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sexta-feira, junho 02, 2023

JUANA PAVÓN, SARAMAGO & ALTERIDADE, MLODINOW, JACQUARD, PAULO FREIRE & ARTE NA ESCOLA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Primeiras Impressões (2018), Em expansão (Balxtream, 2019) e Carol Panesi e Eleva Big Band (2021), da premiada violinista, arranjadora e multi-instrumentista Carol Panesi.

 

QUEM ANDA SABE QUE LEVITAR É MELHOR - Hora em dia, tolhido invariavelmente pelos afazeres muitos e diuturnos, peso da faina nas pálpebras nada sonolentas, altivas. Quando não, fôlego de leseira besta, rio de mim mesmo pelos feneceres e vicejares. Nem sempre relógio no ponto, não me esqueço: sorrir é melhor que prantear a morte da bezerra ou derrocadas zis pelos tombos treinados no chão abissal da minha terra. Relevo e folgo, voo meu fandango feito Marco Polo pelas invisíveis de Calvino: Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá. Topadas e escorregões me fizeram gato escaldado e, mesmo desequilibrado, sou por desconstruir moldes, dicotomias, estereótipos. Ou melhor: o desmonte para remontar, nem sempre de ponta a cabeça, o que dá pra rearrumar. Nunca fui logocêntrico e persigo meu caminho escapando da influenza aviária e doutras moléstias de plantão; quem dera, a Rua de mão única de Benjamim: livros e prostitutas pela nebulosa Halteres. Aluamentos fortuitos, nada demais. Há quem faça por aí o meu retrato falado que não diz nada, que coisa! Excogito funambolicamente: tanta coisa eu não sei, nem poderia, entre a sofisticação e a sacanagem, à tripa-forra. Vezoutra salvo pela surpresa: topo com a Darja Tuschinski no Olho do Furacão, em Bali. U-hu! Ora, também sou filho de Deus, né? Ela me faz o Sinal Wow!, franqueando seus dotes corporais para me assegurar que o que comumente vejo ninguém vê. E é? E vamos nós pelo efeito Unruh. (A culpa é dela de me apaixonar assim à toa). Inadvertidamente, pra meu desgosto temporário, sempre aparece um feito o Rei Lear de Shakespeare, só para me enquadrar na cena 2 do primeiro ato: Admirável escapatória do homem feemeiro essa de colocar suas veleidades lúbricas sob a responsabilidade de uma estrela... Eu, não. Sai pra lá! O que sei é que nunca sobrei sem pagar o pato, mesmo que eu nunca tenha sequer visto por perto um só que seja pra remédio. Botei tudo na conta do passado, valendo-me do Fernando Pessoa: Não sei quantas almas tenho. \ Cada momento mudei. \ Continuamente, me estranho. \ Nunca me vi nem achei... Bato a roupa, tiro a poeira. E quando desperto estou na mesma feito quem foi jogado de casa pra fora. Pelo sim ou não e vice-versa, levo nos peitos e me faço de leso acimabaixo, afinal sei que destino fiz e até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM

[...] Estar no mundo sem fazer história, sem por ela ser feito, sem fazer cultura, sem “tratar” sua própria presença no mundo, sem sonhar, sem cantar, sem musicar, sem pintar, sem cuidar da terra, das águas, sem usar as mãos, sem esculpir, sem filosofar, sem pontos de vista sobre o mundo, sem fazer ciência ou tecnologia, sem assombro em face do mistério, sem aprender, sem ensinar, sem ideias de formação, sem politizar, não é possível. [...] Nenhuma formação docente verdadeira pode fazer-se alheada, de um lado, do exercício da criticidade que implica a promoção da curiosidade ingênua...e do outro lado, sem o reconhecimento do valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade, da intuição ou adivinhação. [...]. Como professor preciso me mover com clareza na minha prática. Preciso conhecer as diferentes dimensões que caracterizam a essência da prática, o que me pode tornar mais seguro no meu próprio desempenho. [...].

Trecho extraído da obra Pedagogia da autonomia: saberes necessários à práticas educativas (Paz e Terra, 1996), do educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

