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quarta-feira, julho 25, 2018

GABRIELA MISTRAL, ARTAUD, ANA MIRANDA, CANCLINI, LUCIEN SFEZ, ROCCO & ADRIANA FARIAS


PROSINHA PARAMIOLÓGICA – Imagem: A jangada e o céu amarelo, art by Liu Kojima. - Igarapeba de rio, ubá pelo mar. Ou vice-versa. Pescador de respeito, não deixa o barco virar. Quem me ensinou a nadar eu não sei, nunca aprendi. O que é que o rei vê só uma vez, o homem toda vez e Deus nenhuma? Dá-me só uma, pão-por-Deus! Um pé lá, outro cá: pés em duas canoas. Quem por gosto corre não se cansa. É só livrar de boca ruim, praga rolou, capaz de pegar mesmo, avalie, que se espalha feito um rastilho de cobra. É, coisa malfazeja nunca vem sozinha. Melhor guardar do bem, cumulado de votos amáveis. E a mula-sem-cabeça? Ah, moça donzela, bonita de se ver. Perdeu-se tão jovem, caiu na falação. Por causa disso, não pode mais casar. Como é que pode? Foi feito a comadre e o compadre. Vixe! Pior aquela que se perdeu com o padre e virou burrinha. Isso é lá coisa que se conte? Oxe, toda sexta-feira, meia noite em ponto, é a hora dela. Não diga isso. Esconda as unhas e os dentes, senão ela ataca, chupa os olhos, começa por aí. Se passar correndo por uma cruz, ela logo aparece. Deite-se de bruços e esconda as mãos. Quando chegar em casa, não acenda as luzes; espere o dia nascer. Eita, isso é coisa de Trancoso. Minha porta está aberta, ninguém vem me ver, da janela estreita, tudo ao redor, rumores de passos na rua, as palavras voam: conversa vai, conversa vem, as parlendas na boca da noite. Nenhum motivo pra queixa, a farra loquaz: eu quero que me venha contar o que foi que viste ontem na feira! Deixe de vexame, ora, parece mais que vai tirar o pai da forca! Eu, não. Esse não entende patavina, não sabe pataca de qualquer coisa. E a feira tem de tudo, de fruta ao que ver, de tudo que quiser! Não visse mais nada? Só a mulher buchuda com a barriga pela boca. Se ela soprar no cangote do marido, ele que enjoa. Não diga isso. E pra melhorar a situação, ela deve ficar de cócoras e o marido tem que dar três voltas no oitão. Segura o fandango: caindo no goto de todo mundo! E bate o coco: Papai me dê dinheiro pra comprar um cinturão que a vida de solteiro é andar mais Lampião! Não é coisa que se diga: pior do que pé com calo em sapato novo! Mindinho falou pro Seu Vizinho: jangadeiro de rio veleja pro mar! A pipa pinga, o pinto pia, quanto mais o pinto pia, mais a pipa pinga! Orvalho não enche poço, rapaz! E se procuram porcos até as moitas roncam! A voz do populário dos rincões bafejados pelo ditos e sobreditos, destravou a língua com os adágios a desforra de trancoso: mande lá adivinhação! Uma anedota que seja, homem! Seu Vizinho falou pro Maior de todos: Coco pelado, caiu no melado! Quando Deus andou no mundo onde pôs as mãos na mulher? Segura a munheca, lá vem travalíingua: corrupaco papaco, a mulher do macaco, ela pita, ela fuma, ela toma tabaco debaixo do sovaco! Ah, morena, eu apago os faróis e teu fogo. Una, duna, trena, catena, bico de pena, essa sim, essa não. Escolha muito não. Maior de Todos pro Fura Bolos: Conheço o pau pela casca, a mulher peça feição, eu sei, olhando a fumaça, que pau que deu o tição! O infortunado de fadiga no seu eito penoso, no ponto mais alto do verão: que Deus torne a vida fácil, chuva para a plantação. Fura Bolos pro Cata-Piolhos: Sou lá pau de dá em doido, hem! Enquanto isso o papa-figo corre solto no matão. Soa acalanto altas horas, entonações melífluas da beira do rio para ultramar. Uma noite dentre as noites, as águas calmas escondem o remexido do fundo. Parece mais cavilação. Não é isso, não. Reme direito, ué! Eu remo que remo e torno a remar, um dia esse rio vai me levar além mar. Vai que se perde pelas parêmias. Quer que conte outra vez? Ah, era uma vez pra quem vai, um filho de qualquer pai, vai pelo mundo sem fim: ganhará a sorte quem disser sim, a sorte pra quem só diz sim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora, violonista e violeira Adriana Farias: Beleza rústica, Viola minha viola, Canarinho do peito amarelo & Galopeira & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Nos centros urbanos se dramatiza uma tensão chave: entre totalizações do saber que as descrições das ciências sociais duras produzem e as destotalizações que geram o movimento incessante do real, as ações imprevistas, aqueles ocos ou fraturas que obrigam a desconfiar dos conhecimentos demasiadamente compactos oferecidos pelas pesquisas e estatísticas. [...]. Trecho de Imaginários culturais da cidade: conhecimento/espetáculo/desconhecimento (Iluminuras, 2008), do antropólogo argentino Nestor Garcia Canclini

A TÉCNICA, A COMUNICAÇÃO & A VIDA – [...] Desde o começo da humanidade sonha-se com isso. Nunca sofrer e nunca morrer. Ou seja, obter a imortalidade. É o que precisamente a técnica pretende poder dar ao homem. [...]. Trecho de entrevista concedida pelo escritor e professor tunisiano Lucien Sfez à Revista Famecos (abril, 2008), que em sua obra Crítica da comunicação (Instituto Piaget, 1994), assinala que: [...] A comunicação morre por excesso de comunicação e se acaba em uma interminável agonia de espirais [...], ao denunciar que um Frankstein tecnológico está ameaçando por se viver num mundo de máquinas, para fabricar, transportar, pensar, contando-se com a comunicação, vista como um conceito mágico, um agente invasor ou uma nova ciência litúrgica do século XXI, para evitar a catástrofe iminente. Para o autor, na sociedade atual já não se sabe comunicar consigo mesma, por conta dos valores alterados cujas leis se dissipam e cuja coesão interna é posta em questão. Para ele, o fator comunicação assume uma relevância inédita em termos históricos por ter a tarefa desesperada de religar os diversos setores da sociedade mergulhados na cegueira da especialização, da fragmentação e da confusão dos valores. 

