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segunda-feira, outubro 12, 2020

MONTALE, ALBAN BERG, ELIANE PROLIK, POLANSKI, NÍSIA FLORESTA, TICIANO & NELSON FERREIRA

 

 

TRÍPTICO: DIÁRIO DO QUARTO CALEIDOSCÓPIO – PRIMEIRO ATO - Ao som de Lyric suíte for string concert, de Alban Berg - É sempre noite. Lá fora o mundo barulhento e o genocídio: fúria, bravata, infâmia, fanatismo, ganancia, amolações triviais. Parece nonsense e tudo sob suspeita: as pessoas se tornaram revoltosos vulcões eruptivos e se detratam uns aos outros. A parede acende como uma tela cinematográfica: a Via Láctea. Um meteoro surge da quina do teto, acompanho seu percurso descendente até se espatifar num ponto qualquer do piso. Da explosão, um minúsculo ser caminha em minha direção, cresce a cada passo, já quase dois metros, reconheço Barão de Munchausen que me acena, faz uma mesura e me aponta para outro minúsculo que aparece do mesmo lugar que saiu. Também cresce a cada passada, já reconheço, é Alice: Você está completamente pirado! Um segredo: as melhores pessoas são assim. Ela pisca um olho, chama o companheiro que está com as pestanas arqueadas olhando para mim com um escárnio e braços abertos. Ambos seguem de volta e desaparecem. Não era sonho, sabia, era o alerta para o inimigo invisível e o medo da contaminação: lavar bem as mãos, tudo esterilizado. Do meu quarto, o caleidoscópio: a toca do meu coelho. Não preguei o olho, a parede acendia e apagava, parecia me convidar para atravessar a galáxia. Mantenho-me quieto, cabeça aos joelhos, até o fim uma oração de serenidade: um dia de cada vez e as circunstâncias, assim seja! Um esforço fora do comum, nada funciona direito com o desgoverno. O pangaré gostou ou não? Não sei, cuidado com o monstro, ele está em Brasília. Que toquem fogo no mundo, ninguém sobreviverá.

 


SEGUNDO ATO DO CADERNO DE NOTAS – Imagem: arte da escultora, desenhista e gravurista Eliane Prolik. – A cena: Ela saiu do escritório e foi visitar a família em Cachoeira do Sul. Lá informou que ia se mudar de Canoas para São Paulo. A despedida e a estrada aberta. Aos vinte sete anos, a militância no VPR. Era 17 de maio, preparos para o aniversário dia 25. A surpresa de 4 tiros, 1 no braço, outro no peito, 2 nas costas alcançando a coluna. Nenhuma festa mais, a família desestruturada: o pai soube por um delegado do assassinato e morre de desgosto. A irmã Valmira se mata. Apenas uma tabuleta ao vento esquecida com a inscrição: Alceri Maria Gomes da Silva (1943-1970). Juntou-se a Labibe e Catarina, lá haverá justiça, pelo menos. Diante de mim, Nísia Floresta: Flutuando como barco sem rumo ao sabor do vento neste mar borrascoso que se chama mundo, a mulher foi até aqui conduzida segundo o egoísmo, o interesse pessoal, predominante nos homens de todas as nações. Ela sorri e me oferece um botão do lírio da felicidade. As imagens são tantas: asfixiados numa câmara de gás das autocracias e, ao lado, jogaram pela janela um idoso numa cadeira de rodas. Outras cenas superpostas: joelho fardado no pescoço de um negro indefeso, agressões físicas, tortura, caça policial, tiros. No meio disso tudo sou O Pianista de Polanski e ouvi alguém dizer que ali outro abotoou o paletó, pronto, viagem perdida: Se fosse de morte matada, pelo menos! Quem ainda acredita no Estado: nunca cumpriu a sua parte, sempre se desvia para interesses e comodidade. O que ainda nos resta além do extermínio, não sei.

