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domingo, setembro 11, 2022

MARIAN KEYES, JOANNA BAILLIE, HILDA DOOLITTLE, MICHEL BARLOW & PINTANDO XEXÉU

 

 Ao som dos álbuns Living Room Songs (2011), For Now I Am Winter (2013) e Island Songs (2016), do multi-instrumentista islandês Ólafur Arnalds.

 

TRÍPTICO DQP: - O olhar e o ignoto... - Do lado de cá, o quintal dos milagres; do lado de lá, o mundo. Entre ambos o brejo que mais se parecia um riacho de tão cheio. O pitu chega passava avexado, aos montes pelos tantos de cardumes. Deixei de lado as proezas na cacimba porque havia explorado muitas invencionices na goiabeira, ou pelas bananeiras e matagal. Queria era voar pro outro lado, poder desse tivesse. Luz na ideia e por que não, ora, encarei a fundura, escalei aos escorregões a íngreme margem oposta, fiz força e ganhei acolá. Era tudo muito vasto, como o tanto dos meus sonhos de olhos abertos. Vasculhei a redondeza e dei de cara com uma oliveira carregada de azeitona: Ô coisa mais boa de se aproveitar. Na sombra estava... Ah, era Platero de Jimenez às gargalhadas lambendo os cascos do que sobrou do jenipapo e foi logo me contando d’A raposa e as uvas de Esopo. A cada relincho outra hestória: O lobo e o cordeiro de Fedro; depois O asno de ouro de Apuleio; ô bicho tagarela esse, meu, ganhou pra mim na tomada de água de chocalho: falava pelos cotovelos que nem o homem da cobra. Confesso que morri de rir quando me disse saborear o araticum cagão. O quê? Ao buscá-lo quase pisa no cochilo do sapo Aderbal. Eita, desculpe! Sai pra lá, jumento! Olhe você me respeite senão não tem festa no céu procê! Sai pra lá, ô jegue fidumégua! Foi aí que o asno se enrolou com uma cana e, por engano, pegou foi um ingá do brejo! O cururu vingou-se: Vai ser burro assim no raio que o parta, desgraçado! As rãs assanhadas do fã clube do anuro se riram da leseira deles: Cadê a mula? E instigavam enquanto torciam pelas pazes entre a invejosa lagarta que não sabia para onde ia e peiticava com a vaidosa borboleta que não sabia como veio. O zoadeiro ficava por conta da saparia afoita açoitando a arenga: Foi! Não foi! De repente as lavadeiras fugiam saias pela cabeça às carreiras por causa duma cobra voadora que era uma criança atacada pelas abelhas de Cupira e efígie ofídica se tornara porque amaldiçoada pela mãe logo que esta foi abandonada pelo marido. Como é que é? E logo apareceu o lobisomem zonzo dizendo fugir da barata Gregor gigante que queria pegá-lo e quem não conseguia fugir subia pelos coqueiros ou era pé na bunda mata adentro. Eu não sabia o que fazer quando dei de cara com o Minotauro bufando tal qual a Esfinge do Édipo: Decifra-me ou te devoro! E agora? Paralisado diante daquele terror, apareceu do nada Marian Keyes que me deu o Fio de Ariadne: A vida não respeita circunstâncias... A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade! Desde então pelos labirintos noitedias e dias&noites, tenho muita hestória pra contar.

 


Pintando Xexéu... - Era feriado e a independência de quem no Fecamepa. O que valeu a manhã ensolarar o risonho prefeito aos braçabraços em cada um da multidão solícita, ao passo que a linda senhora vice distribuía afetos e saudações. A Ipiranga valia no tom garboso da sonoridade matutina para que a festa tomasse corpo nas cores e traços dos artistas presentes e o poeta secretário não deixasse nada passar em branco. Divisão foi logo mote glosado por Leo Luna, Ana Paula e Durán, quando este ao final encarou uma espanhola exuberante que sumiu e ele avexou-se e foi junto, ora. Alexandre Freitas foi pelo arruado, ao mesmo tempo em que Profeta seguia noutra nebulosa e Fábio Santos construía a sua igreja. Robertson pegou a canoa e foi pelas águas de não sei onde e Márcia Gomes passava pela ponte dos seus sonhos para ver o xexéu brilhar com João Brito e Alexandre Lima, enquanto Zed Melo dava as caras pra Carlos Daniel, Erick e Míssila no meio da estudantada, ouvindo atentos as narrações livreiras de Rute Costa, para tudo ser registrado pela adorável bibliotecária Sueli na foto geral de exposição na Semed. Valeu mais o abraço de Gel Love & Rogério. Por isso e muito mais, a cada dia canto & sou xexéu. (Veja fotos e evento aqui).

