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domingo, setembro 11, 2022

MARIAN KEYES, JOANNA BAILLIE, HILDA DOOLITTLE, MICHEL BARLOW & PINTANDO XEXÉU

 

 Ao som dos álbuns Living Room Songs (2011), For Now I Am Winter (2013) e Island Songs (2016), do multi-instrumentista islandês Ólafur Arnalds.

 

TRÍPTICO DQP: - O olhar e o ignoto... - Do lado de cá, o quintal dos milagres; do lado de lá, o mundo. Entre ambos o brejo que mais se parecia um riacho de tão cheio. O pitu chega passava avexado, aos montes pelos tantos de cardumes. Deixei de lado as proezas na cacimba porque havia explorado muitas invencionices na goiabeira, ou pelas bananeiras e matagal. Queria era voar pro outro lado, poder desse tivesse. Luz na ideia e por que não, ora, encarei a fundura, escalei aos escorregões a íngreme margem oposta, fiz força e ganhei acolá. Era tudo muito vasto, como o tanto dos meus sonhos de olhos abertos. Vasculhei a redondeza e dei de cara com uma oliveira carregada de azeitona: Ô coisa mais boa de se aproveitar. Na sombra estava... Ah, era Platero de Jimenez às gargalhadas lambendo os cascos do que sobrou do jenipapo e foi logo me contando d’A raposa e as uvas de Esopo. A cada relincho outra hestória: O lobo e o cordeiro de Fedro; depois O asno de ouro de Apuleio; ô bicho tagarela esse, meu, ganhou pra mim na tomada de água de chocalho: falava pelos cotovelos que nem o homem da cobra. Confesso que morri de rir quando me disse saborear o araticum cagão. O quê? Ao buscá-lo quase pisa no cochilo do sapo Aderbal. Eita, desculpe! Sai pra lá, jumento! Olhe você me respeite senão não tem festa no céu procê! Sai pra lá, ô jegue fidumégua! Foi aí que o asno se enrolou com uma cana e, por engano, pegou foi um ingá do brejo! O cururu vingou-se: Vai ser burro assim no raio que o parta, desgraçado! As rãs assanhadas do fã clube do anuro se riram da leseira deles: Cadê a mula? E instigavam enquanto torciam pelas pazes entre a invejosa lagarta que não sabia para onde ia e peiticava com a vaidosa borboleta que não sabia como veio. O zoadeiro ficava por conta da saparia afoita açoitando a arenga: Foi! Não foi! De repente as lavadeiras fugiam saias pela cabeça às carreiras por causa duma cobra voadora que era uma criança atacada pelas abelhas de Cupira e efígie ofídica se tornara porque amaldiçoada pela mãe logo que esta foi abandonada pelo marido. Como é que é? E logo apareceu o lobisomem zonzo dizendo fugir da barata Gregor gigante que queria pegá-lo e quem não conseguia fugir subia pelos coqueiros ou era pé na bunda mata adentro. Eu não sabia o que fazer quando dei de cara com o Minotauro bufando tal qual a Esfinge do Édipo: Decifra-me ou te devoro! E agora? Paralisado diante daquele terror, apareceu do nada Marian Keyes que me deu o Fio de Ariadne: A vida não respeita circunstâncias... A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade! Desde então pelos labirintos noitedias e dias&noites, tenho muita hestória pra contar.

 


Pintando Xexéu... - Era feriado e a independência de quem no Fecamepa. O que valeu a manhã ensolarar o risonho prefeito aos braçabraços em cada um da multidão solícita, ao passo que a linda senhora vice distribuía afetos e saudações. A Ipiranga valia no tom garboso da sonoridade matutina para que a festa tomasse corpo nas cores e traços dos artistas presentes e o poeta secretário não deixasse nada passar em branco. Divisão foi logo mote glosado por Leo Luna, Ana Paula e Durán, quando este ao final encarou uma espanhola exuberante que sumiu e ele avexou-se e foi junto, ora. Alexandre Freitas foi pelo arruado, ao mesmo tempo em que Profeta seguia noutra nebulosa e Fábio Santos construía a sua igreja. Robertson pegou a canoa e foi pelas águas de não sei onde e Márcia Gomes passava pela ponte dos seus sonhos para ver o xexéu brilhar com João Brito e Alexandre Lima, enquanto Zed Melo dava as caras pra Carlos Daniel, Erick e Míssila no meio da estudantada, ouvindo atentos as narrações livreiras de Rute Costa, para tudo ser registrado pela adorável bibliotecária Sueli na foto geral de exposição na Semed. Valeu mais o abraço de Gel Love & Rogério. Por isso e muito mais, a cada dia canto & sou xexéu. (Veja fotos e evento aqui).

