terça-feira, abril 16, 2019

RIMBAUD, TRISTAN TZARA, FRANÇOIS HOUTART, ZELIA SALGADO, CANTOCONTO RIMBAUD, ECOFALANTE & ESPÓLIO DA CIDADE


CANTOCONTO RIMBAUD – Eis o cantoconto da raiz de minha carnalma, de um morro escondido por trás dos quilombos ouvi a voz: a liberdade é um sonho possível. Por isso cantoconto embaixo da ponte de varólio e mergulho na profundeza do amor que transborda radículas em galhos frondosos, porque cheguei a Nod como um raio de Sol e o brilho da Lua, carregando todas as culpas no prazer de estar ali ou aqui ou ai, sem saber purificado diante do perfume sagrado. Cantoconto rouquenho dentro da minha própria historia e me perco noutra, nele me refaço com as vindas do vento que sopra detrás das pedras para me ensinar as trilhas do outro mundo. Estou no meio do caminho e cresço nas lembranças primitivas e na fome de Deus, entre os seres da névoa, para saber o que é visto de dia e o que se esconde de noite, o que se vê de noite é invisível de dia, quantos milagres. Cantoconto que é só o que é, permanente entre as frestas e portões, perpétuo no trajeto de volta ao caos. Há muito tempo proscrito, chamo e toco a porta, não importa a fumaça do instante nem as pegadas do que escuto como se outra me contasse a minha nascente, como uma conversa rotineira que se repete, o aprendizado da arte e a audição anímica em eco. Não importa aonde eu vá, ouço o canto das matas, dos espíritos noturnos e dos mortos ressuscitados de muitos nomes tudo no meu cantoconto, a minha voz. Sinto na medula a prova da natureza que viceja e os fugazes vislumbres diante da fogueira mística, o que está aqui e o que já se foi, e ver-me encurralado entre o que brota e o que fenece, acossado na pilhagem dos detratores, o esmagamento decisório de ir ou ficar, o risco de extinção na evanescência da vida. Há muitos modos de saber como as coisas são ou devem ser, abro caminho entre enredos e tramas, o fôlego na apojadura, as pegadas da dúvida pelos sete oceanos universais e o numinoso na paisagem. Osso a osso, fio a fio de cabelo, o visceral canto, o instersticial contar com a semente do mundo às mãos, rizomas no passional êxtase da recolha dos ossos da criatura que fui um dia para poder dançar com incorpóreos, se não o Sol não nascerá. Com a minha voz me torno na revelação do ermo, faço e refaço minha alma e a minha oração iluminada para saber se fico ou vou embora até o fim do mundo, o final do tempo, e mais o que vem depois, o que deve viver, o que deve morrer: morte ao que deve morrer, vida ao que deve viver. Cantoconto e voltei e colhi a única flor vermelha e segui todos os quilômetros distantes do mundo-entre-mundo e do inefável na sétima abóbada do sétimo céu. Cheguei diante da Roda de Ezequiel e comecei a cantocontar transcendendo a obrigação moral de sobreviver. Bati à porta e não abriu, subi até a caverna escura, atravessei a janela do sonho, peneirei o deserto e encontrei meus ossos no desfile dos párias e na comédia dos vivos que não sabem mortos. Senti todas as provações ao descer ao inferno pelos meandros de muitos labirintos e por mais de mil anos. E eis-me, do alto da mais alta torre a cantocontar: ah, que venha o dia em que os corações se amem! Eis a raiz de minha carnalma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] para enfrentar os perigos que cercam o planeta e o gênero humano, faz-se necessário um novo projeto que exija não só uma ampliação dos Direitos Humanos, mas uma redefinição do Bem Comum da Humanidade (com base em novos paradigmas). [...] Será uma luta política. Porém, valerá à pena iniciá-la, pois pode inserir-se como um dos elementos simbólicos da revolução necessária para redefinir o paradigma alternativo da vida coletiva da humanidade no planeta.Portanto, é importante fazer a vinculação entre a defesa dos “bens comuns”, como a água e a restauração da prioridade do “bem comum” e a visão de uma nova construção do “Bem Comum da Humanidade”. Em primeiro lugar porque a visão holística que subjaz nesse último conceito exige aplicações concretas, como as de “bens comuns” para fugir do abstrato e traduzir-se em ações. Por outro lado, as lutas particulares devem inserir-se em um conjunto, a fim de situar adequadamente o papel que estão exercendo, não para compensar as deficiências de um sistema que tenta prolongar sua própria existência; mas, para dar prosseguimento à sua transformação em profundidade, exigindo a convergência de todas as forças de mudança para estabelecer as bases para a sobrevivência da humanidade e do planeta.
Trechos extraídos de Dos bens comuns ao bem comum da humanidade (Fundação Rosa de Luxemburgo – Bruxelas, novembro, 2011), do sociólogo belga François Houtart (1925-2017), para quem a defesa dos bens comuns é uma forte reivindicação de muitos movimentos sociais, porque inclui elementos indispensáveis à vida (água, semente), como serviços públicos, desmantelados nos dias de hoje pelas políticas neoliberais, uma vez que representam a vida do planeta e da humanidade. Para o autor a harmonia com a natureza significa definir a relação, não como a exploração da terra, enquanto fonte de recursos naturais, na forma de mercadorias, mas, como fonte de toda a vida, em uma atitude de respeito à sua capacidade de regeneração física e biológica, instaurando a interculturalidade que consiste em dar a todos os saberes, culturas, filosofias e espiritualidades a possibilidade de contribuir para o “Bem Comum da Humanidade”, implicando na promoção igualitariamente de uma interculturalidade aberta, ou seja, de culturas em diálogos, com possíveis intercâmbios. Veja mais aqui e aqui.

