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quarta-feira, junho 17, 2020

MICHÈLE LAMONT, PAPINI, CHRISTI CALDWELL, VASILY GROSSMAN, MAYA PLISETSKAYA, BALÉ POPULAR DO RECIFE & BACO PERNAMBUCANO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: COISAS QUE ACONTECEM, O CORAÇÃO SENTE... - O que guardei por muito tempo, já nem lembro. O que era para ser feito, fiz. Não tenho mais aquelas tarde nem noites que possam valer alguma coisa, nenhum remorso ou regozijo, apenas existo. Tenho apenas de Stravinski o que ficou: Se tudo fosse permitido, eu me sentiria perdido num abismo de liberdade. E o melhor quando ele cantou a pedra: Para criar deve existir uma força dinâmica, e que força é mais potente que o amor? O silêncio vai salvar-me de estar errado (e de ser idiota), mas que também irá privar-me da possibilidade de estar certo. Melhor ainda: o silêncio é revelador, seja como for.

DUAS: O JEITO MAIS É A DISTÂNCIA – Longe o afeto, asas fechadas e um riso mascarado. Outros tempos estes de conter a emoção, os nós da racionalidade cada vez mais insistente. Não há como prever o amanhã, muito menos o que fazer para quem menino esqueceu crescer. Foi Escher quem levantou a lebre: O que eu crio na luz do dia é apenas um por cento do que eu vi na escuridão. Meu trabalho é um jogo, um jogo muito sério. Eu não cresço. Dentro de mim está a criança da minha infância. Tomara jamais precise uma esperança a menos das tantas que me fiz.

TRÊS: CONTANDO O TEMPO EM MIM - É difícil cada vez mais atravessar os dias, eu me refaço a todo instante, até sou feliz como posso. Sou outro mesmo com a certidão de que tudo piora e vou incólume, por enquanto, escapando da lâmina afiada das circunstâncias. Reinvento a mim mesmo e sei que chegará a hora, vou digerindo as impossibilidades. Ao ouvido a reflexão de Thomas Kuhn: O significado das crises consiste exatamente no fato de que indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos. Sim, deve haver outra forma melhor para sobreviver. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Quando uma pessoa morre, ela sai do reino da liberdade e entra no reino da escravidão. Vida é a liberdade e a morte é a negação gradual da liberdade. A consciência primeiro enfraquece e depois desaparece. Os processos da vida – respiração, metabolismo, circulação – continuam por algum tempo, mas foi feito um movimento irrevocável em diração à escravidão, a consciência e a chama da liberdade se extinguiram. As estrelas desapareceram do céu noturno. A Via Láctea desvaneceu-se; o Sol apagou; Vênus, Marte e Júpiter se extinguiram; milhões de folhas morreram; o vento e os oceanos se dissparam; as flores perderam suas cores e seus perfurmes; o pão sumiu; a água sumiu/ até o mesmo o propprio ar, o ar às vezes fresco e às vezes abafado sumiu. O universo dentro da pessoa parou de existir. Esse universo é surpreendetemente parecido com o universo que existe fora das pessoas viventes. Mas ainda mais surpreendente é o fato de que esse universo tinha algo em si que diferenciava o som de seu oceano, o cheiro de suas flores, o farfalhar de suas folhas, os tons de seu granito e a trsiteza de seus campos no outro tanto daqueles (sons de oceanos, cheiro de flores, farfalhar de folhas, tons de granito e trsiteza de campos de outono) do universo que existe externamente fora das pessoas. O que constitui a liberdade, a alma de uma vida individual, é o seu carater único. O reflexo do universo na consciencia de alguem é abase de seu poder, mas a vida só se transofrma em felicidade, só é dotada de liberdade e sentido, quando alguem existe como um mundo inteiro que nunca foi repetido em toda eternidade. Só então se pode experimentar o prazer da liberdade e da bondade, encontrando nos outros aquilo que já foi encontrado em si mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra Vida e Destino (Leya, 2012), do escritor e jornalista ucraniano Vasily Grossman (1905-1964), tratando sobre a incidência da Segunda Guerra Mundial na Rússia soviética, numa família de classe média que se dispersa no destino, retratando o horror e a esperança diante do genocídio dos judeus.