 


O fio de Bastet... – Imagem do designer gráfico, ilustrador, videoartista e artista multi-gênero japonês Keiichi Tanaami. – Anoiteceu e voltei ao convívio das trevas, umbrais solitude, o trâmite da solidão. Lá fora está tão irrespirável até não sei quando; aqui dentro, pelo menos, ouso viver. Não fosse Bastet aparecer-me como se fosse um eclipse solar, não teria nada o que fazer então. Insinuando-se tal qual gata de Nise, com seu olhar felino graciosamente faminto na boca sedenta para me dar o sistro com a mão direita e a efígie com cabeça de leoa coroada pelo disco solar e serpente uraues com a outra, a levar-me pelas pirâmides dos seus segredos, não sei nem o que diga de tanta errância. Mas ela disse-me com tom de Battaile: Nada é mais necessário ou mais forte em nós do que a rebelião... Acredito que a verdade tem apenas uma face: a de uma contradição violenta... Eu sabia que a filha de Rá temia ter que passar de novo por Gata Borralheira. Ora, nem podia, afinal era uma deusa votiva e poderia, com um simples estalar de dedos, mudar o que quisesse e se não o fez é porque não quis. De repente sussurrou misteriosa Joanna Baillie: O tirano agora não confia em homens: todas as noites em seu quarto o cão de guarda guarda seu leito, o único amigo em quem agora ousa confiar. Virou-se e me tratou como Anúbis no meio da madrugada, trazendo-me o mais perto possível a sofreguidão do seu hálito. Foi aí que ela desteceu os enredos do meu canto aniquilado de ave migratória na angústia de desgarrado por triunfar no pó e no vento, para me dizer de Goethe: para ser poeta é preciso entregar-se ao demônio. Ou foi Byron quem disse isso e mais britanicamente: O diabo foi o primeiro democrata... Na solidão é quando estamos menos sós. Nada escrevi que prestasse até que comecei a amar. Meu epitáfio será meu nome, nada mais... Quem disse, o que foi ou não, o que se acusa e se envergonha, pouco importa. Aconchegada a mim se fez Hilda Doolittle: Nenhuma fantasia poética / Mas uma realidade biológica, um fato: eu sou uma entidade como pássaro, inseto, planta ou célula vegetal do mar; / Eu vivo; / Eu estou viva... E em mim a festa dela detonou meus logogrifos e logomaquias, a perdoar as minhas derrotas e o que viveu em mim e o que nunca vi, nem mais nem menos. Já não era insignificante no auge do meu cansaço e nenhum entusiasmo, ela me dava de presente o outro lado do brejo no quintal da infância. Até mais ver.

 


[...] a escola não é menos povoada de mitos e de ritos [...] Mas podemos observar, desde já, que a ação educativa, menos do que qualquer outra, não poderia escapar ao império do sonho e do imaginário. Por definição, poderíamos dizer: artífice do futuro para os jovens que lhe são confiados, a educação teria como única tarefa despertar o desejo, dar corpo ao sonho? Em face do adulto responsável por ela, a criança – ou o adolescente – é esperança frágil e expectativa, para si mesma e para seus próximos, e a ação educativa não teria outra meta a não ser ajudar a realizar essas promessas... Essas ou outras, aliás! [...] De fato, em última instância, a própria criança é o ator de sua educação: ninguém pode crescer, evoluir, aprender em seu lugar! O educador é apenas um catalisador. [...].

