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terça-feira, junho 09, 2020

JORGE OTEIZA, SÍLVIO ALMEIDA, KATIA MESEL & TRÓPICO DAS CABRAS



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: DO MONTE DE BRASIS!!!!! – Ah, gentamiga dos Brasis de Z, S e o alfabeto inteiro pro Fecamepa! Haja Brasis no Brasil! O Brazil desde sempre e de antes de tudo é o reduto abundante dos abastados preadores mamelucos das altas camadas que arrastam o progresso ao seu modo e mando: o paraíso para explorar! Aqui eles enriquecem sobre a escravaria cada vez mais para seus amostramentos no primeiro mundo, nada mais. Já o Brasil, ah esse tem uma tuia, muitos e tantos, uns dentro dos outros, aos montes e de todo jeito, que é parasitado pelos donos do Brazil e inferno para os demais amontoados entre os desaparecidos da pandemia no apagão dos dados e de outras desgraças multifacetadas que tanto são maléficas e se parecem panaceias e vice-versa, como saltitantes e sedutoras para engalobação geral e fortuna dos sabidos. Afinal, aqui tudo é na base do panem et circenses, de ninguém se lembrar de um dia depois de outro. Tanto é que nem sacaram até agora Hobsbawm: O domínio do passado não implica em uma imagem de imobilidade social. É compatível com visões cíclicas de mudança histórica, e certamente com a regressão e a catástrofe (ou seja, o fracasso em reproduzir o passado). É incompatível com a ideia de progresso contínuo. O que parece é que nem mesmo os mais atilados sacam essa por aqui, avalie! DUAS: SEM ESQUENTAR O QUENGO NEM CIRCUITO NO JUIZO - Confesso, se o padecimento é geral, não fujo à regra: dou meus pinotes e fujo das tentações para não ter que comer das melecas indigestas que distribuem aos bons bocados como se fossem benesses desinteressadas. Quem delas usa, só muito depois é que se dá conta do rabo agarrado pelos tentáculos inexoráveis dos que se passam por bonzinhos. Eu, hem! Por antídoto vou de Pagu: Tenho várias cicatrizes, mas estou viva. Abram a janela. Desabotoem minha blusa. Eu quero respirar. A satisfação intelectual não me basta... a ação me faz falta! Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre. Assim, faço a festa que posso e vivo. TRÊS: PARA SER FELIZ NÃO ME LEVO MUITO A SÉRIO – Exatamente, para não esquentar a cabeça com o desgoverno e a alienação de um bocado de negacionista, prefiro mandar ver feito Cole Porter: Esta a regra que proponho, sempre tem um ás no buraco. Sempre tente chegar a ter um ás em algum lugar privado. Seja um palhaço, seja um palhaço, seja um palhaço. Como não tenho esse ás nas mangas, sigo dele aquela da maravilhosíssima Elza Soares: Vamos amar!!!! E depois vamos aprumar a conversa, né gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O racismo não é um ato ou um conjunto de atos e tampouco se resume a um fenômeno restrito às práticas institucionais; é, sobretudo, um processo histórico e político em que as condições de subalternidade ou de privilégio de sujeitos racializados é estruturalmente reproduzida. [...]. Trecho extraído da obra O que é racismo estrutural? (Letramento, 2018), do filósofo Sílvio Almeida, que trata das visões predominantes sobre o racismo que costumam tratar o tema como um problema moral ou cultural que deve ser enfrentado, ou pela educação ou por meios jurídicos. É a partir da crítica a esta concepção que o autor  propõe um tratamento mais complexo sobre as relações raciais: O racismo, portanto, é apresentado como decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares. Com o didatismo, a síntese e o rigor acadêmico que são as marcas da coleção, o autor procura demonstrar como a raça é um elemento fundamental para a compreensão do Estado, do direito e da economia contemporâneas. Precisamos de uma cultura que se oponha ao racismo, que coloque em seu centro produções em que a nossa humanidade caiba. Veja mais aqui e aqui.

TRÓPICO DAS CABRAS
O premiadíssimo drama curta-metragem Trópico das Cabras (2007), dirigido por Fernando Coimbra, conta a história de um casal em crise que parte do litoral para o interior de São Paulo, num Chevette, na tentativa de salvar ou perder de vez sua relação. No caminho, aos poucos eles vão se entregando a um estranho jogo sexual. Este curta foi selecionado para os mais importantes festivais de cinema do Brasil e do mundo. Veja mais aqui.

A ARTE DE JORGE OTEIZA
Não sei o que é esforço... pois toda a minha vida tem sido um trabalho contínuo. O esforço me conquistou desde o começo e, portanto, a consciência do esforço nunca surgiu em mim.
JORGE OTEIZA - A arte do escultor, artista e escritor espanhol Jorge Oteiza (1908-2003). Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Considero que conseguimos fazer um trabalho muito delicado, que vai tocar todas as mulheres, independente de terem filhos ou não. O filme não fala só sobre a impossibilidade de parir em Fernando de Noronha, um direito que é negado, mas também sobre outros temas que rondam o feminino na ilha, como a falta de oportunidades de trabalho, gravidez precoce, aborto e prostituição.
O curta Parto Sim! (2019), da cineasta e artista gráfica Katia Mesel, narra histórias de gestantes que têm dificuldades em parir os bebês na ilha de Fernando de Noronha, em face da ausência de estrutura hospitalar que viabilize os partos e traz à tona temáticas como adoção, gravidez, aborto e - de uma forma mais contudente - a realidade de gestantes nativas da ilha. Veja mais aqui.
&
A música do arranjador, maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006) aqui & aqui.
A arte de ser profano de Fernando Spencer aqui.
A arte da artista visual Tania Britto aqui.
A revista pernambuca de HQ, Ragú, editada por Christiano Mascaro e João Lin aqui.
Os poemas do professor, psicólogo e poeta Marcos Carneiro aqui.
Os versos & rimas do poeta popular Ricardo Cordel aqui.
O livro (Ab)sinto de Madalena Zaccara aqui.
&
São Benedito do Sul aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, abril 24, 2015

CALVINO, COLE PORTER, MAUPASSANT, MAQUIAVEL, BIRKIN, KORYTOWSKI, REDON & QUASAR DANÇA.


