quinta-feira, outubro 24, 2019

ELFRIEDE JELINEK, ALEXANDRA DAVID-NÉEL, FERNANDO ROSA & MAMULENGOS DE HERALDO LINS


SE NÃO FOR DE PERNAS PRO AR, ESTÁ DE CABEÇA PARA BAIXO OU TANTO FAZ – UMA: COMO NASCEU O FABO? – Assim: era uma vez uma tribo, a dos Teaca – que significava “mato verde do calango bom”. Isso para lá de mil e não sei quanto, nem sei onde direito. Vivia por aí entre mata e rio, à beira de morros e litoral. Um dia lá, avistou-se um troço que vinha lá longe, entre o céu e o mar. Que droga é nove? Vem boiando no parati. Aboticou: não era só um, mas dois; não, três, na verdade. Aquilo vinha, chegou e desceu um barbudo, catingoso, cara pálida: o peró. Deu com o nativo: Ei! O aborígene caiu morto só com o bafo. Ao segundo bugre que apareceu, deu-lhe a mão: o autóctone sucumbiu sem vida ao mínimo contato. O terceiro selvagem, ah, uma índia nua, fogosa e aos risinhos. Lindeza, pá! Ajeitou-se, tangeu, bandeou e regalou-se; e ela aguentou submissa a catinga e o fungado no cangote. Ui, que negocinho bom! Emprenhou-la enquanto preava. Nasceu o primeiro Fabo: o mameluco. O curumim crescia entre ouitê e cunhatãs, ê – ê, e o estranho aos desmandos no cangote da indiada esmarrida e dizimada. Tempo passava, o giracá da infância tornou-se um jovem uidadera que encarou o invasor caraiué: Ovuei! O peró nem aí, fazia que não era com ele. Pai! Ô pai! Ah, bastardo, você não é porque meus filhos estão na metrópole! E deu-lhe as costas. E ele insistiu: Pai, o que faço? Curiboca, desgraçado, mate o índio! E com fúria, o Fabo dizimou a todos. Serviço feito, encarou: Pai, matei o índio! Não sou seu pai, já disse, e vá se foder para lá. Mas pai! Rejeitado, procurou parentes e sobreviventes: todos mortos do seu sangue. Vagou sozinho mata adentro, até encontrar outro mestiço, depois outro e uma outra, com ela e outros construíram a civilização alagoinhandubense. DUAS: E AS FABAS? O PAPO DELAS UM SÉCULO DEPOIS – Mulher, eu não te conto! O que foi? Lembra daquela fulana assim assado cruz credo lalari larará, que a gente viu na grota naquele dia da festa? Ah, sim, lembro. Num te conto! Conta logo, vai! Ela viu passarinho verde! Meeeesmo! Verdíssimo! E quem é o varapau bengaludo? Ah, praquela tem que ser disso pra lá! É sim, mas quem é o tal? Não vi, não sei, só me disseram. E deu certo? Ah, me contaram que ela está pra cima e pra baixo com epifá e simpatias para segurar o macho! Ih! Também um trubufu daqueles, quer o quê? Seja quem for, certo ou não, desencalhou. Que coisa, né? Sortuda, a bicha. É. Eu, hem? TRÊS: A FARRA DOS FABOS – O DISPARATE DA MUNDIÇADA: Todos nós somos Fabos, táoquei, porra! E não tem essa só de Papo de Fabo! A gente é quem faz e manda, caga raio e deixa como está e bem quiser, coisominion e chega de blábláblá! Não tem rem-rem-rem, rá-rá-rá nem como é que é! Esse bregueço de filho de Caim é a mãe, porra! Afinal, água ruim, peixe pior! A canalhada dos contra é que vão se ver, com a gente é naquela do que é meu é meu, o que é teu é teu, Deus por cima e o resto por fora! E que se dane! O que é, é; o que não é, nunca será. E com a gente é: Tudo certo, Fabo! E viva o Fecamepa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A paixão pelas viagens, o tipo de obrigação religiosa que elas constituem para mim me levariam a aproveitar a menor oportunidade de aventura exótica. [...] Quantas viagens fiz através de mundos diferentes! E apesar disso, como sou parisiense, pensei sorrindo... Um sorriso consternado, mais triste do que um soluço... [...] Será que existe algo mais fascinante do que duas vias férreas que se estendem até o horizonte! que uma estrada que vai, que vai... [...] São meus sonhos de menininha selvagem que vivo hoje... todas as belas imagens dos livros de Jules Verne. [...]. Trechos extraídos da obra A lâmpada da sabedoria (Rocher, 2006), da escritora e exploradora francesa Alexandra David-Néel (1868-1969). Veja mais aqui.

