MEU CORAÇÃO CHOVE LÁ FORA – Imagem: arte da
professora e artista visual Teresa Poester. - Chove lá fora e meu coração é véspera do estio, uma vez e
nada mais. Transido de frio, expôs-se ao fogo e, entre as áureas labaredas do
amor, aprendeu o milagre das cinzas ao vento pelos aflogísticos vitais, pra revivescência
improvável na finitude, o calor das paixões. Enterrou-se ao chão para aprender,
nos giros de si e ao redor de tudo, a roda-viva dos labirintos com todos os
caminhos que brotam da semente pra raiz a nascer na terra, fiapo de vida a
ascender por galhos e frondoso até ser levado às alturas do tempo aos confins
do porvir, quando tudo é nada e apenas sou o que sou entre simulacros e azáfamas.
E se ao mormaço a esperança envergo, dou-me à resistência por salvação, diante
do solo que sumiu na primeira esquina que não há mais por tantas multiplicadas
nos espelhos do dia, a me confundir das memórias dos talhos. E se queimo na
insolação, dou-me carne retalhada pelo agreste pedregoso de todas as arranhuras
e tocaias, sobrevivente da hora, até saber novamente da chuva lá fora e meu
coração estiado na solidão, aprendeu viver aos ventos que vão e voltam entre
folhas e flores que caem e sou eu levitando sem direção, até pousar quase longe
de onde jamais soubera haver por destino, errâncias e sucumbências de nunca escapar.
E levado intruso pelos declives líquidos que dão nas poças esborradas por
nesgas e valas até às corredeiras pros leitos chegar à fonte e beber da água
cristalina para matar a sede de milênios pelos poros. Depois tomado pelo regato
aos caudais e cascatas e mergulhar no mar, o batismo das profundezas abissais. ©
Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, junho 28, 2018
PIRANDELLO, MORIN, MARCUSE, BRUNO TOLENTINO, KIESLOWSKI, CALIMÉRIO SOARES & TERESA POESTER
MEU CORAÇÃO CHOVE LÁ FORA – Imagem: arte da
professora e artista visual Teresa Poester. - Chove lá fora e meu coração é véspera do estio, uma vez e
nada mais. Transido de frio, expôs-se ao fogo e, entre as áureas labaredas do
amor, aprendeu o milagre das cinzas ao vento pelos aflogísticos vitais, pra revivescência
improvável na finitude, o calor das paixões. Enterrou-se ao chão para aprender,
nos giros de si e ao redor de tudo, a roda-viva dos labirintos com todos os
caminhos que brotam da semente pra raiz a nascer na terra, fiapo de vida a
ascender por galhos e frondoso até ser levado às alturas do tempo aos confins
do porvir, quando tudo é nada e apenas sou o que sou entre simulacros e azáfamas.
E se ao mormaço a esperança envergo, dou-me à resistência por salvação, diante
do solo que sumiu na primeira esquina que não há mais por tantas multiplicadas
nos espelhos do dia, a me confundir das memórias dos talhos. E se queimo na
insolação, dou-me carne retalhada pelo agreste pedregoso de todas as arranhuras
e tocaias, sobrevivente da hora, até saber novamente da chuva lá fora e meu
coração estiado na solidão, aprendeu viver aos ventos que vão e voltam entre
folhas e flores que caem e sou eu levitando sem direção, até pousar quase longe
de onde jamais soubera haver por destino, errâncias e sucumbências de nunca escapar.
