingo na maior pisada e se tem uma coisa que
aprecio é desafio de repentista numa embolada boa: Cala boca, bestalhão, não soubesse responder, meti o freio nos queixos,
a sela mandei fazer! E o que é o que é fora adivinhação, turunas no coco,
de eu ficar entretido por horas no meio do mourão, às gaitadas com o desafio
nos oito pés do quadrão, segurando o galope até as décimas dum martelo na maior
precisão. Nem aí de ver o tempo passar. Coisa mais linda de se ver. Para
encurtar a história que a coisa tem mais episódio que novela arrastada: quando
dei fé, estávamos ambos nus e já era segunda-feira. Isso mesmo, já pensou? Três
dias encarreados! De primeira, foram vinte e duas horas de conversas
labirínticas e tome teitei, a gente botava as mãos pelas pernas e saía pelos
cambitos de pinto e na volta da cancela. Parece mais que desmaiamos de tantos
birinaites e blábláblá. Bastou despertar e o desjejum foram outras viradas de
copos regados a toques e afagos, tome lero, cacaqui cacacá, os giros do mundo,
as artes perdidas, amores desfeitos, as dores da vida, e mais que engrolasse na
língua e desse disso e daquilo da gente se perder estrada de ida, caminho de
volta, arrodeios e migrações mentais, cada curva na ideia chega da gente errar
feio pronde ia ou se ficava. Pense numa mulher cativante, tanto falava bonito
da gente se engraçar logo de chapa, inteligente de muitas sabedorias, jeitosa
da gente se arranchar por perto e não querer sair mais. Ela sabia ter um poder
sedutor de deixar a gente tudo de boca aberta no meio de suas histórias, feito
uma Sheherazade toda reboculosa que deixa a gente babando pelos encantos e
falações. E olhe que quando ela se aninhou nua pras minhas bandas, eu queria lá
mais sair dali, nunquinha! Era mais de meio dia quando ela me deixou onde nos
encontramos e a vida seguiu conforme a gente chega num canto e se aboleta nos
ponteiros do relógio sem saber qual dos calendários passados ou vindouros na
verdade está vigente. Afora o efeito em cadeia que isso causa no de dentro da
gente, de se sonhar pelos dias levitando como quem está nem aí pro que desse e
viesse. Ah, coisa de jamais esquecer... Quase uma semana depois, fui
surpreendido numa esquina por dois policiais que me apalparam assim do nada,
seguraram meus braços, um em cada lado, como se detido por uma situação
enrolada que sequer entendi e fui levado à delegacia, submetido a uma série de
interrogatórios sobre mim, o que fazia da vida, onde morava, documentos,
familiares, perguntas disso e daquilo, sabia que queriam pelar meu couro,
desbotar minha foto e queimar meu filme, só sendo. Perguntavam, respondia. O
que fiz? Não podia perguntar, só responder. Findei num xilindró sob a maior ostentação,
mas não escreveram nada, não me pediram nada, só me prenderam. Estava
sobrecarregado de interrogações, sempre andei na linha, acho. Nunca fiz nada e
só uns quatro ou cinco dias depois, não sei direito, havia perdido a noção de
tudo, é que fui levado ao doutor delegado que vociferou ameaças e disse coisas
que fiquei de olhos esbugalhados e cabelo em pé, sem saber a razão para tanto. Havia
umas bronquinhas para minha banda, confesso, coisa passada e já fazia muito
tempo; acho que juntaram as peças que prescreveram no tempo e queriam deixar
tudo em dia para me ferrar na vida, não sei, pode ser que sim ou não. O
advogado? Ora, ora, arrumaram um desses gravatudos todo ilustrado. De primeiro,
esteve comigo e contei que não era Kafka, mas estava enrolado com o que não
sabia. Ele então levantou-se e saiu sem dizer nada. Dois dias depois reapareceu
dizendo que havia investigações sobre mim e que eu fui acusado de sequestro. De
quem? Sigilo. Ué, como é que eu sequestrei o que não sei? Você está enrolado
com o cara mais poderoso no seu pé, pronto para devorá-lo. Quem? Você sabe. Se
soubesse não perguntava. Bem, se prepare; vou ver o que posso fazer. E sumiu.
No outro dia, lá estava eu na frente do juiz, do promotor e o tal advogado do
lado. O juiz bateu forte e me acusou dum monte de coisa que nem entendi. Passou
pro promotor que parecia mais que queria arrancar a minha alma fora e me deixar
mais culpado que quem comete todos os pecados dos dez mandamentos, tudo duma
vez só. Foi a vez do meu advogado que se dignou a dizer apenas que eu era
inocente e nada mais disse nem lhe foi perguntado. Ora, depois dos sermões de
mais de hora do juiz e do promotor arregaçando firme no meu espinhaço coisas
que sequer imaginei que fiz, o causídico mais fuleiro achou de não dizer nada e
ficou por isso mesmo. Ora, ora. Aí eu me revoltei e pedi para falar, o juiz me
mandou calar e dirigiu-se ao meu advogado: Diga pra ele que é melhor ficar
calado para não piorar as coisas. Mas eu quero me defender, excelência! Você
não pode se dirigir a mim, só seu advogado. Você só fala comigo quando eu
perguntar. Não perguntei, fique calado. Olhei para ele assim dum jeito de vê-lo
destamaínho de nada. O meu advogado notou e cochichou no meu ouvido: Fique
calado que é melhor pra você, comporte-se, deixe ele julgar que eu recorro e
solto você. Respirei fundo, contei até dez, errei, contei até vinte, errei e
comecei a contar carneirinho até não sei quanto para controlar a raiva. Assim
me entreti sem que visse a sentença do juiz. Sei que algemado estava e assim
fiquei, findei de volta na mão do delegado que sorria alisando as mãos com uma
cara de vingador para a minha banda. Deu-me esporro até umas horas porque eu me
meti a cavalo do cão de querer enfrentar o juiz, atitude para ele besta demais
e que eu merecia mesmo era umas lamboradas boas para aprender a tratar com autoridades.