O RETRATO DO REI – [...] Nenhuma mulher devia temer um homem [...] juntou um arsenal que daria para prover um grande exercito. Estão todos armados. Não há mais autoridade. Sem comando não há paz. Prenuncia-se ali o fim da sociedade humana. [...] isso ainda vai acabar em desgraça. [...] Vista de longe, parecia uma cidade limpa, inocente, em estado de graça, sem seus moradores, seus pecados, suas intrigas. [...] Sua vida era uma sucessão de perdas. [...] Muitos homens acreditavam ser pecado manter conversação com mulheres. E talvez fosse mesmo. [...] Desde criança Francisco demonstrara vocação religiosa [...] dissera a mão que queria ser padre. Mas não sonhava apenas ser padre. Queria ser bispo, quem sabe arcebispo, cardeal, ou até mesmo papa. O pai, ao ouvir a expressão dos desejos do menino, dissera: És apenas uma fruta podre nos galhos da nossa família. [...] ajoelhou-se ao lado da cama, postou as mãos e rezou, piedosamente, pedindo a Deus que realizasse seu maior desejo: mandar todos os paulistas para o inferno. [...]. Trecho extraído da obra O retrato do rei (Companhia das Letras, 1991), da escritora Ana Miranda. Veja mais aqui e aqui. 

COPLAS A tudo, em minha boca, / um sabor de lágrimas se acresce; / a meu pão cotidiano, a meu canto / e até à minha prece. / Eu não tenho outro oficio, / depois do silente de amar-te, / que este oficio de lágrimas, duro, / que tu me deixaste. / Olhos apertados / de candentes lágrimas! / Boca atribulada e convulsa, / em que prece tudo se tornava! / Tenho um vergonha / deste modo covarde de ser! / Nem vou em tua busca / nem consigo também te esquecer! / E há um remoer que me sangra / de olhar um céu / não visto por teus olhos, / de apalpar as rosas / sustentadas pela cal de teus ossos! Poema da poeta chilena Gabriela Mistral (1889-1957), Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE ARTAUD
[...] Se sou poeta ou ator, não o sou para escrever ou declamar poesias, mas para vive-las. Quando recito um poema, não é para ser aplaudido mas para sentir os corpos de homens e mulheres, disse os corpos, tremer e rodar em uníssono com o meu, rodar como se roda da obtusa contemplação do Buda sentado, pernas cruzadas e sexo gratuito, para a alma, quer dizer para a materialização corporal e real de um ser integral de poesia [...] tornem-se verdadeiros, e que a vida saia dos livros, das revistas, dos teatros ou das missas que a retêm e a crucificam para captá-la, e que passe para o plano desta imagem interna de corpos [...].
Pensamento do escritor, dramaturgo e diretor de teatro francês de aspirações anarquistas Antonin Artaud (1906-1948), extraído da obra Valise de cronópio (Perspectiva, 2008), de Júlio Cortázar. Imagem: Evocation d’Antonin Artaud, de Masson Andre (1886-1987). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Jornadas de Economia Política, História Econômica e Social (III Jephes) & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte do pintor ítalo-brasileiro Antonio Rocco (1880-1944) aqui.
&
Renascer na manhã, a poesia de Manoel de Barros, a universidade de José Arthur Giannotti, a arte de Marcel Gromaire, a música de Toninho Horta, Badi Assad, Max Richter e Charlotte Gainsbourg aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

terça-feira, abril 07, 2015

PRIMO LEVI, SAFI FAYE, NANCY MITFORD, GABRIELA MISTRAL & WORDSWORTH


 

