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quinta-feira, novembro 26, 2020

ESQUIVEL, CESARINY, ARLETE SALLES, ADELE AUS DER OHE, MARCUS FAUSTINI, ELLEN WHITE & RAFA ELEUTÉRIO


  

TRÍPTICO DQC: JANELÚCIDA – Ao som da Suíte Sinfônica n.1 Paulista - I. Cantaretê II. Jongo III. Recomenda de almas IV. Tambu (1955), de César Guerra-Peixe, com a Orchestra Statale di Mosca diretta da Edoardo de Guarnieri – Anoiteceu e o som da música ditava o tempo. O espaço vazio do meu quarto era como sobreviver num vácuo inescapável. Um foco de luz e lá estava Adolfo Pérez Esquivel sentado num canto. Olhou-me e disse: Não se pode semear de punhos fechados. E ao escurecer, minha solidão e ele não mais ali, só o cenário da janela. Um novo foco e Gregório de Matos Guerra em tom de reclamação: O honesto é pobre, o ocioso triunfa, o incompetente manda. Fitou-me firme, deu-me as costas e saiu ao dar de ombros com Coventry Patmore que pigarreou soletrando: A tolerância, como agora é amplamente pregada, pode ser uma barganha muito unilateral. Não adianta deixar a falsidade e a idiotice moral dizerem à verdade e à honestidade: "Vou tolerar você, se você me tolerar". Empinou o nariz com ar de interrogação e, diante da minha mudez confusa, se foi para dar vez ao surgimento do Yukio Mishima: Como lidar com uma era que manchou tudo que noutros tempos era sagrado? Esperou um pouco, seguiu meu olhar e da mesma forma intrigante da sua entrada, saiu sem dizer mais nada. Foi aí que me surgiu Frances Hodgson Burnett, afetuosa e solícita: De alguma forma, alguma coisa sempre acontece antes que a gente chegue ao pior ponto. Eu tenho que lembrar sempre disto: o pior nunca acontece. Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim. Alisou meus cabelos, acariciou minhas faces, um beijo terno e um sorriso de despedida. Preciso sair, volto já.

 


MINHA RUA TEM HISTÓRIA – Ao som de The Roots of the Moment (Hatology, 1988), da acordeonista e compositora estadunidense, Pauline Oliveros (1932-2016) – É madrugada e estou na rua fria das luzes escassas pela neblina. Vagam lêmures e invisíveis pra lá e pra cá, feito aluados que se perderam do mundo e se encontraram em si. Inventei de sair e não sei como voltar, uma longa viagem pelo deserto do real. O chão imprime o trajeto dos que passaram o dia no burburinho da vida como entregador montado na urgência, ou aqueles que gritam promoções das vitrines, ou se passam por Papai Noel só pro chamariz das liquidações e beliscões nas bochechas infantis; ou comendo brebotes com caldo de cana na barraca dos camelôs, enquanto o vaivém de gente metida e afobada de pressa, mãos de pedintes, outranônimos e boçais, imundícies e parafinas. Cada qual sua história, teatro sem palco, cenas da hora que ecoam das Pedreiras desabitadas, da Bica do Bigode que secou ou quase, dos Quilombos periféricos e da Nova Cidade que emergiu entre desabamentos e escombros com todos os bairros dos santos, e não sabe mais do que era o Riacho dos Cachorros ou da buraqueira do arruado da usina pra dar em Pirangi, hoje só margem do cemitério. Ainda é novembro e ouço o eco dessas vozes e passos no meio da noite adentro. É como se estivesse no meio do Carnaval, bexiga, funk e sombrinha (2006) ou no meio das páginas de O Guia afetivo da periferia (Aeroplano, 2009), do diretor teatral, documentarista e escritor Marcus Faustini. E é ele que surge em plena madrugada: Acho que temos que mudar tudo. Acho que está tudo errado. Tudo isso com a ideia de que precisavam aparecer novas subjetividades, e que a função da arte talvez fosse agir no território popular e não representar o território popular. Paro para pensar e ao dirigir o olhar para ele, não mais, era Eugène Ionesco de sopetão: Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente. O homem superior é aquele que cumpre sempre o seu dever. E vou catando em cada canto das esburacadas calçadas o que sobrou das tantas histórias perdidas nas ruas.

