Pular para o conteúdo principal

CORAÇÕES SOLITÁRIOS, BHARATA, NEWTON, WORDSWORTH, CASTAÑEDA, CLAUDIA TELLES & MUITO MAIS!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CORAÇÕES SOLITÁRIOS - É Natal. Da janela, o meu minúsculo mundo se reduz a telhados, ruas, janelas, antenas e a imensidão de nuvens sem estrelas e lua – cadê o céu? -, no mais, a minha solidão. E ela é insuportável, tornando a noite em uma grande odisseia com suas luzes, sirenes, amores desfeitos, desejos adiados. O trâmite da solidão. Na solidão noturna, os olhos e ouvidos atentos, a sensibilidade à flor da pele e a constatação de que tudo é transitório, só que recomponho minhas lacunas por todas minhas errâncias e interstícios, e sinto a chuva, os trovões e relâmpagos que não me deixam sair de casa. Ah, preciso sair só – cantarolando Lenine -, fechar a porta e cair na cidade, andar sem saber de nada, viver o imprevisível. Bordejar nas calçadas com olhar distraído para ver que a cidade é a mesma e muda a cada momento, embora a mesma vizinhança, os prédios, árvores, as plantas que colorem os jardins, os vasos nas janelas e varandas, os pedestres que vão e vem pelas poças, meio fio e triz. E o trânsito me atordoa com os seus luminosos, tapumes, terrenos baldios e quase tropeço em mendigos no meio das demolições, da fachada em reforma, do desnível no acesso da padaria da esquina, nos paralelepípedos dos blocos residenciais, a topada no gelo baiano, o medo do assalto, as balas perdidas, as festas animadas, os cartazes de cinema, a linda moça que passa belamente vestida e triste, o teatro fechado, as filas nos restaurantes, os indesejáveis que nos rondam, o casarão quase demolido, o arranha-céu abandonado, o filme que não assisti, o asfalto esburacado, a calçada cheia de cascalhos, a erosão, a corrosão de tudo, os apodrecimentos nas impressões, o caminhão do lixo quebrando o silêncio, a conversa boba. Nos vãos da noite posso sentir o desgaste do tempo e que aqui tudo é passado. Preciso ir adiante, sou transeunte nessa a cidade que guardei na memória e me esqueci, só quando revejo para ver-lhe não mais a mesma e que até nem reconheço, como do que não me lembro e se parece novo. É nela que coabito apenas com minhas lembranças e finitude. Ah, já que não posso sair, pelo menos uma assombração aparecesse para quebrar essa monotonia. Ou quem dera voar e estar por todos os lugares e perceber o quão a realidade é invertida e que, por isso, poderia sanar a ausência e desdém. Poderia olhar em volta, com o ensimesmamento de ter ao mesmo tempo a sensação de platitude, de ubiquidade, dos interstícios, da incomunicabilidade, do vazio. Ah, mas eu preciso encontrar um coração solidário nessa hora. Não posso ir à rua, os solitários estão na Rede, acessar a internet e sacar no meio de muita veleidade em exposição, muita frivolidade narcisista, alguma mão amiga que entoe comigo Entrega. Preciso de alguém acessível e que como eu não tenha temores nem rubores para expor a alma nua, mais interativa para preencher minhas lacunas e repaginar minhas ideias e pensamentos. Tudo é muito instantâneo, descartável. Ler um livro talvez seja melhor. Assim, quem sabe, eu possa viajar por outras paragens mais divertidas e reconhecer-me entre os protagonistas e coadjuvantes numa aventura errante sem que me cobre culpa ou arrependimento. É sim, é melhor. Então veja as dicas abaixo e aprume, depois, a conversa aqui.

PICADINHO


Imagem: A mulher nua, da artista plástica Cristina Salgado.

Curtindo a Laureate Series Guitar (1995), da violonista grega Elena Papandreou.

EPÍGRAFE – Do sábio grego Hipócrates: Ad extremos morbos, extrema remedia exquisite optima. Tradução: A grandes males, grandes remédios. Veja mais aqui e aqui.