 


O fio de Bastet... – Imagem do designer gráfico, ilustrador, videoartista e artista multi-gênero japonês Keiichi Tanaami. – Anoiteceu e voltei ao convívio das trevas, umbrais solitude, o trâmite da solidão. Lá fora está tão irrespirável até não sei quando; aqui dentro, pelo menos, ouso viver. Não fosse Bastet aparecer-me como se fosse um eclipse solar, não teria nada o que fazer então. Insinuando-se tal qual gata de Nise, com seu olhar felino graciosamente faminto na boca sedenta para me dar o sistro com a mão direita e a efígie com cabeça de leoa coroada pelo disco solar e serpente uraues com a outra, a levar-me pelas pirâmides dos seus segredos, não sei nem o que diga de tanta errância. Mas ela disse-me com tom de Battaile: Nada é mais necessário ou mais forte em nós do que a rebelião... Acredito que a verdade tem apenas uma face: a de uma contradição violenta... Eu sabia que a filha de Rá temia ter que passar de novo por Gata Borralheira. Ora, nem podia, afinal era uma deusa votiva e poderia, com um simples estalar de dedos, mudar o que quisesse e se não o fez é porque não quis. De repente sussurrou misteriosa Joanna Baillie: O tirano agora não confia em homens: todas as noites em seu quarto o cão de guarda guarda seu leito, o único amigo em quem agora ousa confiar. Virou-se e me tratou como Anúbis no meio da madrugada, trazendo-me o mais perto possível a sofreguidão do seu hálito. Foi aí que ela desteceu os enredos do meu canto aniquilado de ave migratória na angústia de desgarrado por triunfar no pó e no vento, para me dizer de Goethe: para ser poeta é preciso entregar-se ao demônio. Ou foi Byron quem disse isso e mais britanicamente: O diabo foi o primeiro democrata... Na solidão é quando estamos menos sós. Nada escrevi que prestasse até que comecei a amar. Meu epitáfio será meu nome, nada mais... Quem disse, o que foi ou não, o que se acusa e se envergonha, pouco importa. Aconchegada a mim se fez Hilda Doolittle: Nenhuma fantasia poética / Mas uma realidade biológica, um fato: eu sou uma entidade como pássaro, inseto, planta ou célula vegetal do mar; / Eu vivo; / Eu estou viva... E em mim a festa dela detonou meus logogrifos e logomaquias, a perdoar as minhas derrotas e o que viveu em mim e o que nunca vi, nem mais nem menos. Já não era insignificante no auge do meu cansaço e nenhum entusiasmo, ela me dava de presente o outro lado do brejo no quintal da infância. Até mais ver.

 


[...] a escola não é menos povoada de mitos e de ritos [...] Mas podemos observar, desde já, que a ação educativa, menos do que qualquer outra, não poderia escapar ao império do sonho e do imaginário. Por definição, poderíamos dizer: artífice do futuro para os jovens que lhe são confiados, a educação teria como única tarefa despertar o desejo, dar corpo ao sonho? Em face do adulto responsável por ela, a criança – ou o adolescente – é esperança frágil e expectativa, para si mesma e para seus próximos, e a ação educativa não teria outra meta a não ser ajudar a realizar essas promessas... Essas ou outras, aliás! [...] De fato, em última instância, a própria criança é o ator de sua educação: ninguém pode crescer, evoluir, aprender em seu lugar! O educador é apenas um catalisador. [...].

Trechos extraídos da obra Avaliação escolar: mitos e realidades (Artmed, 2006), do filósofo e educador francês  Michel Barlow. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