ESPÓLIO DA CIDADE
O documentário Espólio da Cidade (The City's Legacy, 2017), dirigido por Andre Turazzi & Paulo Murilo Fonseca, retrata a visão de seis pessoas que têm suas vidas relacionadas a edifícios tombados em São Paulo, evidenciando uma tensão entre memória e desenvolvimento urbano e a complexidade das questões ligadas à preservação e a conservação do patrimônio arquitetônico da cidade. Com isso, mapeia alguns patrimônios culturais da cidade de São Paulo com a proposta de revelar as particularidades arquitetônicas e históricas dos imóveis tombados, envolvendo questões de preservação e conservação dos patrimônios importantes para constituir uma identidade urbana. O documentário pode ser visto na Ecofalante que é uma ONG que atua nas áreas de cultura, educação e sustentabilidade, produzindo filmes, documentários e programas de televisão de caráter cultural, educativo e socioambiental. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora, pintora, desenhista e professora Zelia Salgado (1904-2009), que integrou a Comissão Nacional de Belas Artes entre 1962 e 1963, foi presidente da seção brasileira da Association Internacionale des Arts Plastiques, filiada à Unesco e deu aulas no Museu de Arte Moderna (MAM/RJ), até 1959. 
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A OBRA DE TRISTAN TZARA
Olhe para mim bem! Sou um idiota, sou falso, sou brincalhão. Eu sou como todos vocês!
A obra do poeta e ensaísta romeno Tristan Tzara (1896-1963) aqui & aqui.
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A obra do poeta Arthur Rimbaud (1854-1891) aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, abril 15, 2019

JEAN GENET, ELSA MORANTE, SANDRO MACIEL, PAULA FAOUR & BIG SHIT BÔBRAS


ATÉ DE OLHO FECHADO – Duvido! Pronto, uma desavença no ar. Que coisa! Logo naquele dia de comemoração entre os participantes do Big Shit Bôbras, providencia da organização de armar diferente para não entornar o projeto num flagelo. A sacada de confraternização caia muito bem para acabar com as bulhas e acalmar os ânimos. Nada melhor que uma feijoada suculenta, regada por generosas lapadas e meiotas da predileta Teibei. Tudo corria bem, uns goles aqui esquentando as orelhas, uma virada de copo ali arrepiando os tuins, beiçadas largas de abrir risadagens e envultamentos. Oxe, cadê fulano? Meteu o dente na cana de virar outro e sair por aí! Isso é que tomada macha, hem? Pois bem, brincadeiras, pulhas, licenciosidades, até a constatação de um gabiru gordo boiando no refogado de tripas, linguiças, maxixes e quiabos. Um escândalo. Como é que pode? O enterro voltava. Cada um que reclamasse da desfeita. De uma lado, as mulheres na maior fuxicagem: O penteado dela parece uma arupema! Vixe! E o vestido, mulher, nem combina os bicos dos peitos arriados e o pau da venta empinada! Um horror! E aquela outra trubufu, acha que é miss, né não? Era melhor que pendurasse dois tijolos naquelas orelhas do que aqueles brincos, né não? Nem se toca, se acha. Pense no desmantelo! Ah, mas me diz da cumade, vai! Morreu engasgada. Danou-se. Foi. De outro, os homens arengavam, cada um mais parrudo que o outro: D-u-du-v-i-vi-d-o-do! Você não tem topete pra me desafiar, safado! Ah, meu, dou na sua cara só com uma mão! Pra lascar você, dou meus golpes de costas! É? Derrubo você só no bafo! Sai pra lá, corno da gaia-mole! Deixa disso. Sou muito macho, não abro nem prum trem! Venha, maloqueiro, que dou uma pisa de você perder até o nome! Comigo você caga fora do caco! Um murro que eu der, você desmunheca, seu fulustreco! Vamos parar com isso! É ele, esse cara mente que o cu apita! Eu? Você que num vale um cocô de louro! Calma, gente. E o confronto parecia inevitável, cada um arrotando brabeza de bater o pé, estufar a caixa dos peitos e bufar ruindade com risco no chão. Uma das senhoras, ao dar conta do trupé, botou fogo na lenha: da macheza de vocês, sou mais o dentista com seus oitenta anos e um fundo de garrafa nas vistas, trata dos meus dentes de olhos fechados! Esse sim, além de macho é bom no que faz! Vocês? Tudo uns pé-rapado de não valer nada! Ih, a coisa azedou. Não deu para prever quantas cenas pros próximos capítulos, o fuzuê parece que ainda nem acabou, avalie. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Que Glória é uma senhora infiel, inquieta, cheia de energia e de contradições já se sabe há séculos. Sabe-se também que ela nem sempre respeita as cortesias. Às vezes, nem sequer sente vergonha de cortejar quem não se interessa por ela, e mais frequentemente, ao contrário, despreza quem a adora, quem venderia a alma por ela, quem beijaria o chão por onde passa. Não há nada pior. [...] Da atenção, da honestidade e do desinteresse. E todo o resto será literatura. Aliás, a propósito, que tipo de linguagem precisará utilizar? Dialeto, fala mecanizada, uma koiné? Qual estilo, quais semantemas, qual característica tipográfica? Pró ou contra as letras maiúsculas? Pró ou contra a pontuação? No entanto, deixem-no escrever como queira, porque o primeiro inventor das linguagens sempre foi ele! Por que aborrecer agora um homem com tais problemas (que interessam muito mais aos linguistas, aos filólogos, e assim por diante?). Aqui, trata-se de ser pró ou contra a bomba atômica! Contra a bomba atômica está a realidade. E a realidade não tem necessidade de pré-fabricar para si mesma uma linguagem: fala sozinha. Até mesmo Cristo disse: Não se preocupem com aquilo que vocês dirão, ou como dirão. É a realidade que dá vida às palavras, e não o contrário. [...]
Trechos da obra Pro o contro la bomba atômica (Adelphi, 1987), da escritora italiana Elsa Morante (1912-1985) que expressa: A aventura da realidade é sempre outra.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico Sandro Maciel
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A MÚSICA DE PAULA FAOUR
A música da pianista, arranjadora e compositora Paula Faour que estreou com o álbum Cool bossa struttin (JSR/Tratore, 2005), acompanhada dos músicos Dom Um Romão na bateria e Manuel Gusmão no baixo. Veja mais aqui.
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A OBRA DE JEAN GENET
Temos de rir. Senão a tragédia vai nos fazer voar pela janela.
A obra do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986) aqui & aqui.
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As doidices do Big Shit Bôbras aqui, aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, abril 12, 2019