A ARTE – Décadas de estudos e pesquisas tenho dedicado à Arte, acrescentada pela leitura da obra Imaginação e criação na infância (Ática, 1930-2009), de Vigotski, na qual pude entender que: [...] só por esse caminho podemos compreender os valores cognitivo, moral e emocional da arte. É indubitável que estes podem existir, mas apenas como momento secundário, como certo efeito da obra de arte que não surge senão imediatamente após a plena realização da ação estética. O efeito moral da arte existe, sem dúvida, e se manifesta em certa elucidação interior do mundo psíquico, em certa superação dos conflitos íntimos e, consequentemente, na libertação de certas forças constrangidas e reprimidas, particularmente das forças do comportamento moral. [...]. Foi a partir disso que me deparei com o questionamento O que é Arte? (Brasiliense, 1995), de Jorge Colli: [...] A arte tem assim uma função que poderíamos chamar de conhecimento, de ‘aprendizagem’. Seu domínio é o do não-racional, do indizível, da sensibilidade: domínio sem fronteiras nítidas, muito diferente do mundo da ciência, da lógica, da teoria. Domínio fecundo, pois nosso contato com a arte nos transforma. Porque o objeto artístico traz em si, habilmente organizados, os meios de despertar em nós, em nossas emoções e razão, reações culturalmente ricas, que aguçam os instrumentos dos quais nos servimos para apreender o mundo que nos rodeia. Entre a complexidade do mundo e a complexidade da arte existe uma grande afinidade. [...]. Não menos surpreendente foi me deparar com o estudo Teoria e metodologia do ensino da arte (Unicentro, 2013), da professora Nájela Tavares Ujiiie, assinalando que: [...] A arte é representação do mundo cultural com significado, imaginação; é interpretação, é conhecimento do mundo; é expressão de sentimentos, da energia interna, da efusão que se expressa, que se manifesta, que se simboliza, é fruição. Ao mesmo tempo, é conhecimento elaborado historicamente, que traz consigo uma visão de mundo, um olhar crítico e sensível, implicado de contexto histórico, cultural, político, social e econômico de cada época. [...]. A partir de então passei a pesquisa as contribuições da arte para a educação. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ARTE NA ESCOLA – As pesquisas sobre a temática das contribuições da parte para a educação me levaram a leituras de obras como A imagem no ensino da arte: anos oitenta e novos tempos (IOCHPE, 1991), da educadora Ana Mae Barbosa: [...] Sabemos que a arte na escola não tem como objetivo formar artistas, como a matemática não tem como objetivo formar matemático, embora artistas, matemáticos e escritores devam ser igualmente bem-vindos numa sociedade desenvolvida. O que a arte na escola principalmente pretende é formar o conhecedor, fruidor, decodificador da obra de arte. [...]. Outras obras dela subsidiaram meus estudos, a exemplo de Inquietações e mudanças no Ensino da Arte (Cortez, 2007) e Arte-Educação: Leitura de Subsolo (Cortez, 2008), que me levaram inevitavelmente a refletir sobre [...] A formação do professor de Arte tem um caráter peculiar de lidar com as complexas questões da produção, da apreciação, da reflexão do próprio sujeito e das transposições de suas experiências com a Arte para a sala de aula com seus alunos [...]. Foi a partir dela que tive acesso à obra Gostar de Aprender Arte: sala de aula e formação de professores (Artmed, 2003), da professora Rosa Iavelberg, na qual pude apreciar que: [...] Aprender em arte implica desafios, pois a cultura e a subjetividade de cada aprendiz alimentam as produções e a marca individual é aspecto construtivo dos trabalhos. O aluno precisa sentir que as expectativas e as representações dos professores ao seu respeito são positivas, ou seja, seu desenvolvimento em arte requer confiança e representações favoráveis sobre o contexto da aprendizagem. [...]. Daí tive acesso à publicação Metodologia do ensino da arte (Cortez, 1999), das professoras Mariazinha Fusari e Heloisa Toledo Ferraz, das quais tive o aprendizado de que: [...] contribuir para a formação de cidadãos conhecedores da arte e para a melhoria da qualidade da educação escolar artística e estética, é preciso que organizemos nossas propostas de tal modo que a arte esteja presente nas aulas de arte e se mostre significativa na vida das crianças e jovens [...]. Estas leituras me levaram ao aprendizado de que em virtude das potencialidades integradoras das artes, estas oportunizam a todos o desenvolvimento de competências para a vida, sejam de natureza cognitiva como aprender a conhecer, sejam sociais aprendendo a conviver, sejam produtivas aprendendo a fazer ou mesmo pessoais aprendendo a ser, exatamente por se tratar de uma experiência estética viva favorecendo tanto a inter como a transdisciplinaridade numa ação transversal. Apreende-se que as artes passaram a ser utilizadas como metodologia nas mais diversas áreas do conhecimento, como meio apreender ou vivenciar uma diversidade de conteúdos, seja por meio de técnicas corporais, visuais, interpretativas, entre outras, seja por práticas oriundas do fazer teatral, poético, musical, visual ou coreográfico, promovendo sobretudo a formação do ser para a cidadania e a vida, por meio de habilidades criativas, relações emocionais, sociabilidade e manifestação potencial com o lúdico, o criativo e o prazeroso na integração física e psíquica de cada envolvido docente e discente. Então, viva a arte! Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

NÓS, ESSES SUJEITOS...

Imagem: Acervo ArtLAM

Um, dois, cem, milhares \ assim nós mulheres vamos aqui \ onde tínhamos que passar a noite para sempre. \ Não importa o lugar ou o sobrenome, \ já definimos nossa situação \ há muito tempo. \ Aceitamos nosso papel legítimo, \ independentemente do status. \ Somos os privilegiados \ e os não privilegiados \ Somos: \ a funcionária pública porque trabalha \ a trabalhadora para trabalhadora \ a mãe para mãe \ a estéril para estéril \ a senhora para senhora \ a prostituta para prostituta. \ Fazemos manobras com o tempo \ ligadas a essa inércia \ que chamamos de vida \ porque sendo mulheres \ temos que aceitar \ porque são leis para mulheres \ feitas por homens, \ o que mais importa? \ Nós os temos magros e gordos, \ alguns por beberem a água da massa, \ outros por beberem leite e cereais. \ O Dia das Mães \ deixa alguns com frio, \ outros com calor, \ o Dia da Mulher \ faz alguns rirem, \ outros satisfação. \ Somos os poetas acadêmicos \ e as poetisas da rua. \ Somos os que vendem rosas \ numa elegante floricultura \ e os que oferecem cravos \ num canto de um banco. \ Nós, que somos anónimos \ de madrugada \ e nós-outras bolhas de fome, \ somos aqueles - a quem nos vendem \ e ao qual estamos protegidos \ até os oitenta anos de idade. \ Somos a esposa ignorada \ em uma boate \ e a criada seduzida. \ Somos todos nós, \ cada um na sua, \ assim foi distribuído \ sem nos fazer escolher. \ Somos os amargos \ e indiferentes, \ os antissociais \ e muito sociais, \ os que alimentam nossos filhos \ com colher de prata, \ e os tragicamente miseráveis \ que entregam nossos filhos \ a engordadores e traficantes de crianças. \ Nós que sempre ficamos calados \ e esperamos, \ aqueles que têm motivos \ para gritar \ e não esperam nada. \ Nós somos os saudáveis \ porque temos um gato em casa \ e nós somos os doentes \ por causa de uma existência solitária. \ Há muitos de nós que bebem champanhe \ e muitos de nós que bebem guaro, \ os primeiros ancorados na cama \ com lençóis de seda \ e os segundos \ numa calçada húmida escondida. \ Somos feministas associadas \ e lésbicas reprimidas, \ muitas de nós frequentamos o Catecumenato \ e outras levantamos os olhos \ para ver Deus. \ É assim que todos nós vamos, \ esses assuntos \ somos todos mulheres indestrutíveis \ nada nos detém \ não importa se somos advogados \ se somos verdureiros\ médicos, professores, sapatão, artistas de teatro \ camponês, esposas pintoras, amantes de primeira ou última-dama. \ Um útero nos une a todos igualmente. Somos nós que motivamos todos os sentimentos, ternura, delicadeza... \ amor mesmo que haja em cada um de nós um gato furioso ou um gato submisso. \ Nós é que estamos parados no tempo e batemos... batemos... batemos! \ Somos rio, mar, selva, sol, lua e pulmão. \ Somos pátria! - Sempre achei que Honduras tem nome de mulher.