Trechos extraídos da obra Avaliação escolar: mitos e realidades (Artmed, 2006), do filósofo e educador francês  Michel Barlow. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, abril 30, 2018

ELIOT, PLOTINO, RIBON, APULEIO, MARISA MERZ, GÁBOR SZABÓ & KATE BUSH

TEM CADA UMA NA VIDA! - Imagem: Arte da escultora e artista visual italiana Marisa Merz. - Boko-Moko não existe e anda vivinho da silva por aí com suas costeletas espessas, bigode e topete ajeitados diariamente, golas altas de Elvis Presley na camisa acochada de purpurina e aberta da caixa dos peitos até o umbigo, cinturão grosso com super-fivela de um touro bravo, calça colada nas coxas e do joelho pra baixo mais parece uma saia com a sua boca de sino, cavalo-de-aço com a barulhada de metais no salto e solado, gíria dos oraitis e brasa mora, um espalhafato! Apelido é o que não lhe falta de tanto amostramento, e ele nem nem, e assina em tudo apenas Boko-Moko, gosta disso. É assim desde os anos 1970. Décadas se passaram e de lá não saiu, até hoje. Por onde chega, um escândalo! Sempre com aquela do papo firme, amontado no Karmanguia – não sei como um trocinho daquele cabe um homenzarrão desse tamanho dentro, parece mais de brinquedo, mas não é. Não sei quantas vezes ele fora barrado em instituições públicas, ou convidado a sair de solenidades, e ele, nem aí. Ao sair mascando chicletes, sempre dizia: Também não queria ir aí, bicho! Abre um sorriso sempre mudando do tinindo pro paz e amor nos dedos. Que coisa, né? Nada, tem muita gente indignada com seu modo de ser; para mim, nada demais. Conheço gente que fez o contrário: nasceu uns anos desses aí e vive na Idade da Pedra, ou sonhando prepotente mandão do Golpe de 1964, ou mesmo alter ego de Hitler, e por aí vai, coisa que nem viram nem viveram, só de ouvir falar, ou de leituras superficiais, achando bonito até a idolatria e mandando ver na predileção. Ué, o que conheço de gente que ficou com a cabeça e a vida na década de 1980, não está no gibi, quanto saudosismo, até me lembrando daquela do Belchior: ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais. Coisa de disco arranhado. De fato, conheço pouca gente que tenha acompanhado na cabeça a mudança dos tempos. Mesmo com o recado de Pound, tem quem viva mesmo até séculos passados. Eu vejo disso todo dia, novidades de museus nas calçadas, nas praças, no dia a dia, mortos ressuscitados que zanzam pelos semáforos, dão pitacos na vida dos outros, se metem nas gestões públicas, arrotam vida e fazem de tudo impondo suas razões e ranços. Todo dia um novo dia e a mesma coisa entre nós. Eu mesmo nasci num dia lá de 1960, parece, e nem sei direito em que ano estou, ah sei lá, às vezes me assusto com os antiquários ambulantes e me rio, apenas. Tô dentro e não é nada engraçado, passo e vejo, não é nada agradável, mas, pelo sim, pelo não, dá pra se divertir ainda. Pois é. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do guitarrista húngaro Gábor Szabó (1936-1982): Dreams, Bacanal & Budapest; da cantora e compositora performática inglesa Kate Bush: Hammersmith Odeon, The Tour of Life & Hounds of Love; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a natureza que produz tantos belos objetos deve possuir ela mesma uma beleza muito superior. Mas, como não temos o hábito de ver o interior das coisas que não conhecemos, restringimo-nos ao seu exterior, ignorando que é dentro delas que se esconde o que nos comove [...]. Pensamento extraído da obra Enéadas (Polar, 2000), do filósofo grego Plotino (204-270), reunindo tratados que versam sobre ser vivo, a virtude, dialética, a verdadeira felicidade, a beleza, a natureza, a matéria, a potencialidade e a atualidade, a qualidade e a substância, o destino, a providência, o amor, a impassividade do incorpóreo, a natureza, a essência da alma, as três hipóstases primárias, a beleza inteligível, o tipos de ser, entre outros. Veja mais aqui.

A ARTE & A NATUREZA - [...] O poeta é bem mais que um artesão cuja tarefa rompe a relação de intimidade do homem com a natureza; o poeta é inspirado pela natureza, que dele se serve para se dizer através das figuras da arte. A exigência que o artista sente como uma missão – pois ele muitas vezes está pronto a tudo sacrificar-lhe – é a de uma tarefa que o supera, possuindo-o; a natureza que o convida espera dele e de sua singularidade que manifestem o devir do sentido, ou seja, o ser no seu aparecer. Como se a natureza tivesse estado impaciente por dizer-se numa consciência, a arte, qual uma luz transfigurando o espaço tenebroso das cavernas, pareceu na autora da humanidade desde que o homem superou sua animalidade. Cooperando com o ser, a arte, permitindo ao homem voltar às paragens originárias da qual se faz eco, é também uma participação no ser. Assim a natureza quer a arte: o homem artista é um momento privilegiado do ser, o momento em que o sentido se concentra. [...]. Trecho extraído da obra A arte da natureza (Papirus, 1991), do filósofo e crítico de arte francês Michel Ribon.