O MAMULENGO DE HERALDO LINS
Eu queria muito trabalhar com teatro. Tentei fazer teatro de palco com gente, mas é complicado demais. As pessoas nem sempre tem o compromisso, a responsabilidade com o teatro e com a plateia. Me frustrei com o teatro de palco por isso. Desfiz a sociedade com o meu amigo porque ele chegava bêbado para trabalhar, esquecia o texto, sua voz ficava prejudicada por causa da bebida. Isso comprometia a qualidade do show e eu queria fazer um teatro de mamulengos profissional, queria sair do amadorismo. Quando eu comecei a trabalhar com os bonecos percebi que eles me obedeciam, eu tinha o controle da situação. Eu podia ser o diretor de um teatro cujos atores são bonecos que eu posso manipular. A qualidade do espetáculo depende de mim, o compromisso com a plateia, o cumprimento de horários e contratos também são de minha responsabilidade. Trabalhando sozinho na apresentação fiquei livre do estresse de ter que contar com o outro, que nem sempre corresponde ao que eu espero dele, entende? [...] Quando comecei com o teatro de bonecos, o show tinha uma duração de uma hora e vinte minutos. [...] Dois anos depois, já com o afastamento do teatro, refiz os bonecos e até hoje permaneço fazendo shows. [...].
MAMULENGO DE HERALDO LINS – Trechos extraídos da obra Show de Mamulengos de Heraldo Lins: construções e transformações de um espetáculo na cultura popular (EdUFRN, 2014), da professora e antropóloga Zildalte Ramos de Macêdo, sobre a arte do mamulengueiro Heraldo Lins. Veja mais aqui.

A ARTE DE FERNANDO ROSA
A arte do artista visual e fotógrafo Fernando Rosa. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
As regras da arte não existem, porque o que faz da arte arte é o fato de ela não obedecer a nenhuma regra.
A obra da novelista e autora de peças teatrais austríaca e Prêmio Nobel de Literatura de 2004, Elfriede Jelinek. 
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quarta-feira, outubro 23, 2019

