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quinta-feira, novembro 26, 2020

ESQUIVEL, CESARINY, ARLETE SALLES, ADELE AUS DER OHE, MARCUS FAUSTINI, ELLEN WHITE & RAFA ELEUTÉRIO


  

TRÍPTICO DQC: JANELÚCIDA – Ao som da Suíte Sinfônica n.1 Paulista - I. Cantaretê II. Jongo III. Recomenda de almas IV. Tambu (1955), de César Guerra-Peixe, com a Orchestra Statale di Mosca diretta da Edoardo de Guarnieri – Anoiteceu e o som da música ditava o tempo. O espaço vazio do meu quarto era como sobreviver num vácuo inescapável. Um foco de luz e lá estava Adolfo Pérez Esquivel sentado num canto. Olhou-me e disse: Não se pode semear de punhos fechados. E ao escurecer, minha solidão e ele não mais ali, só o cenário da janela. Um novo foco e Gregório de Matos Guerra em tom de reclamação: O honesto é pobre, o ocioso triunfa, o incompetente manda. Fitou-me firme, deu-me as costas e saiu ao dar de ombros com Coventry Patmore que pigarreou soletrando: A tolerância, como agora é amplamente pregada, pode ser uma barganha muito unilateral. Não adianta deixar a falsidade e a idiotice moral dizerem à verdade e à honestidade: "Vou tolerar você, se você me tolerar". Empinou o nariz com ar de interrogação e, diante da minha mudez confusa, se foi para dar vez ao surgimento do Yukio Mishima: Como lidar com uma era que manchou tudo que noutros tempos era sagrado? Esperou um pouco, seguiu meu olhar e da mesma forma intrigante da sua entrada, saiu sem dizer mais nada. Foi aí que me surgiu Frances Hodgson Burnett, afetuosa e solícita: De alguma forma, alguma coisa sempre acontece antes que a gente chegue ao pior ponto. Eu tenho que lembrar sempre disto: o pior nunca acontece. Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim. Alisou meus cabelos, acariciou minhas faces, um beijo terno e um sorriso de despedida. Preciso sair, volto já.

 


MINHA RUA TEM HISTÓRIA – Ao som de The Roots of the Moment (Hatology, 1988), da acordeonista e compositora estadunidense, Pauline Oliveros (1932-2016) – É madrugada e estou na rua fria das luzes escassas pela neblina. Vagam lêmures e invisíveis pra lá e pra cá, feito aluados que se perderam do mundo e se encontraram em si. Inventei de sair e não sei como voltar, uma longa viagem pelo deserto do real. O chão imprime o trajeto dos que passaram o dia no burburinho da vida como entregador montado na urgência, ou aqueles que gritam promoções das vitrines, ou se passam por Papai Noel só pro chamariz das liquidações e beliscões nas bochechas infantis; ou comendo brebotes com caldo de cana na barraca dos camelôs, enquanto o vaivém de gente metida e afobada de pressa, mãos de pedintes, outranônimos e boçais, imundícies e parafinas. Cada qual sua história, teatro sem palco, cenas da hora que ecoam das Pedreiras desabitadas, da Bica do Bigode que secou ou quase, dos Quilombos periféricos e da Nova Cidade que emergiu entre desabamentos e escombros com todos os bairros dos santos, e não sabe mais do que era o Riacho dos Cachorros ou da buraqueira do arruado da usina pra dar em Pirangi, hoje só margem do cemitério. Ainda é novembro e ouço o eco dessas vozes e passos no meio da noite adentro. É como se estivesse no meio do Carnaval, bexiga, funk e sombrinha (2006) ou no meio das páginas de O Guia afetivo da periferia (Aeroplano, 2009), do diretor teatral, documentarista e escritor Marcus Faustini. E é ele que surge em plena madrugada: Acho que temos que mudar tudo. Acho que está tudo errado. Tudo isso com a ideia de que precisavam aparecer novas subjetividades, e que a função da arte talvez fosse agir no território popular e não representar o território popular. Paro para pensar e ao dirigir o olhar para ele, não mais, era Eugène Ionesco de sopetão: Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente. O homem superior é aquele que cumpre sempre o seu dever. E vou catando em cada canto das esburacadas calçadas o que sobrou das tantas histórias perdidas nas ruas.