quarta-feira, julho 17, 2019

VANDANA SHIVA. KLIMT, ESOPO, ANA VITÓRIA & BILHETE JOGADO


BILHETE JOGADO - Saí de casa, tinha de. Sem ter para onde ir, a esmo. Por intuição rumei pro Leste, o Sol e o tempestuoso Atlântico. O mar que sou nascente e vida. A convulsão, vibrações extremas. Renascia: a placidez em mim. Um reencontro, prazer real: sou em mim e em tudo. Contemplo e interajo. Nunca fui tão imenso, da aurora ao crepúsculo. Veio o céu estrelado e tinha de ir. Para onde? Não sabia. Comecei a andar e segui pro Sul, sem bússola nem hora de chegada. Pés na areia, não havia tempo, apenas terras lavadas que vi e não sabia: quase matas, rios quase secos, vida devastada. Andanças que deu na Terra do Fogo Antártico, a correr o risco de morrer de fome ou de frio no centro de duplo polo inacessível, sem fuso e com pinguins dançando na aurora austral por lagos subglaciais e sangue na geleira de Taylor. Tudo passa e passei. Ah se pudesse voar, pervígil caminhar, errâncias, sina até onde desse o fim do mundo ali. Não havia e, sem perceber, ia já pro Oeste à deriva continental pelo círculo de fogo do Pacífico, ah namoro de El Niño com La Niña, cordilheiras que sonhei a dar com mistérios incas, maias e astecas, altos das quimeras, solidões de nunca mais, até me ver no Glacial Ártico e as Valquírias com seus elmos e lanças, passavam montadas em seus cavalos e traziam a aurora boreal com os relâmpagos de arenque, os fogos de raposa da Lapônia e os espíritos dos altos reinos que rodeiam o oceano – os ancestrais dos agonquinos que dançam para que os esquimós me mostrem a oscilação de Chandler e os ursos polares pelo cluster do Monte Qaf, o purgatório de Dante e Virgílio; no trajeto do Capitão Hatteras de Verne, avistei os seres da Hiperbórea e sequer imaginei na ilha de Bathurst, em Nunavut. Era preciso voltar entre as almas dos guerreiros mortos da Letônia. Cenas que vi e esqueci, agora rondando minha cabeça, reprises das estações e renascimentos do que fui pro que sou. Só vivia andejo, os esplendores do dia, muito pôr do Sol, ventanias, os que vagavam e se perderam circunspectos, aclives de ontens, declives íngremes, a periferia das coisas, tremores e meus estremecimentos. Logo dei nos bosques de Walden, lá estavam, às gargalhadas, Thoreau e o barão de Münchhausen. Ouvi suas conversas, discernia, relaxava: preciso aprender a puxar meu próprio cabelo. Nem havia me dado conta de horas, dias, meses, anos, passaram. Thoreau falou pro barão: Só resta a você, a mim e a quem quer que seja, viver. Nunca desistir. Ah, sim, persistir, perseverar. Tinha de ir, voltar para casa. Como, se não tinha mais paradeiro, do íntimo para qualquer lugar, o aprendizado de ver as coisas, a América continental e senti-las, amá-las como são e sou, reaprender com o visto por todo trajeto desde que saí da minha rua, passadas pelo inesperado de arregalar os olhos, de bater nos peitos e segurar a onda, escapei por árvores e coisas que se transformavam em mulheres que falavam de algo da alma, o vento e os sons da noite que contavam do raiar do dia, caminhos nas mãos feitos para os pés. Sabia que não era louco nem herói, nem sei quem sou e o que faço entre círculos e recomeços, livre para renunciar das convenções e gozar de ser livre. Não mais descontente de si e de nada porque livre, não mais ombros pesados, cabeça baixa, olhar perdido, acanhado, estranho no seu próprio lar, tudo tão vazio, o Caribe, a Barreira do Inferno, o chão da minha terra e retomar o caminho. Nesse minimalismo me descobri supérfluo, um a mais, qualquer; uma carta de um imenso baralho e descartável, um entre tantos uns e zeros que pulam e rolam, inútil quanto contar e ser. Mas sou eu e como posso, sozinho na verdadeira vida para quem me ama. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A cegueira que nos impede de ver tanto a riqueza da diversidade quanto a própria diversidade é o que chamo de monocultura da mente. A monocultura da mente é, literalmente, a raiz da ditadura sobre a Terra. É um instrumento de poder e controle. Não produz mais. Controla mais. [...] As monoculturas da mente fazem a diversidade desaparecer da percepção e, consequentemente, do mundo. O desaparecimento da diversidade corresponde ao desaparecimento das alternativas – e leva à síndrome FALAL (falta de alternativas). Com que frequência, nos tempos de hoje, o extermínio completo da natureza, tecnologia, comunidades e até de uma civilização inteira não é justificado pela “falta de alternativas”? As alternativas existem, sim, mas foram excluídas. Sua inclusão requer um contexto de diversidade. Adotar a diversidade como uma forma de pensar, como um contexto de ação, permite o surgimento de muitas opções. [...] Proteger as sementes nativas é mais que uma questão de preservar a matéria-prima para a indústria da biotecnologia. As diversas sementes que agora estão fadadas à extinção carregam dentro de si sementes de outras formas de pensar sobre a natureza e de outras formas de produzir para satisfazer nossas necessidades. [...] a uniformidade e a diversidade não são apenas maneiras de usar a terra, são maneiras de pensar e de viver. [...] a expansão das monoculturas tem mais a ver com política e poder do que com sistemas de enriquecimento e melhoria da produção [...] a uniformidade anda de mãos dadas com a centralização, enquanto a diversidade requer um controle descentralizado [...] A silvicultura “científica” e a agricultura “científica” dividem artificialmente a planta em domínios separados sem partes em comum, com base nos mercados isolados de bens aos quais fornecem matéria-prima e recursos. [...] o mundo vegetal não é artificialmente dividido entre uma floresta que fornece madeira comercial e terra cultivável que fornece mercadorias em forma de alimentos. A floresta e o campo são um continuum ecológico. [...] As monoculturas ocupam primeiro a mente e depois são transferidas para o solo. As monoculturas mentais geram modelos de produção que destroem a diversidade e legitimam a destruição como progresso, crescimento e melhoria. [...] A expansão das monoculturas tem mais a ver com política e poder do que com sistemas de enriquecimento e melhoria da produção biológica. Isso se aplica tanto à Revolução Verde quanto à revolução genética ou às novas biotecnologias. E ainda: As monoculturas da mente fazem a diversidade desaparecer da percepção e, consequentemente, do mundo. O desaparecimento da diversidade corresponde ao desaparecimento das alternativas. Adotar a diversidade como uma forma de pensar, como um contexto de ação, permite o surgimento de muitas opções. [...].
Trechos extraídos da obra Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia (Gaia, 2003), da Ph.D em Filosofia, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana, Vandana Shiva. Veja mais aqui e aqui.