PROJETO DE EXTENSÃO PSICOLOGIA, JORNALISMO & PUBLICIDADE – Em continuidade às atividades do Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, realizado pelos graduandos dos cursos de Psicologia, Jornalismo e Publicidade do Centro Universitário Cesmac, sob a coordenação do Professor Ms Cláudio Jorge Gomes de Morais, realizou-se na última quinta-feira, dia 23 de abril, mais uma reunião regular para andamento das atividades. Estiveram presentes na reunião, o professor Cláudio Jorge Morais, Luiz Alberto Machado, Alessandra Matos, Fran Miranda, Luiz Gustavo, Fernanda Angélica, Williane Sotero e Gustavo Santos. Veja detalhes aqui e aqui.

Imagem: The Birth of Venus (1912), do pintor e artista gráfico francês Odilon Redon (1840-1916). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo De lovely (2004), um filme biográfico musical sobre a vida e amores do músico e compositor estadunidense Cole Porter (1891-1964), dirigido por Irwin Winkler e roteiro de Jay Cocks. Veja mais aqui, aqui e aqui.

MADEMOISELLE FIFI – O conto Mademoiselle Fifi (Cultrix, 1958), do escritor francês Guy de Maupassant (1950-1893), narra a história de um oficial do exército prussiano que invade a França em 1870. Durante algum tempo a sua perversa brutalidade desfaz todos os obstáculos que lhe surgem no caminho. Mas um dia, em que partilha com outros oficiais a rotina dos vencedores, decide organizar uma festa com prostitutas normandas. E é então que lhe surge a inesperada resistência dos vencidos. Da obra destaco o texto a seguir: [...] As garrafas de conhaque e de licores passavam de mão em mão, e todos, recostados nas cadeiras, bebiam vagarosamente, em goles repetidos, conservando o cachimbo no canto da boca, longo tubo curvo rematado pelo ovo de faiança, sarapintado como para seduzir hotentotes. Mal os copos se esvaziavam, tornavam a enchê-los, com um gesto de resignada lassidão. Mlle. Fifi quebrava o seu, a toda hora, e imediatamente um soldado lhe apresentava outro. [...] Imediatamente um frêmito perpassou pelos espíritos, despertando-os. Os corpos languidamente recostados se aproximaram, animaram-se os rostos e todos se puseram a conversar. [...] Cinco mulheres desceram no patamar, cinco bonitas raparigas escolhidas a dedo por um companheiro do capitão. Não se tinham feito rogar, certas de que seriam bem pagas. Conheciam os prussianos, que há três meses agüentavam, e sabiam tirar partido tanto dos homens como das coisas. “São exigências da profissão” — explicavam, a caminho, sem dúvida para acalmar o secreto prurido de uns restos de consciência. Imediatamente entraram na sala de jantar. Iluminada, esta ainda parecia mais lúgubre, deixando perceber o lamentável estado a que fora reduzida. A mesa farta de carnes, com a rica baixela e a prataria encontrada na parede onde a escondera seu proprietário, conferia-lhe o aspecto de uma taverna, na qual bandidos fossem cear depois de uma pilhagem. Radiante, o capitão apossou-se das raparigas como de objetos familiares, aquilatando-as como dispensadoras de prazer. Como os três mais moços se apressavam em fazer sua escolha, opôs-se categoricamente, atribuindo-se a partilha, que seria feita dentro da maior eqüidade, tendo-se em conta as patentes, a fim de que a hierarquia fosse respeitada. Assim sendo, no propósito de evitar qualquer discussão, qualquer contestação, qualquer suspeita de parcialidade, alinhou-as pela estatura, e dirigindo-se à mais alta, indagou com voz de comando: — Seu nome? — Pamela. — Número um, a chamada Pamela, adjudicada ao comandante. Em seguida, depois de beijar em sinal de posse a Blondine, a segunda, ofereceu ao comandante Otto a rechonchuda Amanda, Eva ao subtenente Fritz, e Raquel, a mais baixa de todas, ao mais moço dos oficiais, o marquesinho Wilhem d’Eyrik. Raquel era morena muito jovem, de olhos negros como borrões de tinta, uma judia, cujo nariz adunco confirmava a regra que caracteriza sua raça, Todas eram gordas e bonitas, sem fisionomias muito marcadas, como se as práticas quotidianas e a vida comum nos prostíbulos as tivessem tornado parecidas de rosto e de porte. [...] Completamente bêbedos, subitamente dominados por um entusiasmo militar, um entusiasmo de brutos, os outros também empunharam os copos, vociferando: — Viva a Prússia! — e esvaziaram os copos de um só trago. As raparigas não protestavam, emudecidas e presas do medo. A própria Raquel calava-se, impotente para responder. Foi então que o marquesinho colocou sobre a cabeça da judia a taça de champanha que tornara a encher, e gritou: — A nós também todas as mulheres da França! Raquel se pôs de pé rapidamente, derramando sobre seus cabelos o cálice de champanhe, que em seguida caiu ao chão, espatifando-se. Com os lábios trêmulos, afrontava com o olhar o oficial, que continuava a rir-se. E balbuciou, com voz sufocada pela cólera: — Isso... isso não é verdade! Absolutamente vocês não terão as mulheres da França! Ele se sentou, para rir-se mais à vontade, e procurando imitar o sotaque parisiense: — Essa é pem poa, pem poa, enton que veiu facer aqui, pequena? Interdita, ela se calou, tão perturbada que não podia compreender bem o que ele dizia. Depois, assim que alcançou o sentido daquelas palavras, retorquiu, indignada e veemente: — Eu... eu... não sou mulher, sou prostituta. É o que serve para vocês, prussianos. Nem bem terminara, e ele já a esbofeteara com força. Ao vê-lo erguer a mão outra vez, enlouquecida pela raiva, Raquel apanhou na mesa uma faca, e bruscamente cravou-a no pescoço do marquesinho, bem no côncavo onde começa o peito. A palavra que articulava foi cortada na garganta, e ele se quedou de boca escancarada, com olhar terrível. Um bramido ergueu-se, e todos se levantaram em tumulto. Porém, depois de atirar sua cadeira às pernas do tenente Otto, que se estatelou no chão, Raquel correu à janela, abriu-a antes que conseguissem alcançá-la, e desapareceu na noite, sob a chuva que continuava a cair. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e  aqui.

