quarta-feira, dezembro 02, 2020

WILLIAM SAROYAN, DJUNA BARNES, CHARLOTTE PERKINS GILMAN, ARGUEDAS & AURORA DICKIE

 

TRÍPTICO DQC: MEMORIMAGINAÇÃO - Ao som de Beira rio, do percussionista e compositor Caito Marcondes, integrante da Orquestra Popular de Cordas. – Coisuma o que penso e imagino, indistinguíveis. São quase uma coisa só de tão desordenadas. Lá fora tudo na mesma, difícil respirar e nenhuma opção: nem adianta esperar o tempo passar e mudar. Fazer pouco caso não é a minha, não consigo ficar indiferente à decadência flagrante, apesar do café frio, o vento na janela: preciso muita ideia para entender direito. Do que penso e lembro, às vezes reais e inexprimíveis: o que vivi e invento. De súbito, o escritor e dramaturgo estadunidense William Saroyan (1908-1981): As prisões e os cemitérios estão cheios de boas pessoas que não tiveram quem lhes estendesse a mão em tempos de crise. Somos uma gente feliz, é verdade, mas somos resistentes também. Não me importo de ficar triste. Importo-me a respeito de gente que não é resistente e que fica triste e magoada, e me parece que o mundo está cheio de gente assim. Ele olha o relógio e me aponta distante o que não consigo ver. Reprova minha cegueira. Ao sair cumprimenta do outro lado a escritora estadunidense Djuna Barnes (1892-1982) que me chegou: Um homem só é completo quando leva em conta sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? Eu gosto da minha experiência humana servida com um pouco de silêncio e moderação. O silêncio faz a experiência ir mais longe e, quando morre, confere-lhe aquela dignidade comum a algo que se tocou e não arrebatou. Dela nenhum sorriso, mãos nas minhas e sigo seus passos, sei que a noite será longa.

 


HERLAND – Ao som de Lusco fusco (Borandá, 2017), de Alessandro Kramer Quarteto. - Despertei num lugar estranho e ela me olha com certa estranheza e alguma hostilidade. Onde estou? Herland. Hum? Pelo tom da sua voz este era um lugar que eu não deveria jamais estar. E me disse: Os únicos forasteiros que aqui estiveram juraram manter segredo... Eu juro! E mandou-me segui-la. Lá fora durante o trajeto olhares desconfiados de mulheres fortes e atléticas seguiam-me por onde fosse. Pude ver que todas ali possuíam cabelos curtos, túnicas justas sobre calças e parecem destemidas; elas se comunicam por espécie de esperanto, parece. Ao chegar ao templo de Maaia, a deusa-mãe da maternidade, fui apresentado, não sei se por sorte ou não, a Charlotte Perkins Gilman: Não existe mente feminina. O cérebro não é um órgão do sexo. Também falar de um fígado feminino. E mostrou-me Anita Malfati contando para outras mulheres a sua sensação de morte ao perder o pai na infância: Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte... Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura. Ao me ver, ela sorriu e fui conduzido a um outro espaço onde estava a sempre exuberante Maria Callas conversando com outras ao seu redor: O amor é muito melhor quando não se está casada. Alguns dizem que tenho uma bela voz, outros dizem que não. É uma questão de opinião. Tudo o que posso dizer é que aqueles que não gostam não deveriam vir me ouvir. Não me fale sobre regras, querida. Onde quer que eu fique, faço as malditas regras. Ela percebeu a minha satisfação em vê-la, mas logo fui tocado que era hora de partir. Adiantei-me e disse: Eu juro! A minha passagem por ali havia chegado ao final. Despediu-se, deu-me uma edição atualizada do seu livro Herland (Via Leitura, 2019) e me deixou partir sob juramento: jamais contar. Não sei para onde, perdido de volta.

 


JANELA DO TEMPO - Imagem: a arte da multi-artista polaca Teresa Tyszkiewicz (1953-2020), ao som de A window in time (Telarc, 1998), de Rachmaninoff. – Ela apareceu nua e linda: Tem dedo do tempo no meio. No centro da cena, pigarreou, afinou a voz, respirou fundo e disse: Sou Luiza, Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach!, e passou o texto: Ele me disse: ‘Se você sair viva daqui, o que não vai acontecer, você pode me procurar no futuro. Eu sou o chefe, sou o Jesus Cristo [codinome do delegado de polícia Dirceu Gravina]’. Ele falava isso e virava a manivela para me dar choque. Ele também dizia: ‘Que militante de direitos humanos coisa nenhuma, nada disso, vocês estão envolvidos’. E virava a manivela. Havia umas ameaças assim: ‘Vamos prender todos os advogados de direitos humanos, colocá-los num avião e soltar na Amazônia’. Nos outros interrogatórios, eles perguntavam qual era a minha opção política, o que eu pensava, quem pagava os meus honorários, quais eram os meus contatos no exterior, o que eu pensava do comunismo. Para mim, ficou muito claro que eles queriam atemorizar advogado de preso político. Havia uma mudança no tom das equipes. Eram três, e ia piorando. Durante o interrogatório da segunda equipe, eu levei uma bofetada de um e o outro me segurou: ‘Está bravinha porque levou uma bofetada?’. E os homens da terceira equipe diziam: ‘Saia disso, onde já se viu defender esses caras, gente perigosíssima, não se meta nisso!’. Eu estava formada havia menos de um ano, e trabalhava desde o segundo ano no escritório do advogado José Carlos Dias, defendendo presos políticos. Essa era a forma que eu tinha de resistir à ditadura militar, foi minha opção de participação na resistência. Eu fui presa sem nenhuma acusação, fiquei três dias lá sem saber porque estava presa. No terceiro ou quarto dia, eu descobri o motivo: teriam achado num ‘aparelho’ um manuscrito do Carlos Eduardo Pires Fleury, que tinha sido banido do país e que foi meu colega e cliente no escritório. Eu não fui das mais torturadas. Levei choque uma manhã inteira, acho que para saber se eu tinha algum envolvimento com alguma organização clandestina e para que os advogados soubessem que não era fácil para quem militava. E chorava muito soluçando: Sou a filha de outras filhas da dor. Inconsolável, aproximei-me e demonstrei meu apoio ao lembrar de uma frase do escritor e antropólogo peruano José María Arguedas (1911-1969), ao seu ouvido com um abraço terno: A luta é um bem, o maior bem que foi concedido ao homem, mas enquanto a luta não for irremediavelmente estéril ou inútil, porque então não é mais uma luta, é o Inferno. Ainda chorosa respondeu-me com Edmond Rostand: O que é a vida sem um sonho. Todas as nossas almas estão escritas nos nossos olhos. E abraçados permanecemos por longo tempo até darmos conta de nosso prazer inenarrável. Até mais ver.