Ouvi tudo calado, olhando bem nos olhos dele. Ele fumaçou e disse poucas e
boas. Até aí, tudo bem. A cabeça esquentou mesmo quando ele partiu para pegar na
minha beca e me deu uma tapa na cara, cuspindo maior ameaça. O sangue ferveu e
ceguei, não tinha quem me segurasse mais. Pense num aperreio! Saí atropelando
quem estivesse na frente, nunca dei tanto murro nem nunca estapeei tanta gente,
sei que derrubei um bocado de samango que apareceu, cheleleu, atrapalha-vida,
levei tudo nos peitos e na força da munheca saí numa carreira desabalada pelo
meio da rua, uma tuia de arma nas mãos inimigas e correndo atrás com mira na
minha cabeça, o povo abrindo caminho assustado e, depois de muita perna em
ziguezague, tirada de fino e saltos pinotados, alcancei o rio, mergulhei e só
ouvi o zunido no juízo passando rente. Agora eu tinha realmente um problema de
verdade, mas não tinham me pedido nada, não tinham nada escrito, só perguntas,
nem um pule de bicho, nada, o juiz e o promotor, o advogado, tudo de boca, acho
que estavam me segurando, apenas. Agora está feito. Nunca nadei tanto, até me
perder de nem saber onde foi mesmo que parei, impossível me perder num rio que
conhecia como a palma da minha mão, da nascente à foz; talvez delirasse, não
sei, agonizando, a ponto de perder os sentidos e dar braçadas automáticas sem saber
para onde, só sendo. Sei que findei já bastante exaurido, os braços doendo que
só, câimbras nas pernas, goela seca, fungado pesado, era um matagal alto,
ninguém por perto nem de longe; e ali quedei e me rendi de adormecer não sei
por quanto tempo. Ao despertar de um pesadelo agoniado, não tinha a menor ideia
onde estava nem que horas eram, se manhã ou tarde; também não sei se era o meu
rio ou um dos seus afluentes, tudo era muito estranho. Só podia ser afluente.
Aquelas paragens, em toda minha vida, descendo e subindo, jamais vira.
Precisava pensar melhor, aprumar as ideias que estavam reviradas de não deixar
entender nada e, afinal, descobrir o que havia feito para passar pelo que
passei. A vida prega suas peças... eu sei. Fiquei na minha matutando. E foi só
com o passar de dias e meses, aos poucos é que fui montando o quebra-cabeça e,
ao mesmo tempo, tomando conhecimento a respeito dos meus digníssimos algozes.
Perguntando aqui e ali a um e outro, contando com a ajuda não só do meu amigo,
Orfeu, como das simpaticíssimas senhoras que pululavam ao meu redor, pude fazer
um apanhando bom de cada um deles, tomando por base a observação de populares e
opiniões pessoais dos inquiridos, a ponto de poder traçar um perfil
personalizado deles. O primeiro e mais competitivo na repulsa popular foi o ilustríssimo
senhor delegado que, por exemplo, era mais conhecido popularmente por doutor
Dino, um empalitozado mediano do bigodinho ralo embaixo das ventas, viciado em
dar tabefes e exímio em desancar nariz empinado e rei na barriga em quem quer
que seja, principalmente se for entre os menores que ele, os frouxos peidões e
os grandões que ele mirasse a capacidade de derrubá-los. Nunca aliviou na dose
de suas atividades, sempre disposto a dar apertos, porradas e cacetadas em quem
tivesse na sua frente ou vítima de uma investigação policial. Para sua guarida
profissional, era carne e unha com o ricaço Coronelão, a ponto de ser apelidado
pela maioria dos ouvidos como Capacho do Homem, e muitíssimo achegado ao juiz,
gozando, inclusive, de sua simpatia e de sua digníssima esposa. Era casado,
aliás, continua sendo, sem que se saiba ao certo quem é a sua esposa, vez que
vive enclausurada em casa, de sequer botar um fio de cabelo fora do lar,
reservando-se sua saída no carro blindado do marido para compras fora das
vistas e do alcance de qualquer ser humano local. Duvido até quem a tenha visto
estes anos todos. Há sempre um mal estar entre ele e a digníssima esposa do
magistrado, toda vez que se encontram, em razão dela perguntar pela esposa dele
e da desculpa sempre dada de que está em casa com seus afazeres, ao que ela na
bucha pergunta: Por que não a trouxe, quero conhecê-la; e ele no aperto, com a
mesma desculpa de sempre: Não faltará oportunidade, honradíssima senhora, logo
logo ela se recuperará de mal-estar intermitente e se livrará dos afazeres de
casa para vir conhecê-la pessoalmente e privar da sua nobre amizade. Os dois, a
esposa do juiz e o delegado, se antipatizavam disfarçadamente, mas levavam o
papo no convencional da etiqueta, não deixando a mesma de alfinetar sua
displicência em não levar a coitada da pobre esposa para os eventos em que se
exigia a presença de casais. Com muito tato ele saía da saia justa e se
desembocava pras bandas do juiz que lhe era mais amigável, favorecendo, desta
forma, que mantivesse a ele ligado sempre que precisasse. O doutor policial só
não queria mesmo era conversa com a sua santidade o bispo, justamente por desencavar
por meio de investigações para lá de sigilosas e, sobretudo, para tirar
proveito e chantageá-lo, de umas práticas um tanto escusas e inapropriadas para
uma personalidade inatacável como a do prelado, chegando ao topete de querer
prendê-lo a fim da força, pelo desvio de doações internacionais em dinheiro e
mantimentos para as vítimas de uma enchente que arrasou vários municípios da
região. Essa avultada dinheirama que compreendiam milhões em dólares e as fartas
toneladas de mantimentos, a santíssima autoridade deu cabo de desviar de sua
finalidade, negociando lucrativamente com empresas e comerciantes locais e
regionais, senão nacionais, deixando a população com resíduos de migalhas dos
donativos e outras porqueirinhas de somenos importância. Recaía também sobre o sacerdote
a suspeita da prática de agiotagem com a dinheirama arrecadada. Essa relação
ainda mais se agravou com astuta e diligente caça de padres, uns por conta de
atividades comunistas tidas por ele como terroristas, e uns outros por conta da
detestável prática de pedofilia com fiéis de ambos os sexos, entre outras
arroladas no dossiê que era mantido em segredo a sete chaves num cofre
recôndito que só ele sabia onde se encontrava. Em nenhuma dessas investidas ele
foi exitoso, tendo sido pressionado por uma operação transversal de abafa, mantendo
uma rixa constante levada por quebra de braço política interminável. Também não
ia com a cara do promotor, a quem se referia aos cochichos entre os seus como
Bichona Louca, justo porque o representante do Ministério Público deu-lhe uma
enquadrada chamando na grande referente aos abusos de autoridade cometidos pela
