quarta-feira, novembro 22, 2023

CONNIE PALMEN, VÂNIA VARGAS, GILVAN LEMOS & MUNDO POR VIR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Bach, the Fly, and the Microphone (2009), Colours of Spain (2015) e Open Sky (2020), da premiada violonista australiana Stephania Jones.

 

MAIS DE TRÊS MILÊNIOS E A METÁFORA QUÂNTICA – Um dia sonhava e o Sol sorria. Seguia ararajuba ao lado de um tamanduá-bandeira. Logo deparei a ariranha às voltas do macaco-aranha-da-cara-preta (não era o boi da infância? Não, não era!). A onça pintada seguia a trilha do mico-leão-dourado, pronde vão, não sei. Parecia mais que o cervo do pantanal guiava o lobo-guará e o cuxiú-preto. E confundiam-me como se eu fosse o boto cor-de-rosa à porta do Inferno de Dante: Abandona toda esperança! Ora, não! Parecíamos mesmo o Die Brücke encarnando o Zaratustra nietzscheano na busca da realidade. Pois sempre desejei nunca correr perigo ao lidar com o impossível, porque havia me tornado uma ponte sobre águas turvas numa viagem pelas cidades invisíveis de Calvino. Todos comigo, então. Uma semana e lá estávamos nós ouvindo Rebecca Solnit: Caminhar… é como o corpo se mede em relação à terra. Escrever é dizer a ninguém e a todos o que não é possível dizer a alguém... Sim. Mais de um mês já se passara, de qualquer modo, quando dei por mim entardecia de manhã e o dia já era outro. Queimei meu filme, arranquei todas as máscaras e não importunei ninguém, longe a sombra de um erro grave e a avareza. Nem deu pra perceber que era fim de ano quando ouvi Arundhati Roy: Hoje, parece que lutamos pela injustiça, aplaudindo-a como se fosse um sonho digno, sagrado pelo sistema de castas... Pois é, uma década e ainda insultam o decoro: o abismo do caos. Restava-me apenas um só olhar, nada mais que isso e um século para que eu entornasse o silêncio com quem vem desde A.E.C. precisando lembrar d’A cor púrpura de Alice Walker. Nunca é demais relembrar, que o diga Ai Weiwei: O mundo é uma esfera. Não há Ocidente nem Oriente. Tudo é arte. Tudo é política. O poder tem muito medo da arte e do poeta. A arte traz a possibilidade de defender os direitos mais essenciais. Os artistas não precisam se tornar mais políticos. Eles precisam se tornar mais humanos... Aí me dei conta de tantos milênios e quantos equívocos para quem segue pela E.C., entre tremores de terra em Rio Formoso e Flores, afora outros abalos sísmicos vez ou outra Nordeste afora. E já que morri anteontem não vi lá muita coisa. O tempo passou e contar três mil é como um piscar de olhos – por isso só contam 2, ou lá, ou loa – repercutindo à revelia de muitos. E só. Quisera tarde antes fosse nunca. Porque a poesia é o sacrifício de quem sonha. E quanta é a metáfora do que cada um de nós somos e não nos damos conta. Sei dos meus pecados, cônscio ou não, todos os meus castigos, tenho lá minha culpas penduradas na garganta do destino. Adivinho um pouco a cada dia. Uma supernova eu dedico como se ficasse suspenso e não me esgotasse com um ponto final, tornando-me vírgula depois de reticências e até mais ver.

 

HÁ COISAS QUE NÃO SÃO COMPARTILHADAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A morte por exemplo \ Ele deveria ir para o inferno apenas \ Quem foge sabe caminhar sem pressa através de cidades fantasmas \ ouça a madeira reclamar \ sinto que dá sob os pés \ Eles conhecem o som que tem expectativa nos passos a ressonância do medo/da emboscada \ Eles sabem que a qualquer momento debaixo do sapato \ você pode encontrar uma peça de roupa / a mão de um inimigo uma arma / um cigarro aceso um cuspe ou apenas poeira \ a poeira que foi feita para fazer os homens chorarem sem dor no peito \ a poeira que mais cedo ou mais tarde está destinada a morder \ Hoje eu sei que estou conhecendo o ritmo da curiosidade e da cautela \ enquanto me movo por um lugar que só me lembro \ quando em sonhos eu sonho \ eu empurro a porta \ minha sombra entra primeiro cai de cara \ ou talvez tenha estado lá olhando para o teto o tempo todo \ e do sonho dele surgiu meu começo \ Seus pés saem dos meus pés e da ponta de um deles \ o canto de uma carta aparece uma das cartas espalhadas pelo chão \ Eu me abaixo para pegá-los e quem estava deitado no chão desaparece \ Eu vou um pouco mais fundo \ Eu o encontro na frente \ seu olhar está esperando por mim \ Ele embaralha o baralho e joga em mim uma primeira carta que me atinge no peito \ A inocência ele diz / olhando nos meus olhos enquanto me força a ver mentalmente a frieza \ desde o momento em que coloquei na mesa como tudo que eu tinha \ sabendo que naquele jogo eu tinha que perder \ A segunda carta cai ao meu lado \ A calma ele diz olhando nos meus olhos enquanto eu sentia novamente o sangue circulando em meu peito \ como aquela primeira vez \ A terceira carta voou em direção ao meu rosto das pontas dos dedos \ A fé ele diz olhando nos meus olhos \ enquanto minhas mãos se lembravam da dor do qual foram feitos os altares demolidos \ A quarta carta roçou meu braço \ O coração ele diz olhando nos meus olhos \ então eu toquei meu peito e eu senti o vazio \ A quinta carta caiu aos meus pés \ E agora? \ pergunta olhando para mim com meus olhos \ O medo eu respondo e eu saio do quarto de costas para o espelho \ com a certeza de que isso é a última vez que vou perder.

Poema da escritora e jornalista guatemalteca Vânia Vargas.