 


TERCEIRO ATO: MANUSCRITOS DO CADERNO, NOVELA INSTANTÂNEA – Imagem: Perseu & Andrômeda (1554), de Ticiano. - Lá vou eu... Atravessava o pátio da rodoviária, um troço e lá estou enfermo, estirado no piso. Quando dei por mim, o meu quarto era uma enfermaria hospitalar, empurrada para lá e para cá. O mundo girava e eu imóvel, uma dor profunda no peito, nenhuma ilusão, desiderato pras cucuias. À espera de uma revelação, caí no vazio, não sei se haverá como emendar a vida. Sou saudade de tudo. Ouvia alguém alertar: Cuidado com o degrau. E o Paradoxo de Zenão era um poema de Montale: Vós, palavras, traís em vão o ataque / secreto, o vento que sopra no coração. / A razão mais verdadeira é de quem cala. Já sabia o solo minado, um passo em falso, cara ou coroa: a sorte estava lançada. O poder das escolhas e perdi pilares, extensores e pontes, quanta mendacidade ao meu redor. Minha especialidade? Viver, apenas. Fraqueza? Seguir. Sempre vou e, quando dou fé, todos estão voltando. Que descascasse o abacaxi, o pau ia cantar, com certeza. Sobrevivi a todo tipo de recusa e fui soterrado por enorme pedra. Isso há anos. Qualquer reincidência ou é efetiva ou duvidosa. Falando às paredes sou o que quiser que eu seja, nada mais. Até mais ver.

 

NELSON FERREIRA, O MORENO BOM

Felinto, Pedro Salgado, / Guilherme, Fenelon / Cadê teus blocos famosos? / Bloco das flores, Andaluzas, Pirilampos, apôis-fum / Dos carnavais saudosos / Na alta madrugada / O coro entoava / Do bloco a marcha-regresso / E era um sucesso dos tempos ideais / Do velho Raul Moraes / Adeus, adeus minha gente / Que já cantamos bastante / Recife adormecia / Ficava a sonhar / Ao som da triste melodia.

Evocação nº 1, frevo de bloco do compositor, músico e maestro Nelson Ferreira (1902-1976), autor de inúmeras composições nos mais diversos estilos, como canção, foxtrote, tango e, sobretudo, frevos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