ENEIDA DE MORAES, LYGIA CLARK, MATA HARI & GORJALA


A DANÇA DE SETE VÉUS DOS OLHOS DO SOL - Ela dançava desde menina como a filha mais velha do chapeleiro e seus três irmãos, num bailado infantil herdado da mãe no jeito exótico, como se descendente de uma antiga tribo asiática que emigrou para as terras escocesas ou irlandesas. Era ela Margaretha olhos do dia nos dissabores familiares, a separação dos pais, a morte da mãe, dores e fantasias. Era ela Gertruida olhos de Sol a chamar atenção de transeuntes com seus cabelos negros de beldade mediterrânea e adolescente, passeando na escola para professoras até ser expulsa libertina para morar com seu tio. Era ela Zelle e os seus grandes olhos de exuberante cigana diante de um anúncio a seguir para Java e um golpe deteriorando tudo, o marido alcoolizado, os filhos envenenados em Medan. Era ela Lady McLeod, modelo inconstante e imprevisível difamada em Paris pelas danças balinesas, abandonada pelo cônjuge na perda da filha e a fama cortesã à beira do fracasso. Era ela fatal Vênus oriental profanando coreografia sagrada, uma princesa javanesa esbelta, degradada e cheia de perfumes e joias, com seus braços labirínticos por voos malaios e véus translúcidos, entre a mentira e a imaginação: a dança erótica e exótica dos romances secretos, e o sari caindo para deleite ofuscante do seu charme físico e o milagre acontecia do seu belo corpo, um convite da silhueta voluptuosa do apetite sexual pelos mil feitiços dos seus encantos, as mil remexidas dos seus quadris inquietos. E ela mergulhou na vida como quem ama pela última vez, com seus marcantes dotes físicos por aventuras nas selvas misteriosas, poses teatrais insinuantes para delírio e êxtase hipnótico das plateias. Era ela sacerdotisa ninfomaníaca e nua, sacra dançarina dos brâmanes – a dança é a poesia e cada gesto uma palavra de liberdade diante do altar de Vishnu. E uma mão segurava uma flor impulsiva com o passaporte recusado pelos ingleses, a desmoronar com a guerra; na outra, um capacete prussiano cheio de bombons para dissuadir os inexoráveis algozes. Era eu soldado vendado para não sucumbir à nudez Salomé de sua túnica aberta na penitenciária de Saint-Lazare. Sabia que era fêmea ostensiva de incomum sensualidade, a se contorcer levitando com seus passos felinos e a se arremessar esguia, solta e provocante para a caçada do seu jeito faminto e maleável com as mil delicias de sua carne. Era ela uma impostora ardilosa que espionava com seus toques sutis o meu sexo febril e me alisava como quem, ao tato de tapete mágico, apalpava conferente com suas provocantes carícias inflamáveis, toda minha virilidade enrijecida para incêndio do prazer devastador. Ela se esbaldava nos meus músculos e se conformava inquieta sobre o meu corpo usurpador, a me infernizar liquefeita com suas obsessões de pernas entreabertas, a se aninhar submissa ofegante, com seu corpo ardente seminu de angelical pecadora, gemendo de manha e pronta para ser maculada e a perder o controle excêntrico no repetido enlace da paixão carnal. Era ela que me beijava a depor entre os mil beijos de sua boca faminta, lambia e delatava com as mil rajadas de sua língua felatriz inquieta e intrusa no meu ferro em brasa para sua flagelação sorridente. Era ela mãos agitadas na fricção da tempestade para que arruinados em polvorosa, eu pudesse massacrar a maciez de sua pele imantada pelas mil curvas do seu corpo incendiário. E eu me perdia pelos mil voos dos seus braços labirínticos, pelos mil passos de suas pernas em festa, pelas mil conquistas do seu ventre vulcânico de quem indefesa culpada e ré excitante apreciava correr perigo orgíaco na lustrosa prisão das cobertas da cama, pronta para pagar os pecados diante de mim, seu tribunal e batalhão, a condená-la vergada sob meu jugo, enquanto inocente demais nas mil e uma noites dos seus orgasmos siderais, era privada dos sentidos a cumprir a pena dos prazeres e eu a disparar o meu rifle com todos os tiros do gozo no coração do seu sexo, e ceifá-la nua, linda e lua conquistada diante do busto de Marianne. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Quis distrair-me, penetrar na conversa, tomar parte no assunto, não abandonar o amigo, prestar atenção às suas frases e opiniões, apoiá-lo ou divergir, mas nada consegui. Palavras que em qualquer outro momento me despertam e agitam – fome, miséria, injustiça, opressão, liberdade, direito, saúde, alegria – naquele instante eram fluidas, sem cor e ressonância. Minha vontade desaparecera ante a eloquência do apelo dos pés. [...] Por que veio ela com seu sapatinho branco, todo branco e todo aberto, criar nova personagem no espetáculo que meus olhos já começavam a definir e classificar? Onde vai assim, leve, leve, como se voasse? [...] Por que delirava eu? Como caíra naquele estranho mundo de pés? Começara manso e simples meu delírio, [...]. Mas crescera tanto [...], obrigava-me agora a adivinhar cada vez mais [...] Quando cheguei à sala das mulheres, no Pavilhão dos Primários, logo meus ouvidos se encheram do ruído dos pés. [...]. E o ruído incessante: eram tamancos, tamancos que andavam entre quatro pequeninos pedaços de chão. [...] Considero-me uma mulher profundamente feliz, sei o que sou porque cedo tomei posse de meu destino e pela estrada escolhida caminho sem desfalecimentos [...]. Trechos de Apelos dos pés, extraídos da obra Aruanda/Banho de cheiro (Secult, 1989), da escritora, jornalista, pesquisadora e militante política Eneida de Moraes (1904-1971), autora de obras como Promessa em azul e branco (1957), História do carnaval carioca (1958), entre outras.