FÁBULA DE ESOPO
Uma lebre, perseguida pela águia, pediu refúgio na casa de um besouro. O besouro, valente e generoso, decidiu defender a lebre e disse à águia: ‘Em nome de Júpiter, você deve respeitar o direito de exílio. A lebre agora é minha hóspede.’ Ignorando a argumentação, a águia jogou o besouro a um lado e devorou a lebre de imediato. Magoado, o besouro decidiu não dar trégua à opressão da águia.  Ele  foi até o ninho da águia e jogou os  ovos dela no chão, um a um.  Não havia nisso uma vingança pessoal, mas uma luta em favor dos mais fracos. A águia construiu um segundo ninho, bem mais alto, mas o besouro foi até lá e repetiu a operação. Diante disso, a águia procurou Júpiter  para buscar  um acordo com o besouro.  O chefe dos deuses  tentou acalmar o besouro, mas foi inútil. Pediu a ele que pensasse em uma conciliação, e a ideia foi rejeitada. O último recurso encontrado por Júpiter para evitar a extinção da águia foi mudar a época da sua reprodução para uma estação do ano em que os besouros não estão em atividade. Moral da história: “o carma do abuso de poder é pesado, e os opressores cedo ou tarde devem reencontrar-se com a justiça e o equilíbrio”.
A águia e o besouro, fábula extraída da obra Esopo: fábulas completas (Cosac Naify, 2013), do escritor grego Esopo (620 a.C. - 564 a.C.), contada pelo autor por ocasião de sua defesa perante Perístrato, dirigente de Atenas que era inimigo da liberdade de pensamento, por conta da acusação de sacrílego pelo oráculo de Delfos, em razão de seu discurso irreverente na defesa dos mais fracos e da verdade, reafirmando que os privilegiados devem respeitar os direitos dos mais fracos, porque os abusos de poder são sempre punidos pelos deuses. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Minhas coreografias se concentram no movimento, na pesquisa do gesto. Não gosto de formatar conceitos, não utilizo recursos literários ou teatrais, tampouco construo personagens. Do cinema e da literatura retiro apenas ideias técnicas, que aplico à estrutura da coreografia. Elementos da cultura brasileira, como o candomblé e a capoeira, podem se inserir em minha escritura coreográfica, mas de forma apenas referencial. Da ginástica rítmica conservo a precisão e a exploração energética. Acima de tudo, é da dinâmica dos movimentos que surge a minha poética.
A arte da bailarina, coreógrafa e diretora artística da companhia que leva seu nome, Ana Vitória, que é doutora em artes cênicas e desenvolve junto às instituições universitárias, grupos de dança e companhias de dança, a sua pedagogia de investigação criativa a partir dos estudos autobiográficos, da memória e dos afetos. Seu trabalho como intérprete-criadora se deu desde cedo apontando já sua inquieta curiosidade pela busca do trabalho autoral, da escrita de si e a diversidade de potências expressivas no universo artístico. Seu exercício cênico foi gradualmente se aprofundando, desde a linguagem gestual à ocupação dos espaços de suas apresentações, ao buscar cada vez mais, tocar e estar mais próxima do seus interlocutores/espectadores, como atestam suas três últimas criações que assumem a presença do objeto e seu próprio corpo como instalações performáticas. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE KLIMT
A arte é uma linha em torno de seus pensamentos. Toda arte é erótica.
A obra do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Pela proteção das Florestas aqui, aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, novembro 17, 2017