 

OUTROS DITOS

Eu pretendo combater o cinismo intelectual...

Pensamento da socióloga canadense Michèle Lamont, que na sua obra Money, Morals, & Manners: The Culture of the French and the American Upper-Middle Class (University of Chicago Press, 1994), expressa que: [...] Embora o impacto da classe social, etnia e socialização religiosa na escolha conjugal tenha diminuído, a homogamia educacional tem aumentado. Em geral, a população com ensino superior (que abrange a classe média alta, conforme definida no presente estudo) continua a apresentar um alto grau de similaridade em suas práticas e atitudes culturais em uma ampla gama de áreas. O fato de um diploma universitário continuar sendo o melhor preditor de alto status ocupacional sugere que os limites que essa população constrói entre si e os outros são particularmente significativos. Esses limites provavelmente serão mais permanentes, menos transponíveis e menos resistidos do que os limites existentes entre grupos étnicos, por exemplo. Eles também têm maior probabilidade de sobreviver em diferentes contextos, ou seja, de serem transferidos da comunidade para o local de trabalho e vice-versa. Vemos novamente, portanto, a importância de estudar de forma sistemática os limites produzidos por pessoas com ensino superior. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

O HOMEM QUE SE PERDEU DE SI MESMO, DE PAPINI

[...] Desde aquele dia, nunca mais tive coragem de despir-me, e permaneço sempre em casa, sozinho, com o meu dominó branco no corpo, com minha máscara negra no rosto, para ter certeza de nunca mais perder-me. [...].

Trecho do conto O homem que se perdeu de si mesmo, do escritor italiano Giovanni Papini (1881-1956), autor do controvertido livro El Diablo (Epoca, 2017), no qual expressa que: [...] Este livro não é: Uma história das opiniões e crenças do Diabo; uma incursão mais ou menos erudita ou mais ou menos divertida pelas lendas antigas e modernas do Diabo; um estudo conceitual árido, seguindo o tradicional jornal escolar; um manual ascético para proteger as almas dos ataques e investidas do diabo; uma coleção de invectivas sagradas ou discursos oratórios sobre o velho adversário; uma história dos representantes terrenos do Diabo, que explica mágicos, ocultistas e coisas por estilo: uma orgia romântica de literatura satanista, com seus correspondentes homens negros e outros imbecis brutais; uma elucubração metafísica sobre o problema do mal, como a encontrada pelo kantiano Ehrard; e, no final, é exatamente como pode parecer a qualquer leitor apreciador, uma defesa do Diabo. [...]. Veja mais aqui & aqui.

 

O AMOR DE UM LADINO, DE CHRISTI CALDWELL

[...] Temo que se você realmente acredite nisso, você viverá uma existência muito solitária e triste. [...] Você pode ter esquecido como usá-lo porque ele foi muito machucado, mas ele está lá e um dia você encontrará a pessoa que ensinará esse órgão a bater novamente. [...] Ele deixou de acreditar pelas mãos de seu pai, a pessoa que deveria amá-lo incondicionalmente, em vez disso lhe ensinou que o amor, na verdade, tem condições. [...].

Trechos extraídos do livro The Love of a Rogue (Spencer Hill Press, 2018), da escritora estadunidense Christi Caldwell.

 


