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quarta-feira, junho 17, 2020

MICHÈLE LAMONT, PAPINI, CHRISTI CALDWELL, VASILY GROSSMAN, MAYA PLISETSKAYA, BALÉ POPULAR DO RECIFE & BACO PERNAMBUCANO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: COISAS QUE ACONTECEM, O CORAÇÃO SENTE... - O que guardei por muito tempo, já nem lembro. O que era para ser feito, fiz. Não tenho mais aquelas tarde nem noites que possam valer alguma coisa, nenhum remorso ou regozijo, apenas existo. Tenho apenas de Stravinski o que ficou: Se tudo fosse permitido, eu me sentiria perdido num abismo de liberdade. E o melhor quando ele cantou a pedra: Para criar deve existir uma força dinâmica, e que força é mais potente que o amor? O silêncio vai salvar-me de estar errado (e de ser idiota), mas que também irá privar-me da possibilidade de estar certo. Melhor ainda: o silêncio é revelador, seja como for.

DUAS: O JEITO MAIS É A DISTÂNCIA – Longe o afeto, asas fechadas e um riso mascarado. Outros tempos estes de conter a emoção, os nós da racionalidade cada vez mais insistente. Não há como prever o amanhã, muito menos o que fazer para quem menino esqueceu crescer. Foi Escher quem levantou a lebre: O que eu crio na luz do dia é apenas um por cento do que eu vi na escuridão. Meu trabalho é um jogo, um jogo muito sério. Eu não cresço. Dentro de mim está a criança da minha infância. Tomara jamais precise uma esperança a menos das tantas que me fiz.

TRÊS: CONTANDO O TEMPO EM MIM - É difícil cada vez mais atravessar os dias, eu me refaço a todo instante, até sou feliz como posso. Sou outro mesmo com a certidão de que tudo piora e vou incólume, por enquanto, escapando da lâmina afiada das circunstâncias. Reinvento a mim mesmo e sei que chegará a hora, vou digerindo as impossibilidades. Ao ouvido a reflexão de Thomas Kuhn: O significado das crises consiste exatamente no fato de que indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos. Sim, deve haver outra forma melhor para sobreviver. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Quando uma pessoa morre, ela sai do reino da liberdade e entra no reino da escravidão. Vida é a liberdade e a morte é a negação gradual da liberdade. A consciência primeiro enfraquece e depois desaparece. Os processos da vida – respiração, metabolismo, circulação – continuam por algum tempo, mas foi feito um movimento irrevocável em diração à escravidão, a consciência e a chama da liberdade se extinguiram. As estrelas desapareceram do céu noturno. A Via Láctea desvaneceu-se; o Sol apagou; Vênus, Marte e Júpiter se extinguiram; milhões de folhas morreram; o vento e os oceanos se dissparam; as flores perderam suas cores e seus perfurmes; o pão sumiu; a água sumiu/ até o mesmo o propprio ar, o ar às vezes fresco e às vezes abafado sumiu. O universo dentro da pessoa parou de existir. Esse universo é surpreendetemente parecido com o universo que existe fora das pessoas viventes. Mas ainda mais surpreendente é o fato de que esse universo tinha algo em si que diferenciava o som de seu oceano, o cheiro de suas flores, o farfalhar de suas folhas, os tons de seu granito e a trsiteza de seus campos no outro tanto daqueles (sons de oceanos, cheiro de flores, farfalhar de folhas, tons de granito e trsiteza de campos de outono) do universo que existe externamente fora das pessoas. O que constitui a liberdade, a alma de uma vida individual, é o seu carater único. O reflexo do universo na consciencia de alguem é abase de seu poder, mas a vida só se transofrma em felicidade, só é dotada de liberdade e sentido, quando alguem existe como um mundo inteiro que nunca foi repetido em toda eternidade. Só então se pode experimentar o prazer da liberdade e da bondade, encontrando nos outros aquilo que já foi encontrado em si mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra Vida e Destino (Leya, 2012), do escritor e jornalista ucraniano Vasily Grossman (1905-1964), tratando sobre a incidência da Segunda Guerra Mundial na Rússia soviética, numa família de classe média que se dispersa no destino, retratando o horror e a esperança diante do genocídio dos judeus.

 

OUTROS DITOS

Eu pretendo combater o cinismo intelectual...

Pensamento da socióloga canadense Michèle Lamont, que na sua obra Money, Morals, & Manners: The Culture of the French and the American Upper-Middle Class (University of Chicago Press, 1994), expressa que: [...] Embora o impacto da classe social, etnia e socialização religiosa na escolha conjugal tenha diminuído, a homogamia educacional tem aumentado. Em geral, a população com ensino superior (que abrange a classe média alta, conforme definida no presente estudo) continua a apresentar um alto grau de similaridade em suas práticas e atitudes culturais em uma ampla gama de áreas. O fato de um diploma universitário continuar sendo o melhor preditor de alto status ocupacional sugere que os limites que essa população constrói entre si e os outros são particularmente significativos. Esses limites provavelmente serão mais permanentes, menos transponíveis e menos resistidos do que os limites existentes entre grupos étnicos, por exemplo. Eles também têm maior probabilidade de sobreviver em diferentes contextos, ou seja, de serem transferidos da comunidade para o local de trabalho e vice-versa. Vemos novamente, portanto, a importância de estudar de forma sistemática os limites produzidos por pessoas com ensino superior. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

O HOMEM QUE SE PERDEU DE SI MESMO, DE PAPINI

[...] Desde aquele dia, nunca mais tive coragem de despir-me, e permaneço sempre em casa, sozinho, com o meu dominó branco no corpo, com minha máscara negra no rosto, para ter certeza de nunca mais perder-me. [...].

