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domingo, abril 26, 2026

HILDA TWONGYEIRWE, NANCY TUCKER, LUIZ RUFFATO & LUCILA NOGUEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da performance musical da flautista Tahyná Oliveira (Instrumental Sesc Brasil, Teatro Anchieta do Sesc Consolação, 2024), acompanhada de um quarteto de cordas, homenageando Wanessa Dourado, Heitor Villa-Lobos, Altamiro Carrilho e Radamés Gnattali.


 

Fecamepa: caraminholas na raiz do tempo... - No primeiro momento do Fecamepa, ali tudo era apenas dia no Vale do Una. A balbúrdia nativa fora surpreendida pelo alvoroço invasivo de naus alienígenas. E delas achegaram-se morigerados caras pálidas imponentes, que se passavam por íntimos folgazões. Não demorou muito e logo se fizeram descomedidos imprevisíveis, com a sanha escravocrata preando as posses dos autóctones indefesos. Fez-se conflito com o chicote do capataz e a ameaça de suas garruchas cuspindo fogo. Lanças, arcos e flechas jamais seriam páreo, puro erro de cálculo: a resistência foi surpreendente por sucessivos embates. Entre as perdas muitas e ganhos módicos, dos invasores proliferaram esquálidos homúnculos com seus sobrenomes bastardos, que soltavam fogo pelas ventas na captura dos inviáveis. A mamelucagem macunaímica prosperava, penderam pro outro lado e, num piscar de olhos, se empanturraram com a combustão setentrional. Reforçados, então, era a hora de trazer o meridional a reboque, desgraçados com o insucesso da catequese dos originários. Não deu, de novo. Aí traficaram e subjugaram pretos d’África, para sua laboriosa empreitada: patrulhas para as emboscadas no canavial e tiros pelas costas de supostos denegridos ou foragidos. E se de um lado eram abençoados pelo bom deus deles; de outro, pactos com o capeta – comiam dos dois lados, sabidos. Assim deu-se o segundo e lustros se acumulavam por décadas passadas quantas bodas de rancor e disputas. E se tornaram faustosos donos de engenho, abastados fornecedores de cana, todos montados dalguma patente bufada pela ordem açucarocrata, a capitanear jagunços metidos a caubóis, capangas sicários, cavaleiros que se dignavam corajosos e que recreavam a digladiar, uns contra os outros, para ver quem deles matava mais aborígenes e fujões negreiros. Reinavam dos seus casarões sobre os miseráveis, posto que, desde que foram todos abençoados pela batina cristã, os destemidos heróis da ignominia bufavam vogar o juramento de fidelidade a si próprio e tudo o mais submetido ao jogo de gatilho e munhecas, quando não facadas, foiçadas, mortandade. Aí deu no terceiro, quase mais de dois séculos engolidos virando páginas, na soberba dos que agiam por conta própria com suas leis exclusivas, puxando briga e, diante de qualquer óbice, pronto a desfeitar honra e implicâncias de pouca monta que, no final, resultavam numa bala cravada no peito alheio, como sinal de sua mandonista rubrica. Era o nascedouro de politiqueiros da verdade absoluta e vontade patenteada. E assim, no quarto, mais de meio milênio e todos os vícios por demais arraigados para serem extirpados, envenenavam a tudo e todos. Contagiavam virulentos. Rezava a lenda que se tornaram mais astutos que o rei dos falsários Smolianoff, com mais personalidades falsas que o Abagnale, mais golpistas que o Voigt na leva dos trocentos golpes por minuto; mais ousados que o criador do Esquema Ponzi, mais artísticos que o Meegeren, mais trambiqueiros que o Lustig, mais furiosos que o grande inquisidor Torquemada, mais apocalípticos que os Savonarolas do século 21. E sob seu poderio reuniam mais súditos seguidores que todos os tiranos infames, todos os execráveis líderes religiosos e a maior besta apocalíptica. Astuciosamente invadiram as delegacias e quartéis, prefeituras e câmaras de vereadores, afora as varas judiciais das comarcas; e se apossaram da assembleia legislativa, dos tribunais e órgãos governamentais; assaltaram a câmara dos deputados e o senado, invadiram a suprema corte e todo executivo, e promoveram a maior esculhambação: assumiram serem os 144 mil selados com as 7 dispensações dos cavaleiros do apocalipse e falsos profetas para varrer todas as falsidades do fim da habitabilidade, do colapso atmosférico e do risco existencial – coisas tratadas como roteiro de desenho animado e quem fosse do contra que fugisse para Ushuaia! E dane-se. Ou se engasgue com o enganchado do Doomsday Clock. Eita, boba torreiro! Afinal, tudo foi levado para a conta do duvidoso, de somenos. Ora, o que aconteceu era como se nem tivesse ocorrido, ignorado, ou pura invenção de falastrões indignados, anedotas de fim de dia, piadas de sala de aula. O que foi e será de hoje? Pinoia. Ontem nunca existiu, pura invencionice; amanhã, a esquina, viu? Já dobrou e lá vem outra. E o Fecamepa. Até mais ver.

 

Nélida Piñon: Só envelhece quem vive. Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças. Se essas frases tocaram você, os livros vão marcar...  Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Alejandra Pizarnik: A melancolia é, creio eu, um problema musical: uma dissonância, uma mudança de ritmo. Enquanto por fora tudo acontece com o ritmo vertiginoso de uma catarata, por dentro reina o adágio exausto de gotas de água que caem de tempos em tempos. Por essa razão, o exterior, visto do interior melancólico, parece absurdo e irreal, e constitui 'a farsa que todos devemos representar. Mas por um instante – por causa de uma música selvagem, ou de uma droga, ou do ato sexual levado ao clímax – o ritmo muito lento da alma melancólica não apenas se eleva ao do mundo exterior: ele o ultrapassa com uma exuberância inefavelmente feliz, e a alma então vibra, animada por novas energias delirantes... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mary Wollstonecraft: O começo é sempre hoje... Ninguém escolhe o mal por ser mal; simplesmente o confunde com a felicidade, o bem que busca... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CÍRCULO DE MULHERES

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sua cabeça é uma colmeia, \ você não tem certeza se vai sobreviver. \ Mulheres formam um círculo ao seu redor. \ Em seus olhos, suas histórias fluem como o Nilo. \ Elas as recolhem \ e lhe entregam a taça. \ "Vá em frente", dizem, \ mas você hesita. \ “Está tudo bem", dizem, \ e você aceita. Você leva a taça aos lábios, \ passa-a para a próxima mulher \ e todas bebem um gole, uma de cada vez. \ É um juramento de não perturbar as normas sociais em nome da veneração. \ Você passa o cordão com mais força para a próxima geração \ de mulheres que conhece, \ para mulheres que não conhece, \ até perceber que é um esquema \ e o cordão \ começa a cravar na pele. \ Você o deixa cair \ e quebra o círculo.