A FESTA PERNAMBUCANA DE BACO
Bebamos, companheiros, / Bebamos, companheiros, / O suco da uva, O vinho verdadeiro.
[...] Depois da festividade de Nossa Senhora dos Prazeres, celebrada na dominga de pascoela, na sua linda igreja dos montes Guararapes, erguida em memoria dos dois grandes feitos de armas ali feridos em 1648 e 1649, contra o batavo invasor, seguia-se uma série de festas até o domingo imediato e no qual tinha lugar a festa do deus Baco. Para o lugar denominado Batalha, onde passa o riacho Jordão, cujas águas são vermelhas do sangue que ali correra – num combate travado em uma das batalhas dos Guararapes, como reza a tradição popular -, afluía pela manhã imensa multidão e guardadas as solenidades das festas pagãs, tinha lugar o batismo de Baco nas águas do Jordão. Terminado o ato, dispunha-se toda gente em ordem de marcha para os Prazeres, formando pelotões, conduzindo cada individuo um galho de árvore, e no fim, vinha Baco, com uma coroa de folhas na cabeça, montado sobre uma pipa que, disposta em forma de charola, era conduzida nos ombros dos circunstantes, revezadamente. Baco trazia uma garrafa com vinho na mão direita e um copo na esquerda, de cujo liquido vinha fazendo libações, e a representação do seu papel, na solenidade, cabia privativamente ao juiz da festa, anualmente eleito pelos foliões. Desfilava então o préstito, entoando um cântico tirado por uns tantos e respondido em coro por toda a gente cujos versos tinham por estribilho [...] Essa usança, que vinha aliás de longínquas eras, não podia continuar a ser tolerada em um pais católico; compenetrada dos seus deveres, por fim, as autoridades eclesiásticas reclamaram dos poderes públicos a sua interferência, no intuito de obstar a continuação de semelhante prática. Houve tentativas pacificas, mas infrutíferas, até que em 1869 expediu o governo uma numerosa força de infantaria e cavalaria, que obstou a execução da tradicional festividade e desde então nunca mais se tentou a sua celebração. [...].
A FESTA PERNAMBUCANA DE BACO - Trechos extraídos da obra Folclore pernambucano (Imprensa Nacional, 1908), do historiador, jornalista e advogado Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923). No Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), está registrado que: [...] Realizava-se há muito tempo na província de Pernambuco uma festa dedicada ao deus do vinho, com procissão, banquete, cânticos, etc., reminiscência da grande dionisíaca, que ocorria no mês de elafebolion (março) na Grécia e depois em Roma, durante o outono. A festa de Baco terminou em 1869 e era ligada à celebração da páscoa. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina, coreógrafa, atriz e diretora de ballet russa Maya Plisetskaya (1925-2015), prima ballerina assoluta do Teatro Bolshoi. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
O artista precisa do reconhecimento do seu povo, porque ele vive disso. É muito importante o trabalho que vimos desenvolvendo esse tempo todo, fazendo a cidade dançar, fazendo com que a cidade reconheça seus valores artísticos mais profundos, e estamos hoje sendo coroados por este valor. Esse reconhecimento vem abrir portas, consolida nosso trabalho, e nos posiciona como um legítimo representante da cidade do Recife. Isso nos inventiva e dá mais vontade de lutar, de continuar a levar nossa cultura e nossa arte para a sociedade.
A arte do Balé Popular do Recife, um Patrimônio Cultural Imaterial do Recife, criado em 1977, há mais de 40 anos e com linguagem própria denominada Brasílica, metodologia implantada pelo fundador e diretor André Madureira.
&
Tetralogia Primeira – Terminologia, Quartzo e Temporal: lapsos -, de Gentil Porto Filho aqui.
A obra da a filósofa, pintora, poeta e historiadora Rita Joana de Souza aqui.
A música de Spok Frevo aqui.
A arte do pintor Elmar Castelo Branco aqui.
O documentário O migrante, direção de Beto Novaes, Francisco Alves e Cleisson Vidal aqui.
Teatro nosso de cada dia, de Fernando Peltier (1948-2014) aqui.
&
Camocim de São Félix aqui e aqui.