 


E SE NADA ACONTECESSE NADA VALERIA! – Imagem: arte da fotógrafa e repórter fotográfica Rafa Eleutério - Ao som de Eine Sage and Spinnlied, Op. 4, nº 1 & 4, da compositora alemã Adele aus der Ohe (1861-1937), na interpretação da pianista Erica Sipes. - Para quem sobreviveu a um monte de erradas, vexames, apertos e situações aversivas, despertar naquela manhã ao lado dela, era como tirar a sorte grande e nunca mais premir de nada. Acordar inebriado por seu hálito de rosa, seu perfume de carne fresca, sua nudez de deusa radiante, era mais que ganhar em qualquer situação. Sobretudo ao vê-la ali, desnuda, sentada e pronta para recitar o Monólogo de Molly do Ulysses de Joyce... eu adoro flor eu ia adorar entupir a casa de rosa Deus do céu não tem nada igual à natureza as montanhas virgens e aí o mar e as ondas quebrando... Fiquei atento até a última fala e aplaudi. Ela sorriu, olhos brilhantes, e num gestou brusco, pulou sobre mim, agarrando-se ao meu pescoço com beijos zis apaixonados, a me recitar um pequeno poema de Mário Cesariny: Tu estás em mim como eu estive no berço como a árvore sob a sua crosta como o navio no fundo do mar. Outros tantos beijos e me falou como se fosse a escritora estadunidense Ellen G. White (1827-1915): O valor do amor está vinculado a soma dos sacrifícios que estás disposto a fazer por ele. A alma cresce à altura daquela que admira. Eu sabia que ali, dagora em diante, o dia inteiro era só nosso e nada me demoveria disso e dela, íntimos e sós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ARLETE SALLES

Há um vazio na minha alma. O que faz uma pessoa achar que tem o direito de interferir na vida do outro? Como um adulto apedreja uma criança porque ela está saindo com a roupinha de sua religião?... Mas ser mãe dos 16 para os 17 anos não é o ideal. O maior compromisso que você assume na vida é a maternidade, e nessa idade você está descobrindo a vida. Mas não lamento nada. É a minha história e isso foi vivido com sustos e surpresas, mas chegamos aqui e chegamos bem. Não mudaria nada. Só sinto falta de não ter muito um espírito empreendedor, de produzir. Não tenho essa combinação do talento para o ofício e para o administrativo. É o que lamento quando olho para trás. Teria mais autonomia e não ficaria dependendo de ninguém.

A arte da premiada atriz, radialista, comediante e apresentadora, Arlete Salles, que iniciou sua carreira aos quinze anos de idade como locutora na Radio Jornal do Commércio, em Recife; integrou a companhia teatral de Barreto Júnior, na qual foi premiada pela atuação na peça A cegonha se diverte (1958) e, a partir disso, fez sua gloriosa trajetória pelo rádio, teatro, cinema e televisão. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


domingo, dezembro 24, 2017

YUKIO MISHIMA, FRITJOF CAPRA, LILIAN HELLMAN, HANNE DARBOVEN, UNMANI, AGLAURA CATÃO, CRIAÇÃO, DIFICULDADE NA ESCOLARIZAÇÃO, CRÔNICA NATALINA & LITERÓTICA

 
A arte da artista conceitual alemã Hanne Darboven (1941-2009). Veja mais aqui.

LITERÓTICA: PRIMEIRO POEMA DE AMOR - Foi com seu jeito franzino que ela tirou um fino no céu e acertou em cheio e com escarcéu a minha retina. Esse jeito menina cheia de vida traquina virou a noite do dia dentro de mim que sem guia e na maior fantasia ficou tatuada na memória. Era a sua vitória, uma asa torta, pá virada. Eu de chapa: será roubada? Era não, era uma deusa em plena profanação. Ah, que festão no meu coração. O cheiro da sua carne amena, uma menina falena cheia de truques e simulação. Eu na maior perdição. Ela apontando pro norte e eu seguia pro sul sua sorte, maior gamação. Eu, então, sigo seu jeito que ofusca quando ela aonde me busca e não me dou por vencido. Sou enxerido e muito pelo contrário, sou vencedor. Sou o domador dessa andeja presente. E a gente, coração cheio divide a vida meio a meio sem prova dos nove ou descarte. Ela faz estandarte da minha expressão. E me leva nas mãos pelo rio do seu ventre. Eita, chaleira quente das boas esquentadas, seu chamego ponto de chegada que de mim resta quase mais nada porque sou simplesmente um reles dependente, humano reincidente querendo seu colo e suas miragens, paisagens oníricas de sua boca fatídica dos meus naufrágios. Ela cobra então ágio no nosso céu de beijos, multiplicando os desejos de abraços, cobiças e ânsias. Santa extravagância! E a vida treme nos seios dela, entre o meu coração e a apalpadela no seu sexo gostoso, é aí que vem o gozo de todos ais e uis porque os nossos sonhos são todos tão azuis. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.