MANOEL DE BARROS, KURT GÖDEL, ANGELINA SILVA, GHUGHA TÁVORA & O PUM DA BATATA


O PUM DA BATATA - Era uma vez um rapaz que se engraçou duma moça faceira. Trocaram olhares, passaram um pelo outro no meio do festeiro, sumiram e voltaram, até que um dia se encontraram e trocaram conversa para lá e para cá, se riram, se engraçaram e, depois de mais de nove horas, namoraram. Foi aquele amor. Beijos e abraços, ficou acertado domingo dele ir para a casa dela passar o dia, conhecer os pais, e assim se deu. Chegando lá, foi apresentado aos familiares dela, pais, irmãos e irmãs dela, mais de oito arrodeando a mesa farta no almoço. Chegou a hora, um peru assado à mesa, muita comida, pediram para ele destrinchar. Na horagá que passou a faca de banda, pum! Eita! Todos se riram, ele ficou encabulado. Aí o sogro disse: Aí, peidão, passa a coxa desse peru pra cá! Risadas. Ele todo chateado foi servindo uns e outras a cada pedido. Findaram de almoçar e a mangação corria solta, até chegar a hora de ir embora. Despediu-se e foi para casa todo borocochô e jurando: Nunca mais volto lá. Morava sozinho, sem pai nem mãe, um tio deu as caras e ele contou. Oxe, que é que é isso, meu filho, quer se vingar? Como? Vá lá no mato, arranque uma batata e bote enterrado do lado do batente, lá na casa deles, antes deles acordarem. Oxente? Depois cochichou no ouvido dele, ah, tá! Vá. Ele foi, arrancou a batata e plantou ainda de madrugada no batente da casa do sogro. Uma semana depois ele apareceu, era véspera de São João e iam fazer uma fogueira na frente de casa. O sogro ia saindo na porta, deu um espirro e atchim, poim! Eita! O que é isso? Poin. Ai, meu Deus? Prum. A sogra veio, toda se acabando de rir dele: Que é isso, homem? Poim. Eita, até tu véia? E ela: Eu não, pum!Aí, tais vendo? Tu também. E se riam e peidavam: Isso é contagioso! O irmão mais velho: Que é que tá havendo, hem? Poin! Vixe! A irmã encostada: Que fedor é esse, gente? Poim. Tu também? Ih! Pegou! Pronto, Zé, pum, Maria, poin, Zefinha, puf, Judite, prei, tudo peidando, que é que houve? O genro só olhando. Eles se dizendo: Pegamos um mal feio! A do meio veio: Bença, pai! Brum. Eita, esse veio danado! Fedor da peste! Pegamos a doença de Abinagildo, foi? Chama João! Pei. Oi, pai! Puf. Vai chamar o boticário, vai! Pif. O boticário quando viu: Tem jeito não, pof, eu tô me peidando todo agora também! Vamos buscar o doutor e ele: Vôte! Vrum! O que é isso? Poin. Lá em casa está todo mundo assim e o boticário também! Pei. Eu também agora, pof! Tem remédio pra isso não! Toin. Nessa hora o padre ia passando e poin! Danou-se! Até o padre? Valei-me, puf. É lá na casa deles, tuf, estão todos, poin, se peidando, poin, assim! Benzodeus. Vamos todos para lá, poin, vamos. O padre pegou a água benta, puf, benzeu-se e foram todos para a casa dos peidões, poin, poin. Rezas de joelhos a manhã toda, toin, orações de todo jeito tarde para noite, poin, e nada, pum, só poin, poin, poin. Aí o genro vendo tudo aquilo, falou: Eu tenho um remédio pra isso que é tiro e queda! Como? Pelamordedeus diga logo qual o xarope pra cura disso, vá! E tome poin, puf, pei! Pum! Entrem todos no quarto que eu vou resolver essa bronca agora. Ninguém aguenta não! Entrem! Vamos morrer enturidos! Vambora! Entraram e, conforme o tio havia cochichado no ouvido dele, foi no mato, pegou uma tora de pinhão, chegou lá, ficou dando uma pisa de pinhão em cada um, umas lapadas de volta e outra vez, pronto, tudo curado. Viva! Agora ninguém peida mais! Só depois do café da manhã, do almoço e da ceia. Ah, não! Ah, sim. Aí ele tornou-se o genro querido do sogro e muito agradado por todos, casou-se com a filha formosa que namorava e não se sabe, ao certo, se foram felizes para sempre ou não, mas que casaram, casaram. E peidaram muito daí por diante. Pum, poin. PS: recriação de narrativa de Cêça - Conceição de Oliveira Cavalcanti, de Arcoverde, recolhida de Contos Populares Brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizada por Roberto Benjamim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Qualquer coisa em que você pode desenhar um círculo ao redor não pode ser explicada por si mesma sem se referir a algo fora do círculo – algo que você tem que assumir mas não pode provar. Eu estou mentindo. [...] É claro que hoje estamos longe de poder fundamentar a visão teológica de mundo cientificamente, mas acredito que já é possível apreender de maneira puramente racional (sem ter que recorrer a alguma religião ou crença) que a visão teológica de mundo é completamente compatível com todos os fatos conhecidos (inclusive as condições que reinam sobre a nossa Terra). O famoso matemático e filósofo Leibniz tentou demonstrar isto 250 anos atrás, e é isto que tentei fazer nas minhas últimas cartas. O que chamo de visão teológica de mundo é a ideia que o mundo e tudo que nele existe tem um significado e uma razão e na verdade um significado bom e inquestionável. Disto segue imediatamente que nossa existência terrestre, uma vez que ela tem um significado muito duvidoso, só pode ser o meio cujo objetivo é uma outra existência. A ideia que tudo no mundo tem um significado é, afinal, exatamente análoga à ideia que tudo tem uma causa, e é sobre esta que toda ciência está baseada. [...]
Trecho extraído da obra Collected Works (v. III, Oxford, 1995), do filósofo, matemático e lógico austríaco Kurt Gödel (1906-1978), criou a teoria da indecidibilidade lógica com os teoremas da incompletude, o primeiro deles, o da numeração, que assinala que qualquer sistema axiomático recursivo autoconsistente capaz de descrever a aritmética dos números naturais, há proposições naturais verdadeiras que não podem ser provadas a partir dos axiomas, codificando expressões formais como números naturais. O segundo teorema da incompletude, uma extensão do primeiro, mostra que tal sistema não pode demonstrar sua própria consistência.