E levado intruso pelos declives líquidos que dão nas poças esborradas por
nesgas e valas até às corredeiras pros leitos chegar à fonte e beber da água
cristalina para matar a sede de milênios pelos poros. Depois tomado pelo regato
aos caudais e cascatas e mergulhar no mar, o batismo das profundezas abissais. ©
Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.terça-feira, abril 07, 2015
PRIMO LEVI, SAFI FAYE, NANCY MITFORD, GABRIELA MISTRAL & WORDSWORTH
A SOLIDÃO DE NANCY... - Era a filha mais velha do barão Redesdale e foi educada particularmente. Uma jovem que era uma promessa brilhante logo deu o ar de sua graça e os pendores literários com a publicação dos escritos: Highland Fling. Logo brilhou com a publicação de Christmas Pudding e, logo em seguida o primeiro amor levou-a ao casamento. Publicou outro livro, o Wigs on the Green e o relacionamento conjugal, por tanto que durou, não resistiu à insatisfação mútua e ao divórcio. A sonhadora em busca do amor logo publicou Pigeon Pie. Contudo, foi com a publicação dos manuscritos que seriam seu primeiro grande sucesso: The Pursuit of Love, mantendo a chama viva da paixão. Estava definitivamente estabelecida a sua reputação de escritora. E foi durante a segunda guerra que se envolveu com o segundo amor, publicando em seguida Love in a Cold Climate. Logo desenvolveu o conceito de língua U e não-U: as palavras identificavam as origens sociais. Era uma piada, mas foi levada a sério por muita gente. Vieram então os livros The Blessing, a biografia de Madame de Pompadour, a biografia Voltaire in Love e Don't Tell Alfred. A sua sagacidade afiada e provocativa foi amainando com o fracasso do relacionamento e a saúde deteriorada: a sua marca ficou para sempre. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS - Se não é
possível ser feliz, é preciso se divertir. Há coisas piores que a pobreza,
embora eu não consiga lembrar quais são no momento. É engraçado que as pessoas
estejam sempre prontas para admitir que não têm talento para desenho ou música,
enquanto todos imaginam que são capazes de amar de verdade, o que é um talento
como qualquer outro, só que muito mais raro. O que é tão bom e tão inesperado
sobre a vida é a maneira como ela melhora conforme avança. Acho que você
deveria incutir esse fato em seus filhos porque acho que os jovens têm uma
sensação horrível de que a vida está passando por eles e eles precisam fazer
alguma coisa - pegar alguma coisa - eles não sabem bem o que, enquanto eles só
precisam esperar e tudo vem. A grande vantagem de viver em uma família grande é
a lição precoce da injustiça essencial da vida. Às vezes fico entediado com as
pessoas, mas nunca com a vida. Pensamento da escritora britânica Nancy
Freeman-Mitford (1904-1973). Veja mais aqui, aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU: Eu fiz o meu
melhor. Não preciso convencer o público. Realmente não acredito em religiões
monoteístas e, portanto, defendo religiões africanas baseadas em espíritos. Talvez
eu tenha ousado mostrar o que acontece à noite e sobre o qual as pessoas nunca
falam durante o dia. “Cavalgar” não é um problema. Tudo é fruto da imaginação –
minha imaginação. Por que todos os filmes devem conter uma mensagem, ser
instrutivos ou educativos? Criatividade não é uma atividade analítica. Para
mim, os filmes nascem da imaginação. Como minha mãe diz, é o destino. Estava
escrito que eu tinha que passar por esse julgamento, mesmo depois de 20 anos no
ramo. Havia um mistério em torno do filme. Eu tinha dado direito de autoridade
ao produtor francês designado que tinha adquirido – sem nosso conhecimento – os
direitos do filme, bem como todo o financiamento que eu tinha obtido da Itália
e da Suíça. Tudo desapareceu no ar. Por seis anos; eu tive que lutar sozinha
até o fim do processo judicial. De qualquer forma, meu filme foi inteiramente
filmado em 1990, quando Mossane tinha 14 anos. O que aconteceria se faltassem
algumas cenas, agora que Mossane tem 21? Quero esquecer os últimos seis anos.
Mossane está pronto e estou feliz por finalmente ter chegado lá. Eu gosto muito
deste filme. Pensamento da cineasta e etnóloga senegalesa Safi Faye (1943-2023).
A TRÉGUA – […] Hurbinek
era um nada, um filho da morte, um filho de Auschwitz. [...] Hurbinek
continuou, enquanto viveu, as suas experiências obstinadas. Nos dias seguintes,
todos nós o ouviamos em silêncio, ansiosos por entendê-lo, e havia entre nós
falantes de todas as línguas da Europa: mas a palavra de Hurbinek permaneceu
secreta. Não, não devia ser uma mensagem, tampouco uma revelação: era talvez o
seu nome, se tivesse a sorte de ter um nome; talvez (segundo uma de nossas
hipóteses) quisesse dizer “comer” ou “pão”; ou talvez “carne” em boêmio, como
sustentava, com bons argumentos, um dos nossos, que conhecia essa língua. Hurbinek,
que tinha três anos e que nascera talvez em Auschwitz e que não vira jamais uma
árvore; Hurbinek, que combatera como um homem, até o último suspiro, para
conquistar a estrada no mundo dos homens, do qual uma força bestial o teria
impedido; Hurbinek, o que tinha nome, cujo minúsculo antebraço fora marcado
mesmo assim pela tatuagem de Auschwitz; Hurbinek morreu nos primeiros dias de
março de 1945, liberto mas não redimido. Nada resta dele: seu testemunho se dá
por meio de minhas palavras. [...] Em suas conversas, o verdadeiro, o
possível e o fantástico formavam um nó imbricado, variável e inextricável.