 


E SE NADA ACONTECESSE NADA VALERIA! – Imagem: arte da fotógrafa e repórter fotográfica Rafa Eleutério - Ao som de Eine Sage and Spinnlied, Op. 4, nº 1 & 4, da compositora alemã Adele aus der Ohe (1861-1937), na interpretação da pianista Erica Sipes. - Para quem sobreviveu a um monte de erradas, vexames, apertos e situações aversivas, despertar naquela manhã ao lado dela, era como tirar a sorte grande e nunca mais premir de nada. Acordar inebriado por seu hálito de rosa, seu perfume de carne fresca, sua nudez de deusa radiante, era mais que ganhar em qualquer situação. Sobretudo ao vê-la ali, desnuda, sentada e pronta para recitar o Monólogo de Molly do Ulysses de Joyce... eu adoro flor eu ia adorar entupir a casa de rosa Deus do céu não tem nada igual à natureza as montanhas virgens e aí o mar e as ondas quebrando... Fiquei atento até a última fala e aplaudi. Ela sorriu, olhos brilhantes, e num gestou brusco, pulou sobre mim, agarrando-se ao meu pescoço com beijos zis apaixonados, a me recitar um pequeno poema de Mário Cesariny: Tu estás em mim como eu estive no berço como a árvore sob a sua crosta como o navio no fundo do mar. Outros tantos beijos e me falou como se fosse a escritora estadunidense Ellen G. White (1827-1915): O valor do amor está vinculado a soma dos sacrifícios que estás disposto a fazer por ele. A alma cresce à altura daquela que admira. Eu sabia que ali, dagora em diante, o dia inteiro era só nosso e nada me demoveria disso e dela, íntimos e sós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ARLETE SALLES

Há um vazio na minha alma. O que faz uma pessoa achar que tem o direito de interferir na vida do outro? Como um adulto apedreja uma criança porque ela está saindo com a roupinha de sua religião?... Mas ser mãe dos 16 para os 17 anos não é o ideal. O maior compromisso que você assume na vida é a maternidade, e nessa idade você está descobrindo a vida. Mas não lamento nada. É a minha história e isso foi vivido com sustos e surpresas, mas chegamos aqui e chegamos bem. Não mudaria nada. Só sinto falta de não ter muito um espírito empreendedor, de produzir. Não tenho essa combinação do talento para o ofício e para o administrativo. É o que lamento quando olho para trás. Teria mais autonomia e não ficaria dependendo de ninguém.

A arte da premiada atriz, radialista, comediante e apresentadora, Arlete Salles, que iniciou sua carreira aos quinze anos de idade como locutora na Radio Jornal do Commércio, em Recife; integrou a companhia teatral de Barreto Júnior, na qual foi premiada pela atuação na peça A cegonha se diverte (1958) e, a partir disso, fez sua gloriosa trajetória pelo rádio, teatro, cinema e televisão. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