A FÁBULA DE AMOR E PSIQUE – I - Era uma vez um rei e uma rainha que possuíam três filhas muito belas. Com relação às duas mais velhas, conquanto extremamente graciosas, ainda seria possível louvá-las com palavras humanas; mas ninguém conseguiria descrever a esplêndida beleza da mais moça, e não existiam palavras com as quais fosse possível celebrá-la dignamente. De fato, tanto os moradores do lugar, como os forasteiros que, atraídos pela fama daquela maravilha, acorriam continuamente à cidade, ficavam boquiabertos diante dos encantos de tão formosa donzela e, colocando a mão direita diante dos lábios dos lábios enquanto aproximavam o indicador do polegar direito, veneravam-na como se costuma fazer nos templos, quase como se fosse a própria Vênus em pessoa. E já se espalhara pelas cidades vizinhas a notícia de que a deusa, gerada no cerúleo abismo do mar, e alimentada pelo orvalho das vagas espumejantes, havia descido à terra e vagava pelo meio do povo, ou que provavelmente um novo germe de gotas celestes, não mais nos mares e, sim, na terra, dera nascimento a uma nova Vênus, adornada pelas flores da virgindade. Assim a fama daquele prodígio cada vez mais avultava, espalhava-se e difundia-se também pelas ilhas vizinhas, assim como por muitas regiões da terra. Um sem-número de mortais acorria para admirar a nova maravilha do século, para isso se sujeitando a longas viagens e atravessando mares profundos. Ninguém mais navegava para Pato, ou para Cnido, e nem mesmo para a própria Citera, a fim de chegar à presença de Vênus. Os sacrifícios eram adiados, os templos perdiam o seu esplendor, todos passavam, indiferentes, pela frente desses templos, e negligenciavam-lhes as cerimônias; sem coroa quedavam as imagens, sem adornos nos altares, e sujos de cinza fria. Era à donzela que dirigiam suas preces e no seu rosto humano celebravam a majestade da augusta deusa. O nome de Vênus ausente era glorificado com vítimas e banquetes na presença da virgem, durante seus passeios matinais, e quando ela passava pelas praças do povo a homenageava, tecendo coroas e atirando flores à sua passagem. Porém, aquele culto a uma jovem mortal, à qual irreverentemente outorgavam honras celestes, acordou um violento despeito na verdadeira Vênus que, indignada, sacudindo a cabeça, fremente de cólera, assim falou: - Eu, antiga geradora das coisas da natureza, origem primeira dos elementos, alma Vênus de toda a orbe, vejo-me reduzida a dividir as honras dos altares com uma jovem mortal, e o meu nome, venerado no céu, está sendo profanado com vulgaridades terrenas. E também terei de suportar, com humilhação para a minha divindade, que o meu culto seja substituído por um ritual equivoco, e que uma jovem mortal passeie a minha imagem. Debalde aquele pastor, cuja fé e cujo bom sendo foram elogiados pelo sumo Júpiter, debalde celebrou ele a minha beleza perante os maiores deuses. Mas essa mortal, seja quem for, não desfrutará durante muito tempo honras que me são devidas; porque farei com que a sua ilícita beleza lhe seja motivo de consternação. Sem perda de tempo, Vênus chama o seu alado e um tanto quanto temerário filho, aquele que, desrespeitando com seu mau comportamento a pública disciplina, armado de tochas e setas, se introduz nas casas à noite, aqui e ali, corrompendo as esposas alheias, que comete impunemente inúmeras ações vergonhosas e, em suma, nada faz de louvável. Leva o deus, já insolente e desenfreado por natureza, àquela cidade, mostra-lhe Psiquê, como se chamava a jovem, relata-lhe tintim por tintim tudo quanto se relacionava com a beldade rival e, gemendo, palpitante de indignação, assim lhe fala: - Suplico-te pelos laços do afeto materno, pelas suaves feridas das tuas flechas, pelas doces queimaduras deste teu facho, que vingues satisfatoriamente a tua mãe, que castigues tão insolente criatura, que executes esta única tarefa: faze com que a virgem se consuma de amor ardentíssimo pelo homem condenado pelo destino a ser o mais abjeto de todos em relação à honra, ao patrimônio, à liberdade, enfim tão abjeto que no mundo inteiro não seja possível encontrar outro que lhe chegue aos pés em infâmia. Depois de assim falar, beijou longa e ardentemente o filho, estreitou-o contra peito, dirigiu-se às vizinhas praias do mar em refluxo e, caminhando sobre a espumejante superfície das ondas palpitantes, mergulhou no fundo enxuto do mar. Tal como desejava, exatamente como se o tivesse ordenado, não tardaram os favores do mar: vieram-lhe ao encontro as filhas de Nereu, cantando em coro, e o áspero Portuno, de barbas cerúleas, e Salácia, com o seio carregado de peixes; e o pequeno Palemon, que guiava um delfim; e o bando de Tritões, saltitando pelo mar inteiro: um deles faz ressoar suavemente uma concha sonora, outro abriga a deusa, sob uma colcha de das, dos raios molestos do sol, um terceiro coloca-lhe um espelho diante dos olhos, outros chegam em coches puxados por dois cavalos. Era esse o exército que escoltava Vênus na sua viagem pelo Oceano. [...]. Trecho extraído da obra Eros & Psique (FTD, 2009), do escritor e filósofo romano Lúcio Apuleio(125-170). Veja mais aqui.