GORJALA
É um gigante preto e feio, que habita as serras penhascosas. Sua ferocidade lembra a de Polifeno, de Homero, do qual é um descendente criado na imaginação sertaneja. Anda com suas passadas imensas pelas ravinas, escarpas e grotões. Quando encontra um indivíduo qualquer, mete-o debaixo do braço e vai comendo-o as dentadas! Outrora, quando um explorador desaparecia nos lugares intransitáveis, desconhecidos, por ter tombado num despenhadeiro profundo ou por ter sido devorado pelos índios, os seus companheiros afirmavam que o Polifeno Gorjala o devorara a dentadas... Os seringueiros da Amazônia conhecem o Gorjala sob a forma do gigante batalhador, encouraçado de casco de tartaruga, chamado Mapinguari.
GORJALA – Lenda extraída da obra Ao som da Viola – folclore (Leite Ribeiro, 1921), do advogado, professor, museólogo, folclorista e escritor cearense Gustavo Barroso (1888-1955). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Minhas danças são pura espiritualidade.
MATA HARI, A DANÇARINA DOS SETE VÉUS – A arte da dançarina exótica holandesa Margaretha Gertruida Zelle (1876-1917), conhecida como Mata Hari – que em malaio significa Olhos de Sol. Ela foi acusada de espionagem e condenada à morte por fuzilamento, durante a Primeira Guerra Mundial. Toda sua vida foi discutida e levada para as mais diversas linguagens artísticas. No cinema, encontrou-se o drama filme mudo Mata Hari (1927), dirigido por Friedrich Feher; o filme Mata Hari (1931), dirigido por George Fitzmaurice, com Greta Garbo no papel principal, descrevendo seus últimos dias de vida; o drama/romance Mata Hari – A Agente 21 (1964), dirigido por Jean-Louis Trintignant e estrelado por Jeanne Moreau; a comédia Casino Royale (1967), em que James Bond apaixona-se por ela tem uma filha, a Mata Bond; o drama/thriller Mata Hari (1985), dirigido por Curtis Harrington, com a atriz holandesa Sylvia Kristel; o filme Mata Hari (2013), dirigido por David Carradine; e o musical Mata Hari (2016), dirigido por Jeff Tudor. Em livro, encontra-se edições como The Unexpurgated Diary of Mata Hari (Carroll & Graf Pub, 1984); o livro Mata Hari: The True Story (Hardcover, 1986), com a sua biografia contada por Russel Warren Howe; o livro Mata Hari: a amante fatal (Rosa dos Tempos, 1997), de Julie Wheelwright; o livro Mata Hari: sa véritable histoire (2003), do historiador Philippe Collas; o livro Femme fatale: love, lies, and the unknown life of mata hari (Harper Perennial, 2008), de Pat Shipman; o livro Assinado, Mata Hari (Record, 2011), de Yannick Murphy, revela facetas menos conhecidas da suposta espiã do início do século XX; o livro Mata Hari: the controversial life and legacy of world war i’s most famous spy (CreateSpace, 2016), de Charles River; e o livro The Spy: a novel of Mata Hari (Vintage, 2017), de Paulo Coelho. Também um artigo intitulado The execution of Mata Hary - Eye Witness to History – (International News Service, 1917/1987), do jornalista britânico Henry Wales, detalhando o momento dramático do seu fuzilamento, dramático momento, descrevendo a expressão de seu rosto, a maneira como caiu e a disposição final de seu corpo no chão. Por fim, a mostra Mata Hari: - o mito e a donzela (2017), marcando o seu centenário no Museu da Frísia, em Leeuwarden - (Holanda) -, sua cidade natal. Todas as obras e estudos levam à sua inocência e que ela foi vítima, por sua ambição e beleza, de uma armação das autoridades francesas. O seu corpo não foi sepultado, foi dissecado e usado para as aulas de anatomia dos alunos da Faculdade de Medicina Francesa. A sua cabeça foi embalsamada, permaneceu no Museu de Criminosos da França até 1958, ano em que desapareceu, supostamente roubada por um admirador. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE LYGIA CLARK
O erótico vivido como profano e a arte vivida como sagrada se fundem numa experiência única. Trata-se de misturar arte com vida. Eis-me aí qual testemunho da minha obra já formulada, agora o testemunho já não é ela, mas sim eu-obra-pessoa humana.
A arte da pintora e escultora Lygia Clark (1920-1988) aqui, aqui & aqui.