 

A ARTE DE AURORA DICKIE

Eu amo o meu trabalho e o trabalho que é feito na companhia em Berlim. Dançamos do clássico ao contemporâneo, sempre acompanhados de orquestra ao vivo e com o teatro lotado. Também já fiz turnê para a Espanha e Itália com a companhia nesses últimos dois anos. Berlim é uma cidade energética que transpira arte em todos os cantos e essa atmosfera me anima e inspira para continuar crescendo como bailarina e pessoa.

A arte da bailarina Aurora Dickie, que hoje é solista do Ballet Estatal de Berlim, na Alemanha. A sua primeira experiência foi na Cisne Negro Cia. de Dança, em 2006, sendo depois contratada pela Companhia Danças de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Veja mais aqui & aqui.


 

 


terça-feira, dezembro 01, 2020

REX STOUT, OUSMANE SEMBÈNE, MARCOS NOBRE, MILLIE BROWN, FALCONET & LUNETA DO TEMPO



TRÍPTICO DQC: JANELOUCA, UMA ÁRVORE DA PEDRA - Ao som dos Seis pequenos prelúdios (2010/11), do maestro, compositor e arranjador brasileiro Walter Branco (1929-2018). – O cenário à janela: antes Mata Atlântica, tudo verdinho, era de se pendurar nos galhos de tudo, cantando sou mato matagal e fugia amedrontado das assombrações pra baixo da cama. Havia tanto que contar, hoje ninguém mais sabe, tudo desmatado morro acima e abaixo, plantio de soja e cana, pasto ao gado. Havia o rio para timbungar no meio do mormaço. A temperatura subiu demais e nem chegou o verão ainda. Dia mais e menos, o rio secava, quarenta e tantos graus. Danou-se! E subindo mais, lá vai. Do mar chega evaporar: a sede é tanta de se beber o suor. Tem mais água não. Da pedra, uma árvore: Que pé é esse? Oxe, quem lá sabe, ora! O fruto na quentura pinga: Que gosto tem? Sorver o sumo, oxente! E os pés, depois as pernas, coxas, tronco, cara, virou gente de pedra: sentimento algum, ombros pros desafios, mãos pra quebradeira, pisadas para rachar. Ah, perdeu a alma. De repente escureceu. Alguém aparece como se estivesse assistido tudo. É Woody Allen: Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher. Pelas escolhas de milênios já dá para prever como tudo vai terminar, não há outro jeito. É o que o me diz a Música de Juhan Liiv: Em algum lugar do mundo escondido / a primeira harmonia existe. / Está na fúria do infinito, / em órbitas distantes, / no orgulho do sol, / nas flores, na floresta, / na canção de ninar ou no soluço. / Algum lugar tem que ser encontrado / imortalidade, harmonia primeiro. / De que outra forma nossa alma se enche de sua música? Estou só e estão longe os que resistem à pedraria, os demais insensíveis rondam pelos cantos da cidade e estão bem perto, nem sei se dormem ou sonham acordados.

 


A TERRA DIVIDIDA – Imagem: a arte do escultor francês Étienne-Maurice Falconet (1716-1791) - Ao som de Preludiji za harfo, do compositor e educador musical esloveno Alojz Srebotnjak (1931-2010) – De repente a cena de um vilarejo: é Moolaadé (2004), do escritor e cineasta senegalês Ousmane Sembène (1923-2007), um lugar afastado de qualquer cidade grande, onde voga a purificação feminina: a excisão clitoriana como rito de passagem, uma prática comum do Egito à Nigéria. Entre as mulheres, Collé não permite que sua filha seja mutilada e por isso fez a deprecação mágica. Dali em diante, sua filha torna-se uma impura bilakoro, razão pela qual perderá o casamento promissor e seu marido completamente desmoralizado perante a comunidade. Outras jovens pedem a proteção da revoltada e o litígio cultural se intensifica. Ao final, o enquadramento do ovo repousando no cume da mesquita da vila concentrada numa antena de televisão. Eis que uma voz suspende minha reflexão: é Christa Wolf: Quem sou eu, de fato, e o que me impede de ser eu mesma? Entre matar e morrer há uma terceira via: viver. Ela me olha, faz um aceno e sai. Fico ruminando e agora tudo está embaralhado em minha mente. O ovo permanece entre os meus pensamentos. Alguém que desconheço se aproxima como se me deixasse evidenciado que entre confusos e descabelados, não há escapatória: a visada da subjetivação da dominação. Não entendi. Ele me passa um volume: Como nasce o novo: Experiência e diagnóstico de tempo na Fenomenologia do espírito de Hegel (Todavia, 2018), do filósofo Marcos Nobre. Folheio e atento à leitura, ele ainda me joga outros dois livros do mesmo autor: Imobilismo em movimento: Da abertura democrática ao governo Dilma (Companhia das Letras, 2013), no qual realiza uma síntese política dos últimos 30 anos e a blindagem do sistema político que represa as forças de transformação, os escândalos de corrupção, as crises e planos econômicos, as viravoltas eleitorais; e Ponto-final: A guerra de Bolsonaro contra a democracia (Coleção 2020), em que analisa questões como a pandemia, a política de guerra e a destruição da democracia. Procuro por ele para indagar sobre as publicações, não mais ali. Recolho os livros e vou curioso para leitura. Aí aparece o escritor estadunidense Rex Stout (1886-1975): Vou aproveitar minha sorte de vez em quando, mas gosto de escolher a ocasião. Deixa no ar o seu riso irônico e, em mim, a sensação de que realmente entre confusos e descabelados, não há como escapar: encontrou-se os restos da casca do ovo da serpente, ela zanza com a morte por aí. Na cena uma exposição de esculturas. E entre elas, eis que ela surge nua e linda...