 

SUA HISTÓRIA & A MINHA – [...] um poeta só pode tomar plena consciência de seu eu poético quando se apaixona por uma mulher em quem reside a deusa branca, alguém que une criação e destruição e que trará triunfo e destruição para sua vida. [...] Por que tão poucas pessoas entendem que o desdém dos outros, a condenação daqueles que você ama, na verdade fortalece o seu amor? Eu podia ler a consternação com a minha escolha nos olhos de todos ao meu redor. [...] Os amigos, assim como a família, querem que você permaneça inalterado, enquanto o amor tem a capacidade indecente de transformá-lo, de enriquecê-lo com uma nova visão de tudo o que você já conheceu. Quanto mais ela caía em desgraça com todos, mais obstinado era o meu impulso de protegê-la de um mundo hostil. [...] A memória é literária por natureza. Pega nos acontecimentos factuais e dá-lhes uma carga metafórica, emprestando ao que realmente aconteceu um peso simbólico, numa busca persistente pela segurança de uma história. [...] Eu, o grosseiro homem de Yorkshire, escolhi esta mulher exaltada acima de todas as outras, entreguei meu coração a uma criatura exuberante e excessiva, o protótipo da pretensão e da artificialidade, fanática, exagerada em todas as coisas.[...] Ela queria mais do que qualquer outra coisa amar alguém, mas quando realmente o fez, ela odiou. Ela queria mais do que tudo ser adorada, mas punia impiedosamente qualquer um que a amasse. [...] Não há paraíso sem cobra. [...] Tive que resistir à sensação de que o seu espírito mercantil estava corrompendo a pureza do meu amor pela poesia. [...] Criei coragem para fazer ao nosso mal-educado oráculo a pergunta que presumi — não, sabia — que obcecava minha noiva. Curvei-me sobre o quadro e perguntei se ficaríamos famosos. O impacto foi catastrófico e desafiou todas as minhas expectativas. Com força audaciosa, Pã nos mostrou por que o pânico recebeu seu nome: ele nos deu o maior susto de nossas vidas, como se tivéssemos nos tornado excessivamente familiares e não tivéssemos sido suficientemente respeitosos com sua divindade. Do nada, um marionetista furioso puxou abruptamente a mão de minha noiva, com os olhos cheios de lágrimas de medo, e - tendo desejado apenas agradá-la, perseguindo o sonho americano de uma existência gloriosa como um velho cão pastor obediente - eu escutei, atordoado, enquanto ela falava em línguas. Pan dispensou a lentidão do alfabeto e falou diretamente através dela em um rosnado profundo e sinistro, zombando de seu desejo por aquela exibição vazia, e perguntou se ela percebia que a fama que ela tanto desejava destruiria tudo o que ela tinha. [...] Tudo o que é negado e reprimido, todo conflito varrido para debaixo do tapete e rejeitado, numa cultura ou na existência de um indivíduo, procura uma saída e, em última análise – violento, destrutivo, diabolicamente disfarçado – volta-se contra a vida. [...]. Your Story, My Story (Amazon, 2021), da escritora holandesa Connie Palmen (pseudônimo de Aldegonda Petronella Huberta Maria Palmen). Veja mais aqui.

 

HÁ UM MUNDO POR VIR? - [...] O fim do mundo é um tema aparentemente interminável — pelo menos, é claro, até que ele aconteça. [...] Conforme vai se tornando cada vez mais evidente a gravidade da presente crise ambiental e civilizacional, proliferam novas e atualizam-se velhas variações em torno de uma antiquíssima ideia que chamaremos, em uma simplificação que este ensaio pretende complicar um pouco, “o fim do mundo”. São blockbusters do gênero fantástico, “docuficções” do History Channel, livros de vulgarização científica em vários níveis de complexidade, videogames, obras musicais e artísticas, blogs sintonizados em todas as faixas do espectro ideológico, reuniões científicas, revistas acadêmicas e redes de informação especializadas, relatórios e pronunciamentos de organizações mundiais as mais diversas, as invariavelmente frustrantes conferências de cúpula sobre o clima, simpósios de teologia, ensaios de filosofia, cerimônias da Nova Era e de outros movimentos neo-pagãos, um número exponencialmente crescente de manifestos políticos — toda sorte, enfim, de textos, contextos, veículos, enunciadores, públicos. A presença do tema na cultura contemporânea só tem feito aumentar, e cada vez mais rapidamente, justo como aquilo a que ele se refere, a saber, a intensificação das mudanças do macro-ambiente terrestre. Toda esta floração disfórica se dispõe na contracorrente do otimismo “humanista” predominante nos três ou quatro últimos séculos da história do Ocidente. [...] As coisas têm mudado tão rápido que se tornou difícil acompanhá-las [...] Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele. [...]. Trechos extraídos da obra Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins (Desterro, Cultura e Barbárie\Instituto Socioambiental, 2014), da filósofa Débora Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

 

O DEFUNTO AVENTUREIRO

[...] Lembrou que deixara de consertar as goteiras do quarto, botar água fervendo no formigueiro que aparecera bem debaixo da cama, endireitar a tranca da porta. À noite passada, não pudera dormir, cercado de pingos impertinentes. Graças a Deus, a noite hoje estava bonita. Sem lua, mas sem chuva. A verdade era que estava perdendo o gosto da habitação [...].

Trecho extraído da obra O defunto aventureiro (Bagaço, 2008), do escritor Gilvan Lemos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



quarta-feira, novembro 15, 2023

PAULA EINÖDER, AIMÉ CÉSAIRE, SARAH BAKEWELL, INCONFISSÕES & ENIGMA VITAL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Territórios (Rocinante, 2023), da violonista clássica Gabriele Leite, musicista, que figurou na lista Under 30 da Forbes, em 2020.