Trecho do conto O homem que se perdeu de si mesmo, do escritor italiano Giovanni Papini (1881-1956), autor do controvertido livro El Diablo (Epoca, 2017), no qual expressa que: [...] Este livro não é: Uma história das opiniões e crenças do Diabo; uma incursão mais ou menos erudita ou mais ou menos divertida pelas lendas antigas e modernas do Diabo; um estudo conceitual árido, seguindo o tradicional jornal escolar; um manual ascético para proteger as almas dos ataques e investidas do diabo; uma coleção de invectivas sagradas ou discursos oratórios sobre o velho adversário; uma história dos representantes terrenos do Diabo, que explica mágicos, ocultistas e coisas por estilo: uma orgia romântica de literatura satanista, com seus correspondentes homens negros e outros imbecis brutais; uma elucubração metafísica sobre o problema do mal, como a encontrada pelo kantiano Ehrard; e, no final, é exatamente como pode parecer a qualquer leitor apreciador, uma defesa do Diabo. [...]. Veja mais aqui & aqui.

 

O AMOR DE UM LADINO, DE CHRISTI CALDWELL

[...] Temo que se você realmente acredite nisso, você viverá uma existência muito solitária e triste. [...] Você pode ter esquecido como usá-lo porque ele foi muito machucado, mas ele está lá e um dia você encontrará a pessoa que ensinará esse órgão a bater novamente. [...] Ele deixou de acreditar pelas mãos de seu pai, a pessoa que deveria amá-lo incondicionalmente, em vez disso lhe ensinou que o amor, na verdade, tem condições. [...].

Trechos extraídos do livro The Love of a Rogue (Spencer Hill Press, 2018), da escritora estadunidense Christi Caldwell.

 


A FESTA PERNAMBUCANA DE BACO
Bebamos, companheiros, / Bebamos, companheiros, / O suco da uva, O vinho verdadeiro.
[...] Depois da festividade de Nossa Senhora dos Prazeres, celebrada na dominga de pascoela, na sua linda igreja dos montes Guararapes, erguida em memoria dos dois grandes feitos de armas ali feridos em 1648 e 1649, contra o batavo invasor, seguia-se uma série de festas até o domingo imediato e no qual tinha lugar a festa do deus Baco. Para o lugar denominado Batalha, onde passa o riacho Jordão, cujas águas são vermelhas do sangue que ali correra – num combate travado em uma das batalhas dos Guararapes, como reza a tradição popular -, afluía pela manhã imensa multidão e guardadas as solenidades das festas pagãs, tinha lugar o batismo de Baco nas águas do Jordão. Terminado o ato, dispunha-se toda gente em ordem de marcha para os Prazeres, formando pelotões, conduzindo cada individuo um galho de árvore, e no fim, vinha Baco, com uma coroa de folhas na cabeça, montado sobre uma pipa que, disposta em forma de charola, era conduzida nos ombros dos circunstantes, revezadamente. Baco trazia uma garrafa com vinho na mão direita e um copo na esquerda, de cujo liquido vinha fazendo libações, e a representação do seu papel, na solenidade, cabia privativamente ao juiz da festa, anualmente eleito pelos foliões. Desfilava então o préstito, entoando um cântico tirado por uns tantos e respondido em coro por toda a gente cujos versos tinham por estribilho [...] Essa usança, que vinha aliás de longínquas eras, não podia continuar a ser tolerada em um pais católico; compenetrada dos seus deveres, por fim, as autoridades eclesiásticas reclamaram dos poderes públicos a sua interferência, no intuito de obstar a continuação de semelhante prática. Houve tentativas pacificas, mas infrutíferas, até que em 1869 expediu o governo uma numerosa força de infantaria e cavalaria, que obstou a execução da tradicional festividade e desde então nunca mais se tentou a sua celebração. [...].
A FESTA PERNAMBUCANA DE BACO - Trechos extraídos da obra Folclore pernambucano (Imprensa Nacional, 1908), do historiador, jornalista e advogado Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923). No Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), está registrado que: [...] Realizava-se há muito tempo na província de Pernambuco uma festa dedicada ao deus do vinho, com procissão, banquete, cânticos, etc., reminiscência da grande dionisíaca, que ocorria no mês de elafebolion (março) na Grécia e depois em Roma, durante o outono. A festa de Baco terminou em 1869 e era ligada à celebração da páscoa. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina, coreógrafa, atriz e diretora de ballet russa Maya Plisetskaya (1925-2015), prima ballerina assoluta do Teatro Bolshoi. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
O artista precisa do reconhecimento do seu povo, porque ele vive disso. É muito importante o trabalho que vimos desenvolvendo esse tempo todo, fazendo a cidade dançar, fazendo com que a cidade reconheça seus valores artísticos mais profundos, e estamos hoje sendo coroados por este valor. Esse reconhecimento vem abrir portas, consolida nosso trabalho, e nos posiciona como um legítimo representante da cidade do Recife. Isso nos inventiva e dá mais vontade de lutar, de continuar a levar nossa cultura e nossa arte para a sociedade.
A arte do Balé Popular do Recife, um Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, criado em 1977, há mais de 40 anos e com linguagem própria denominada Brasílica, metodologia implantada pelo fundador e diretor André Madureira.
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Tetralogia Primeira – Terminologia, Quartzo e Temporal: lapsos -, de Gentil Porto Filho aqui.
A obra da a filósofa, pintora, poeta e historiadora Rita Joana de Souza aqui.
A música de Spok Frevo aqui.
A arte do pintor Elmar Castelo Branco aqui.
O documentário O migrante, direção de Beto Novaes, Francisco Alves e Cleisson Vidal aqui.
Teatro nosso de cada dia, de Fernando Peltier (1948-2014) aqui.
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Camocim de São Félix aqui e aqui.