terça-feira, novembro 27, 2018

TRISTAN BERNARD, GUERRA-PEIXE, MERVE OZASLAN & MOSTRA SURURU DE CINEMA ALAGOANO


O AMOR DE ZINHAZINHA & CALANGUINHO ZÉ – Imagem: arte do fotógrafo e artista visual Merve Ozaslan. - Não fosse o embuchamento de Bezinha de Carrinho Calango e o de Nega Conça e João Buchudo, não haveria compadrio mais estreito, daqueles tipo fábula de La Fontaine: juntos prosperavam. A prenhez de ambas levou ao pacto de que seguiriam ali, haja o que houvesse, para sempre, encangados um no outro. E selaram com um peido quádruplo. As mulheres refugaram: Não pode haver outro jeito? Não. E foi: poin, poin... poin... e.. poin. É que Bezinha quase caga fora do caco, não esperava a bosta pronta pra sair naquela hora. O acordo mútuo só não rebentou na mesma hora, por causa do vexame de Calanguinho Zé nascer quase antes do tempo, por conta de uma escapulida de um pum fora de hora da mãe, de agilizar o parto e o menino sair quase melado de merda com um berreiro maior do que aquelas igrejas de crentes que pensam que Deus é surdo, pense no maior zoadeiro. Não demorou muito e Zefinhazinhazinha abria a porteira do mundo depois de uma ajeitada nas pregas do cu, pra lançar uma menina ao coro ao avexado, numa felicidade geral. Com o passar do tempo ninguém nem mais sabia quem era filho de quem, o casalzinho de filhos pra lá e pra cá, tudo tratado como se tivesse dupla paternidade e quase se tornavam siameses de tão unidos que eram. Brincavam, comiam, aprontavam, largavam peidação e só não adolesceram juntos, porque João Buchudo teve que mudar de cidade, levando a mulher e a filha na cacunda peidorrenta. A tragédia não foi maior porque se prometeram visitas mútuas de tempos em tempos, o que não se deu devido situação periclitante que ficaram depois da separação: fedidos juntos não precisavam de mais ninguém. Anos se passaram e Calanguinho Zé já rapaz quase homem feito, topou com aquela que buliu no seu coração, assim do nada. Quem seria? Ela também ao vê-lo sentiu que as coisas iam mais pra desmantelo que para simples saudação, e de lá ficou naquele pisca-pisca olha-não-olha. Ambos tímidos, não saíram do lugar. Foi preciso um incidente para que se aproximassem. Ele: Que coisa, né? Ela: É. Que terá sido? Quem sabe. Será que vai dar certo? Sei não, tomara. E assim ficaram bom tempo, até a hora um gás surgiu assim inadvertidamente. Hum? Nem ele nem ola ousou acusar um ao outro, mas logo se identificaram. Ambos sem jeito, resolveram ir embora, despedindo-se. Você vem amanhã por aqui? Pode ser. Na mesma hora? Sim. Tá certo. No dia seguinte, lá estavam. Não tinham o que dizer, ela tomou a dianteira: Você veio pela estrada ou pelo atalho? Pelo atalho. Viu um tolote raçudo na curva do pé de abacate? Vi, caprichado, hem? Fui eu. Mesmo? Sim. Menina, você é corajosa de botar um daquele, quase não acredito. Quer apostar quem faz maior de nós dois? Vixe! Agora? Agorinha, ora. Onde? Vamos pegar o atalho de volta. Só se for agora. E foram. Chegando no local combinado, ela disse: Comece. Ah, ele se servia da ética profissional: Primeiro, as damas. Com todo prazer. Ela acocorou-se, ajeitou a saia pra que não visse o que fazia e dali a pouco a inhaca comeu no centro. Ao levantar-se, disse: Pronto! Inacreditável! Faça melhor. Agora? Vá, mande ver. Assim? Ora. Calanguinho não teve dúvidas, arriou as calças, fechou os olhos, fez força e deu um estalo: poin. Menino, cê tá podre! O seu não foi nada cheiroso, menina. E se riram. Conferiram, o dela era mais compacto, o dele meio espalhado. Pra tirar a dúvida, apostaram no número de flatulências. Ah é? Vamos? Era só tocar no bucho e tome borborigmos: A gente vai terminar envenenando o ar, hem? Destá. Na risadagem se conheceram melhor: Sou Calanguinho Zé e você? Sou Zefinhazinha, pode me chamar de Zinhazinha. Filha de João Buchudo e Nega Conça? Sim. Sou Calanguinho de Bezinha e Carrinho! É mesmo? Quanto tempo, hem? A gente é quase irmão! E saíram com o peidorreiro rua acima, vila abaixo, até encontrarem os pais dele, darem as novas e reatarem a amizade de antes, afinal compadres da família. Eles não ligavam a mínima em queimar a reputação por conta das suas brincadeiras. Foram até os pais dela e no meio do caminho, bastou soar a campainha, ela desoprimia o peito e poin. Ele não ficava por baixo, levantava a perna esquerda e soltava o traque. Quando não, apostavam no meio do caminho no quem é quem. Aí paravam numa bodega qualquer, se fartavam duma dieta arretada e fechavam com a ingestão de pimenta malagueta para o maior baile. Se há uma coisa que apreciavam era um se amostrar pro outro. E pegaram a estrada ensaiando umas bufas. Ela recomendou: Não se deve passar