quinta-feira, março 16, 2017

ANTÓNIO BOTTO, ROSA BONHEU, YARA BERNETTE, BOUGUEREAU, MARIA LYNCH & PATRICIA DE CASSIA PORTO

NA CALÇADA DA TARDE - Por mais de seis anos Cordécio aguentou de tudo no seu primeiro emprego. Das ressacas e caga-raio do seu Marquito, às pilhérias de toda corriola de empregados, ele o caçula dos empregados, servia de pau-mandato para o bel prazer de todos. Os maus bofes da chefa queijuda, fazia dele peão daqueles de fazer, refazer e tornar a ir e voltar até que ela achasse que estava bem feito, isso depois de muita remoeta e olhe lá. O problema era adivinhar o que pra ela era de verdade o bem feito. Evidente que ele tinha o mau costume de se esquecer das coisas, envolver-se em fuxico, sair da rota da obrigação jogando porrinha ou contando pinóias, dele se esquecer das obrigações e, quando dava fé, sabia que estava perdido: iam tirar-lhe o couro de todo jeito. Ô menino alesado esse, reclamavam. Às topadas e puxavanques, aos poucos, ele se endireitava, não antes uma farta sacada de corretivos, mesmo assim, não se emendando de tudo deixar mal feito. Era. Ia e vinha incansável além do expediente e altas horas da noite. Deu recado? Sim, senhor. Qual foi? Era a hora da prova dos nove e, ao dizer o que tinha feito, atrapalhava-se todo e, se era pra resolver, embroncava mais ainda. Não foi isso que eu mandei você fazer! Vá lá e conserte. Era pior. Pra não perderem a paciência, todos deixavam, por fim, de mão. Esse não tem jeito! Quando não confundia as coisas, trocava o feito. E assim foi por mais de seis anos, semana toda, domingos e feriados, sem folga nem férias. Aí, um dia, o pai morreu e deixou por herança certas posses que, se nada valiam, dava pra ele se arranjar, sabe-se lá como. Aí acertou com seu Marquito, pediu demissão, recebeu os direitos e foi sacar o FGTS no banco. Ao ver o volume da dinheirama – pra ele qualquer dez tões era fortuna avultada, pra quem vivia de salário mínimo, receber uma bolada daquelas era de ficar rico de uma hora pra outra, coitado. Foi pra fila com os olhos brilhando e contando as horas: é capaz de chegar amanhã e nunca mais a hora de receber, ora. Um misto entre impaciente e feliz abundava no seu semblante de não parar quieto em canto nenhum, até ser chamado atenção pelo vigilante para se comportar nos conformes. Matuto das brenhas, sentou-se de ficar imóvel, todo duro, de nem piscar o olho. Todos iam e vinham e a vez dele nada de chegar. Já passava do meio dia quando foi pro caixa, entregou os documentos, respondeu ao interrogatório, assinou meio mundo de papel, recebeu os documentos de volta e... cadê a grana? O funcionário foi lá pra dentro dele pensar que havia fugido com sua riqueza. Tempos depois pra mais de uns dez minutos ou perto disso, ele voltou, sentou-se, limpou as mãos e o guichê, abriu a gaveta e começou a contar as cédulas: uma, duas, três, seis, sete, pegou umas moedas e repassou pro Cordécio com os olhos aboticados a ponto de quase pular fora. É meu? Todo seu! U-hu! Avexou-se todo desajeitado, embolsou o dinheiro e saiu assobiando. Quase esquecia os comprovantes de recepção, não fosse levado de volta pra recepção. Tudo acertado, posso ir? Pode. E foi com seu vexame como se andasse entre as nuvens, mergulhado nos mais díspares e ousados pensamentos. Será que dá pra comprar um carro, mandú que seja? Sei não. Será? Ah, melhor comprar logo um sapato chique, uma roupa nova das de grife pra ficar nos trinques, depois comer do bom e do melhor nesses restaurantes que nunca me deixaram entrar, e tomar umas cervejas para lavar a goela e a alma, só de raiva e desforra. Ah, dá preu arrumar umas quengas pra cair na gandaia no maior xambregado dos bons e depois de peidar e arrotar contra o vento, ir pra casa ver como as coisas estão por lá. Destá! Assim foi caminhando na maior viagem dos devaneios. De repente viu-se acossado: passa a carteira! Qualé, meu? Vai, revira os bolsos, vai! Passa, passa! Ele reagiu guardando o que era seu, pronto pra sair na maior carreira. Um estampido nas costas e o seu mundo desabou, dele não ver mais nada. Maior correria. Quem passava via a cena: um corpo na calçada da tarde. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Encores (1995), da pianista Yara Bernette (1920-2002). Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Fecamepa, César Vallejo, Augusto Boal, Haydn & Teresa Berganza, Rosa Bonheur, William-Adolphe Bouguereau, Keira Knightley, Método Perigoso & Sabina Spielrein aqui.