MOACYR SCLIAR, ESOPO, JULIETA DE GODOY LADEIRA, HENRIQUETA LISBOA, RENATA MAGDA & MARAIAL

E PRONDE É QUE VOU MESMO, HEM? - Imagem: Between the worlds, arte da pintora polonesa Renata Magda. - Nunca me dera por vexado de tudo, avalie, se bem que sempre entrei no mato longe demais, bicho solto não enxerga o rabo mesmo. Havia a impressão de atrasado, ô menino tonto sempre fora, correndo atrás e às pressas, não sei nem pra quê, coisa daquela de inheto de não parar quieto nem a pulso, só os mais velhos achando graça das minhas desmesuradas pelejadas. Tanto é que me davam por caçula de tudo, nem sabia que para quem engole corda e da muita, a queda é maior no espatifado. Apois, tá! Andejo, ah, sempre fujão pelas frestas das portas e brechas de portões dos jardins, esgueirando solto, rua acima, ladeira abaixo, peito aberto de beiço virado pronde davam as ventas. Logo cedo aprendi com as coercitivas lapadas, pisas às pinotadas, esfregões de repuxar o couro, beliscões e cascudos, dois metros de bico de quase de quase tombar: a vida não era bem o que eu pensava que fosse. Quando fui ver, quase à beira do abismo. Com a topada saía tirando fino, findava esfolado, samboque do couro pendurado no arame farpado, ronchas nos inchaços. Tive muito de torcer o nariz, fazer ouvidos de mouco, dar o braço a torcer e sair assobiando como se tudo aquilo nunca nem fora comigo, tá doido, nunca vi mais gordo, sabe, nem pintado a ouro, destá. Eu que me roía por dentro, cada um o Uriah Heep que merece, num é Dickens? Quantas bangueladas pro prêmio e, na tacada final, não era nada daquilo, fila errada, o prêmio era do outro lado. O pior era ter de encarar o insosso, nada que um esforçozinho a mais não relasse a casca da pereba por costume magoada e perenemente restaurada no machucão dolorido. Sempre atrasado, quando ia ver já era tarde, já tinham levado o que era bom, só sobravam porcarias pras trepeças, farelos de festa. Pra quem só se viu ao lado do bloco do eu sozinho, tive que me virar em ser a principal atração e a plateia, isso ao mesmo tempo! É-hé! Como? A-rá! Ora, cada um chuta o bombo por zabumba, mexe no triângulo, sopra no pife, assobia e chupa cana, pronto, está feito o xote pé-de-serra. No mais é só ficar decorando adivinhações e charadas, das que sejam mais caprichadas, sem que no final, pra mim, não sobre uma só que preste por enrascada. U-hu! De tanto insistir, foi aí que me tornei o cara mais sem graça do planeta. Eu que me importa! Só queria mesmo era mostrar o meu serviço e, se prestasse de mesmo, saísse com um trocadinho que fosse no bolso. Pois é, por isso vivi sempre liso como a moléstia que vem e volta pra sucumbir o enfermo. E ainda tem quem chegue implicando com lei disso, regra daquilo, código de ética, de postura, sanção como a praga, pra quê, porra? Ou a gente aprende a fazer direito, ou se não tem nada pra contar que fique calado! Cuidar do que fala, senão tem cada muriçoca indigesta, mosca graúda como a peste, que em boca fechada, já dizia o ditado, não entra mosquito nem pra indigestão! Tome tento! O que eu falei, está dito. Vamos pra outra! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: The Planets Suite, St. Paul’s Suit & Symphony in F Major The Cotswolds, do compositor, arranjador e professor inglês Gustav Holst; a interpretação da violoncelista estadunidense Alisa Weilerstein para o Concerto in D Major 1 de Haydn, Variations on a Rococo Theme op. 33 de Tchaikovsly & Hindemith Cellokonzert HR Sinfonieorchester; os álbuns Perto do coração, Mantiqueira, Só Xote e Música Popular Brasileira Contemporânea do produtor musical, arranjador, instrumentista, regente e compositor Nelson Ayres; e os álbuns Cidade Blues Rock nas Ruas & Salve a beleza da cantora, compositora e jornalista Mona Gadelha. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – A lua pediu à sua mãe que lhe fizesse um vestido. – Um vestido? – perguntou a mãe, espantada. – Não é possível fazer um vestido para você, minha filha. – Por que não? – Hoje você está gorda, amanhã você está magra; um dia você é lua cheia, outro dia você é lua nova. E ainda, às vezes, não é nem cheia, nem nova. Impossível fazer um vestido para alguém como você. E como a lua teimava, a mãe acabou com o assunto: - Decida a quantas anda, antes de querer um vestido. Extraída do livro Esopo: fábulas completas (Cosac Naify, 2013), do escritor grego Esopo (620 a.C. -  564 a.C.). Veja mais aqui e aqui.