fósforos nos pés de quem tem cócegas. E se riam, chegou a hora da aposta e totalmente triunfante ela soltou o gás: Eita, cagou! Nada, sua vez. E lá vinha a bombacha: toin. Lascou-se. Nada. E ficaram poin toin até se esvaírem juntos cu ardendo na bacia d’água fria. Ela olhou pra ele e disse: suas pernas são zambetas. E ele que as dela eram cambitos. Vamos nessa? Vamos. Ela levava a mão ao ventre, encarcava do estômago estremecer, fazia força na alavanca da tripa gaiteira e tome rajada. Ele levantava a perna direita e tome trovão. Ela rebolava os quadris e: Vixe, melei a calcinha. Ele empinou a bunda: oxe, tá na cueca. Findavam lívidos, olho no outro: coisas tristes não devem ser pensadas – e sorriam. Vamos aguar as plantas? A maior risadagem. Quem se habilita? Ele abriu o zíper da calça e mandou ver na mijada. Ela admirando o pênis dele disse: Bonito pau, mas ganho docê. Ajeitou a calcinha de lado, espremeu o bico da vagina e lançou um jato mais longe que o dele. Danou-se! Ele ficou abestalhado e ela com aquele esgar irônico, sapecava: Quem é capaz de beber o próprio mijo, desafiou. Como ele não era adepto da urinoterapia, abriu do pau com um peraí e ela se ria: Deixe de leseira. Tenha fé, não vamos estragar. E se abraçaram pela primeira vez, exultantes, deixando no ar aquela catinga nauseante, até perderem os sentidos numa capoeira: já não são tão bons quanto imaginavam que fossem, desfaleceram. Eram mesmo uns peidões sob qualquer ponte de vista. E assim foram felizes para sempre, pelo menos até agora, né? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Conheci em Londres, dois destes gêmeos ligados, chamados comumente de irmãos siameses e denominados cientificamente de xifópagos. Edward-Edmond possuíam fortuna considerável, o que os dispensava de exibir-se como fenômenos. [...] Na adolescência, se pareciam de maneira extraordinária, a tal ponto que as pessoas, que não diferençavam a sua esquerda de sua direita, não conseguiam distingui-los. Porém, com o advento da idade, surgiram entre eles, diferenças morais, muito profundas. Edward era dado aos estudos e tinha pontos de vista severos, ao passo de Edmond tinha instinto plebeu. [...] Edward fez-se erudito conhecido. Mas não podia ser convidado frequentemente a banquetes de sociedades cientificas, pois o inconveniente Edmond, a partir da sopa, principiava a contar histórias obscenas, que as pessoas decentes reservam, em geral, para a sobremesa. No ano passado Edward pediu a mão de uma jovem bela e rica. O matrimonio realizou-se com grandes pompas. Não houve outra solução senão convidar Edmond, que, aliás, se portou bastante bem a cerimonia. Teve a impressão de que a cunhada o intimidava ligeiramente. No cortejo nupcial, a esposa de Edward, o dito Edward, Edmond e sua dama de honra, desfilaram, os quatro em fila, em meio a admiração geral. Edmond na noite de núpcias, foi muito delicado e discreto. Adormeceu antes que os outros e, na manhã seguinte, aparentou despertar muito tarde. Durante a lua de mel de seu irmão, bebeu com menos frequência, cuidou do vocabulário e vestiu-se decentemente, pois que deveria sair em companhia de uma senhora. A jovem esposa – já lhes disse que se chamava Cecily? – exercia enorme influência sobre Edmond. Ao fim de certo tempo, aconteceu, o que acontece muito a miúdo, quando se introduz um rapaz solteiro em seu lar. Cecily e o pérfido Edmond encetaram relações culposas. Durante seis meses, Edward de nada se apercebeu. Porém, tudo se acaba por saber. Edward encontrou, em uma caixa mal fechada, umas cartas e soube de maneira insofismável que sua mulher e seu irmão o traíam diariamente. Que partido tomar? Bater-se em duelo com Edmond, seria entrar em conflito com os costumes ingleses. Temia também as soporíferas discussões dos padrinhos. O duelo, com pistolas, resultaria impossível, bem como o com espadas, dada a proibição do corpo a corpo. Além do mais que sucederia se matasse o irmão? Poderia continuar a vida em comum com sua mulher? Sempre haveria um cadáver entre eles! Chamou Cecily. – A partir de hoje – disse-lhe – não mais profanarás o domicilio conjugal. Vai-te. – Está nem – disse ela. - Está bem – disse Edmond – eu a acompanho. O marido não teve outro remédio que segui-los. Edmond instalou Cecily num apartamento deveras confortável. E, como entre xifópagos, tudo termina por acomodar-se, os três viveram muito felizes.
Trechos do conto História de dois irmãos siameses (Cultrix, 1969), do dramaturgo, novelista, jornalista e advogado francês Tristan Bernard (pseudônimo de Paul Bernard, 1866-1947).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista visual Merve Ozaslan
Veja mais aqui.