DOIS POEMASPELA MANHÃO À JANELA – Estão remexendo os pratos do café da manhã / na cozinha dos andares térreos / ao longo das atropelas esquinas da rua. / Estou consciente das nevoentas almas das criadas de casa / rebentando desesperançadas nas áreas do portão. / As cinzentas ondas do nevoeiro para mim viram / faces retorcidas desde o fundo da rua / e rasgam de uma transeunte de saia enlameada / um sorriso sem alvo que esvoaça no ar / e desaparece além no nível dos telhados. O BOSTON EVENING TRANSCRIPT – Os leitores do Boston Evening Transcript / dançam ao vento como um campo de trigo. / Quando a tarde desmaia nas ruas, / acordando em alguns o apetite da vida / e trazendo a outros Boston Evening Transcrip, / subo as escadas e toco a campainha, volvendo-me / cansando, como alguém que se volvesse para / dizer adeus a Rochefoucauld, / se as ruas fossem o tempo / e ele estivesse no fim da rua, / e digo: Tia Harriet, aqui está o Boston Evening Transcript. Poemas do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora e artista visual italiana Marisa Merz.
Veja mais aqui.


VII Congresso Internacional Matéria-Prima: práticas das Artes Visuais no ensino básico e secundário & muito mais na Agenda aqui.
&
Altas horas da madrugada, a poesia Carlos Drummond Andrade, a arte de Edgar Degas & a música de Sueli Costa aqui.


quinta-feira, julho 31, 2014

JANE HAWKING, GEORG TRAKL, SUSAN NEIMAN & GLÓRIA STEINEM


 