A SOLIDÃO DE NANCY... - Era a filha mais velha do barão Redesdale e foi educada particularmente. Uma jovem que era uma promessa brilhante logo deu o ar de sua graça e os pendores literários com a publicação dos escritos: Highland Fling. Logo brilhou com a publicação de Christmas Pudding e, logo em seguida o primeiro amor levou-a ao casamento. Publicou outro livro, o Wigs on the Green e o relacionamento conjugal, por tanto que durou, não resistiu à insatisfação mútua e ao divórcio. A sonhadora em busca do amor logo publicou Pigeon Pie. Contudo, foi com a publicação dos manuscritos que seriam seu primeiro grande sucesso: The Pursuit of Love, mantendo a chama viva da paixão. Estava definitivamente estabelecida a sua reputação de escritora. E foi durante a segunda guerra que se envolveu com o segundo amor, publicando em seguida Love in a Cold Climate. Logo desenvolveu o conceito de língua U e não-U: as palavras identificavam as origens sociais. Era uma piada, mas foi levada a sério por muita gente. Vieram então os livros The Blessing, a biografia de Madame de Pompadour, a biografia Voltaire in Love e Don't Tell AlfredA sua sagacidade afiada e provocativa foi amainando com o fracasso do relacionamento e a saúde deteriorada: a sua marca ficou para sempre. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Se não é possível ser feliz, é preciso se divertir. Há coisas piores que a pobreza, embora eu não consiga lembrar quais são no momento. É engraçado que as pessoas estejam sempre prontas para admitir que não têm talento para desenho ou música, enquanto todos imaginam que são capazes de amar de verdade, o que é um talento como qualquer outro, só que muito mais raro. O que é tão bom e tão inesperado sobre a vida é a maneira como ela melhora conforme avança. Acho que você deveria incutir esse fato em seus filhos porque acho que os jovens têm uma sensação horrível de que a vida está passando por eles e eles precisam fazer alguma coisa - pegar alguma coisa - eles não sabem bem o que, enquanto eles só precisam esperar e tudo vem. A grande vantagem de viver em uma família grande é a lição precoce da injustiça essencial da vida. Às vezes fico entediado com as pessoas, mas nunca com a vida. Pensamento da escritora britânica Nancy Freeman-Mitford (1904-1973). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Eu fiz o meu melhor. Não preciso convencer o público. Realmente não acredito em religiões monoteístas e, portanto, defendo religiões africanas baseadas em espíritos. Talvez eu tenha ousado mostrar o que acontece à noite e sobre o qual as pessoas nunca falam durante o dia. “Cavalgar” não é um problema. Tudo é fruto da imaginação – minha imaginação. Por que todos os filmes devem conter uma mensagem, ser instrutivos ou educativos? Criatividade não é uma atividade analítica. Para mim, os filmes nascem da imaginação. Como minha mãe diz, é o destino. Estava escrito que eu tinha que passar por esse julgamento, mesmo depois de 20 anos no ramo. Havia um mistério em torno do filme. Eu tinha dado direito de autoridade ao produtor francês designado que tinha adquirido – sem nosso conhecimento – os direitos do filme, bem como todo o financiamento que eu tinha obtido da Itália e da Suíça. Tudo desapareceu no ar. Por seis anos; eu tive que lutar sozinha até o fim do processo judicial. De qualquer forma, meu filme foi inteiramente filmado em 1990, quando Mossane tinha 14 anos. O que aconteceria se faltassem algumas cenas, agora que Mossane tem 21? Quero esquecer os últimos seis anos. Mossane está pronto e estou feliz por finalmente ter chegado lá. Eu gosto muito deste filme. Pensamento da cineasta e etnóloga senegalesa Safi Faye (1943-2023).

 

A TRÉGUA – […] Hurbinek era um nada, um filho da morte, um filho de Auschwitz. [...] Hurbinek continuou, enquanto viveu, as suas experiências obstinadas. Nos dias seguintes, todos nós o ouviamos em silêncio, ansiosos por entendê-lo, e havia entre nós falantes de todas as línguas da Europa: mas a palavra de Hurbinek permaneceu secreta. Não, não devia ser uma mensagem, tampouco uma revelação: era talvez o seu nome, se tivesse a sorte de ter um nome; talvez (segundo uma de nossas hipóteses) quisesse dizer “comer” ou “pão”; ou talvez “carne” em boêmio, como sustentava, com bons argumentos, um dos nossos, que conhecia essa língua. Hurbinek, que tinha três anos e que nascera talvez em Auschwitz e que não vira jamais uma árvore; Hurbinek, que combatera como um homem, até o último suspiro, para conquistar a estrada no mundo dos homens, do qual uma força bestial o teria impedido; Hurbinek, o que tinha nome, cujo minúsculo antebraço fora marcado mesmo assim pela tatuagem de Auschwitz; Hurbinek morreu nos primeiros dias de março de 1945, liberto mas não redimido. Nada resta dele: seu testemunho se dá por meio de minhas palavras. [...] Em suas conversas, o verdadeiro, o possível e o fantástico formavam um nó imbricado, variável e inextricável. Falava da prisão e do tribunal como de um teatro, onde ninguém é realmente ninguém, mas cada um representa, demonstra a sua habilidade, entra na pele de outro, interpreta um papel; e o teatro, por sua vez, era um grande símbolo obscuro, um instrumento tenebroso de perdição, a manifestação externa de uma seita subterrânea, malvada e onipresente, que impera para dano de todos, e que bem bater à nossa porta, para nos agarrar, pôr em nós uma máscara, para que sejamos o que não somos e façamos o que não queremos. Essa seita é a Sociedade: o grande inimigo, contra quem o Pôr-do-Sol sempre combatera, e sempre fora vencido, conseguindo, porém, reerguer-se heroicamente todas as vezes. [...] roubaram todas as suas palavras, seus gestos de desapontamento, e assim fizeram com que se tornasse ator à sua revelia. Roubaram-lhe a imagem, a sombra, a alma. Foram eles que o fizeram tramontar, e o batizaram Pôr-do-Sol. [...] o homicídio polposo é quando alguém enfia a faca não no peito, ou na barriga, mas aqui, entre o coração e a axila, na polpa; e é menos grave. [...] o fato de sentir pela primeira vez, debaixo de nossos pés, um pedaço da Alemanha [...] somava ao nosso cansaço um estado de alma complexo, feito de impaciência, de frustração e de tensão. Parecia que tínhamos algo a dizer, coisas enormes a dizer, a cada alemão em particular, e que cada alemão tinha coisas a nos dizer: sentíamos a urgência de tirar conclusões, de perguntar, explicar e analisar, como fazem os jogadores de xadrez no final do jogo [...]. se não sabiam, deviam, deviam sagradamente ouvir, saber de nós, de mim, tudo e depressa: eu sentia o número tatuado no braço queimando como uma chaga. [...] parecia-me estar caminhando entre tropas de devedores insolventes, como se cada qual me devesse alguma coisa e se negasse a pagar. [...] Mas ninguém olhava em nossos olhos, ninguém aceitou o desafio: eram surdos, cegos e mudos, entrincheirados entre as próprias ruinas como num fortim de desejado desconhecimento, fortes, ainda, capazes de ódio e desprezo, prisioneiros ainda do antigo nó de soberba e culpa. [...] mas sabíamos que nas soleiras de nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma provação, e antecipávamos com temor. [...] sinto uma angústia sutil e profunda, a sensação definida de uma ameaça que domina [...]. Tudo agora tornou-se caos: estou só no centro de um nada turvo e cinzento. [...]. Trechos extraídos da obra A treva (Companhia de Bolso; 2010), do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A TERRA – Na antologia poética da poeta chilena Gabriela Mistral (1889-1957), destaco o seu belíssimo poema A Terra, na tradução de José Jeronymo Ribera: Indiozinho, se estás cansado / Tu te recostas sobre a Terra, / fazes igual se estás alegre, / vai, filho meu, brinca com ela... / Que de coisas maravilhosas / soa o tambor índio da Terra: / se ouve o fogo que sobe e desce / buscando o céu, e não sossega. / Roda e roda, se ouvem os rios / em cascatas que não se contam. / Se ouve mugir os animais; / comer o machado a selva. / Ouve-se soar teares índios. / Se ouvem trilhos e se ouvem festas. / Aonde o índio está chamando, / o tambor índio lhe contesta, / e tange perto e tange longe, / como o que foge e que regressa... / Tudo toma, tudo carrega / o corpo sagrado da Terra: / o que caminha, o que adormece, / o que se diverte e o que pena; / os vivos e também os mortos / leva o tambor índio da Terra. / Quando eu morrer, não chores, filho: / peito a peito junta-te a ela / e se dominas o teu fôlego / como quem tudo ou nada seja, / tu ouvirás subir seu braço / que me jungia e que me entrega / e a mãe que estava quebrantada / tu a verás tornar inteira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