A BELA SOBRINHA PREDILETA DE NEWTON – O físico e matemático inglês Isaac Newton (1642-1727) convivia com uma belíssima sobrinha, a espirituosa, brilhante e inteligente Catherine Barton Conduitt (1679-1739), que foi a responsável por espalhar a lenda da maçã que lhe caiu sobre a cabeça para criar a teoria da gravitação. Essa sobrinha não só atraiu a atenção do tio, como de pessoas famosas como Janathah Swift e Voltaire. Segundo este último, Newton  encontrava nela uma útil auxiliar para a satisfação de suas ambições, ao mencionar que: “Quando eu era moço, imaginava que a corte e a cidade de Londres haviam nomeado Isaac Newton diretor da Casa da Moeda por aclamação. Mas enganava-me. Ele tinha uma sobrinha encantadora... a sobrinha agradava muito ao chanceler do erário... o cálculo infinitesimal e a gravitação, de nada teriam servido a Newton sem uma linda sobrinha”. Também é fluente que graças aos encantos de sua sobrinha, Newton recebeu o título de cavaleiro e foi introduzido na sociedade do Príncipe Consorte. Veja mais aqui e aqui.

O HOMEM E O PÓS-HOMEM – No artigo Membranas e interfaces (Que corpo é esse? Mauad, 1999), da doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e professora pesquisadora, Fernanda Bruno, encontro que: As novas potencias dos homens contemporâneos parecem estar marcando uma ruptura, que muitos começam a apontar como o fim da humanidade (seja celebrando-o ou condenando-o) e o início de uma era: a pós-modernidade. Pois somente agora a criatura humana passaria a dispor, de fato, das condições técnicas necessárias para se autocriticar, tornando-se um gestor de si na administração do seu próprio capital privado e na escolha das opções disponíveis no mercado para modelar seu corpo e sua alma. Outro corte radical emerge da dissolução das velhas fronteiras entre o organismo natural – o corpo biológico – e os artifícios que a tecnociência coloca nas mãos do novo demiurgo humano para que ele conduza sua pós-evolução, não apenas em nível individual como também quanto à espécie, hibridizando-se com as diversas próteses bioinformáticas que já estão à venda. Veja mais aqui.

A ERVA DO DIABO - No livro A erva do diabo (Record, 1968), do escritor e antropólogo estadunidense Carlos Castañeda (1925-1998), destaco o trecho: Resolvi fazer uma última tentativa. Levantei-me e, devagar aproximei-me do lugar marcado pelo paletó e tornei a sentir a mesma apreensão. Dessa vez, fiz um grande esforço para me controlar. Sentei-me e depois ajoelhei-me para deitar de bruços, mas, a despeito de minha vontade, não consegui deitar-me. Pus as mãos no chão em frente de mim. Minha respiração estava ofegante; meu estômago estava embrulhado. Tive uma nítida sensação de pânico, e lutei para não fugir. Pensei que talvez DomJuan me estivesse vigiando. Devagar, rastejei até o outro ponto e encostei as costas na pedra. Queria repousar um pouco para arrumar as ideias, mas adormeci. Ouvi Dom Juan falando e rindo por cima de minha cabeça. Acordei.- Você encontrou o ponto – disse ele. A principio, não entendi, mas ele me garantiu de novo que o lugar em que eu adormecera era o ponto certo. Tornou a me perguntar como é que eu me sentia deitado ali. Respondi que realmente não notava nenhuma diferença. Disse-me que comparasse minhas sensações daquele momento com o que eu tinha sentido deitado no outro ponto. Pela primeira vez, ocorreu-me que eu não poderia explicar minha apreensão da noite. Incitou-me, numa espécie de desafio, a me sentar no outro ponto. Por algum motivo explicável eu chegava a ter medo do outro lugar, e não me sentei lá. Declarou que só um tolo podia deixar de perceber a diferença. Perguntei-lhe se cada um dos dois pontos tinha um nome especial. Ele disse que o mero chamado o sitio e o mau o inimigo: disse que os dois lugares era marca do bem-estar do homem, especialmente para uma pessoa que buscava o conhecimento. [...]. Veja mais aqui.

A CEIFEIRA SOLITÁRIA & OUTROS POEMAS – No livro The Laurel Poetry Series (Dell Publishing, 1960), do poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850), destaco inicialmente A ceifeira solitária: Só ela no campo vi: / solitária de altas serras, / ceifa e canta para si. / Não digas nada, que a aterras! / Sozinha ceifa no mundo / E canta melancolia. / Escuta: o vale profundo / Transborda à de harmonia. / Nunca um rouxinol cantou / em sombras da Arábia ardente / ao que exausto repousou / mais grata canção dolente; / ou gorjeio tão extremado / se escutou na Primavera, / cortando o Oceano calado / entre ilhas de Além-Quimera. / Quem me dirá do que canta? / Será que o que ela deplora / é antigo, triste e distante, / como batalhas de outrora? / Ou coisas simples são / do quotidiano viver? / Essas dores de coração, / que já foram e hão-de ser? / Seja o que for que cantara / é como infindo cantar, / que a vi cantando na seara, / no trabalho de ceifar. / Sem falar, quieto, eu escutava / e, quando o monte subia, / no coração transportava / o canto que não se ouvia. Também o poema sem título: A poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade. Também um segundo poema sem título: A verdadeira beleza vive em refúgios profundos, cujo véu é irremovível, até que coração e coração em concordância batam. E o amor é amado. Veja mais aqui.