Poema da escritora e editora ugandense Hilda Twongyeirwe, autora de obras como Fina, the Dancer (2007) e Summoning the Rains (2012), entre outros.

 

VERÃO TARDIO – [...] Uma fraca luminosidade azulada desenha um retângulo imperfeito na poeira do piso. Tiro a calça e os óculos, ajeito o virol, deito. Em outros tempos, a essa hora, talvez fosse feliz. Às vezes, despertava apenas para, suspirando, me mover para o canto e dormir mais um pouco, satisfeito, a certeza de que ali ao meu lado encontrava o João Lúcio, na parede-meia ressonavam a Rosana a Lígia a Isinha, no outro aposento o pai e a mãe descansavam. O passado são ruínas [...]. Trecho extraído da obra O verão tardio (Companhia das Letras, 2019), do escritor Luiz Ruffato, contando a história de um homem abandonado por mulher e filho, Oséias, que depois de mais de vinte anos, decide regressar a sua cidade-natal, Cataguases, em Minas Gerais. Durante seis dias suas andanças, visitas a familiares, encontros com velhos personagens locais, a sombra do suicídio de uma de suas irmãs, Lígia, e a comunicação falha com praticamente todos a sua volta, persistindo nas suas tentativas de reatar os fios do passado. A obra propõe uma reflexão sobre uma sociedade em que as classes sociais romperam completamente o diálogo, prontos para entrarem em rota de colisão e se destruírem. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O PRIMEIRO DIA DA PRIMAVERA – [...] Mamãe sempre gostou de Deus, mesmo quando não gostava de mim. [...] Quando alguém que você conhecia morria, você não morria com essa pessoa. Você seguia em frente, passando por fases e capítulos tão diferentes que pareciam vidas completamente distintas, mas em todas essas vidas a pessoa morta continuava morta. Morta, quer você estivesse triste ou feliz, morta quer você pensasse nela ou não, morta quer você sentisse falta dela ou não. Se não durasse, não era uma morte de verdade, era apenas alguém que se importava tão pouco que desapareceu. [...] Você não conseguia entender o que era justo e injusto quando tinha uma mãe que fazia cones e um pai que escrevia seu nome em canções [...] Sentir falta dele era como uma queimadura de fumaça no meu corpo: um pequeno buraco redondo, preto nas bordas. [...] Eu fiz muitas coisas ruins. Era bom ser abraçada. Eu gostava de ficar mole nos braços deles e ouvi-los dizer: 'Pronto. Muito bem por se acalmar. Boa menina, Chrissie. Boa menina.' Era quase como se eu não fosse má de verdade. [...] Se você quiser, você dá um jeito. Na maioria das vezes é muito difícil e chato, mas não é impossível. Você só precisa querer muito fazer isso. [...] Na manhã seguinte, prometi a mim mesma que machucaria alguém, qualquer um, quantos eu quisesse. Peguei um pedaço de travesseiro na boca e rugi. [...] Liberdade não era o mesmo que se sentir livre. [...] estou longe de casa, quase ninguém por família e nunca matei ninguém, mas sinto que perdi tudo que tive e foquei no meio do caminho. [...]. Trechos extraídos da obra The First Day of Spring (Riverhead, 2021), da psicóloga e escritora inglesa, Nancy Tucker, autora dos livros The time in between (Icon Books, 2015) e That was when people started to worry (Icon Books, 2018).

 

A POESIA DE LUCILA NOGUEIRA

E se inda houver amor eu me apresento, \ E me entrego ao princípio do oceano, \ E se me atinge a onda, úmida eu tremo \ esquecida de insones desenganos. \ E se inda houver amor eu me arrebento \ feliz, atravessada de esperança \ e mesmo lacerada inda assim tento \ quebrar com meu amor todas as lanças. \ E se inda houver amor terei alento \ para aguentar o inútil destes anos. \ E não me matarei, sonhando o tempo \ em que me afogarei no seu encanto \ E se inda houver amor, ah, me consente \ ser pasto de tua chama, astro medonho. \ e se inda houver amor, eu simplesmente \ apago esta ferida do meu sono.

Poema E se inda houver amor, da escritora, professora, crítica literária e tradutora Lucila Nogueira (1950-2016), autora de obra como Almenara (1979), Peito Aberto (1983), Quasar (1987), A Dama de Alicante (1990), Livro do Desencanto (1991), Ainadamar (1996), Ilaiana (1997), Zinganares (1998), Imilce (1999), Amaya (2001), A Quarta Forma do delírio (2002), Refletores (2002), Bastidores (2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo (2004), Mar Camoniano (2005), Saudade de Inês de Castro (2005), Poesia em Medellin (2006), Poesia em Caracas (2007), Poesia em Cuba (2007), Tabasco (2009), Casta Maladiva (2009), Mas Não Demores Tanto (2011), Poesia em Houston (2013) e Imilce (2014). Veja mais aqui & aqui.

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PANORAMA DO TEATRO: DE PERNAMBUCO PARA O MUNDO

Formação nos dias 28 (tarde) e 29 (manhã) de abril, no Centro de Formação Douglas Miranda Marques, em Palmares (PE). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Roberto Benjamin aqui & aqui.

Roberta Guimarães aqui & aqui.

Cláudio Bezerra aqui & aqui.

Isa Pontual aqui.

Jaci Bezerra aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Adriana Lima – a Adriana do Frevo aqui.

Leidson Ferraz aqui, aqui & aqui.

Maíra Passos aqui.

Flávio Gadêlha aqui

Christiana Ubach aqui & aqui.