sexta-feira, abril 12, 2019

MANOEL DE BARROS, KURT GÖDEL, ANGELINA SILVA, GHUGHA TÁVORA & O PUM DA BATATA


O PUM DA BATATA - Era uma vez um rapaz que se engraçou duma moça faceira. Trocaram olhares, passaram um pelo outro no meio do festeiro, sumiram e voltaram, até que um dia se encontraram e trocaram conversa para lá e para cá, se riram, se engraçaram e, depois de mais de nove horas, namoraram. Foi aquele amor. Beijos e abraços, ficou acertado domingo dele ir para a casa dela passar o dia, conhecer os pais, e assim se deu. Chegando lá, foi apresentado aos familiares dela, pais, irmãos e irmãs dela, mais de oito arrodeando a mesa farta no almoço. Chegou a hora, um peru assado à mesa, muita comida, pediram para ele destrinchar. Na horagá que passou a faca de banda, pum! Eita! Todos se riram, ele ficou encabulado. Aí o sogro disse: Aí, peidão, passa a coxa desse peru pra cá! Risadas. Ele todo chateado foi servindo uns e outras a cada pedido. Findaram de almoçar e a mangação corria solta, até chegar a hora de ir embora. Despediu-se e foi para casa todo borocochô e jurando: Nunca mais volto lá. Morava sozinho, sem pai nem mãe, um tio deu as caras e ele contou. Oxe, que é que é isso, meu filho, quer se vingar? Como? Vá lá no mato, arranque uma batata e bote enterrado do lado do batente, lá na casa deles, antes deles acordarem. Oxente? Depois cochichou no ouvido dele, ah, tá! Vá. Ele foi, arrancou a batata e plantou ainda de madrugada no batente da casa do sogro. Uma semana depois ele apareceu, era véspera de São João e iam fazer uma fogueira na frente de casa. O sogro ia saindo na porta, deu um espirro e atchim, poim! Eita! O que é isso? Poin. Ai, meu Deus? Prum. A sogra veio, toda se acabando de rir dele: Que é isso, homem? Poim. Eita, até tu véia? E ela: Eu não, pum!Aí, tais vendo? Tu também. E se riam e peidavam: Isso é contagioso! O irmão mais velho: Que é que tá havendo, hem? Poin! Vixe! A irmã encostada: Que fedor é esse, gente? Poim. Tu também? Ih! Pegou! Pronto, Zé, pum, Maria, poin, Zefinha, puf, Judite, prei, tudo peidando, que é que houve? O genro só olhando. Eles se dizendo: Pegamos um mal feio! A do meio veio: Bença, pai! Brum. Eita, esse veio danado! Fedor da peste! Pegamos a doença de Abinagildo, foi? Chama João! Pei. Oi, pai! Puf. Vai chamar o boticário, vai! Pif. O boticário quando viu: Tem jeito não, pof, eu tô me peidando todo agora também! Vamos buscar o doutor e ele: Vôte! Vrum! O que é isso? Poin. Lá em casa está todo mundo assim e o boticário também! Pei. Eu também agora, pof! Tem remédio pra isso não! Toin. Nessa hora o padre ia passando e poin! Danou-se! Até o padre? Valei-me, puf. É lá na casa deles, tuf, estão todos, poin, se peidando, poin, assim! Benzodeus. Vamos todos para lá, poin, vamos. O padre pegou a água benta, puf, benzeu-se e foram todos para a casa dos peidões, poin, poin. Rezas de joelhos a manhã toda, toin, orações de todo jeito tarde para noite, poin, e nada, pum, só poin, poin, poin. Aí o genro vendo tudo aquilo, falou: Eu tenho um remédio pra isso que é tiro e queda! Como? Pelamordedeus diga logo qual o xarope pra cura disso, vá! E tome poin, puf, pei! Pum! Entrem todos no quarto que eu vou resolver essa bronca agora. Ninguém aguenta não! Entrem! Vamos morrer enturidos! Vambora! Entraram e, conforme o tio havia cochichado no ouvido dele, foi no mato, pegou uma tora de pinhão, chegou lá, ficou dando uma pisa de pinhão em cada um, umas lapadas de volta e outra vez, pronto, tudo curado. Viva! Agora ninguém peida mais! Só depois do café da manhã, do almoço e da ceia. Ah, não! Ah, sim. Aí ele tornou-se o genro querido do sogro e muito agradado por todos, casou-se com a filha formosa que namorava e não se sabe, ao certo, se foram felizes para sempre ou não, mas que casaram, casaram. E peidaram muito daí por diante. Pum, poin. PS: recriação de narrativa de Cêça - Conceição de Oliveira Cavalcanti, de Arcoverde, recolhida de Contos Populares Brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizada por Roberto Benjamim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Qualquer coisa em que você pode desenhar um círculo ao redor não pode ser explicada por si mesma sem se referir a algo fora do círculo – algo que você tem que assumir mas não pode provar. Eu estou mentindo. [...] É claro que hoje estamos longe de poder fundamentar a visão teológica de mundo cientificamente, mas acredito que já é possível apreender de maneira puramente racional (sem ter que recorrer a alguma religião ou crença) que a visão teológica de mundo é completamente compatível com todos os fatos conhecidos (inclusive as condições que reinam sobre a nossa Terra). O famoso matemático e filósofo Leibniz tentou demonstrar isto 250 anos atrás, e é isto que tentei fazer nas minhas últimas cartas. O que chamo de visão teológica de mundo é a ideia que o mundo e tudo que nele existe tem um significado e uma razão e na verdade um significado bom e inquestionável. Disto segue imediatamente que nossa existência terrestre, uma vez que ela tem um significado muito duvidoso, só pode ser o meio cujo objetivo é uma outra existência. A ideia que tudo no mundo tem um significado é, afinal, exatamente análoga à ideia que tudo tem uma causa, e é sobre esta que toda ciência está baseada. [...]
Trecho extraído da obra Collected Works (v. III, Oxford, 1995), do filósofo, matemático e lógico austríaco Kurt Gödel (1906-1978), criou a teoria da indecidibilidade lógica com os teoremas da incompletude, o primeiro deles, o da numeração, que assinala que qualquer sistema axiomático recursivo autoconsistente capaz de descrever a aritmética dos números naturais, há proposições naturais verdadeiras que não podem ser provadas a partir dos axiomas, codificando expressões formais como números naturais. O segundo teorema da incompletude, uma extensão do primeiro, mostra que tal sistema não pode demonstrar sua própria consistência.