Poema da poeta e atriz hondurenha Juana Pavón (1945- 2019). Veja mais aqui.

 

O ANDAR DO BÊBADO – [...] O contorno de nossas vidas, como a chama de uma vela, é continuamente impulsionado em novas direções por uma variedade de eventos aleatórios que, junto com nossas respostas a eles, determinam nosso destino. Obviamente, pode ser um erro atribuir brilho em proporção à riqueza... A percepção requer imaginação porque os dados que as pessoas encontram em suas vidas nunca são completos e sempre equívocos. Pode parecer assustador pensar que o esforço e o acaso, tanto quanto o talento inato, são o que conta. Mas acho encorajador porque, embora nossa composição genética esteja fora de nosso controle, nosso grau de esforço depende de nós. E os efeitos do acaso também podem ser controlados na medida em que, ao nos comprometermos com tentativas repetidas, podemos aumentar nossas chances de sucesso. [...]. Trechos extraídos da obra The Drunkard's Walk: How Randomness Rules Our Lives (Vintage, 2009), do físico e matemático Leonard Mlodinow. Veja mais aqui.

 

ALTERIDADE OU OUTRIDADE - [...] Com toda a certeza eu poderia existir sozinho, mas não poderia ter conhecimento disso. Minha capacidade para pensar e dizer "eu" não me foi fornecida pelo meu patrimônio genético; o que esse me deu era necessário, mas não suficiente. Só consegui dizer "eu", graças aos "tu" que ouvi. A pessoa que sou não é o resultado de um processo interno solitário; só pode construir-se encontrando-se no foco dos olhares dos outros. Não só essa pessoa é alimentada com todas as contribuições dos que me rodeiam, mas sua realidade essencial é constituída pelas trocas com eles; eu sou os vínculos que vou tecendo com os outros. Com essa definição, deixa de haver qualquer corte entre mim e os outros. [...] É justamente porque não é idêntico a mim que o outro participa de minha existência. Uma carga elétrica só é definível em presença de outra carga. É essa coexistência que é fonte de tensão; ela inicia uma dinâmica, a da comunicação. Comunicar é colocar em comum; e colocar em comum é o ato que nos constitui. Se alguém considera esse ato impossível, recusa qualquer projeto humano. [...] Evidentemente, ainda tem de ser superadas as dificuldades que transformam cada comunicação em uma façanha. Com toda a certeza, não é possível alcançar uma autenticidade que seja sinônimo de compreensão total. Os meios utilizados para comunicar não podem ser perfeitos. A cadeia: pensamento - frase dita para expressar esse pensamento - frase ouvida - pensamento reconstituído a partir dessa escuta - comporta várias possibilidades de erros ou imprecisões. [...]. Trechos extraídos da obra Filosofia para não filósofos (Elsevier, 2004), do cientista francês Albert Jacquard (1925-2013). Por esta temática poderia acrescentar o pensamento de Saramago: É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós. E de Martin Luther King: Aprendamos a viver juntos como irmãos; caso contrário, vamos morrer como idiotas. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

BREVE HISTÓRIA DA ARTE EM PALMARES: DO CLUB LITTERARIO AO SÉCULO 21

[...] A cidade e seus engenhos estavam, por diante, conectados às distâncias do mundo moderno. O espaço e o tempo rompiam antigas memórias e linguagens [...] Daí, as primeiras máquinas conhecidas em Palmares – o trem, a tipografia e a usina – serem recepcionadas e enaltecidas pelos oradores do Club, inspirados no mito daquele ideal de liberdade, evocando poemas e crônicas contra a escravidão, a ignorância e o atraso que teimavam, segundo seus oradores, corromper a moral e a civilização. Uma situação apontada por muitos intelectuais, como o entulho provocado pelo anacronismo da Monarquia. [...].

Trechos extraídos da obra Letrados e ufanos: história do Club Litterario de Palmares – 1882-1910 (Bagaço, 2011), do professor e poeta Vilmar Antônio Carvalho. Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

 
Palestra nos dias 05/06, às 14h; 06/06, às 20h; e quarta, 07/06, às 14h, na Biblioteca Fenelon Barreto, realização: SEMED/Amigos da Biblioteca (ABI-Palmares). Veja mais aqui.