terça-feira, fevereiro 04, 2020

BETTY FRIEDAN, TERESA FEODEROVNA, RINA DE LIGUORO & PAULINA BONAPARTE


CARTA PARA PAULINE - Pouco importa o que disseram ou dizem unânimes, ninguém escapa aos invejosos e despeitados. Sei tudo da menina de Ajaccio e pouco importa ter sido duas vezes princesa: a reinante de Gustalla e a consorte de Sulmona e Rossano. Pouco importa, porque somente eu a amei desconhecendo todos os apanágios, posses e hierarquias. Fui eu quem a amou para salvá-la do Haiti, escandalosa viúva Leclerc, do levante de ex-escravos, para eclodirem rumores na França e Itália do que éramos na loucura das noites eternas. Fui eu quem sempre a amou, despida pela venda do ducado para sua quase derrocada, e me mantive escravo da sua sedução de primeira dama da corte de opereta, nua à beira d’água para nosso deleite e paixão. Fui eu quem a amou e recebeu de braços abertos na ilha das canções de maio, o seu porto franco, para velejarmos e cavalgarmos na ribalta da notoriedade, ignorando a porta giratória dos amantes, com a ternura à prova de infortúnios. Fui eu quem a fiz sultana perpétua no apogeu da sua beleza que amava o fausto, a dissipação e as homenagens, refestelada por meus beijos e carícias, para tornar-se a sensual encantada Vênus Victrix, Afrodite em seu récamier, para que eu Canova tateasse os contornos do seu corpo nu a me dar a maçã de ouro de sua sensualidade transbordante. E se fez tal Galateia para que eu Devouges pudesse desnudá-la usufruindo de sua esplêndida montaria de quem nunca teve paz nem pudor. E me fez Lefèvre na suntuosa sala, elegantemente vestida, para logo desvelar-se nua como se todo dia fosse a sua festa das quartas-feiras, e toda romana, da cabeça aos pés, me dava a face delicada para se livrar dos seus trajes de bacante. Fui eu quem amou e saciou seus furores uterinos de rainha dos colifichets e frioleiras, uma criança divertida que esquecera crescer com a idade, como se perdesse a reputação nos excessos dos trópicos, até nos recolhermos ao nosso principado do prazer na Villa Paolina para nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Essas mulheres sofreram e venceram a “descontinuidade cultural no condicionamento ao seu papel”, a “crise de situação” e a crise de identidade. Enfrentaram problemas e bem sérios, jogando com a gravidez, procurando babás e governantas, desistindo de boas situações quando o marido era transferido. Tiveram também que aguentar muita hostilidade das outras mulheres e inúmeras suportaram o ressentimento ativo do marido. [...] à diferença das donas de casa prisioneiras, cujos problemas se multiplicam com o passar dos anos, resolveram suas crises e prosseguiram caminho, resistindo às persuasões e às pressões, sem renunciar aos seus valores, muitas vezes dolorosos, pelos consolos da conformidade. Não se recolheram às suas conchas — enfrentaram os desafios do mundo. E hoje em dia sabem muito bem quem são. Realizaram, talvez sem o perceber, o que todo homem ou mulher deve fazer para se manter a par com o ritmo acelerado da história e encontrar ou conservar a sua individualidade em nossa sociedade niveladora. As crises de personalidade de homens e mulheres não podem ser resolvidas de uma geração para a outra; em nossa sociedade em rápida mutação precisam ser continuamente enfrentadas e resolvidas, para serem novamente enfrentadas e solucionadas no período de uma só existência. O plano de vida deve estar aberto a mudanças, à medida que novas possibilidades se apresentem, na sociedade e no íntimo de cada um. [...] Quando mães realizadas as conduzirem à segurança de sua condição de mulher não será necessário esforçar-se por ser feminina. Poderão evoluir à vontade, até que por seus próprios esforços encontrem sua personalidade. Não precisarão da atenção de um rapaz ou de um homem para se sentirem vivas. E quando não mais precisarem viver através do marido e dos filhos, os homens não temerão o amor e a força da mulher, nem precisarão das suas fraquezas para provar a própria masculinidade. E finalmente homem e mulher verão um ao outro como de fato são, o que talvez venha a ser um passo adiante na evolução humana. [...] Mal foi iniciada a busca da mulher pela própria identidade. Mas está próximo o tempo em que as vozes da mística feminina não poderão abafar a voz íntima que a impele ao seu pleno desabrochar. Trechos extraídos da obra A mística feminina (Vozes, 1971), da escritora e ativista feminista estadunidense Betty Friedan (1921-2006). Veja mais aqui.

PAULINA BORGHESE – A duas vezes princesa Maria Paola Buonaparte, mais conhecida como Pauline ou Paulina Bonaparte (1780-1825), era irmã de Napoleão Bonaparte e posou para a famosíssima escultura Venus Victrix, do escultor italiano Antonio Canova, e para outros pintores. Sobre sua vida diversas publicações: Venus of Empire: The Life of Pauline Bonaparte (NIPPOD, 2013), de Flora Fraser; Pauline Bonaparte ; princesse d'amour (Campanile, 2019), de Richard Pogliano; Pauline Borghese: soeur fidele (Pierre Amiot, 1958), de Marcel Gobineau; Pauline Borghese (Abbildungen, 1980), de Angelika Jordan; Imperial Venus: the story of Pauline Bonaparte-Borghese (Stein and Day, 1974), de Len Ortzen, entre outros; e o filme Imperial Venus (1962), dirigido por Jean Delannoy e estrelado por Gina Lollobrigida. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da atriz italiana Rina De Liguoro (1892-1966), nascida Elena Caterina Catardi, que atuou em diversos épicos, tais como Messalina (1924), Quo Vadis (1924), The Last Days of Pompeii (1926), Anita (1927), The loves of Casanova (1927), Madame Satan (1930) e o The Leopard (1963), de Luchino Visconti, entre outros. Veja mais aquiaqui.