E mais:
Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda aqui.
Quadrinhos, Angelo Agostini, Marcio Baraldi, Aventureiros do Una, Carlos Zéfiro, Velta & Emir Ribeiro aqui.
Gustave Flaubert aqui.
O Grande Circo Místico de Jorge de Lima aqui.
A poesia de João Cabral de Melo Neto aqui.
O pensamento de Noam Chomsky aqui.
Palmares. Poetas dos Palmares & Crônicas Palmarenses aqui.
Caetés & a História do Brasil aqui.
Teatro, Berthold Brecht, Gerd Bornheim, Constatin Stanislavski, Raymond Williams, Margot Berthold, Richard Courtney, Olga Reverbel, Décio de Almeida Prado, Renata Pallottini, Viola Spolin, Sábato Magaldi & Coisas de Teatro aqui.
A teoria interpessoal de Sullivan, Irina Costa, Danny Calixto, Bernadethe Ribeiro, Daniella Alcarpe, Débora Ildêncio & Rose Garcia aqui.
Augusto Boal aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A felicidade era dela & ela pegou e me deu, O homem elefante, David Lynch & Anne Bancroft, Elba Ramalho & Luciah Lopez aqui.
Apesar de tudo que já foi feito, somos todos mínimos, Aníbal Machado, Ryan McGinley, Gustavo Rosa & Loalwa Braz aqui.
Para quem quer, basta ser!, Gilvanícila, John Masefield, Berthe Morisot & Karin Fernandes aqui.
Palhássaro voo nos caminhudos de fogáguas & terrares, Brivaldo Leão, Paulo Diniz, Spencer Tunick, Vanice Zimerman & Gustavo Rosa aqui.
Mesmo apelando pra sorte, a gente se atrapalha com a obviedade, John Rawls, Isabel Furini, Vanessa Moreno & Fi Maróstica aqui.
O defunto do dedo azul & a pintura de Juarez Machado aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

As mulheres sem face, série da artista plástica Maria Lynch.

DESTAQUE: AS CANÇÕES DE ANTÓNIO BOTTO
[...]
Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ais!
Pelo mistério sutil,
Impoderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar,
- Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!
[...]
Fragmento das Canções (1921-1932), do poeta, humorista, contistas e dramaturgo português António Botto (1897-1959).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e escultora frances Rosa Bonheu (1822-1899).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA: PATRÍCIA PORTO
Nesses dias avulsos da tempestade / ouvi dizer que homens invadiram Creta / armados até os dentes homens mataram pequenas espécies da ilha / Nem Jacó ou Maomé puderam salvar os seres humildes, / apenas o frio congelava a água nascente / os cemitérios estavam cobertos de gelo humano / nuvens carregavam vários sinistros / jornais anunciavam um carnaval fora de toda época / mulheres choravam sobre as cruzes / eram muitas da minha família de muitos mortos, / de mortes matadas e não assistidas, / assassinos comiam sorvete americano pensando ser do exército alemão, / o golpe era sem derramamento de sangue / a poesia não fazia mais política / a poesia também era mercadoria / só o sexo dos anjos importava / mas Safo estava livre em outra órbita / descansando de tanta desgraça / nesses dias insanos da tempestade / que varreu os últimos dias, / a acidez do estômago era mesmo tumor / flagelos de pessoas andavam insones costurando notas falsas / enquanto um bolo subia por dentro da boca ferida / e o tempo se escasseando vingativo / era filho pródigo daquela senhora: a violenta / a lei confirmava tolice e engano / o corpo, o único lugar de paragem, / sem religião na mente fazia templo o viajante, / a cabeça uma dona de cais / inquietação exigia outras ferramentas de oficina / mas o espírito, essa coisa do diabo, / era pura imaginação. 
(Para os homens de bem dos últimos dias)
A edição de hoje é dedicada à escritora e professora Doutora em Educação com ênfase em Estudos Literários, Patricia de Cassia Porto, editora dos blogs Leitura Lúdica:Literatura, Cultura da Infância e Educação & Poesia e Prosa.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Na mitologia grega hoje era o primeiro dia do Festival de Dioniso (o Bacanal de Baco, para os romanos). Imagem: O jovem Baco e seus seguidores (1884), do pintor e professor francês William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