 


segunda-feira, março 06, 2023

MARIA RESSA, MACLEISH, FILIPA MELO, CHANTAL THOMAS & TEJUCUPAPO

 

 Ao som de Umbrales (2018), Le Repas du Serpent (2004), Retour a la Raison (2004), Espectros de Água (2021), Rabeca (2021), Céu da Boca (2021) e Ronín (2021), da premiada violoncelista, compositora, musicista, pesquisadora e docente Iracema de Andrade.

 

TRÍPTICO DQP: - Cio do amanhecer... - O que é da vida (vem de, vai pra) outra! E eu com as perguntas de Gauguin nos lampejos do dia em plena madrugada. Que segunda ou sei lá relógio ou calendário, sem hoje nem onde, tudo se consome em erros e enganos. Quanta rebordosa na lição de Archibald MacLeish: Só existe uma coisa pior do que aprender com os erros - é não aprender nada com eles... Mesmo assim entoei o Hino de Akhenaton ao ver a estrela de Bandeira, como se vivesse no campo de Auta de Souza ou na palidez do inverno de Pessoa. E na do futuro de Sophia Breyner fui pelas quatro e meia de Bukowski e por toda de Affonso Romano de Sant’Anna, pensando com José Godoy Garcia e tecendo com João Cabral. Mudagora: destampou chuva de enxurrada lavando o meu país, enquanto assobiava as estranhezas dos lugares, a ligeireza do tempo e sentia o que jamais entendi. Sim, o sorriso se tornou espasmo com Maria Ressa: Sempre faça a escolha de aprender... Durante toda a minha vida, quando me deparo com uma decisão difícil, sempre me pergunto - onde posso aprender mais. Faça a escolha de aprender... E eu só pedia que não arrancassem minhas pálpebras, não fincassem dores no meu peito, não vazassem meus olhos, nem triturassem minhas unhas e dedos, não me dissessem de adeuses, nem fustigassem cem por cento meu coração, senão, sóis e lás, larilarás, bemóis, frases sem aspas, hemistíquios no impasse: nada cessava tampouco, pelo menos precisamos viver um pouco de paz...


 

A todo vapor... – Imagem: Report from Rockport (1940), do artista estadunidense Stuart Davis. - Maneiroutra: tinaceso, espreitubíqua; senão, cochilo de cachimbo entre pequenidades, era quase meio dia. Bem o diz Filipa Melo: Morremos todos de excesso ou falta de amor, que morremos todos do coração, acreditem!... Sim e isso porque o humano morre em cada um, essa a surpresa no meio do flagelo: todo o mundo vasto de desunião fundamentalista, feições desafinadas, os escarros da sorte se mantem tanto de besta e miserável, mais do que nunca. Melhor a tirada de Chantal Thomas: Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer... Sim, todas as carências na supremacia, como se fossem dilacerados sábados pelas esquinas medievais, com suas palavras estranguladas e nenhum nome ficou ao exorcizar a história infame no charco silencioso, ocos ouvidos pelas labaredas dos pesadelos e eu apenas viver no que resta, sem querer saber o que será de mim...

 


Ares de Tejucupapo... – Imagem: arte de Tereza Costa Rêgo. – Quandepois, a vida triunfa de tarde. Afinal, nem só de inferno se vive, vezoutra o paraíso pouquinho, mas vale a pena. E era Clara entre outras anônimas Marias, jeito pontual, havido e devido, um sorriso de quem solta balões em festa. Olhou-me de seu, marisqueira unhas na terra: livrou-se da pilhagem holandesa apenas com pedras, pano, chuços e água quente com pimenta no Monte das Trincheiras, era a insurreição do Porto do Ferreira, muito tempo atrás. Hoje não, agora dia de sururu, ostra, aratu, mariscos outros no chão da maré, as cacimbas em que só eram abris recorrentes, alma senão feliz, satisfeita. E me dizia Langston Hughes: Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada, incapaz de voar... A vida é para os vivos. A morte é para os mortos. Deixe a vida ser como música. E morte uma nota não dita... Ajeitou os afazeres, lavou as mãos e com afeto redobrado deitou os ombros ao poente enquanto eu apenas fagulhas das narinas de setembro, os suores lascivos e ela se enramava imantada com as ancas ondulantes de sibila ungida. Sorvia seu jeito, servo a servia. Lá pras tantas tudo descansava boquinha da noite, foi aí um lance na paisagem escura e seu púbis orvalhado abriu meu cofre fálico com um beijo no crepúsculo da garganta. Ah, perdi meu rosto no solfejo brando dela e me fiz por suas pálpebras celestes, o seu delíquio tirando fino à beira do Aqueronte, a vida breve e vã, os prazeres ficaram na promessa da eternidade, nada esqueceria. E dela a hestória e o amor. Até mais ver.


 Veja mais aqui.

sexta-feira, setembro 18, 2020

CÓRTAZAR, LUCIANO DE SAMÓSATA, ELISA LUCINDA, JOSÉ ROOSELVET & VIOLINOS NO COQUE

 