A MANDRÁGORA – A peça teatral A Mandrágora (1518), do historiador, poeta, diplomata e músico do Renascimento italiano, Nicolau Maquiavel (1469-1527), conta a história do jovem florentino Calímaco, que por conta de uma aposta, conhece e passa a desejar furiosamente uma mulher casada que não consegue ter filhos com seu marido. Para conquistá-la, com ajuda de um jovem embusteiro, de um frei sem escrúpulos e da mãe da recatada esposa, ele finge ser médico e receita um tratamento a base de mandrágora – a planta afrodisíaca. Com esse texto o autor narra a conquista amorosa, com suas urgências e exaltações, servem como pretexto para desenvolver um tratado prático e saboroso sobre estratégia política, sobre a arte de envolver, manipular, convencer e, por fim, conquistar um objetivo. Da obra destaco o trecho da canção de abertura: Posto que a vida é breve e muitas são as penas que vivendo e lidando se padecem, seguindo nossas ânsias vamos passando e consumindo os anos, pois do prazer privar-se, p’ra viver em afãs e aflições, é ignorar os enganos do mundo ou por quais males e estranhos casos sejam tiranizados todos os mortais. P’ra fugir desta angústia, Erma existência em bosques escolhemos E sempre em gáudio e festas Vivemos, belos jovens, ledas ninfas. Agora aqui viemos, Com a nossa harmonia, Só para honrarmos esta Tão bela festa e alegre companhia. Ainda aqui nos trouxe a fama do senhor que vos governa, cujo eterno semblante acolhe em si todos os bens da terra. Por tal supernal graça, por tão feliz estado, ufanar-vos podeis, gozando, e agradecer quem vo-lo deu. Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

A TRILHA DOS NINHOS DE ARANHA – O livro A trilha dos ninhos de aranha (Companhia das Letras, 2004), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), é um tributo ao neorealismo que emergiu na Itália desolada depois da Segunda Guerra, com uma história pessoal para contar participação nos grupos de luta armada da Resistência, que combatiam as tropas alemãs e as violentas brigadas fascistas. Trata-se de um testemunho daqueles tempos duros, de guerrilheiros marcados pela incerteza, como Primo, ou pelo idealismo, como o comissário Kim. Da obra destaco os seguintes trechos: [...] Durante meses, depois do fim da guerra, tinha tentado contar a experiência partigiana em primeira pessoa, ou com um protagonista parecido comigo. Escrevi alguns contos que publiquei, outros que joguei no cesto de lixo; movia-me pouco à vontade; nunca conseguia abrandar totalmente as vibrações sentimentais e moralistas; sempre surgia alguma desafinação; minha história pessoal parecia-me humilde, mesquinha; eu era cheio de complexos, de inibições diante de tudo o que me era mais caro [...] Agora Pin vai entrar na taberna enfumaçada e roxa, e vai dizer coisas obscenas, impropérios que aqueles homens nunca ouviram, até deixá-los furiosos e apanhar, e cantará canções tocantes, consumindo-se até chorar e fazê-los chorar, e vai inventar brincadeiras e caretas tão novas até se embriagar de risadas, tudo só para aliviar a névoa de solidão que se adensa em seu peito em noites como esta [...] - Rapazes - começa a falar resignado, como se não quisesse desagradar ninguém, nem mesmo Canhoto - , cada um sabe por que é partagiano. Eu era funileiro e rodava pelos campos, meu grito era ouvido desde longe e as mulheres iam buscar as caçarolas furadas para eu consertar. Eu ia nas casas e brincava com as criadas e elas às vezes me davam ovos e copos de vinho. Punha-me a trabalhar nos recipientes com o flandres, na relva, e em volta sempre havia crianças que ficavam me observando. Agora não posso mais andar pelos campos porque eu seria preso e há bombardeios que arrebentam com tudo. Por isso somos partagiani: para voltarmos a ser funileiros, para que haja vinho e ovos a bom preço, e para que não nos prenda mais e não haja mais o alarme. E depois também queremos o comunismo. O comunismo é que não haja mais casas onde batam a porta na sua cara, para que não sejamos obrigados a entrar nos galinheiros, à noite. O comunismo é se você entrar numa casa e estiverem tomando sopa, eles lhe dão um pouco de sopa, mesmo se você for funileiro [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, , aqui e aqui.