O TEATRO NO BHARATA – No épico da mitologia hindu Ramáiana denominado Bharata (Natya Çastra), na tradução de Renê Daumal, encontro que: [...] Brahmâ disse ao Fazedor-de-todas-as-Coisas, voltando-se para ele: “Constroi uma casa para o Teatro, de acordo com as regras canônicas, ó Grande-inteligência!”. E, sem perder tempo, o Fazedor-de-todas-as-Coisas construiu uma sala de teatro, clara, grande, de acordo com todas as figuras canônicas. Foi à torre do Construtor, mãos juntas e disse-lhe: “A sala de teatro está pronta, senhor; digna-te poisar nela o teu olhar”. Então, com o grande Indra e todos os outros Deuses, o Construtor apressou-se a vir ver o templo do teatro. A seguir o Grande-Pai disse aos Deuses reunidos: “Fazei um sacrifício ritual neste tempo de teatro”. [...] O teatro descreve as manifestações deste Triplo mundo total. Descreve que a lei, quer o jogo, quer a riqueza, a quietude, o riso, a guerra, a paixão, quer a morte violenta. A Lei para os que o seguem, paixão para os que a ele se entregam, a disciplina dos que se comportal mal, exemplo para aqueles que se sabem conduzir. Veja mais aqui.

FILME DE AMOR – O longa-metragem Filme de amor (2003), do diretor Júlio Bressane, coloca em cena o mito da três graças – o Amor, A Beleza e o Prazer, onde duas mulheres e um homem dão um intervalo em suas vidas de cotidiano medíocre para um hiato de alegria, paixão, libertação e transcendência. No mito original são três mulheres, Tália, Abgail e Eufrosina, mas Bressane optou por escalar um homem levando em conta esses “novos tempos híbridos e heterogêneos”; e no filme eles encarnam os personagens Hilda, Matilda e Gaspar sob a lente Bressaniana. São três amigos que vivem no subúrbio e que decidem se encontrar em um pequeno apartamento num final de semana, com o objetivo de beber, conversar, sentir prazer e, principalmente, estarem juntos. Lá eles entram num estado de sonho, devido à embriaguez, que os leva a esquecer o que ocorre fora do apartamento. O destaque do filme vai para a atriz Josie Antello, especialmente naquela cena que ela sai completamente nua da banheira. Imperdível. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Charge do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à cantora e compositora Claudia Telles. Veja aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016
Confira aqui.

CRÔNICAS NATALINAS 
Confira aqui.

LEITORA TATARITARITATÁ


Postagens mais visitadas deste blog

A MULHER

A MULHER – Quando criei o blog “Crônica de amor por ela” levado pelo mote dado pela poetamiga Mariza LourençoEla nua é linda – um bloguerótico” eu pensava publicar meus versos, tons & prosas poéticas voltadas para o amor e afetividade, sexualidade e cumplicidade das paixões, desejos e amizade entre os seres humanos.


Arte: Mariza Lourenço.
De primeira, eu queria fazer uma homenagem às mulheres pelo reconhecimento de grandeza do seu ser.


Arte: Mariza Lourenço.
Depois, eu queria fazer uma homenagem ao amor, este sentimento que envolve todos os seres humanos.


Arte: Derinha Rocha.
Quando menos pensei eu estava com um livro pronto: o “Crônica de amor por ela” reunindo poemas, prosas poéticas, poemiúdos, .canções, proseróticas, poemiuderóticos, croniquetas, noveletas, expressões ginofágicas priápicas e outros teréns e juras de amor por ela.


Arte: Derinha Rocha.
UNIVERSO FEMININO – O universo feminino muito me encanta, fascina e me faz cada vez mais cativo ao maravilhoso ser que é a mulher.