UMA HISTÓRIA SOBRE A TERRA - A Terra é o nosso mundo. O mundo tem sido nosso amigo, ele nos oferece tanto... ele nos dá cada fruta gostosa, cada tarde bonitya. Aconte que o mundo vem sendo maltratado, poluído, queimado. Pensam que ele não sofre com isso? Esta é uma história que conta como a Terra anda triste, chegando a pensar até em sumir. Não some porque existe gente mais sabida, que entra na história e não deixa que isso aconteça. Nesta aventura, de muita informação, poesia e fantasia, você vai ficar sabendo mais sobre o meio em que vivemos, sobre o ar que respiramos. E sobre a arca de Noé e os astronautas. Mistura danada: não. É como a Terra. Ela gira, gira, e as coisas mais diferentes vão acontecendo. Este livro mostra que a Terra se dá bem com a Lua, os anjos e as estrelas, mas tem medo das pessoas. A ideia, então, é fazer com que ela goste da gente, sem receio. Mas para que isso aconteça é preciso cuidar dela com amor. Recebendo cuidado e atenção, a Terra será melhor para todos nós. [...]. Extraído da obra Antes que a Terra fuja: uma história pela limpeza do meio ambiente (Moderna, 2002), da escritora Julieta de Godoy Ladeira (1927-1997). Veja mais aqui.

MARAIAL – O município de Maraial está encravada numa região que possuía palmeiras deste tipo, Maraial, dando origem à sua denominação, havendo, inclusive, registros de que uma família denominada Maraiá teria sido a primeira a se extabeler naquela locadlidade. O povoado, portanto, teve inicio com a construção da ferrovia para abastecimento de trablhadoras, sendo inaugurada a estação em 1884. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, subordinado à Palmares. Em 14 de janeiro de 1913 tornou-se vila e foi elavada à categoria de município em 11 de setembro de 1928, sendo intalado em 1 de janeiro de 1929. O município é formado pelos distritos sede e Sertãozinho de Baixo e pelo povoado de Sertãozinho de Cima. Veja mais aqui.

CANIBAL - Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação. O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta. Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subseqüentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que contentava-se em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas. No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel. De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício. Bárbara observou-a em silêncio. Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc. Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas. Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc. No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro. Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho. Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas. Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor. Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação. No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida:- Foram os índios. Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade. Conto extraído da obra Melhores contos (Global, 2003), do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1927-2011) , organizado por Regina Zilbermann. Veja mais aqui e aqui.

O TEMPO É UM FIO, HENRIQUETA LISBOA
O tempo é um fio
bastante frágil
Um fio fino
que à toa escapa.
O tempo é um fio.
Tecei! Tecei!
Rendas de bilro
com gentileza.
Com mais empenho
franças espessas.
Malhas e redes
com mais astúcia.
O tempo é um fio
que vale muito.
Franças espessas
carregam frutos.
Malhas e redes
apanham peixes.
O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.
Lá vai o tempo
como um farrapo
jogado à toa.
Mas ainda é tempo!
Soltai os potros
aos quatro ventos,
mandai os servos
de um pólo a outro,
vencei escarpas,
voltai com o tempo
que já se foi!…
Poema do livro Poesia Geral (Duas Cidades, 1985); da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Veja mais aqui.

Veja mais:

O pensamento de Lev Vygotsky aqui, aqui e aqui.
A literatura de Rachel de Queiroz aqui.
O pensamento de Jakob Böehme aqui.
A arte de Auguste Rodin aqui, aqui e aqui.
A literatura de Doris Lessing aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora polonesa Renata Magda.
Veja mais aqui.