 


segunda-feira, setembro 21, 2020

NÉLIDA PIÑON, XENOFONTE, GABRIELA GELUDA & ARMANDO LÔBO, CAMPANELLA, GERALDO BARROS & ORQUESTRA POPULAR DO RECIFE

 


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... O FUNDO DO POÇO & ANÁBASE - Da janela do meu quarto, a solidão. O céu é azul além da galáxia, o infinito. Não sou nada no diário do Fecamepa, este o inexorável Hades de agora em plena ebulição. Não há mais para onde ir, o fundo do poço. Não há túneis, nenhuma luz. Alguém se aproxima e não consigo identificar, sei que ronda no escuro. A voz sem portas esconde o terror lá fora, escuto e rodopio o labirinto da conversa, ele me diz de anábase e é Xenofonte: Vejo, porém, que, todos aqueles que ensinam, praticam o que ensinam a fim de edificar pelo exemplo os que aprendem, da mesma forma que os estimulam pela palavra. As palavras somem de repente, na escuridão não há corredores, degraus, azo. A sensação de calabouço, cadafalso. Falo comigo mesmo, os meus outros eus escapuliram, fugaram. Mãos à parede, delas a sentença fria, celerada. Algum lugar para onde ir, voo.

 


DUAS IDEIAS NO ESCURO, POEMÓPERA – Uma voz ecoa longínqua, pode ser sonho, nunca se sabe. Loucura ou não, uma mulher a se debater, parece. Dela a barulhada sonora do que é daqui e dagora, fanal alvissareiro e operístico, nem sei onde. Sigo bússola bacorejante que vem de lá ou acolá, alguns sopranos solasidós. Atento, espreita cega, ela chega quase imperceptível com a luminosidade de sua pele branca, como se fosse Gaia, venerável matrona e mãe dos deuses e gigantes, do bem e dos males, das virtudes e vícios, dos monstros marinhos e de todas as coisas vivas e mortas. Chegou como se fosse para minha redenção e coroada de flores invisíveis que brotam dos cabelos prateados, a me mostrar nas suas vestes negras transparentes o que dos seus seios jorram de leite à vida e do seu manto abrigo de céus e infernos. Dela uma auréola de nuvens de pássaros às revoadas e cantantes. Solfeja ela poemópera e se faz Gabriela Geluda, oh a minha vida, oh a minha vida, o meu tesouro... e a girar e gira girando a me envolver na sua apoteótica e performática expressão Penélope19, de Armando Lôbo. Ah, giro a vida e sonho. Ao final do espetáculo, olhos nos olhos, seus braços envolventes de clausura e rompante, a me dizer Nélida Piñon: O ser humano é um peregrino. É só na aparência que ele tem uma geografia. Se vive e se escreve sem rede de segurança. O escritor não deve apenas criar, mas deve também emprestar a sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo num país como o Brasil. E me beija a vertigem e sou de volta o que desce para o que não há mais e são ruas dos meus sonhos no seu corpo e ela vai embora como quem leva a minha vida para nunca mais.

 


TRÊS PASSOS & A VIAGEM DE VOLTA – (Imagem: arte de Geraldo Barros) - A vida e só para valer, só vale mesmo quando inventada e reinventada todo dia, o dia todo. Sim, recomeçar, remover a casca, mudar de pele, outros arrebóis imaginados e vividos. Os passos no chuvisco do tempo miserável entre perguntas e terrores, arrebatado entre o que é permitido e não, tudo isso é nada. Em mim tudo amanhece no Hino de Akhenaton. Ouço da cidadede Campanella: o amor à coisa pública aumenta na medida em que se renuncia ao interesse particular... ninguém deve apropriar-se das partes que cabe aos outros. Aí me refaço, assim sempre fiz. Afinal, me reconstruo com essa a lição: O Sol nasce para todos. Até mais ver.

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


ORQUESTRA POPULAR DO RECIFE

A arte de um dos mais importantes grupos pernambucanos, Orquestra Popular do Recife, idealizada em 1975 pelo escritor e professor Ariano Suassuna e, inicialmente, foi regida pelo Maestro Duda. A partir de 1977, a direção artística e musical foi assumida pelo maestro, arranjador, professor e compositor Ademir Araújo, o Formiga. Dela curtindo os álbuns E o frevo continua (2007) e Olha o Mateus! (2005). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 


 