A SOLIDÃO DE TRAKL - A infância de um semi-nascido em Salburgo e os primeiros problemas emocionais: encarou as estranhices comportamentais da mãe e a morte prematura do pai, ambos protestantes. Arrimo de família muito jovem e a adolescência sustentada pela misantropia de poemas, com doses de ópio, clorofórmio, veronal e cocaína, entre animais azuis e o sono branco, um tempo remoto de terror e desalento. Os arroubos incestuosos com a irmã, o seu grande amor. Suas cartas destruídas, entre poemas refeitos e remontados a todo instante. A profunda angústia dos versos de Transfiguração. Outros como De Profundis, Crepúsculo de Inverno, Calma e Silêncio, Maranas gatona, Nascimento, Aos Emudecidos, e muitos que sobreviveram entre declínios e ocasos, desintegração e ruinas, decomposição e morte. Tornou-se farmacêutico profissional e atuou durante a guerra. Não havia remédios, nada poderia fazer, só o nexo entre a loucura de Hölderlin e o desespero de Celan. Presenciou o enforcamento de desertores e um suicídio. E diante do tanto de mortos e feridos, cambaleou com seu espírito já debilitado, nos versos de Grodek: À tarde soam as florestas outonais/ De armas mortíferas, as planícies douradas. / E lagos azuis, por cima do sol/ Mais sombrio rola; a noite envolve/ Guerreiros em agonia, o lamento selvagem/ De suas bocas dilaceradas./… Todos os caminhos desembocam em negra putrefação... Sua vida amargurada entre as drogas e poesia, a solidão e a doença do mundo, nos versos de Lamento: Sono e morte, as tenebrosas águias/ Rodeiam noite adentro essa cabeça:/ A imagem dourada do Homem/ Engolida pela onda fria/ Da eternidade... Em medonhos recifes./ despedaça-se o corpo purpúreo/ E a voz escura lamenta/ Sobre o mar./ Irmã de tempestuosa melancolia/ Vê, um barco aflito afunda/ Sob estrelas,/ Sob o rosto calado na noite... A imagem dourada e o corpo purpúreo, tudo despedaçado. Uma dose violenta overdose de cocaína aos vinte e sete anos no ocidente poente, tombando em definitivo durante sua internação na Cracóvia. Veja mais abaixo e muito mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Tudo o que você precisa para obter clareza, você deve começar com os olhos abertos. A maior tarefa da filosofia é ampliar nosso senso de possibilidade. O tribalismo sempre tornará o seu mundo menor; o universalismo é a única maneira de expandi-lo. Crescer significa perceber que nenhum momento da vida é o melhor e decidir saborear cada segundo de alegria ao seu alcance. Você sabe que cada um passará e não considerar mais isso uma traição. Pensamento da filósofa estadunidense Susan Neiman. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Quando vozes únicas se unem por uma causa comum, elas fazem história. A empatia é a mais radical das emoções humanas. O primeiro problema para todos nós, homens e mulheres, não é aprender, mas desaprender. O futuro depende inteiramente do que cada um de nós faz todos os dias; um movimento é apenas pessoas se movendo. Pensamento escritora, jornalista e ativista estadunidense Glória Steinem. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

VIAJANDO PARA O INFINITO – [...] Claramente aqui estava alguém, como eu, que tendia a tropeçar na vida e conseguia ver o lado engraçado das situações. Alguém que, como eu, era bastante tímido, mas não avesso a expressar as suas opiniões; alguém que, ao contrário de mim, tinha um senso desenvolvido de seu próprio valor e teve a ousadia de transmiti-lo. [...] Viver cada dia conforme ele acontecia, em vez de projetar alguma miragem fantasiosa num futuro distante, estava se tornando um modo de vida. [...] Digo a você o que sempre digo quando as coisas não podem ser alteradas: conte suas bênçãos. [...] Durante esses longos períodos de contemplação solitária num cenário de beleza tão dramaticamente assustadora, fui dominado por ondas de solidão. [...] Depois daquele dia decidi que nunca mais dependeria de outras pessoas. No entanto, colocar essa resolução em prática foi mais fácil de falar do que fazer. [...] No meu estado de espírito simples e pós-natal, estava convencido de que se o mundo fosse governado pelas mães de bebés recém-nascidos, em vez de velhos endurecidos que incitam jovens impetuosos à violência, as guerras cessariam da noite para o dia. [...] Viva no presente, disse ele, e confie em Deus através da escuridão, da dor e do medo. Então, como ele citou a passagem bíblica de Coríntios "Deus não permitirá que você seja provado mais do que você pode [...]. Trechos extraídos da obra Travelling to Infinity: My Life with Stephen (Alma Books, 2013), da educadora e escritora britânica Jane Hawking.