FOLIA CAETÉ, ASCENSO, BACO, CHIQUINHA, TINHORÃO, NELSON FERREIRA, PUARAS, CIRCO, PERÓ ANDRADE & MUITO MAIS!!!



FOLIA TATARITARITATÁ: FOLIA CAETÉ (Imagem: Arte-vídeo da saudosa Derinha Rocha) – Tenho o costume de caminhar. Faço caminhadas todos os dias. Lá pelos idos do ano 2000, numa dessas caminhadas pela orla marítima maceioense, comecei a refletir acerca da condição de ser brasileiro. E tive pra mim que para falar do povo brasileiro, não é só entender a mistura de brancos, negros e índios, e não só saber da estrutura montada num processo de colonização secular enraizada numa monarquia que possui reflexos até hoje nas relações e nas perspectivas canhestras tanto entre as pessoas como na própria perspectiva de desenvolvimento. As formas como se desenvolveram, por exemplo, as atividades açucarocratas recheadas de colossais remanescentes feudais que se alastraram na gestão dos latifúndios e nas formas de produção com básico teor na acumulação e na exploração, não diferente dos propósitos colonizadores da preação, dá pra visualizar, portanto, de que forma a nossa heterogeneidade se manifesta aguda e contraditoriamente individualista e que, apesar do forte teor de afetividade, não se vislumbra além da nossa índole festeira de compadrio e jeitinho. Com o olhar no presente, tenho a percepção de como podemos ser uma potência econômica pro mundo, enquanto paradoxalmente uma parcela considerável da população vive numa situação abaixo da linha da miséria. Afora isso, o que tem de neguinho grifado nos trinques de uma cueca só com um buraco no furico e meia com o dedão de fora, não está no gibi – daqueles que falam bonito, todavia, se aprofundar no amiudado, são vazios de num juntar direito coisa com coisa. Ah, mas a primeira impressão é a que fica, sem medrar de que nem tudo que brilha pode ser ouro, mas ouropel de última categoria. Apois tá. Caminhando no calçadão da praia posso ter a visualização dos suntuosos prédios da orla marítima, como também, de hipossuficientes – nome bonito e eufemista - de toda espécie, ou seja mendigos que buscam a caridade alheia para ter o que sustentar, contrariando aquela velha máxima cantada por Luís Gonzaga: Mas doutô uma esmola pra um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. Ou dente apressada dando salto solto no ar para cavar o ganha-pão, ou sabidos dando toque de arrodeio em alesados, falantes engalobando incultos, gente voyeur do boato, capítulos de novela, gol domingueiro e manchetes banalizadoras do aqui agora, maria-vai-com-as-outras, trampolineiros que se viram de toda sorte, assando e comendo e ainda arrotando ufana vivacidade de se sair bem por burlar tudo e todos. Gente que não tem saúde pública e nem onde cair morto, a não ser dos favores de políticos ou de interesseiros agiotas públicos ocasionais; que não tem educação porque a escola pública está falida fabricando débeis e marginais, enquanto a privada domestica pra fé e pra alienação do trabalho; que não tem segurança e sai escapando das duas violências graves que cerceiam a vida e mantém o temor do terror; que não tem cidadania apesar dos direitos fundamentais, mas que por temor de dar tudo errado sempre, se cala serviçal desde que nasceu; que não tem nada a não ser exibir suas arrogâncias umbigocentristas e seus ideais disfarçando sua frágil e desmoronada estrutura ética e psicológica, almejando ser sempre o que não é, agradando gregos e troianos – naquela do melhor ter amigo na praça do que dinheiro no banco, vez que brincar de amigo pra valer na hipocrisia é melhor do que ser tido por pobre de Jó -, só com o fito de se dar bem, nada mais. Por isso, compus o frevo Folia Caeté: Sou brasileiro, meu bem / De janeiro a janeiro / De ralar o ano inteiro / Pra ver se a vida um dia vai mudar / Pra um melhor fevereiro / Festa de carnaval / Pular, esbaldar festeiro / Pra ver se a minha vida vai mudar / Eu vou driblando as broncas / Pra gororoba chegar / Eu dou nó cego até no ar / Pra fazer meu direito valer / Feito gente adulta de ser / Respeite o cidadão que é de lei / Seja um, qualquer um, toda vez / Tenho a dizer / Moradia é lugar que se tem / A saúde é gozar muito bem / E saber que não deve minguar / E exercer / O respeito por todo alguém / Que é de todos não é de ninguém / O direito sagrado: viver / Cidadania vingar / Cantada bem pra valer / Viver feliz é o que se quer / Mesmo quem venha a nascer / Cidadania é viver / Na folia caeté. (Luiz Alberto Machado). Veja o videoclipe do frevo aqui e mais aqui.