A POESIA DE MANOEL DE BARROS
[...]
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha. Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
[...]
palavra que eu uso me inclui nela
[...]
Extraído de O livro das ignorãças (Civilização Brasileira, 1993), do poeta Manoel de Barros (1916-2014), livro este em que o autor desvenda os caminhos de sua criação poética, que em uma entrevista concedida à jornalista Martha Barros, do Correio Brasiliense (1990), expressou que:
Ao poeta penso que cabe a tarefa de arejar as palavras. E não deixar que morram de clichês. Pegar as mais espolegadas, as mais prostituídas pelos lugares-comuns e lhes dar novas sintaxes, novas companhias. Colocar, por exemplo, ao lado de uma palavra solene, um pedaço de esterco. O poeta precisa reaprender a errar a língua. Esse exercício poderá nos devolver a inocência da fala. Porque no assunto não há nada de novo. Tudo creio que já foi pensado e dito por tantos e tontos. Ou quase tudo. Ou quase tontos. De modo que não há novidades debaixo do Sol – e isso também já foi dito. Então, o que se pode fazer é dizer de outra forma. Se for para tirar gosto poético, é bom perverter a linguagem. Temos de molecar o idioma, os idiomas. O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso injetar nos verbos insanidades, para que eles transmitam aos nomes os seus delírios. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual portuguesa Angelina Silva
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A ARTE IMAGINAUTA DE GHUGHA TÁVORA
A arte do artista visual imaginauta, designer educacional e empreendedor socio-cultural Ghugha Távora em uma entrevista exclusiva. Confira aqui.
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Outras histórias do Abinagildo Peidão aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, abril 11, 2019