invasão sem mandatos judiciais aos domicílios e estabelecimentos comerciais,
para realização tanto de acusações infundadas, como para a determinação de cotas
de subvenção voluntária que, na verdade, eram para ele delegado de natureza
compulsória, por conta de seus serviços prestados à população, acrescida ainda
da prática costumeira de tortura e humilhações públicas e privadas, que a
população chamava de sessão religiosa, tanto de fatos de todos que passassem
pela sua mão findavam em deplorável estado ou estendidos em emergências
hospitalares, fossem devidamente suspeitos ou não, desafetos, ou mesmo
inventando acusações contra quem ele não fosse com a cara. Entre os advogados
havia um pacto firmado por ele e a categoria de convivência pacífica, tendo
três deles que acharam de criar asas, dois deles levaram a maior carreira de se
mijar depois de uma revolvada na cara e um terceiro que o Coronelão mandou
matar como presente de aniversário do compadre delegado. Depois da minha fuga,
ele jurou que me daria uma pisa para me capar e depois matar aos pouquinhos de
murros e pisadas e que todos tivessem isso como líquido e certo para muito em
breve, tão só bastando ele colocar suas fajutas mãos sobre mim que logo seria
satisfeito o seu juramento público. Só tive oportunidade de dar de cara, frente
a frente, com este senhor umas duas vezes, para nunca mais. Passe bem. Por
outro lado, o excelentíssimo senhor doutor juiz que era de sua íntima relação, foi
identificado pela população como uma figura de metro e meio folclórica,
guardando feições e inspiração em Hitler que era seu guia material e
espiritual, figura bastante espalhafatosa porque gostava de prender gente ao
bel prazer dele e que, por isso, passou a ser conhecido pela alcunha de
Teje-Preso. Tanto é que ninguém sabe o nome dele, só o apelido. Há anos na
comarca, uma vez ou outra ele gosta de sair num passeio pela cidade durante o
expediente, encarando passantes em busca de identificar suspeitos e prendê-lo preventivamente
antes da prática do crime. Diz ele ser uma ação cautelar de foro íntimo: encarava
os olhos do sujeito, media testa e mandíbula do mal-encarado, conferia a arcada
dentária e os recortes das faces, conferia a existência de tatuagem ou sinal no
corpo, conferia tudo e, dependendo da situação, o escolhido ou era preso na
hora, ou passava a ser investigado como suspeito, ou mesmo ganhador dumas
visitinhas intempestivas até checar ao que realmente pudesse vir a ser um
cidadão de bem. No tempo dele, a delegacia e o presídio que fora construído em
sua homenagem e que a população chamava de Detenção do Teje-Preso, estavam superlotados,
vez que ele se incumbia de instruir o inquérito, fazer as investigações e
julgar na mesma hora condenado quem lhe fosse antipático. Também gostava
durante esses passeios de soltar umas gracinhas para o público feminino e,
mesmo antecipadamente conferindo cauteloso todos os lados, ao largar uma
cantada bem dada de deixá-la sem saber se dava ali mesmo ou para onde queria
levá-la, fosse, solteira, casada, viúva ou divorciada, ficava todo ancho e
maior que o próprio tamanho. Não contava, entretanto, apesar de todas as suas
conferências preventivas, com o aparecimento da nobilíssima esposa em
flagrante, justo na hora que ele mal terminava de soltar a libertinagem: Tenha
vergonha nessa cara, velho safado! E a tapa comia no centro e na frente de todo
mundo. Afora as vezes que ela invadia as dependências do Fórum, batendo a porta
com força, derrubando processos e suspendendo audiências ou a sessão do júri,
reclamando por que ele se esqueceu de comprar o berço do neto, ou não mandou o
motorista para levá-la ao cabelereiro, ou esquecido de atender ao telefone, ou
coisas de pouca monta, numa verdadeira sessão de xingamentos e puxavanques. E
se pegasse ele bebendo nos bares ou onde quer que fosse, virava o copo sobre
sua cabeça, molhando-o todo e com o devido espetáculo escandaloso, matá-lo de
vergonha perante os olhares gerais. Por conta disso, ele mantinha um
relacionamento equidistante com as demais autoridades, excetuando apenas uma
intimidade mais estreita com o amiguíssimo senhor delegado, que também era tratado
pelos populares como o serviçal do juiz, não só preferido por ele como por sua
nobre e desconfiadíssima consorte; gozando, inclusive, dos privilégios da
cozinha e da sala de jantar deles. Por uma única vez estive diante desta figura
impoluta para nunca mais. O promotor que só tive a oportunidade de vê-lo
pessoalmente no dia do meu julgamento, deu-me a impressão de que era uma pessoa
aparentemente requintada, firme e presidente de tudo: Lions, Rotary,
Associações e Institutos, diretor de colégios e apreciador de bailes e festas
dançantes, exímio dançarino que era. O nome dele também ninguém sabia, só o
chamavam de Promotor, o desalmado. Não se sabia ao certo se era casado ou não,
uma vez que ele morava fora e não dividia seu espaço íntimo com ninguém da
sociedade local. Mantinha uma ótima relação com todos, tendo apenas encrenca
com o delegado que, a seu ver, passava da conta nas práticas de tortura e na
captação de subvenções ilegais de pessoas físicas e jurídicas da cidade e
região para uso próprio. Não arredava o pé de sapecar dificuldades para o seu
desafeto, como também de estar sempre disposto para uma quebra de braço só para
mostrar para ele quem mandava em quem. Por baixo dos panos, as más línguas
corroboradas pelas insinuações vingativas do ilustre doutor delegado, davam
conta que ele, o procurador, queimava o bozó, não havendo ainda hoje, quem
tivesse coragem de provar ou dizer de peito aberto para todos. E só. Já o bispo
era uma unanimidade local e regional, o Dom Bispo – que era mesmo o nome e o
cargo, ao mesmo tempo, Bispo não sei lá das quantas -, relutante apenas com o
delegado que, a seu ver, queria atrapalhar as atividades diocesanas,
perseguindo padres do seu rebanho, afora fiéis e beatas, bem como de levantar
falso com acusações infundadas sobre o encaminhamento que dava às suas
atividades cristãs. Ele era uma figura querida pelo Coronelão, pelo prefeito
Cabraí, pela digníssima senhora esposa do magistrado, pelo insigne promotor
público e, sobretudo, pelo que se passou por meu advogado, uma vez que este é
filho de um padre amigo seu. Há, inclusive, uma campanha capitaneada pela benemérita
esposa do magistrado e por aquele que se apresentou como meu advogado, reunindo
milhares de cristãos papa-hóstias e beatas, num movimento de santificação dele,
tendo até agenda marcada com o papa no Vaticano para sua devida canonização.
