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quarta-feira, novembro 25, 2020

BA JIN, KATHERINE ANNE PORTER, TRISHA BROWN, CHARLAINE HARRIS & TÂMARA DORNELAS

 

TRÍPTICO DQC: JANELIVRE - Curtindo FandangoTres Canciones Espanola (1951), do compositor, pianista e violonista espanhol Joaquin Rodrigo (1901-1999), na interpretação do premiado violonista Fabio Lima. Fandango vai quase não volta, eita, que coisa boa! Marinheiro nunca fui, só de primeira viagem, avalie. Dos sete mares, só em sonho. Indagora mesmo, depois de uma golada bem dada, navegante das cheganças, ouvi o Gajeiro de lá: O vento é tanto que me faz chorar! Que é que é isso, vamos pelas embaixadas aos versos tantos da Nau Catarineta: Minha mãe bem me dizia / Que eu não fosse me embarcar / Que esta nau se perderia / E eu me lançaria ao mar. Ora, ora, é só se deixar correr pela correnteza das águas. Assim, mesmo perdido, ela ali estava no meio doutras tantas na dança lasciva. E isso entre catraieiros, pescadores, trapicheiros estivadores, armadores e o que mais, aquela mesma que foi proibida por Pombal lá pelos tempos de antanho. Agora não, os tempos nem são tão outros, cuidado nunca é demais. Estou ligado nela, se cochilar fico na mão e era uma vez a possibilidade de um grande amor. Só perdi de mesmo a cisma com a chegada do grande escritor anarquista chinês Ba Jin (1904-2005): Esta batalha para salvar vidas será vencida. Não podemos esquecer o que aconteceu e a história não deve se repetir. Ah, tudo pela amizade e paz, jamais a guerra! Talvez tenha passado da hora, mas nunca é tarde, há sempre o que fazer. Ele se foi e eu cantarolei: Adeus que eu me vou. Meu navio a sorte inventa.

 


MEU CORAÇÃO ESTÁ NA MONTANHA – Curtindo Navilouca Ao Vivo (Universal, 2010), da banda Pedro Luís e a Parede: Segure nave louca / Que eu sou pedra rolando / Que está despencando / Em precipício propício / Pra esse movimento de agora / Esse monumento ao momento / Monumento de hospício / Silêncio na avenida Presidente Vargas / É mergulho bem pra dentro de si / Fotografei você na minha dragoflex / De olhar aceso esperando por mim / Então / Segure nave louca... – Para quem não tem mais paradeiro, no meio da festa toda, feito Net&Salomão, apareceu lá longe a Stultifera Navis de Brant, sem considerar aonde voo. Vão todos ao lado daqueles que se despedaçaram da La Nef des fous de Bosch, com os intemperantes e avarentos. Todos consideram: É melhor seguir sendo laico do que comportar-se mal dentro das ordens. Como não sei das estrelas do céu, nem dos ventos ou estações do ano, ouvi do Ship of Fools (Open Road, 2015), de Katherine Anne Porter: O lugar para onde você vai ainda não existe, você deve construí-lo quando chegar ao ponto certo. E não eram as cenas de Stanley Kramer, nem a pintura de John Alexander. Enfim, todos achavam que o louco era eu. E digo a verdade: ela estava ali e era em Abaton. Não era um totem nem o paraíso cretense de Chersonissos. Não, não era. Era ela reinando num cenário jamais visto. Confesso que nada vi, meus olhos eram dela. Para não mentir, as coisas que lá vi foram duas: Virginia Woolf fugitiva da sua loucura: A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata. E o Eça de Queiroz aborrecido: Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo. O amor eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam. A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação. Afora isso, todos me diziam que ali era Abaton. Nem sabia mesmo onde é que era e como de lá me safei. Só soube do que se tratava muito depois, quando vi My heart’s in the Highlands (Edimburgo, 1892), do Thomas Bulfinch (1796-1867). Pois é, enquanto todos vagavam em busca daquilo que só sabiam apenas suspensa no horizonte ao anoitecer, completamente inacessível e duvidável, posso dizer, com certeza: fui ao lugar que ninguém nunca foi, nem sabia. E fui levado pelo fandango ao coração dela.

 


ÍSIS INSEPULTA, A MORTA-VIVA - Baseada na história da desaparecida Ísis Dias de Oliveira (1941-1972) – Ao som de Song From the Uproar (2012), da compositora e pianista estadunidense Missy Mazzoli, baseada na vida da exploradora suíça Isabela Eberhardt (1877-1904) – Foi lá que ela bailou com melancolia para encenar o seu texto: Sou Ísis de batismo, nem sei se viva ou morta, apenas que sou e nem sei quem ou onde estou. Não tenho mais familiares, nem o que de mim restou. Da Ilha das Flores o meu voo sem saber para onde ir. Sei apenas que sou desaparecida atravessando décadas para nunca mais. Sou também Dulce e as tantas outras filhas da dor. Ao final, num raio de luz do luar, ela dançou a coreografia de Trisha Brown (1936-2017): Prefiro guardar os meus segredos para mim. Em vez de falar sobre minha dança, prefiro simplesmente dançar. A verdade é que quero dançar a vida toda. Nunca quero parar de dançar. E se trancou em si, envolvida por meu abraço. Um beijo e disse Charlaine Harris: A vida continua. Ou, neste caso, a morte continua. Às vezes, você só precisa se arrepender e seguir em frente. Ali, nosso coração era um, mútuos e siameses, batidas de comunhão. Até mais ver.