terça-feira, outubro 22, 2019

DORIS LESSING, NATHALIE SARRAUTE, NELSON PEREIRA DOS SANTOS, FRANCISCO DOS SANTOS & PINTANDO NA PRAÇA


DOS IDOS & ACONTECIDOS - UMA: SERÁ QUE VAI CHOVER HOJE? - De manhãzinha, DuCoice olhou pro céu ensolarado e indagou sinal chuva. Boko-Moko que tinha sempre uma ideia de tudo, ia passando, ouviu e disse: Eu não ouvi o Amana-manha não! Quem? 1º de janeiro caiu pé-d’água? E eu sei, cara! 12 de fevereiro caiu toró? Sei lá, doido! Se aguou novembro, é mau sinal! Vixe? A porta da casa do João-de-barro tá pro nascente ou poente? Quem lá sabe, meu Deus! Tá um calorzão, para garoar tem que contrariar o santo, senão vamos morrer tudo enturido! Pronto, endoidou, o que tem a ver uma coisa com outra? Rapaz, o negócio tá feio! Que foi? O pencó tá solto em Brasília! Como assim? Você tá aonde, hem, meu filho, o Brasil todo está de pernas pro ar e você nem aí. Hem? O Brasil só não, o Chile, o Equador, Líbano, Hong Kong, Haiti, Catalunha, Iraque... Hum!? Só sei que para empiorar caiu um avião e periga chover meteoros! Santa Bárbara, pelamordedeus! Só Jesuis na causa, meu! DOIS: BOLO DO ANEL – Enquanto isso, as anjas da morte, Teté & Loló peiticavam para dar fim ao caritó. O que a gente faz, mulher? Ninguém quer servir de enfeite para vassoura, né? Vamos fazer a corrida do anel! Eita, é mesmo! E foi o maior puxa-encolha: chamaram a patota das vitalinas, cada uma mais devota que a outra, com suas figas, galhos de arruda, azeviche, escapulários, terços, pés-de-coelho, trevos, carântulas, veneras, nôminas – isso escondido nas mãos apertadas, pendurados no pescoço, costurado nos cós das saias, escondido no sutiã e por aí vai –, tudo para o culto antonino. Treze dias, elas lá: orações de joelhos, preces devotadas, ao pé da letra com as trezenas e a recitação do responso. Entre elas o maior cochichado: Quem será a sortuda que achará o anel do bolo, hem? TRÊS, A SAIDEIRA: O PRINCESO DELA – No ano passado a sortuda foi a Dinha! Quem? A Decildita, mulher! Hum? Aquela irmã daquele que a casa caiu em cima! Ah, sim, que foi que houve? Foi ela que no ano passado ganhou a corrida do anel e um princeso apareceu! Ah, eu já sei, mas aquele traste é lá príncipe, mulher! Oxe, ele é todo jeitosão! Meu marido mesmo disse que aquilo vivia comendo coração de anum pensando nela e depois ficava atocaiando ela aparecer, pegava o bico da ave comida e esfregava no chão por onde ela passasse. Anum? Sim, senhora. E o que tem? É pra ela ficar doida de paixão por ele, é tiro e queda, minha filha! É mesmo? É. E funciona? Você mesma disse que ela foi a sortuda e, na verdade, não era, né? Por quê? Aquilo lá é um aru! Vôte, que é que é isso, hem? Um sapo peba desses que vira gente arrumada só pra buscar a mãe da mandioca que mora nas cabeceiras do rio, só para visitar roçado e mais nada, some para nunca mais. Danou-se! Você tem visto o sujeito por aí? Coitada, anjo não tem costas mesmo! E vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] À tarde elas saíam juntas, levavam a vida das mulheres. Ah! Como aquela vida era incrível! Iam aos "chás", comiam doces que escolhiam com delicadeza e certo ar de gula: bombas de chocolate, bolinhos e tortas. O ambiente era como um viveiro barulhento, caloroso, alegremente iluminado e decorado. Elas ficavam lá, sentadas, apertadas em volta de suas mesinhas, e falavam. Havia, em volta delas, um clima de excitação, de animação, uma leve inquietação cheia de felicidade, a lembrança de uma escolha difícil, sobre a qual ainda tinham dúvidas (aquilo combinaria com o tailleur azul e cinza?, mas claro, ficaria maravilhoso), a perspectiva de uma metamorfose, de uma evidência súbita de suas personalidades, de um brilho. Elas, elas, elas, elas, sempre elas, vorazes, barulhentas e delicadas. O rosto delas parecia marcado por alguma tensão interior, seus olhos indiferentes deslizavam sobre a aparência, sobre a máscara das coisas, analisavam-na por um instante (aquilo era bonito ou feio?), depois deixavam-na cair novamente. E os disfarces davam a elas um brilho duro, um frescor sem vida. Elas iam aos chás. Ficavam lá, sentadas durante horas, enquanto tardes inteiras desapareciam. [...] Sempre disseram a elas coisas daquele tipo. Elas sempre ouviram falar de coisas assim, elas sabiam: os sentimentos, o amor, a vida, eram essas suas especialidades. Isso lhes pertencia. E elas falavam, incessantemente, repetindo e girando as mesmas coisas, depois girando-as novamente, de um lado, depois do outro, moldando-as, moldando-as, enrolando sem parar entre os dedos aquela matéria ingrata e pobre que tinham extraído de suas vidas (aquilo que elas chamavam de "vida", suas especialidades), moldando essa matéria, esticando-a, enrolando-a, até que ela não passasse de um montinho entre seus dedos, uma pequenina bola cinza. [...]. Trechos extraídos da obra Tropismos (Luna Parque, 2017), da escritora e advogada francesa Nathalie Sarraute (Natacha Tcherniak - 1900-1999). Veja mais aqui.

O CINEMA DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS
O cinema brasileiro, hoje, é tematicamente plural e expressa identidades regionais diversas.
NELSON PEREIRA DOS SANTOS – Já publicado diversas vezes por aqui, a trajetória do cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) compreende desde a sua incursão na área com o curta-metragem de 1949, Juventude, até os documentários A música segundo Tom Jobim e A luz do Tom, ambos de 2012, passando por Mandacaru vermelho (1961), Boca de Ouro (1962), Vidas secas (1963), Tenda dos milagres (1977), Memórias do cárcere (1984), Jubiabá (1987), A terceira margem do rio (1994), Brasília 18% (2004), entre tantos outros. Ele foi o primeiro cineasta a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e foi homenageado in memoriam na cerimônia do Oscar 2019. Confira mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e pintor português Francisco dos Santos (1878-1930). Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE DORIS LESSING
Tudo o que você deve fazer, faça agora. As condições são sempre impossíveis.
A obra da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013) aqui, aqui, aqui & aqui.
&
PINTANDO NA PRAÇA
Veja detalhes aqui & aqui.