domingo, maio 01, 2016

GANDHI, HESÍODO, TARSILA, MILTON & CHICO, TRABALHO & PRIMEIRO DE MAIO

PRIMEIRO DE MAIO - O melhor dia de trabalho é o primeiro de maio porque é feriado, isso quando não cai num dia de domingo, senão é mesmo que nada, ora. Afora esse dia, só os finais de semana que são denominados de repouso remunerado, ou as férias remuneradas. Tá bom. O resto é tudo dia de branco: maior trampo. Posso estar redondamente enganado, mas isso não faz a menor diferença. Isso é só pra dar um pontapé nesse papo, manifestando minha insatisfação com a usual conceituação do labor humano numa ótica convencional do processo industrial e capitalista. Fugindo do reducionismo de que o trabalho é apenas uma atividade que produz algo para outras pessoas, e de que é a atividade que dignifica ou de que Deus ajuda a quem madruga trabalhando, há também quem diga que ele serve para aquisição do domínio sobre si mesmo e adquirir sentimento de valor pessoal mediante a avaliação dos outros sobre os seus resultados, o que dá no mesmo. O que quero ressaltar é que o homem começou a trabalhar pela primeira vez quando lhe deu fome: ou caçava, ou morria. Precisando sobreviver, saiu explorando o espaço ao seu redor, a natureza. Depois de encher a pança, a sesta. Cansado de coçar o saco, investiu na desbravação do ambiente, foi aí que aprendeu a usar de madeiras e ossos, a lascar a pedra, a dominar o fogo e a cerâmica, a criar animais, a cultivar plantas, a inventar a roda e a fundir os metais na criação de armas rudimentares pra caça. Com isso, foram se sobrassaindo os mais sabidos e os mais fortes: uns sabidos passaram a governar, outros a filosofar, enquanto os que não eram lá tão bem providos das ideias, usavam da força. Apareceram, então, os dois lados da moeda: as histórias dos gloriosos trabalhos de Hércules e os inglórios de Sísifo, contadas por Homero e Hesíodo. E assim foi desde então, nascendo o primeiro ditado de que trabalha o feio pro bonito comer e que, depois, virou o da faina de mouro quem desfruta é o esperto, estes os manhosos que se prestam a dar continuidade ao trabalho das parcas: Cloto segurava a roca, Láquesis virava o fuso e Átropos em seguida cortava o fio, tudo isso porque as deusas infernais viviam de tecer a trama humana. Huuummmmm. Entendeu? No meio disso, dizem, havia também os que trabalhavam pro bispo: sem lucro, sem glória ou proveito. Eita! Tudo isso dando conta de como a evolução do trabalho foi da escravidão até os dias de hoje, nos quais quem gosta de trabalho é workaholic – ou melhor, quem é viciado em trabalho, trabalhador compulsivo e dependente do trabalho. Alguns poucos deles são multimilionários: estão a serviço de quem? Outros, uns tantos como eu, trabalham porque fazem o que gostam e só por isso. Outros muitos tantos possuem emprego: gozam das benesses da boa vida no reino da incompetência e ganham sem fazer nada, só ocupando os outros e dando trabalho à humanidade com a disfuncionalidade da burocracia, pois adoram dar nó cego e ver os outros pra lá e pra cá fazendo papel de bestas. Mais outros tantos trabalham apenas para ter o seu sustento, andar na moda e usufruir do status de estar empregado, exercendo o “estar” na profissão sem ter a menor vocação e não ter nada a ver com a mesma. Outrantos vivem pendurados nas circunstâncias: não levam desaforo pra casa, não se submetem à hierarquia e pintam o sete pro que der e vier, lícita ou ilicitamente se virando como podem pra defender as gambiarras do seu sustento e o que é seu. Muitoutrantos fazem o que podem com o que tiveram de oportunidades de qualificação ou semiqualificação ou mesmo diplomação que esconde a desqualificação, para serem digeridos pela meritocracia da colocação no cumprimento rígido de procedimentos e dos manuais internos, evitando-se o batalhão de reserva dos excluídos: outros fabos incompetentes. E por aí lá vai teibei. Pelo que posso ter de ideia, dos que possuem empregos majestosos aos que exercem suas profissões, sejam elas das mais humildes às mais chiques, ninguém está feliz com o que faz e com o quanto que ganha, excetuando-se, evidemente, aqueles que fazem o que gostam, reitero. Injustiças sempre vigoram e não é difícil encontrar um médico choramingando, ou um advogado se lamentando ou um engenheiro apertado: todos falam que trabalham demais para ter o que possuem ou para adquirir o que precisam. E que tudo tem o preço da impossibilidade de compra, exigindo-se aquela valsa de meses na aquição. O que quero mesmo levar em conta é que na vida, ou a gente está dormindo, ou trabalhando – óbvio que tem gente que faz outras tantas coisas, mas que aqui não vem ao caso. Ou seja, no dia a dia de uma penca de anos ou a vida toda, a gente está correndo atrás, se cansa e vai dormir; quando acorda, pé na bunda pra labuta, uns feito cantiga de grilo de domingo a domingo, a maioria de segunda a sexta, outros que vão até depois do meio dia de sábado, afora outro bocado de finórios que nem sabe o que é isso e que só dão o ar da graça um dia, dois ou mais por semana. Em suma: a gente vive pra trabalhar e vice-versa. Há o ditado de quem trabalha enrica - isso num país sério, até pode ser; porque aqui, só se amonta no bufunfa quem tem atributos corporais de chamar atenção, ou o sabido que sabe levar o que é dos outros, ou quem vive com dedo pronto pra rapar no gatilho e tomar o que é alheio. Pronto. Eu mesmo trabalho desde os dez anos de idade e nunca saí do lugar, pudera, nunca fiz nada que prestasse mesmo. Taí outro ditado: a ocupação laboral traz recompensas econômicas que determinam o padrão de vida e status social de cada um. Tradução: é mesmo? Parece. Mas quem trabalha de mesmo, veste a camisa na maior pilha, dá o sangue a ponto de se lascar todo, acabar com a saúde e findar da caridade alheia: inútil e chacoalhado de não valer um tostão furado. E quem comeu o vigor da gente, como é que fica? Eu hem!?! Como não estou dizendo coisa coisa, nem sou de reclamar, vou na do Hino Nacional “deitado eternamente em berço esplêndido”, entoando a Filosofia do Ascenso: Hora de comer, comer; hora de dormir, dormir; hora de vadiar, vadiar. Hora de trabalhar: pernas pro ar que ninguém é de ferro! Principalmente porque é Dia do Trabalho e, ainda por cima, é domingo, ora. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. 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 Imagem: Segunda classe (1933), da pintora brasileira Tarsila do Amaral (1897-1973). Veja mais aqui.