 

A ARTE DE TÂMARA DORNELAS

A arte da bailarina Tâmara Dornelas, que é formada na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e que atualmente atua na austríaca Europaballett St. Pölten. Veja mais aqui e aqui.


 

 


quinta-feira, setembro 17, 2020

CLARICE LISPECTOR, JÚLIA LOPES DE ALMEIDA, LUÍS CRISPINO, ASTECA & NOS TEARES DA HISTÓRIA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... A PERDA & A DESOLAÇÃO ANOITECIDA - A noite instalou-se de repente, perdi a noção das horas e do lugar. O ermo me fez atravessar o rio muitas vezes e o meu rosto estava em toda parte, como se os outros em mim fossem vivos e não havia como me livrar disso. Perdi meu nome e era um caeté sobrevivente diante da bela senhora asteca, Mictlancihuatl, que tomou minhas mãos para percorrer o teatro das apavorantes torturas das nove camadas de Mictlan, e me entregou um volume impresso cujo título era A civilização dos astecas (Ferni, 1975), de Jean Marcilly, no qual pude ler a indicação expressa do iminente quinto fim do mundo: nosso sol, tendo retomado seu curso, depois que as trevas desapareceram e as águas se retiraram, está atualmente em movimento naui ollin, mas terminará seu curso num despedaçamento de toda a terra. Ela leu-me em voz alta o trecho destacado de um modo ternamente incomum, acrescentando que os infernos são a planície divina e da morte nasce a vida. A cena no palco representava o fogo no canavial de João Cabral, o fogaréu no Pantanal de Monjardim, a Amazônia em chamas e a imagem do inferno de Hieronymus Bosch. A plateia inteira em mim assistia a tudo atônito. Se muitos, na verdade, eu não era ninguém e havia perdido até a mim mesmo.

DUAS PASSADAS & O CAMINHO DO CÉU – Havia uma reunião em que todos se preparavam para encenação da peça teatral O caminho do céu (Manuscrito-Campinas, 1883), primeira investida teatral da dramaturga, escritora e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). No tablado discutiam a situação atual com as outras peças da autora, tais como A herança, Doidos de amor, Nos jardins de Saul, Quem não perdoa, As urtigas, Os humildes, Laura, entre outras tantas do seu expressivo repertório, todas recolhidas da publicação A (in)visibilidade de um legado: seleta de textos dramatúrgicos inéditos de Júlia Lopes de Almeida (Intermeios/Fapesp, 2016), um estudo da socióloga e pesquisadora Michele Asmar Fanini. O debate acalorado entre atores e técnicos foi interrompido pela intervenção inopinada de um sacerdote indígena que aconselhou a todos prestarem bem atenção aos obstáculos do mundo subterrâneo, atentando inicialmente para as ondas largas do rio Chicnahuapan, que se prolongavam pelos mundos infernais até o repouso eterno da noite no nono e último mundo do Chicnahuatmictian. Os presentes se entreolharam interrogativos, ao passo que senti uma mão ao meu braço sussurrando que jamais encenariam seu texto: Quero escrever um livro novo, arrancado do meu sangue e do meu sonho, vivo, palpitante, com todos os retalhos de céu e de inferno que sinto dentro de mim; livro rebelde sem adulações, digno de um homem. Ela afugentou a todos com rispidez e zarpou dali sem se despedir. Não havia como tomar pé da situação, saí imediatamente, apressei o passo sem saber para onde ir. Fui.

TRÊS FOTOS ONÍRICAS - (Imagem: fotogravura do fotógrafo Luís Crispino) - Seria exagero considerar que me perdi na fuga pela sobrevivência, matar a fome, saciar os desejos e gozar realizações, qual nada, esqueci quem sou e folheei um dos supostos livros de Deus e não me encontrei nas suas infinitas páginas, acho que escapei delas para ruminar talvez na loucura. Crispino ao me encontrar assim diante de nada, então me disse: A ideia não é seduzir ninguém, no sentido literal, durante as fotos. Fazer uma boa foto demanda muita concentração. Não sobra espaço para isso. É claro que existe um movimento de “conquistar” quem está sendo fotografada, mas que é muito mais complexo do que a simples sedução, é mais uma “troca” que começa e termina ali, durante as fotos. E me entregou um envelope e lá estava meu coração despedaçado: a primeira, a amada nua em decúbito dorsal; a segunda, era eu desencontrado sem ter para onde ir; a terceira, Clarice n’A Paixão segundo GH: O mundo não tinha mais sentido nenhum, e o homem não me tinha mais sentido nenhum. Ao meu lado, não mais o fotógrafo, mas ela mesma que me chegou com um beijo para ensinar o que sou de todas as coisas. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