EMERSON, CHARLES PEIRCE, MARIA LUÍSA MENDONÇA, ARAKI NOBUYOSHI & BRINCAPRENDENSINAR NOVEDUCAÇÃO


BRINCAPRENDENSINAR, NOVEDUCAÇÃO – Muito se fala da educação brasileira, pudera. Começa pelo reducionismo de que ela é escolarização, aí tome gente quantitativamente enclausurada em insalubres situações de ensino-aprendizado, em detrimento de relações humanas qualitativas. O que se fala a respeito, quando muito, soletra, nada mais que isso, o decorado art. 205 da Constituição vigente, de que ela é direito de todos, dever do Estado e da família, promovida e incentivada com a colaboração da sociedade (!?), visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Tá. Há quem invoque da boca pra fora o art. 2º da LDB 9394/96 de que ela é inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais da solidariedade humana, com a finalidade constitucional, sendo cravado no artigo anterior que ela abrange os processos formativos que envolvem a vida familiar, a convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais, como se ela fosse vinculada ao mundo do trabalho e à prática social. Ah, é? Tá. Peraí, com base nessas previsões legais, ou estão fazendo tudo errado, ou isso de lei não é no Brasil. Tire a prova dos 9 e veja por si mesmo! Das duas, uma. E se a gente olhar direitinho, sem microscópio ou telescópio mesmo, na verdade não passa de instituição modelada como se hoje fosse o mesmo do que foi dito antes de Jesus e encerrada ao propósito mecanicista-positivista de séculos atrás, sem considerar que estamos em pleno século 21. Nada mais obsoleto, não é? Somente liquidando a fatura: no Brasil ninguém gosta de ler, muito menos de estudar. Poderia ser diferente? Se não fosse um horror, seria na base do vai lá que seja. Seja lá o que for, basta passar a vista na tragédia para encontrar uma rede pública exaurida e ineficiente que se tornou reino da discórdia, violência e descaso – o Estado não cumpre a sua parte -, como uma rede particular que mais parece um quartel-sanatório no fabrico de ciborgues prontos e moldados para o mercado, religiões e homogeneidade da estupidez. Aí quando alguém diz que a educação brasileira é emburrecedora, não se esboça a mínima indignação por aí, só discurso naturalizado e prato feito nas inflamadas conversas das esquinas e salões. Da mesma forma, é senso comum atribuir a qualquer problema do país a solução na educação, sobretudo flagrado na fala de autoridades e políticos, com o argumento de que ela um dia se tornar prioridade na pauta das gestões, resolverá tudo que atrapalha a vida dos brasileiros e das brasileiras. De boca em boca, ora, ora. À primeira vista, uma coisa parece líquida e certa: que a prática educativa desconhece ou ignora o universo relativístico-quântico, ou seja, não há liga entre o que pratica e os dias atuais, apesar do uso indiscriminado das tecnologias que nos certifica a participação num mundo em rede e serial em cenários instáveis e alterados por associações e justaposições, com mudanças incessantes e uma variedade de rearranjos na dispersão de sentidos múltiplos e dinâmicos, criando uma ponte entre o científico-racional e o estético-emocional e vice-versa, avalie. Parece que está tudo muito equivocado ou o mecanicismo-positivista causou danos brabos para incapacitação de uma leitura real do mundo ao redor. Parece? Prefiro brincaprendensinar, uma noveducação. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A única maneira de descobrir os princípios sobre os quais algo deve ser construído é considerar o que vai ser feito com aquilo que foi construído, depois que foi construído. [...] O objeto de uma representação não pode ser nada além de uma representação, da qual a primeira representação é o interpretante [...] De fato, não é nada além da representação, ela mesma concebida como despida de vestimentas irrelevantes. Mas estas vestimentas nunca podem ser completamente despidas; apenas podem ser trocadas por algo mais diáfano. [...]
Trechox extraídos da obra Escritos coligidos (Abril Cultural, 1974), do filósofo, pedagogista, cientista, linguista e matemático estadunidense Charles Sanders Peirce (1839-1914), criador da Semiose que é o processe de significação e a produção de significados, sendo identificada como uma ação ininterrupta de uma cadeia sígnica infinita de mediações, da natureza da continuidade, onde imprecisão e indeterminação constituem o próprio arcabouço da sua lógica. Contraditório e controvertido, seus escritos contribuíram para a história da filosofia sem, no entanto, conseguir comunicar-se com alunos ou público: “Minha obra destina-se a pessoas que desejam perquirir; os que desejam filosofia mastigada, podem buscar outro rumo; há botequins filosóficos em todas as esquinas, graças a Deus”. Veja mais aqui

A ARTE DE MARIA LUÍSA MENDONÇA
A arte da premiada e belamente charmosa atriz, apresentadora de TV e diretora Maria Luísa Mendonça, que atua no teatro, cinema e televisão. No teatro ela estreou com a peça Vestida de Noive (1987) e, em seguida, Os gigantes da montanha (1991), Romeu e Julieta (1993), Valsa nº 6 (1994), Futebol (1995), Os sete afluentes do rio Ota (2002), Na selva das cidades (2011), Zulmira e a falecida (2012), entre outras. No cinema ela estreou no filme Corazón iluminado (1998), Carandiru (2003), entre outros longas, curtas e documentários. Na tevê, entre outros trabalhos, apresentou o programa Contos da meia noite (2004), na TV Cultura e o programa Revista do Cinema Brasileiro, na TV Brasil. Ela também é artista visual e realizou a exposição Eu me registrarei sob um nome falso, em 2016. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo japonês Araki Nobuyoshi, autor dos livros Sentimental Journey (Jornada Sentimental), Winter Journey (Jornada de Inverno), Tokyo Lucky Hole, Shino e mais de outros 350 livros, sendo considerado um dos artistas mais produtivos do mundo. Sobre suas obra foi realizado o documentário Arakimentari, de Travis Klose, em 2005. 
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A OBRA DE RALPH WALDO EMERSON
A literatura é o esforço do homem para se indenizar pelas imperfeições da sua condição. A natureza e os livros pertencem aos olhos que os vêem. A natureza está constantemente a misturar-se com a arte.
A obra do escritor e filósofo estadunidense Ralph Waldo Emerson (1803-1882) aqui, aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, abril 10, 2019