 


O QUE RESTA DOS VIVOS – Imagem: a arte da artista visual e perfomática britânica Millie Brown, ao som Pandemic Improvisation #3 5/3/20, de Peter Scartabello. - De suas mãos brotavam flores de rosas de todas as cores distribuídas ao chão. Muitas delas por todos os lados e ao final ela desnuda se deita na cama de flores sussurrando: Quero usar meu corpo para criar arte. Quero criar algo que venha de dentro, que seja bonito, cru e ao mesmo tempo incontrolável. E mais disse passar dias sem comer nem beber e sentir o que é murchar e apodrecer, assim era a vida e ela precisava passar por isso para saber quem e como poderia ser alguém viva de verdade. E no seu delírio mencionava trechos de obras e de vida e morte, abismos, escuridões, e do seu sonho acordar um dia alguém falando ao seu ouvido a frase de Bram Stocker: Há escuridões na vida e há luzes, e você é uma das luzes, a luz de todas as luzes. E se contorcia e chorava porque o imenso amor corroía suas entranhas e o amor não é dor, não é nada disso de angústia, tristeza, sofrimento, o amor é lindo e é vida e é felicidade e tudo o mais que digno de contemplar o ser humano para sua integral plenitude. E mais delirou na sua vertigem até me dizer Jonathan Swift: Nada é constante neste mundo senão a inconstância. E me chamou mais para perto, queria ser possuída como se estivesse morta. Até mais ver.

 

A LUNETA DO TEMPO

O Poder é irmão da Polícia que é prima carnal do Estado e de uma cega chamada Justiça.

O drama A luneta do tempo (2014), de Alceu Valença, estrelado por Irandhir Santos e Hermila Guedes, contando a história da paixão entre Lampião e Maria Bonita, que lideram um bando de cangaceiros pelo sertão pernambucano, enfrentando a polícia local. Seu principal antagonista é Antero Tenente, que foi abandonado preso e de cabeça pra baixo pelo bando de Lampião. Esta disputa permanece com o passar dos anos, quando o filho de Antero torna-se adulto e não aceita qualquer provocação à imagem do pai ou a simples menção a algo que lembre Lampião e seus cangaceiros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


 

 


domingo, novembro 29, 2020

MARINA TSVETÁIEVA, AUGUSTO MONTERROSO, VALERIE COLIN-SIMARD, ANDRÉS HENESTROSA, VALÉRIE DUPONT, LOUISE-VICTORINE AKERMANN & CHICO SCIENCE


  

TRÍPTICO DQC: VIDOUTRA – Ao som de Raua needmine (Curse Upon Iron, 1972), do compositor estoniano Veljo Tormis (1930-2017): Não sou eu que faço uso da música folclórica, é a música folclórica que faz uso de mim. – Estou só e a inquietude de tudo corre no meu sangue, poros, vísceras, interstícios. Alguém ronda o meu espaço, procuro e me deparo com olhos um tanto amedrontados que flagram uma flor num canto da janela. São olhos em todas as direções que pousam insistentemente na flor e logo se perdem em busca de algo indistinguível e, como o heresiarca de Uqbar, parecem abominar a cópula, o espelho e, também, a fotografia e os mortos que parecem perseguir seus passos. Nada dizem além das apreensões. Seus pensamentos dialogam com os meus e me dizem da sua infeliz situação de ser quem é, deseja ser outro, não aquilo a que estava reduzido. Interrogo com o olhar. Silencioso e com emissões de insatisfações por toda sua expressão responde tácito. De repente dá um chute na flor e distancia-se até sumir na escuridão. Idiota! Pela margem esquerda identifico a aproximação do escritor hondurenho Augusto Monterroso (1921-2003): Acredite em você, mas não tanto; duvide de você, mas não tanto. Na dúvida, acredite; Quando você acreditar, duvide. Nisto reside a única sabedoria verdadeira que pode acompanhar um escritor. Um tapinha às minhas costas, um cumprimento com um sorriso contido e boa noite. Volto ao panorama da janela e mergulho em meus pensamentos, até ser surpreendido pela bela jornalista franco-belga Valérie Dupont: Somos uma geração que viveu uma pandemia, mas também não era exatamente uma guerra. Para mim quase, não há como me defender do algoz invisível. Ela sorri, contempla o céu e o seu olhar maravilhado me contamina. Extasiado com sua companhia inesperada, a satisfação é maior e o visto até agora é nada diante do momento.

 


MEMENTO EXCADESCERE - Imagem: A arte da performática artista visual Marta Oliveira - Ao som do Ballet Fantasia: Simbolismo e vivência do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1976), da compositora, pianista, violinista, maestrina e educadora musical Lycia de Biase Bidart (1910-1991) – A sua chegada ali me trouxe fiapos de ótimas lembranças e pudemos conversar por horas a fio, risadas e surpresas com a deposição de algumas situações vexatórias a qual me submeti durante toda minha vida. Simpaticamente receptiva, levou-me a encará-la e sua feição era a da poeta e tradutora russa Marina Tsvetáieva (1892-1941) a me dizer sorridente: Um engano que nos eleva é mais caro do que uma série de verdades baixas. A conversa rolou: os males da guerra, o mal-estar diante da pobreza e da miséria, os desgovernos e a prestidigitação política do poder, a destruição da Natureza, o desencanto e, enfim, as perspectivas escatológicas. Inevitavelmente a nossa interlocução foi levada às paixões e amores, ao que ela inquiriu: Qual é a principal coisa no amor? Para saber e se esconder. Para saber sobre quem você ama e esconder que você ama. Às vezes, esconder (vergonha) vence o saber (paixão). A paixão pelo oculto - a paixão pelo revelado. E sorriu lindamente. Essa dicotomia nos levou ao ápice na discussão e eu havia me lembrado de esquecer tudo que passou, precisava disso com a urgência de viver. Deslembrar, simplesmente.

 


MARE NOSTRUM - Imagem: A arte da artista visual & ilustradora Luda Lima. Ao som de Novo amor, da compositora brasileira Najla Jabor (1915-2001), na interpretação de Flávio Bastos Abbas (canto) e Anderson Daher (piano). – Memorações e remorsos se diluíam diante do seu olhar receptivo. E ela era agora a escritora francesa Louise-Victorine Akermann (1813-1890): Como é insuficiente o coração humano! Um longo amor acaba por cansar. Frase quase desapontadora, temia o descarte. Para quem entre sucumbências e devires bordejou as tantas e profundas águas revoltas das paixões, uma trajetória carregada de alheios pruridos, fobias e libertinagens, não foi brincadeira, entendia mesmo e muito do riscado. Percebi que ela mantinha entre as mãos o livro Quand les femmes s'éveilleront... (Albin Michel, 2008), da psicóloga, escritora e jornalista francesa Valerie Colin-Simard. Abriu o volume, folheou e numa leitura apurada foi encantando meus ouvidos às indagações: E se o feminismo apenas nos tivesse dado o direito de ser como os homens? Hoje devemos ser ativas, eficientes, competitivas, conquistadoras. Voltamos - como um só homem - ao molde do padrão masculino. Resta-nos hoje reabilitar um feminino há muito denegrido, amordaçado. Ousar o feminino também é ousar ser você mesmo. É também ousar a emoção, a vulnerabilidade, o vínculo, o amor, essenciais ao nosso equilíbrio físico e psíquico e da empresa. Às vezes também é ousar assumir a própria vulnerabilidade, para receber e não apenas doar, ser mulher sem necessariamente ser mãe. Graças às feministas, as mulheres agora são liberadas na sociedade. No trabalho como na vida privada, é hora de ousar apresentar esses valores do feminino com mais respeito pela nossa humanidade. Um novo feminismo? Imaginava tudo que dissera misturado ao fascínio que ela exercia sobre mim. Diante do meu silêncio, usou do escritor mexicano Andrés Henestrosa (1906-2008): O amor é a loucura mais lúcida que o homem tem... Nada mais aconchegante que ouvi-la noite adentro coroando o amor que nos enfeitiçava com o gosto de eternidade. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE CHICO SCIENCE