Falava da prisão e do tribunal como de um teatro, onde ninguém é realmente
ninguém, mas cada um representa, demonstra a sua habilidade, entra na pele de
outro, interpreta um papel; e o teatro, por sua vez, era um grande símbolo
obscuro, um instrumento tenebroso de perdição, a manifestação externa de uma
seita subterrânea, malvada e onipresente, que impera para dano de todos, e que
bem bater à nossa porta, para nos agarrar, pôr em nós uma máscara, para que
sejamos o que não somos e façamos o que não queremos. Essa seita é a Sociedade:
o grande inimigo, contra quem o Pôr-do-Sol sempre combatera, e sempre fora
vencido, conseguindo, porém, reerguer-se heroicamente todas as vezes. [...]
roubaram todas as suas palavras, seus gestos de desapontamento, e assim
fizeram com que se tornasse ator à sua revelia. Roubaram-lhe a imagem, a
sombra, a alma. Foram eles que o fizeram tramontar, e o batizaram Pôr-do-Sol.
[...] o homicídio polposo é quando alguém enfia a faca não no peito, ou na
barriga, mas aqui, entre o coração e a axila, na polpa; e é menos grave.
[...] o fato de sentir pela primeira vez, debaixo de nossos pés, um pedaço
da Alemanha [...] somava ao nosso cansaço um estado de alma complexo,
feito de impaciência, de frustração e de tensão. Parecia que tínhamos algo a
dizer, coisas enormes a dizer, a cada alemão em particular, e que cada alemão
tinha coisas a nos dizer: sentíamos a urgência de tirar conclusões, de
perguntar, explicar e analisar, como fazem os jogadores de xadrez no final do
jogo [...]. se não sabiam, deviam, deviam sagradamente ouvir, saber de
nós, de mim, tudo e depressa: eu sentia o número tatuado no braço queimando
como uma chaga. [...] parecia-me estar caminhando entre tropas de
devedores insolventes, como se cada qual me devesse alguma coisa e se negasse a
pagar. [...] Mas ninguém olhava em nossos olhos, ninguém aceitou o
desafio: eram surdos, cegos e mudos, entrincheirados entre as próprias ruinas
como num fortim de desejado desconhecimento, fortes, ainda, capazes de ódio e
desprezo, prisioneiros ainda do antigo nó de soberba e culpa. [...] mas
sabíamos que nas soleiras de nossas casas, para o bem ou para o mal, nos
esperava uma provação, e antecipávamos com temor. [...] sinto uma
angústia sutil e profunda, a sensação definida de uma ameaça que domina
[...]. Tudo agora tornou-se caos: estou só no centro de um nada turvo e
cinzento. [...]. Trechos extraídos da obra A treva (Companhia de
Bolso; 2010), do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987).
Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
A
TERRA
– Na antologia poética da poeta chilena Gabriela Mistral (1889-1957), destaco o
seu belíssimo poema A Terra, na tradução de José Jeronymo Ribera: Indiozinho,
se estás cansado / Tu te recostas sobre a Terra, / fazes igual se estás alegre,
/ vai, filho meu, brinca com ela... / Que de coisas maravilhosas / soa o tambor
índio da Terra: / se ouve o fogo que sobe e desce / buscando o céu, e não
sossega. / Roda e roda, se ouvem os rios / em cascatas que não se contam. / Se
ouve mugir os animais; / comer o machado a selva. / Ouve-se soar teares índios.