Ar…

STEVENSON & FANNY, MARIANNE MOORE, BETTY MEGGERS & HANNAH YATA

A ÚLTIMA CARTA PARA FANNY - O mundo está cheio de tantas coisas, os sonhos são maiores que as dores. O sangrento Jack me persegue desde a infância, mesmo quando as aventuras davam num débil inválido, enfermiço, era eu um acendedor de lampiões com o bicho-papão fungando nas sombras dos meus cabelos. Só me restava a noite solitária com o sopro dos ventos, calafrios e tempestades terríveis, as lembranças de Cumme e as suas histórias horripilantes. Sempre foi assim entre a espada heroica e a pena inglória, os mapas e histórias inventadas, os paladinos marinheiros marchando para salvar a humanidade indefesa na minha cabeça, me fazendo faroleiro das ondas, tormentas e naufrágios, a distinguir o que era e não era entre vagabundos e ilibados senhores da sociedade. Como fui reprovado pelos professores, já sabia que nunca seria um contador de história respeitável, só um plumitivo que nada mais era que uma alma perdida com passatempos mirabolantes na ideia. Nunca me vi levantando paredes para mo…

ÉLUARD, APPIA, ALMODÓVAR, OSMAN LINS, PAULO CESAR PINHEIRO, ALBERTO DE OLIVEIRA, MALHOA, PENÉLOPE CRUZ, VALERIA PISAURO & MUITO MAIS NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!

CANTO DE CIRCO – O livro Os gestos (José Olympio, 1957), do escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978), reúne treze contos que foram escritos nos anos 1950, abordando sobre a impotência e angustia do ser humano. Do livro destaco esse trecho do Canto de Circo: Ergue a cabeça e contemplou o lugar onde tantas vezes se apresentara para os seus breves triungos no trapézio. No dia seguinte, desarmariam o Circo – pensava; e na próxima cidade, quando o reerguessem, ele estaria longe. Nunca, porém, haveria de esquecer aquela frahil armação de lona e tabique, as cadeiras desconjuntadas, o quebra-luz sobre oespelho partido e o modo como os aplausos e a música chegavam ali. Baixou os olhos, voltou a folhear a revista. Em algum ponto do corpo ou da alma, doía-lhe ver o lugar do qual despedia e que lembrava, de certo modo, o aposento de um morto, semelhança esta que seria maior, não fosse a indiferença quase rancorosa que o rodeava; pois, a despedida iminente, só ele sentia. Os colegas – o equili…

MOLIÉRE, DURAS, PANCHATANTRA, CYBELE, VLAMINCK, MUDDY & IDA BAUER.

O DOENTE IMAGINÁRIO – A peça O doente imaginário (Le malade imaginaire, 1673) é a última entre as escritas pelo dramaturgo, ator e encenador francês Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622-1673). Considerado um dos mestres da comédia satírica, essa peça composta em três atos, critica os costumes da época ao contar a história de um velho hipocondríaco Argan que se julga pesadamente doente sem realmente estar, acatando cegamente toda as ordens do médico que se aproveita da situação. Por outro lado, o doente quer por fim da força que sua filha Angélique contraia matrimonio com um filho de médico para que possa receber gratuitamente do genro o seu tratamento. Entretanto, a jovem filha está apaixonada por Cléante, tornando-se livre para casar depois de um ardil tramado por seu irmão Bérald para curar seu pai de sua fixação com médicos. Destaco o seu Quarto Ato: (Uma cenaburlesca, de coração de grau de um médico. Assembléia composta de porta-seringas, farmacêuticos, doutor…

LORCA, ELLINGTON, TRIER, PARCERO, GÊNESE AFRICANO, GALHARDO, MEIMEI CORRÊA, RÔ LOPES & TERRA DAS CABRAS.

COMO VEIO A PRIMEIRA CHUVA – Na reunião de histórias denominadas O gênese africano (Cultrix, 1962), encontrei a lenda Como veio a primeira chuva: Uma vez, há muito tempo, nasceu uma filha a Obassi Osaw e um filho a Obasi Nsi. Quando ambos chegaram à idade de casar, Nsi mandou uma mensagem e disse: - Troquemos os filhos. Eu te mandarei meu filho para que despose uma das tuas jovbens e tu manda-me tua filha para que seja minha mulher. Obasi Osaw aceitou. Assim o filho de Nsi foi para o céu, levando consigo muitos e belos presentes e Ara, a jovem do céu, veio ficar cá embaixo, na terra. Com ela viera sete escravos e sete escravas, que o pai lhe deu, para que trabalhassem para ela, e assim ela não fosse obrigada a fazer nada. Um dia, de manhã cedo, Obasse Nsi disse à nova esposa: - Vai trabalhar na minha fazenda! Ela respondeu: - Meu pai deu-me os escravos para trabalharem por mim. Por isso manda-os a eles. Obassi Nsi se irritou e disse: - Não ouviste eu dar-te as minhas ordens? Tu mesma …