 

PALÍNDROMO OUROBOROS & SISIFISMO GLOCAL... – Piso errâncias da solidão pelo Vazio de Boötes, prófugo sonheiro pela constelação Ofícuo, ou sei lá: talvez aqui esteja mais respirável que as intoxicadas calçadas e ruas da minha cidade. Juro, talvez possa escapulir – sim, alívio pra quem sempre se viu enredado nas tramas da trilogia de Samuel Beckett, diante do Lamentável Expediente da Guerra. Absurdo é não haver mais lugar seguro, o inferno por toda parte. Confesso, meu coração Molloy, miseravelmente solitário: não é nem nunca será nada; apenas teimoso, como se buscasse o ventre materno a todo instante. Só sei e sinto o desperdício de todos os solilóquios: é tudo desconfortavelmente incomunicável, inevitavelmente falhamos e muito feio. Quase nada mais adianta, resta o inopinado. Pelas ruas as mulheres me pediam uma das pedras dos bolsos e, em troca, ofertavam o limiar da porteira do mundo, a origem de Courbet. Surpreso, não fazia outra coisa senão entregá-las a todas elas, sem que precisassem gratificar. Elas insistiam e mais persistiam, não sabiam que não tinha onde cair morto nem sequer mais sabia meu próprio nome, assombrado com as escaramuças das valias e o tiroteio da indiferença nas ondas do anonimato. O momento é quase uma amputação, não entendo seus gestos e falares, se festejam ou descontentes. Não as entendo, muito menos o que dissera Astrid Lindgreen: Eu era jovem, pobre e me sentia muito sozinha. Eu vim de uma cidade pequena e em Estocolmo não conhecia ninguém. De segunda a sexta trabalhava em escritório, mas os finais de semana eram tristes e chatos. Passei o tempo lendo livros... Se me chegara por penhora, não sabia. Eis-me aqui de volta, disse-lhe. Tal Malone, asseguro: a gente só sabe que vai morrer! E me apontou pelas esquinas as ocorrências – outras delas que desfiavam nas garras de homicidas impunes, nem quero ver e não perdoo ninguém, pro inferno todos! Não, não quis dizer isto! Longe de mim. Reconheço: gente envolvida em fanáticas irrelevâncias, pelo ódio aguça o risco e a fealdade dos interesses chovem bombas torrenciais na incógnita esperança dos olhos infantis daqui e das palestinas na Faixa de Gaza, das israelitas cativas, russas e ucranianas, desumanidade demais sob um Sol furioso e calor de 50 graus - cada vez mais difícil sobreviver. Quem asfixiado não escapole da clausura, quem oprimido não abre o peito à indignação, quem à porta não dá o milésimo passo. Já tenho muito no que pensar e fazer, buscar o asilo com as dificuldades de locomoção, a quase mendicidade, a claustrofobia sufocante, as sobras e os restos, tudo se esvai: apesar de tudo, muito em breve estarei morto. Preciso ficar calado, aprender o silêncio. Ela insiste e me recrimina Selma Lagerlöf: Ninguém pode salvar as honras do Senhor, mas abençoado será aquele que restaurar a coragem para suportar... Não consigo entendê-la: onde agora, quem e quando, a impossibilidade, aporias e coisas, outros silêncios. Toda religião é uma ofensa, como os noticiários: incapazes de perceberem todo dia a criação do universo - o círculo e a linha ondulada se faz reta rasgando limites, os erros e a minha vida, uma sucessão de hábitos. Quase nem há como ir adiante, a jaula é um labirinto em que se confundem começos e fins, decessos e ressurgências, saídentradas... O portão emperra e nem ouço direito agora Margarida Rebelo Pinto solícita: Acredita que o tempo em que estamos com aqueles que nos querem bem é sempre um tempo ganho, como quem acumula pontos de felicidade para o futuro... Não sobrou ninguém além da gentileza dela a me sorrir como se fosse um fantasma renitente a me exigir uma atitude que não sei qual nem onde estou. Sei que sou inominável no meio do silêncio e ouso o primeiro passo a cada dia e de novo, meus pedaços não vão tão longe, penetram a menor profundidade, como se tecessem invisiveis limites na dor do aniquilamento numa suposta cova mais rasa. Vou continuar, preciso ir, vou adiante mesmo assim: pra onde, como, quando... Não há razão pra desistir, nem pra desespero. O que sou e tudo passará. Ah, até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

LADY TITANIC - Eu tenho a maldição do Titanic e um iceberg na garganta \ Eu afundo no gelo do inferno \ o fogo nunca esteve tão frio \ Eu te empresto meu barco em pedaços \ ou eu te dou um pedaço do meu sorvete \ ser juiz e parte da viagem que não volta na jornada mais triste \ do navio mais louco \ Eu sou a Senhora Titanic \ aquele que nunca iria afundar em seus ferros majestosos \ agora eu tenho tudo acertado \ o tédio roxo do náufrago entre minhas sobrancelhas de inseto cleptomaníaco \ Eu nunca voltarei navegar pelos mares \ Eu estarei para sempre afogado no espelho que me cruzou \ Eu tenho a tragédia do Titanic e um iceberg nos olhos \ Eu afundo no inferno do iceberg \ O gelo nunca esteve tão quente.

MALES DE LA ENFERMEDAD (CONFESIONES) - o mal das flores envolve meu crânio \ como uma coroa de espinhos duros \ todo mundo me tem disse o mesmo \ que não há cura por esses males da alma \ o mal das flores rodeia meu cérebro \ como um corolário muito espinhoso \ todo mundo me tem disse igual que não há cura por tão grande e um mal doloroso.

Poemas da escritora e professora uruguaia Paula Einöder.

 