A POESIA DE MANOEL DE BARROS
[...]
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha. Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
[...]
palavra que eu uso me inclui nela
[...]
Extraído de O livro das ignorãças (Civilização Brasileira, 1993), do poeta Manoel de Barros (1916-2014), livro este em que o autor desvenda os caminhos de sua criação poética, que em uma entrevista concedida à jornalista Martha Barros, do Correio Brasiliense (1990), expressou que:
Ao poeta penso que cabe a tarefa de arejar as palavras. E não deixar que morram de clichês. Pegar as mais espolegadas, as mais prostituídas pelos lugares-comuns e lhes dar novas sintaxes, novas companhias. Colocar, por exemplo, ao lado de uma palavra solene, um pedaço de esterco. O poeta precisa reaprender a errar a língua. Esse exercício poderá nos devolver a inocência da fala. Porque no assunto não há nada de novo. Tudo creio que já foi pensado e dito por tantos e tontos. Ou quase tudo. Ou quase tontos. De modo que não há novidades debaixo do Sol – e isso também já foi dito. Então, o que se pode fazer é dizer de outra forma. Se for para tirar gosto poético, é bom perverter a linguagem. Temos de molecar o idioma, os idiomas. O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso injetar nos verbos insanidades, para que eles transmitam aos nomes os seus delírios. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual portuguesa Angelina Silva. 
Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A ARTE IMAGINAUTA DE GHUGHA TÁVORA
A arte do artista visual imaginauta, designer educacional e empreendedor socio-cultural Ghugha Távora em uma entrevista exclusiva. Confira aqui.
&
Outras histórias do Abinagildo Peidão aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, abril 10, 2019