NOS TEARES DA HISTÓRIA
[...] emergiu as reflexões associadas à intenção social e à valorização da arquitetura, a partir dos seus usuários, que passam a qualifica-la enquanto lugar [...].
Trecho extraído da obra Nos teares da história: entre fábrica e escola, uma restauração (CEHM, 2015), da professora e pesquisadora Juliana Cunha Barreto, tratando sobre a interpretação histórico-documental dos fios de tecidos da história de Pernambuco, a arquitetura da tecelagem, a declaração de significância e as leis de proteção, a Escola Técnica Estadual, as soluções arquitetônicas, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui e aqui.


sábado, maio 02, 2015

MARUJA TORRES, JUSTINE, JOHN DONNE, FANNI KAPLAN & IBSEN

 


A DOR DE FANNI – Era ela uma jovem entre sete irmãos de uma família judia camponesa. Precocemente tornou-se revolucionária política aliando-se aos socialistas, tornando-se militante do partido. Não demorou muito e a primeira prisão ocorreu aos 16 anos de idade, por envolver-se com um atentado terrorista em Kiev, enviada para um campo de prisioneiros de trabalhos forçados, a katorga. Dez anos depois foi libertada com a revolução que derrubou o governo imperial. Conflitos entre revolucionários e bolcheviques, levaram-na a se desiludir com o líder, por conta da dissolução da Assembleia Constituinte, uma medida soviética autoritária pela forte intriga entre as facções. A maioria dos partidos foram proibidos por conta da oposição ao Tratado de Brest-Litovski. Decidiu-se então por se vingar e assassinar o traidor da revolução. E ao abordá-lo depois de um discurso na saída de uma fábrica de Moscou, desferiu três tiros ferindo-o gravemente. Deu-se então a perseguição implacável aos oponentes. Foi capturada, presa e, poucos dias depois, foi levada às mãos da Cheka, para ser interrogada: assumiu sozinha a autoria do atentado. Foi sentenciada à morte por fuzilamento. Daí, 4 dias depois do atentado, juntamente com outros tantos acusados oponentes, foi executada sem julgamento. Veja mais abaixo e mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Meu nome é Fanya Kaplan. Hoje eu desafiei Lenin. Eu fiz isso sozinho. Certamente não vou dizer de quem obtive meu revólver. Não darei nenhuma informação. Eu tinha concordado em matar Lenin há muito tempo. Eu o considero um traidor da Revolução. Fui expulso do Akatui por participar de um esforço de assassinato contra um oficial czarista em Kiev. Eu trabalhei duro durante 11 anos. Depois da Revolução, fui libertado. Eu era a favor da Assembleia Constituinte e ainda sou a favor dela. Depoimento da revolucionária russa Fanni Kaplan (Fanni Yefimovna Kaplan – 1890-1918), que tentou assassinar Lenin em 1918.

 

ALGUÉM FALOU: Como eu poderia ter chegado aqui? Eu vou te contar rapidamente. Momento a momento... Pensamento da escritora e jornalista espanhola Maruja Torres (Maria Dolors Torres Manzanera), que em seu livro Mujer en guerra. Más másters da la vida (Suma de Letras, 2000) ela expressou: [...] A reportagem foi enfraquecida, suplantada pelo espetáculo. Os diários Eles imitavam a televisão, o pior da televisão, o sensacionalismo. O leitor se tornaria público e depois um cliente... Fiquei aquém, naturalmente. Eu não tinha ideia do que estava por vir. Nenhum nós tivemos isso [...] As frases mais detestáveis e perigosas que um chefe pode dizer no jornalismo: O que o público quer…” Até onde eu sei, o jornalismo Ela existe para contar o que está acontecendo, quer o público, seu destinatário, goste ou não. Ou seja: informar. A grandeza do jornalismo é informar apesar da autoridade; mas também fazê-lo mesmo que isso possa causar-lhe trazer impopularidade entre sua clientela [...] O relatório que fiz na África do Sul […] a primeira parte fala sobre a brancos, e como eles se convenceram de sua superioridade racial através de sutis mecanismos messiânico-paternalistas, para encobrir o que que nada mais era do que pura e simples exploração econômica [...] Quero insistir que não devemos culpar apenas os empresários e gestores. da tendência atual do jornalismo se tornar um espetáculo; ter lutar para sobreviver em um mundo confuso onde a competição ficou selvagem. Quero enfatizar que é responsabilidade do jornalista mantém a dignidade do seu produto. É desanimador que pessoas que conseguiram desafiar a censura mais forte, não sejam tão faça o mesmo com o mercado sacrossanto [...] Daquela guerra perdida pela informação surgiu uma forma tão pouco dissidente como a realidade que reflete: um jornalismo que raramente questiona os estereótipos, raramente questiona os confiabilidade das fontes... e que ele aceita como um fato do qual não há a necessidade de bajular e estimular o leitor retorna, hoje convertido em cliente, para aumentar o consumo do produto [...]. A respeito da obra ela expressa que: [...] é a história de como cheguei até aqui fugindo da mulher que queriam que eu fosse. Minha companheira, meu amor, minha amiga, minha professora e minha juíza ao longo desta aventura se chama Jornalismo. Ele me deu países, conflitos, guerras, choques, perdas e, sobretudo, encontros. Tantos ensaios, tantas experiências que não consigo nem enumerá-los neste pequeno texto [...]. Ela é autora de obras tais como: Como una gota (1995), Un calor tan cercano (1998), Mientras vivimos (2000), Hombres de lluvia (2004), La amante en guerra (2007) e Esperadme en el cielo (2009). Veja mais aquí.