AGENDA:
Mostra Sururu de Cinema Alagoano & muito mais na Agenda aqui.
&
Certo, errado?, Raduan Nassar, Eugene O’Neill, Camilo José Cela, Coral Bracho, Pierre Bourdieu, John Keynes, Vera Fischer, Esther Gracia Marques, Jupi, Edu Lobo, Chiquinha Gonzaga, Renato Borghetti & Zélia Duncan aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor, arranjador e estudioso César Guerra-Peixe (1914-1993): Sinfonia Brasilia, A retirada da Laguna, Suíte Pernambucana & Luis Gonzaga Sinfônico & muito mais nos mais de 2 milhões & 900 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, março 18, 2015

LIANE MORIARTY, MALLARMÉ, UPDIKE, CÉLINE SCIAMMA, NITOLINO & GUARANÁ

 


A HISTÓRIA MAUÉ – Um casal maué pediu a Tupã um filho e, ao serem atendidos, nasceu Cauê. Desde o nascimento do curumim que os maués festejavam suas colheitas abundantes. O menino crescia conversando com árvores e animais, uma alegria para todos. Um dia o menino fora picado por uma cascavel e do ferimento morreu. A comunidade pranteou em grandes lamentações por horas seguidas. Tupã comoveu-se e determinou: - Tirem os olhos da criança, plantem na terra firme, reguem com suas lágrimas e nascerá a planta da vida. Assim fizeram e plantaram os olhos do curumim que, durante quatro luas, toda comunidade velou regando a terra com suas lágrimas. Uma nova planta surgiu: travessa como os curumins, procurando subir às árvores próximas, de hastes escuras e sulcadas como os músculos dos fortes guerreiros. E quando frutificou, seus frutos eram da cor de azeviche, envoltos no arilo branco e embutido em duas cascas vermelh0-vivas. A sua forma com uma polpa branca e a semente escura lembrava os olhos do curumim. Era wara'ná, que para os sateré-mawé significa "a fonte de sabedoria". Para os nativos passou a ser uma planta poderosa que curava doenças, fortalecia e servia para ser usado no amor. Aqueles frutos multiplicaram e os seus grãos trouxeram abundância porque fortalecia os fracos, conservava os jovens e rejuvenescia os mais velhos. Por todo território maué e pela Amazônia todos conhecem por guaraná. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Talvez toda vida parecesse maravilhosa se tudo o que você visse fossem os álbuns de fotos... Pensamento da escritora australiana Liane Moriarty, que no seu livro Big Little Lies (Amy Einhorn, 2014), expressou que: […] Dizem que é bom deixar de lado os rancores, mas não sei, gosto bastante do meu rancor. Eu cuido dele como um pequeno animal de estimação. [...] Todo conflito pode ser atribuído aos sentimentos de alguém sendo ferido, você não acha? [...] Todos os dias eu penso: 'Nossa, você parece um pouco cansada hoje', e recentemente me ocorreu que não é que eu esteja cansada, é que é assim que estou agora. [...]. Também no seu livro The Husband's Secret (Amy Einhorn, 2013), ela expressa que: […] Apaixonar-se foi fácil. Qualquer um poderia se apaixonar. Foi aguentar que foi complicado [...] Nenhum de nós jamais conhece todos os rumos possíveis que nossas vidas poderiam ter tomado e talvez devessem ter tomado. Provavelmente é melhor assim. Alguns segredos devem permanecer secretos para sempre. Basta perguntar a Pandora [...]. Já no seu livro What Alice Forgot (Large Print Press, 2009), ela expressa que: [...] Cada lembrança, boa e ruim, era outro fio invisível que os unia... Era tão simples e complicado quanto isso. Amor depois dos filhos, depois de vocês terem se machucado e perdoado um ao outro, entediado e surpreendido um ao outro, depois de terem visto o pior e o melhor... bem, esse tipo de amor é inefável. “Merece sua própria palavra.” [...].