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DAS IDAS E VINDAS ENTRE ÉREBROS & BÁRATROS - Olhos na madrugada, cismava sem urdidura. Deu-se de mesmo, tão esquisito: mulheres passavam e uma delas me puxou alegando que as seguissem para me proteger do Soroche de Supai. Para onde iam? Às regiões mais montanhosas e inacessíveis de Pachamama, onde os espíritos das huacas reinavam e que eu fosse com elas senão me perderia pelos confins tenebrosos e infernais de Ucui Pacha, lá onde se sofre de frio e fome e só tem pedra por alimento. Não entendia nada nem me restou alternativa, porque não era eu uma alma penada nem fantasma, encolhi o medo e, de mãos dadas, seguimos pelo caminho das trevas. De repente, senti sua mão escapulir, sozinho e tudo escureceu por bom tempo, nada se via no silêncio de tudo. Com o clarão repentino do luar, eram outras mulheres tagarelando ao meu lado e no meio das torres de pedra de Punta de las Mujeres. Não me passou pela cabeça serem elas as nove senhoras de Ah Puch e que preparavam a descida da enforcada deusa Ixtab, sob os auspícios do panteão Bolontiku. A deusa levitava e se aproximou de mim, ofertou um pedaço da casca da Ceiba pentadra que contém em seus grãos rebentos de kapok, ordenando para que eu fosse já ao Mitnal. Não entendi, era pênalti, sabia de antemão ao vê-la retirar a corda que envolvia seu pescoço, obrigando-me que a pusesse em honra dos suicidas. Era preciso inventar uma saída, o sangue fugia, quase tive um ataque tipo epiléptico para ver se me safava. Nesse instante a sensual deusa Awilix interrompeu o que seria o meu sacrifício, procedendo para elas de forma autoritária, e, em seguida, tomou das minhas mãos para segui-la pela noite da Lua, a me contar do que ocorrera comigo antes, com as incas e, agora, com as maias. Contou-me mais enquanto se disfarçava em muitas outras sedutoras auroras e crepúsculos para me espalhar por aí, e me deixou a par do horror ao vazio e do transporte dos tempos para o futuro por deuses que se sucediam noites e dias presos por uma cilha frontal, porque os dias eram seres vivos, cada um com nome e número patrocinados por uma entre as divindades. Altas horas da viagem, ela me amparava na nudez e fartura dos seus seios, a recitar Julio Córtazar: Andávamos sem nos procurar, mas sabendo sempre que andávamos para nos encontrar. Vem dormir comigo: não faremos amor, ele nos fará. Tudo ouvia até a sonolência e eu dentro dela que se derretia com a febre do meu corpo no seu. Amparado fui embalado por acalanto irreconhecível do seu corpo cheio de músicas.

 


DUAS MORTES DEPOIS (Imagem do pintor surrealista José Rooselvet)– Da primeira morte a vertigem na escada, o telhado que ruiu, o sangue na lavanderia sumida, quase nada mais existe, apenas uma rua estreita para pedestres, com a orla repleta de prédios como se monstros imóveis. Daquela vez tudo desapareceu na brancura onírica de música das esferas, talvez entre Nazcar e Machu Picchu, imagens com desenhos da pedra de Roswell noitedias pelas distâncias da escuridão cósmica. Da segunda morte, nem a lembrança da encruzilhada, não mais o poste na calçada de uma manhã nublada, à espera de uma condução inexistente. Ainda ouço a frenagem e a colisão, tudo pode acontecer do nada, só as graves vozes do coral. Ouvi um verso de Elisa Lucinda: Nesse dia, Deus deu uma saidinha e o vice era fraco. E se morro uma vez e desfaleço outras tantas a cada dia, sou grato à vida, responsável por minha sina. Não lamento o que deixei de fazer, fiz o máximo que pude e renasci menino.

 


TRÊS PASSOS PARA SAIR DO VULCÃO - (Imagem do pintor surrealista José Rooselvet) - Desci pela milésima vez, como se fosse Pessoa escrevendo cartas comerciais ou O’Neill concebendo frases publicitárias, ou como Rimbaud para tomar uma cerveja e dar uma baforadas na face do desafeto. Em todas elas exaltei os trinta e quatro cantos de Dante no meio dos nove círculos concêntricos do sofrimento e os nove caminhos e os três vales e as quatro esferas, enfim, o caos impiedosamente ordenado. Reconheci os três aspectos aristotélicos: a malícia, a incontinência e a bestialidade. Atravessei todas as galerias como se fossem ruas fumegantes e entre elas as mínimas e vistosas entrelinhas do insignificante de qualquer olhar, aprendendo o que pudesse de fecundo e necessário para o aprendizado do útil e do fútil, o momento apropriado para o que quer que fosse. Fiz a travessia do berço ao túmulo, a reconhecer dos invertebrados e protozoários, o que seria de mim depois de tudo. Sempre preferi cinzas, nunca uma sepultura, mesmo sabendo que a viagem indesejável seria qualquer jeito. Lá ouvi o Diálogo dos mortos (Athena, 1996), no qual Luciano de Samósata me contara irreverente: A vida de cada um será passada a limpo... tu vês os ricos, os sátrapas, os tiranos, agora tão rebaixados e insignificantes, reconhecidos apenas pela lamentação; isto é, que são uns poltrões e ignóbeis, enquanto ficam recordando das coisas lá de cima. Assim como a raposa para as uvas, o beijo para a amante, a traição para o humano, cada qual cumpre o seu destino. Quem não compungido se o acontecido é pouco e tornará a acontecer de outra forma e mesmo até à revelia. Todos se veem enredados em suas malbaratadas e entediadas vidas, o que me faz entender talvez alguma possibilidade de ser aquilo que eu gostaria de ser se não fosse o que sou. Até mais ver.

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


VIOLINOS NO COQUE

[...] Precisa-se. Precisa-se da voz cristalina de uma avezinha, dessas aves sem ninho, como diria o poeta, para escutar o que dizem. E ouvir a humanidade toda que está ali. A beleza do campo, a inocência brotante, a suavidade dos anhos que só Botticcelli percebeu. [...] A beleza comove. E vi ali uma flor de lótus colhida. Que se impõe e faz admirar, apesar do meio circundante.