CAFÉ EXISTENCIALISTA – [...] A ansiedade é a vertigem da liberdade [...] É perfeitamente verdade, como dizem os filósofos, que a vida deve ser entendida de trás para frente. Mas esquecem a outra proposição, que deve ser vivida para frente. E se pensarmos sobre esta proposição, torna-se cada vez mais evidente que a vida nunca pode ser realmente compreendida no tempo, porque em nenhum momento particular posso encontrar o local de descanso necessário para compreendê-la. [...] As ideias são interessantes, mas as pessoas o são muito mais. [...] Você deveria fazer suas escolhas como se estivesse escolhendo em nome de toda a humanidade [...] Penso com tristeza em todos os livros que li, em todos os lugares que vi, em todo o conhecimento que acumulei e que não existirá mais. Toda a música, todas as pinturas, toda a cultura, tantos lugares: e de repente nada. Eles não fizeram mel, essas coisas, eles não podem fornecer nenhum alimento para ninguém. No máximo, se meus livros ainda forem lidos, o leitor pensará: Não houve muita coisa que ela não tenha visto! Mas aquela soma única de coisas, a experiência que vivi, com toda a sua ordem e a sua aleatoriedade - a Ópera de Pequim, a arena de Huelva, o candomblé na Bahia, as dunas de El-Oued, a Avenida Wabansia, as madrugadas na Provença , Tirinto, Castro conversando com quinhentos mil cubanos, um céu sulfuroso sobre um mar de nuvens, o azevinho roxo, as noites brancas de Leningrado, os sinos da Libertação, uma lua laranja sobre o Pireu, um sol vermelho nascendo sobre o deserto , Torcello, Roma, todas as coisas de que falei, outras que deixei por dizer — não há lugar onde tudo isso possa voltar a viver. […] De agora em diante, escreveu ele, devemos sempre levar em conta o nosso conhecimento de que podemos destruir-nos à vontade, com toda a nossa história e talvez com a própria vida na Terra. Nada nos impede, a não ser a nossa livre escolha. Se quisermos sobreviver, temos que decidir viver. Assim, ele ofereceu uma filosofia projetada para uma espécie que havia acabado de se assustar, mas que finalmente se sentia pronta para crescer e assumir responsabilidades. [...] poucas pessoas arriscarão a vida por uma coisa tão pequena como levantar um braço – mas é assim que os poderes de resistência de alguém são desgastados e, eventualmente, a responsabilidade e a integridade de alguém vão com eles [...]. Trechos extraídos da obra At the Existentialist Café: Freedom, Being, and Apricot Cocktails (Random House, 2017), da premiada escritora e professora britânica Sarah Bakewell, fornecendo um relato dos existencialistas modernos que vieram por conta própria antes e durante a Segunda Guerra Mundial, discutindo as ideias da fenomenologia e como influenciou a ascensão do existencialismo.

 

DISCURSO DO COLONIALISMO – [...] A maldição mais comum neste assunto é ser a vítima de boa-fé de uma hipocrisia coletiva, hábil em colocar mal os problemas para legitimar melhor as odiosas soluções que lhes são oferecidas [...] O que estou querendo dizer? Nesta ideia: que ninguém coloniza inocentemente, que ninguém coloniza impunemente; que uma nação que coloniza, que uma civilização que justifica a colonização – e portanto a força – já é uma civilização doente, uma civilização moralmente doente, que irresistivelmente, progredindo de uma consequência a outra, de uma negação a outra, clama pelo seu Hitler, Quero dizer, sua punição. [...] As pessoas ficam surpresas, ficam indignadas. Eles dizem: “Que estranho! Mas não importa – é o nazismo, vai passar!” E eles esperam e esperam; e escondem de si mesmos a verdade de que isso é barbárie, mas a barbárie suprema, a barbárie culminante que resume todas as barbáries cotidianas; que é o nazismo, sim, mas que antes de serem suas vítimas, foram seus cúmplices; que toleraram aquele nazismo antes que ele lhes fosse infligido, que o absolveram, lhe fecharam os olhos, o legitimaram, porque, até então, só tinha sido aplicado a povos não europeus; que cultivaram esse nazismo, que são responsáveis por ele, e que antes de engolir toda a civilização ocidental e cristã nas suas águas avermelhadas, ela escorre, escorre e escorre por todas as fendas. [...]. Trechos extraídos da obra Discurso sobre el colonialismo (Akal, 2006), do poeta francês Aimé Césaire (1913-2008), que em sua obra Notebook of a Return to the Native Land (Wesleyan Poetry Series -  Wesleyan University Press, 2001), expressa que: […] Cuidado, meu corpo e minha alma, cuidado sobretudo em cruzar os braços e assumir a atitude estéril do espectador, pois a vida não é um espetáculo, um mar de tristezas não é um proscênio, e um homem que chora não é um urso dançarino. [...] Um homem gritando não é um urso dançante. A vida não é um espetáculo. [...]. É dele a frase: Uma civilização que se revela incapaz de resolver os problemas que cria é uma civilização decadente. Uma civilização que escolhe fechar os olhos aos seus problemas mais cruciais é uma civilização atingida. Uma civilização que usa seus princípios para trapaças e enganos é uma civilização moribunda. Veja mais aqui.

 

... Em cada verso o abismo aberto. \ O limbo como um hímen (não comestível).

Versos de Cinco poemas (2012), extraído da obra Inconfissões (CriaArt, 2023), do poeta Vital Corrêa de Araújo, organizado pelo poeta e professor Admmauro Gommes, autor da também recém lançada obra O enigma vital – aspectos da obra poética de Vital Corrêa de Araújo (CriaArt, 2023). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 


 


 


sexta-feira, novembro 10, 2023

JUDITH BEVERIDGE, ANNE PERRY, EMANUELE TREVI & MAURO MOTA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Was kann das Herz dafür (2005), Herzenssache (2007), Dichtung und Wahrheit. Das Beste aus 10 Jahren (2013), Christmas with Salut Salon (2014), Salut Salon Live (2015) e dos DVDs Klassisch verführt (2009), Salut Salon. Der Film (2012) & A Carnival of the Animals and other Fantasies (2016), do quarteto alemão Salut Salon, formado pelas violinistas Angelika Bachmann e Iris Siegfried, pela pianista Anne-Monika von Twardowski e pela violoncelista Sonja Lena Schmid.

 