A ESCULTURA DE TERESA FEODEROVNA RIES
A arte da escultora e pintora russa Teresa Feoderovna Ries (1874–1950), que frequentou a Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou, fois expulsa por demonstrar desrespeito a um professor em uma de suas aulas e, por consequência, se mudou para Viena aos 21 anos, onde sua primeira exposição no Künstlerhaus de Viena, onde expôs uma escultura de uma mulher nua cortando as unhas dos pés. Por essa obra se tornou altamente celebrada em toda Viena. Trabalhando em pedra, mármore, gesso e bronze, ela produziu obras públicas e privadas durante sua carreira. Ela continuou trabalhando em Viena até 1942 e depois imigrou para Lugano, na Suíça. Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música do compositor Nelson Ferreira (1902-1976) aqui.
A Terra pernambucana do professor, jornalista e escritor Mario Sette (1886-1950) aqui.
A poesia de Dione Barreto aqui.
A arte de Christina Machado aqui.
O Alvará de soltura de Bóris Trindade aqui.
A xilogravura de Amada Duarte aqui.
&
O município de Cortês aqui & aqui.


sábado, fevereiro 25, 2017

GALO DA MADRUGADA, NELSON FERREIRA, JAE ELLINGER, RECIFE & OLINDA

A FOLIA DO FREVO NO MEU CORAÇÃO - Imagem: foto do Galo da Madrugada – Recife – PE - Sou o carnaval, desregrado desbunde, dionisíaco, transgressor! Sou Vassourinhas agitando a onda pra ferver na loucura do povo que sofre na vida e quer ser feliz. Sou a sexta de véspera que quer ser o dia que a quinta se foi noite longa madrugada, sou do dia e não dei a mão à palmatória nem sucumbi ao calor dos desapontamentos, porque já fiz o meu melhor e tudo que pude, ainda muito por fazer, mesmo tendo já esgotado todas as alternativas e possibilidades, porque na dobradiça e ferrolho adentro pelo sábado de Zé Pereira de ponta de pé e calcanhar, só pra me esbaldar no Galo da Madrugada como quem persiste, insiste e persevera resiliente, persigo meu caminho feito uma tirolesa solta em rotação 360 graus por novos desafios, novos horizontes, fora da zona de conforto só pra emendar feito cantiga de grilho e ver o Sol raiar no domingo no abanando e tesoura de Nelson ou Capiba, de riba pra baixo e volta por cima no pontilhada ou pernada, nada mais vale, segunda é folia de caindo nas molas ou parafuso, pra ir de locomotiva pra Terça Gorda e findar pererê na Quarta das Cinzas. Não quero nada em troca, só aquela passista faceira pra nela brincar, ela o meu brinquedo preferido, o meu bicinho de estimação, o gosto mais saboroso, a pele mais sedosa, o passeio mais aprazível, a comida mais apetitosa, o encontro mais festeiro, a sensação mais prazerosa, a rocha pra minha escalada, a paisagem dos meus passeios, barco da minha navegação, a aeronave pro meu voo, a minha pista de pouso, fonte pro meu mergulho e calçada preu cravar minha fama. É ela, índia caingang de foliã de caboclinhos caeté, que faz o frevo vibrar no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo álbuns com os frevos do compositor Nelson Ferreira (1902-1976). Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Folia & Frevo, Galo da Madrugada, Mário Souto Maior, Roberto DaMatta, Mauro Mota, Valdemar de Oliveira, Capiba, Orquestra Contemporânea de Olinda, Márcio Melo, Zsa Zsa Gabor & Helena Isabel Correia Ribeiro aqui.

E mais:
Folia Tataritaritatá, Cecília Meireles, Gregório de Matos Guerra, Camargo Guarnieri, Heitor Shalia, Albert Marquet, Sarah Siddons & Graciela Rodriguez, Priscila Almeida & Lei Maria da Penha aqui.
Folia Caeté, Ascenso Ferreira, Nelson Ferreira, Baco, Frevo, Chiquinha Gonzaga, Teatro & Carnaval, Dias de Momo, Adolphe William Bouguereau, Peró Batista de Andrade & As Puaras aqui.
Quando o sonho é uma canção de amor aqui.
Eu nasci entre um rio e um riso de mulher aqui.
Santa Folia & Cikó Macedo, James Joyce, Charles Darwin, Marilena Chauí, Henri Matisse, Auguste Rodin, Frank Capra, Arto Lindsay, Donna Reed, Mademoiselle George, Acervum, Irina Costa & Graça Graúna aqui.
Amor Imortal, Carnaval, Pedro Nava, Manuel Bandeira, Arlequim & Carlo Goldoni, Carybé, SpokFrevo Orquestra, Luís Bandeira, Hugo Carvana e Chico Buarque, Tatiana Cañas & Claudia Maia aqui.
Alvorada, Capiba, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Egberto Gismonti, Ricardo Palma, Fernanda Torres, Tsai Ming-liang & Chen Shiang-Chyi, Cristiane Campos, Digerson Araújo, Asta Vozondas, O cérebro autista & Germina aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Os assassinos do Frevo aqui.
A folia do prazer na ginofagia aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Slavoj Zizek, Victor Hugo, Martin Baró, Pier Paulo Pasolini, Altay Veloso, Agildo Ribeiro, Silvana Mangano, Maria Creuza & Honoré Daumier aqui.
Murilo Mendes, António Damásio, Benedetto Croce, Pierre-Auguste Renoir, George Harrison, Bigas Luna, Mathilda May & Joyce Cavalccante aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
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DESTAQUE:
Passistas do Frevo