O sol nasce e ilumina / As pedras evoluídas / Que cresceram com a força / De pedreiros suicidas / Cavaleiros circulam / Vigiando as pessoas / Não importa se são ruins / Nem importa se são boas / E a cidade se apresenta / Centro das ambições / Para mendigos ou ricos / E outras armações / Coletivos, automóveis, / Motos e metrôs / Trabalhadores, patrões, / Policiais, camelôs / A cidade não pára / A cidade só cresce / O de cima sobe / E o de baixo desce / A cidade se encontra / Prostituída / Por aqueles que a usaram / Em busca de uma saída / Ilusora de pessoas / De outros lugares, / A cidade e sua fama / Vai além dos mares / E no meio da esperteza / Internacional / A cidade até que não está tão mal / E a situação sempre mais ou menos / Sempre uns com mais e outros com menos / A cidade não pára... / Eu vou fazer uma embolada, / Um samba, um maracatu / Tudo bem envenenado / Bom pra mim e bom pra tu / Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus / Num dia de sol, Recife acordou / Com a mesma fedentina do dia anterior.

A cidade, música do cantor e compositor Chico Science (Francisco de Assis França – 1966-1997), um dos principais colaboradores do movimento Manguebeat e líder da banda Nação Zumbi, com quem lançou dois álbuns Da lama ao caos (1994) e Afrociberdelia (1996). Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


sexta-feira, novembro 27, 2020

MANUEL SCORZA, RADUAN NASSAR, ANNA KUTERA, EWA PARTUM, FANNY KEMBLE, FLÁVIO GADÊLHA & ANITA LEOCÁDIA PRESTES

 

TRÍPTICO DQC: JANELARIRÁ – Ao som da Freedom Qashoush Symphony, do pianista e compositor sírio-estadunidense Malek Jandali – Sou raiz arrancada de mato varrido e solto aos ventos das mil e uma noites de sonhos à janela. Voos atravessando encruzilhadas de espelhos e pisos falsos, redomas e armadilhas às quedas de errar e o erro constante, as escolhas mais difíceis e nenhum atalho, nenhum desconto. Se há um paradoxo, persigo. Até Kurt Gödel nesta hora: Todo erro se deve a fatores externos (como a emoção e a educação); a razão nunca erra. Logo agora e o que menos precisava era um paradoxo a mais e a incompletude e o que há de inconsistente. Sou peixe e escapei de iscas e redes de lagoas e rios, só tenho o corpo, a força do braço e amor do coração. Encontrei Duília de Melo no meio da noite e era uma estrela iridescente sem poupar minha desolação: É preciso não desistir e continuar um dia atrás do outro que uma hora acontece, a estabilidade chega e cada vez mais a gente vai adicionando conhecimento sobre o universo. Sua voz é um afago na minha resiliência de pés suspenso pelos descampados e ribanceiras, como se fosse P. D. James a me dizer: Não podemos vivenciar nada além do momento presente, viver em nenhum outro segundo de tempo, e entender isso é o mais próximo que podemos chegar da vida eterna. Não simulo os instantes, perdoei tudo e todos, nenhum ressentimento, nenhuma conta nem pendência. Recito o poema Desterrado de Manuel Scorza e a vida larilará.

 


FALANDO SOZINHO – Imagem: arte da videoartista, pintora e artista multimídia performática polonesa Anna Kutera, ao som da Tron Suite (1982), da compositora e musicista estadunidense Wendy Carlos & London Philharmonic Orchestra. - Só tenho paredes, meu abrigo. Da janela, a lonjura de tudo. Em mim dias e noites atravessam telhados e aerovias estelares, e me levo a percorrer o horizonte circundante para além dos limites e me pego como se o que fui de tão distante mundo afora, era lugar algum além daqui onde me encontro. Ouço vozes e alertam e anunciam o que não compreendo, estou atento e são tantas e se confundem com o voo das almas e aves noturnas. Distingo Horácio revelador: Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo. A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável. E o silêncio impera mais uma vez e me perco na escuridão, como se Raduan Nassar me espreitasse: Há mais força no perdão do que na ofensa, há mais força no reparo do que no erro. O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero, eu estou louco! Sim, acho que estou mesmo enlouquecendo e não tenho mais que um cubículo retangular para sobreviver e que me priva a oportunidade ser-me para além do outro e algo mais.

 