DECÁLOGO: EMPATENTRERRACERTOS... – Era uma vez e outra, quase sempre ressurreto pelas paisagens de silêncio das encruzilhadas, sem saber de nada até morrer pela primeira vez, porque mais de duas vezes vinte tentativas malogradas no alvo e eu ali efebo afoito de não sei quantas raspando a trave, tirando fino de todo jeito e no bambo da caçapa, até que enfim, graças, quantas humilhações, já sem autoindulgência e pronto para outra com todo entusiasmo pubescente deliberado de imberbe ousado. Isso era eu e a salvação no que dissera Marie Curie: Nada na vida deve ser temido, somente compreendido. Agora é hora de compreender mais para temer menos... Houve uma terceira, ipso facto, evidentemente divertida e no quarto foi surpreendente e deu azo a tanto, o tempo passava como se eu me mantivesse insenescente virado da breca mundo afora. Pra que contar das falhas se da quinta em diante nada mais incipiente sem quase nem fiasco de imperícia, era pura indignação porque já se passavam das seis e tão irritantemente emborcado pelas setes, quem sabe lá pra mais de oito mesmo, vai saber. Não me vira que nem Biritoaldo no inferno de Strindberg, era minha catábase no que fui Rimbaud, muito pior: ali o ambívio onde Tyrésias cometia um extispício para adivinhar meu futuro e a dizer Cecília Meireles: Pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças... A vida só é possível reinventada... Nove mais uma e desinventava porque já perdia a conta nos dedos com todo abatimento pelos insultos da sorte e o que dizer dos desinformados com seus maiúsculos delírios e grosserias atrozes, como se as coisas fossem assim mesmo e não são. Ah, não! Não é pegar ou largar, não dá mais essa (e um parêntese: o planeta esquentando e Terra a sangrar nos andes bolivianos, no Cazaquistão e em Madagascar, ninguém nem aí se a gente findar dissolvido com os raios de explosões das quilonovas, valha-me! Não vai dar pra se esconder na Argolândia nem no raio que o parta!). Só diria que nunca é tarde apesar da desfeita patriotária: o que era para suplantar sequer chegamos perto, só retrocedemos ribanceira abaixo! Quem teria brio... Era Frida e eu renascido da segunda morte, todo pronto pro Quarup com a La Catrina de Guadalupe y Posada. E a dama memento mori tal carpideira uivante só porque mataram de novo o pianista Tenório Júnior e era uma desgraça atrás da outra, com o desembesto da Catirina pro meu Bumba-meu-boi: Mestre Tiá, tá tudo desconchavado. Porque tá faltando um parafuso... Mande a cantadeira cantá e os tocadô tocá que é pra podê eu funcioná!... E não foi pouco de noite quando me disse versos de Anne Sexton: E eu digo apenas com meus braços estendidos naquele lugar de pedra, qual é a sua morte mas um pertencimento antigo, uma toupeira que caiu de um de seus poemas... Pela décima milionésima vez e lá estava eu com o risco do salto mortal e eu dera cambalhota e destemido por um triz senão quebrava o pescoço e babau: a vida feita de vozes e caminhos plurais, a reinventar de mim cenários e gestos, a reexistir disruptivo e decolonial. Estamos todos no mesmo barco, entre as escolhas e arrependimentos, com o pavor dos acrófobos. Eu com meu amuleto de nada - Viva: a vida é uma festa! Mais será... Até mais ver!

 

KALUTARA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu irei para Kalutara. \ Eu li sobre isso uma vez em um poema \ e foi conquistado por seu nome lindo e confuso. \ Isso me emocionou com o desejo pelo elegante \ pescadores magros com pernas pretas \ como corda com nós \ (brilhante e limpa para o sexo) \ meio escondido, sob sarongues pendurados \ como panos de prato. \ Sorrindo através dos dentes brancos \ e gengivas rosa brilhante \ são mestres perfeitos de sua pele e destinos finos \ e diariamente, eles pescam algo que vale a pena ter, \ ao vivo, balas de prata, \ algumas surras ainda bocas abertas, \ maltratadas. \ Mulheres vêm à praia com cestos e crianças, \ prontas para reivindicar o que é delas. \ Os homens de pernas finas gritam nomes, \ Lakshika, Hashani, Dini \ – e eles riem, seus olhos como fogo negro no mármore.

Poema da premiada poeta, editora e acadêmica australiana Judith Beveridge.

 

A FACE DO ESTRANHO - […] Muitas mulheres desperdiçam suas vidas sofrendo porque não têm algo que outras pessoas lhes dizem que deveriam querer. Se você está feliz ou não, depende até certo ponto das circunstâncias externas, mas depende principalmente de como você escolhe encarar as coisas, se você mede o que tem ou o que não tem. [...] Esteja ciente de que você só pode realmente ajudar as pessoas ajudando-as a se tornarem o que são, e não o que você é. Já ouvi você dizer: 'Se eu fosse você, faria isso ou aquilo'. 'Eu' nunca sou 'você' - e minhas soluções podem não ser as suas. [...] Se você está feliz ou não, depende até certo ponto das circunstâncias externas, mas depende principalmente de como você escolhe encarar as coisas, se você mede o que tem ou o que não tem. [...] Antes de sentir pena de si mesmo, olhe bem mais de perto para os outros e então decida com quem você mudaria ou poderia mudar de lugar e que sacrifício de sua natureza você estaria preparado para fazer para conseguir isso. [...]. Trechos extraídos da obra The Face of a Stranger (Ballantine, 2008), da escritora britânica Anne Perry (pseudonimo de Juliet Hulme). Veja mais aqui.

 

DUAS VIDAS - [...] eu não vou admitir uma dor ou uma doença nunca serve para nada, é apenas um consolo moralista e, em qualquer caso, eu desistiria de bom grado desses famosos frutos do sofrimento. Não nascemos para nos tornarmos sábios, mas para resistir, escapar, roubar algum prazer de um mundo que não foi feito para nós. [...] Porque vivemos duas vidas, ambas destinadas ao fim: a primeira é a vida física, feita de sangue e fôlego, a segunda é a que se passa na mente de quem nos amou. E quando até a última pessoa que nos conheceu de perto morre, bom, então realmente nos dissolvemos, evaporamos, e começa a grande e interminável celebração do Nada, onde as ferroadas da falta não podem mais picar ninguém. [...] a felicidade deveria consistir em cada vez menos atenção a si mesmo. Mais do que autocuidado! Quanto menos você souber sobre quem você é e o que deseja, melhor será para você. [...] Qualidades humanas ou literárias? Vá e distinga: as obras-primas são sempre, de uma forma ou de outra, secreções organizadas, como se um corpo fosse capaz de suar cristais ou confetes, em vez das habituais gotas banais e disformes. [...]. Trechos extraídos da obra Due vite (Neri Pozza, 2021), do premiado escritor e crítico italiano Emanuele Trevi.

 

MAURO MOTA, UMA BIOGRAFIA

... Tudo nos seus espaços, / o mundo e o carrossel. / Tudo menos o andejo / homem que se conclui. / Olho-me e não me vejo, / não sei para onde fui...