POEMAS DE AMOR – O poeta, lexicólogo, filósofo, fotógrafo e tradutor Ivo Korytowski, edita o excelente blog Literatura & Rio de Janeiro e, também, o extraordinário Sopa no Mel, no qual reúne seu trabalho literário e traduções, compilando, inclusive, a sua poesia e prosa poética, entre as quais, destaco o seu Amor Virtual: Serás meu absinto, meu ópio, meu nirvana, / A minha bússola, meu norte, meu caminho, / Minha fofinha, gostosinha, amorzinho. / De belas flores farás belas ikebanas! / Meu prelúdio, minha valsa, meu minueto, / Minha Vênus, meu afresco renascentista, / Meu trevo de quatro folhas, minha ametista, / Musa minha inspiradora de meus sonetos. / O seu sorriso me elevará ao alto astral. / Como serão sua voz, postura, olhar, / Seu perfume, fantasia de Carnaval? / São longos quilômetros a nos separar, / Porém, isso não tem importância. Afinal, / A Internet já fez de nós romântico par! Merece também destaque Amor Lunático: Desgostoso com as pessoas, enamorara-se da lua. – Bela é a lua, sobretudo quando cheia! E tem um rosto tão sereno... – Um rosto sereno, porém distante... – O amor não conhece distâncias. À noite, quando a tristeza me invade o coração, sua etérea beleza me conforta. Então, converso com ela! – Mas ela não te responde... – Não, minha amada não é tagarela; sua resposta, não a capta o ouvido, mas o coração! – Dormes com tua lua? – Não me fales de amor vulgar! – Amas a quem não compreendes... – Seu enigma é meu amor! – Quimeras... – O amor é uma quimera! Não, minhas palavras não o convenceram da impossibilidade de seu amor. Na noite seguinte, subiu uma montanha para se aproximar mais da Eleita. Chegando ao topo, amanhecera. Desesperado, atirou-se de altura de dois mil metros rumo ao Infinito! Como também o seu ótimo Masturbação: Na calada da noite eu me masturbo. De repente, vieram à tona todas as frustrações; quebraram-se as lentes cor-de-rosa que me interditavam a visão da realidade; vislumbrei a vida em toda sua crueza. De um mero jogo entre dois seres, aqui estou eu, estranho animal ora alegre, ora infeliz. Amanhã meus óculos ganharão novas lentes cor-de-rosa e só verei a praia, as ondas, a brisa... Mas hoje me masturbo para não repetir o erro de meu pai. Veja mais aqui, aqui e aqui.

JE T´AIME... MOI NON PLUS: PAIXÃO SELVAGEM - Je t'aime... moi non plus é uma polêmica canção que foi proibida em diversos países, do cantor e compositor francês Serge Gainsbourg (1928-1991). É tema do filme de mesmo nome (Paixão Selvagem, 1974), dirigido pelo autor da música e estrelado pela lindíssima atriz e cantora inglesa Jane Birkin. Em 2004, a atriz, cineasta e cantora portuguesa Maria de Medeiros, realiza um documentário com o mesmo título - Je t’aime... moi non plus: artistes et critiques -, abordando as relações entre a crítica cinematográfica e realizadores, com depoimentos de Manoel de Oliveira, Almodóvar, Cronenberg e Wenders, tendo por cenário a edição de 2002 do festival de Cannes. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Espetáculo Só tinha de ser com você (2005) da companhia goiana Quasar Cia de Dança.


Veja mais sobre:
Credibilidade da imprensa brasileira, a literatura de Cervantes, a História da imprensa de Nelson Werneck Sodré, a Imprensa de Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.