 


Imagem: O jardim das delícias (The Garden of Earthly Delights, Museu do Prado, Madrid), do pintor e gravador holandês Hieronymus Bosch (1450-1516). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Curtindo Lunário Perpétuo (2002), do artista e músico pernambucano Antonio Carlos Nóbrega. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ÉTICA A NICÔMACO - No Dia Nacional da Ética nada mais apropriado que uma leitura à obra Ética a Nicômaco (Martin Claret, 2012), do filósofo grego Aristóteles, no qual o autor investiga o tipo de saber que se pode obter acerca da conduta, levando em conta a situação concreta do homem, um ser que está acima do animal, mas que não pode ser definido apenas pela pura razão. Neste meio-termo se colocará o que se deve entender especificamente por virtude. Da obra destaco os seguintes trechos: Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas. Ora, como são muitas as ações, artes e ciências, muitos são também os seus fins: o fim da arte médica é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia é a vitória e o da economia é a riqueza. Mas quando tais artes se subordinam a uma única faculdade — assim como a selaria e as outras artes que se ocupam com os aprestos dos cavalos se incluem na arte da equitação, e esta, juntamente com todas as ações militares, na estratégia, há outras artes que também se incluem em terceiras —, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ser preferidos a todos os fins subordinados, porque estes últimos são procurados a bem dos primeiros. Não faz diferença que os fins das ações sejam as próprias atividades ou algo distinto destas, como ocorre com as ciências que acabamos de mencionar. [...] A julgar pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles, e os homens de tipo mais vulgar, parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos. Pode-se dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar, a vida política e a contemplativa. A grande maioria dos homens se mostram em tudo iguais a escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de Sardanapalo [...] Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se. e cresce graças ao ensino — por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que por natureza se move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportar-se de outra. [...] Numa palavra: as diferenças de caráter nascem de atividades semelhantes. É preciso, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porquanto da sua diferença se pode aquilatar a diferença de caracteres. E não é coisa de somenos que desde a nossa juventude nos habituemos desta ou daquela maneira. Tem, pelo contrário, imensa importância, ou melhor: tudo depende disso. [...] O mesmo acontece com a temperança, a coragem e as outras virtudes, pois o homem que a tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que não teme absolutamente nada, mas vai ao encontro de todos os perigos, torna-se temerário; e, analogamente, o que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se intemperante, enquanto o que evita todos os prazeres, como fazem os rústicos, se torna de certo modo insensível. [...] A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo. E assim, no que toca à sua substância e à definição que lhe estabelece a essência, a virtude é uma mediania; com referência ao sumo bem e ao mais justo, é, porém, um extremo. [...] Após estudar essas coisas teremos uma perspectiva mais ampla, dentro da qual talvez possamos distinguir qual é a melhor constituição, como deve ser ordenada cada uma e que leis e costumes lhe convém utilizar a fim de ser a melhor possível. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

SONETOS DE MEDITAÇÃO – O livro Sonetos de Meditação (Philobiblion, 1985) do poeta metafísico inglês John Donne (1572-1631) reúne seus sonetos divididos em duas partes Coroa de Sonetos e Sonetos Sacros, em edição bilíngue. O autor alcançou sua notabilidade por sua linguagem vibrante, metáfora engenhosa e pela expressão de um estilo realista e sensual que incluía sonetos, poesias amorosas, poemas religiosos, epigramas, elegias, canções, sermões e sátiras. Anunciação é o primeiro dos seus sonetos destacados: A salvação de quem a deseja está perto; / quem anda pelas terras que este mundo comporta, / quem não pode pecar – e os pecados suporta, / quem não pode morrer – e a morte é seu fim certo, / deixa, Virgem fiel, que Todos se acaentem / na prisão de teu ventre; e lá, embora não / possam pecar, e nem lhes dês a carne, vão / tê-la, para que a força da morte experimentem. / Nem criado era o tempo nas esferas, Senhora, / e estavas já na ideia de Deus, teu Filho, e Irmão; / Ele, a quem concebeste, te concebera, e agora, / Criadora do Criador, de teu Pai és mãe, / luz na treva, enclausuras em pequeno guardado / a imensidade toda no ventre abençoado. Natal é o segundo dos seus destacados sonetos: A imensidade toda no ventre abençoado, / Agora deixa o ventre, bem amada clausura / onde, por seu querer, se fez uma criatura / fragílima, e eis no mundo nosso Deus encarnado. / Mas, oh! Para ti, e ele, não há no albergue um pouso? / Na manhedoura estava, e vindo do Oriente, / estrela e magos põem a família ao corrente / do decreto de Herodes, general invejoso. / Minha alma, que teus olhos de fé por ele passes: / Ele enche o espaço todo, e não tem um abrigo? / Não era alta piedade dele para contigo / que lhe fosse preciso que dele te apiedasses? / Beija-o, e com ele foge para o Egito, vai, parte / com sua doce mãe, que a imensa dor reparte. Veja mais aqui, aquiaqui.