POR UM LUGAR ESPECIAL – Imagem: arte da poeta, cineasta, artista conceitual performática polonesa Ewa Partum, ao som da Cantilène pour violon (1990), da compositora suíça Geneviève Calame (1946-1993), na interpretação da violinista suíça Désirée Pousaz. - Desejo o seu desejo e ela está distante, por enquanto. Se ela chega e quando o faz, é festa noitedia. A espera é dolorosa. Subitamente, a porta se abre e ela invade luminescente com ar de Anita Leocádia Prestes: Mobilizar o povo é chave para transformar sociedade. Todas e todos se organizem pelas suas reivindicações. É na organização popular que a gente faz as coisas mudarem rumo a uma sociedade melhor. Está inquieta e me beija apressadamente como quem tem algo de muito importante para fazer. E eu só queria um beijo que fosse para matar a saudade saneando o possível instante de qualquer diferente paisagem, onírica e instantânea, e desse descanso ao meu tormento. Ela caminha pelos quatro cantos como se quisesse dizer algo inexprimível e gesticula buscando as palavras num esforço gigantesco. Logo se transforma na atriz e escritora britânica Fanny Kemble (1809-1893) e passa o texto: Eu quero fazer tudo no mundo que pode ser feito. Simplicidade é um grande elemento de boa criação. Muitas causas tendem a tornar bons senhores e amantes tão raros quanto bons servos. As grandes e rápidas fortunas pelas quais pessoas vulgares e ignorantes se tornam possuidoras de casas esplêndidas, esplendidamente mobiliadas, não lhes dá, é claro, os sentimentos e maneiras de gente gentil, ou de qualquer forma realmente os eleva acima dos criados que empregam, que estão bem cientes desse fato, e que a posse de riqueza é literalmente a única superioridade que seus empregadores têm sobre eles. Sua inquietação me comove e me envolvo na sua trama e somos dois aos motins e barricadas tentando nos salvar de qualquer jeito. Lá fora, tudo horror e ruína. Não temos tempo para enfrentar tantas adversidades. Precisamos viver o que nos resta e a nós a vida a passos largos pela entrega de se amar. Não titubiei, roubei seus lábios e os fiz com ósculos de música duradoura no seu corpo, meu cenário e moradia, tudo nela, o amor é o que vale. Até mais ver.

 

A ARTE DE FLÁVIO GADÊLHA

O retrato, para mim, é uma maneira de entender as pessoas, penetrar a alma, através do olhar, de gestos e posturas. Tem um sentimento que eu quero passar. Assistir às pessoas vendo a pintura, ver o que elas querem passar. Tudo isso eleva a inspiração que eu procuro. Eu gosto de pintar a família, os amigos e também pessoas desconhecidas, que têm características fortes e me inspiram. Quando pinto coisas despercebidas, elas se tornam muito importantes. Queria trazer à luz o descaso, o preconceito e ganância das grandes potências que está levando ao extermínio os povos indígenas.

A arte do pintor, escultor e gravurista Flávio Gadêlha, membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste, formado em artes plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), restaurador do Museu do Estado de Pernambuco e já participou de exposições internacionais, a exemplo do Porto, Barcelona, Buenos Aires, Atlanta e Georgia. Veja mais aqui e aqui.


 

 


quinta-feira, novembro 26, 2020

ESQUIVEL, CESARINY, ARLETE SALLES, ADELE AUS DER OHE, MARCUS FAUSTINI, ELLEN WHITE & RAFA ELEUTÉRIO


  

TRÍPTICO DQC: JANELÚCIDA – Ao som da Suíte Sinfônica n.1 Paulista - I. Cantaretê II. Jongo III. Recomenda de almas IV. Tambu (1955), de César Guerra-Peixe, com a Orchestra Statale di Mosca diretta da Edoardo de Guarnieri – Anoiteceu e o som da música ditava o tempo. O espaço vazio do meu quarto era como sobreviver num vácuo inescapável. Um foco de luz e lá estava Adolfo Pérez Esquivel sentado num canto. Olhou-me e disse: Não se pode semear de punhos fechados. E ao escurecer, minha solidão e ele não mais ali, só o cenário da janela. Um novo foco e Gregório de Matos Guerra em tom de reclamação: O honesto é pobre, o ocioso triunfa, o incompetente manda. Fitou-me firme, deu-me as costas e saiu ao dar de ombros com Coventry Patmore que pigarreou soletrando: A tolerância, como agora é amplamente pregada, pode ser uma barganha muito unilateral. Não adianta deixar a falsidade e a idiotice moral dizerem à verdade e à honestidade: "Vou tolerar você, se você me tolerar". Empinou o nariz com ar de interrogação e, diante da minha mudez confusa, se foi para dar vez ao surgimento do Yukio Mishima: Como lidar com uma era que manchou tudo que noutros tempos era sagrado? Esperou um pouco, seguiu meu olhar e da mesma forma intrigante da sua entrada, saiu sem dizer mais nada. Foi aí que me surgiu Frances Hodgson Burnett, afetuosa e solícita: De alguma forma, alguma coisa sempre acontece antes que a gente chegue ao pior ponto. Eu tenho que lembrar sempre disto: o pior nunca acontece. Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim. Alisou meus cabelos, acariciou minhas faces, um beijo terno e um sorriso de despedida. Preciso sair, volto já.

 


MINHA RUA TEM HISTÓRIA – Ao som de The Roots of the Moment (Hatology, 1988), da acordeonista e compositora estadunidense, Pauline Oliveros (1932-2016) – É madrugada e estou na rua fria das luzes escassas pela neblina. Vagam lêmures e invisíveis pra lá e pra cá, feito aluados que se perderam do mundo e se encontraram em si. Inventei de sair e não sei como voltar, uma longa viagem pelo deserto do real. O chão imprime o trajeto dos que passaram o dia no burburinho da vida como entregador montado na urgência, ou aqueles que gritam promoções das vitrines, ou se passam por Papai Noel só pro chamariz das liquidações e beliscões nas bochechas infantis; ou comendo brebotes com caldo de cana na barraca dos camelôs, enquanto o vaivém de gente metida e afobada de pressa, mãos de pedintes, outranônimos e boçais, imundícies e parafinas. Cada qual sua história, teatro sem palco, cenas da hora que ecoam das Pedreiras desabitadas, da Bica do Bigode que secou ou quase, dos Quilombos periféricos e da Nova Cidade que emergiu entre desabamentos e escombros com todos os bairros dos santos, e não sabe mais do que era o Riacho dos Cachorros ou da buraqueira do arruado da usina pra dar em Pirangi, hoje só margem do cemitério. Ainda é novembro e ouço o eco dessas vozes e passos no meio da noite adentro. É como se estivesse no meio do Carnaval, bexiga, funk e sombrinha (2006) ou no meio das páginas de O Guia afetivo da periferia (Aeroplano, 2009), do diretor teatral, documentarista e escritor Marcus Faustini. E é ele que surge em plena madrugada: Acho que temos que mudar tudo. Acho que está tudo errado. Tudo isso com a ideia de que precisavam aparecer novas subjetividades, e que a função da arte talvez fosse agir no território popular e não representar o território popular. Paro para pensar e ao dirigir o olhar para ele, não mais, era Eugène Ionesco de sopetão: Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente. O homem superior é aquele que cumpre sempre o seu dever. E vou catando em cada canto das esburacadas calçadas o que sobrou das tantas histórias perdidas nas ruas.