sexta-feira, maio 03, 2019

ANA CRISTINA CÉSAR, NÉLIDA PIÑON, MILTON SANTOS, HELENA HAUSS & O NOME DE CADA UM


BILHETE EXTRAVIADO – Outono de ano, quase inverno na vida: preparo a caminhada na estrada infinita. Da primavera, fagueiras fantasias: um quintal que era tudo e quase sem fim. O verão chegou cedo: passei, nem vi direito. Apesar de tudo, aprendi da forma mais difícil, nem direito até: cavalos que se arvoravam soltos e indomáveis, bispos ariscos de banda, torres frágeis a se moverem solitárias e à deriva, rainha se antecipando ao rei imóvel no xeque mate, que seja Dia Internacional do Sol – para mim é todo dia, mesmo que chova canivetes ou o escambau! O que tenho para dizer são minhas mãos espalmadas, meus braços doloridos, meu corpo cansado de lutas vãs. Fiz o que pude até quase exaurir todas as minhas forças, esgotar os ânimos, liquidado pelas adversidades. Mas não perdi a ternura e o sorriso, suplantei limites e que seja Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, hoje outra coisa, matérias de interesses, anúncios de fachadas, manchetes da mentira sensacionalista: vendem tudo, até a alma. O que de mim restou por ambicionar direitos, trevas dissolveram sonhos arrebatados. Sou o mundo porque inexiste o tempo, volta e meia me desfiz em coisa vinda que não se sabe, amanhecendo esperanças, anoitecendo vigílias e que seja Dia Internacional do Parlamento, outros representantes de vícios, nada vale nessas ruas que não os meus prontos para serem enterrados pelos que ditam leis contra os que estão de fora da corriola. Por conta própria escolhi a solidão, no que logro ou ignoro por resolver um só problema e criar outros tantos improváveis e interinos, mesmo sem querer. Meço o trecho que me cabe para igualar o que não sei que é, porque infrigi a regra de ouro ao desatino, somente sou braços abertos a quem chegar. E me basto de nada, lições de partir e se perder, sou para a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o projeto apresentado em 1965 pelo deputado federal Áureo Melo destinado a “proibir registro de nomes ridículos ou humilhantes”. [...] O Congresso Nacional decreta: Art. 1º. Fica proibido em todo o território nacional, o registro, pelas autoridades, de nomes próprios que venham a se constituir, por serem ridículos ou humilhantes, motivo de prejuizo moral àqueles a quem forem dados. Art. 1ª. Ficam passíveis de multa, que será arbitrada em um mínimo de Cr$ 1.000,000 (hum milhão de cruzeiros), todos aqueles que infrigirem o disposto no artigo anterior. [...] Tal projeto era acompanhado por esta breve justificação: “Sandália de Oliveira Silva; Maria dos Prazeres Fortes; Sherlock Holmes da Silva; Adolf Hitler de Oliveira, etc. Tais são os nomes que tivemos ensejo de encontrar, legalizados e em pleno vigor, e com os quais arcam, como um verdadeiro estigma, oriundo da ignorância dos pais e escrivãos [...] Pode servir de exemplo o caso do desembargador Francisco Gonçalves de Campos, magistrado no Acre, que deu a seus filhos nomes extremamente curiosos, todos oriundos de suas propensões literárias. Ao primeiro nascido, deu o nome de Prólogo de Campos. O segundo recebeu o nome de Verso de Campos. Nasceu depois uma menina, que recebeu o nome de Estrofe. Veio, então, o quarto filho, que os pais supunham que seria o último, donde o seu nome: Epílogo de Campos. Mas, ao fim de algum tempo, imprevista gravidez da esposa do honrado desembargador anunciou novo aumento da prole. Nasceu uma menina que se chamou Poesia de Campos. E em seguida, veio ainda uma filha. Que fazer? Como batizá-la? Só ocorreu uma solução: ela se chamaria Errata de Campos! E assim foi feito, pois que a colocação da Poesia após o Epílogo estava mesmo pedindo Errata... (A relação foi fornecida pelo ex-deputado Epílogo de Campos, que confessa nunca ter tido qualquer dificuldade motivada por seu nome singularíssimo) [....].
Trechos extraídos da obra Como você se chama? Estudo sócio-psicológico de prenomes e cognomes (Documentário, 1974), do saudoso escritor, historiador, jornalista, escritor e teatrólogo Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981). Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE ANA CRISTINA CESAR
NOITE DE NATAL: Noite de Natal. / Estou bonita que é um desperdício. / Não sinto nada / Não sinto nada, mamãe / Esqueci / Menti de dia / Antigamente eu sabia escrever / Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída / com desvelo técnico. / Freud e eu brigamos muito. / Irene no céu desmente: deixou de / trepar aos 45 anos / Entretanto sou moça / estreando um bico fino que anda feio, / pisa mais que deve, / me leva indesejável pra perto das / botas pretas / pudera
CARTILHA DA CURA: As mulheres e as crianças são as primeiras que / desistem de afundar navios.
ANÔNIMO: Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais quem desejo, que me assaviva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.
MOCIDADE INDEPENDENTE: Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir mais as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão.
Poemas da escritora e tradutora Ana Cristina César – Ana C. (1952-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual, escultora e ilustradora francesa Helena Hauss. Veja mais aquiaqui.
&
A OBRA DE MILTON SANTOS
A clarividência é uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo pelo estudo e tentar ver a partir do presente o que se projeta no futuro.
A obra do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A OBRA DE NÉLIDA PIÑON
O escritor não deve apenas criar, mas deve também emprestar a sua consciência à consciência dos seus leitores, sobretudo num país como o Brasil. Se vive e se escreve sem rede de segurança. Eu não confio no Estado. Eu confio na vigilância da sociedade. Quando os direitos humanos são desrespeitados em casa, tornam-se públicos. Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos. O ser humano é um peregrino. É só na aparência que ele tem uma geografia. Só envelhece quem vive.
A obra da escritora Nélida Piñon aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, maio 03, 2018