CASA DE BONECAS – O revolucionário drama em três atos Casa de bonecas (1878 - Veredas, 2007), do dramaturgo do Realismo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), é uma tragédia em que o autor questiona as convenções sociais do casamento retratando a hipocrisia e convencionalismos da sociedade do final do século XIX, causando muitas polêmicas, censura e grande repercussão entre feministas. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] HELMER Está tudo acabado! Você nunca mais vai pensar em mim, Nora? NORA Vou pensar muitas vezes em você, é claro, e nos meus filhos, e na casa. HELMER Posso lhe escrever, Nora? NORA Não! Nunca. Proibo-o de fazer isso. HELMER Ah, mas decerto posso lhe enviar algo. NORA Nada, nada. HELMER Ajudá-la, se você precisar. NORA Não, já lhe disse. Não aceito nada de estranhos. HELMER Nora... nunca passarei de um estranho para você? NORA (segurando a maleta) Ah! Torvald, para isso seria preciso o maior dos milagres. HELMER E qual seria o maior dos milagres? NORA Seria preciso transformarmo-nos os dois a tal ponto... Ah, Torvald! Já não mais acredito em milagres. HELMER Eu, porém, quero crer neles. Diga. Deveriamos nos transformar a tal ponto que... NORA ...que a nossa união se transformasse num verdadeiro casamento. Adeus. (Sai pela porta da saleta) HELMER (caindo numa cadeira junto à porta e cobrindo o rosto com as mãos) Nora! Nora! (Ergue a cabeça e olha em tomo de si) Está vazia, ela não está mais aqui! (Com um vislumbre de esperança) "O maior dos milagres!" Ouve-se, vindo de baixo, o bater do portão. Veja mais aquiaqui.

JUSTINE: AS DESGRAÇAS DA VIRTUDE – O clássico da literatura erótica Justine: as desgraças da virtude (Justine ou les Malheurs de la vertu), é uma das inesquecíveis obras do escritor francês Donatien-Alphonse-François, mais conhecido como Marquês de Sade (1840-1814), que conta a história de duas damas que se tornam vítimas da bancarrota de seus familiares e se tornam passageiras à mercê da vida. Trago esse trecho inicial da obra: A senhora condessa de Lorsange era uma dessas sacerdotisas de Vênus cuja fortuna é obra de uma figura encantadora, de muito comportamento mau e de muita trapaça, e cujos títulos, por mais pomposos que sejam, não se encontram nos arquivos de Cítera, forjados pela impertinência que lhes dá forma e mantidos pela tola incredulidade de quem os dá. Morena, muito viva, de belo corpo, olhos negros e dotados de uma expressão prodigiosa, muito espírito e, sobretudo, aquela incredulidade da moda que, dando mais chiste às paixões, faz procurar com muito mais cuidado hoje a mulher em quem julgamos encontrá-lo. Filha de grande comerciante da Rue Saint-Honoré, foi criada com uma irmã três anos mais nova que ela, num dos melhores conventos de Paris onde, até os quinze anos, nenhum conselho, mestre, bom livro ou talento lhe foi recusado. Nessa época fatal para a virtude de uma jovem, tudo lhe faltou num único dia. Uma terrível bancarrota atingiu seu pai, precipitando-o numa situação tão cruel que tudo o que pôde fazer para escapar à sorte mais sinistra foi fugir imediatamente para a Inglaterra, deixando as filhas com sua mulher que morreu de tristeza oito dias após a partida do marido. Um ou dois parentes que restavam deliberaram sobre o que se faria com as moças. O que cabia a cada uma eram cerca de cem escudos e eles decidiram abrir-lhes as portas, dar-lhes o que lhes era de direito e torná-las senhoras dos seus próprios atos. A senhora de Lorsange, que então chamava-se Juliette e cujo caráter e espírito estavam apenas quase formados de modo que, aos trinta anos, sua idade quando da história que vamos contar, pareceu impressionar-se apenas com o prazer de estar livre, sem refletir, por instante sequer, nos cruéis reveses que lhes rompiam os grilhões. Quanto à Justine, sua irmã, que apenas completava doze anos, dotada de um caráter sombrio e melancólico e de uma ternura e de uma sensibilidade surpreendentes, tendo em lugar da arte e da finura de sua irmã apenas uma ingenuidade, uma candura, uma boa fé que a fariam cair em muitas armadilhas, esta sentiu todo o horror da sua posição. O rosto desta jovem era totalmente diferente do da Juliette; o que se via de artifício, de astúcia, de coquetismo nos traços de uma, admirava-se o pudor, a delicadeza e a timidez na outra. Um ar de virgem, de grandes olhos azuis cheios de interesse, uma pele resplandecente, um corpo fino leve, um tom de voz tocante, a mais bela alma e o caráter mais doce, dentes de marfim e belos cabelos louros, este o esboço rápido de uma jovem encantadora, cujas graças ingênuas e traços delicados são de um estilo fino e delicado demais para não escapar ao pincel que gostaria de reproduzi-los. As duas receberam um prazo de vinte e quatro horas para saírem do convento, deixando os cuidados de se proverem dos seus cem escudos como bem quisessem. Juliette, encantada com a idéia de ser dona de si mesma, quis por instantes enxugar as lágrimas de Justine, mas vendo que nada conseguia, pôs-se a resmungar em vez de consolá-la, dizendo-lhe que ela era uma besta, e que com a idade e o corpo que tinham, não havia porque seguir o exemplo das jovens que morriam de fome. E falou da filha de um vizinho seu, que fugira da casa paterna e agora era faustosamente sustentada por um fazendeiro e tinha sua carruagem para passear em Paris. Justine sentiu-se horrorizada com esse exemplo pernicioso e disse que preferia morrer a segui-lo e recusou-se decididamente a aceitar morar com a irmã tão logo a viu decidida a seguir um tipo de vida abominável mas que Juliette elogiava. [...] Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