CORA CORALINA, MILORAD PÁVITCH, CASSI ABRANCHES, FOLCLORE PERNAMUCANO & O PAPA-FIGO DE ÁGUA PRETA


O PAPA-FIGO DE ÁGUA PRETA - No tempo que os bichos falavam, era o maior converseiro. Tudo criado numa mata de engenho. O dono da propriedade, não deixava ninguém tocar em posse dele. Todo dia, depois do almoço, ele ia para a mata amontado no seu cavalo, chegava lá, arreava e armava a rede, os bichos todos ao redor dele, tudo tomando conta. Quem ousasse mexer no que fosse, ele mandava açoitar com banho de mel de furo e amarrava no cercado para lambidas das vacas e depois uma pisa de tabica cipó-pau. Era para ninguém se achegar em coisas dele, a lapada comia. Tinha desses que quanto mais o cipó vadiava, mais amaldiçoava e rogava praga. Muita gente morreu disso. Outros, abriam da vela, juravam nunca mais e eram liberados. Um dia lá, um caçador estranho entrou na mata. Ele tinha feito uma treta com um xangozeiro, levou umas três coisas encantadas e enterrou na boquinha da mata. Do dia pra noite, nasceu três pés de pau. Quando o senhor-de-engenho chegou lá para madorna: Oxe, que pés são esses que nunca vi aqui! Estava tudo grandão. Aí a coruja falou: Cumpade, por que o sinhô tá espantado? Quem fez isso aqui, Cumade? Ah, foi paga de um safado que passou por aqui! Ele chegou às escondidas, desembrulhou três pacotes e enterrou aí onde estão esses pés grandões. É mesmo? Era de noite, eu estava acordada, eu vi esses pés de pau crescendo e se estirando de riba para cima! Será que foi grato por eu não tê-lo matado? Num conte com isso não, aquele tem parte com o capeta! Aí o cachorro falou: Patrão, tenha cuidado. Aí o coronel foi lá, foi cá, espiou direitinho e nem ligou, armou a rede e tirou a madorna dele. Todo dia ele ia lá, armava a rede e roncava. Chegou dele se casar. Arrumou mulher, chamou o padre e o juiz, fez festa. Teve um filho que quando estava com ele passeando pelas terras, aí se descuidou, o pé de pau caiu em cima do menino e matou. Quanta tristeza, quase nem ia mais para lá. Mas o tempo passou, a mulher embuchou e deu-lhe outro filho. Já com sete anos, brincava o menino perto da mata, amontado num carneiro, ia passando, outro pé de pau caiu e matou. Aí ele ficou acabrunhado, queria mais saber da mata não. Até que um dia, abusou-se e olhou pros animais para escolha que ia vender, vender tudo, tinha mais graça não. Um bentivi vinha voando e ficou espiando para ele. Depois a ave pulou no ombro dele e se espantou: Que é que é isso? Deixe que o passarinho tinha uma notícia: Não venda nenhum desses seus bichos não, que todos eles juntos, acabaram de matar o último pé de pau que restava da mandinga. Como assim? Tudo quanto era bicho passou a fazer suas necessidades naquele pé de pau restante e acabou matando ele. Foi mesmo? Foi. Porém, não foi, depois de um tempo, o pé de pau ressurgiu mais robusto, grossão. Aí veio o terceiro filho e quando já estava grandinho, ele botou meio mundo de capanga para tomar conta dele. Uma tarde mormaçada, não teve jeito, a mata pegou fogo e os bichos que estavam ali, muitos fugiram, outros morreram queimados. Será que aquele pau amaldiçoado se queimou? Tomara. Passou-se o tempo, não foi mais lá na mata e se esqueceu. O menino crescia solto na buraqueira, já andando a cavalo e crescendo, administrando tudo com o pai, negociando, comprava e vendia. Surgiu um boato: toda vez que o filho saía de casa para levar ou trazer gado, uma criança aparecia morta e com o fígado arrancado. Bastava botar o pé fora de casa, virava a noite, no outro dia, crianças desaparecidas e quando encontradas, eram cadáveres sem fígado. O povo juntou as pedras, água na fervura: O filho do homem é papa-figo. E pegou. Nas noites de lua cheia, ouviam-se os uivos: Valha-me, Deus! É ele. Nossa Senhora me ajude! O povo todo tremia com rezas fortes, promessa até para santo que não existia. Os anjinhos estraçalhados, tudo era enterrado. Fizeram promessas, novenas, procissões, rezaram missa, o padre saiu benzendo as encruzilhadas e uma missão ficou por ali bem quinze dias. Chegou o dia de prendê-lo, acabar com a maldição. Avisaram ao pai dele que choroso, saiu andando sem destino, foi topar na mata que havia tomado corpo depois do incêndio e se lamentava sozinho. Foi aí que a coruja apareceu de novo e disse: Estou sabendo de tudo, seu menino está preso e será condenado. É, tem jeito não. A gente pode salvar ele! Pode não, ele virou papa-figo. Foi ele não, foi aquele nego que plantou os três pés de planta aqui. Foi nada! Foi. Toda boquinha da noite ele vinha cheirar a cinza daqui, se encantava e virava um cachorro grandão que saía uivando por aí. É ele que pega as crianças e arranca o fígado com dentes. Como a mata cresceu de novo, ele não tem poder de se encantar e a gente pode pegá-lo. Saíram e foram caçá-lo. Cadê-lo? Quando deram fé de um fogaréu lá longe, correram para o local. Lá estava ele se encantando, quase virando papa-figo, foi aí que o coronel agarrou-lo e amarrou-lo todo, arrastando-o estrada afora, até deixá-lo preso num tronco perto de uma panela de formiga, calabriado de mel e com os animais soltos para lambê-lo. Aí ele tornou e pediu para não ser castigado assim, abriu da vela, botou pra falar, que contava tudo, que inocentava o filho dele. Então ele foi amarrado, mãos e pés de travessa num cavalo e tocou para a cidade. Chegando lá, mandou chamar o povo todo e o desgraçado contou tudo tintim por tintim. O povo ficou injuriado de enforcá-lo na hora, depois tocaram fogo. Virou cinza. O vento bateu espalhando as cinzas que tocavam onde os meninos foram mortos e todos ressurgiam vivinhos e corriam para suas casas. Era uma vez. PS: Recriação de O papa-figo, narrado por Zé Negão - José Francisco da Silva, de Água Preta, recolhido por José Fernando de Souza e registrado na obra Contos populares brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizado por Roberto Benjamin). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Um leitor de sonhos kazar, ainda aluno em um mosteiro, ganhou de presente um vaso que colocou em sua cela. De noite, colocou nele seu anel. Quando quis, porém, reavê-lo, no dia seguinte de manhã, o anel não estava mais lá. Em vão, enfiava seu braço no vaso, não conseguia tocar o fundo. Isto o surpreendeu, pois o recipiente parecia menos fundo do que o comprimento do seu braço. Ergueu-o, mas, sob o uso, o chão era liso, e não havia nenhuma abertura no vaso, como é comum com qualquer outro vaso. Pegou um bastou e tentou atingir o fundo, mas sempre sem sucesso; o fundo do vaso parecia escapulir dele. Ele pensou: “Aqui onde estou é o meu limite” e dirigiu-se a seu mestre Mokadaça Al Safer, pedindo-lhe que lhe explicasse o significado do vaso. O mestre apanhou uma pedra, jogou-a no vaso e contou. Quando chegou a setenta, ouviu-se no interior do recipiente um barulho de mergulho, como se um objeto tivesse caído na água e o mestre disse: - Poderia explicar-te o que representa tei vaso, mas, antes, pergunta-se se isto de fato vale a pena. Assim que te disser o que é, o vaso adquirirá para ti e para os outros, um valor inferior ao que tem agora. Efetivamente, qualquer que seja seu valor, ele não pode ser superior ao valor de tudo. E assim que lhe disser o que é, o vaso não será mais tudo o que não é e, portanto, não será mãos o que agora é. Quando o aluno concordou com o mestre, este pegou um bastão e quebrou o vaso. Estupefato, o jovem perguntou-lhe o motivo desse dano e o mestre replicou: - O dano teria consistido em dizer-te para que servia este vaso, antes de quebrá-lo. Mas como não conheces seu uso, o dano não existe; o vaso continuará a ter para você a mesma utilidade que tinha antes de ser quebrado. De fato, o vaso kasar ainda tem a mesma utilidade até hoje, embora não exista há muito tempo. [...].
Trecho extraído da obra O dicionário kasar (Marco Zero, 1989), do escritor sérvio, tradutor e historiador sérvio Milorad Pávitch (1929-2009), um romance lexical com duas versões, uma masculina e outra feminina.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da coreógrafa e bailarina Cassilene Abranches que iniciou seus estudos na Escola Municipal de Bailados de São Paulo, ingressando aos 14 anos na Raça Cia de Danaça (SP) e integrou companhias como o Teatro Guaíra (PR) e Corpo (PR), assumindo exclusivamente a profissão de coreógrafa. Foi Cassi quem criou o espetáculo brasileiro para a abertura do Fórum Econômico Mundial, na Suiça, em 2012. 
Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A RAPOSA, A SABIÁ E O CANCÃO
Era uma raposa... ou, a sabiá tinha três filhinhos. Ai, a raposa chegou um dia, disse: Ô cumade sabiá, me dê um filhinho desses teu! Aí, ela, a sabiá, disse: - Eu não dou não! Disse: - Me dê, cumade sabiá que cabo de raposa corta pau! Aí a sabiá muito tola, pegou o filhinho jogou lá. Aé ela, bá, carregou e comeu o filhinho da sabiá. Ai, foi s’embora. Quando foi no outro dia, ela chegou de novo: Ô cumade sabiá, me dá um filhinho desses teu! Dou nada! Num já dei um ontem: e pra dar outro hoje como é que eu vou ficar? Vou ficar sem nada. Aí ela? Oi, cumade sabiá, cabo de raposa corta pau! Aí a pobre besta jogou outro e foi chorar, pegou a chorar. Quando foi no outro dia o cancão chegou e disse: - Cumade sabiá, por que tá chorando? Ô cumpade, três filhinhos que tinha, a cumade raposa já comeu dois... e quando é hoje, ela vem pedir outro. Você largue de ser besta! Ela disse que cabo de raposa corta pau... E você é besta? O que é que você é? Você já viu cabo de raposa ser faca? Em cabo de raposa num tem faca, como é que ela pode cortar pau? Aí a raposa chegou: - Ô cumade sabiá, me dê outro filhinho dos teu! Dou nada! Num dou mais de jeito nenhum, que era três, só tenho um, vou ficar sem nada? Apois, cabo de raposa corta pau! Pode cortar! Agora não me importo mais não que você corte, vá, pode cortar! Ah, isso foi armada do cumpade cancão. Não, foi eu mesma. Foi nada. Foi. Aí a raposa fez um buraco, enterrou-se e ficou com os dentinhos de fora, botou uns caroço de milho. Aí o cancão chegou e foi comer, ela pegou o cancão. Saiu com ele na boca e chegou numa casa e o menino disse: Eita, passou uma raposa com um cancão na boca! Aí o cancão virou para a raposa e disse: - Com licença da palavra, quando eles disser assim, você diga merda! Quando chegou noutra casa, o menino disse: - Lá vai a raposa com o cancão na boca! A raposa então disse: - Merda. O cancão se soltou e foi-se embora.
Contação de Maria do Socorro, da Baixa do Léro, Tacaratu para Waldemir Araújo, registrado na obra Contos populares brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizado por Roberto Benjamin. Veja mais aqui.
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Outras de papa-figo aqui, aqui & aqui.
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Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida.
A obra da escritora Cora Coralina (1889-1985) aqui, aqui, aqui & aqui
 