MILTON SANTOS, NÉLIDA PIÑON, SUZUKI, LYGIA PAPE, FRÉDÉRIC MISTRAL, RAFAEL RABELLO & PHINDILE MKHIZE

CORAÇÃO PAU-BRASIL AO SOL – Imagem: arte da gravadora, escultora, pintora, professora e artista multimídia Lygia Pape (1927-2004). - Meu coração pau-brasil é maior do que sou e quer muito mais além da mata atlântica pelo litoral, agreste e sertão, além dos pampas às águas caudalosas amazônicas, desse Sol Brasil de janeiro a janeiro. Se do branco peró invasor virei mameluco, caboclo ou caiçara, também mulato e curiboca, cafuzo e pardo, cabra e crioulo, e se o anátema do sangue assassinado me fez a alma rachada pra ser mais que Macunaíma ou nada mais que uma alma penada por assaltos e golpes, sou dessa costa atlântica ameríndia maior do que se quer chamar de nação. É que meu coração tupi quer ser tão caeté quanto tabajara, caingangue, tamoio, bororo, taulipang, tereno, cadiuéu, ofaié, caiuá-guarani, tupinambá, atroari, umutina, bacairi, vapidiana, deni, hixkaryana, jamamadi, carajá, kaxarari, apinajé, apiaká, craó, tembé, caiapó, anambé, mayoruna, caxuiana, ticuna, kulina, jarawara, munducuru, caxinaua, katukina, apurinã, marubo, baniwa, ye’kuana, hupda, yujup, kaxinawá, matis, yanomami, waimiri e todas as cores e crenças desse carnaval gigante que nunca parou de sofrer e sonhar. É que meu coração quer ser mais que massapé, terra roxa, salmourão e aluvial, muito mais que samba, afoxé, coco, xote, baião, mais que frevo e carimbó, choro e maracatu, mais que calango e cateretê, mais que ciranda e coco de roda, maxixe e lundu, xaxado e partido alto, mais que moda de viola e repente, mais que tudo que bole com a gente, mais que chula e congo, mais que fandango e chamamé, mais que a dança de homem ou de mulher, mais que o branco e o amarelo, mais que o verde e o azul, seja de norte a sul, do centro ao sudeste, do norte ao nordeste, tanto seus rios quanto seus mares, do Oiapoque ao Chuí. Quer ser mais que cana e café, soja e algodão, mais que boi e pescado, mais que pantanal e cerrado, mais que ser pentacampeão. Não quer só isso não, quer ser o Brasil mais brasileiro, daquele mais estradeiro no dia do Sol. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Rafael Rabello (1962-1995): Sete cordas, Todos os tons & Cry my guitar; da cantora e atriz sul-africana Phindile Mkhize: Beautiful voices, I’m very woman & Circle of life; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Eu acho que essa nossa tarefa no começo do século XXI é a recriação da cidadania, mediante uma outra globalização, horizontalizada e não verticalizada como a atual, na qual a vida não seja tributária do cálculo, mas haja espaço para a emoção – que é o que une os homens. [...]. Pensamento extraído da obra O país distorcido: o Brasil, a globalização e a cidadania (Publifolha, 2002), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001), que na obra O espaço do cidadão (Nobel, 1987), expressou que [...] quando aceitamos que sejam pagos salários de fome a uma boa parte da população, é certo que estamos longe de possuir uma verdadeira cultura [...] educação feito mercadoria, [pois estas] reproduzem e ampliam as desigualdades, sem extirpar as mazelas da ignorância, promovendo apenas a produção setorial, profissional, consumista que criam afinal gente deseducada para a vida [...]. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO É AMOR - [...] O homem é governado pela força da vida. A alma viva, com seu desejo de sobrevivência, demonstra grande poder de adaptação ao seu ambiente. A força da vida humana, vendo e sentindo o meio ambiente, forma e desenvolve novas faculdades. Essas faculdades continuam em desenvolvimento, sobrepujando dificuldades, e se transformam em relevantes habilidades. Essa é a relação entre o ser humano e a habilidade. O desenvolvimento de uma habilidade não pode ser conseguido por mero pensar e teorizar, mas tem de ser acompanhado por ações e práticas [...]. Só na ação, a potência da força vital pode se desenvolver inteiramente. A habilidade se desdobra com a prática. Uma pessoa inativa não desenvolve habilidades. [...] Está em meu poder educar todas as crianças do mundo, de maneira a fazê-las um pouco mais felizes e melhores. Nessa direção devo agir. Não busco mais do que amor e felicidade para a humanidade. Creio que é aquilo que todos buscamos afinal. Amor é gerado por amor. Nossa vida só vale a pena se nos amamos e consolamos. Procurei na música o significado da arte e a música me deu trabalho e foi meu alvo de vida. [...] Desejo, se for possível, uma modificação da maneira de educar, para não mais apenas dar instrução, mas educação no verdadeiro sentido da palavra, uma educação que, baseada no fato de a criança estar em crescimento, estimule, desenvolva e cristalize as capacidades humanas. Por esse motivo, dedico todas as minhas forças à Educação do Talento. O que virá de uma criança depende de sua educação. Meu mais profundo desejo é que todas as crianças deste mundo possam ser boas criaturas humanas, pessoas felizes, com habilidades extraordinárias, e é para conseguir isso que dou toda minha força de ação. Isso porque estou plenamente seguro de que todas as crianças nascem com esse potencial [...] As pessoas de hoje são como jardineiros que olham com tristeza e balançam a cabeça para sua muda que não cresceu e dizem que a semente deveria ter sido má. Não consideram que a semente vingou, mas que a maneira de cuidar é que estava errada. Ficam firmes na maneira errada e deixam que, planta após planta, feneçam [...]. Trechos extraídos da obra Educação é amor: um novo método de educação (UFSM, 1983), do filósofo, músico e educador japonês Shinichi Suzuki (1898-1998), inventor do método internacional de educação musical e desenvolveu uma filosofia para educar pessoas de todas as idades e habilidades. Veja mais aqui.

COLHEITA – [...] Um rosto proibido desde que crescera. Dominava as paisagens no modo ativo de agrupar frutos e os comia nas sendas minúsculas das montanhas, e ainda pela alegria com que distribuía sementes. A cada terra a sua verdade de semente, ele se dizia sorrindo [...] sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio fosse de ouro [...] Um rosto proibido desde que crescera [...] Onde estive então nesta casa, ele perguntou. Procure e em achando haveremos de conversar [...] mais capaz do que ele de atingir a intensidade, e muito mais sensível porque viveu entre grades, e mais voluntariosa por ter resistido com bravura aos galanteios [...]. Trechos extraídos da obra Sala de armas (Aché, 1973), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui e aqui.

MIREIA (FRAGMENTO) – [...] Então Mireia sossegava, / o olhar perdido na distância... / Parecia nas profundezas do ar azul / ver imagens maravilhosas. / Depois de novo prosseguiu: / - Felizes, felizes das almas / não mais retidas nestye mundo pela carne! / Viste os flocos de luz, Vicente, / que elas lançavam ao subirem ? / Que belo livro se teria, se as palavras / que disseram fossem escritas! / Vicente, porém, que a vontade / de chorar vinha reprimindo, / deu larga à sua dor, em soluços pungentes: / - Ah, tivesse-as eu visto! Aos seus / vestidos, como um carrapato, / me teria agarrado, e chorando, e berrando: / - Ó Rainhas do céu, diria / Único asilo que nos resta, / Oh arrancai-me os dentes todos, / os dez dedos das mãos, os dois olhos da cara! / Mas dai-me incólume de volta / a fadazinha dos meus sonhos! / - Ei-las que vêm nas suas túnicas de linho! / Súbito pôs-se ela a dizer, / e esforçando-se por sair / do regaço de sua mãe, / acenava com a mão para as bandas do mar. / Logo todos o olhar volveram / para onde a moça apontava. / E diziam, levando a mão à testa: - Nada / enxergamos ali por ora, / senão a linha do horizonte / confinando o céu e a água amarga. / - Não se vê nada ali... – Vê-se, sim! Olhe bem! / - Elas vêm num barco sem vela, / gritou Mireia. Não estão vendo / como as ondas ficam serenas diante delas? / Oh, são elas! O ar está claro, / e a brisa suave que as bafeja / se move o mais leve que pode... / Os pássaros do mar saúdam-na em revoadas. [...]. Trecho do Canto duodécumo: a morte, extraído da obra Mireia (Delta, 1962), do poeta francês Frédéric Mistral (1830-1914), Prêmio Nobel de Literatura de 1904.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte gravadora, escultora, pintora, professora e artista multimídia Lygia Pape (1927-2004). Veja mais aquiaqui.