 


E SE NADA ACONTECESSE NADA VALERIA! – Imagem: arte da fotógrafa e repórter fotográfica Rafa Eleutério - Ao som de Eine Sage and Spinnlied, Op. 4, nº 1 & 4, da compositora alemã Adele aus der Ohe (1861-1937), na interpretação da pianista Erica Sipes. - Para quem sobreviveu a um monte de erradas, vexames, apertos e situações aversivas, despertar naquela manhã ao lado dela, era como tirar a sorte grande e nunca mais premir de nada. Acordar inebriado por seu hálito de rosa, seu perfume de carne fresca, sua nudez de deusa radiante, era mais que ganhar em qualquer situação. Sobretudo ao vê-la ali, desnuda, sentada e pronta para recitar o Monólogo de Molly do Ulysses de Joyce... eu adoro flor eu ia adorar entupir a casa de rosa Deus do céu não tem nada igual à natureza as montanhas virgens e aí o mar e as ondas quebrando... Fiquei atento até a última fala e aplaudi. Ela sorriu, olhos brilhantes, e num gestou brusco, pulou sobre mim, agarrando-se ao meu pescoço com beijos zis apaixonados, a me recitar um pequeno poema de Mário Cesariny: Tu estás em mim como eu estive no berço como a árvore sob a sua crosta como o navio no fundo do mar. Outros tantos beijos e me falou como se fosse a escritora estadunidense Ellen G. White (1827-1915): O valor do amor está vinculado a soma dos sacrifícios que estás disposto a fazer por ele. A alma cresce à altura daquela que admira. Eu sabia que ali, dagora em diante, o dia inteiro era só nosso e nada me demoveria disso e dela, íntimos e sós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ARLETE SALLES

Há um vazio na minha alma. O que faz uma pessoa achar que tem o direito de interferir na vida do outro? Como um adulto apedreja uma criança porque ela está saindo com a roupinha de sua religião?... Mas ser mãe dos 16 para os 17 anos não é o ideal. O maior compromisso que você assume na vida é a maternidade, e nessa idade você está descobrindo a vida. Mas não lamento nada. É a minha história e isso foi vivido com sustos e surpresas, mas chegamos aqui e chegamos bem. Não mudaria nada. Só sinto falta de não ter muito um espírito empreendedor, de produzir. Não tenho essa combinação do talento para o ofício e para o administrativo. É o que lamento quando olho para trás. Teria mais autonomia e não ficaria dependendo de ninguém.

A arte da premiada atriz, radialista, comediante e apresentadora, Arlete Salles, que iniciou sua carreira aos quinze anos de idade como locutora na Radio Jornal do Commércio, em Recife; integrou a companhia teatral de Barreto Júnior, na qual foi premiada pela atuação na peça A cegonha se diverte (1958) e, a partir disso, fez sua gloriosa trajetória pelo rádio, teatro, cinema e televisão. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


quarta-feira, novembro 25, 2020

BA JIN, KATHERINE ANNE PORTER, TRISHA BROWN, CHARLAINE HARRIS & TÂMARA DORNELAS

 

TRÍPTICO DQC: JANELIVRE - Curtindo FandangoTres Canciones Espanola (1951), do compositor, pianista e violonista espanhol Joaquin Rodrigo (1901-1999), na interpretação do premiado violonista Fabio Lima. Fandango vai quase não volta, eita, que coisa boa! Marinheiro nunca fui, só de primeira viagem, avalie. Dos sete mares, só em sonho. Indagora mesmo, depois de uma golada bem dada, navegante das cheganças, ouvi o Gajeiro de lá: O vento é tanto que me faz chorar! Que é que é isso, vamos pelas embaixadas aos versos tantos da Nau Catarineta: Minha mãe bem me dizia / Que eu não fosse me embarcar / Que esta nau se perderia / E eu me lançaria ao mar. Ora, ora, é só se deixar correr pela correnteza das águas. Assim, mesmo perdido, ela ali estava no meio doutras tantas na dança lasciva. E isso entre catraieiros, pescadores, trapicheiros estivadores, armadores e o que mais, aquela mesma que foi proibida por Pombal lá pelos tempos de antanho. Agora não, os tempos nem são tão outros, cuidado nunca é demais. Estou ligado nela, se cochilar fico na mão e era uma vez a possibilidade de um grande amor. Só perdi de mesmo a cisma com a chegada do grande escritor anarquista chinês Ba Jin (1904-2005): Esta batalha para salvar vidas será vencida. Não podemos esquecer o que aconteceu e a história não deve se repetir. Ah, tudo pela amizade e paz, jamais a guerra! Talvez tenha passado da hora, mas nunca é tarde, há sempre o que fazer. Ele se foi e eu cantarolei: Adeus que eu me vou. Meu navio a sorte inventa.

 


MEU CORAÇÃO ESTÁ NA MONTANHA – Curtindo Navilouca Ao Vivo (Universal, 2010), da banda Pedro Luís e a Parede: Segure nave louca / Que eu sou pedra rolando / Que está despencando / Em precipício propício / Pra esse movimento de agora / Esse monumento ao momento / Monumento de hospício / Silêncio na avenida Presidente Vargas / É mergulho bem pra dentro de si / Fotografei você na minha dragoflex / De olhar aceso esperando por mim / Então / Segure nave louca... – Para quem não tem mais paradeiro, no meio da festa toda, feito Net&Salomão, apareceu lá longe a Stultifera Navis de Brant, sem considerar aonde voo. Vão todos ao lado daqueles que se despedaçaram da La Nef des fous de Bosch, com os intemperantes e avarentos. Todos consideram: É melhor seguir sendo laico do que comportar-se mal dentro das ordens. Como não sei das estrelas do céu, nem dos ventos ou estações do ano, ouvi do Ship of Fools (Open Road, 2015), de Katherine Anne Porter: O lugar para onde você vai ainda não existe, você deve construí-lo quando chegar ao ponto certo. E não eram as cenas de Stanley Kramer, nem a pintura de John Alexander. Enfim, todos achavam que o louco era eu. E digo a verdade: ela estava ali e era em Abaton. Não era um totem nem o paraíso cretense de Chersonissos. Não, não era. Era ela reinando num cenário jamais visto. Confesso que nada vi, meus olhos eram dela. Para não mentir, as coisas que lá vi foram duas: Virginia Woolf fugitiva da sua loucura: A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata. E o Eça de Queiroz aborrecido: Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo. O amor eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam. A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação. Afora isso, todos me diziam que ali era Abaton. Nem sabia mesmo onde é que era e como de lá me safei. Só soube do que se tratava muito depois, quando vi My heart’s in the Highlands (Edimburgo, 1892), do Thomas Bulfinch (1796-1867). Pois é, enquanto todos vagavam em busca daquilo que só sabiam apenas suspensa no horizonte ao anoitecer, completamente inacessível e duvidável, posso dizer, com certeza: fui ao lugar que ninguém nunca foi, nem sabia. E fui levado pelo fandango ao coração dela.