/ Se ouvem trilhos e se ouvem festas. / Aonde o índio está chamando, / o tambor
índio lhe contesta, / e tange perto e tange longe, / como o que foge e que
regressa... / Tudo toma, tudo carrega / o corpo sagrado da Terra: / o que
caminha, o que adormece, / o que se diverte e o que pena; / os vivos e também
os mortos / leva o tambor índio da Terra. / Quando eu morrer, não chores,
filho: / peito a peito junta-te a ela / e se dominas o teu fôlego / como quem
tudo ou nada seja, / tu ouvirás subir seu braço / que me jungia e que me
entrega / e a mãe que estava quebrantada / tu a verás tornar inteira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.segunda-feira, abril 06, 2015
SUELY ROLNIK, ELIZABETH BLACKBURN, BETTE MIDLER, CACILDA BECKER & AFRODITE
O SÁBIO SORRISO
DE SUELY ROLNIK – Pela primeira vez o seu sorriso apaixonante, inadvertidamente tornei-me
sapiossexual na hora! Tinha eu lá meus 20 e poucos anos e, diante daquela bela
mulher recém-chegada da França, onde se exilara por conta da perseguição
sofrida durante a horrenda ditadura militar, inevitavelmente me senti como o
garoto apaixonado pela professora da escola primária. As mesmas sensações. Avidamente,
dela bebi toda sapiência filosófica e psicanalítica, seus escritos, suas
curadorias, suas críticas de arte e cultura, sua atuação no campo da arte
contemporânea criando o Arquivo para uma obra-acontecimento com as proposições
de Lygia Clark e a caixa dos filmes de entrevistas. E, sempre que podia, não
perdia por nada suas exibições no Núcleo de Estudos da Subjetividade. Essa linda
professora havia trabalhado na Clínica Experimental com Guattari – com quem
publicou Micropolítica: Cartografias do desejo -, e que estudou com
Deleuze, Foucault, Clastres e Barthes. Estava atento a tudo que ela fizesse. Quando
ela foi embora para a Espanha, lecionar no Museu de Arte Contemporânea de
Barcelona, bateu-me a inquietação. Aí corria as vistas pelas publicações da
Documenta e da Manifesta, bem como pelo Manifeste Anthropophage /
Anthropophagie Zombie , Archivmanie, Cartografia Sentimental:
Transformações contemporâneas do desejo e das Esferas da insurreição:
notas para uma vida não cafetinada. Lia e prestigiava tudo que tivesse sua
rubrica, imperdível. Mantenho-me atento e aguardo ansioso seu retorno para
folgar de emoção e matar as saudades desta grande mulher presencialmente. Veja
mais abaixo e mais aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS – Eu fiz um pacto comigo mesma há muito tempo: nunca veja nada mais
estúpido do que você. Isso me ajudou muito. Aprecie para sempre o que te faz
único, porque você é realmente um bocejo se for. Se pudesse receber um desejo,
eu brilharia no teu olho como uma joia. Depois de trinta, um corpo tem uma
mente própria. Eu me sinto um milhão esta noite - mas um de cada vez. Pensamento da
cantora, atriz, roteirista e comediante estadunidense Bette Midler. Veja
mais aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU: Os genes
carregam a arma e o ambiente puxa o gatilho. O envelhecimento envolve muitas
coisas diferentes, e a capacidade das células de se autorrenovar faz parte do
processo, mas não é tudo. Às vezes, a biologia revela seus princípios
fundamentais por meio do que pode parecer, a princípio, misterioso e bizarro. Eu
apenas promovi ativamente o que sempre esperamos que seja boa ciência. Pensamento da
bióloga australiana Elizabeth Blackburn, Prêmio Nobel em Fisiologia e
Medicina de 2009.
UMA COISA QUE EU DISSE
- A arte se realiza com o leitor (plateia) que a identifica e por sua
experiência - que é única - transcende. O artista indaga; o leitor a
identifica, interage e responde. Assim a arte se torna verdadeiramente arte.
Por consequência, assim mesmo a arte se define e cumpre a sua função. (LAM).
A GEOPOLITICA
DO PROXENITISMO - [...] a mesma singularidade que deu tanta força
aos movimentos contraculturais no Brasil tendeu também a agravar a clonagem
desses movimentos levada a cabo pelo neoliberalismo. O savoir-faire
antropofágico dos brasileiros dá-lhes uma facilidade especial de adaptação aos
novos tempos. As elites e as classes médias do país estão absolutamente
deslumbradas por serem tão contemporâneas, tão atualizadas no cenário
internacional das novas subjetividades pós-identitárias, tão bem equipadas para
viver essa flexibilidade pós-fordista (que, por exemplo, as torna campeãs
internacionais da publicidade e as posiciona em posições elevadas no ranking
mundial das estratégias de mídia). Mas esta é apenas a forma tomada pelo
abandono voluptuoso e alienado ao regime neoliberal na sua versão local
brasileira, tornando os seus habitantes, especialmente os citadinos, em
verdadeiros zumbis antropofágicos. [...] Foram cinco séculos de
experiência antropofágica, e quase um de reflexão sobre ela, desde o momento em
que os modernistas a circunscreveram criticamente e a tornaram consciente.