Trecho extraído da obra Violinos no Coque (FacForm, 2010), do médico, escritor e memorialista Waldênio Porto, contando a história de uma comunidade do Recife e a formação da Orquestra Cidadã Meninos do Coque, projeto desenvolvido pelo maestro Cussy de Almeida e reunindo 130 garotos e garotas. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.



 


quarta-feira, fevereiro 29, 2012

EVELYN LAU, MARIA VELHO DA COSTA, THOMAS NAGEL, CASAIS MONTEIRO, ELAINE TEDESCO & CRIMES CONTRA A PESSOA

 


Como os Aparatos para o sono surgiram é uma história biográfica: tive um período de insônia e numa dessas noites eu pensei: “Ah, chega de não dormir, vou fazer alguma coisa com isso”. Aí pensei neste título, os Aparatos para o Sono, ou seja, uma série de coisas que eu precisaria para dormir. Comecei a criar os objetos com tecido. [...] Não é um aparato para o sono que criei, mas um aparato para o sono que muitas comunidades acabam providenciando para poderem dormir sem medo. [...] No geral, não escrevo sobre a memória. Mas é inevitável. Talvez seja uma memória geral, uma memória do tempo, independente de ser a minha memória. É um registro do que estou vivendo, mas focalizando uma situação que é coletiva. [...] A cidade me interessa como um todo, dentro da idéia do que é o urbanismo, das estruturas em transformação, mas não é apenas a cidade, é a idéia de um espaço habitável, seja urbano ou rural...

A arte da professora e artista Elaine Tedesco, que possui mestrado e doutorado em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 2002 e 2009), atuando como artista plástica com produção em fotografia, instalação e videoperformance.

 

 

OS RELAMPEJOS DA BORBOLETA - À memória de Dinalva Conceição Oliveira Teixeira (1945-1974) - Geminiana de Castro Alves, Dina era menina quando estudou na Escola Rural de Argoim. A família mudou-se para Salvador e prosseguiu seus estudos até se graduar em Geologia na Universidade Federal da Bahia, em 1968, onde começou a militar no movimento estudantil: era representante da Residência Universitária Feminina. Era a vigência do Ato Institucional nº 5 (AI 5) criado pela ditadura militar até 1975, os anos de chumbo: Brasil: ame-o ou deixe-o. Ao ser presa, casou-se com seu colega de turma, Antônio, que adotou o nome: de Dina. Foram pro Rio e trabalharam no Ministério das Minas e Energia, enquanto realizavam trabalho social nas favelas cariocas. Em maio de 1970, foram para o Araguaia e lá se separaram. Ela passou a atuar como professora e parteira, ganhando fama entre os humildes habitantes da região. Foi aí que montou um negócio: a Tabacaria de Dina e tornou-se famosa por sua capacidade militar: excelente preparo físico, exímia atiradora, espírito de liderança e personalidade decidida. Por conta disso, era a mais temida de todas as guerrilheiras: enfrentou tropas militares várias vezes, escapando do cerco inimigo. Tornou-se uma lenda entre os caboclos: diziam que ao ser ferida era desaparecia transformando-se numa borboleta. Por esta razão, era caçada pelos militares por ser tratada como perigosíssima e ameaça à ação militar na região. Para eles, a sua morte era necessária para acabar com o mito. Durante o ataque do dia de Natal, em 1973, ela embrenhou-se na selva e desapareceu até junho de 1974, quando foi presa doente e desnutrida, vagando pela mata de Pau Preto, juntamente com Tuca e Luiza Garlippe. Foi levada à base de Xambioá, presa e torturada por duas semanas. Como não abriu a boca, foi colocada num helicóptero e levada pelo capitão para uma mata próxima e, pronta para o sacrifício, teve um diálogo com o seu executor: Vou morrer agora? Vai. Agora você vai ter que ir. Quero morrer de frente. Então vira pra cá. E foi executada a tiros. Desde então é enquadrada como desaparecida política, porque os seus restos mortais não foram encontrados e nem entregues para os familiares. Persegue insepulta até hoje com a Canção dos guerrilheiros: Guerrilheiro nada teme / Jamais se abate / Afronta a bala a servir / Ama a vida, despreza a morte / E vai ao encontro do porvir... Este evento faz parte da obscura história de um dos muitos Brasis, construída nas desesperanças dos não vitoriosos, nas destoantes vozes dos excluídos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOSO absurdo é uma das coisas mais humanas sobre nós: uma manifestação de nossas características mais avançadas e interessantes. Pensamento do filósofo estadunidense Thomas Nagel. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: ... Tudo é nada para quem descreu de si e do mundo e de olhos cegos vai dizendo: Não há o que não entendo... Pensamento do poeta, ensaísta e crítico português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Veja mais aqui.

 

DE DENTRO PARA FORA: REFLEXÕES SOBRE A VIDA – [...] Olhando para trás, também são os menores momentos que parecem irradiar mais dor. Os momentos em que você percebe que ama essas pessoas, desamparadamente, que não tem escolha nessa questão de amá-las e que elas sempre farão parte de você, não importa o quanto você tente separá-las de sua carne. Que você está amarrado a eles com laços que nunca poderia romper, que eles viverão dentro de você, não importa quantas efígies deles você pendure e queime, não importa quantas vezes seus reflexos apareçam nos olhos de outros homens e mulheres, homens e mulheres que, então, inconscientemente, desempenham os papéis de pai e mãe, com quem você representa o drama repetidamente. Trecho extraído da obra Inside Out: Reflections on a life so far (Anchor Canada, 2002), da escritora canadense Evelyn Lau, abordando o racismo e a sua experiência com as minorias estadunidenses, traçando um território desconhecido para localizar o ponto muito complexo onde se situava, marginalizada por sua etnia. Veja mais aqui.