E veja mais:
ALVORADA

PICADINHO
Imagem: O Jovem Baco (1884), do pintor inglês Adolphe William Bouguereau (1825-1905), Veja mais aqui.

 Curtindo a coleção dos seis cds de Nelson Ferreira – Carnaval, sua história, sua glória (Revivendo, 2002), comemorativo de centenário do compositor Nelson Ferreira (19012-1976).

EPÍGRAFE – Ó abre alas que eu quero passar, Ó abre alas que eu quero passar, trecho da letra da música Abre alas (1899), da compositora, maestrina, abolicionista, feminista, audaciosa pioneira e pianeira de choro e boemia, Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Veja mais aqui e aqui.

EVOÉ, BACO & ARIADNE (Imagem: Bachus et Ariane, by Agostino Carracci)– O deus Baco, o Liber Pater, é o nome adotado pelos romanos para o deus grego Dioníso, deus do vinho, da ebriedade, dos excessos sexuais e da natureza, que tinha por símbolos a pantera, o cântaro, a vinha e um cacho de uva. As festas em sua homenagem eram chamadas de bacanais. Conta a lenda que durante a gravidez de Sémele, ela pediu para que Júpiter se apresentasse com pai do seu filho. Com a presença do deus, ela fulminou se transformando em cinzas. Júpiter recolheu o feto das cinzas e o introduziu na barriga de sua perna para dar continuidade à gestação, nascendo, portanto, Baco. Ao tornar-se adulto ele se apaixona pela cultura da vinha e descobre a arte de extrair o suco da fruto. Por inveja de Juno, ele se torna louco a vagar pela Terra. Cibele então cura-o, ensinando-lhe a cultura da vinha. Ao chegar em Tebas, mulheres, crianças, velhos e jovens saúdam-no em clima de festa, daí seguindo para Naxos, sua terra natal, quando, no caminho, encontra Ariadne, a filha do rei de Creta, Minos e Parsífae. Ele traz folhas de louro e videira nos cabelos, um manto esvoaçante e demonstrando grande surpresa e encantamento por ver moça tão bonita que se encontra com manto azul drapeado, faixa vermelha, surpreendendo-se com o olhar do deus. Ela havia sido abandonada por Teseu, depois que ajudou a matar o Minotauro com o novelo que lhe deu para se safar do labirinto. Ao encontrar Baco, o amor aflorou imediatamente entre ambos. Ele lhe prometeu o céu para que ela aceitasse o casar-se com ele. E diante da afirmação dela, o deus pegou-lhe a coroa e lançou ao céu, se transformando numa constelação para confirmar o casamento entre ambos. Veja mais aqui.