Trecho poema Natal, extraído da obra Mauro Mota e o seu tempo – biografia (AIP/Biblioteca de Jornalistas de Pernambuco, 1987), do advogado, jornalista, historiador e professor Nilo Pereira (1909-1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 


quarta-feira, novembro 01, 2023

ADANIA SHIBLI, RIKU ONDA, SARAH HALE, SOCORRO CUNHA & VANISE REZENDE

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Live from Jazz St. Louis (2023) & Live at Cape Cod Jazz Festival (2017), da musicista, compositora, arranjadora e saxofonista Grace Kelly, considerada pela DownBeat – 2016, a Rising Star - Alto Saxophone, ao lançar o álbum Trying to Figure It Out (PAZZ, 2016).

 

A VIDA NA NÓDOA DA PARÁBOLA – O que tivera nada mais que a solidão diuturna, vez ou outra o assalto do inopinado. Nunca neguei um sorriso, mais que hospitaleiro, braços abertos – sobrevivente de enrascadas recorrentes. Não fora diferente outro dia: sempre apostei no melhor, mesmo que tudo desse errado depois. Daquela vez ela chegara tão ádvena quanto insólita. Quem aquela? Retirou seu turbante e pude ver-lhe os olhos vivos inquietos, o indicador entre os lábios carnudos a sussurrar-me misteriosamente Trudi Canavan: Palavras são mais afiadas que espadas. Elas apenas não destroem a mobília... Como? Manteve-se em silêncio ao meu lado ocultando-se dalguma situação. Flagrou-me o cenho cerrado e esclareceu tão sussurrantemente enigmática quanto antes: A verdadeira bondade consiste em lutar contra o mundo inteiro pelo bem dos outros... Cá comigo: desconfiei e quase matei a charada. Ah, não, não podia ser outra, tinha de ser Shen Te, a meretriz premiada pelos deuses como A alma boa de Setsuan do Brecht. Tinha de ser e peguei o fio, passei a checar e aquiesci com um cochicho: Sim? E, da mesma forma, ela começou a se expandir pelos cotovelos: o que seria o nervo de todas as coisas e maldades, para sobreviver alheia em um mundo achatado pelo pastiche e assistindo a passagem do Cometa do Diabo, investigando quem chocava o ovo da serpente, embora não soubesse ao certo qual e como, contudo, só com o estralar da casca e a tragédia já tomava conta - nunca serão mais os mesmos. Claro! Agora são os aloprados que possuem o talento potencializado para a crueldade aos safanões, com seu coração escuro e secreto às risadas esculhambando de vez tudo que nos resta de dignidade ou conquistas – por aí e por todo canto, Congresso Nacional, Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores, Executivo pra cima e pra baixo dos Estados e Municípios, as muitas esferas do Judiciário... Que será de mim, de nós... Tomou fôlego e disse-me Roseanne Barr: Esperar que a vida te trate bem é tolice, assim como esperar que um touro não te atinja porque você é vegetariano... As mulheres são amaldiçoadas e os homens são a prova... E desconversava retomando o assunto, acompanhava as curvas do seu raciocinio e não seria nada fácil. Sabia que o tempo da natureza não batia com o relógio, a competição só favoreceu sempre quem ditou todas as regras escolhendo a seu modo qual meritocracia. E tome e pei, reticências mil! Era eu no clímax da Pirâmide de Freytag, para mim o arco da queda, o fim da picada: como se pulasse do trampolim de qualquer jeito para mergulhar de vez no cúmulo da incerteza. Como sempre me arrebentava no final, era assim tomando pé de que restava só morrer confortável duma hora para outra ou espalhando meus ossos ruas afora, engasgado com as razões das coisas hoje em dia para se estar vivo. Desculpe-me a falha, a vida inteira nunca fui nada, nem pude, escapava e não pedia nada ou tão pouco no apelo mudo. Ela baixou as vistas e me disse Annie Ernaux: Se não escrevo as coisas, elas não encontram seu termo. São apenas vividas... E dos seus olhos lacrimejantes as águas do rio me ensinavam a ser sempre humano num mundo tão endurecido. Deu-me uma rosa escarlate e com um sorriso aparentemente sem motivo, fez-se imoderada. Lembrou-me que a maior parte do tempo esquecia de ser outro que não eu mesmo. Houve o que não se contou nem contaria jamais diante da surpresa quase insultante: os meus sonhos todos malograram entre as cinzas do passado às esmolas da generosidade alheia nem tão celerada quanto interesseira - só quebrei a cara um zilhão de vezes com se fosse levado às vassouradas pelo opróbrio. Fiz do que sobrou dos outros como se fossem os meus sonhos e os restituí à vida. Ela, então, solfejou a Cantiga do Fim do Mundo... E não sobrei na curva, mais uma vez sobrevivi, acumulando aprendizado. Até mais ver.

 

ESTÂNCIAS À MEMÓRIA DE L.E.L

Imagem: Acervo ArtLAM.

E você se foi! \ a rosa nupcial \ Fresco em tua cabeça loura; \ Uma terra de cenas novas, selvagens e maravilhosas \ Antes que sua fantasia se espalhe \ Canção em teus lábios. \ -Pode não ser; \ - Mal acredito que você esteja morto! \ "Traga flores, flores claras!" \ -Mas quem para você \ Uma reunião de ofertas pode trazer? \ Que pintam a tua Musa, como Huma brilhante, \ Para sempre na asa? \ Ou pegue os tons que emocionaram a alma, \ Derramado da doce corda da tua Lira? \ Eles dizem que os botões quentes de esperança do seu coração \ Nunca havia sentido uma praga; \ Que no meio de multidões gays, em salões brilhantes, \ Teu passo sempre foi leve, \ Nas reuniões ao redor da lareira social \ Nenhum exibia um sorriso mais brilhante. \ E ainda assim, em teu mundo de música, \ As sombras escuras sempre dormem; \ Os seres formados pela tua imaginação, \ Parecia nascido apenas para chorar, \ - Por que as doces fontes da tua alma derramaram \ Uma maré de tristeza tão profunda? \ A sombra profética foi lançada \ Pela terra sombria de África; \ Que assim a tua fantasia esteja sempre ligada \ O veneno com a flor? \ E no meio dos mais belos caramanchões da felicidade \ Ainda criou o túmulo solitário? \ Em vão procuramos a fonte profunda do Pensamento, \ Seus mistérios ninguém pode contar; \ Só sabemos que os teus sonhos foram tristes, \ E assim aconteceu \ A coroa brilhante desse \ Amor te coroou para a Morte! \ -Destino sombrio - e ainda assim está bem: \ - Sim, tudo bem para você; tua força falhou \ Para suportar a corrente do Exílio, \ O grupo cansado, ansioso e com saudades de casa, \ Isso murcha o coração e o cérebro, \ - E Ele, que moldou o pulso fino da tua alma, \ Por misericórdia poupou a dor. \ E enquanto lamentamos uma Plêiade perdida \ Do céu elevado da Mente, \ Uma lira sem corda, cujos "acordes encantados" \ Tensões respiradas que nunca podem morrer, \ Dá-nos, ó Deus, a fé que vê \ A casa do Espírito nas alturas. \ Doce Menestrel do coração, adeus; \ Quantos sofrem por ti! \ O que os reis nunca poderão comandar é teu, \ Homenagem do amor do Free: \ A terra florida, o céu estrelado, \ A lágrima do enlutado, o suspiro do amante, \ Consagre a tua memória. \ E isso é fama! A gloriosa refeição \ É o teu além da decadência, \ Landon irá enfeitar a tradição do britânico \ Até que a terra passe; \ O que a riqueza da Índia era pobre para comprar \ Ganhou pela postura de uma Mulher!

