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quinta-feira, dezembro 03, 2020

PATRICK CHAMOISEAU, MORGAN LLYWELYN, TADEUSZ KANTOR, MARYAM EISLER & BRUNA VALENÇA

 

TRÍPTICO DQC: JANELOUTRA - Ao som de Ressonâncias, da compositora e pianista Marisa Rezende, na interpretação da pianista Miriam Ramos. - Postulante à vereança: Vote em mim! Todos os políticos mentem e só falo a verdade. E descascou fulano, estraçalhou a reputação de beltrano, desmascarou sicrano e depôs contra todo alfabeto do panteão dos três poderes da Nação: Sou a salvação da humanidade! E depôs a Bíblia e santinho: Vote em mim, preciso me eleger! Só com um mandato de vereador? Começa assim! E se foi. Ainda bem, alívio. As pretensões são admiráveis. Logo se aproximou a sorridente Heloneida Studart: Mulher também é gente. Vote numa inteligente. O mundo é das Mulheres! Claro, sou ginocrata! - respondi-lhe com um aceno. O delírio de uma campanha contamina, mas não é essa a forma que me interessa, tem de haver outro modo. Compras de voto e de cabresto, meu país se dissolve com os conluios. Por mais quanto tempo, não sei. Ruminava sozinho e o escritor francês Patrick Chamoiseau: Levar a liberdade é o único fardo que mantém as costas retas. Rimos juntos. E contei o sucedido. Passado o pleito eleitoral, ah, aquele intruso e fui conferir: não foi eleito. Cada uma que me aparece! Ninguém merece isso na manhã.

 


QUINTA À TARDE – Ao som do álbum Thursday Afternoon (Virgin Records, 2005), do compositor, músico, artista visual e produtor britânico de música ambiente, Brian Eno. – O mormaço da tarde chegou com uma tremenda barulheira. Vozes para todo lado. Curioso, só depois de muito investigar, era ensaio de um espetáculo teatral. Qual e ouvi alguém discursar: Esforço-me por determinar os motivos e o destino dessa entidade insólita que surgiu de maneira imprevista em meus pensamentos e em minhas ideias. Plantaremos os limites desta fronteira que se chama a condição da morte, porque constitui o ponto de referência mais avançado, e não amenizado por nenhum conformismo sobre a condição do artista e da arte. Só os mortos se fazem perceptíveis (para os vivos) e obtém assim, por esse preço, o mais elevado, sua singularidade, sua silhueta resplandecente, quase como no circo. Era uma performance revolucionária do premiado dramaturgo e pintor polonês Tadeusz Kantor (1915-1990), o mesmo criador do Teatro Clandestino, fundador do Teatro Cricot 2 e autor do The Autonomous Theatre (1963), Theatre Happening: The Theatre of Events (1967), O Teatro Informal (1969), The Zero Theatre (1969) e O Teatro da Morte (1975). Foi aí que me dei conta tratar-se de ensaio para o espetáculo A classe morta. Do outro lado outros falavam da peça Que morram os artistas! Fiquei apreciando, prestava atenção a tudo. Nem vi quando ela se aproximou tal AlysonNoël: Viva o presente, lembre-se do passado e não tema o futuro, pois ele não existe e nunca existirá. Só existe o agora. O perfume de sua beleza me inebriava e ali juntinhos, a minha inquietude ao seu lado sedutor. Dali a pouco: Vamos? Vamos.

 


O POEMA EM PEDAÇOS – Imagem: a arte da fotógrafa, escritora, editora e artista iraniana Maryam Eisler: A arte vence onde a política costuma falhar. Ao som de A time for us (2015), do compositor italiano Nino Rota, na interpretação da saxofonista Hiroko Yamakawa e da pianista Chiaki Oshima, em recital no Tokyo Opera City. - O mundo podia ser outro ao crepúsculo. O momento, pelo menos, era de satisfação: ela linda e nua fazia o anoitecer prazeroso. E lá fora tudo se consumia como uma coisa qualquer degustada apenas pelo vício forjando a necessidade: as três refeições diárias nos horários indicados, só por força do hábito; televisão ligada sem que se identifique sequer o que se passa; a vida no automático e passageiro sem se ligar no trajeto, ligado às asas de pensamentos soltos, tudo fragmento e simulacro. Ela usou de Joseph Conrad: É difícil resistir onde nada importa. Estava escrito que eu deveria ser leal ao pesadelo da minha escolha. Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Tudo é muito confuso, a existência refém da insatisfação. Ela cita a escritora irlandesa Morgan Llywelyn: Quando me sinto bem, me sinto melhor do que qualquer pessoa, quando estou com dor, grito a plenos pulmões e, quando estiver morta, estarei mais morta do que qualquer um. E um beijo nos fez viajar galáxia afora perdidos na imensidão do Universo. Esse mundo é muito pouco para nós dois. Até mais ver.

 

A ARTE DE BRUNA VALENÇA

O meu maior hobby é sonhar acordada. O amanhã está meio nebuloso. Como uma água turva, sabe? Às vezes fica um pouco difícil de enxergar a frestinha de luz, mas ela está lá, piscando. Eu acredito, imagino e visualizo o amanhã com esperança e consciência e muito mais presença. Saudade também é quando a gente vê alguém nos sonhos e os encontros são leves e fazem você acordar com um sorriso no rosto e o peito aquecido. Saudade, vô.

A arte da premiada fotógrafa e artista visual Bruna Valença, que já trabalhou com grandes marcas do mercado. Ela foi vencedora do prêmio People's Choice Award, no concurso Exposure Competition pela See.Me Institution, em Nova York. Veja mais aqui e aqui.