 

QUATRO POEMAS - MEU CORAÇÃO AO CREPÚSCULO - No crepúsculo ouve-se o grito dos morcegos. \ Dois cavalos saltam no gramado. \ O ácer vermelho sussurra.\ Ao andarilho surge no caminho a pequena taberna.\ Maravilhoso o sabor de vinho novo e nozes.\ Maravilhoso: cambalear bêbado na floresta crepuscular.\ Pelos galhos negros ressoam sinos aflitos.\ No rosto pinga orvalho. DE PROFUNDIS - Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.\ Há uma árvore marrom, ali solitária.\ Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.\ Como é triste o entardecer\ Passando pela aldeia\ A terra órfã recolhe ainda raras espigas.\ Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,\ E seu colo espera o noivo divino.\ Na volta\ Os pastores acharam o doce corpo\ Apodrecido no espinheiro.\ Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.\ O silêncio de Deus\ Bebi na fonte do bosque.\ Na minha testa pisa metal frio\ Aranhas procuram meu coração.\ Há uma luz, que se apaga na minha boca.\ À noite encontrei-me num pântano,\ Pleno de lixo e pó das estrelas.\ Na avelãzeira\ Soaram de novo anjos cristalinos. SALMO - Há uma luz que o vento apagou. \ Há uma taberna, de onde à tarde sai um bêbado.\ Há um vinhedo, queimado e negro com buracos cheias de aranhas.\ Há um aposento que caiaram com leite.\ O louco morreu. Há uma ilha do mar do sul\ Para receber o Deus Sol. Rufam os tambores.\ Os homens executam danças guerreiras.\ As mulheres balançam os quadris em trepadeiras e flores de fogo\ Quando canta o mar. Oh, nosso paraíso perdido.\ As ninfas abandonaram as florestas douradas.\ Enterra-se o desconhecido. Então cai uma chuva cintilante.\ O filho de Pã surge na figura de um trabalhador rural\ Que dorme ao meio-dia no asfalto em brasa.\ Há mocinhas num pátio com roupinhas pobres que dilaceram o coração!\ Há quartos repletos de acordes e sonatas.\ Há sombras que se abraçam diante de um espelho embaçado.\ Nas janelas do hospital aquecem-se convalescentes.\ Um vapor branco no canal traz sangrentas epidemias.\ A irmã desconhecida ressurge nos sonhos ruins de alguém.\ Descansando na avelãzeira, brinca com as estrelas dele.\ O estudante, talvez um sósia, contempla-a longamente da janela.\ Atrás dele está o seu irmão morto, ou desce a velha escada em espiral.\ Na escuridão dos castanheiros empalidece a figura do jovem noviço.\ O jardim cai a noite. No claustro esvoaçam os morcegos.\ Os filhos do guardião param de brincar e procuram o ouro do céu.\ Acordes finais de um quarteto. A pequena cega atravessa a aléia tremendo,\ E mais tarde sua sombra tateia frios muros, envolta em contos de fadas e lendas sagradas.\ Há um barco vazio, que à noite desce o negro canal.\ Na sombriedade do velho asilo desmoronam-se ruínas humanas.\Os órfãos mortos jazem no muro do jardim.\ De quartos cinzentos saem anjos com asas sujas de excrementos.\ Vermes gotejam de suas pálpebras amareladas.\ A praça da igreja está escura e silenciosa, como nos dias da infância.\ Sobre solas prateadas deslizam vidas passadas,\ E as sombras dos condenados descem às águas soluçantes.\ No seu túmulo o mágico branco brinca com suas serpentes.\ Silenciosos sobre o Calvário, abrem-se os olhos dourados de Deus. HUMANIDADE - Humanidade posta ante abismos de chama,\Um rufo de tambores, frontes de guerreiros tenebrosos,\ Passos pela névoa de sangue; negro ferro exclama;\ Desespero, noite em cérebros pesarosos:\ Aqui a sombra de Eva, caça e rubra dinheirama.\ Nuvens que a luz atravessa, vespertina refeição.\ Em pão e vinho deve um doce silêncio residir.\ E aqueles lá reunidos, doze são.\ À noite sob ramos de oliveira gritam ao dormir;\ São Tomé mergulha na ferida a mão. Poemas do poeta expressionista austríaco Georg Trakl (1887-1914). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


Sou aquela que é a mãe natureza de todas as coisas, senhora e regente de todos os elementos, progenitora inicial dos mundos, chefe dos poderes divinos e rainha de todos que estão no inferno, soberana daqueles que habitam o céu, manifesta através de uma só e única forma em todos os deuses e deusas. Os planetas do céu, os ventos salutares que sopram do mar e o os silêncios lamurientos do inferno estão dispostos segundo minha vontade. Meu nome, minha divindade, é adorada em todas as partes do mundo, de diversas maneiras, com costumes variados e segundo várias denominações”.
(Discurso da deusa, Apuleio, O asno de ouro).