DITOS & DESDITOSA única maneira de sobreviver neste ninho de cobras é agarrando-se a um princípio. Um princípio nobre. O mais nobre que você puder. E, enquanto eles estiverem olhando para este princípio, você escapa com o dinheiro. Pensamento da escritora estadunidense Lilian Hellman (1905-1984).

ALGUÉM FALOU: Quando você aprende a respirar e a relaxar na presença de seus sentimentos, você se une à sua natureza, cura o fluxo da sua vida, sua consciência é expandida, antigos padrões de comportamento desaparecem e doenças físicas são substituídas por saúde e jovialidade. Pensamento da psicóloga Ma Prem Unmani.

ATO CRIADOR – [...] A ênfase dada ao processo sugere, assim, uma porta de entrada para a transdisciplinaridade, em que conexões entre ciência e arte, por exemplo, podem ser melhor examinadas. [...] Este mesmo caminho pode ser seguido em outras direções. Esta mesma morfologia oferece meios para se discutir processo em sentido bastante amplo, seja este concretizado na ciência ou na sociedade, como um todo. [...] A proposta de compreender o ato criador nos leva, certamente, à constatação de que uma possível morfologia do gesto criador precisa falar da beleza da precariedade de formas inacabadas e da complexidade de sua metamorfose. Trechos extraídos da obra Gesto inacabado: processo de criação artística (Fapesp/Annablume, 1998), da linguista e professora Cecília Almeida Salles. Veja mais aqui.

A FÍSICA HOLÍSTICA: CONEXÕES OCULTAS – [...] Minha aplicação da abordagem sistêmica ao domínio social abarca em si, tacitamente, o mundo material [...] Nossas disciplinas acadêmicas organizaram-se de tal modo que as ciências naturais lidam com as estruturas materiais, ao passo que as ciência sociais tratam das estrutras sociais, as quais são compreendidas essencialmente como conjuntos de regras de comportamento. No futuro , essa divisão rigorosa já não será possível, pois o principal desafio deste novo século – para os cientistas sociais, os cientistas da natureza e todas as pessoas – será a construção de comunidades ecologicamente sustentáveis, organizadas de tal modo que suas tecnologias e instituições sociais – suas estruturas materiais e sociais – não prejudiquem a capacidade intrínseca da natureza de sustentar a vida. Os princípios sobre os quais se erguerão as nossas futuras instituições sociais terão de ser coerentes com os princípios da organização que a natureza fez eboluir para sustentar a teia da vida. Para tanto, é essencial que se desenvolva uma estrutura conceitual unificada para a compreensão das estruturas materiais e sociais. [...]. Trechos extraídos da obra As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável (Cultriz – Amana-Key, 2005), do físico e escritor Fritjof Capra. Veja mais aqui.

MAR INQUIETO – [...] Não parecia existir sensibilidade especial na pele que os revestia. É, enquanto os bronzeava, o sol os dotara de uma coloração ao mesmo tempo translúcida e brilhante que lembrava a do mel. Em torno de todos os bicos, as aréolas formavam uma sombra difusa que parecia uma gradação natural da cor do mel; não era escuras e úmidas, a sugerir segredos. [...] Trecho extraído da obra Mar inquieto (Companhia das Letras, 2002), do premiado escritor e dramaturgo japonês Yukio Mishima (1925-1970). Veja mais aqui.

VISÃO DA INFÂNCIAParalelas as linhas férreas / que nos levam à infância / imagens de pontes e rios / refletindo vagões carregados / de encontros e despedidas. / Visão de um gato branco / adormecido no sonho / longínquo talvez  habite ainda / a casa adormecida. / Linha de ferro, apito de trem / canção da infância / vozes da memoria / varando um tempo cinzento de abismos / ou de setas de sol / incendiando as tardes. Poema da poeta Aglaura Catão. Veja mais aqui.