Imagem: Female nude (for the decoration of Bristol club), do pintor português Almada-Negreiros (1893-1970)

Ouvindo: Concerto for sitar and orchestra (BGO Records, 1990), do compositor e músico indiano Ravi Shankar (1920-2012), arranjos de Ali Arkbar Khan e o autor, conductor André Previn and London Symphony Orchestra.

BOCA DO INFERNO – O romance Boca do Inferno (Companhia das Letras, 1990), da escritora Ana Miranda é desenvolvido no séc. XVII na Bahia colonial, durante o governo tirânico do militar Antonio de Souza de Menezes, alcunhado de Braço de Prata, por usar uma peça deste metal no lugar do braço perdido numa batalha naval contra os invasores holandeses. Entre os perseguidos pela fúria do brutal governador, está o grande poeta brasileiro Gregório de Matos Guerra (1633-1696), envolvido por suas ligações com os Ravasco e por suas sátiras aos poderosos, perdendo seus cargos e tendo que fugir com medo de ser preso ou morto. Ilustra bem a situação esse soneto da lavra desse autor: A cada canto um grande conselheiro, / Que nos quer governar cabana e vinha; / Não sabem governar sua cozinha, / E podem governar o mundo inteiro. / Em cada porta um bem frequente olheiro, / que a vida do vizinho e da vizinha / Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, / Para o levar à praça e ao terreiro. / Muitos mulatos desavergonhados, / Trazidos sob os pés os homens nobres, / Posta nas palmas toda a picardia, / Estupendas usuras nos mercados, / Todos os que não furtam muito pobres: / E eis aqui a cidade da Bahia. Veja mais aqui e aqui.

O CARVALHO DE GUERNICA – Em uma coletânea de poemas selecionados por David Ferry (Dell Publishing, 1960), reunindo poemas do maior poeta romântico inglês, William Wordsworth (1770-1850), destaco o seu poema O carvalho de Guernica: O antigo / carvalho de Guernica, conta Laborde na sua descrição da Biscaia, é o monumento natural / mais venerável. Fernando e Isabel, em 1476, depois de ouvirem missa na Igreja de Santa / Maria la Antígua, dirigiram-se para essa árvore, sob a qual juraram aos biscaínos / respeitar os seus foros. Que outro interesse esteja ligado a ele no espírito desse povo / é o que se verá do seguinte (soneto) supostamente falando ao mesmo. 1810. / Carvalho de Guernica! Árvore mais / Sagrada que em Dodona a que escondia / Uma divina voz (a fé o cria) / Dando da aérea fronde altos sinais! / Como podes florir em tempos tais? / Que esperança o Sol te traz, ou que alegria? / São-te trazidas pela maresia, / Ou por leves orvalhos matinais? / Benvindo seja o golpe que em ti caia, / E em terra alongue a tua fronde imensa, / Se nunca mais, à sua sombra densa, / Venham legisladores sentar-se uivantes, / Senhores e camponeses, como dantes, / Guardiães das liberdades da Biscaia. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

TROIS COULEURS: ROUGE – O drama Trois couleurs: Rouge (A fraternidade é vermelha, 1994), é o terceiro filme da Trilogia das Cores do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996), conta a história de uma jovem modelo Valentine que está dirigindo seu carro de volta para casa quando atropela algo em seu caminho. Ao descer do veículo, encontra uma cadela ferida, com o endereço de seu dono na coleira, quando conheceu um juiz aposentado que termina seus dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. Por trás deste estranho comportamento, está o enigma de um homem cujo motivo vital é tomar posse da intimidade daquelas pessoas e acompanhar passo a passo o desenrolar de seus destinos. Destaque para o trabalho da atriz franco-suíça Irène Jacob no papel da protagonista. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.