E mais:
Todo dia o Sol se põe para uma nova alvorada..., O homem unidimensional de Herbert Marcuse, a literatura de Amos Oz & Machado de Assis, a poesia de Safo, a música de Händel & Caroline Dale, o cinema de Blake Edwards & Audrey Hepburn, a arte de Keith Haring, o humor de Ronald Golias, a pintura de Frederic Edwin Church & François Gerard aqui.
Matizes, a poesia de Luís Vaz de Camões, a literatura de Jean de La Fontaine, O cartesianismo científico de Paulo Cesar Sandler, A lenda do Cavalo sem cabeça de Luís da Câmara Cascudo, Hécuba de Eurípedes, a música de Villa-Lobos & Celine Imbert, Clítia & a escultura de Hiram Powers, a arte de Esther Góes, o cinema de Woody Allen, Tiradas do Doro, a pintura de Hans Hassenteufel & Gustave Courbet aqui.
Brincarte do Nitolino, a literatura de Nélida Piñon, a música de Igor Stravinski, a poesia de Augusto dos Anjos, O antiteatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farmer, a pintura de Joan Miró, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabus aqui.
Freyaravi & o circo dos prazeres, Cultura de consumo pós-moderna de Mike Featherstone, Os contos brasileiros de Julieta de Godoy Ladeira, O kama sutra de Vātsyāyana, a música de Marisa Monte, a fotografia de Ralf Mohr, a pintura de Crystal Barbre & Luciah Lopez aqui.
Lualmaluz, De segunda a um ano de John Cage, Técnica e ciência de Jürgen Habermas. a História da literatura de Nelson Werneck Sodré, a música de Sally Seltmann, a performance de Marni Kotak, a pintura de Théodore Géricault, a escultura de George Kurjanowicz, a arte de Moisés Finalé & Luciah Lopez aqui.
Quando tudo é manhã do dia pra noite, A agonia da noite de Jorge Amado, a música de Bizet & Adriana Damato, o Folclore musical de Wagner Ribeiro, a pintura de Aleksandr Fayvisovich, Postuman bodies de r Judith Halbertam & Ira Livingstone, a fotografia de Christian Coigny & Bryan Thompson, a arte de Mirai Mizue & Luciah Lopez aqui.
Uma coisa quando outra, o pensamento de Marshall Berman, a literatura de Adolfo Casais Monteiro, Arquiteturas líquidas de Marcos Novak, a música de Tom Jobim & Maucha Adnet, Adriana Garambone, a pintura de Renie Britenbucher, a arte de Alyssa Monk & Luciah Lopez aqui.
Feliz aniversário: resiliência, perspectivas & festas, o pensamento de Paulo Freire, a literatura de Octavio Paz, A resiliência de Makilim Nunes Baptista, a música de Midori Goto, a pintura de Luis Crump, Babi Xavier, a arte de Fabrice Du Welz & Luciah Lopez aqui.
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sábado, outubro 25, 2008

ÉRICO VERÍSSIMO, RILKE, LOUISE POISSANT, COLE PORTER, ANTÔNIO CÂNDIDO, PAULO AMADOR, DIREITO & LITERÓTICA


LITERATURA ERÓTICA - BIBLIOTECA EROTOLÓGICA: NA ÍNDIA - Na Índia, aparece o Kama Sutra, de Mallanaga Vatsyayana, que foi escrito entre 100 e 400 d.C., um antigo texto indiano sobre o comportamento sexual humano, importante para a literatura sânscrita, para a cultura védica e inserido na religião hindu. Seus ensinamentos, embora conduzam ao prazer, visam, em primeiro lugar, à elevação espiritual do homem, em sua trajetória religiosa. Há que se entender que Kama significa amor, prazer, satisfação. Com isso, esperava-se do cidadão ideal que dedicava sua vida à conquista de três metas: darma – aquisição de mérito religioso; artha – aquisição de riquezas; e kama – aquisição de amor ou prazer sexual. Isto quer dizer que tanto para o hindu indiano como para o taoísta chinês, o sexo era um dever religioso. E com amor: havia o simples amor do intercurso, um hábito, uma droga. E outro, uma adição separa aos aspectos específicos do sexo, como beijar, acariciar ou o intercurso oral. Havia então o amor consistindo de atração mutua entre duas pessoas, instintivo, espontâneo e possessivo. E por fim, o tipo de amor unilateral, que frequentemente nasce da admiração do enamorado pela beleza da pessoa amada. O grande épico clássico da Índia, o Mahabharata, tem sua autoria atribuída a Krishna Dvapayana Vyasa, escrito no séc. II d.C e considerado sagrado pelo hinduísmo, juntamente com o Ramáiana e outros textos dos Puranas, Para os indianos, o sexo tem um sentido religioso, é o símbolo da beatitude suprema e um dos meios que a ela conduzem. Costuma-se dizer que o poema mais belo da Índia é a Shakuntala, de Kalidasa, a história de uma belíssima princesa. Veja mais aqui, aqui & aqui.


DITOS & DESDITOS - O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes. Ser amado é consumir-se na chama. Amar é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar. Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra. O amor de duas criaturas humanas, talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta; a maior e última prova, a obra para qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar, têm que aprendê-lo. O destino não vem do exterior para o homem, ele emerge do próprio homem. Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia. A única viagem é a interior. Os homens, com o auxílio das convenções, têm resolvido tudo com facilidade e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que precisamos ater-nos ao difícil. Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante a tempestade da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Pensamento do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: O tempo faz a gente esquecer. Há pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que não se lembram mais. Na minha opinião o que importa não é homenagear os mortos, levando-lhes flores às sepulturas, e sim, tratá-los bem, com todo amor possível, enquanto estão vivos. Não aceitamos a idéia de que as coisas só possam ser pretas ou brancas, acreditamos nos matizes, nas complexidades dos homens e de seus problemas. O espírito de gentileza podia salvar o mundo. O que nos falta é isso: espírito de gentileza. Boas maneiras de homem para homem, de povo para povo. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Pensamento do escritor Érico Veríssimo (1905-1975). Veja mais aqui.

LITERATURA & SOCIEDADE – [...] toda literatura apresenta aspectos de retardamento que são normais ao seu modo, podendo-se dizer que a média da produção num dado instante já é tributária do passado, enquanto as vanguardas preparam o futuro. Além disso, há uma subliteratura oficial, marginal e provinciana, geralmente expressa pelas Academias. [...]. Trecho extraído da obra Literatura e Sociedade (Ouro sobre Azul, 2003), poeta, ensaísta, professor universitário e critico literário Antônio Cândido (1918-2017). Veja mais aqui e aqui.