DIFICULDADE NA ESCOLARIZAÇÃO - [...] a necessidade de um trabalho de intervenção preventiva, que oriente os nossos adolescentes e jovens que sobrevivem nas invasões, palafitas e barracos, em condições deploráveis e sem acesso à dignidade, nas comunidades periféricas [...] na perspectiva de nos anteciparmos às armadilhas do submundo do crime e da promiscuidade que seduzem esses desvalidos. Porque, quando iniciados, esses adolescentes e jovens se desvinculam de todo e qualquer princípio [...] e passam a valorizar ações e comportamentos equidistantes da chamada sociedade organizada. [...] A sociedade não pode continuar fugindo das responsabilidades com esses adolescentes e jovens, que nada mais são do que o resultado de todo um cruel processo de exclusão, ausência de políticas públicas eficientes e falta de vontade política, que afeta mais do que uma geração inteira, com o agravente de que as futuras gerações fatalmente também serão direta e irreversivelmente, prejudicadas por causa dessa vergonhosa omissão. Trechos extraídos da obra Dificuldades na escolarização dos adolescentes privados de liberdade em Pernambuco (FASA, 2011), do professor João Constantino Ferreira Neto. Veja mais aqui.

ENUMERAÇÃO DO TEMPO
No meu trabalho, procuro o mais possível a expansão e a contração entre os limites conhecidos e os desconhecidos.
A arte da artista conceitual alemã Hanne Darboven (1941-2009). Veja mais aqui.


Muito ouvi dizer: ano meiou, ano findou! E num é que é mesmo! Ainda ontem era primeiro de janeiro de dois mil e dezesseis, êpa, leia-se: dezessete pé que foram dois anos tão iguais, talqualzinhos, cara dum, cu de outro, que nem deu preu notar que haviam passados. Quando dei fé, véspera de natal! Como é mesmo? Na vera. Nem me dei conta, como sempre, passei batido. Bem que desconfiei dos insistentes convites para confraternizações, relevei, nunca fui e quase nunca vou. Se me chamar pra trabalhar, para agir, conte comigo; pra festa, não mais. Destá, sou assumidamente farrapeiro. Agora vou aproveitar e fechar pra balanço!


Emparelhando tudo, ativo e passivo: zero. Na batata! Balanço fechado, carea lisa, bolsos vazios e uma esperança imorredoura. Algumas felicitações recebidas, todas devidamente retribuídas como manda o figurino. Se escapou alguma, minhas reiteradas escusas, aproveito aqui para mandar o recado: obrigado, retribuo todos os votos e saudações recebidas. Feito.


Não fossem neres de nada mesmo que sobrasse nem na algibeira, eu presentearia cada um de vocês com uma baita caixa, um caixão decente, papel de presente e tudo o mais, com o melhor do mundo e cada um de vocês. Mas, como as coisas andaram bem pra trás, o golpe não me poupou e sou mais um entre os que não têm nem onde cair morto. Por isso, o que desejo pra mim, desejo para todos: muita Paz, Saúde, Felicidades. Assim seja.


Ah, outra coia: o ano foi bão demais, viva! E mesmo que não teha sido de verdade, que seja. Viva, de novo. Se o restino do ano está brabo ou capengando na claudicância da Nação, nem ligue, faça como eu: viva!


Mais outra coisa: quero agradecer por tudo aos amigos, parceiros, achegados e desafetos. No frigir dos ovos, deu tudo certo mesmo. Tirante as sobradas, escorregões, topadas e chás de cadeira, no mais, tudo na mesma e estou pronto pra outra. No ponto. E vamos nessa!


Pronto. E sem mais delongas, mais de dois milhões de beijabrações paratodos. E como dizem os da tuia: ano que vem é noise na fita traveiz! E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!


Veja mais:
Papai Noel amolestado aqui
Crônicas Natalinas aqui.
Ato de Natal de Hermilo Borba Filho aqui.
Conto de Natal de Rubem Braga aqui.
Véspera de Natal aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, janeiro 04, 2017