CORA CORALINA, MILORAD PÁVITCH, CASSI ABRANCHES, FOLCLORE PERNAMUCANO & O PAPA-FIGO DE ÁGUA PRETA


O PAPA-FIGO DE ÁGUA PRETA - No tempo que os bichos falavam, era o maior converseiro. Tudo criado numa mata de engenho. O dono da propriedade, não deixava ninguém tocar em posse dele. Todo dia, depois do almoço, ele ia para a mata amontado no seu cavalo, chegava lá, arreava e armava a rede, os bichos todos ao redor dele, tudo tomando conta. Quem ousasse mexer no que fosse, ele mandava açoitar com banho de mel de furo e amarrava no cercado para lambidas das vacas e depois uma pisa de tabica cipó-pau. Era para ninguém se achegar em coisas dele, a lapada comia. Tinha desses que quanto mais o cipó vadiava, mais amaldiçoava e rogava praga. Muita gente morreu disso. Outros, abriam da vela, juravam nunca mais e eram liberados. Um dia lá, um caçador estranho entrou na mata. Ele tinha feito uma treta com um xangozeiro, levou umas três coisas encantadas e enterrou na boquinha da mata. Do dia pra noite, nasceu três pés de pau. Quando o senhor-de-engenho chegou lá para madorna: Oxe, que pés são esses que nunca vi aqui! Estava tudo grandão. Aí a coruja falou: Cumpade, por que o sinhô tá espantado? Quem fez isso aqui, Cumade? Ah, foi paga de um safado que passou por aqui! Ele chegou às escondidas, desembrulhou três pacotes e enterrou aí onde estão esses pés grandões. É mesmo? Era de noite, eu estava acordada, eu vi esses pés de pau crescendo e se estirando de riba para cima! Será que foi grato por eu não tê-lo matado? Num conte com isso não, aquele tem parte com o capeta! Aí o cachorro falou: Patrão, tenha cuidado. Aí o coronel foi lá, foi cá, espiou direitinho e nem ligou, armou a rede e tirou a madorna dele. Todo dia ele ia lá, armava a rede e roncava. Chegou dele se casar. Arrumou mulher, chamou o padre e o juiz, fez festa. Teve um filho que quando estava com ele passeando pelas terras, aí se descuidou, o pé de pau caiu em cima do menino e matou. Quanta tristeza, quase nem ia mais para lá. Mas o tempo passou, a mulher embuchou e deu-lhe outro filho. Já com sete anos, brincava o menino perto da mata, amontado num carneiro, ia passando, outro pé de pau caiu e matou. Aí ele ficou acabrunhado, queria mais saber da mata não. Até que um dia, abusou-se e olhou pros animais para escolha que ia vender, vender tudo, tinha mais graça não. Um bentivi vinha voando e ficou espiando para ele. Depois a ave pulou no ombro dele e se espantou: Que é que é isso? Deixe que o passarinho tinha uma notícia: Não venda nenhum desses seus bichos não, que todos eles juntos, acabaram de matar o último pé de pau que restava da mandinga. Como assim? Tudo quanto era bicho passou a fazer suas necessidades naquele pé de pau restante e acabou matando ele. Foi mesmo? Foi. Porém, não foi, depois de um tempo, o pé de pau ressurgiu mais robusto, grossão. Aí veio o terceiro filho e quando já estava grandinho, ele botou meio mundo de capanga para tomar conta dele. Uma tarde mormaçada, não teve jeito, a mata pegou fogo e os bichos que estavam ali, muitos fugiram, outros morreram queimados. Será que aquele pau amaldiçoado se queimou? Tomara. Passou-se o tempo, não foi mais lá na mata e se esqueceu. O menino crescia solto na buraqueira, já andando a cavalo e crescendo, administrando tudo com o pai, negociando, comprava e vendia. Surgiu um boato: toda vez que o filho saía de casa para levar ou trazer gado, uma criança aparecia morta e com o fígado arrancado. Bastava botar o pé fora de casa, virava a noite, no outro dia, crianças desaparecidas e quando encontradas, eram cadáveres sem fígado. O povo juntou as pedras, água na fervura: O filho do homem é papa-figo. E pegou. Nas noites de lua cheia, ouviam-se os uivos: Valha-me, Deus! É ele. Nossa Senhora me ajude! O povo todo tremia com rezas fortes, promessa até para santo que não existia. Os anjinhos estraçalhados, tudo era enterrado. Fizeram promessas, novenas, procissões, rezaram missa, o padre saiu benzendo as encruzilhadas e uma missão ficou por ali bem quinze dias. Chegou o dia de prendê-lo, acabar com a maldição. Avisaram ao pai dele que choroso, saiu andando sem destino, foi topar na mata que havia tomado corpo depois do incêndio e se lamentava sozinho. Foi aí que a coruja apareceu de novo e disse: Estou sabendo de tudo, seu menino está preso e será condenado. É, tem jeito não. A gente pode salvar ele! Pode não, ele virou papa-figo. Foi ele não, foi aquele nego que plantou os três pés de planta aqui. Foi nada! Foi. Toda boquinha da noite ele vinha cheirar a cinza daqui, se encantava e virava um cachorro grandão que saía uivando por aí. É ele que pega as crianças e arranca o fígado com dentes. Como a mata cresceu de novo, ele não tem poder de se encantar e a gente pode pegá-lo. Saíram e foram caçá-lo. Cadê-lo? Quando deram fé de um fogaréu lá longe, correram para o local. Lá estava ele se encantando, quase virando papa-figo, foi aí que o coronel agarrou-lo e amarrou-lo todo, arrastando-o estrada afora, até deixá-lo preso num tronco perto de uma panela de formiga, calabriado de mel e com os animais soltos para lambê-lo. Aí ele tornou e pediu para não ser castigado assim, abriu da vela, botou pra falar, que contava tudo, que inocentava o filho dele. Então ele foi amarrado, mãos e pés de travessa num cavalo e tocou para a cidade. Chegando lá, mandou chamar o povo todo e o desgraçado contou tudo tintim por tintim. O povo ficou injuriado de enforcá-lo na hora, depois tocaram fogo. Virou cinza. O vento bateu espalhando as cinzas que tocavam onde os meninos foram mortos e todos ressurgiam vivinhos e corriam para suas casas. Era uma vez. PS: Recriação de O papa-figo, narrado por Zé Negão - José Francisco da Silva, de Água Preta, recolhido por José Fernando de Souza e registrado na obra Contos populares brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizado por Roberto Benjamin). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Um leitor de sonhos kazar, ainda aluno em um mosteiro, ganhou de presente um vaso que colocou em sua cela. De noite, colocou nele seu anel. Quando quis, porém, reavê-lo, no dia seguinte de manhã, o anel não estava mais lá. Em vão, enfiava seu braço no vaso, não conseguia tocar o fundo. Isto o surpreendeu, pois o recipiente parecia menos fundo do que o comprimento do seu braço. Ergueu-o, mas, sob o uso, o chão era liso, e não havia nenhuma abertura no vaso, como é comum com qualquer outro vaso. Pegou um bastou e tentou atingir o fundo, mas sempre sem sucesso; o fundo do vaso parecia escapulir dele. Ele pensou: “Aqui onde estou é o meu limite” e dirigiu-se a seu mestre Mokadaça Al Safer, pedindo-lhe que lhe explicasse o significado do vaso. O mestre apanhou uma pedra, jogou-a no vaso e contou. Quando chegou a setenta, ouviu-se no interior do recipiente um barulho de mergulho, como se um objeto tivesse caído na água e o mestre disse: - Poderia explicar-te o que representa tei vaso, mas, antes, pergunta-se se isto de fato vale a pena. Assim que te disser o que é, o vaso adquirirá para ti e para os outros, um valor inferior ao que tem agora. Efetivamente, qualquer que seja seu valor, ele não pode ser superior ao valor de tudo. E assim que lhe disser o que é, o vaso não será mais tudo o que não é e, portanto, não será mãos o que agora é. Quando o aluno concordou com o mestre, este pegou um bastão e quebrou o vaso. Estupefato, o jovem perguntou-lhe o motivo desse dano e o mestre replicou: - O dano teria consistido em dizer-te para que servia este vaso, antes de quebrá-lo. Mas como não conheces seu uso, o dano não existe; o vaso continuará a ter para você a mesma utilidade que tinha antes de ser quebrado. De fato, o vaso kasar ainda tem a mesma utilidade até hoje, embora não exista há muito tempo. [...].
Trecho extraído da obra O dicionário kasar (Marco Zero, 1989), do escritor sérvio, tradutor e historiador sérvio Milorad Pávitch (1929-2009), um romance lexical com duas versões, uma masculina e outra feminina.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da coreógrafa e bailarina Cassilene Abranches que iniciou seus estudos na Escola Municipal de Bailados de São Paulo, ingressando aos 14 anos na Raça Cia de Danaça (SP) e integrou companhias como o Teatro Guaíra (PR) e Corpo (PR), assumindo exclusivamente a profissão de coreógrafa. Foi Cassi quem criou o espetáculo brasileiro para a abertura do Fórum Econômico Mundial, na Suiça, em 2012. 
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A RAPOSA, A SABIÁ E O CANCÃO
Era uma raposa... ou, a sabiá tinha três filhinhos. Ai, a raposa chegou um dia, disse: Ô cumade sabiá, me dê um filhinho desses teu! Aí, ela, a sabiá, disse: - Eu não dou não! Disse: - Me dê, cumade sabiá que cabo de raposa corta pau! Aí a sabiá muito tola, pegou o filhinho jogou lá. Aé ela, bá, carregou e comeu o filhinho da sabiá. Ai, foi s’embora. Quando foi no outro dia, ela chegou de novo: Ô cumade sabiá, me dá um filhinho desses teu! Dou nada! Num já dei um ontem: e pra dar outro hoje como é que eu vou ficar? Vou ficar sem nada. Aí ela? Oi, cumade sabiá, cabo de raposa corta pau! Aí a pobre besta jogou outro e foi chorar, pegou a chorar. Quando foi no outro dia o cancão chegou e disse: - Cumade sabiá, por que tá chorando? Ô cumpade, três filhinhos que tinha, a cumade raposa já comeu dois... e quando é hoje, ela vem pedir outro. Você largue de ser besta! Ela disse que cabo de raposa corta pau... E você é besta? O que é que você é? Você já viu cabo de raposa ser faca? Em cabo de raposa num tem faca, como é que ela pode cortar pau? Aí a raposa chegou: - Ô cumade sabiá, me dê outro filhinho dos teu! Dou nada! Num dou mais de jeito nenhum, que era três, só tenho um, vou ficar sem nada? Apois, cabo de raposa corta pau! Pode cortar! Agora não me importo mais não que você corte, vá, pode cortar! Ah, isso foi armada do cumpade cancão. Não, foi eu mesma. Foi nada. Foi. Aí a raposa fez um buraco, enterrou-se e ficou com os dentinhos de fora, botou uns caroço de milho. Aí o cancão chegou e foi comer, ela pegou o cancão. Saiu com ele na boca e chegou numa casa e o menino disse: Eita, passou uma raposa com um cancão na boca! Aí o cancão virou para a raposa e disse: - Com licença da palavra, quando eles disser assim, você diga merda! Quando chegou noutra casa, o menino disse: - Lá vai a raposa com o cancão na boca! A raposa então disse: - Merda. O cancão se soltou e foi-se embora.
Contação de Maria do Socorro, da Baixa do Léro, Tacaratu para Waldemir Araújo, registrado na obra Contos populares brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizado por Roberto Benjamin. Veja mais aqui.
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Outras de papa-figo aqui, aqui & aqui.
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Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida.
A obra da escritora Cora Coralina (1889-1985) aqui, aqui, aqui & aqui
 