OS AMORES FELIZES NÃO TÊM HISTÓRIA – [...] Os amores felizes não têm história [...] Com efeito. Depois dos obstáculos, nada mais há a contar. Sim, assumimos ao longo de séculos que a felicidade não tem história. Tolstoi deixou-o bem claro. O amor não é feliz. Ou, pelo menos, assim temos a prová-lo uma longa tradição que o liga primeiro ao corpo, depois à alma, mas sempre à morte, essa ilha em que o humano se define e perde. E viveram felizes para sempre não tem comentário possível. Assim cai o pano. Trechos extraídos da obra O Medo do Grande Amor, (Difel, 1989), da filósofa e professora canadense Louise Poissant, um ensaio sobre um mundo cercado pelo efêmero, em que o receio de perder o grande amor leva as pessoas a não quererem viver nenhum.

REI BRANCO, RAINHA NEGRA – [...] João pensou que Chica estava ficando doida de novo. Mas Chica era firme. - Quero o mar no Tejuco. O contratador conhecia o temperamento da mulher. Mandou virem engenheiros portugueses, que são os melhores do mundo nas artes da marinhagem. Levantou muralhas de pedra e areia no Rio Grande, puxou um braço de água, fez uma grande represa. Vieram de Portugal armadores de navio, e escolheram madeiras no Arraial de Baixo. Foi construído o navio que viajaria entre as margens de pedra do Rio Grande, e João tinha planos que iam além. [...] O mar então chegou ao Tejuco. [...] O povo fez fila, por convite de sua Rainha, e brincou de percorrer os mares do mundo. Um homem foi posto na gávea do navio, e de lá gritava quando o naviozinho abicava numa das praias artificiais mandadas fazer por João: - Terra à vista. A cidade do Porto. [...]. Trechos extraídos da obra Rei branco, rainha negra (Lê, 1990), do escritor Paulo Amador.


KISS ME, KATE - O musical Kiss Me Kate, musical escrito por Bella & Samuel Spewack com músicas do músico e compositor estadunidense Cole Porter (1891-1964), conta a história de um casal divorciado e em pé de guerra, quando são escalados para trabalharem juntos numa produção e precisam se aturar. Foi transformado na comédia musical em 1953, dirigida por George Sidney. Veja mais aqui.