 

REVOLUÇÃO E MULHERESElas fizeram greves de braços caídos. / Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. / Elas gritaram à vizinha que era fascista. / Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. / Elas vieram para a rua de encarnado. / Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. / Elas gritaram muito. / Elas encheram as ruas de cravos. / Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. / Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. / Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. / Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. / Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. / Elas choraram de verem o pai a guerrear com o filho. / Elas tiveram medo e foram e não foram. / Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. / Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. / Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. / Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. / Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. / Elas disseram à mãe, segure-me aí os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. / Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. / Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. / Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. / Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam. / Elas acendem o lume. / Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. / São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas. Poema da escritora portuguesa Maria Velho da Costa (1938-2020). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


CRIMES CONTRA A PESSOA - No que concerne aos crimes contra a pessoa, objeto do presente estudo de pesquisa, convém observar que envolve os artigos 121 até 154 do Código Penal. O capítulo I do CP, nos crimes contra a pessoa, estabelece os crimes contra a vida, a partir do homicídio: Art. 121 - Matar alguém: Pena - reclusão, de 6 a 20 anos. - é “crime hediondo” quando praticado em atividade típica de grupos de extermínio, mesmo que por uma só pessoa. Sob a classificação doutrinária, o homicídio pode ser comum, quando pode ser praticado por qualquer pessoa; simples, quando atinge apenas um bem jurídico; de dano, quando exige a efetiva lesão de um bem jurídico; de ação livre, quando pode ser praticado por qualquer meio, comissivo ou omissivo; instantâneo de efeitos permanentes, quando a consumação ocorre em um só momento, mas seus efeitos são irreversíveis; e material, quando só se consuma com a efetiva ocorrência do resultado morte, ou seja, com a cessação da atividade encefálica. Corresponde ao induzimento, auxílio ou instigação ao suicídio ou participação em suicídio, o art. 122 prevê: Art. 122 - Induzir (participação moral; significa dar a idéia do suicídio a alguém que ainda não tinha tido esse pensamento) ou instigar (participação moral – significa reforçar a intenção suicida já existente) alguém (pessoa ou pessoas determinadas) a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça (participação material; significa colaborar materialmente com a prática do suicídio, quer dando instruções, quer emprestando objetos para que a vítima se suicide; essa participação deve ser secundária, acessória, pois se a ajuda for a causa direta e imediata da morte da vítima, o crime será o de “homicídio”): Pena - reclusão, de 2 a 6 anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de 1 a 3 anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave. Quanto ao infanticídio, prevê o art. 123 do CP: Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal (é uma perturbação psíquica que acomete grande parte das mulheres durante o fenômeno do parto e, ainda, algum tempo depois do nascimento da criança; em princípio, deve ser provado, mas, se houver dúvida no caso concreto, presume-se que ele ocorreu), o próprio filho, durante o parto ou logo após: Pena - detenção, de 2 a 6 anos. Alusiva ao aborto, conceituado como a interrupção da gravidez com a conseqüente morte do feto e que é classificado em: natural – interrupção espontânea da gravidez (impunível); acidental – em conseqüência de traumatismo (impunível) - ex.: queda, acidente em geral; criminoso – previsto nos arts. 124 a 127; . legal ou permitido – previsto no art. 128. Já no Capítulo II do CP, estão as lesões corporais conforme observado no art. 129 do diploma legal: Art. 129 - Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano. Ofensa à integridade física – abrange qualquer alteração anatômica prejudicial ao corpo humano - ex.: fraturas, cortes, escoriações, luxações, queimaduras, equimose, hematomas etc.; eritemas e a simples dor não constituem lesões. Ofensa à saúde – abrange a provocação de perturbações fisiológicas (vômitos, paralisia corporal momentânea, transmissão intencional de doença etc.) ou psicológicas. A prova da materialidade deve ser feita através de exame de corpo de delito, mas, para o oferecimento da denúncia, basta qualquer boletim médico ou prova equivalente (art. 77, § 1°, L. 9.099/95). A ação penal é publica condicionada à representação (art. 88, L. 9.099/95). É preciso entender que lesão corporal é todo e qualquer dano ocasionado à normalidade do corpo humano, quer do ponto de vista anatômico, quer do ponto de vista fisiológico ou mental. No que concerne à periclitação da vida e da saúde, que envolve quando o é crime de perigo (caracterizam pela mera possibilidade de dano, ou seja, basta que o bem jurídico seja exposto a uma situação de risco) e não de dano; já em relação ao dolo, basta que o agente tenha a intenção de expor a vítima a tal situação de perigo; o perigo deste capítulo é o individual (atingem indivíduos determinados); o outro tipo de perigo é o coletivo ou comum (atingem um número indeterminado de pessoas, estes estão tipificados nos arts. 250 e s.); os crimes de perigo subdividem-se ainda em: perigo concreto (a caracterização depende de prova efetiva de que uma certa pessoa sofreu a situação de perigo) e perigo presumido ou abstrato (a lei descreve uma conduta e presume a existência do perigo, independentemente da comprovação de que uma certa pessoa tenha sofrido risco, não admitindo, ainda, que se faça prova em sentido contrário). Assim, quanto