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A fantasia dela no meu carnaval. Art by Jae Ellinger
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra neste Carnaval
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

 

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

FOLIA CAETÉ, ASCENSO, BACO, CHIQUINHA, TINHORÃO, NELSON FERREIRA, PUARAS, CIRCO, PERÓ ANDRADE & MUITO MAIS!!!



FOLIA TATARITARITATÁ: FOLIA CAETÉ (Imagem: Arte-vídeo da saudosa Derinha Rocha) Tenho o costume de caminhar. Faço caminhadas todos os dias. Lá pelos idos do ano 2000, numa dessas caminhadas pela orla marítima maceioense, comecei a refletir acerca da condição de ser brasileiro. E tive pra mim que para falar do povo brasileiro, não é só entender a mistura de brancos, negros e índios, e não só saber da estrutura montada num processo de colonização secular enraizada numa monarquia que possui reflexos até hoje nas relações e nas perspectivas canhestras tanto entre as pessoas como na própria perspectiva de desenvolvimento. As formas como se desenvolveram, por exemplo, as atividades açucarocratas recheadas de colossais remanescentes feudais que se alastraram na gestão dos latifúndios e nas formas de produção com básico teor na acumulação e na exploração, não diferente dos propósitos colonizadores da preação, dá pra visualizar, portanto, de que forma a nossa heterogeneidade se manifesta aguda e contraditoriamente individualista e que, apesar do forte teor de afetividade, não se vislumbra além da nossa índole festeira de compadrio e jeitinho. Com o olhar no presente, tenho a percepção de como podemos ser uma potência econômica pro mundo, enquanto paradoxalmente uma parcela considerável da população vive numa situação abaixo da linha da miséria. Afora isso, o que tem de neguinho grifado nos trinques de uma cueca só com um buraco no furico e meia com o dedão de fora, não está no gibi – daqueles que falam bonito, todavia, se aprofundar no amiudado, são vazios de num juntar direito coisa com coisa. Ah, mas a primeira impressão é a que fica, sem medrar de que nem tudo que brilha pode ser ouro, mas ouropel de última categoria. Apois tá. Caminhando no calçadão da praia posso ter a visualização dos suntuosos prédios da orla marítima, como também, de hipossuficientes – nome bonito e eufemista - de toda espécie, ou seja mendigos que buscam a caridade alheia para ter o que sustentar, contrariando aquela velha máxima cantada por Luís Gonzaga: Mas doutô uma esmola pra um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. Ou dente apressada dando salto solto no ar para cavar o ganha-pão, ou sabidos dando toque de arrodeio em alesados, falantes engalobando incultos, gente voyeur do boato, capítulos de novela, gol domingueiro e manchetes banalizadoras do aqui agora, maria-vai-com-as-outras, trampolineiros que se viram de toda sorte, assando e comendo e ainda arrotando ufana vivacidade de se sair bem por burlar tudo e todos. Gente que não tem saúde pública e nem onde cair morto, a não ser dos favores de políticos ou de interesseiros agiotas públicos ocasionais; que não tem educação porque a escola pública está falida fabricando débeis e marginais, enquanto a privada domestica pra fé e pra alienação do trabalho; que não tem segurança e sai escapando das duas violências graves que cerceiam a vida e mantém o temor do terror; que não tem cidadania apesar dos direitos fundamentais, mas que por temor de dar tudo errado sempre, se cala serviçal desde que nasceu; que não tem nada a não ser exibir suas arrogâncias umbigocentristas e seus ideais disfarçando sua frágil e desmoronada estrutura ética e psicológica, almejando ser sempre o que não é, agradando gregos e troianos – naquela do melhor ter amigo na praça do que dinheiro no banco, vez que brincar de amigo pra valer na hipocrisia é melhor do que ser tido por pobre de Jó -, só com o fito de se dar bem, nada mais. Por isso, compus o frevo Folia Caeté: Sou brasileiro, meu bem / De janeiro a janeiro / De ralar o ano inteiro / Pra ver se a vida um dia vai mudar / Pra um melhor fevereiro / Festa de carnaval / Pular, esbaldar festeiro / Pra ver se a minha vida vai mudar / Eu vou driblando as broncas / Pra gororoba chegar / Eu dou nó cego até no ar / Pra fazer meu direito valer / Feito gente adulta de ser / Respeite o cidadão que é de lei / Seja um, qualquer um, toda vez / Tenho a dizer / Moradia é lugar que se tem / A saúde é gozar muito bem / E saber que não deve minguar / E exercer / O respeito por todo alguém / Que é de todos não é de ninguém / O direito sagrado: viver / Cidadania vingar / Cantada bem pra valer / Viver feliz é o que se quer / Mesmo quem venha a nascer / Cidadania é viver / Na folia caeté. (Luiz Alberto Machado). Veja o videoclipe do frevo aqui e mais aqui.