 


 


quarta-feira, janeiro 04, 2017

YUKIO MISHIMA, MARISA REZENDE, SIQUEIROS & SONHO REAL


O QUE É DE SONHO QUANDO REAL – Imagem: La marcha de la humanidad (1971), do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974). - Eis que um dia me encontro no topo de uma colina. Ali chegara para refletir sobre tudo que ocorrera em minha vida e, na caminhada, me deparei com um território desconhecido que se descortinava diante de mim: estava eu além do tempo e do espaço. Fechei os olhos e segui adiante levado pela ideia de que haveria um pote de ouro na ponta do arco-íris, aquele ao qual sempre busquei e nunca encontrei. Não tencionava encontrá-lo ali, apenas sabia. E quando dei por mim estava diante de um abismo. Parei, olhei ao redor e percebi que não havia como voltar. Descobri-me só e longe de tudo. Não sabia o que fazer, apenas estava cônscio da minha inutilidade diante da imensidão da noite. Todas as minhas convicções foram minadas, não sabia nada e, diante disso tudo, fui incorporando uma nova forma de entendimento, uma experiência fenomenológica indizível que se fazia irrefutável. Descobri-me parte do Criador, intimamente integrado à sua essência e a de todos os seres vivos e inanimados do Universo. Eu me sentia infinito, universal. Sentia que do meu interior uma luz emanava e comungava com o Sol em plena noite estrelada. Descobria pela primeira vez a verdadeira alegria e a verdadeira paz. Era como se tivesse adquirido uma sabedoria e um discernimento incomparáveis. Assumia a vida ativa, não mais me alienando da realidade, e com o coração preenchido por um amor que me tornava íntimo de tudo e acima de todas as aparências e formas do mundo. Havia agora uma aspiração da virtude pelas ações, concebendo o divino no meu interior. E tudo via sem que precisasse dos olhos abertos, e tudo ouvia sem que precisasse dos ouvidos aguçados, e tudo tocava sem que precisasse das mãos para alcançar, e todos os sabores sem que tivesse que abrir a boca e todos os aromas sem que precisasse usar do meu nariz, e tudo fiquei sabendo sem que precisasse saber de nada. E tudo era ao mesmo tempo divino, angélico e paradisíaco, congregando todos os opostos que se mostravam antagônicos e, de repente, partícipes de uma mesma manifestação convergente. Incomodado pelo desconforto de tudo que presenciava, aos poucos me adaptei, empreendendo uma nova caminhada pelo desconhecido. Tive a compreensão do abismo e, ao invés do desejo de morte, fui imbuído de novos e estimulantes pensamentos: a ciência sobre o meu relacionamento com o Universo. Aí, uma voz poderosa me falou e logo percebi que a humanidade inteira ouvia atentamente lá embaixo. Eu entendia cada sílaba pronunciada, mas os demais entendiam diferente e não exatamente o que era dito, como se equivocassem do que estava sendo dito. Quando a voz silenciou, tentei explicar à multidão e não me entenderam. Insisti e não me ouviram, sem conseguir meu intento, deram-me as costas. Chamei a todos, fui ignorado. E mais me esforcei para que me ouvissem e já não havia mais ninguém. Fiquei só e quando acordei não estava decepcionado, apenas compreendi que cada qual entende o que ouve ou o que sente à sua maneira. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Música de Câmara (LAMI/USP, 2003), da pianista e compositora brasileira Marisa Rezende.

Veja mais sobre:
O amor – Crônica de amor por ela, Rabindranath Tagore, Johannes Brahms, Virgilio, Thomas Hardy, Wong Kar-Wai, Marin Alsop, Maggie Cheung, Corina Chirila, Lenilda Luna, Antonio Rocco, Cultura Pós-Moderna & Commedia dell’arte aqui.

E mais:
Nefertiti & Todo dia é dia da mulher aqui.
Keith Jarret, Carlos Saura, Christian Bernard, Isaac Newton, Casimiro de Abreu, Julio Hübner, Mia Maestro & A lenda criação no gênese africano aqui.
Por um novo dia, Herminio Bello de Carvalho, Ismael Nery, Brian Friel, Paolo Sorrentino, Julia Lemertz, J. R. Duran, Rachel Weisz, Iremar Marinho, Bruno Steinbach, O papel do professor e a sua formação na prática pedagógica aqui.
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A croniqueta de antemão aqui.
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DESTAQUE: A MÁSCARA DE YUKIO MISHIMA
[...] Estava sentindo a urgência de começar a viver. Começar a viver minha verdadeira vida? Mesmo se fosse para ser pura máscara e não a minha vida absolutamente, ainda assim chegara o tempo em que eu devia dar a partida, devia arrastar meus pesados pés para a frente. [...] Por que as coisas eram tão erradas assim? As perguntas que eu me fazia desde menino um sem-número de vezes subiram novamente a meus lábios. Por que todos nós somos oprimidos pelo dever de destruir tudo, mudar tudo, confiar tudo à impermanência? É a esse dever desagradável que o mundo chama vida? Ou sou eu o único para quem isso é um dever? [...].
Trechos extraídos da obra Confissões de uma máscara (Companhia das Letras, 2004), do premiado escritor e dramaturgo japonês Yukio Mishima (1925-1970), contando sobre as experiências de um jovem que descobre sua homossexualidade e forçado a ocultar sua opção, reflete sobre as diferenças entre paixão e sexo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Paz (1961), do pintor mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974)
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...