ao perigo de contágio venéreo, prescreve o art. 130 do CP: Art. 130 - Expor alguém, por meio de relações sexuais ou qualquer ato libidinoso, a contágio de moléstia venérea, de que sabe ou deve saber que está contaminado (crime de perigo): Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, ou multa. Quanto ao perigo para a saúde ou vida de outrem, prescreve o art. 132 do CP: Art. 132 - Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente: Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, se o fato não constitui crime mais grave. Quanto ao abandono de incapaz, o art. 133 prescreve: Art. 133 – Abandonar (deixar sem assistência, afastar-se do incapaz) pessoa que está sob seu cuidado, guarda, vigilância ou autoridade, e, por qualquer motivo, incapaz  de defender-se  dos riscos resultantes do abandono: Pena - detenção, de 6 meses a 3 anos. Quanto à exposição ou abandono de recém-nascido, observa o art. 134: Art. 134 - Expor (remover a vítima para local diverso daquele em que lhe é prestada a assistência) ou abandonar (deixar sem assistência) recém-nascido, para ocultar desonra própria (a honra que o agente deve visar preservar é a de natureza sexual, a boa fama, a reputação etc.; se a causa do abandono for miséria, excesso de filhos ou outros ou se o agente não é pai ou mãe da vítima, o crime será o de “abandono de incapaz”): Pena - detenção, de 6 meses a 2 anos. No que observa a omissão de socorro, o art. 135 determina: Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública: Pena - detenção, de 1 a 6 meses, ou multa. No que se relaciona aos maus-tratos, o art. 136 do CP estabelece: Art. 136 - Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado, quer abusando de meios de correção ou disciplina: Pena - detenção, de 2 meses a 1 ano, ou multa. O capítulo IV traz a rixa, conforme prevê o art. 137: Art. 137 - Participar (material ou moral) de rixa (é uma luta desordenada, um tumulto, envolvendo troca de agressões entre 3 ou + pessoas, em que os lutadores visam todos os outros indistintamente, de forma a que não se possa definir dois grupos autônomos), salvo para separar os contendores: Pena - detenção, de 15 dias a 2 meses, ou multa. O capítulo seguinte, trata dos crimes contra a honra que é o conjunto de atributos morais, físicos e intelectuais de uma pessoa, que a tornam merecedora de apreço no convívio social e que promovem a sua auto-estima. Neste caso, prescrevem-se como crimes a calúnia, que imputa falsamente (se verdadeira, o fato é atípico) fato definido como crime; atinge a honra objetiva;  a difamação, que imputa fato (não se exige que a imputação seja falsa) não criminoso ofensivo à reputação; atinge a honra objetiva; e a injúria, não se imputa fato, atribui-se uma qualidade negativa; ofensiva à dignidade ou decoro da vítima; atinge a honra subjetiva .Já no capítulo VI, encontram-se os crimes contra a liberdade individual. Quanto ao constrangimento ilegal, prescreve o art. 146 do CP: Art. 146 - Constranger (obrigar, coagir) alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer  outro meio,  a capacidade de  resistência (através da hipnose, bebida, drogas), a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda: Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, ou multa. Na qualificação doutrinária, o constrangimento ilegal é delito material, de conduta e resultado. Em regra, é delito instantâneo, podendo ocorrer eventualmente a forma permanente. E subsidiário, de forma implícita. Já com relação à ameaça, prevê o art. 147 do CP: Art. 147 - Ameaçar (ato de intimidar) alguém (pessoa determinada e capaz de entender o caráter intimidatório da ameaça proferida), por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto (não acobertado pela lei) e grave (de morte, de lesões corporais, de colocar fogo na casa da vítima etc.). Pena - detenção, de 1 a 6 meses, ou multa. Quanto ao sequestro e cárcere privado, está no art. 148 do CP: Art. 148 - Privar alguém de sua liberdade, mediante seqüestro (local aberto) ou cárcere privado (local fechado, sem possibilidade de deambulação): Pena - reclusão, de 1 a 3 anos. A inviolabilidade do domicílio está previsto no art. 150: Art. 150 - Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências: Pena - detenção, de 1 a 3 meses, ou multa. Os crimes contra a inviolabilidade de correspondência, prevê que o o conteúdo de correspondência fechada, dirigida a outrem: Pena - detenção, de 1 a 6 meses, ou multa. Trata a lei de proteger a carta, o bilhete, o telegrama, desde que fechados, decorrência do princípio constitucional que diz ser “inviolável o sigilo de correspondência”; apesar do texto constitucional não descrever qualquer exceção, é evidente que tal princípio não é absoluto, cedendo quando houver interesse maior a ser preservado. Quanto a inviolabilidade dos segredos, prevê o art. 153: Art. 153 - Divulgar alguém, sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência confidencial, de que é  destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir dano a outrem: Pena - detenção, de 1 a 6 meses, ou multa. Já a violação do segredo profissional, está previsto no art. 154: Art. 154 - Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem: Pena - detenção, de 3 meses a 1 ano, ou multa. Veja mais aqui e aqui.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Código Penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000
ANDRADE, Manoel Correia de. Usinas e destilarias das Alagoas: uma introdução ao estudo de    produção do espaço. Maceió: EDUFAL, 1997.
COUTO E SILVA, Almiro. Princípio da Legalidade da Administração Pública e da Segurança Jurídica no Estado de Direito Contemporâneo. Revista de Direito Público, nº 84, out/dez/87, ano XX RT, São Paulo.
HEREDIA, Beatriz Maria Alasia de. Formas de dominação e espaço social: a modernização da agroindústria canavieira em Alagoas. MCT/CNPq/Marco Zero. São Paulo, 1989.
OLIVEIRA, Luciano. A Dupla Face da Violência. Coleção OXENTE – MNDH/NE
SILVA, Nádia Rodrigues da e MOURA, Tereza  Cristina Vidal de, Organizações Não Governamentais e Movimentos Sociais Populares em Alagoas. Série Apontamentos. Maceió. Editora Universitária da UFAL, 1997.


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