quarta-feira, março 27, 2019

HAZEL HENDERSON, MILLÔR FERNANDES, RUTH RACHOU, CABRA CABRIOLA & VIVA O TEATRO!


TEATRO EM ALAGOINHANDUBA - Uma trupe mabembe resolveu dar as caras por Alagoinhanduba. Tinha o grupo por objetivo uma apresentação teatral para o público daquela localidade. Logo a companhia deu conta das adversidades depois de muito pelejar para uma temporada por lá: Isso é o fim do mundo! Quase era mesmo. Após bater muita perna entre lojas e transeuntes, era hora de reorganizar as ideias: E agora? Criatividade na ponta da língua e nos passos. Por sorte ou quase isso, o prefeito Zé Peiúdo tomava umas e outras com o eleitorado na esquina: Ah, vocês são de triate, é? É. Engolem espada, equilibram no cabo, cospem fogo? Não. Ah, já sei: viram bicho, se envultam e outras palhaçadas, né? Não. A gente faz teatro, não circo. Hem? Ué, vocês fazem mesmo o quê? A gente representa! Que droga é nove? Ah, feito atua feito cinema, novela, só que ao vivo e em cores. Ah, então tem muito tiro e briga? Não. Nem karatê, boxe, faroeste, sarrafada geral? Não. Tem safadeza de furunfado? Não. Oxe, então não presta, não faz nada que a gente gosta. Pronto, agora deu o créu. Nunca viu teatro? A gente gosta de coisa com trapezista, contorcionista, dança, essas coisas que tem piada e esculhambação! É? Dá um treino aí pra gente vê como é que é! Temos que nos aprontar. Ah, meu, se é bom é assim na hora, oxe! Assim não dá, nem a pulso! Lá pras tantas tentaram se entender, o que não foi muito fácil. Se o prefeito de maus fígados era alheio e cheio da má vontade, o povo dali não era muito diferente: A gente nunca viu dessas coisas não. Aí restava se virar e tentar salvar pra não perder a viagem, arrastando malas. Os atores começaram por agir ali mesmo com uns esquetes improvisados na hora: uma birutada geral. Foi juntando gente, bulindo um com o outro, simulando desafios e repentes, o povo na maior gaitada, ao final passaram o chapéu e amealharam umas moedas e algumas cédulas. O prefeito escapuliu de ninguém nem vê-lo se picar tão de mansinho. Juntando com as reservas das algibeiras, deu para um lanche e se arrancharem como podiam numa pensão lá longe. Logo de manhã, molharam o bico com café, pão e ovos, e zarparam prontos para um espetáculo infantil no meio de rua: O lobisomem zonzo. A garotada logo apareceu, juntou bruguelo como a praga: Bicho feio! Bicho feio! E eles tiveram que interagir com a meninada. Não deu outra: implicaram com os personagens, se misturaram com trocas maliciosas de gentileza, foi um horror. Escaparam para o almoço no primeiro pavilhão e, logo no início da tarde, refizeram a cena. Mais gente se aglomerou, foi um teitei medonho: O apurado não vai dar pros gastos. Insistiram e, na boquinha da noite, voltaram pro mesmo local e encenaram uma peça pros adultos: O prêmio – a história de um presepeiro que queria ganhar só por que queria sozinho na loteria. Ah, todo mundo queria saber se o maloqueiro ganhava mesmo. Foi um deus nos acuda! É que tiveram por cenário um tablado improvisado, enquanto corria a cena por batentes e meio-fio. No meio da trama não pouparam esforços e acunharam com uma serração, afiando a língua sobre pirangueiros, má gestão pública, cornagem, trambiques e safadezas, coisas do Brasil de ontem, hoje e anteontem, e a plateia se viu revelada naquele improviso: Serra-véia, serra-gente! Teve gente que queimou ruim, outros deram corda, uma tijolada passou raspando pela cabeça de um, dois estranhos trocaram tapas, foi lapada, mal-estar, pilhéria e caçoadas. A coisa tomou jeito, a zombaria ficou mútua: toma lá dá cá. No clímax da cena, limavam tudo e o palco arreou, maior desabamento. Foi um apupo, haja mangação. O povo no maior corre-corre e a tragicomédia entrou pela perna de pinto e saiu pela perna de pato. E viva o teatro! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A globalização da produção e do consumo acarretou muito desperdício de energia no transporte e muita destruição da biodiversidade. Quando os manuais de economia forem corrigidos e todos os custos sociais e ambientais da produção forem incluídos nos preços aos consumidores, perceberemos que a produção e o comércio locais e regionais são mais eficientes. O comércio mundial pode deixar de transportar bens e passar a intercambiar serviços – porque é melhor trocar receitas do que tortas e biscoitos. Nós, humanos, adoramos compartilhar arte, poesia, literatura, filmes, ideias e invenções uns com os outros. Isto é comércio mundial sustentável, que ajuda a desenvolver a solidariedade e consciência humanas. [...] Precisamos corrigir o PIB e incluir nele todos os custos e benefícios sociais e ambientais. [...] Não pode haver consumo ético a menos que todos os custos sociais e ambientais sejam incluídos nos preços. A publicidade deveria ser regulamentada para ser veraz e não manipular os cidadãos apelando para o medo, a cobiça, a inveja e a vaidade, mas conscientizá-los a respeito dos imperativos da sustentabilidade. [...] Para promover uma economia humana justa e sustentável, temos