 


ÍSIS INSEPULTA, A MORTA-VIVA - Baseada na história da desaparecida Ísis Dias de Oliveira (1941-1972) – Ao som de Song From the Uproar (2012), da compositora e pianista estadunidense Missy Mazzoli, baseada na vida da exploradora suíça Isabela Eberhardt (1877-1904) – Foi lá que ela bailou com melancolia para encenar o seu texto: Sou Ísis de batismo, nem sei se viva ou morta, apenas que sou e nem sei quem ou onde estou. Não tenho mais familiares, nem o que de mim restou. Da Ilha das Flores o meu voo sem saber para onde ir. Sei apenas que sou desaparecida atravessando décadas para nunca mais. Sou também Dulce e as tantas outras filhas da dor. Ao final, num raio de luz do luar, ela dançou a coreografia de Trisha Brown (1936-2017): Prefiro guardar os meus segredos para mim. Em vez de falar sobre minha dança, prefiro simplesmente dançar. A verdade é que quero dançar a vida toda. Nunca quero parar de dançar. E se trancou em si, envolvida por meu abraço. Um beijo e disse Charlaine Harris: A vida continua. Ou, neste caso, a morte continua. Às vezes, você só precisa se arrepender e seguir em frente. Ali, nosso coração era um, mútuos e siameses, batidas de comunhão. Até mais ver.

 

A ARTE DE TÂMARA DORNELAS

A arte da bailarina Tâmara Dornelas, que é formada na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e que atualmente atua na austríaca Europaballett St. Pölten. Veja mais aqui e aqui.


 

 


terça-feira, novembro 24, 2020

ARUNDHATI ROY, TOULOUSE-LAUTREC, JULIETA VENEGAS, PARK CHAN-WOOK & NHÔ CABOCLO


  

TRÍPTICO DQC: POEMÁTICA – Ao som de Appello - I. Quietly, and with a cruel reverberation - II. A vague chimera that engulfs the breath - III. ...a perhaps hand (which comes carefully out of Nowhere) - e.e. cummings - IV. And I remembered the Cry of the Peacocks - Wallace Stevens, da compositora estadunidense Barbara Kolb, for solo piano, played by Jay Gottlieb. - A minha solidão de Toulouse: Não era Saint-André-du-Bois, nem Paris, nem Alagoinhanduba. Noite alta madrugada adentro, nenhuma estrela no céu e o dia amanhecerá logo logo. Sei e ouço lá longe o alvoroço do pau-de-arara levando os ticoqueiros para o corte da cana. Esse o anúncio de que o dia já se avizinha. Não sei como eles vivem de safras e entressafras aqui e acolá pelas estradas sazonais. Sei das famílias penduradas nos morros e eles lá da botada à pejada, da aurora ao anoitecer, chova ou faça Sol. Ouço pegadas, alguém se aproxima da janela. É Toulouse-Lautrec: O amor é uma doença que nos enche com o desejo de ser desejado. Ah, sim, o amor, sempre o amor. Sinto o seu ar de Moulin Rouge, um aperto de mão e um brinde. Não estou escondido em Montmartre, apenas no meu próprio casulo. Não tenho nenhuma Carmen Gaudin para posar, nem ouvi Yvette Guilbert, nem vi a dançarina Louise Weber, a La Goulue, nem a Jane Avril. Faço hoje apenas colagens imitando o que fez de design gráfico e revolucionou os cartazes litográficos para a Arte Nouveau. Nenhuma revolução nas minhas pretensões. Toparia tomar o seu Terremoto, embora só me reste a Teibei! – Deus me livre, quem é doido, hem? Outro brinde, mudo como chegou assim permaneceu até seguir pela trilha do horizonte e a solidão é maior que a noite.

 


O REINO DA LOUCURA – Ao som da Symphonie de Printemps (1986) – 1. Spring – Incantaion, Autum – Poetic, 3. Winter – Unrealistically, 4. Summer – Finale, da compositora e pianista francesa Ida Rose Esther Gotkovsky. - Este quarto é a minha prisão. Não sei que horas são, nem que dia é hoje, perdi a noção de tudo. Ainda é noite na solidão, só o que posso distinguir à janela. Nenhuma culpa, nenhum crime, se me privo é por conta do risco, apenas o estar só a esta hora e manter-me vivo, o que importa. Tento sair e não consigo. É como se estivesse protagonizando o premiado drama de mistério Oldeuboi (2003), o segundo da Trilogia da Vingança, do cineasta sul-coreano Park Chan-wook, baseado num mangá homônimo japonês, de Nobuaki Minegishi e Garon Tsuchiya. Mas eu não sou Dae-Su para ser mantido em cativeiro por longos anos num quarto de hotel e sem qualquer contato com o mundo lá fora. Muito menos tenho uma missão obsessiva por vingança nem sou acusado de assassinar ninguém, nunca! Longe de mim o suicídio e não entendo porque seria perseguido pela justiça ou por quem quer que seja, numa rede de conspiração violenta. Para minha surpresa me chega a atriz sul-coreana Kang Hye-jung que me fala coisas em um idioma que sou incapaz de entender, repetindo insistentemente Mi-do e se desnuda aproximando-se sedutora e a me cativar com sua expressiva beleza.

 


A REDENÇÃO DA CHEGADA DELAImagem: arte do escultor dinamarquês Kai Nielsen (1882–1924). - Chegou com o amanhecer toda Julieta Venegas de Primer Día. Um beijo ensolarado e já nem me lembrava do que passei solitário durante toda noite. Dormiu bem? Agora já nem sei. Quer brincar de quê? De viver. Que tal eu virar uma estátua e você Pigmaleão descobrir em mim a sua Galatéia? E fez poses a se desnudar cantarolando Andar Conmigo: Dime si tu quisieras andar conmigo, oh-oh-oh / Cuéntame si quisieras andar conmigo, oh-oh-oh / Dime si tu quisieras andar conmigo, oh-oh-oh / Cuéntame si quisieras andar conmigo, oh-oh-oh. Depois de muito encher o ambiente com seus zis encantos, achegou-se íntima a se esfregar em mim, ousada, atrevida, deliciosa. Venha! Sou apenas um , não possuo talento de artesão, mas hei de amá-la mais e mais para sempre: sou seu; você, minha. E riu e ria com seus beijos picantes incendiando minha alma e libido. E me disse Arundhati Roy: Nós não pertencemos a nenhum lugar. Navegamos sem âncora em mares turbulentos. Podemos nunca ter permissão para desembarcar. Nossas tristezas nunca serão tristes o suficiente. Nossas alegrias nunca são felizes o suficiente. Nossos sonhos nunca são grandes o suficiente. Nossas vidas nunca são importantes o suficiente... para importar. Sim, eu sei. Esta vida é uma passagem, só o amor faz imortal. Até mais ver.