Poema da escritora estadunidense Sarah Hale (1788-1879). Veja mais aqui.

 

PEQUENO DETALHE - [...] respire fundo. Pois bem, não há como voltar atrás agora, não depois de cruzar tantas fronteiras, militares, geográficas, físicas, psicológicas, mentais. [...] Assim que percebi que inevitavelmente falho sempre que tento navegar nas fronteiras, decidi ficar dentro dos limites da minha casa tanto quanto possível. E como esta casa tem muitas janelas, através das quais os vizinhos e os seus filhos podem facilmente ver-me, e apanhar-me a ultrapassar fronteiras mesmo quando estou na minha própria casa, pendurei as cortinas, embora às vezes me esqueça de as fechar. [...] E, novamente, um grupo de soldados captura uma menina, estupra-a e depois mata-a, vinte e cinco anos antes de eu nascer; este pequeno detalhe, que outros podem não pensar duas vezes, ficará comigo [...] O homem, e não o tanque, prevalecerá. [...] As fronteiras impostas entre as coisas aqui são muitas. É preciso prestar atenção a eles e navegar por eles, o que, em última análise, protege a todos de consequências perigosas. [...] há quem considere esta forma de ver, ou seja, focar atentamente nos mínimos detalhes, como o pó na secretária ou a merda de mosca num quadro, como a única forma de chegar à verdade e à prova definitiva da sua existência. [...] A solidão perdoa tanto as fronteiras invadidas [...]. Trechos extraídos da obra Minor Detail (New Directions Publishing, 2020), da escritora e ensaísta palestina Adania Shibli.

 

OS ASSASSINOS - [...] Há um velho ditado que diz que quando um idoso morre, uma biblioteca desaparece. [...] Acredito que existem dois tipos de pessoas neste mundo: aquelas que frequentam livrarias e aquelas que não o fazem. [...] Sinto-me seguro de que o mundo está cheio de livros que as pessoas leem constantemente. Não importa quanta informação esteja disponível, ou quão fácil seja obtê-la, quando tudo estiver dito e feito, os livros só podem ser lidos se você os ler, linha por linha, página por página. [...] O medo é um tempero que dá credibilidade. A quantidade certa espalhada em qualquer história a torna plausível. [...]. Trechos extraídos da obra ‎The Aosawa Murders (Bitter Lemon, 2020), da premiada escritora japonesa Riku Onda.

 

A ENTREVISTA COM A ARTE DE SOCORRO CUNHA

Tenho participado de momentos marcantes para mim, com o desenvolvimento deste trabalho...

Entrevista com a escritora, pedagoga, contadora de histórias e compositora Socorro Cunha. Veja aqui.

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AFAGOS DA TERNURA

[...] Queremos cuidar da Mãe Terra que nos surpreende em cada estação, e aprender a lição das águas que se renovam na passagem dos rios e nas ondas do mar. Somos gratos à vida que muito nos tem presenteado... [...].

Trecho extraído da obra Afagos de Ternura (Autora, 2023), da escritora e blogueira graduada em Comunicação Social e Jornalismo, Vanise Rezende. Veja mais aqui.

 



quarta-feira, outubro 25, 2023

DELMIRA AGUSTINI, ELIF SHAFAK, MASUD KHAN, GINÁSIO MUNICIPAL & PINTANDO NA PRAÇA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Tudo é inspiração, tudo tem som, cor e ritmo.

Ao som dos álbuns Attraction (1995), Night Train (Munich, 2002), Come Escape with Me (Munich, 2005), September Suite (Munich, 2005), Sketches (Munich, 2010), Twelve (In+Out, 2012), Blue Whisper (In+Out, 2015), Road to the Sun (AmFi, 2018) e Persistence (AmFi, 2020), da pianista Azerbaijani, Amina Figarova.

 