Veja mais sobre:
Dois quentes & um fervendo, a poesia de James Joyce, A música viva de Koellreutter & Carlos Kater, a pintura de Jan Sluijters, a arte de Karel Appel, a música de Brahms & Giorgia Tomassi aqui.

E mais:
Exercício de admiração de Emil Cioran, Abril despedaçado de Ismail Kadaré, o teatro de Meyerhold, a arte de Fridha Khalo, a música de Badi Assad, a pintura de Karel Appel, o cinema de Carla Camurati & Marieta Severo, Carlota Joaquina & Clube Caiubi de Compositores aqui.
Doro na Caixa do Fecamepa aqui.
Constitucionalização do direito penal aqui.
Literatura Infantil, a poesia de Hermann Hesse, o teatro de Constantin Stanislavski, Leviatã de Thomas Hobbes, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Juliette Binoche, a música de Tom Jobim & Lee Ritenour, Tiquê: a deusa da fortuna, a arte de Bette Davis, a pintura de Jean-Honoré Fragonard & Alexey Tarasovich Markov aqui.
O lado fatal de Lya Luft, a literatura de Marcia Tiburi, Afrodite & o julgamento de Páris, a música de Diana Kral, o teatro de Cacilda Becker & José Celso Martinez Corrêa, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Julie Delpys, a arte de Jeanne Hébuterne, a pintura de Débora Arango & Enrique Simonet aqui.
A salvação bidiônica depois da bronca, o pensamento de István Mészarós, Mal de amores de Ángeles Mastretta, Horror econômico de Viviane Forrester, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de Auguste Chabaud, a música de Tatjana Vassiljeva, a arte de Lia Chaia & Wesley Duke Lee aqui.
Colocando os pingos nos iiiiis, A teoria da viagem de Michel Onfray, Discurso & argumentação de Débora Massmann, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência, a música de Natalia Gutman, a poesia de Viviane Mosé, a fotografia de Cris Bierrenbach, a arte de Mira Schendel, Conversa de bar & filho não reconhece pai & Quando se pensa que está abafando, das duas, uma: ou contraria ou se expõe ao ridículo. Cadê o simancol, meu aqui.
A gente tem é que fazer, nunca esperar que façam por nós, O enigma do artista de Ernest Kris & Otto Kurz, Os catadores de conchas de Rosamunde Pilcher, As viagens de Marco Polo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Respeito aos idosos, a música de Silke Avenhaus, a arte de Beth Moyses & Antonio Saura, Os passos desembaraçados nos emaranhados caminhos & Quando os ventos sopram a favor, tudo fica mais fácil aqui.
Que coisa! Quando eu ia, todos já voltavam, a poesia de Sylvia Plath, Estruturas sociais da economia de Pierre Bourdieu, Rede e movimentos sociais de Maria Ceci Misoczky, Gravidez na adolescência de Laura Maria Pedrosa de Almeida, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Coeur de Pirate, a arte de Luciah Lopez, O feitiço do amor & Quando algo der errado, não adianta chilique: cada um aprende mesmo é com suas escolhas aqui.
No reino da competição todo mundo tem de ser super-homem – o ser humano não é nada, As causas da pobreza de Simon Schwatzman, A crise da educação de Hannah Arendt, a literatura de Abraham B. Yehoshua, Aprender e suportar o equivoco de Clemencia Baraldi, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, A primeira paixão de Ximênia, a música de Ernesto Nazareth & Maria Teresa Madeira, a pintura de Arturo Souto & Mikalojus Konstantinas Ciurlionis aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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terça-feira, novembro 18, 2014

SOPHIE OLUWOLE, WISLAWA, DAREL, JESS SCOTT, ÁNGEL RAMA, MARIA AZENHA & ALMA MAHLER

 


A OBRA DE DAREL VALENÇA LINS - Nascido na cidade pernambucana de Palmares, no dia 9 de dezembro de 1924, o gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins, iniciou aprendizado de desenhista técnico de máquinas na Usina de Catende, localizada na vizinha cidade catendense, e dedica-se à prática do desenho à mão livre, em 1937, estudando na Escola de Belas Artes, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em 1941 passa a ser desenhista no Departamento Nacional de Obras e Saneamento de Recife. Mudou-se pro Rio de Janeiro em 1946, onde, no ano seguinte, matriculou-se no Liceu de Artes e Ofícios, onde estuda gravura em metal com Henrique Oswald, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, entra em contato com Oswaldo Goeldi e passa a atuar como ilustrador em diversos periódicos, como para a revista Machete, Senhor, Revista da Semana, entre outras, além dos jornais Última Hora, O Jornal e o Diário de Notícias. Em 1949 realiza uma exposição Individual, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Em 1950 recebe o Prêmio Parkes pelo Ibeu. Em 1951 passa a lecionar gravura em metal no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp); litografia na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro; e na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo. A partir de 1953 encarrega-se das publicações da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil. Com o prêmio de viagem ao exterior, recebido no Salão Nacional de Arte Moderna – (SNAM), do Rio de Janeiro, em 1957, viaja para a Itália, onde permanece até 1960, realizando doze murais para a cidade de Reggio Emilia e se interessa pela obra de Pisarello. De volta ao Rio de Janeiro, ilustrou diversas obras literárias, como obras de Manuel Antônio de Almeida, Barbosa Rodrigues, Graciliano Ramos, Dalton Trevisan e Dostoievski. Em 1964 recebe o prêmio de desenho no 2º Resumo de Arte do Jornal do Brasil, no MAM/RJ. A partir daí retomou as atividades jornalísticas e realizou uma série de colagens e fotomontagens para as crônicas de Antônio Maria, na Revista da Semana. Em 1966 participa do 15º Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro como membro do júri de seleção e premiação. Em 1968 é editado álbum com doze gravuras em metal, organizado por Júlio Pacello, com texto de Clarice Lispector. Entre 1968 e 1969, realiza painéis como os do Palácio dos Arcos, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, para a Olivetti (1970) e para a IBM (1979). Em 1982 recebeu o Prêmio Abril de Jornalismo pelo melhor conjunto de ilustrações para a reista Playboy. Nos anos 1970 realiza uma série de exposições individuais no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e internacionais em Bruxelas na Bélgica e Copenhague na Dinamarca. Nos anos 1980 realiza individuais em Curitiba, Porto Alegre, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Nos anos 1990 as individuais se repetem em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Nos anos 2000 tive oportunidade de conhece-lo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele faleceu no dia 7 de dezembro de 2017. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e  aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A vida é tão rica e cheia de variedade que você tem que lembrar o tempo todo que há um lado divertido nisso tudo. Continue fazendo um bom trabalho, mesmo que só por um instante, só pelo cintilar desta pequenina galáxia. Deixe que as pessoas que nunca encontraram o verdadeiro amor continuem dizendo que ele não existe. Esta crença vai fazer com que seja mais fácil para eles viver e morrer. Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem... Pensamento da poeta, critica literária e tradutora polonesa e Prêmio Nobel de Literatura, Wislawa Szymborska (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU - Foi a distância entre a letra rígida e a fluida palavra falada, que fez da cidade letrada uma cidade escriturada, reservada a uma estrita minoria... Pensamento do escritor e crítico literário uruguaio, Ángel Rama (Ángel Antonio Rama Facal – 1926-1983), autor de obras como Transculturación narrativa en América Latina (El Andariego, 2008) e Las máscaras democráticas del modernismo (Fundación Ángel Rama, 1985).