 

ALGUÉM FALOU: Eu acho que todos os filmes são políticos. Os que não são políticos intencionalmente são os piores, e têm a pior política, eu acho... Não estou dizendo que você tem que amar tudo. Mas, sim, você deve amar tudo... Pensamento da cineasta e roteirista francesa Céline Sciamma, diretora dos filmes Naissance des Pieuvres (2007), Tomboy (2011) e Bande de filles (2014).

 

CANSADO DO REPOUSO AMARGO & SEM TÍTULO – O livro Mallarmé (Perspectiva, 1974), organizado, traduzido e com estudos críticos de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, reúne poemas do poeta e crítico literário francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), com Mallarmagem de Augusto de Campos, Tridução de Décio Pignatari, Um relance de dados de Haroldo de Campos, entre outros textos. Na obra destaco Cansado do repouso amargo (fragmento final): Uma linha de azul fina e pálida traça / um largo, sob o céu de porcelana rara, / um crescente caído atrás da nuvem clara / molha no vidro da água um dos cornos aduncos, / junto a três grandes cílios de esmeralda, juntos. E também este sem título: Uma negra que algum duende mau desperta / Quer dar a uma criança triste acres sabores / E criminosos sob a veste descoberta, / A glutona se apresta a ardilosos labores: / A seu ventre compara alacre duas tetas / E, bem alto, onde a mão não se pode trazer, / Atira o choque obscuro das botinas pretas / Assim como uma língua inábil ao prazer. / Contra aquela nudez tímida de gazela / Que treme, sobre o dorso qual louco elefante / Recostada ela espera e a si mesma zela, / Rindo com dentes inocentes à infante. / E em suas pernas onde a vítima se aninha, / Erguendo sob a crina a pele negra aberta, Insinua o céu torvo dessa boca experta, Pálida e rosa como uma concha marinha. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

Imagem: Themoonsrapture, do ilustrador estadunidense de ficção científica e fantasia Frank Frazetta (1928-2010)

Ouvindo: A retirada da Laguna (1997), do compositor brasileiro de música erudita César Guerra-Peixe (1914-1993), com a Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio MEC. Veja mais aqui e aqui.

PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Tudo começou a publicação do meu oito livro infantil, Nitolino no Reino Encantado de Todas as Coisas (Nascente, 2010), resultado de recreações, adaptações teatrais e contações de histórias que iniciei no início dos anos 1980, quando da criação das Edições Bagaço, em Pernambuco. Isso foi intensificado a partir de 2008 com a criação do livro mencionado, transformando-o em peça teatral, que está em cartaz desde a publicação do livro. Com as veiculações no blog de temas voltados para a música, o teatro, a literatura, a psicologia e a educação infantis, ocorreu a ideia do programa Brincarte do Nitolino, produzido por mim e pela querida Meimei Corrêa, com apresentação da garotinha Isis Corrêa Naves, consolidando o Projeto MCLAM. Desde então todos os domingos a partir das 10hs dá-se a veiculação do programa, agora com reprise todas as quartas, nos horários alternativos das 10 às 11hs, e das 15 às 16hs. Para conferir online o programa é só clicar aqui ou aqui.