RETORNO DA DEUSA – O livro O retorno da deusa, de Edward Christopher  Whitmont (1912-1998), aborda temas como o dilema moderno, a consciência em evolução, os mitos patriarcais, um mito para nossa época, visão para uma nova era, desejo, violência, agressão, mito, Dioniso e Apolo, a morte de Deus, o bode expiatório, o feminino e a repressão, ética, individuação e destino, entre outros assuntos.

Oh Mãe, enlouquece-me com teu amor!
Que necessidade tenho eu de conhecimento ou razão?
Embriaga-me com o Vinho do Teu Amor,
Oh, tu que roubas o coração de Teus bhaktas
Afoga-me no fundo do mar de Teu amor!
(Deusa Mãe, canção entoada por devotos hindus - bhakta)

UMA TEOFANIA MODERNA – CAPÍTULO 1 – “Uma mulher dona de casa tiranizada... carente de lugar e propósito, repleta de fel... era como ela se descrevia. Estava à beira de um sério colapso. Há cerca de um ano, começara a ouvir uma voz que lhe ordenava pegar uma faca e com ela esfaquear e esquartejar seu único filho, um menino de cinco anos. Ela resistia, mas estava aterrorizada. A voz insistia, incessante. E continuou chamando, até ela sentir que estava usando toda a sua força e seu poder pessoal para resistir. Não ousava olhar para objetos pontiagudos nem se aproximar do filho, com receio de que sua resistência esmorecesse e ela o atacasse fisicamente. Assustada, desesperada, procurou socorro psiquiátrico. Seu primeiro terapeuta investigou com ela os principais acontecimentos de sua infância e casamento. Ela havia crescido numa pequena cidade; sua família era de classe media e conservadora. Havia pouco afeto genuíno, e só uma porção ainda mais reduzida dele podia ser abertamente manifestada. No lugar do amor havia a pressão para ser alegre e bem-sucedida, para se conformar, para fazer o melhor possível (segundo os ditames petrificados de sua mãe, da Igreja e da escola). As crianças aprenderam a ocultar seus sentimentos. Manifestações de necessidades individuais e sexuais eram tabu. Seus pais a tinham forçado a romper um apaixonado romance infantil, porque ali não havia futuro. A seguir, ela desposara um professor de ginásio, inteligente e instruído, que considerava entediante e ineficaz. Seu primeiro terapeuta diagnosticara com exatidão uma enorme quantidade raiva reprimida, primeiro contra a mãe dominadora que a havia frustrado em seu desenvolvimento emocional e sexual, e depois contra as circunstancias da vida, em particular seu casamento, que sustentava seu cativeiro e, assim lhe parecia, anulava quaisquer esperanças de encontrar em si mesma um autentico ser humano. Também tinha raiva dos homens de sua vida, do pai ausente e do marido fraco (pelo menos a seu ver). Também era claro que a atmosfera e os valores restritivos de sua infância tinham produzido uma espécie de paralisia psicológica. A religião e a moralidade tradicionais não tinham conseguido conferir-lhe um senso eficiente de individualidade nem dar um significado à sua vida, e a ameaça iminente de destruição proveniente de uma violência perigosamente contida tornara-se completamente real. Sendo uma mulher inteligente, compreendia as razões de seus padecimentos e apreendia o ódio e o ressentimento assim engendrados, mas compreender a crise e os motivos de sua existência de nada adiantavam. A voz continuava dizendo-lhe que matasse seu filho [...]”

O céu é meu, a terra é minha / Eu sou guerreira eu sou / Há algum deus que possa medir-se comigo? / Os deuses são pardais, eu sou falcão / Os deuses fazem rodízio / Eu sou uma esplêndida vaca selvagem”.
(Canção de Inanna).

O espírito da fonte nunca morre.
É o mistério feminino,
E à porta da fêmea escura
Encontra-se a raiz do céu e da terra.
É frágil, frágil, mal existe;
Mas toca-a; nunca se esgota.
(Lao Tse, Tao Te Ching)

REFERÊNCIA
WHITMONT, Edward. O retorno da desua. São Paulo: Summus, 1991. Veja mais Trajetória da Mulher.


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