O III Simpósio de Pesquisa e Práticas Docentes – III SIMPRAD & muito mais na Agenda aqui.
&
A vida é plena e é o que sou, o pensamento de Milton Santos, a literatura de Nélida Piñon, Liberdade de Imprensa & a arte de Leonid Afremov aqui.
 

terça-feira, fevereiro 27, 2018

NÉLIDA PIÑON, HEINE, WITTGENSTEIN, CAMBADA MINEIRA, MAGDA SOARES, JULIA CRYSTAL, ONIANS, DOMINGOS SILVA & PAISÀ

UMA & OUTRA DE COISAS & COISAS – Imagem: Sensibilidade da natureza (2016), arte do pintor português Domingos Silva. UMA: EU TE AMAREI ETERNAMENTE E AINDA DEPOIS – Desde os desencontros com a Princesa de Bambuluá, insistentemente eu recitava de forma inconsciente o verso de Heine: “Eu te amarei eternamente e ainda depois”. Havia em mim uma esperança animadora que me dizia que um dia ela voltaria esclarecendo o sucedido. Sei que ano após ano, sempre no aniversário da data por ela marcada, eu caía no sono por dias e ao acordar perguntava por ela, a velha professora sempre me respondia: Você ainda espera que ela venha pra você? Desista, ele não lhe quer, nunca quis. Quanto mais ela repetia isso, ano após ano, meu coração tinha certeza que essa não era a verdade, coração bobo de enamorado. Até o Soneto de Vinicius era o meu consolo: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. Mergulhado nos meus pensamentos só pra ela, a professora idosa me fez uma surpresa, apresentando as suas lindas filhas e que eu escolhesse qual delas queria para casar. Elas eram lindíssimas, mas havia entregado meu coração à Princesa, era dela e mais ninguém. Resolvi arrumar minhas coisas e sair dalí, andando sem rumo e só muito depois é que soube que a princesa me visitava todo ano e sem poder falar comigo porque dormia a sono solto, retornava tristonha desconfiando que eu não estudei como ela desejava e que eu vivia apenas para as festas. Assim caminhei até deparar uma casa solitária, na qual um velhinho de voz macia mandou-me entrar. Fui até a cozinha e lá conversamos e contei minha história. Ele me disse ser o Príncipe dos Pássaros e convocou seus soldados para saber qual deles sabia do reinado de Bambuluá. Assim que me viram, julgaram-me inimigo e resolveram me atacar. Ele aplacou a fúria de todos e indagou acerca do reinado, nenhum deles sabia. Pediu-me então que dormisse aquela noite e no dia seguinte me mandou para procurar o pai dele, o Rei dos Pássaros. Assim fui por três dias e três noites até chegar a uma casa na enconsta de um morro distante. Lá um ancião ainda mais velho me recepcionou ouvindo atentamente a minha história. Então ele chamou todos os seus soldados e perguntou quem sabia onde ficava o reino de Bambuluá, nenhum entre eles sabia. Com isso, me aconselhou a dormir no seu regaço e na manhã seguinte eu fosse até o seu pai, o Imperador dos Pássaros, e assim se fez. Andei, andei, andei, quatro dias depois, uma casinha lá no alto da serra abrigava quem eu procurava. Lá chegando, estava ele escondido dentro de uma cabaça, suspenso em cima do fogo. Pra ele contei minha história e ao ouvi-la pegou uma gaita de pena de ema e soprou demoradamente no instrumento. Os seus soldados apareceram aos milhares e ao serem indagado onde o reino de Bambuluá, ninguém sabia. Então ele virou-se e se dirigiu para um velho urubu que estava dormindo num canto. Cochichou ao ouvido da ave que logo estirou asas enormes dizendo: O reino de Bambuluá era o meu pasto. Fica depois do Inferno. É um lugar que nenhum olho mal consegue ver, pois lá tudo é muito bonito, também povoada por uma gente simpática e agradável. O velho então mandou que eu comprasse um boi bem grande para que fosse cortado em pequenos pedaços e todos os ossos quebrados para ser dado pro urubu velho comer. Assim fiz e três dias depois o urubu estava pronto para a viagem. Fui orientado a montar no urubu segurando nos cotos de penas e com os pés cruzados embaixo das asas, olhos fechados, só os devendo abrir quando ele parasse o voo. Assim feito, entre ventos quentes, muitas voltas, o calor imenso, voando muito alto, bruscamente uma descida rápida até a terra. Abri os olhos: uma campina verde, água corrente e no cimo do morro o palácio. O urubu despediu-se e voou. Aí segui pro palácio, encontrando uma casa em que uma senhora simpática indagou o meu destino, aí contei uma parte do plano, escondi outras, ela mandou-me entrar, dizendo-me ser uma antiga criada do palácio e que eu aguardasse até ao meio dia, quando chegaria a comida vinda da cozinha real. Enquanto isso, saquei a minha rabeca e troquei as cordas pelas que a princesa me dera e comecei a tocar, todos dançavam, a velha da casa, os passantes e até os que chegaram com a comida. E mais vinham e mais dançavam, até o Rei e a Rainha, os fidalgos e suas comitivas. Aí parei de tocar e o Rei me saudou: Amanhã você fará uma festa no meu palácio! Se você não for, corto-lhe a cabeça! Todos se foram e fui descansar. Ao cochilar, dei pela presença de uma criada que me fez muitas perguntas e foi embora sem se despedir. Daí depois ela voltou e me disse que a princesa estava feliz com a minha chegada e que anunciaria amanhã na festa o seu casamento comigo. Fiquei feliz. No dia seguinte, fui para o palácio conforme o combinado e ao chegar lá muita gente me esperava para a festa. Assim que cheguei a princesa surgiu descendo a escada real do palácio mais linda que nunca e foi logo anunciando: Rei meu pai, Rainha minha mãe, todos os presentes. Se eu perdesse um presente que muito gostava e quisesse outro, e antes desse outro chegar eu encontrasse o velho presente, que deveria fazer? Todos responderam: Nenhum presente novo substituiria o velho que tanto gostava. Pois bem, aqui está meu noivo antigo que sofreu bastante por mim, me desencantou e estudou para ocupar o digno posto, vindo aqui só para me ver. Disse isso e veio em minha direção: Este é o meu noivo, o meu presente de sempre. O Rei e a Rainha felicitaram e marcaram o casamento para o dia seguinte. A partir de então dei de sonhar e nesse sonho eu e a princesa fomos felizes para sempre. (Historieta apresentadas nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseadas em material recolhido por folcloristas brasileiros) OUTRA DE PROFESSOR & ALUNO: Na sala de aula o professor notara a presença de um aluno estranhíssimo e tão esquisito que um dia levantou-se da banca e dirigiu-se à mesa dizendo: Professor! Diga! O senhor poderia fazer a fineza de me dizer se sou ou não um completo idiota? Não, não posso. Mas qual a razão da pergunta? Bem, caso eu seja um completo idiota, me dedicarei à aeronáutica; caso contrário, quero ser um filósofo. Pois bem, para que eu possa avaliar, escreva uns artigos filosóficos sobre qualquer assunto. Dias ou meses depois, não sei, o aluno entregou um calhamaço ao professor. Ele leu a primeira página, releu e retornou ao aluno e disse: Não, você não deve se tornar um aeronauta! Pois, tinha certeza que estava diante um gênio que, segundo o próprio professor, o mais autêntico que já conhecera. O professor era o filósofo e matemático inglês Bertrand Russell (1872-1970), o aluno, o filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951). O aluno na época desse encontro era judeu, muito bem dotado e rico. Era desde então atormentado por dúvidas existenciais, porém, a relação entre ambos não demoraria muito: o professor era ateu convicto, o aluno carregado de arroubos místicos. Desfeita a possível amizade entre ambos, o jovem se desfez da sua fortuna criando um fundo de ajuda aos poetas e, o restante, doou tudo para suas duas irmãs. Empregou-se como professor primário, lecionando para crianças de 9 a 10 anos de idade, o que o levou a elaborar um dicionário para ser usado pelas escolas das aldeias austríacas. Abandonando o magistério, trabalhou como ajudante de jardineiro e, depois, elaborou um projeto de uma casa para uma de suas irmãs, dedicando-se à escultura. Muito depois é que retornou à Filosofia para fazer seu doutoramento com o Tractatus Logico-Philosophicus e, depois, publicar um breve ensaio Algumas observações sobre forma lógica e, em seguida, as suas Investigações filosóficas. Depois da guerra de 1943, desempenhou a função de porteiro em um hospital, sendo posteriormente transferido para ajudante de laboratório de análises clínicas. Renunciou sua cátedra de filosofia, buscou o isolamento e quando descobriu que estava doente gravemente, não se abalou, pois não queria continuar vivendo. Quando o médico anunciou que chegara o seu fim, ele disse: Ótimo! Diga-lhes que eu tive uma vida maravilhosa. E morreu dois dias depois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do grupo Cambada Mineira, formado pelos músicos João Francisco, Amarildo Silva & Flávia Ventura: Saudades de Minas, Fragmentos de uma noite de chuva & Tempo Certo; da cantora e compositora Julia Crystal: A journey to Shamballa, Time to care & Stalit mermaids call; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAMinha vida está cheia dos mais odiosos e mesquinhos pensamentos (isso não é exagero). Talvez você pense que seja uma perda de tempo, para mim, pensar acerca de mim mesmo; mas como posso tornar-me um lógico se não sou sequer um homem? Pensamento do filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951), autor de frases célebres como: Não posso subjugar os acontecimentos do mundo à minha vontade: sou completamente impotente. Também expressou: No mundo, tudo é como é e acontece como acontece: nele não há valor. Veja mais aqui.