JOGOS TEATRAIS – O livro Jogos teatrais (Perspectiva, 1984), da escritora, tradutora e professora universitária Ingrid Koudela, aborda temas como o teatro e a educação, a função simbólica – o símbolo da arte e a evolução do símbolo na criança -, o jogo teatral, a evolução e a regra do jogo, o gesto espontâneo, improvisação em cena, o projeto experimental com crianças e adolescentes, o processo e a experiência, lista de jogos realizados, teatro para crianças – teatro infantil na década de setenta e a oficina de dramaturgi -, Genoveva Visita a escola ou a galinha assada, a apresentação e caminhos do faz-de-conta. Ela é uma das figuras centrais no estudo da didática do teatro, desenvolvendo o pensamento de Viola Spolin, dos pressupostos de construção do conhecimento de Jean Piaget e especialista das obras de Bertolt Brecht. Veja mais aqui e aqui.

COELHO CORRE – A obra Coelho corre (Record, 1984) é o primeiro volume das novelas Rabbit, iniciada em 1960 pelo escritor e critico literário estadunidense John Updike (1932-2009), pela qual ganhou duas vezes o Prêmio Pullitzer, tornando-se famoso e mundialmente reconhecido, contando a vida do jogador de basquetebol Harry Rabbit Angstrom. O livro é um ambicioso panorama da vida norte-americana nas últimas três turbulentas décadas, contando a vida do jovem Coelho, casado há poucos anos e prestes a ser pai pela segunda vez, ao se confrontar com uma vida que lhe parece mesquinha e sufocante, despedindo-se de suas ilusões juvenis, sem abandonar a inquietação existencial que o torna um dos personagens mais interessantes da literatura contemporânea. Da obra destaco o trecho: [...] Coelho chega o meio-fio, mas em vez de virar à direita para continuar a dar a volta no quarteirão ele pisa no asfalto, com uma sensação enorme, como se aquela ruazinha fosse um rio largo, e atravessa a rua. Quer viajar até a próxima mancha de neve. Embora este quarteirão de prédios de tijolo e três andares seja igualzinho ao anterior, algo nele o faz sentir-se feliz. As escadas nas entradas dos prédios, os parapeitos das janelas parecem piscar e mover-se no canto de sua visita, vivos. Esta ilusão o impele. Suas mãos levantam-se, por si só, e ele sente o vento nos ouvidos tal como antes, no inicio os calcanhares batendo na calçada com força, mas aos poucos, sem esforço, movidos por uma espécie de pânico delicioso, ficam mais livres, mais rápidos, mais silenciosos, ele corre. Ah: corre. Corre. Veja mais aqui, aquiaqui.

LUCY – O filme de ação franco-americano Lucy (2014), do cineasta e escritor francês Luc Besson. Lucy é uma jovem estudante de vinte e cinco anos interpretada pela atriz, cantora e modelo estadunidense de ascendência dinamarquesa e polonesa, Scarlett Johansson, que se vê obrigada a trabalhar como mula de drogas da máfia coreana, transportando uma droga sintética CPH4. Seu namorado envolvido com a máfia é assassinado e ela capturada, tendo sido implantado no seu abdômen a droga juntamente com três outras mulas que transportarão para Europa. Numa tentativa de estupro que ela se recusa, um de seus raptores dá-lhe socos e chuta seu estômago, acarretando que o saco da droga se rasgue e libere grande quantidade no seu corpo. Ela adquire poderes antes não existentes, com habilidades superiores com a capacidade de matar de matar seus raptores e fugir. Dá-se inicio a uma ação de crescentes poderes que, ao cabo de um tempo, começa a desestabilizá-la, chegando a se metamorfosear até atingir 100% de sua capacidade cerebral, desaparecendo dentro de um continuum espaço-tempo: eu estou em toda parte. A vida nos foi dada um bilhão de anos atrás. Agora você sabe o que fazer com ela. Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
Alguma coisa assim..., a música de Ken Burns, a pintura de Jules Joseph Lefebvre, O cinema de Esmir Filho & poemiudinho aqui.