terça-feira, abril 09, 2019

ALAN WATTS, BAUDELAIRE, CONSTANZA MAYO, OFF THE MAP & CRÔNICA DE OUTRO ABRIL


CRÔNICA DE OUTRO ABRIL - Havia o dia e isso já era o que podia ocorrer de melhor. Alguém não viu e era eu, as coisas todas acontecem ao mesmo tempo e a todo momento: aqui, ali, acolá a luz acendeu, a noite se foi, um grão germinou, o mato floresceu, o rio a correr, a flor a brotar, o bicho escondeu, segundos que se vão, minutos sem contas; o olho piscou, o instante se foi e escorreu entre os dedos, sem se dar conta o que a água inundou, o que mudou de lugar ou pereceu, o que o tempo engoliu ou espalhou, o que sumiu ou apareceu, o tanto de difuso que esborra e não dá para abarcar: chiados, estalidos, pegadas, idas e voltas. Assim se processa e a gente percebe uma coisa de cada vez, nem dá para saber de tantos, alhures. Muitas coisas mas muitas mesmo acontecem ao nosso redor, espontaneamente, imagine lá longe, quanto mais distante. Para quem sabe de fora para dentro, quanto de suficiente dará dimensão a coligir adequadamente de todos os lados e direções, de todas as alturas e distâncias, qual hora certa ou exata para a decisão. Ouve-se: aqui se faz, aqui se paga; olho por olho, dente por dente. Ah, a distração e uma outra cena entre outras nem se percebeu. Quem há-de escapar entre coisas e seres o imponderável, o inefável, o intangível. Olho e posso não ver; ouço e posso não ouvir, tocar e não sentir de cheiros, avisos, sabores. Mesmo de olhos fechados, até o que se tem por inexistente. Se cai ou tropeça, tudo já foi, passou; se atrasa, lá vem outra vez. Às costas, não sei. De dentro para fora tudo é verdadeiro, resta aprender o desconhecido, soltar as rédeas e voar duas polegadas acima do solo: o que posso viver além do vivido. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O mundo é visto como separado porque a pessoa projeta nele o seu próprio estado de confusão e ignorância; assim, em cada um de nós há essa mente que observa as circunstâncias criadas por ela mesma e, de acordo com a natureza particular da expressão dessa mente nos indivíduos, são criados os ambientes que os envolvem. [...] com os olhos focalizados no horizonte, não vemos o que está aos nossos pés. [...] no momento em que compreende, absoluta e finalmente, que a vida não pode ser captada, ele a solta, percebendo num átimo de segundo que tolo ele tem sido ao tentar retê-la como se fosse sua. Assim, nesse momento, ele alcança a liberdade do espírito, pois compreende o sofrimento inerente à tentativa humana de guardar o vento numa caixa, de manter viva a vida sem deixar que ela viva. [...].
Trechos extraídos da obra O Espírito do zen (Cultrix ‘1988), do filósofo e escritor inglês Alan Wilson Watts (1915-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora chilena Constanza Mayo
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OFF THE MAP
O drama Off the map (Fora do mapa, 2003), dirigido pelo diretor estadunidense Campbell Scott, com roteiro da atriz e autora Joan Ackerman, conta a história de uma família excêntrica vive uma existência separada daquela do mundo exterior, que continua a prosperar e a sobreviver autonomamente. Na trama, uma garota que mora no sítio fora do mato, acompanha o drama de seu pai abalado pela depressão, enquanto recria seu mundo conforme suas fantasias. Destaque para atuação da premiada atriz estadunidense Joan Allen. Veja mais aqui & aqui.
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Como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o. A imaginação é positivamente aparentada com o infinito.
A obra do escritor, tradutor, crítico de arte e poeta francês, Charles Baudelaire (1821 - 1867) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.



ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...