 

CARTADe repente, percebo que só levo uma vida fictícia. Minha submissão interna é muito grande, meu navio está no porto mas está aguado. Agora estou morrendo de amor e depois de um tempo não sinto mais nada! Quando me sinto amando, tudo suporto com a maior facilidade... Quando não, as coisas são impossíveis. E, no entanto, sei perfeitamente bem que ninguém nunca esteve tão perto de mim quanto ele. Se ao menos eu pudesse recuperar meu equilíbrio interior! Quanto mais forte uma pessoa é, mais ela deseja possuir. Ele quer ser dono de tudo e levar tudo, às vezes também o absurdo. E deve ser assim... E me sinto forte. Você tem que aceitar qualquer estímulo a uma sensação, não importa de onde venha. Ninguém está esperando por mim. Ninguém está preparado para nos levar sem propaganda prévia. Cada um tem que se oferecer em toda a sua intensidade, para atrair, incitar e deslumbrar. É uma obrigação. Porque essa intensidade aumenta o calor do mundo, e a Terra deve ser aquecida, não resfriada. Para conquistar a liberdade você também tem que ser livre por dentro, e isso é o difícil. Carta da compositora, pintora e editora austriaca Alma Mahler (Alma Maria Mahler-Werfel, Alma Margaretha Maria Schindler – 1879-1964). Veja mais aqui.

 

ORUMILÁ & SÓCRATES - […] A verdade é o que o Grande Deus Invisível usa para organizar o mundo... A verdade é a Palavra que nunca pode ser corrompida. [...] Quando eles se viraram para mim e disseram: 'Bàbá, agora aceitamos que você é o único que sabe o fim de tudo', respondi, 'eu mesmo não sei essas coisas.' Para obter instruções sobre este assunto, você tem que ir a Deus através da adivinhação, pois somente Ele é o possuidor desse tipo de sabedoria. [...] A tribulação não vem sem seus bons aspectos. O positivo e o negativo constituem um par inseparável. [...] Ninguém que saiba que o resultado da honestidade é sempre positivo escolheria a maldade quando sabe que ela tem uma recompensa negativa. [...]. Trechos extraídos da obra Socrates and Orunmila. Two Patron Saints of Classical Philosophy (Ark Publishers, 2014), da filósofa nigeriana Sophie Oluwole (Abosede Oluwole – 1935-2018).

 

NOVA ORDEM - [...] Suponho que não seja uma norma social e não seja uma coisa masculina de se fazer – sentir, discutir sentimentos. Então é para isso que estou apontando o dedo. Normas sociais e outras coisas... para que servem as normas sociais, realmente? Acho que tudo o que fazem é projetar uma imagem limitada e prejudicial das pessoas. Impede, assim, uma aceitação social mais ampla de como alguém, ou um grupo de pessoas, pode realmente ser. [...] Oh meu Deus. Deixo meu programa de lado e rapidamente me curvo para pegá-lo. Quero sair escondido com ele até o estacionamento, sob o luar, arrancar sua boxer e colocá-la entre os dentes. Ele está imaculado, vestido com um terno branco, branco-santo, de todas as cores. As luzes no palco lançam um halo em torno de seu cabelo castanho, fios aleatórios e sexiliciosos descansando sobre suas sobrancelhas. Ele está diretamente sob os holofotes centrais, como se fosse a estrela do show – ele sabe que é. Ele sabe, e eu sei. Mas ele não sabe que eu sei. Carne magra e corpo polido, quase sem ossos à mostra, quase sem uma gota de gordura. Maçãs do rosto e um maxilar como se tivessem sido esculpidos pelas mãos de um mestre artesão. Ele se move com muita leveza pelo palco, e penso no deus mensageiro grego, Hermes, com asas rápidas nos calcanhares. [...]. Trechos extraídos da obra New Order (jessINK, 2009), da escritora independente singapurense Jess C Scott.