DIREITO COMO FATO SOCIAL - Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem. O direito não tem existência em si próprio. Ele existe na sociedade. A sua causa material está nas relações de vida, nos acontecimentos mais importantes para a vida social. A sociedade, ao mesmo tempo, é fonte criadora e área de ação do direito, seu foco de convergência. Existindo em função da sociedade, o direito deve ser estabelecido à sua imagem conforme as suas peculiaridades, refletindo os fatos sociais, que significam, no entendimento de Durkheim, maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem. Fatos sociais são criações históricas do povo, que refletem os seus costumes, tradições, sentimentos e culturas. A sua elaboração é lenta, imperceptível e feita espontaneamente pela vida social. Costumes diferentes implicam em fatos sociais diferentes. Cada povo tem a sua história e seus fatos sociais. O direito, como fenômeno de adaptação social, não pode formar-se alheio a esses fatos. As normas jurídicas devem achar-se conforme as manifestações do povo. Os fatos sociais, porém, não são as matrizes do direito. Exercem importante influência, mas o condicionamento não é absoluto. Nem tudo é histórico e contingente em direito. Ele não possui apenas um conteúdo nacional. A sociedade humana é o meio em que o direito surge e desenvolve-se. Direito é realidade da vida social e não da natureza física ou do mero psiquismos dos seres humanos. Direito não haveria sem sociedade. Sociedade é a convivência permanente entre os seres humanos de que resultam não só modos de organizar as relações entre eles como também modos de pensar e de sentir específicos da experiência que vivem coletivamente. A natureza social do homem, fonte dos grandes princípios do direito natural, deve orientar as maneiras de agir, de pensar e de sentir do povo e dimensionar o todo, o jus positum. Falhando a sociedade, ao estabelecer fatos sociais contrários à natureza social do homem, o direito não deve acompanhá-la no erro. Nesta hipótese, o direito vai superar os fatos existentes, impondo-lhes modificações. O direito é criado pela sociedade para reger a própria vida social. E no passado manifestava-se exclusivamente nos costumes, quando era mais sensível à influência da vontade coletiva. Na atualidade, o direito escrito é forma predominante, malgrado em alguns países, conservarem sistemas de direito não escrito. O direito não é o único instrumento responsável pela harmonia da vida social. A moral, religião e regras de trato social são outros processos normativos que condicionam a vivência do homem na sociedade. De todos, porém, o direito é o que possui maior pretensão de eficácia, pois não se limita a descrever os modelos de conduta social, simplesmente sugerindo ou aconselhando. A coação - força a serviço do direito - é um de seus elementos e inexistentes nos setores da moral, regras de trato social e religião. Para que a sociedade ofereça um ambiente incentivador ao relacionamento entre os homens, é fundamental a participação e colaboração desses diversos instrumentos de controle social. Se os contatos sociais se fizessem exclusivamente sob os influxos dos mandamentos jurídicos, a socialização não se faria por vocação, mas sob a influência dos valores de existência. O direito, como fato social, é o direito na perspectiva do sociólogo, objeto da sociologia do direito. O direito independe de ser um conjunto de significações normativas, é também um conjunto de fenômenos que se dão na vida social. enquanto dogmática jurídica tem a normatividade como precípuo objeto de estudo, a sociologia do direito descreve a realidade social do direito, sem levar em conta a dimensão da normatividade. O estudo das relações entre a sociedade e o Direito, desenvolvido em ampla extensão pela Sociologia do Direito, é um dos temas necessários a uma disciplina introdutória. Por isso, a sociologia do direito é a disciplina que examina o fenômeno jurídico do ponto de vista social, a fim de observar a adequação da ordem jurídica aos fatos sociais. As relações entre a sociedade e o Direito, que formam o núcleo de sues estudos, podem ser investigadas sob aspectos que relevem a adaptação do direito à vontade social, ao cumprimento pelo povo das leis vigentes e a aplicação destas pelas autoridades, e a correspondência entre os objetivos visados pelo legislador e os efeitos sociais provocados pelas leis. O Direito de um povo se revela autêntico quando retrata a vida social, quando se adapta ao momento histórico quando evolui à medida que o organismo social ganha novas dimensões. O sociologismo jurídico corresponde à tendência expansionista dos sociólogos de conceberem o direito como simples capítulo da Sociologia. Este pensamento, originário de Comte, ficou restrito ao âmbito dos sociólogos mais radicais, por não possuir embasamento científico. A partri disso, é preciso entender que para alcançar a realização de seus ideais de vida, individuais, sociais ou de humanidade, o homem tem de atender às exigências de um condicionamento imensurável: submeter-se às leis da natureza e construir o seu mundo cultural. O condicionamento, imposto ao homem de forma inexorável, gera múltiplas necessidades, por ele atendidas mediante os processos de adaptação. Graças a esse mecanismo, o homem se torna forte, resistente, apto a enfrentar os rigores da natureza, capaz de viver em sociedade, desfrutar de justiça e segurança, de conquistar, enfim, o seu mundo cultural. Por dois processos distintos - interna e externamente - se faz a adaptação humana, considerando as necessidades de paz, ordem e bem comum levam a sociedade à criação de um organismo responsável pela instrumentalização e regência desses valores. Ao direito é conferida esta importante missão. A sua faixa ontológica localiza-se no mundo da cultura, pois representa elaboração humana. o direito não corresponde às necessidades individuais, mas a sua carência da coletividade. A sua existência exige uma equação social. só se tem direito relativamente a alguém. O homem que vive fora da sociedade vive fora do império das leis. O homem só, não possui nem direitos nem deveres. Para o homem e a sociedade, o direito não constitui um fim, apenas um meio para tornar possível a convivência e o progresso social. apesar de possuir um substrato axiológico permanente, que reflete a estabilidade da natureza humana, o direito é um engenho à mercê da sociedade e deve ter a sua direção de acordo com os rumos sociais. A sociedade cria o direito e, ao mesmo tempo, se submete aos seus efeitos. O mundo jurídico passa a se empenhar na exegese do verdadeiro sentido e alcance das regras introduzidas no meio social. esta fase de cognição do direito algumas vezes é complexa. Com a definição do espírito da lei, a sociedade passa a viver e a se articular de acordo com os novos parâmetros. Em relação aos seus interesses particulares e na região de seus negócios, os homens pautam o seu comportamento e se guiam em conformidade com os atuais conceitos de lícito e ilícito. É na sociedade, não fora dela, que o homem encontra o complemento ideal ao desenvolvimento de suas faculdades, de todas as potências que carrega em si. Por não conseguir a auto-realização, concentra os seus esforços na construção da sociedade, seu habitat natural e que representa o grande empenho do homem para se adaptar o mundo exterior às suas necessidades de vida. É na sociedade que o homem encontra o ambiente propício ao seu pleno desenvolvimento. As pessoas e os grupos sociais se relacionam estreitamente, na busca de seus objetivos. Os processos de mútua influência, de relações interindividuais e intergrupais, que se formam sob a força de variados interesses, denominam-se interação social. esta