segunda-feira, outubro 21, 2019

ESPINOZA, LÉLIA GONZALEZ, ANA CAÑAS, PATRICK MEADOWS & AMIGOS DA BIBLIOTECA


A SOLIDÃO DE ESPINOZA – Nasci marrano, eu e todos os meus; nacionalidade contraditória, problemática. Sempre me vi apartado do mundo e dos judeus. Por meu nome abençoado, o sonho do meu pai era um rabino e eu em conflito entre a verdade e a prosperidade, heterodoxia distante do dinheiro e do dogma, a vida de indagações. Às voltas com a Bíblia, o Talmud, a poesia clássica e a ciência moderna, do primeiro amor, fui negado - como era mesmo o nome dela... era... não lembro. Era um poema, bela, bela, bela. Recitei e esqueci. O amor é a alegria acompanhada de uma causa exterior. Ela preferiu outro, eu não era gentio nem rico. As minhas ideias me levaram à sinagoga: queriam comprar o meu silêncio e a minha fé à ortodoxia. Recusei e fui submetido a intenso e malicioso interrogatório. Acusaram-me discípulo de Juan del Prado e eu indignado com a flagelação, banimento e suicídio de Uriel, o enforcamento público de Van den Ende e o assassinato de Witt. Fui excomungado, deserdado, acusado de ateu, um blasfemador, traidor, elemento nocivo à república. E Sócrates morreu por seus semelhantes. Contrário a superstição religiosa, política e filosófica – nunca teria o medo dos males e castigos, a esperança dos bens e recompensas: a cruz cristã é só dor e castigo. Reduzi-me a um leproso moral, expulso das tribos de Israel: o mar por uma estreita fenda na parede da prisão. Recolhi-me a uma água furtada no subúrbio e passei a polir lentes: bicho de seda no casulo. Encerrado à minha solidão, tinha apenas o movimento das aranhas – não me destruam as teias, por favor. A minha crença sempre foi a dos antigos profetas hebreus: o mistério de Deus, os seus múltiplos atributos e a poesia da vida: Aquele que tudo penetra perpétua e completamente. Que espécie de mundo é esse, quem nos pôs aqui e por quê: infinito, eterno, omnioperante, sempiterno, completo. Sabia que a maior vitória é a grandeza da alma, a interafinidade vital, a regra de ouro: o amor faz desaparecer o sofrimento da morte. Não é possível a alegria e o amor com as ruínas da razão, os desatinos da imaginação. Para quem ama o efêmero, a felicidade é perecível; e para me amar tenho que amar o outro, melhor fruído quanto mais repartido: só ajudo a mim ajudando os outros. A felicidade é mútua. Essa a razão pela qual recusei a fortuna de De Vries por duas vezes, a sua anuidade e a pensão de Luís XIV – nunca lisonjearia quem eu não admirasse -, nem mesmo a cadeira da Universidade: preferia morrer de fome a não falar a verdade. Com sempre soube, somos vermes rastejantes diante do Todo: onde tudo é e está o Eterno Artista que tece a teia bramante e vive dentro de nós e em cada folha da relva, cada torrão da terra, cada flor a desabrochar, cada criatura viva, e dispõe para desfrute de todos: a verdadeira essência da democracia. Mais ainda: o destino é maior do que se supõe. Não posso ferir o outro sem que me fira: uma injúria que sai da minha boca arranca meus próprios olhos. Uma guerra traz outra, nada tenho com ambições, rivalidades e ódio. Quase fui linchado por conta do meu pensamento universal, meu coração cheio de simpatia. Vivi meus últimos dias num quarto de Haia e não me salvei da obscuridade, ainda bem. Eu via a eternidade: nascemos para sermos felizes, de um sonho a outro, de uma estrela a outra e ao infinito. Sou circunstância e meio, um dente da roda na máquina cósmica. Sou apenas uma página no livro de tudo e todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Quando criança, eu fui babá de filhinho de madame, você sabe que criança negra começa a trabalhar muito cedo. Teve um diretor do Flamengo que queria que eu fosse para casa dele ser uma empregadinha, daquelas que viram cria da casa. Eu reagi muito contra isso então o pessoal terminou me trazendo de volta para casa [...] É por aí que a gente deve entender que esse papo de que a miscigenação é a prova da “democracia racial” brasileira não está com nada. Na verdade, o grande contingente de brasileiros mestiços resultou de estupro, de violentação, de manipulação sexual da escrava. Por isso existem os preconceitos e os mitos relativos a mulher negra: de que ela é mulher fácil, de que é boa de cama [...] Nossa situação atual não é muito diferente daquela vivida por nossas antepassadas: afinal, a trabalhadora rural de hoje não difere muito da “escrava do eito” de ontem; o mesmo poderia dizer-se da vendedora ambulante, da “joaninha” da servente ou da trocadora de ônibus de hoje, é a escrava de ganho de ontem. [...] O 13 de maio trouxe benefícios para todo mundo, menos para massa trabalhadora negra [...]. Trechos extraídos de E a trabalhadora negra, cumé que fica (Mulherio, 1981), da antropóloga, filósofa e escritora Lélia Gonzalez (1935-1994), que ainda se expressa no trecho extraído De Palmares às escolas de samba, estamos aí (Mulherio, 1982): [...] Estamos cansados de saber que nem na escola, nem nos livros onde mandam a gente estudar, não se fala da efetiva contribuição das classes populares, da mulher, do negro, do índio na nossa formação histórica e cultural. Na verdade, o que se faz é folclorizar todos eles. E o que é que fica? A impressão de que só homens, os homens brancos, social e economicamente privilegiados, foram os únicos a construir este país. A essa mentira tripla dá-se o nome de sexismo, racismo e elitismo. E como ainda existe muita mulher que se sente inferiorizada diante do homem, muito negro diante do branco e muito pobre diante do rico, a gente tem mais é que mostrar que não é assim, né? [...]. Veja mais aqui e aqui. 