EU E MINHA MANEIRA DE SER – A poeta gaúcha de Bagé Marilene Alagia Azevedo, edita o blog Eu e Minha Maneira de Ser e reúne também seus poemas no Recanto das Letras. Da sua lavra destaco Solidão: É o corpo / É a alma / É o grito... / É o coração aflito / Febre / Que queima / O interior / Luxuria / Que nas veias tem / Que grita! / Já muito além / Fazendo ouvir / Ao longe / Chamando por seu amor / Em desespero continuo / Incendiando o ser / Fogo que faz nascer / Gemidos de prazer e dor / Em busca do seu amor / Para poder ir dormir / Desejos que faz sentir / No toque firme das mãos / Gemidos do coração / Madrugadas solidão. Também merece destaque o seu Inexplicável: Explicar/ O inexplicável / Entre o êxtase / E o gozo! / Os sonhadores / êxtases / Os normais / Gozo... / Onde as vezes repouso / Depois do extase profundo/  Onde a alma vagueia / Na silhueta amada / Onde o gozo não nota / Extasiado não está! / Gozo não perde chão / Gozo sabe o que faz / Gozo tem sensações / Gozo... Pouca emoção / Ah! O gozo! / Gozo de ti / Gozo de mim / Pobres criaturas / Sem vida nenhuma / Apenas gozar! / Prefiro o êxtase / O que embriaga / Que arraza e acalma / Atira ao espaço / Navega nos braços / Em todos os espaços / Habita-o num todo / repousa no torso / Depois de saciar / Mas como explicar? / De as vezes precisa / Misturar / êxtase e gozo / Para se completar. / Inexplicável sentir / Transportar / Silhueta tão sua / Lhe deixa prostrada / Sem nunca tocar. Veja mais aqui.

O ANJO EXTERMINADOR – O filme O anjo exterminador (1962) dirigido pelo cineasta espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel (1900-1983), é baseado na peça Los náufragos, do escritor espanhol José Bergamin (1895-1983) e traz as influencias surrealistas que incidiram sobre a obra do autor, na historia de um grupo de burgueses criticando a superficialidade e o baixo nível intelectual e moral do mundo triste dessas pessoas, numa cena em que personagens ricamente esbanjadores se vêem trancafiados numa das salas de uma mansão após um jantar formal, tornados reféns de grades e portas imaginárias, numa postura de idiotia humana. Por isso, sou um assíduo apreciador da obra desse grande cineasta que desde a minha adolescência, tem se delineado por toda minha existência. Não posso, em nenhum momento menor que seja, deixar de aplaudir a grandiosidade de sua obra. Salve, Buñuel! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui , aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem do artista plástico pernambucano Darel Valença Lins.
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Veja mais sobre:
À procura da paternidade, A trombeta do anjo vingador de Dalton Trevisan, Vivendo com as estrelas de Duília de Mello, Lenda & Arte de Ernst Kris & Otto Kurz, a música de Cristina Braga & a pintura de Ernest Descals aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, a literatura de Hermilo Borba Filho, Estética da criação verbal de Mikhail Bakhtin, Estado de sítio de Albert Camus, a música de Luis Gonzaga & Guerra Peixe, a poesia de Stella Leonardos, o cinema de Ettore Scola & Sophia Loren, a arte de Léon Bakst & a pintura de Patrice Murciano aqui.
A música de Nando Lauria aqui.
Sonetos de Meditação de John Donne, Justine de Marquês de Sade, Ética a Nicomaco de Aristóteles, Casa de bonecas de Henrik Ibsen, a música de Antonio Carlos Nóbrega, O anjo exterminador de Luis Buñuel, a pintura de Darel Valença Lins & Hieronymus Bosch, Ética & A maneira de ser de Marilene Alagia Azevedo aqui.
O amor de Naipi & Tarobá, Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim, a literatura de Luiz Ruffato.Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a música de Vivaldi & Max Richter, a fotografia de Fernand Fonssagrives, a pintura de Fernand Léger, a arte de Regina Kotaka & Eugénia Silva aqui.
Penedo, às margens do São Francisco, O princípio da hipocrisia de Georges Bataille, a literatura de Adonias Filho, História da formação social do Brasil de Manoel Maurício de Albuquerque, a música de Bach & Rachel Podger, a arte de Marcel Duchamp, a pintura de Jaroslav Zamazal, a fotografia de Karin van der Broocke Zine Vanguard,& a arte de Kéfera Buchmann aqui.
Ela, marés de sizígia, Tratado da argumentação de Chaïm Perelman & Lucie Olbrechts-Tyteca, a poesia de Yone Giannetti Fonseca, Pensamento crítico de Walter Carnielli & Richard Epstein, Privatte Coletion de James Halperin, a música de Guilherme Arantes, Derek Van Barham & Vaudezilla, a pintura de Tom Pks Malucelli & Luciah Lopez aqui.
As olimpíadas do Big Shit Bôbras – O Big Bode, Os dragões do éden de Carl Sagan, A arte de furtar de Affonso Ávila, a música de Peter Machajdik, Microbiologia dos alimentos, Casa do Contador de História, a pintura de Brian Keeler & Gray Artus aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Vanguarda nordestina de Anchieta Fernandes, A arte poética de Walmir Ayala, Vanguarda e subdesenvolvimento de Ferreira Gullar, a música de Ira Losco, o cinema de Anna Muylaert, a arte de Michael Mapes, a pintura de Károly Lotz & Jean Dubuffet aqui.
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segunda-feira, julho 22, 2013