O FREVO - No livro Pequena história da música popular: da modinha à canção de protesto (Vozes, 1975), do jornalista, crítico musical e pesquisador José Ramos Tinhorão, encontro que o frevo é uma das mais originais criações dos mestiço da baixa classe média urbana brasileira, no campo da música e da dança. Para o autor: [...] Criação de músicos brancos e mulatos, na sua maioria instrumentistas de bandas militares tocadores de marchas e dobrados, ou componentes de grupos especialistas em música de dança do fim do século XIX (polcas, tangos, quadrilhas e maxixes), o frevo fixou sua estrutura numa vertiginosa evolução da música das bandas de rua, de inícios da década de 1880 até aos primeiros anos do século XX. [...]. Por conta disso, tornou-se o frevo a principal atração do carnaval pernambucano consolidando-se em 1935, com o Clube de Vassourinhas, quando passou a ser identificado como a dança de rua e de salão, caracterizada pelo ritmo sincopado e frenético, tem como coreografia o baile de multidão de maneira curiosa, sendo ao mesmo tempo dança individual, livre e improvisada, e põe a ferver o povo com desfile dos clubes de frevo, em que se exibem porta-estandarte, passistas isolados e passistas em cordão. Veja mais aqui.

MARACATU – No livro Catimbó (1927), reunido no livro Poemas de Ascenso Ferreira (Nordestal, 1981), do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965), encontro o poema Maracatu: Zabumbas de bombos / estouros de bombas / batoques de ingonos, / cantigas de banzo, / rangir de ganzás... / — Loanda, Loanda, aonde estás? / Loanda, Loanda, aonde estás? / As luzes crescentes / de espelhos luzentes, / colares e pentes, / queixares e dentes / de maracajás... / — Loanda, Loanda, aonde estás? / Loanda, Loanda, aonde estás? / A balsa no rio / cai no corrupio, / faz passo macio, / mas toma desvio / que nunca sonhou... / — Loanda, Loanda, aonde estou? / Loanda, Loanda, aonde estou? Veja mais aqui e aqui.

TEATRO & CARNAVAL – As relações entre o teatro e o carnaval surgem com o Pierrô, o Arlequim e a Colombina, que são personagens da Commedia dell’Arte, nascida na Itália do século XVI. Integrantes de uma trama cheia de sátira social, os três papéis representam serviçais envolvidos em um triângulo amoroso: Pierrô ama Colombina, que ama Arlequim, que, por sua vez, também deseja Colombina. O Pierrô originalmente se chamava Pedrolino, mas foi batizado, na França do século XIX, como Pierrot e assim ganhou o mundo. O Arlequim era servo de Pantaleão, espertalhão preguiçoso e insolente, que tentava convencer a todos da sua ingenuidade e estupidez. E Colombina uma criada de uma filha do patrão Pantaleão, mas tão bela e refinada quanto sua ama, era também o pivô de um triângulo amoroso que ficaria famoso no mundo todo - de um lado, o apaixonado Pierrô; do outro, o malandro Arlequim. Para despertar o amor desse último, a romântica serviçal cantava e dançava graciosamente nos espetáculos. Veja mais aqui e aqui.

DIAS DE MOMO – O documentário Dias de Momo (2013), mostra o carnaval de Recife e Olinda, destacando o frevo como patrimônio imaterial a humanidade. O filme conta com depoimento de Alceu Valença e de vários artistas pernambucanos, numa realização do Sindicato Nacional dos Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), durante a campanha Viva a originalidade: Pirata, tô fora!, com o objetivo de mostrar que ao valorizar as ideias, os produtos, a música, o artesanato e as manifestações culturais toda a sociedade ganha. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Fotos do bloco palmarense As Puaras, comemorando no carnaval deste ano 35 anos de história.

DEDICATÓRIA
 A edição de hoje é dedicada à Peró Batista Andrade & Sua Excelência O Circo. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
 Veja aqui, aqui, aqui & aqui.

 Veja as homenageadas aqui.

E veja mais William Burroughs, Henfil, Charlotte Rampling, O Porteiro da Noite, Ernest Chausson, Paulo Dalgalarrondo, Liliana Cavani & muito mais aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...