E veja mais:
ALVORADA

PICADINHO
Imagem: O Jovem Baco (1884), do pintor inglês Adolphe William Bouguereau (1825-1905), Veja mais aqui.

 Curtindo a coleção dos seis cds de Nelson Ferreira – Carnaval, sua história, sua glória (Revivendo, 2002), comemorativo de centenário do compositor Nelson Ferreira (19012-1976).

EPÍGRAFE – Ó abre alas que eu quero passar, Ó abre alas que eu quero passar, trecho da letra da música Abre alas (1899), da compositora, maestrina, abolicionista, feminista, audaciosa pioneira e pianeira de choro e boemia, Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Veja mais aqui e aqui.

EVOÉ, BACO & ARIADNE (Imagem: Bachus et Ariane, by Agostino Carracci)– O deus Baco, o Liber Pater, é o nome adotado pelos romanos para o deus grego Dioníso, deus do vinho, da ebriedade, dos excessos sexuais e da natureza, que tinha por símbolos a pantera, o cântaro, a vinha e um cacho de uva. As festas em sua homenagem eram chamadas de bacanais. Conta a lenda que durante a gravidez de Sémele, ela pediu para que Júpiter se apresentasse com pai do seu filho. Com a presença do deus, ela fulminou se transformando em cinzas. Júpiter recolheu o feto das cinzas e o introduziu na barriga de sua perna para dar continuidade à gestação, nascendo, portanto, Baco. Ao tornar-se adulto ele se apaixona pela cultura da vinha e descobre a arte de extrair o suco da fruto. Por inveja de Juno, ele se torna louco a vagar pela Terra. Cibele então cura-o, ensinando-lhe a cultura da vinha. Ao chegar em Tebas, mulheres, crianças, velhos e jovens saúdam-no em clima de festa, daí seguindo para Naxos, sua terra natal, quando, no caminho, encontra Ariadne, a filha do rei de Creta, Minos e Parsífae. Ele traz folhas de louro e videira nos cabelos, um manto esvoaçante e demonstrando grande surpresa e encantamento por ver moça tão bonita que se encontra com manto azul drapeado, faixa vermelha, surpreendendo-se com o olhar do deus. Ela havia sido abandonada por Teseu, depois que ajudou a matar o Minotauro com o novelo que lhe deu para se safar do labirinto. Ao encontrar Baco, o amor aflorou imediatamente entre ambos. Ele lhe prometeu o céu para que ela aceitasse o casar-se com ele. E diante da afirmação dela, o deus pegou-lhe a coroa e lançou ao céu, se transformando numa constelação para confirmar o casamento entre ambos. Veja mais aqui.