 

DOIS POEMAS - CONHECI-O EM LONDRES - Conheci-o em Londres. \ Olhos negros, figura alta, esguia,\ com a face quase oculta pela tarde,\ parece um príncipe arruinado.\ Ou talvez um rei no meio do mundo.\ Todos os dias o encontro.\ Todos os dias com ele me cruzo.\ É um homem fechado à chave\ com todos os seus erros e todas as suas virtudes.\ Todos os dias o encontro.\ Todos os dias com ele me cruzo.\ Crescemos juntos com as árvores e\ com os ramos da tarde a falar com os pássaros.\ Oxalá que a Noite não leve tudo\ no seu saco desesperado de vento e\ lume. A MENINA COM AS MÃOS CHEIAS DE LÁGRIMAS - Era uma vez uma menina que apanhou duas lágrimas e entrou com elas no quarto. \ Deixou-as crescer lentamente e afogou os pais. Mas a mãe\ que sabia nadar abriu a porta de casa e disse: \ olha o \mar \ O mar foi a correr buscar uma gaivota e uma caixa de memórias e retorquiu:\ “olha o inverno a chegar.”\ A menina então com as mãos cheias de lágrimas\ e o cabelo chuvoso\ apertou o mar no coração da mãe. Poemas da poeta portuguesa Maria Azenha.

 

SACADOUTRAS


DA AMIZADE – Na obra Do espírito (1758), do filósofo e literato francês Claude Adrien Helvétius (1715-1771), destaco o trecho do Discurso III – Se o espírito deve ser considerado um dom da natureza ou como efeito da educação, notadamente no capítulo XIV - Da amizade: Amar é ter necessidade. Se não existe necessidade, não existe amizade: seria um efeito sem causa. Os homens não possuem todos as mesmas necessidades; a amizade, pois, entre eles, fundada sobre motivos diferentes. [...] Confesso que, considerando-a como uma necessidade recíproca, não nos podemos ocultar que, num longo espaço de tempo, é muito difícil que a mesma necessidade e por conseguinte a mesma amizade subsista entre dois homens. Por isso, nada de mais raro que as amizades antigas. É muito difícil ter ideias claras a respeito da amizade. Tudo que nos cerca procura nos enganar sobre o assunto. Existem homens que, para se acharem mais estimáveis aos olhos dos outros, fazem da amizade descrições romanescas e persuadem-se de sua realidade, até que as circunstancias, desiludindo a eles e a seus amigos, lhes ensinam que eles não amavam tanto quanto pensavam. Esse tipo de gente pretende comumente ter a necessidade de amar e de ser amado vivamente. [...] a força da amizade é sempre proporcional à necessidade que os homens têm uns dos outros, e que essa necessidade varia segundo a diferença dos séculos, dos costumes, das formas de governo, das condições e dos caracteres. [...] Caímos na miséria: procuramos com o mesmo amigo os meios de nos subtrairmos à indigência; e sua conversa nos poupa pelo menos na infelicidade o aborrecimento das conversações indiferentes. É portanto sempre de nossas dificuldades ou prazeres que se fala com o amigo. Ora, se não há verdadeiros prazeres nem verdadeiras dificuldades, como o provei anteriormente, a não ser os prazeres e as dificuldades físicas. Se os meios de busca-los são apenas prazeres de esperança, que supõem a existência dos primeiro, e que não passam, por assim dizer, de uma consequência; segue-se que a amizade, assim como a avareza, o orgulho, a ambição e as outras paixões, é o efeito imediato da sensibilidade física. Veja mais aqui e aqui.


AFRODITE (Imagem: Afrodite descansando, do pintor francês Henri-Pierre Picou (1824-1895) – Em grego, Afrodite significa espuma, correspondendo na mitologia helênica, à Vênus dos romanos. Era filha de Zeus e a ninfa Dione. Ela teria pela primeira vez subido à terra na ilha de Chipre que ficara sendo a sua ilha sagrada. Deusa da beleza e do amor sexual, seu cinto inspirava violentas paixões a quem eventualmente o possuía. Por isso, do seu nome foi derivada a palavra afrodisíaco, aplicada a todos os excitantes das funções sexuais. O cinto de Afrodite chamava-se Cesto e figura em muitas alusões literárias. Da mitologia grega, o cinto de Afrodite passou para a mitologia romana, transformado em cinto de Vênus. Juno o teria pedido emprestado para se fazer amar por Júpiter, o Zeus dos romanos. Veja mais aquiaqui e aqui.