TANTO MELHOR SERÁ QUANTO MAIS OU MENOS – Para quem pelas lonjuras e latitudes abissais, tanto faz se perto ou não na direção das ventas, cipoadas de todo jeito: quem da carne à pedra bruta cant&verso noitedia luz&ar fosse a vez da voz. Reviravoltas, ah, é da vida, o que vai volta e depois se não entorta sobram as carpideiras com seus olhares indigentes sobre o sangue derramado: o imortal partiu desta para não sei qual. Quantas vezes minha cabeça rolando pelas escadarias, escondia o medo mesmo que tivesse tomado de pânico do mundo no maior pavor! Talvez hesitações, talvez: quem não cometeu um grave erro por não ter escolha, nem era possível predizer. Fiz o melhor que pude, sabia, ainda era pouco, carga pesada demais por castigo. Eis o desejo entrando pela porta com Clarice Lispector: As coisas obedecem ao sopro vital. Nasce-se para fruir. E fruir já é nascer... de repente as coisas não precisam fazer sentido. Satisfaço-me em ser... E sou como se o pudor fugisse pela janela, como quem livrasse o raio num seixo abrigo, outro seria triz e vento: como quem morresse para ressuscitar outro no mesmo instante, nem queria que me vissem assim, porque já Denise Levertov ao ouvido: Gosto de encontrar o que não se encontra imediatamente, mas está dentro de algo de outra natureza, em repouso, distinto...Quem diria não ao ódio e o amor fizesse festa das entranhas e estrelas sorrissem o prêmio da vida. Quem não Sylvia Plath: Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras... Talvez quando nos encontramos querendo tudo, é porque estamos perigosamente perto de não querer nada... Tanto melhor se bem soubesse o que de mais fosse ao menos real: o filho vale impressão de pai ou não. E era Nêmesis nua e com derrisão na janela da insônia... Suas mãos cheiravam a saudade e inventavam fragrâncias agradáveis. Sabia da excentricidade da paixão, ladra de corações e o seu revide escarlate: quem da mão promove aceno pra de si compartilhar caminhos. Também tinha a minha história de sobrevivência, segui o curso e transbordei, coração saindo pela boca cheia de palavras sem ter onde despejar e sucumbindo ao inexorável - apenas tentei trilhar meu próprio destino e me reconciliar comigo mesmo. Talvez o mundo não seja o inferno que se vê e vive, talvez. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O NÓ: O idílio deles era um longo sorriso de quatro lábios... \ No colo quente da loira primaveril \ Eles se amavam tanto que entre seus dedos sábios \ A forma divina da Quimera pulsou. \ Nos palácios luminosos das tardes calmas \ Eles falavam uma língua que parecia chorar, \ E beijaram-se profundamente até morderem a alma!... \ As horas caíram como flores douradas, \ E o Destino interpôs suas duas mãos geladas... \ Ah! Os corpos cederam, mas as almas trançaram \ Eles são o nó mais intricado que já existiu... \ Em luta com suas loucas complicações sobre-humanas \ As Fúrias da vida quebraram suas mãos \ E Ananké cansou seus dedos supremos...

TUA BOCA: Eu estava fazendo um trabalho divino, na rocha \ Crescente do Orgulho. \ Da vida distante, \ Alguma pétala vívida voou para mim pela manhã, \ Alguns beijos durante a noite. \ Tenaz como um louco, \ Minha obra divina na rocha secou. \ Quando sua voz derrete como um sino sagrado \ Na nota celestial a vibração humana, \ Ele estendeu seu laço dourado até a borda da sua boca; \ — Maravilhoso ninho de vertigens, sua boca! \ Duas pétalas de rosa fechando um abismo…\ — Trabalho, trabalho de glória, doloroso e leve; \ Tecido onde meu espírito se tramava! \Você permanece na orgulhosa cabeça da rocha, \ E eu caio, sem fim, no abismo sangrento!

Poemas da poeta uruguaia Delmira Agustini (1886-1914), Veja mais aqui.

 

AS QUARENTAS REGRAS DO AMOR – [...] Tente não resistir às mudanças que surgem em seu caminho. Em vez disso, deixe a vida viver através de você. E não se preocupe, pois sua vida está virando de cabeça para baixo. Como você sabe que o lado que você está acostumado é melhor do que o que está por vir? [...] O passado é um redemoinho. Se você permitir que ele domine o seu momento presente, ele o absorverá. O tempo é apenas uma ilusão. O que você precisa é viver este exato momento. Isso é tudo que importa. [...] Coisas que podem parecer maliciosas ou infelizes são muitas vezes uma bênção disfarçada, enquanto coisas que podem parecer desagradáveis podem ser prejudiciais a longo prazo. [...]. Trechos extraídos da obra The Forty Rules of Love (Penguin, 2015), da escritora turca Elif Shafak.

 

A EXPERIÊNCIA DOS SONHOS – [...] Sei o que é o domingo para um homem pobre que trabalha. Sei, principalmente, o que é a noite do domingo e se pudesse dar um sentido e uma figura àquilo que sei, poderia fazer de um domingo pobre uma obra de humanidade. [...]. Trecho extraído da obra De l’Expérience du Rêve à la Réalité Psychique - Le Soi Cachê (Gallimard, 1976), do psicanalista paquistanês Masud Khan (1924–1989).

 

GINÁSIO MUNICIPAL

[...] Aos 75 anos da História do Ginásio Municipal, recheada de eventos, a marca que criou para a educação palmarense o torna maior do que é pela capacidade de sempre abrir suas portas e janelas a quem sempre desejou aprender [...].

Trecho extraído da obra História do Ginásio Municipal de Palmares (Rascunhos, 2023), do professor e escritor Marcondes Calazans. Veja mais aqui, aqui e aqui.

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Pintando na Praça

No próximo dia 28 de outubro, a partir das 9h, acontecerá na Praça Paulo Paranhos, centro de Palmares, mais uma edição do projeto Pintando na Praça, uma realização Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), que é uma associação de caráter social, educacional, artístico e cultural, presidido pelo poeta e artista plástico Paulo Profeta, e é realizada anualmente desde 2010, tendo por objetivos principais o de formação e capacitação de artistas e arte-educadoras nas áreas de artes visuais, animação e empreendedorismo cultural; promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico, entre outros. O projeto além de Palmares também já contemplou diversos municípios pernambucanos, não só contando com atividades e exposições de artistas pernambucanos de renome nacional, como revelando artistas locais e da região Mata Sul de Pernambuco, entre outras regiões do estado. A instituição ainda desenvolve atividades na Escola de Belas Artes Vale do Una, dispondo de cursos e oficinas de Pintura Artística I, Desenho Artístico I, Modelagem Tridimensional em Argila, Técnica de Modelagem, Encadernação Artesanal, Serigrafia Artística através de Técnicas Artesanais, Técnica de Marcheteria com Folheado e Produtos de Resina em Poliéster, como também exposições oriundas do BarroFino, com peças artesanais em barro, entre outras atividades. SERVIÇO: Evento: Pintando na Praça em Palmares. Data & horário: 28/10, a partir das 9h. Onde: Praça Paulo Paranhos – Palmares – PE Contato: (81) 98853-0231. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

POESIA VITAL ABSOLUTA

Lançado recentemente durante a segunda da edição da Feira de Livros & Artes dos Palmares (FLIARP), o livro Poesia Vital Absoluta (CriaArt, 2023) já está disponível para os interessados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...