PRIMEIRO DE MAIO 
(Milton Nascimento & Chico Buarque)

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã.

PESQUISA
 Adam Smith (1723-1790), fudador da escola liberal clássica: O trabalho é a verdadeira e única fonte da riqueza das nações, pois os produtos, industriais ou agrícolas, são obtidos pelo esforço humano, que se torna sempre mais eficiente pela especialização. Agindo de acordo com seus interesses, o homem é conduzido, por mão invisível, ao desenvolvimento do bem comum.
David Ricardo (1772-1823), economista e político britânico: A base de todo o valor econômico é o trabalho-valor. O valor de troca de uma mercadoria é calculado pela quantidade de trabalho empregado na fabricação do produto. As máquinas têm como objetivo diminuir o valor de troca do produto. As máquinas também são trabalho humano acumulado.
Kark Marx (1818-1883), filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista: Não é o trabalho em si que interessa ao capitalista, mas a mercadoria, não por seu valor de uso, mas por seu valor de troca. Se o capital conseguir produzir, em certo período de tempo, com duas máquinas o equivalente em produtos ao que cinquenta operários conseguiriam, ele ficará com as duas máquinas. Ao capitalista interessa baixar os preços de custo do produto, para acumular mais capital. Para isso, só lhe resta uma saída: diminuir o custo do trabalho. Isso pode ser conseguido diminuindo os salários, ou, ainda, substituindo o trabalho humano pela máquina, cada vez mais aperfeiçoada. O fruto do lucro no capital é um trabalho humano não pago: se o trabalhador consegue o que precisa em seis das oito horas que trabalha, as duas horas restantes ele trabalha para manter o capital e garantir que se reproduza, o capital assim obtido é a mais-valia.
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EPÍGRAFE
Os sete pecados sociais, do advogado, idealizador e fundador do moderno Estado indiano, Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), o grande Mahatma Gandhi. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Os trabalhos e os dias (Hedra, 2013), poema épico do poeta oral grego Hesíodo (cerca de 750-650aC). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Para quem tá naquela da fábula de Esopo - de que a formiga só trabalha porque não sabe cantar -, no dia mundial do trabalhador, como toda formiga que se preze, ela comemora o Dia da Literatura Brasileira. Cuma? Eita! E quem quer saber disso? Pois é, uma data dessa só prova que a literatura do Brasil só serve pra estrangeiro ver.

Veja mais Salmo da Cana, o Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, Auguste Rodin, Chico Buarque, Peisândro de Rodes, Monteiro Lobato, Hércules, Hesíodo, Émile Zola, Vinicius de Moraes, Cândido Portinari, Jorge Luis Borges, Nelson Rodrigues, Charlie Chaplin, Magda Mraz & Darlene Glória aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
1º de Maio, Dia do Trabalhador: comemoração da secretária do Tataritaritatá!
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.



GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...