Enquanto isso, aquele que foi designado como meu defensor é um bacharel da cara
lambida todo embecado, cheio do palavreado rebuscado e apelidado de Marca-Bosta
– é assim que todos se referem a ele, sem que se saiba seu nome. É tido por
filho de um certo padre Abinadilton, antigo pároco de Gideão-do-fundo, afilhado
baba-ovo do Coronelão, sobrinho de coração do promotor, afilhado do bispo e
compadre do delegado. Só não tem relações mais estreitas com o magistrado
porque a digníssima esposa dele botou-lo pra fora certa vez que chegou querendo
agradar mais do que o necessário. Para se livrar das garras dela e do seu
esposo, conseguiu aderir à loja maçônica para se proteger, atuando como
especialista em acidentes de trânsito e espólios vultosos, tomador de umas e
outras socialmente, indubitavelmente falso e perito em fazer intrigas e armar
cruzetas. É presidente da seccional da Ordem dos Advogados na localidade e,
conforme recolhido do converseiro popular, quem tiver dinheiro pode contar com
ele; liso, jamais. Por outro lado, o prefeito Cabraí nunca vi nem quero ver. Há
que se levar antecipadamente em consideração que face a sua gestão desastrosa e
à condução de influenciar nos resultados da pesquisa bocouvido popular no seu
perfil, uma vez que tratam-no inicialmente por calhorda cheleleu do Coronelão,
subindo o índice para energúmeno e, em declive mais rasteiro, ele alcançou a
pecha de sem-vergonha, tido como marido das viadas, viciado em jogo e
trambiqueiro velhaco que não gosta de pagar nada, nem promessa ao santo de sua
devoção que desceu dos céus um dia para cobrá-lo em pleno expediente na
prefeitura, armando o maior escarcéu por sua inadimplência. Houve até quem dissesse:
Vá lá que o cara não goste de honrar os compromissos assumidos, mas passar
calote em santo é imperdoável. No descarte ainda assinalavam que ele foi eleito
e só se elegeu por conta do apoio do Coronelão que, já antes do meio do mandado
resolveu passar a perna corajosamente, o que lhe garantiu o apelido de Traíra
das costas ocas. Mais nada se soube nem se foi dito a respeito dele. Por fim, o
eminente ricaço Coronelão que tem apenas, segundo a esmagadora maioria, uma
virtude: a de ser o pai de Mona e marido da madame, dispensando-se os demais
atributos porque ninguém detectou umazinha sequer: nunca vi, nem quero
conhecê-lo. O que se fala dele entre os pesquisados é de titulatura variada,
que vai desde pai dos pobres de mentira, entre os simpáticos; até anjo da
morte, entre os que guardam resistência quanto a sua pessoa, afora infamantes
cognomes não reproduzíveis aqui por conta de se tratar de extensa lista que
requereria rolos e toneladas de páginas e papeis. Colocado os nomes em votação
na condição de simpático, nenhum deles alcançou além da sofrível marca de zero
por cento; enquanto que noventa e nove por cento dos ouvidos tacham todos eles
como sabidos desinfelizes, sendo este o eufemismo mais satisfatório para ser
usado do que foi apurado na minha pesquisa. Na rabeta, detectou-se que apenas
zero vírgula um por cento de quem tachou-os de autoridades indigestas.
Procurando saber qual a razão para tal resultado, observou-se que unanimemente
havia a preferência de todos terem o direito de ficar calado a ter que
mencionar que se borravam de medo só de ouvir falar quaisquer dos nomes ou que
ninguém era leso suficiente para cair na esparrela de colocar para fora o que
realmente pensava de cada uma dessas personagens ilustres. O melhor colocado na
simpatia do povo, se assim se podia dizer, foi O Promotor por ser bastante
educado e ser um bom dançarino capaz de levar uma multidão pendurada nas
janelas para vê-lo dançando com alguma dama da sociedade, como rodopiando em
voos solos de balé, sempre arrancando aplausos e fius-fius dos presentes e dos
rejeitados... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

DITOS &
DESDITOS
É muito importante apoiar aquilo em que
você acredita... Vivo o meu sonho... Faça o que você ama...
Pensamento do cineasta taiawanês Justin Lin, que na sua filmografia
estão Star Trek Beyond (2016), Fast & Furious (2013), Finishing
the Game (2007), Annapolis (2006), Spotlighting (2005), entre
outros.
ALGUÉM FALOU:
Eu não sou alguém que
grita. Eu sou cantora...
Pensamento da atriz,
cantora e escritora estadunidense Jessica Harper, que atuou como Suzy Bannion no
filme Suspiria (1977), de Dario Argento.
A FACA SUTIL - [...] Cada pequeno avanço
na liberdade humana foi objeto de uma luta feroz entre aqueles que querem que
saibamos mais e sejamos mais sábios e fortes, e aqueles que querem que
obedeçamos, sejamos humildes e nos submetamos. [...] Eu sei contra quem
devemos lutar... é contra a Igreja. Ao longo de toda a sua história, ela tentou
reprimir e controlar todo impulso natural. É isso que a Igreja faz, e todas as
igrejas são iguais: controlar, destruir, aniquilar qualquer sentimento bom.
[...] Pelo que somos, espírito; pelo que fazemos, matéria. Matéria e
espírito são um só. [...]. Trechos extraídos da obra The Subtle Knife (Yearling Books, 1997), do escritor britânico
Philip Pullman, autor de obras como The Golden Compass (1996) e The
Amber Spyglass (2000).
MIL E UMA NOITES - Quando o
chamado do hudud \ ecoa pelas folhas de palmeira \ carregando em suas névoas \ visões
e memórias: \ Caravanas de cavalos vigorosos, \ cruzando os mares infinitos de
areia, \ atravessando o oásis, \ livres, mas sob controle. \ De mulheres
lavando-se nas fontes termais, \ abrigadas sob as palmeiras perenes, \ tecendo
cestos, \ cozinhando, costurando, correndo atrás dos rebanhos, \ de dias
repletos de trabalho. \ Visões, memórias: \ Cascata de luz estelar, \ lançando
sua suave luz sobre os acampamentos, \a sombra prateada do luar \ iluminando
rostos barbudos, \ meninos batendo os pés \ ao ritmo selvagem do tambor do
deserto \ Dana, ya dan dan \ Cantando sobre as pérolas no distante golfo \ Dana,
ya dan dan\ A brisa quente com aroma de cardamomo, \ carregando o cheiro de
café fresco, \ aquecendo e crepitando nas panelas douradas com ganchos, \ para
as jovens risonhas \ que espiam timidamente por trás das paredes divisórias da
tenda. \ Chamas tremeluzindo na fogueira, \ madeira lentamente consumida,
faíscas voando, \ dançando ao ritmo da música: dana, ya dan dan. \ O grito do
hudud \ ecoa pelo ar tranquilo da manhã, \ anunciando o alvorecer de um novo
século. \ Visões, memórias, \ levadas pelos ventos da mudança. Poema
extraído da obra Gathering the Tide: An Anthology of Contemporary Arabian
Gulf Poetry (Ithaca, 2011), da escritora, ativista e fotógrafa saudita Nimah Ismail Nawwab.