de deixar de lado Wall Street, Londres, Frankfurt e Tóquio, os chamados “centros financeiros”. Eles se revelaram como corruptos e destruidores da riqueza real nas comunidades e nos ecossistemas. Já que agora podemos nos comunicar de tantas formas novas, podemos deixar para trás o dinheiro e os grandes bancos e fazer comércio em nível local usando apenas a informação. [...] A riqueza do mundo são os bens ecológicos do ecossistema da Terra e a produtividade desses sistemas naturais de vida (compostos por milhões de diversas espécies interagindo com os solos, os oceanos, a atmosfera), absorvendo os desperdícios dos humanos e processando os elementos de que os humanos necessitam para sobreviver: ar, água, fotossíntese, etc. Toda essa vida da biosfera interage com os humanos, quer seja ou não usado dinheiro para garantir tais transações. Os sistemas monetários que os humanos inventaram são apenas tão acurados para uma adequada promoção de tais transações, quanto ao nível de conhecimento humano e a evolução de nossos sistemas de valores (em prol da reciprocidade e cooperação com nossas espécies e todas as formas de vida). [...] Alguns critérios universais para a qualidade de vida incluem as exigências básicas de manutenção da vida para a existência humana, por exemplo, comida adequada, água, ar, etc. A Declaração Universal dos Direitos Humanos apresenta uma visão mais ampla, incluindo todas as espécies de direitos: políticos, sociais, econômicos, etc. Porém, para muitos lugares, coisas específicas são importantes, baseadas em regimes, culturas locais, valores, condições, etc.[...].
Trechos extraídos da entrevista Não podemos ignorar nossas realizações cooperativas e seus heróis e heroínas (Terra Habitada: velho desafio para a humanidade – HIU, 2005), concedida pela economista futurista, consultora e iconoclasta inglesa, Hazel Henderson, autora dos livros Transcendendo a Economia (Cultrix, 1991), Construindo um mundo onde todos ganhem (Cultrix, 1996), Além da globalização: modelando uma economia global sustentável (Cultrix, 1999) e se expressa: As mulheres sabem quanto tempo, amor e esforço leva para educar uma criança. Quando surge uma guerra, tudo isso é reduzido a nada... então, é muito importante a participação ativa das mulheres na resolução dos conflitos. Se essas mulheres tivessem sido dotadas de poder e representação plena nas negociações, a paz já estaria estabelecida há décadas. Temos o poder de alterar nosso destino. Essa também é minha visão. Na verdade, esse tem sido o meu trabalho nos últimos 30 anos. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A dança para mim é a vida. É um processo de amadurecimento, de crescer dentro de você e em relação às pessoas. É um aprendizado eterno. Para mim, a dança é a vida também. Talvez não tão religiosa como a Martha Graham menciona, mas é um ato de vida, um processo de vida muito bom e muito importante.
O livro Ruth Rachou (Casa Amarela, 2008), de Bernadette Figueiredo e Izaías Almada, traz a biografia da bailarina, atriz, coreógrafa, diretora e professora Ruth Rachou, que é a pioneira do pensamento moderno da dança no Brasil, formando uma geração de artistas. 
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CABRA-CABRIOLA
Havia uma mulher que tinha três filhos de tenra idade, e saindo sempre à noite para angariar meios de subsistência para eles, recomendava-lhes muito insistentemente, que se prevenissem contras as astúcias da Cabra Cabriola, não abrindo a porta senão a ela própria, cuja voz e toada e particular perfeitamente conheciam. Certa noite, porém, chegado o monstro, bate à porta, e ignorando o acordo estabelecido, pede como se fosse a mãe das crianças, que a deixem entrar; mas, falando naturalmente com a sua voz forte, grossa e horrível, nada conseguiu das suas artimanhas, e saiu desesperada bramindo: "Eu sou a Cabra Cabriola, / Que come meninos aos pares, / E também comerei a vós, / Uns carochinhos de nada...". Retrocede depois, oculta-se, e aguarda a volta da mulher, e com semelhante artifício aprende-lhe a toada, e repara bem no seu metal de voz. No dia seguinte vai à casa de um ferreiro, manda bater a língua da bigorna, e conseguindo assim modificar a sua voz tornando-a mesmo igual à da mãe dos meninos, vem à noite, espreita a sua saída e depois, bate à porta cantarolando a conhecida toada: "Filhinhos, filhinhos / Abri-me a porta,/ Qu´eu sou vossa mãe;/ Trago lenha nas costas, / Sal na moleira,/ Fogo nos olhos,/ Água na boca,/ E leite nos peitos/ Para vos criar..." E as pobres crianças na persuasão de que era a sua própria mãe que assim lhes falava, abrem pressurosas e alegres a porta, e inopinadamente acometidas pela esfaimada Cabra Cabriola, são devoradas por ela.
Lenda extraída da obra Folclore pernambucano (Imprensa Nacional, 1908), de Francisco Augusto Pereira da Costa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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A obra do escritor, dramaturgo, tradutor, desenhista, humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...