LINGUAGEM & EDUCAÇÃO – [...] em diferentes campos – Linguistica e Sociolinguistica, Sociologia e Sociologia da Linguagem, Psicologia e Psicolinguistica -, que se deve fundamentar um ensino da língua materna que se incorpore ao processo de transformações sociais, em direção a uma sociedade mais justa. Entretanto, para que esses conhecimentos venham a transformar, realmente, o ensino da língua, é fundamental que a escola e os professores compreendam que ensinar por meio da língua e, principalmente, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas. Quando teorias sobre as relações entre linguagem e classe social são escolhidas para fundamentar e orientar a prática pedagógica, a opção que se está fazendo não é, apenas, uma opção técnica, em busca de uma competência que lute contra o fracasso na escola, que, na verdade, é o fracasso da escola, mas é, sobretudo, uma opção política, que expressa um compromisso com a luta contra as discriminações e as desigualdades sociais. Trecho extraído da obra Linguagem e escola: uma perspectiva social (Ática, 1992), de Magda Soares, abordando o facrasso da/na escola, deficiência lingüística, diferença não é deficiência, o que pode fazer a escola e vocabulário crítico.

AS MULHERES - [...] As mulheres eram motivo de guerra explícito e um prêmio aprovado da guerra. Os homens lutavam para salvar suas esposas. Quando uma cidade era tomada, os homens eram mortos, as crianças eram golpeadas até a morte ou escravizadas, as mulheres, arrastadas violentamente para servir aos conquistadores, casados ou não, como escravas e concubinas [...]. Trecho extraído de The Origins of European Thinkought: Sobre o corpo, a mente, a alma, o mundo, o tempo e o destino (Cambridge UP, 1951), do professor estadunidense Richard Onians (1899-1986).