Neste contexto, o savoir-faire antropofágico dos brasileiros – especialmente
como foi atualizado nas décadas de 1960-70 – ainda pode ser útil hoje, mas não
para garantir seu acesso aos paraísos imaginários do capital; pelo contrário,
para ajudá-los a problematizar a confusão vergonhosa entre as duas políticas de
subjetividade flexível e a separar o trigo do joio, essencialmente com base no
lugar ou não-lugar que é atribuído ao outro. Este conhecimento ofereceria as
condições para uma participação fértil no debate que se reúne
internacionalmente em torno da problematização de um regime que agora se tornou
hegemônico, e também na invenção de estratégias de êxodo para fora do campo
imaginário cujas origens estão em seu mito mortal. A arte tem uma vocação
especial para realizar tal tarefa, na medida em que, ao trazer as mutações da
sensibilidade para o reino do visível e do dizível, pode desvendar a
cartografia do presente, libertando a vida em seus pontos de interrupção e
liberando seu poder de germinação – uma tarefa totalmente distinta e
irredutível ao ativismo macropolítico. Este último se relaciona com a realidade
do ponto de vista da representação, denunciando os conflitos inerentes à
distribuição de lugares estabelecida na cartografia reinante (conflitos de
classe, raça, gênero etc.) e lutando por uma configuração mais justa. São dois
olhares distintos e complementares sobre a realidade, correspondendo a dois
diferentes potenciais de intervenção, ambos participando a seu modo na formação
de seu destino. No entanto, problematizar a confusão entre as duas políticas de
subjetividade flexível para intervir efetivamente nesse campo e contribuir para
quebrar o feitiço da sedução que sustenta o poder do neoliberalismo no próprio
cerne de sua política do desejo, implica necessariamente tratar a doença que
surgiu da infeliz confluência, no Brasil, dos três fatores históricos que
exerceram um efeito negativo sobre a imaginação criadora: a violência
traumática da ditadura, o proxenetismo do neoliberalismo e a ativação de uma
antropofagia de base. Essa confluência claramente exacerbou o rebaixamento da
capacidade crítica e a identificação servil com o novo regime. [...]. Trechos
extraídos do ensaio A geopolítica do proxenetismo (Transversal, 2006),
da filósofa, escritora, psicanalista e professora Suely Rolnik, autora
do ensaio A memória contagiosa do corpo: O retorno de Lygia Clark ao museu
(Transversal, 2007), no qual ela expressa: [...] A força poética é uma das
vozes na polifonia paradoxal através da qual se delineiam os devires
heterogêneos e imprevisíveis da vida pública. Esses devires se reinventam
continuamente para libertar a vida dos impasses que se acumulam nas zonas
infecciosas onde o presente se torna insuportável. Os artistas têm um ouvido
apurado para os sons inarticulados que nos chegam do indizível, nos pontos onde
a cartografia dominante se desfaz. Sua poesia é a encarnação de tais sons, que
então podem ser ouvidos entre nós. [...]. Veja mais aqui e aqui.
O LADO FATAL – No livro Lado fatal (Record, 2011) da escritora e tradutora gaúcha Lya Luft, encontrei dois entre os
belíssimos poemas da obra. O primeiro deles o III: Aquele de quem hoje falam e escrevem /
(ou aos poucos vão-se esquecendo) / é muito menos do que este, deitado em meu
coração, / meu amante e meu menino ainda. E também o XIV: Estranha a vida: /
fico tangendo meus dias / como um rebanho de ovelhas desordenadas / nessa
triste e fria cidade de Porto Alegre / onde ele gostava de estar / olhando o
pôr-do-sol e vendo amigos. / "Morrer é tomar um porre de não-desejo"
/ dizia o meu amado, que era um homem desejoso: / desejava a vida, desejava a
morte, desejava / [a justiça, desejava a eternidade e a paz. / Estranha a vida:
/ quando releio uma frase sua, / "viver é modular a morte", / em
sangue e dor preparo a minha ida. / Estranho também esse amor, / com hora
marcada para a mutilação / da morte, o minuto acertado, / e o fim consultando o
relógio / para nos golpear. / Estranho esse amor de agora, / com meu amado
atrás de um espelho baço / onde às vezes penso divisar seu vulto / como num
aquário. / Enrolado em silêncio, / mais que nunca o meu amor comanda a minha
vida. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