ISADORA DUNCAN - A bailarina estadunidense Isadora Duncan (1878-1927) desde a
infância extremamente pobre, ela já dançava acompanhada ao piano por sua mãe e
aos seis anos ensinava às crianças da vizinhança, chegando a abandonar os
estudos escolares para, com sua irmã Elizabeth, lecionar nas famílias ricas.
Aos 17 anos mudou-se para a Europa, iniciando a carreira de dançarina em festas
da alta sociedade de Londres. Estudou a arte grega, inspirando-se nas figuras
de frisos e vasos. Viveu em Paris, inspirando Rodin e Bourdelle, e tornando-se
quase um mnito. Nos lugares por onde passou, buscava fundar uma escola que
educasse através da arte, porém, só obteve êxito ao seu convidada, em 1917, à
Rússia, quando casou-se com o poeta Iessenin. Sua vida foi marcada por grandes
tragédias, desde a morte de seus dois filhos, afogado no rio Sena, em Paris, o
suicídio de seu marido, até a sua própria morte em Nice, quando viajando em um
carro aberto, a echarpe que trazia ao pescoço se enrolou numa das rodas,
estrangulando-a. Ela foi a precursora da dança moderna no séc. XIX, provocando
verdadeira revolução no panorama da dança de espetáculo, rompendo com os dogmas
do balé e trazendo a improvisação e a espontaneidade como principais
características de seu modo de dançar. Pés descalços, vestida com uma leve
túnica, tendo como cenário apenas uma cortina azul, foi exaltada por uns e
violentamente criticada por outros. Sua dança não pode ser descrita segundo
padrões estéticos, por representar exclusivamente uma projeção de sua
personalidade e de seu temperamento. Em sua época ela foi, como artista e como
ser humano, sob todos os aspectos, o rompimento com a tradição e com os dogmas:
sua vida transformou-se em luta incessante pela realização de seus ideias. Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

O SEGUNDO SEXO, DE
SIMONE DE BEAUVOIR - [...] O mito da mulher desempenha um
papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida quotidiana?
Em que medida afeta os costumes e as condutas individuais? Para responder a
essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a
realidade. Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável
da condição humana que é o "seccionamento" da humanidade em duas
categorias de indivíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade
apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Ao fato,
ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma ideia
transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa a qualquer
contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta.
Assim, à existência dispersa, contingente e múltipla das mulheres,
o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição
que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pela conduta das mulheres de
carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são
femininas e não que a Feminilidade é uma entidade. Os desmentidos da
experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua
fonte nela. Assim é exato que a mulher é outra e essa alteridade é
concretamente sentida no desejo, no amplexo, no amor; mas a relação real é de
reciprocidade; como tal, ela engendra dramas autênticos: através do erotismo,
do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é
luta de consciência que se consideram essenciais, é reconhecimento de
liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à
cumplicidade. Pôr a Mulher é pôr o Outro absoluto, sem reciprocidade, recusando
contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante. Na realidade
concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos
mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-la inteiramente. Cada
qual se afirmando único, a consequência é existir uma pluralidade de mitos
incompatíveis e os homens permanecerem atônitos perante as estranhas
incoerências da ideia de Feminilidade; como toda mulher participa de uma
pluralidade desses arquétipos que, todos, pretendem encerrar sua única Verdade,
os homens reencontram, assim, ante suas companheiras o velho espanto dos
sofistas que mal compreendiam que o homem pudesse ser louro e moreno a um
tempo. A passagem para o absoluto já se exprime nas representações sociais. As relações
aí se fixam facilmente em classes, as funções em tipos, assim como na
mentalidade infantil as relações fixam-se em coisas. Por exemplo, a sociedade
patriarcal, apoiada na conservação do patrimônio, implica necessariamente, ao
lado de indivíduos que detêm e transmitem os bens, a existência de homens e
mulheres que os arrancam a seus proprietários e os fazem circular; os homens —
aventureiros, vigaristas, ladrões, especuladores — são geralmente condenados
pela coletividade; as mulheres, usando de sua atração erótica, têm a
possibilidade de convidar os jovens, e até os pais de família, a dissiparem seu
patrimônio sem sair da legalidade; apropriam-se de sua fortuna ou captam sua
herança; sendo esse papel considerado nefasto, chamam "mulheres más"
as que o desempenham. Na realidade, elas podem, ao contrário, apresentar-se em
outro lar — o do pai, o do irmão, do marido ou do amante — como um anjo da
guarda; tal ou qual cortesã, que explora ricos financistas, é um mecenas para
pintores e escritores. A ambiguidade da personagem de Aspásia, de Mme de
Pompadour torna-se facilmente compreensível numa experiência concreta. Mas, se
se afirma que a mulher é a fêmea do louva-a-deus, a mandrágora, o demônio,
confunde-se o espírito ao descobrir igualmente nela a Musa, a Deusa-Mãe, Beatriz.
Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se
geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá uma propriedade
intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta
cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora se dirá que a Mãe é
igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne
votada ao diabo. Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos
indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada
época, em cada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas
necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os
valores a que estão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no
lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo
existente é, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem
um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em sua
vitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na
imanência; é o destino da mulher, no patriarcado; não se trata, porém, da mesma
vocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se
claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulher
ao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às
mulheres um dever-ser categórico. Não se deve confundir o mito com a apreensão
de uma significação; a significação é imanente ao objeto; ela é revelada à consciência
numa experiência viva ao passo que o mito é uma ideia transcendente que escapa
a toda tomada de consciência. Quando, em
Age d'homme, descreve sua visão dos órgãos
femininos, Michel Leiris oferece-nos significações e não elabora nenhum mito. O
deslumbramento ante o corpo feminino, a repugnância pelo sangue menstrual são
apreensões de uma realidade concreta. Nada há de mítico na experiência que
descobre as qualidades voluptuosas da carne feminina e não se passa ao mito
quando se tenta exprimi-las mediante comparações com flores ou pedras. Mas
dizer que a Mulher é a Carne, que a Carne é Noite e Morte, ou que é o esplendor
do Cosmo, é abandonar a verdade da terra e alçar voo para um céu vazio. Porque
o homem também é carne para a mulher; e esta é outra coisa além de um objeto
carnal; e a carne assume, para cada um e em cada experiência, significações
singulares. É, também, inteiramente verdade que a mulher — como o homem — é um
ser arraigado na Natureza; ela é mais do que o homem escravizada à espécie, sua
animalidade é mais manifesta, mas, nela como nele, o dado é assumido pela
existência, pertence também ao reino humano. Assimilá-la à Natureza é um
simples parti pris. Poucos mitos foram mais
vantajosos do que esse para a casta dominante: justifica todos os privilégios e
autoriza mesmo a abusar deles. Os homens não precisam preocupar-se em aliviar
os sofrimentos e encargos que são fisiològicamente a parte da mulher, porquanto
"são da vontade da Natureza"; eles se valem do pretexto para aumentar
ainda a miséria da condição feminina, para denegar, por exemplo, à mulher,
qualquer direito ao prazer sexual, para fazê-la trabalhar como um animal de
carga. De todos esses mitos nenhum se acha mais enraizado nos corações
masculinos do que o do "mistério" feminino. Tem numerosas vantagens.