 

A ARTE DE NHÔ CABOCLO

Não conheci ninguém, nasci só. Não gosto de coisa de loja. Gosto de trabalhar peça para museu: museu de matuto. Gosto de fazer peça de penas e guerras. É muita luta e o derradeiro a ficar vivo sou eu mesmo.

A arte do escultor, carpinteiro e sapateiro Nhô Caboclo (Manuel Fontoura 1910–1976), descendente indígena, representante da arte popular e explorador de matérias-primas como o barro, a madeira, o metal e as folhas de flandres, imprimindo em suas obras os sentidos de luta, guerra e escravidão. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, novembro 22, 2020

HALLDÓR LAXNESS, MARJANE SATRAPI, GEORGE ELIOT, CIARA & MOMBOJÓ


  

TRÍPTICO DQC: JANELÚDICA - Ao som de Kosmogonia (1970), de Krzysztof Penderecki (1933 - 2020), na interpretação da soprano polonesa Olga Pasichnyk, Rafał Bartmiński, Tomasz Konieczny & Warsaw Philharmonic Choir and Orchestra, Antoni Wit – O mundo na janela, o coração enlutado – quantos serão ceifados em nome da incúria e sordidez desgovernada do Fecamepa. É dele o que me sobra ser no meio da barulhada das britadeiras, motores, furadeiras, motosserras, rangidos outros, chiados incógnitos da desumanidade. É como se o meu desconsolo nas mãos do algoz. Sei, não tenho inimigos, pelo menos acredito nisso. De qualquer forma o céu estrelado me diz: em cada uma delas as dores de quem se foi, vidas apagadas irresponsavelmente ressuscitam para iluminar a imensidão de quem se perdeu e quase já não é mais. Só me resta a tentativa de voar com o peso do passado, em busca de um ventre por refúgio e lamber os talhos da carne em qualquer paz possível. Neste instante, solidária é a chegada do escritor islandês e Prêmio Nobel de 1955, Halldór Laxness (1902-1998), a me presentear o seu inestimável Gente independente (Globo, 2005) e a me dizer: Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho. O homem é essencialmente só, deve-se ter pena dele e amá-lo e chorar com ele. Um aperto de mão e ninguém mais ali. De volta ao cenário e solitude, enquanto jogam sujo, eu ludo, brincante onde a poesia, um coração vive.

 


A VIDA AINDA É ASSIM POR AQUI – Imagem: Arte do pintor e fotógrafo britânico Sigmar Polke (1941-2010), ao som dos 12 Prelúdios (1957/58), de Claudio Santoro. - Quantos nomes escondem estigmas de ferradas em carne viva - Quem de cor ou qualquer outro desvalor, de gentio ou fêmea, escravos milenares, a ordem imposta dos conluios patriarcais. Quem não um rótulo arrancado, como me dissera Mary Ann, mascarada em seu nom de plume para escapar dos estigmas e estereótipos, só uma exigência mínima de respeito para ser levada a sério. Não é gata disfarçada de zebra ou antílope, é o peso da herança tanto do batismo como das regras seculares inventadas para convívio e jogo. Não era ele, chegou-me postiça: paletó, gravata, voz máscula impostada e rouca, um romancista britânico George Eliot (1819-1880): Não existe desespero tão absoluto quanto aquele que surge nos primeiros momentos de nosso primeiro grande sofrimento, quando não conhecemos ainda o que é ter sofrido e ser curado, ter se desesperado e recuperado a esperança. Em cada despedida existe a imagem da morte. E me chamou também de George. Sim? Vem cá, George! Veio se despedir? Sim, mas do que me fiz para ser apenas o que sou de verdade, venha, quero apenas ser, inominável e oculta. E arrancou os disfarces, e se desfez das vestes, e se desnudou por inteiro e me envolveu como se fosse um moinho à beira do rio.

 


ELA BRIZOMANTE – Curtindo o álbum Beauty Marks (WB, 2019), da cantora, compositora, atriz, dançarina e modelo estadunidense Ciara. - Ao amanhecer ela chegou como sempre: cantarolando, só que em outro idioma, o que para mim tanto faz, sou péssimo demais no vernáculo para dar conta de outra língua. Ela dançou e, qual pitonisa, brincou de mágica: estalava os dedos e eu era outro, friccionava-os e ajeitava aqui e ali, artesã moldando tudo, além do que sou, vísceras, interstícios, alma – era na sua manipulação como se, ao mesmo tempo, mergulhasse dentro de mim e viajássemos por todas as dimensões, umas noutras e tudo por escalas e vibrações, até o topo do universo. Está vendo? Sim. E ela, astromante, disse: Tudo é você e eu. E num pulo abissal, descemos em queda livre. Saiu-se e me fitou. Enfim, ao espelho, não era eu, outro: Fui buscar outra encarnação sua. Como? Na versão anterior você não era nada que se aproveitasse, mas a sua versão anteontem, ah, essa sim, a antes de antes, digna de nota! Exatamente no ponto! Não havia como me reconhecer, estranha condução. E ela já era encantadora Marjane Satrapi: A vida é curta demais para ser mal vivida. Na vida você encontrará muitos idiotas. Se eles te machucarem, diga a si mesmo que é porque eles são estúpidos. Isso ajudará a evitar que você reaja à crueldade deles. Porque não há nada pior do que amargura e vingança. Mantenha sempre sua dignidade e seja fiel a si mesmo. Abraçou-me brizomante e a vida era em nós. Até mais ver.

 

MOMBOJÓ

A arte musical da banda Mombojó, formada por Chiquinho, Felipe S, Marcelo Machado, Missionário José e Vicente Machado. Na sua discografia constam os ótimos álbuns: Nadadenovo (2004), Homem-espuma (2006) e Amigo do Tempo (2010), afora Toca Brasil Nadadenovo e Trilhas, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...