AFRODITE: O JULGAMENTO DE PÁRIS – Imagem: Julgamento de Páris – Afrodite acompanhada de Eros, Atena e Hera (1904), do pintor espanhol Enrique Simonet (1866-1927) - Afrodite é a deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade, contando ainda com atributos como a da fertilizada, do prazer e da alegria. Em Roma ela é representada pela deusa Vênus, além de receber outros nomes como Cytherea ou Cypris na atinguidade. O Julgamento de Páris, conforme relatos da Ilíada de Homero e Heróides de Ovídio, é o prelúdio da Guerra de Troia, é um mito que surgiu no sec. VII aC., descrito por Pausânias, indicando o aparecimento inesperado da deusa da discórdia Eris, com uma maçã de ouro do Jardim das Hespérides, desafiando a mais bela. Tal fato gerou um requerimento de Afrodite, Atena e Hera a Zeus para julgar qual delas era a mais merecedora da tal maçã. Zeus, por sua vez, livrando-se de tal empreitada, repassa para o pastor-príncipe mortal de Troia, Páris para fazê-lo. Assim foi, sobre o Monte Ida, ele começou a inspeção quando cada uma usa seus poderes para suborná-lo. Entre as ofertas, Páris aceita o presente de Afrodite: desposar Helena de Esparta, esposa do rei grego Menelau e este, por sua, condecora a deusa com a maçã. Tal fato proporciona a revolta dos gregos e de Hera, dando inicio às expedições que redundam na Guerra de Troia. Veja mais sobre Afrodite & suas servas aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
OS FATOS E O INSETO DE MAGNÓLIA – O premiado livro Magnólia: 100 fatos e um voo de inseto (Bertrand Brasil, 2005 – Prêmio Jabuti
de 2006) da filósofa, escritora, professora universitária e artista plástica
gaúcha Marcia Tiburi, é o primeiro
volume da Trilogia Íntima da autora, do qual destaco o trecho Escuridão: Podemos
empilhar o mundo no chão e tirar-lhe o pó de anos. Ora, não podemos saber se o
pó é de anos, semanas, dias; não é possível interpretar os sinais; o a priori
das conclusões sempre vem cheio de empáfia; por azar sempre existem cartas
remetendo o tempo em letras. E preciso parar para ver. Ou esquecer de vez, mas
é impossível quando não houve lembrança. É das cartas que vem toda a dúvida
sobre conhecer a si mesmo. Eu, porém, não tenho mais nenhuma dúvida, ainda que
existam cartas, e, como estas, tão incógnitas. Veja mais aqui, aqui e aqui.
ODISSEIA CACILDAS! – Em uma tetralogia denominada Odisseia Calcildas, o dramaturgo e ator José Celso Martinez Corrêa homenageia
os trinta anos de carreira de um dos maiores mitos dos palcos brasileiros e
considerada a mãe do teatro moderno brasileiro, a atriz paulista Cacilda Becker (1921-1969), que encenou
cerca de sessenta e oito peças teatrais, três filmes e uma telenovela, afora
participações em teleteatros televisivos. Essa tragicomediaorgya é a primeira
das quatro peças que foi desenvolvida com a bolsa de dramaturgia Oswald de
Andrade da SEC/SP, em 1990, e ganhadora do prêmio Flávio Rangel de melhor peça
teatral e peça do ano pela crítica especializada, durante a temporada que ficou
no Teatro Oficina, além de ganhar os prêmios Shell, Mambembe, Apetesp e da
Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). A homenageada era responsável
por provocar paixões avassaladoras que transitaram entre os seus três
casamentos, o último deles com o saudoso ator Walmor Chagas (1930-2013). Em
2009, a tetralogia Odisseia Calcildas
foi apresentada como um festival no Teatro Oficina Uzyna Uzona, sendo a
personagem interpretada pela atriz Anna Guilhermina (foto acima). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
TROIS COULEURS: BLANC – O drama Trois Couleurs: Blanc (A igualdade é branca, 1994) é o segundo
filme da Trilogia das Cores do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996), conta a história do emigrante
polaco Karol Karol que vive na França e é casado com uma francesa que quer
separar-se dele pela não consumação do matrimônio. Humilhado, mas ainda
amando-a, o marido acaba por mendigar no metrô parisiense até encontrar um
outro polaco que o leva de volta à terra natal. Ao retornar ele retoma o
trabalho de cabeleireiro até se envolver em diversos fatos que o levam fazer
fortuna na Polônia, tramando uma vingança contra sua ex-esposa. Destaque para o
papel desempenhado pela atriz, cantora, compositora e diretora de cinema
francesa Julie Delpys no filme. Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!
Imagem: Acervo ArtLAM . Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...
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