E primeiramente permite explicar sem dificuldades o que parece inexplicável; o
homem que não "compreende" uma mulher sente-se feliz em substituir
uma resistência objetiva a uma insuficiência subjetiva; ao invés de admitir sua
ignorância, reconhece a presença de um mistério fora de si: é um álibi que
lisonjeia a um tempo a preguiça e a vaidade. Um coração apaixonado evita,
assim, muitas decepções; se as condutas da bem-amada são caprichosas, suas
reflexões, estúpidas, o mistério serve de desculpa. Enfim, graças ao mistério,
perpetua-se essa relação negativa que se afigurava a Kierkegaard infinitamente
preferível a uma posse positiva; em face de um enigma vivo, o homem permanece
só: só com seus sonhos, esperanças, temores, amor e vaidade; esse jogo
subjetivo que pode ir do vício ao êxtase místico é para muitos uma experiência
mais atraente do que uma relação autêntica com um ser humano. Em que bases
assenta, pois, uma ilusão tão proveitosa? Seguramente, em certo sentido, a
mulher é misteriosa, "misteriosa como todo mundo", na expressão de
Maeterlinck. Cada um só é sujeito para si; cada um só pode apreender a si
unicamente em sua imanência. Deste ponto de vista, o outro é sempre mistério.
Aos olhos dos homens a opacidade do para-si é mais flagrante no outro feminino;
eles não podem, por nenhum efeito de simpatia, penetrar-lhe a experiência
singular. A qualidade do prazer erótico da mulher, os incômodos da menstruação,
as dores do parto, eles estão condenados a ignorá-los. Na verdade, há
reciprocidade do mistério; enquanto outro, e outro do sexo masculino, há no
coração de todo homem uma presença fechada sobre si mesma e impenetrável à
mulher; ela ignora o que representa o erotismo do macho. Mas, segundo a regra
universal que verificamos, as categorias através das quais os homens encaram o
mundo são constituídas, do ponto de vista deles,
como absolutas: eles desconhecem, nisso como
em tudo, a reciprocidade. Mistério para o homem, a mulher é encarada como
mistério em si. A bem dizer, a situação dela a predispõe singularmente a ser
considerada sob esse aspecto. Seu destino fisiológico é muito complexo; ela
mesma o suporta como uma história estranha; seu corpo não é para ela uma
expressão clara de si mesma; ela
sente-se nele alienada; o laço que em todo indivíduo liga a vida
fisiológica à vida física, ou para melhor dizer, a relação existente entre a
facticidade de um indivíduo e a liberdade que a assume, é o mais difícil enigma
implicado pela condição humana: é na mulher que esse enigma se põe da maneira
mais perturbadora. Mas o que se chama mistério não é a solidão subjetiva da
consciência, nem o segredo da vida orgânica. É ao nível da comunicação que a
palavra assume seu sentido verdadeiro: não se reduz ao puro silêncio, à noite,
à ausência; implica uma presença balbuciante que malogra em se manifestar.
Dizer que a mulher é mistério não é dizer que ela se cala e sim que sua
linguagem não é compreendida; ela está presente, mas escondida sob véus; existe
além dessas incertas aparições. Quem é ela? Um anjo, um demônio, uma inspirada,
uma comediante? Ou se supõe que existem para essas perguntas respostas
impossíveis de descobrir, ou antes, que nenhuma é adequada porque uma
ambiguidade fundamental afeta o ser feminino; em seu coração, ela é para si
mesma indefinível: uma esfinge. O fato é que ela se veria bastante embaraçada
em decidir quem ela é; a pergunta não comporta resposta; mas não porque a
verdade recôndita seja demasiado móvel para se deixar aprisionar: é porque
nesse terreno não há verdade. Um existente não é senão o que faz; o possível não supera o real, a
essência não precede a existência: em sua pura subjetividade o ser humano não é nada. Medem-no
pelos seus atos. De uma camponesa pode-se dizer que se trata de uma boa ou má
trabalhadora, de uma atriz que tem ou não talento; mas se se considera uma
mulher em sua presença imanente, nada absolutamente se pode dizer, ela está
aquém de qualquer qualificação. Ora, nas relações amorosas ou conjugais, em
todas as relações em que a mulher é a vassala, o outro, é em sua imanência que
é apreendida. É impressionante o fato de a companheira, a colega, a associada
não terem mistério; em compensação, se o vassalo é masculino, se diante de um
homem ou de uma mulher mais velhos do que ele, mais ricos, um rapaz se
apresenta como o objeto inessencial, envolve-se ele também de mistério. E isso
nos revela uma infraestrutura do mistério feminino que é de ordem econômica. Um
sentimento também não ê nada. "No terreno dos sentimentos o real não se
distingue do imaginário, diz Gide. E basta imaginar que se ama para amar, por
isso basta dizer que se imagina amar, quando se ama, para amar um pouco
menos..." Entre o imaginário e o real só há discriminação através das
condutas. Detendo o homem neste mundo uma situação privilegiada, êle é que pode
manifestar ativamente seu amor; muitas vezes sustenta a mulher ou a ajuda,
Desposando-a, dá-lhe uma posição social; dá-lhe presentes; sua independência
econômica e social permite-lhe iniciativas e invenções. Separado de Mme de
Villeparisis, o Sr. de Norpois é quem fazia viagens de vinte e quatro horas
para vê-la. Muitas vezes ele tem ocupações, ela não faz nada; o tempo que passa
com Mme de Villeparisis êle o dá, ela o toma: com prazer, com paixão, ou simplesmente para
se distrair? Aceita ela esses dons por amor ou por interesse? Ama o marido ou o
casamento? Naturalmente as próprias provas que o homem dá são ambíguas: tal ou
qual dom é feito por amor ou por piedade? Mas, enquanto normalmente a mulher
encontra no comércio com o homem numerosas vantagens, o comércio com a mulher
só beneficia o homem na medida em que ele a ama. Por isso, pelo conjunto de
suas atitudes pode-se apreciar mais ou menos o grau de seu apego; ao passo que