O REVOLVER DA PAIXÃOEu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que me parecia sua culpa. Você me olhou afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortou e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, eu deixava que você me tivesse, porque a carne era a minha alma [...] Como podes pensar que aguento vê-lo tragando vida com chope, sem que eu passe pela tua boca, te beije, te lamba, e você sorrialigado à terra, porque sou o teu húmus, o teu esperma, eu sou o teu membro, eu sou você. Não, não reclame, você me quer assim mesmo, ainda que selvagem eu te cause medo, ameace a tua liberdade. Ou me querias selvagem só na cama? [...] Não te autorizo a deixar-me. Ouviu o que eu disse? Não te dou licença de passear pela terra, de ter um futuro em que eu não esteja inteira. Ah, meu corpo amado, eu te desejo. E te desejo mais do que perdermo-nos no leito que vem sendo osso há dois anos. Uma agonia que recolho com a minha boca e mastigo com os meus dentes. Eu te mastigo, eu tecomo, eu te rasgo como você me rasga, me grita, me ama. [...] Não, erga-te, amor, e me cubra toda, quero você me soçobrando, eu sou uma mina africana, há que ir ao fundo, apalpar no escuro a sua riqueza, coçar a sua aflição, sentir medo. Medo das minhas trevas, pavor dos meus pelos, temor do meu suor e da minha fragrância. Vamos, seu covarde, volte depressa. Não quero mais perder o espetáculo desse amor que diariamente me derruba, porque é desse jeito que mastigo da sua comida. [...] Meu corpo identifica o teu cheiro, acre-doce pela manhã. Quantas vezes te lavei o sexo e você se deixou acariciar como se fosse meu dever rejuvenescer=te a cada dia, quem melhor que as minhas sagradas mãos conhecem o teu segredo, as palpitações da tua carne, o modo firme e cego com que se ergue e vem a mim. Não te creias livre, a vida não é tua. A tua vida é minha porque me perdi em ti, em cada palavra que disseste e me conquistou. [...] E te jogarás sobre o leito, e nu, esplendido, me atrairás dizendo, não queres novamente ser minha, acaso sobreviverás sem o gozo que é a única viagem atrlatica que se vive e nos naufraga? Esquecendo, porém, de que você sim é o barco carecendo das águas, e que sou a água em que mergulharás sem rota, sem mapa, pois não há mapa para o amor, amor. [...] Por favor, ceda-me o teu tempo. Ceda-me o teu corpo novamente. No leito, ou na natureza crua. Ou no bar em que estiveres agora. Onde eu chegando logo faríamos amor com o meu olhar de espinho. Amor se faz na esquina, a multidão dispersa em torno. Eu não te amo só com o ímpeto da carne. Também te quero com a minha boca distante, falando, te enunciando, pronunciando o teu nome. Teu nome é meu ato de amor. Teu nome é o orgasmo de que padece o meu sexo. [...]. Se me negas o pedido eu me vingo, abro minhas pernas para o teu inimigo, convidarei o desafeto a comer minhas carnes com garfo e faca e que divulgue entre amigos, e perto da tua consciência, o sabor de sal da minha pele e como o meu suor arrasta ainda o teu cheiro. Não me julgueis louca, julgues-me apenas capaz de lutar pela tua volta. [...] Se é assim, tome-me como sou. Transija com a minha volúpia. Aceite viver com uma mulher perdida no pecado de amar. Ah, hás de dizer, até você fala em pecado? Sim, falo, cometo, vivo, devoro, e quero. O que tem você com isso? Pecado é a tua boca, o teu sexo, o teu peito, os teus pelos, a testa franzida quando vais gritar de gozo. O que queria, que jamais tivesse enxergado o teu rosto quando me amas, só porque, perdida de amor, devia estar ocupada com o próprio prazer? [...] pois ainda assim sigo ao teu lado te amando, te fazendo recordar com minúcias o arrebato que ambos provamos, o sal jogado sobre nossos corpos para exalarem aquela essência que nos volatizava mas também nos prendia à terra, para vivermos com a carne um ritual iluminado, nossas peles cobertas de folhas, musgos e aranhas. Ah, amado, volte depressa, antes que outras cartes te persiga, e fique a vida difícil para nós. [...]. Extraído da obra O calor das coisas – contos (Record, 2009), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS - LEGADO - A minha vida chega ao fim, / Escrevo pois meu testamento; / Cristão, eu lego aos inimigos / Dádivas de agradecimento. / Aos meus fiéis opositores / Eu deixo as pragas e doenças, / A minha coleção de dores, / Moléstias e deficiências. / Recebam ainda aquela cólica, / Mordendo feito uma torquês, / Pedras no rim e as hemorroidas, / Que inflamam no final do mês. / As minhas cãimbras e gastrite, / Hérnias de disco e convulsões – / Darei de herança tudo aquilo / Que usufruí em diversões. / Adendo à última vontade: / Que Deus caído em esquecimento / Lembre de vós e vos apague / Toda a memória e sentimento. ESPEREM SÓ: Só porque arraso quando arrojo / Raios, acham que não sei troar. / Ora, meus senhores, ao contrário: / Na arte do trovão não sou pior! / No devido dia, eu ponho à prova, / Quem duvida agora é só esperar; / O meu peito então vai trovejar, / E trincar os céus, a minha voz! / No fragor daquele furacão, / Os carvalhos secos vão rachar, / Os castelos vão desmoronar, / Velhas catedrais, ruir ao chão! MORFINA: É grande a semelhança desses dois / jovens e belos vultos, muito embora / um pareça mais pálido e severo / ou, posso até dizer, bem mais distinto / do que o outro, o que, terno, me abraçava. / Havia em seu sorriso tanto afeto, / carinho e, nos seus olhos,tanta paz! / Ornada de papoulas, sua fronte / tocava a minha, às vezes – e seu raro / odor me dissipava a dor do espírito. / Tal alívio, porém , não dura. Eu só / hei de curar-me inteiramente quando / o irmão severo e pálido abaixar / a sua tocha. – O sono é bom; o sono / eterno, ainda melhor; mas certamente / o ideal seria nunca ter nascido. Poemas extraídos de Heine, hein? – Poeta dos contrários (Perspectiva, 2011), do poeta romântico alemão Heinrich Heine (1797 – 1856). Veja mais aqui.

PAISÀ
O premiado drama Paisà (1946), do cineasta italiano Roberto Rossellini (1906-1977), é integrante da trilogia de guerra do diretor, iniciada com Roma, Città Aperta e segudia de Germania Anno Zero, dividido em seis episódios que tratam das relações entre os italianos recém-libertados e os libertadores estadunidenses. Os episódios são nomeados como Sicília, Nápoles, Roma, Florença, Apeninos Emilianos e Porto Tolle.

Veja mais:
A folia do Biritoaldo desandou no carnaval, Ela baila no meu coração, Frevo do Mundo & a poesia de Mário Hélio aqui.
Proezas do Bitiroaldo aqui, aqui, aqui e aqui.
Psicologia Social & Educação, Pablo Neruda, Amedeo Modigliani, Yasushi Akutagawa, Regina Espósito & Jú Mota aqui.
Paul Ricoeur, Li Tai Po, Millôr Fernandes, Carlos Saura, Mônica Salmaso, Aída Gomez Ralph Gibson & Ronaldo Urgel Nogueira aqui.
Tolinho & Bestinha: quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado aqui.
Arthur Rimbaud, Anti-Édipo de Deleuze & Guattari, Infância & Literatura & Balanço da Copa aqui.
Descartes, Gustav Klimt, Ingmar Bergman, Denise Stoklos, João Bosco, Danny Calixto, Bernadethe Ribeiro & Sandra Regina Alves Moura aqui.
Apollinaire, Rembrandt, Walter Benjamim, Paulo Moura, Efigência Coutinho & Programa Tataritaritatá aqui.
Jacques Lacan, Alexander Luria, Elizeth Cardoso, Aníbal Bragança & Clevane Lopes aqui.
Paul Verlaine, Denise Levertov, Delaroche, Wojcieck Kilar, Lourdes Limeira & Marcoliva aqui.
Yevgeny Yevtushenko, Leila Assumpção, Segueira Costa, Sigmund Freud, Hyacinthe Rigaud & Ailson Campos aqui.
A nuvem de calças de Vladimir Mayakovsky aqui.
Cultura afrodescendente, carnaval & Célia Labanca aqui.
Oração da cabra preta & Turismo religioso aqui.
Biritoaldo: a vingança no formigueiro aqui.
Cidinha Madeiro aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
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Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor português Domingos Silva.
Veja mais aqui.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...