YUKIO MISHIMA, MARISA REZENDE, SIQUEIROS & SONHO REAL


O QUE É DE SONHO QUANDO REAL – Imagem: La marcha de la humanidad (1971), do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974). - Eis que um dia me encontro no topo de uma colina. Ali chegara para refletir sobre tudo que ocorrera em minha vida e, na caminhada, me deparei com um território desconhecido que se descortinava diante de mim: estava eu além do tempo e do espaço. Fechei os olhos e segui adiante levado pela ideia de que haveria um pote de ouro na ponta do arco-íris, aquele ao qual sempre busquei e nunca encontrei. Não tencionava encontrá-lo ali, apenas sabia. E quando dei por mim estava diante de um abismo. Parei, olhei ao redor e percebi que não havia como voltar. Descobri-me só e longe de tudo. Não sabia o que fazer, apenas estava cônscio da minha inutilidade diante da imensidão da noite. Todas as minhas convicções foram minadas, não sabia nada e, diante disso tudo, fui incorporando uma nova forma de entendimento, uma experiência fenomenológica indizível que se fazia irrefutável. Descobri-me parte do Criador, intimamente integrado à sua essência e a de todos os seres vivos e inanimados do Universo. Eu me sentia infinito, universal. Sentia que do meu interior uma luz emanava e comungava com o Sol em plena noite estrelada. Descobria pela primeira vez a verdadeira alegria e a verdadeira paz. Era como se tivesse adquirido uma sabedoria e um discernimento incomparáveis. Assumia a vida ativa, não mais me alienando da realidade, e com o coração preenchido por um amor que me tornava íntimo de tudo e acima de todas as aparências e formas do mundo. Havia agora uma aspiração da virtude pelas ações, concebendo o divino no meu interior. E tudo via sem que precisasse dos olhos abertos, e tudo ouvia sem que precisasse dos ouvidos aguçados, e tudo tocava sem que precisasse das mãos para alcançar, e todos os sabores sem que tivesse que abrir a boca e todos os aromas sem que precisasse usar do meu nariz, e tudo fiquei sabendo sem que precisasse saber de nada. E tudo era ao mesmo tempo divino, angélico e paradisíaco, congregando todos os opostos que se mostravam antagônicos e, de repente, partícipes de uma mesma manifestação convergente. Incomodado pelo desconforto de tudo que presenciava, aos poucos me adaptei, empreendendo uma nova caminhada pelo desconhecido. Tive a compreensão do abismo e, ao invés do desejo de morte, fui imbuído de novos e estimulantes pensamentos: a ciência sobre o meu relacionamento com o Universo. Aí, uma voz poderosa me falou e logo percebi que a humanidade inteira ouvia atentamente lá embaixo. Eu entendia cada sílaba pronunciada, mas os demais entendiam diferente e não exatamente o que era dito, como se equivocassem do que estava sendo dito. Quando a voz silenciou, tentei explicar à multidão e não me entenderam. Insisti e não me ouviram, sem conseguir meu intento, deram-me as costas. Chamei a todos, fui ignorado. E mais me esforcei para que me ouvissem e já não havia mais ninguém. Fiquei só e quando acordei não estava decepcionado, apenas compreendi que cada qual entende o que ouve ou o que sente à sua maneira. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Música de Câmara (LAMI/USP, 2003), da pianista e compositora brasileira Marisa Rezende.

Veja mais sobre:
O amor – Crônica de amor por ela, Rabindranath Tagore, Johannes Brahms, Virgilio, Thomas Hardy, Wong Kar-Wai, Marin Alsop, Maggie Cheung, Corina Chirila, Lenilda Luna, Antonio Rocco, Cultura Pós-Moderna & Commedia dell’arte aqui.

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Nefertiti & Todo dia é dia da mulher aqui.
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Por um novo dia, Herminio Bello de Carvalho, Ismael Nery, Brian Friel, Paolo Sorrentino, Julia Lemertz, J. R. Duran, Rachel Weisz, Iremar Marinho, Bruno Steinbach, O papel do professor e a sua formação na prática pedagógica aqui.
Paul Ricoeur & Fenomenologia, O Tao da Educação, Milton Nascimento, Psicodrama, Adriano Nunes, Roney Bunn, Direito & Trabalho aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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DESTAQUE: A MÁSCARA DE YUKIO MISHIMA
[...] Estava sentindo a urgência de começar a viver. Começar a viver minha verdadeira vida? Mesmo se fosse para ser pura máscara e não a minha vida absolutamente, ainda assim chegara o tempo em que eu devia dar a partida, devia arrastar meus pesados pés para a frente. [...] Por que as coisas eram tão erradas assim? As perguntas que eu me fazia desde menino um sem-número de vezes subiram novamente a meus lábios. Por que todos nós somos oprimidos pelo dever de destruir tudo, mudar tudo, confiar tudo à impermanência? É a esse dever desagradável que o mundo chama vida? Ou sou eu o único para quem isso é um dever? [...].
Trechos extraídos da obra Confissões de uma máscara (Companhia das Letras, 2004), do premiado escritor e dramaturgo japonês Yukio Mishima (1925-1970), contando sobre as experiências de um jovem que descobre sua homossexualidade e forçado a ocultar sua opção, reflete sobre as diferenças entre paixão e sexo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Paz (1961), do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974)
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...