a mulher quase não tem meios de sondar o próprio coração; segundo seu
temperamento, terá pontos de vista diferentes acerca de seus sentimentos, e
enquanto os suportar passivamente nenhuma interpretação será mais verdadeira do
que outra. Nos casos bastante raros em que ela detém os privilégios econômicos e
sociais, o mistério inverte-se: o que demonstra que se liga não a este ou àquele
sexo e sim a uma situação. Para grande número de mulheres os caminhos da
transcendência estão barrados: como não
fazem nada, não se podem fazer ser;
perguntam-se indefinidamente o que
poderiam vir a ser, o que as leva a
indagar o que são: é uma interrogação vã; se o homem malogra em descobrir
essa essência secreta é muito simplesmente porque ela não existe. Mantida à
margem do mundo, a mulher não pode definir-se objetivamente através desse mundo
e seu mistério cobre apenas um vazio. Demais, acontece que, como todos os
oprimidos, dissimula deliberadamente sua figura objetiva; o escravo, o criado,
o indígena, todos os que dependem dos caprichos de um senhor aprenderam a
opor-lhe um sorriso imutável ou uma impassibilidade enigmática; escondem
cuidadosamente seus verdadeiros sentimentos, suas verdadeiras condutas. À
mulher também ensinaram desde a adolescência a mentir aos homens, a trapacear,
a usar de subterfúgios. Chega-se a eles com máscara: é prudente, hipócrita,
comediante. Mas o Mistério feminino tal qual o reconhece o pensamento mítico é
uma realidade mais profunda. Em verdade, acha-se ele implicado imediatamente na mitologia do
Outro absoluto. Se se admite que a consciência inessencial é, ela também, uma
subjetividade translúcida, capaz de operar o
Cogito, admite-se que é, na verdade, soberana e
retorna ao essencial. Para que toda reciprocidade se apresente como impossível,
é preciso que o Outro seja para si um outro, que sua subjetividade mesma seja
afetada pela alteridade. Essa consciência que seria alienada enquanto
consciência, em sua pura presença imanente, seria evidentemente Mistério; seria
Mistério em si pelo fato de que o seria para si; seria o Mistério absoluto. Assim
é que há, para além do segredo que sua dissimulação cria um mistério do Preto,
do Amarelo, enquanto considerados absolutamente como o Outro inessencial.
Deve-se observar que o cidadão norte-americano, que desnorteia profundamente o
europeu médio, não é entretanto considerado "misterioso": mais
modestamente asseguram que não o entendem; do mesmo modo, a mulher nem sempre
"compreende" o homem, mas não há mistério masculino; é que a América
rica e o homem estão do lado do Senhor, e o Mistério é propriedade do escravo.
Bem entendido, não se pode senão sonhar nos crepúsculos da má-fé acerca da
realidade positiva do Mistério; como certas alucinações marginais, dissipa-se
logo que se tenta fixá-lo. A literatura malogra sempre ao pintar mulheres
"misteriosas". Elas podem somente surgir no início de um romance como
estranhas, enigmáticas; mas, a menos que a história permaneça inacabada,
terminam por revelar seu segredo e são então personagens coerentes e
translúcidos. Por exemplo, o herói dos livros de Peter Cheney não cessa de se
espantar com os imprevisíveis caprichos das mulheres: nunca se pode adivinhar
como vão conduzir-se, fazem abortar todos os cálculos; na verdade, logo que os
motivos de seus atos são desvendados ao leitor, elas se apresentam como mecanismos
muito simples: uma era espiã, outra ladra; por hábil que seja a intriga, há
sempre uma chave e não poderia ser de outro modo, ainda que o autor tivesse
todo o talento e toda a imaginação do mundo. O mistério nunca passa de uma
miragem, dissipa-se quando se tenta apreendê-lo. Vemos assim que o mito se
explica em grande parte pelo uso que dele faz o homem. O mito da mulher é um
luxo. Só pode surgir se o homem escapa à urgente imposição de suas
necessidades; quanto mais as relações são concretamente vividas, menos se
idealizam. O felá do antigo Egito, o camponês beduíno, o artesão da Idade
Média, o operário contemporâneo, têm, nas necessidades do trabalho e da
pobreza, relações demasiado definidas com a mulher singular que é sua
companheira para enfeitá-la como uma aura fasta ou nefasta. São as épocas e as
classes a que se concedem os lazeres do sonho que erguem as estátuas negras ou
brancas da feminilidade. Mas o luxo tem também uma utilidade. Tais sonhos são
imperiosamente dirigidos por interesses. Por certo, em sua maior parte, os
mitos têm raízes na atitude espontânea do homem para com sua própria existência
e o mundo que o cerca: mas a superação da experiência em direção à ideia
transcendente foi deliberadamente operada pela sociedade patriarcal para fins
de auto justificação; através dos mitos, ela impunha aos indivíduos suas leis e
costumes de maneira sensível e por imagens; sob uma forma mítica é que o
imperativo coletivo se insinuava em cada consciência. Por intermédio das
religiões, das tradições, da linguagem, dos contos, das canções, do cinema, os
mitos penetram até nas existências mais duramente jungidas às realidades
materiais. Todos podem encontrar nesses mitos uma sublimação de suas
modestas experiências: enganado por uma
mulher amada, um declara que ela é uma matriz danada; outro, obcecado pela
impotência viril, encara a mulher como a fêmea do louva-a-deus; outro ainda
compraz-se em companhia de sua mulher e ei-la Harmonia, Repouso, Terra nutriz.
O gosto a uma eternidade barata, a um absoluto de bolso, que se depara na
maioria dos homens, satisfaz-se com mito. A menor emoção, uma contrariedade,
tomam o reflexo de uma ideia não temporal; essa ilusão lisonjeia agradàvelmente
a vaidade. O mito é uma dessas armadilhas da falsa objetividade em que se lança
temeràriamente o espírito de gravidade. Trata-se mais uma vez, de substituir a
experiência vivida e os livres julgamentos que ela reclama por um ídolo imoto.