A MÚSICA DE ANA CAÑAS
Mulheres estão se conscientizando, se unindo. É importante debater e questionar essas pautas. Instinto da mulher é tolhido e esmagado.
ANA CAÑAS – Curtindo os álbuns Amor e caos (2007), Hein? (2009), Volta (2012), Tô na vida (2015) e Todxs (2018), da cantora e compositora Ana Cañas, que é formada em Artes Cênicas pela ECA/ISP e participou do elenco do longa-metragem Amores urbanos (2016), da diretora Vera Egito. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador, quadrinista, muralista e artista visual estadunidense Patrick Meadows. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE ESPINOZA
[...] Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza... maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele [...].
Trecho da excomunhão, promulgada pela comunidade judaixa de Amsterdam, a 27 de julho de 1656, contra o filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677). Veja mais aqui, aqui e aqui.
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AMIGOS DA BIBLIOTECA
Realizou-se na última sexta, dia 18 de outubro, mais uma reunião de debate da minta estatutária de Amigos da Biblioteca, da qual participou Silvana Neves, João Paulo Araújo & Ricardo Cordel. Veja mais aqui & aqui.


sexta-feira, outubro 18, 2019

KAZUO ISHIGURO, OLALLA COCIÑA, BERNA REALE, MARQUINHOS CABRAL, FEARP & PATRIOTISMO


DAS COISAS DE HOJE EM DIA & OUTROS TERÉNS – UMA: INDIGNAÇÃO – As praias paradisíacas do Nordeste brasileiro amanheceram, de repente, repletas de manchas de óleo por toda parte. Eita! Que foi que houve? Línguas negras? Nada. Ah, não bastam moradores e banhistas torná-las mijacagadores, tem que emporcalhar ainda mais, é? O que motivou, de verdade, ninguém sabe (ou sabem e não querem dizer, pior ainda). Deveras, o paraíso não é aqui, realmente. DOIS: BOTANDO BANCA – Assim como fez Michelangelo diante de sua obra-prima, a estátua de Moisés, também o fez Biritoaldo, no primeiro dia em que conseguiu juntar no mealheiro por anos a fio, o tanto para aquisição de um seminovo não sei que ano, saindo para passear e, repentinamente, empancar no meio de uma rodagem deserta. Ele virava a chave, o bicho roncava, peidava e não pegava. Arretou-se e saiu furioso do carro, aos gritos: Vai, fala, borreia do estopô calango! Fala, diz por que me deixa na mão, justo aqui e agora, quando mais preciso, trepeça! Vai, fala, covarde! Eita mandú desgraçado! E saiu chutando tudo! O automóvel era tão prejudicado que desabou às suas pernadas e murros: caiu uma porta e a outra envergou; amassou lataria e para-choques, empenou os para-lamas, trincaram os vidros todos, arrearam os faróis, murcharam os pneus, uma bronca! Vai desmanchar é? E parecia mesmo. Tanto que brigou, esperneou, esmurrou, só faltou tocar fogo. Isso é uma lástima! E mais pelejou, não deu; voltou a pé, injuriado. TRÊS: SIMPLES ASSIM: Etelvidita telefona para o então namorado dela, o Dalvinácio: Alô? Oi, amor! Precisamos conversar. Claro, meu amor, chego já aí. Não, será agora. Fale. Não somos mais um casal. Como assim? Somos modernos, não somos? Claro, amor. Amores líquidos, né? Hem? Seguinte: arrumei outro namorado, lindo de morrer e, por causa disso, a gente será só amigos, pode ser? Teibei. Vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: DO PATRIOTISMO – Hoje vou fazer aqui diferente: ao invés de um só, um bocado. Seguinte: Era eu menino ainda e já mentia dizendo que sabia ler e escrever. Então, com quatro anos de idade, me matricularam numa escola para que eu me tornasse gente e não uma mentira. Não conseguiram. Um mês depois, eu ainda maravilhado com o ambiente escolar, professora e coleguinhas, merenda e travessuras, veio o Golpe de 64. A partir de então, comecei a ouvir palavras como patriotismo, moral & civismo e outros que tais. E essas me perseguiram desde o primário pelo ginasial, segundo grau, faculdades de Letras, Jornalismo e Direito e, até hoje, não sei o que significam, principalmente patriotismo que é a palavra mais falada desde o início deste ano. Como embrulharam minha cabeça a respeito do assunto, trago alguns ilustres pensantes que trataram sobre o patriotismo. Por exemplo, para o filósofo e matemático inglês Bertrand Russel (1872-1970), o patriotismo “é a disposição para matar e morrer por razões triviais”. Já para o escritor e humorista estadunidense Mark Twain (1835 – 1910), o patriotismo “não passa de uma grosseira cascata: é uma palavra que apenas comemora um roubo. Não há um palmo de terra no mundo que não represente o entra-e-sai de sucessivos proprietários”. Da mesma forma expressa o dramaturgo, escritor e jornalista irlandês George Bernard Shaw (1856-1950): “O patriotismo é uma forma perniciosa e psicopata de idiotia”. Não menos irônico expressa também o escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900), que “O patriotismo é a virtude dos viciosos”. Resolvi ir mais além e encontrei o jornalista, ensaista, satirista e crítico cultural estadunidense Henry Louis Mencken (1880-1956) dizendo que: “Quando se ouve um homem falar de seu amor por seu país, podem saber que ele espera ser pago por isso”. Também o escritor, filósofo, dramaturgo, jornalista e crítico de arte inglês, Gilbert Keith Chesterton (1874–1936), atinou para o fato de que “Meu país, certo ou errado, é como dizer: minha mãe, bêbada ou sóbria”. Já o filósofo, dramaturgo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1986), acha que “A pátria, a honra, a liberdade... Nada disso! O Universo gira em torno de um par de nádegas e isso é tudo...”. Por sua vez, o filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) diz que: “Um homem que se respeite não tem pátria. Uma pátria é um visco”. Por fim, o escritor, lexicógrafo e moralista inglês Samuel Johson (1709-1784) arremata que o patriotismo é “O último refugio dos canalhas”. Bem... Tomara que todo este levantamento tenha sido tão esclarecedor para vocês, leitores, como foi para mim. E vamos aprumar a conversa!