E mais:
A divina encrenca de Juó Bananére, a Personologia de Murray, O sexo na história de Reay Tannahill, o teatrod e Borná de Xepa, a música de Zeca Baleiro, a pintura de Adélaide Labille-Guiard, Brenda Starr de Dale Messick, Brooke Shields & a poesia de Marcia Lailin aqui.
Gestão Tributária aqui.
Ensino Público no Brasil, Dificuldades de aprendizagem, Teoria e técnica em Arte-Terapia, O capital intelectual, a fotografia de Joe Wehner & a poesia de Chagas Lourenço aqui.
Falange, falanginha, falangeta, a literatura de Lou Andres-Salomé, O voto da mulher na Nova Zelândia & Kate Wilson Sheppard, a música de Arthur Honegger, Dafne & Chloe & a pintura de Louis Hersent, Olivia Wilde, as crônicas de Luiz Eduardo Caminha & o Programa Tataritaritatá aqui.
Fecamepa, a literatura de Georges Bataille, a poesia de Torquato Tasso & Viviane Mosé, a música de Ástor Piazzolla, o cinema de Bernardo Bertolucci, & Dominique Sanda, a arte de Wanda Gág & Mary Louise Brooks aqui.
Crença, a canção, a poesia de Gabrielle D´Annunzio, a literatura de Jack Kerouac, a música de Al Jarreau, A princesa que amava insetos, o desenho de Benício, Kristen Stewart, a pintura de José Antônio da Silva & Edgar Rice Burroughs aqui.
Big Shit Bôbras, a psicanálise de Carl Gustav Jung, a poesia de Giórgos Seféris & Cacaso, a música de Fito Páez, Anne Rice & Dana Delany, a pintura de Alexej von Jawlensky, Antônio Conselheiro & Canudos aqui.
Aventureiros do Una, Maurice Merleau-Ponty, Castro Alves & Eugênia Câmara, a literatura de Carlos Heitor Cony,a música de Sergei Rachmaninoff & Yara Bernette, a pintura de Jules Joseph Lefebvre & a arte deDiane Kruger aqui.
O brinde do amor, Paulo Freire, A música de Vanessa da Mata, Luciah Lopez & Havia mais que desejo na paixão feita do amor aqui.
Sexta postura, a poesia de Manuel Bandeira, a música de Al Di Meola, a escultura de Ambrogio Borghi, a arte de Juli Cady Ryan & Quando amor premia o sábado aqui.
Desencontros de ontem, reencontros amanhã, a música de Gonzaguinha, a poesia de William Blake & Gleidstone Antunes, a pintura de Duarte Vitória & Alô, Congresso Nacional, ouça quem o elegeu aqui.
O que é ser brasileiro, Hannah Arendt, a pintura de Alex Grey, a música de Carol Saboya & Quem faz e não sabe o que fez é o mesmo que melar na entrada e na saída e nem se lembrou de limpar, que meladeiro aqui.
Pra quem nunca foi à luta, está na hora de ir, a música do Duo Graffiti, a escultura de Phillip Piperides, a pintura de Tracey Moffatt & a arte de Tanise Carrali aqui.
A lição de cada amanhecer, a música de Anne Schneider, a lenda da origem do Solimões, a pintura de Alice Soares, a escultura de Lorenzo Quinn, O Lobisomem Zonzo & Edla Fonseca aqui.
O cordão dos a favor & os do contra, a música de Jorge Ben Jor, a arte de Hélio Oiticica, Vampirella & Forrest J. Ackerman, a poesia de Eliane Queiroz Auer & Lia Kosta aqui.
O certo & o errado no reino das ideologias, a poesia de Hélio Pellegrino, a música de Nobuo Uematsu, a pintura de Raoul Dufy, a arte de Mat Collishaw & Danicleci Matias Souza aqui.
Versos à flor da pele na prosa de um poema, o cinema de Jean-Luc Godard, a escultura de Bertel Thorvaldsen, a música de Sharon Corr, a poesia de Elke Lubitz & a arte de Luciah Lopez aqui.
Vivo & a vida com tudo e todos, Helena Antipoff, a música de Dominguinhos, a pintura de Angel Otero, a escultura de Gutzon Borglum, a fotografia de Roman Pyatkovka & Nayana Andrade aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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