A uma relação autêntica com um existente autônomo, o mito da Mulher substitui a
contemplação imóvel de uma miragem. "Miragem! Miragem! Ê preciso matá-las
porque não podemos apanhá-las; ou então tranquilizá-las, informá-las,
dissipar-lhe o gosto pelas jóias, fazer delas nossas companheiras iguais,
nossas amigas íntimas, associadas neste mundo, vesti-las de outro modo,
cortar-lhes os cabelos, dizer-lhes tudo...", exclama Laforgue. O homem
nada teria a perder, muito pelo contrário, se renunciasse a fantasiar a mulher
de símbolo. Os sonhos, quando são coletivos e dirigidos, são bem pobres e monótonos
ao lado da realidade viva: para o verdadeiro sonhador, para o poeta, a
realidade viva é uma fonte muito mais fecunda do que um maravilhoso puído. As
épocas que mais amaram as mulheres não foram a do feudalismo cortês nem o
galante século XIX: foram as épocas em que — como no século XVIII — os homens
encararam as mulheres como semelhantes; é então que se apresentam como
verdadeiramente romanescas: basta ler Les
Liaisons dangereuses, Le Rouge et le Noir, Adeus às Armas, para percebê-lo. As heroínas de Laclos, Stendhal,
Hemingway não têm mistério; nem por isso são menos atraentes. Reconhecer um ser
humano na mulher não é empobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de
sua diversidade, de sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em sua
intersubjetividade; recusar os mitos não é destruir toda relação dramática
entre os sexos, não é negar as significações que se revelam autenticamente ao
homem através da realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a
aventura, a felicidade, o sonho: é somente pedir que as condutas, os
sentimentos, as paixões assentem na verdade. "A mulher se perde. Onde
estão as mulheres? As mulheres de hoje não são mulheres", viu-se qual o
sentido desses slogans misteriosos. Aos olhos dos homens — e da legião de
mulheres que veem por esses olhos — não basta ter um corpo de mulher, nem
assumir como amante, como mãe, a função de fêmea para ser "uma mulher de
verdade"; através da sexualidade e da maternidade, o sujeito pode
reivindicar sua autonomia; "a verdadeira mulher" é a que se aceita
como Outro. Há na atitude dos homens de hoje uma duplicidade que cria na mulher
um dilaceramento doloroso; eles aceitam em grande medida que a mulher seja um
semelhante, uma igual; e, no entanto, continuam a exigir que ela permaneça o
inessencial; para ela, esses dois destinos não são conciliáveis; ela hesita
entre um e outro sem se adaptar exatamente a nenhum e daí sua falta de
equilíbrio. No homem não há nenhum hiato entre a vida pública e a vida privada:
quanto mais êle se afirma seu domínio do mundo pela ação e pelo trabalho, mais
revela viril; nele, os valores humanos e os valores vitais se confundem; ao
passo que os êxitos autônomos da mulher estão em contradição com sua
feminilidade, porquanto se exige da "verdadeira mulher" que se torne
objeto, que seja o Outro. É muito possível que, neste ponto, a sensibilidade e
até a sexualidade do homem se modifiquem. Uma nova estética já nasceu. Se a
moda dos bustos chatos e das ancas magras — da mulher-efebo — durou pouco, não
se voltou contudo ao ideal opulento dos séculos passados. Pede-se ao corpo
feminino que seja carne, mas discretamente; deve ser esbelto e não empapado de
banha; com músculos, flexível e robusto é preciso que indique a transcendência;
preferem-no, não branco como uma planta de estufa, mas tendo enfrentado o sol
universal, tostado como um torso de trabalhador. Tornando-se prático, o vestido
da mulher não a fez parecer assexuada: ao contrário, as saias curtas
valorizaram mais do que outrora as pernas e as coxas. Não se compreende por que
o trabalho a privaria de sua atração erótica. Possuir a mulher ao mesmo tempo
como personagem social e como presa carnal pode ser perturbador: em uma séria
de desenhos de Peynet publicados recentemente, via-se um jovem noivo abandonar
a noiva porque era seduzido pela bonita prefeita que se dispunha a celebrar o
casamento. O fato de uma mulher exercer um "ofício viril" e ser ao
mesmo tempo desejável foi durante muito tempo um tema de piadas mais ou menos
livres. Pouco a pouco, o escândalo e a ironia se embotaram e parece que nova
forma de erotismo está nascendo: talvez venha a engendrar novos mitos. O que é
certo é que hoje é muito difícil às mulheres assumirem concomitantemente sua
condição de indivíduo autônomo e seu destino feminino; aí está a fonte dessas
inépcias, dessas incompreensões que as levam, por vezes, a se considerar como
um "sexo perdido". E, sem dúvida, é mais confortável suportar uma
escravidão cega que trabalhar para se libertar: os mortos também estão mais bem
adaptados à terra do que os vivos. Como quer que seja, uma volta ao passado não
é mais possível nem desejável. O que se deve esperar é que, por seu lado, os
homens assumam sem reserva a situação que se vem criando; somente então a
mulher poderá viver sem tragédia. Então poderá ver-se realizado o voto de
Laforgue: "Ó moças, quando sereis nossos irmãos, nossos irmãos íntimos sem
segunda intenção de exploração? Quando nos daremos o verdadeiro aperto de
mãos?" Então "Mélusine não mais sob o peso da fatalidade desencadeada
sobre ela pelo homem só, Mélusine libertada..." reencontrará seu
"equilíbrio humano". Então ela será plenamente um ser humano
"quando se quebrar a escravidão infinita da mulher, quando ela viver por
ela e para ela, o homem — até hoje abominável — tendo-lhe dado a
alforria". O SEGUNDO SEXO – O livro O segundo sexo: fatos e mitos, da
escritora, filósofa existencialista e feminista francesa Simone
Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de
Beauvoir (1908-1986), alcançou repercussão internacional e marcou toda uma
geração interessada, como ela, na abolição do mito do éternel feminin. Tendo sofrido e vencido pela inteligência as
limitações seculares imposta à mulher, expõe nessa obra suas reivindicações e
denuncias, de modo que fica demonstrada sua forma lucidamente didática que
contribuiu de forma decisiva para a expansão da consciência feminina na segunda
metade do séc. XX. O livro trata de temos como os dados biológicos a visão
psicanalítica, o ponto de vista do materialismo histórico, Montherlant ou o pão do
nojo, D. H. Lawrence ou o orgulho fálico, Claudel e a serva do Senhor, Breton
ou a poesia e Stendhal ou o romanesco do verdadeiro. Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
REFERÊNCIA
BEAUVOIR, Simone. O segundo
sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
ELA É MINHA...
Ela não é só
uma, muitas, zis papéis.
Cada qual uma
afeição e na ponta de seus pés, aos meus galanteios.
Nua feição, os
fartos seios pros meus floreios, deliciosa.
Nas coxas seus
veios, vou por seus meios, ela é vasta e minha.
Nela aflição
sequiosa, sou no que é de seu, rainha luminosa.
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