O CONTRATO DA CARNE – No livro O retrato do rei (Companhia das Letras, 1991), da escritora Ana Miranda, destaco o trecho inicial: “Deus criou a luz”, disse frei Francisco de Meneses, acendendo uma vela. “As águas, o firmamento; a terra e a relva”. Sua voz ecoava na igreja vazia. “Criou o sol, a lua, as estrelas”. Uma mariposa acercou-se da chama e ficou rodeando-a, numa atração fulminante. “Criou os animais estúpidos”, olhou o homem a seu lado, e o homem. Sorriu. “Que não deixa de ser um animal estúpido”. Flexionou os joelhos, reverente; fez o sinal-da-cruz. Virou-se para seu interlocutor, sem dar as costas para o altar. Fernando de Lancastre, o governador da capitania do Rio de  Janeiro, São Paulo e Minas do Ouro ouvia-o, silencioso. “Criou um jardim paradisíaco para que os seres ali habitassem e plantou a árvore proibida”, continuou o trinitário. E disse ao homem: do fruto do conhecimento não comerás. Se comeres, morrerás. O padre e o governador caminharam pelo corredor da igreja. A espada de Fernando às vezes arranhava o chão, emitindo ruídos estridentes. Esta é a mais idiota de todas as histórias, disse frei Francisco. A mais mentirosa. O conhecimento não traz a morte. Todos os seres morrem, sejam árvores, papagaios, macacos, zebras. Ainda sereis queimado por vossas estultícias, disse o governador. O conhecimento traz apenas a infelicidade, apenas isso. Mas prefiro ser um desgraçado entendedor que uma mula aventurosa. Como eu ia dizendo, Deus fizera um rio que saía do Éden para regar o jardim do Paraíso. Em um braço desse rio, chamado Pisom, o que rodeava a terra de Havilá, havia ouro. O ouro refulgente. Em sua infinita malícia, Ele nada avisou ao homem. Hic jacet lepus. Poderia aquele reinol ignorante entender latim?  Ali se escondia a lebre, completou. Tolices. O ouro traz benefícios, disse Fernando, ao entrarem na sacristia. Numa banca brilhava um crucifixo. O padre sentou-se no faldistório, sobre o estofo rasgado. Benefícios? A poderosa força maléfica do ouro cria mais ruínas que fortunas; todos se tornam credores e devedores; a ambição surpassa os demais sentimentos. A ilusão da opulência e do poder destrói a ética. Pelo ouro, os justos cometem injustiças, os sagazes tornam-se parvos e os idiotas brilham na retórica. Pegou um cálice dourado. Olhou o reflexo de seu rosto, -distorcido, no metal. E para que os homens sonham com o ouro? , continuou o padre. A realização de seus sonhos está perto, entre pedras de cascalho, ali, entre rochas e penedos, a um passo, basta estender a mão para atingir o zênite. O zênite do quê? A visão de seus sonhos se evapora como um resto de chuva em dia de sol. E se no meio de uma imensa devastação alguém se decide a perguntar: por que, mesmo, queremos o ouro? Por que sonhávamos? Ninguém saberá responder. Mas eu vos digo: para reinar, para comer e para fornicar. É isso que os homens desejam, e nada mais. Reinar, comer, fornicar. Fernando mantinha-se silencioso. Considerava aquele padre um fementido prevaricador, soturno, crápula, e tinha problemas demais para perder tempo com filosofias esdrúxulas e blasfemas. Além disso, percebia aonde frei Francisco queria chegar, com aquelas ruminações inconvenientes. Ia pedir-lhe a prorrogação do monopólio da venda de carne nas Minas do Sertão. Poucos, disse o padre, elevando o indicador, são os que contam o trágico fim de Jasão. Ele perdeu tudo que tinha. O mesmo navio que o levara de encontro ao velocino de ouro o esmagou. Este é o destino de todos os heróis. Frei Francisco suspirou. Tinha nariz longo quebrado na metade, sobrancelhas juntas. Estas rugas, disse o frei, oferecendo uma visão completa de seu rosto, são as únicas condecorações que recebi por meus esforços. O próprio Midas esteve a ponto de morrer de fome, e nasceram-lhe duas orelhas de burro. Veja mais aqui.

TEATRO & POESIAO poeta e dramaturgo do período elizabetano inglês Christopher Marlowe (1564-1593), levou uma vida desregrada, envolveu-se com espionagem e foi assassinado por um de seus companheiros, durante uma orgia. A sua primeira produção dramática foi a tragédia em duas partes Tamerlão o Grande (1890-93), em que o personagem central é um conquistador ávido de poder e de humilhar seus inimigos, revelando-se um herói voraz, arrogante e cruel. Esse mesmo tema reaparece na farsa trágica A famosa tragédia do rico judeu de Malta (1592), encaminhando-se pro lirismo exaltado na A trágica história do doutor Faustus (1588-1604), revelando-se um mestre na versão mais notável da lenda do homem que vendeu a alma ao diabo, para dominar o mundo e seus prazeres. Em seguida ele escreveu peças históricas como O massacre de Paris (1593), também O reinado difícil e a morte lamentável de Eduardo II (1594), bem como o seu poema Hero e Leandro (1598), um decassílabo narrativo que é manejado com grande habilidade e os encontros amorosos são descritos com vigor apaixonado. Ele é considerado o precursor de Shakespeare e, por consequência, um gênio do teatro. Veja mais aqui.

NON TI MUOVERE – O filme Non ti muovere (Não se mova, 2004), dirigido por Sergio Castellitto, baseado no romance homônimo de Margaret Mazzantini, conta a história de um pai em pânico que espera o desenrolar da cirurgia que pode salvar a sua filha acidentada, enquanto lembra suas escolhas e os acasos que moldaram sua vida, como a relação arrebatadora com uma jovem camareira. Trata-se de um retrato sentimental das suscetibilidades do homem, naturalmente inclinado a abrir mão do desejo por um cotidiano previsível. O destaque do filme vai para a atriz espanhola Penélope Cruz Sanchez. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui Logo mais, a partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá – agora com 2 horas de duração -comemorando os mais de 400 mil acessos do blog, apresentação da querida Meimei Corrêa e com as seguintes atrações na programação: Heitor Villa Lobos, Airto Moreira & Flora Purim, Patativa do Assaré, Elis Regina, Enya, Chico Buarque & Gilberto Gil, Edu Lobo, Djavan, Lenine, Ivan Lins, Maria Rita, Geraldo Azevedo, Leila Pinheiro, Jane Duboc, Milton Nascimento, Bráulio Tavares, Kleiton & Kledir, Sonia Mello, Mazinho, Ricardo Machado, Moína Lima, Roberto Toledo, Ozi dos Palmares, Zé Ripe & Paulo Profeta, Cikó & Zé Linaldo, Amel Brahim, Gonzaguinha, Michael Kamen & muito mais!SERVIÇO:O que? Programa Tataritaritatá Quando? Hoje, terça, 18 de novembro, a partir das 21hsOnde? No MCLAM - blog do Programa Domingo Romântico Apresentação: Meimei Corrêa. Confira mais aqui



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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