ÁGNES HELLER, LUGONES, MASEFIELD, MORLEY. MAXIMILIEN DE WALDECK, LITERATURA DE CORDEL & LITERÓTICA


OS VENTOS DO VENTRE DESNUDADO – Lá estava ela: a franja sobre os olhos possessivos, as pálpebras da luxúria no batom da boca Madonna entreaberta a expor o decote da Monika de Bergman com a sua empolgação contagiante. Ajeitou os óculos na bolsa e entrelaçou sua mão à minha, enquanto as pernas se enroscavam entre joelhos, ósculos e amplexos, os seios acesos e estufados sob a blusa decotada. Delicadamente desabotou minha camisa e deslizou mansamente a mão por meu omoplata e sentiu o meu peito ofegante para ousar afago sobre meus músculos embaixo da camisa. Beijei-lhe timidamente enquanto se livrava do sutien e expunha seu magistral desejo tímido. Fitei-lhe fundo os olhos e na minha Íris ela era Mira, a Omicron Ceti, a estrela maravilhosa a me levar pela constelação de Cetus, como se fosse um passeio por Hegra na Nabateia da Al-Hirj. Beijos e toques logo ela se fez desnuda estrela vermelha Betelgeuse, a Alpha Orionis, como se fosse Ericto de Ferri lindamente exposta para minha gula de sátiro grego, o manequim que a fez bacante na odisseia dos meus desejos mais incendiados. Com perícia sucumbi sob suas saias, mãos atrevidas a demover sua calcinha úmida e todas as águas jorraram de suas entranhas para me lavar a alma e o sexo. Recostou-se nua como se fosse a indefesa La Cigale de Lefebvre e alisou a glande do meu sexo como se fosse João Batista na cena da Salomé de Bonnard. Reclinou-se a beijar meu morango e pude atravessar galáxias inteiras no céu da sua boca. Inquieta incendiária me ofertou os ventos do seu ventre desnudado: o seu sexo era o Campi Flegrei pronto para entrar em ebulição com a Origem do Mundo de Courbet inflamada para minha excitante penetração profunda, investindo firme até que o seu gozo era a erupção do Hunga Tonga-Hunga Ha'apai. A nossa orgia parecia mais o Jardim das Delícias de Bosch, com todas as poses de Maximilien de Waldeck, as esculturas eróticas do Kajuraho e dos amantes das ilustrações nas paredes de Pompeia. No ápice do prazer vivi nela a Eterna Primavera de Rodin. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Não se converte um homem quando o reduzimos ao silêncio. Existe no coração de todos os homens um nervo secreto que reage às vibrações da beleza. Só existe um êxito: a capacidade de levar a vida que se quer. Pensamento do escritor estadunidense Christopher Morley (1890-1957). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU - Não se resiste sozinha à colonialidade do gênero. Resiste-se a ela desde dentro, de uma forma de compreender o mundo e de viver nele que é compartilhada e que pode compreender os atos de alguém, permitindo assim o reconhecimento. Quando penso em mim mesma como uma teórica da resistência, não é porque penso na resistência como o fim ou a meta da luta política, mas sim como seu começo, sua possibilidade. Pensamento da da filósofa, ativista e professora argentina Maria Lugones. Veja mais aqui.

 

VIDA COTIDIANA - [...] ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-genérica a ponto de desligar-se inteiramente da cotidianidade. [...] o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se “em funcionamento todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias. O fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade. O homem da cotidianidade é atuante e fruidor, ativo e receptivo, mas não tem nem tempo nem possibilidade de se absorver inteiramente em nenhum desses aspectos; por isso, não pode aguça-los em toda a sua intensidade. [...]. Trecho extraído da obra Estrutura da vida cotidiana (Paz e Terra, 2004), da filósofa húngara Ágnes Heller (1929-2019), que em outra de suas obras, Sociología de la vida cotidiana (Península, 1977), expressa que: [...] A arte é a autoconsciência da humanidade: suas criações são sempre veículos da genericidade para-si e em múltiplos sentidos. A obra de arte é sempre imanente: representa o mundo como um mundo do homem, como um mundo feito pelo homem. Sua hierarquia de valores reflete o desenvolvimento da humanidade; no topo dessa hierarquia encontram-se sempre aqueles indivíduos (sentimentos, comportamentos individuais) que influenciam ao máximo o processo de desenvolvimento da essência genérica. Dito com mais precisão: o critério de “duração” de uma obra de arte é a elaboração de uma hierarquia desse tipo; se ela não consegue isso, desaparece no poço da história. Em consequência, a obra de arte constitui também a memória da humanidade. As obras suscitadas por conflitos de épocas hoje remotas podem ser gozadas porque o homem atual reconhece naqueles conflitos a pré-história de sua própria vida, de seu próprio conflito: através deles desperta-se a recordação da infância e da juventude da humanidade. [...]. Veja mais aqui,