O FREVO - No livro Pequena história da música popular: da modinha à canção de protesto (Vozes, 1975), do jornalista, crítico musical e pesquisador José Ramos Tinhorão, encontro que o frevo é uma das mais originais criações dos mestiço da baixa classe média urbana brasileira, no campo da música e da dança. Para o autor: [...] Criação de músicos brancos e mulatos, na sua maioria instrumentistas de bandas militares tocadores de marchas e dobrados, ou componentes de grupos especialistas em música de dança do fim do século XIX (polcas, tangos, quadrilhas e maxixes), o frevo fixou sua estrutura numa vertiginosa evolução da música das bandas de rua, de inícios da década de 1880 até aos primeiros anos do século XX. [...]. Por conta disso, tornou-se o frevo a principal atração do carnaval pernambucano consolidando-se em 1935, com o Clube de Vassourinhas, quando passou a ser identificado como a dança de rua e de salão, caracterizada pelo ritmo sincopado e frenético, tem como coreografia o baile de multidão de maneira curiosa, sendo ao mesmo tempo dança individual, livre e improvisada, e põe a ferver o povo com desfile dos clubes de frevo, em que se exibem porta-estandarte, passistas isolados e passistas em cordão. Veja mais aqui.

MARACATU – No livro Catimbó (1927), reunido no livro Poemas de Ascenso Ferreira (Nordestal, 1981), do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965), encontro o poema Maracatu: Zabumbas de bombos / estouros de bombas / batoques de ingonos, / cantigas de banzo, / rangir de ganzás... / — Loanda, Loanda, aonde estás? / Loanda, Loanda, aonde estás? / As luzes crescentes / de espelhos luzentes, / colares e pentes, / queixares e dentes / de maracajás... / — Loanda, Loanda, aonde estás? / Loanda, Loanda, aonde estás? / A balsa no rio / cai no corrupio, / faz passo macio, / mas toma desvio / que nunca sonhou... / — Loanda, Loanda, aonde estou? / Loanda, Loanda, aonde estou? Veja mais aqui e aqui.

TEATRO & CARNAVAL – As relações entre o teatro e o carnaval surgem com o Pierrô, o Arlequim e a Colombina, que são personagens da Commedia dellArte, nascida na Itália do século XVI. Integrantes de uma trama cheia de sátira social, os três papéis representam serviçais envolvidos em um triângulo amoroso: Pierrô ama Colombina, que ama Arlequim, que, por sua vez, também deseja Colombina. O Pierrô originalmente se chamava Pedrolino, mas foi batizado, na França do século XIX, como Pierrot e assim ganhou o mundo. O Arlequim era servo de Pantaleão, espertalhão preguiçoso e insolente, que tentava convencer a todos da sua ingenuidade e estupidez. E Colombina uma criada de uma filha do patrão Pantaleão, mas tão bela e refinada quanto sua ama, era também o pivô de um triângulo amoroso que ficaria famoso no mundo todo - de um lado, o apaixonado Pierrô; do outro, o malandro Arlequim. Para despertar o amor desse último, a romântica serviçal cantava e dançava graciosamente nos espetáculos. Veja mais aqui e aqui.

DIAS DE MOMO – O documentário Dias de Momo (2013), mostra o carnaval de Recife e Olinda, destacando o frevo como patrimônio imaterial a humanidade. O filme conta com depoimento de Alceu Valença e de vários artistas pernambucanos, numa realização do Sindicato Nacional dos Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), durante a campanha Viva a originalidade: Pirata, tô fora!, com o objetivo de mostrar que ao valorizar as ideias, os produtos, a música, o artesanato e as manifestações culturais toda a sociedade ganha. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Fotos do bloco palmarense As Puaras, comemorando no carnaval deste ano 35 anos de história.

DEDICATÓRIA
 A edição de hoje é dedicada à Peró Batista Andrade & Sua Excelência O Circo. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
 Veja aquiaqui, aquiaqui.

 Veja as homenageadas aqui.

E veja mais William Burroughs, Henfil, Charlotte Rampling, O Porteiro da Noite, Ernest Chausson, Paulo Dalgalarrondo, Liliana Cavani & muito mais aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...