pressupõe cultura e conhecimento das diferentes espécies de normas de conduta adotadas pelo corpo social. Na relação interindividual, em que o ego e o alter se colocam frente a frente, com as suas pretensões, a noção comum dos padrões de comportamento e atitudes é decisiva à natural fluência do fato. Já na interação social se apresenta sob as formas de cooperação, competição e conflito e encontram no direito a sua garantia, o instrumento de apoio que protege a dinâmica das ações. Os conflitos são fenômenos naturais à sociedade, podendo-se até dizer que lhe são imanentes. Quanto mais complexa a sociedade, quanto mais se desenvolve, mais se sujeita a novas formas de conflito e o resultado é o que hoje se verifica, resultando desafio não viver, mas a convivência. Cenário de lutas, alegrias e sofrimentos do homem, a sociedade não é simples aglomeração de pessoas. Ela se faz por um amplo relacionamento humano, que gera a amizade, a colaboração, o amor, mas que promove, igualmente a discórdia, a intolerância, as desavenças. A sociedade sem direito não resistiria, seria anárquica, teria o seu fim. O direito é a grande coluna que sustenta a sociedade. Criado pelo homem, para corrigir a sua imperfeição, o direito representa um grande esforço, para adaptar o mundo exterior às suas necessidades de vida. Se o homem observasse apenas os preceitos jurídicos, o relacionamento humano, pelo visto, se tornaria mais difícil, mais áspero e por isso menos agradável. A própria experiência foi indicando certas regras, distintas do direito, da moral e da religião, que desempenham a função de amortecedores do convívio social. São as regras de trato social, chamadas também convencionalismos sociais e usos sociais. As regras de trato social são padrões de conduta social, elaboradas pela sociedade e que, não resguardando os interesses de segurança do homem, visam a tornar o ambiente social mais ameno, sob pressão da própria sociedade. São as regras de cortesia, etiqueta, protocolo, cerimonial, moda, linguagem, educação, decoro, companheirismo, amizade, dentre outros. Entre as questões doutrinárias que as regras de trato social suscitam apresenta-se uma ordem de indagações axiológixas, no que tange ao valor desse campo normativo ao realizar-se e se possuem algum valor exclusivo. Enquanto que os demais instrumentos de controle social possuem um valor próprio, bem definido, essas regras exigem um estudo maios apurado, para se descobrir, na multiplicidade de suas espécies, uma unidade de propósito. As regras de trato social cultuam um valor próprio que é o de aprimorar o nível das relações sociais, dando-lhes o polimento necessário à compreensão. Esse valor, contudo, não é de natureza independente, mas complementar. Pressupõe a atuação dos valores fundamentais do direito e da moral. O valor que as regras de trato social; traduzem constitui uma sobrecapa dos valores éticos de convivência. Entre os caracteres principais das regras de trato social, apresentam-se o aspecto social, que é o próprio significado social; a exterioridade, que são as normas de etiqueta, cerimonial, cortesia; a unilateralidade, que corresponde a deveres e nenhuma exigibilidade; a heteronomia, que identifica que os procedimentos, os padrões de conduta não nascem na consciência de cada indivíduo e, sim, a sociedade cria essas regras de forma espontânea, natural e passa a impor o seu cumprimento; a incoercibilidade, por serem unilaterais e não sofrerem a intervenção do estado, essas regras não são impostas coercitivamente; a sanção difusa, por ser incerta e consiste na reprovação, na censura, crítica, rompimento de relações sociais e até expulsão do grupo; isonomia por classes e níveis de cultura, variando em função da classe social e nível de cultura de cada um. A idéia de direito, portanto, está ligada a sociedade e indivíduo. E ao disciplinar, qualificar e julgar as relações sociais, os pontos de referência do direito são, acima de tudo critérios de utilidade social, e não critérios de natureza estética, moral ou filosófica. No campo do direito, a apreciação do sentido social da conduta e dos fatos detém-se nos limites de suas vantagens ou desvantagens para a coexistência dos indivíduos. Fundamentalmente, o direito está interessado nas repercussões sociais da conduta e dos fatos, e não nos pensamentos ou razões de natureza subjetiva que inspiraram as ações ou comportamento.
Ao direito importam, antes de tudo, a ordem, a segurança da sociedade,. Sua vocação é a disciplina da vida social, dentro da qual os indivíduos devem acomodar-se e, de tal modo, que as angústias, as perplexidades, as reações contraditórias e pessoais de cada qual não prejudiquem o funcionamento do sistema estabelecido da legalidade. A ordem jurídica, portanto, não poderia basear-se em noções destituídas de objetividade legal. Nesse caso estariam as noções de bem, de mal, de justo ou de injusto. Exatamente porque dirige e organiza, é função específica do direito decidir. Na ausência de decisões, haveria a anarquia. Aquilo que na moral e na filosofia permanece em caráter problemático a provocar discussão e meditações, no direito converter-se-ia em obstáculo ao comércio humano. O direito tem sede de segurança. O mundo, que ele comanda, resulta de um conjunto de fatores sociais - entre os quais o fundamental do modo de produção. O mundo social é, a um só tempo natural e construído. Natural porque fruto de condições objetivas. Construído porque dependeu do esforço físico e intelectual do homem, condicionado por aquelas condições objetivas. O problema específico do direito é estabelecer a legalidade fornecedora dos critérios mediante os quais um mínimo de segurança permitirá ao mundo social produzir, dispor e gozar dos bens; dirimir conflitos materiais entre as pessoas; inibir ou castigar as ações consideradas nocivas; velar por condições para a validade das manifestações da vontade individual; tudo visando assegurar estabilidade e condições pacíficas de funcionamento à ordem existente. Para atingir tais objetivos, o próprio direito criou noções adequadas. Assim, do conceito geral de legalidade, específico do direito, decorrem as noções de lícito e ilícito, noções objetivas tipicamente jurídicas. Lícito e ilícito são critérios legais objetivos fornecidos pela lei. Dependem de interpretação para que possam ser aplicados à infinita modalidade de que os casos se revestem. Mas são critérios ligados à atividade prática, dependentes de decisões sobre matérias concretas relativas ao funcionamento da ordem social. Assim, ao dizer que uma ação praticada é justa,  significa algo mais do que ao dizer que é lícita. Pode-se licitamente reclamar a qualquer tempo, o pagamento de uma dívida vencida. Pode-se, entretanto, não julgar justo fazê-lo em determinada oportunidade. Nem tudo que é lícito, justo é. Enfim, importante no estudo teórico do direito, é entendê-lo como instrumento de harmonização da sociedade em seus conflitos e o seu papel de implementação das mudanças da ordem jurídica a partir dela própria.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Guilherme Assis & CHRISTMANN, Martha. Ética e direito: uma perspectiva integrada. São Paulo: Atlas, 2001
CESARINO JÚNIOR, A F. Direito social. São Paulo: Saraiva, 1977
GUARESCHI, Pedrinho A. Sociologia crítica: alternativas de mudança. Porto Alegre: Mundo Jovem, 1984
HERCKENHOFF, João Batista. 1.000 perguntas: introdução à ciência do direito. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1982
LIMA, Hermes. Introdução à ciência do direito. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1983
NADER, Paulo. Introdução ao estudo do direito. Rio de Janeiro: Forense, 1986. Veja mais aqui e aqui.


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