 

A CAIXA DAS DELÍCIAS – [...] O Natal tem que ser atualizado”, disse Maria. “Deveria ter bandidos, aviões e muitas pistolas automáticas.” [...] Trecho extraídos da obra The Box of Delights (Egmort, 2007), do poeta inglês John Masefield (1878-1967), autor de frases como: Os dias que nos fazem felizes nos tornam sábios. A alma distante pode abalar a alma do amigo distante e fazer sentir a saudade, por incontáveis milhas. Só a estrada e a madrugada, o sol, o vento e a chuva, E o relógio dispara sob as estrelas, e dorme, e a estrada novamente. Veja mais aqui.

 


MAXILIMILIEN DE WALDECK – Imagem recolhida da obra I Modi: The Sixteen Pleasures : An Erotic Album of the Italian Renaissance: The Sixteen Pleasures : an Erotic Album of the Italian Renaissance: Giulio... and Count Jean-Frederic-Maximilien De Waldeck (Northwestern Univ Pr, 1989), reunindo a obra do artista, antiquário, cartógrafo francês Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck (1766-1875), tornando-se famoso pela publicação de suas gravuras I Modi. Morreu aos 109 anos de ataque cardíaco ao visualizar uma bela mulher perto da Champs-Élysées, em Paris.

 



Ilustração: J. Lanzelotti

MELANCIA E COCO MOLE

Havia um homem que gostava muito de uma moça e queria casar com ela.

Um dia ele foi chamado pras guerras e disse à moça que não casasse com outro, que quando ele voltasse casaria com ela.

Para ninguém desconfiar o rapaz tratava a moça por Melancia e a moça o tratava por Coco Mole.

Um dia se despediram muito chorosos e ele partiu para as guerras.

Todo dia aparecia casamento para esta moça, porém ela não queria, com sentido no seu querido.

Passados alguns anos e, aparecendo um dia um casamento, o pai da moça decidiu que ela havia de aceitar. Ela fez o gosto do pai, e, quando foi no dia do casamento, o seu namorado chegou das guerras, indagou logo pela moça e soube que ela se casava naquele mesmo dia.

O rapaz ficou muito triste e não quis comer.

Um caboclo, que era pajem dele, perguntou-lhe por que estava tão triste. Sabendo da história, disse-lhe: "Não tem nada, meu amo. Deixe estar que eu arranjo tudo!!"

Havia uma árvore no fundo do quintal da casa da moça, onde ela costumava ir conversar com o antigo namorado. O caboclo ensinou ao amo que fosse para debaixo da árvore, que lhe garantia que a moça iria lá ter. Ele fez o que o caboclo recomendou, e este se dirigiu para casa da noiva. Chegando lá encontrou já todos os convidados, o noivo e a noiva já preparados, só faltando o padre para os casar. O caboclo pediu licença para fazer uma saúde à noiva, chegou-se para junto dela e disse:

"Eu venho lá de tão longe
Corrido de tanta guerra
Melancia, Coco Mole
É chegado nesta terra"

Todos bateram palma e disseram: "Bravo! Caboclo, faça outra saúde".

O caboclo retrucou:

"Não há bebida tão boa
Como seja o aluá
Melancia, Coco Mole
Vos espera no lugar”

Todos bradaram: "Muito bem! Caboclo!… faça outra saúde!"

O caboclo entusiasmado continuou:

"Moça, que estais tão bonita
Não vos lembrais do passado
Melancia, Como Mole
Vos manda muito recado"

Aí a moça levantou-se e disse que ia beber água. Saiu caladinha pela porta do quintal e foi direitinho à árvore onde ela costumava ir conversar com seu antigo namorado, que era o do peito. Chegando aí, encontrou-o e ao mesmo tempo a um padre que já ali se achava apalavrado para os casar. Veja mais aqui.

FONTES:
BRANDÃO, Theo. Um conto popular brasileiro. Revista Brasileira de Folclore, ano VI, n. 14, pp. 5-52, jan-abril, 1966.
CASCUDO, Luís da Câmara. A literatura oral no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1988.
DANTAS, Paulo. Antologia ilustrada do folclore brasileiro: estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d.
LOPES NETO, João Simões. Contos gauchescos. Porto Alegre : Martins Livreiro, 1998.
RESENDE, José Camelo de Melo. Coco Verde e Melancia – ou Armando e Rosa. São Paulo: Luzeiro, s/d.
ROMERO, Silvio. Contos populares. Rio de Janeiro: José Olympio, 1954.



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