A POESIA DE OLALLA COCIÑA
ESCAVAÇÃO - Se eu dormir, os tecidos são reconstruídos / e a semana passa / a vida é apagada mais do que parece. / Eu sou caroços / esporos de calor simples / sem conteúdo, sem alfabeto / mas às segundas-feiras eu perco tudo de novo / e eu me aproximo daquela velha escavação / onde encontramos algo diferente / para o que foi procurado. / Eu peso esse desapego / que arruinou o trabalho / e não consigo lavar o pobre pano / o que nós colocamos / para cobrir um cocar sagrado e não corrompido / não a terra escura / colado na última polpa das unhas.
ESCAVAÇÃO - Foi difícil se reconstruir / e acontece uma semana / apagar a vida mais do que parece. / Eu são borborotos / esporos de calor simples / conteúdo sen, alfabeto sen / mas vou perder tudo de novo / e chegar a essa velha escavação / onde pegamos algo diferente / o que foi procurado.
CONDOLÊNCIAS - Eu estava te seguindo / e não dou lavagem ou pano ruim / que nós podemos / para cobrir unha touca sagrado, incorruptível / em uma terra moura / apegadiña a última carne que você lhes der. / Uma pequena pepita estava faltando / na boca / procurando / terra fértil. / Uma pepita espancada / Em uma pequena parte de você. / Mas existem placas de gelo / debaixo da sua língua / que você não deixa ir / que você não sai / Unha pebida tiny / se perder / na boca / Procurando por terra fértil. / Unha pebida que bate / Nenhuma pequena parte de você. / Mas existem placas xeo / debaixo da língua / que você não deve deixar de lado, / O que você diz.
OLALLA COCIÑA – Poemas extraídos da obra Vestir la noche (XIV Prêmio de Fundação de Poesia 2016, Centro PEN Galicia, 2017), da premiada poeta e jornalista galega Olalla Cociña Lozano. Veja mais aqui.
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DE ONDE VENHO, DE MARQUINHOS CABRAL
Quer saber de onde venho? / Sente aqui pra escutar / Venho da terra das Palmeiras / Do mais bonito lugar. / Venho dos rios Una e Pirangi / Venho dos versos dos poetas gigantes / Venho das vozes dos cantores / No serviço de alto-falantes. / Venho lá dos canaviais / Venho do meio dos montes / Venho de dentro das matas / Venho dos becos, ruas e pontes. / Venho do rei Zumbi, / De Dandara e Ganga Zumba / Venho dos terreiros dos caboclos, / Venho das guerras e das quizumbas. / Venho das noites de festa / Em frente da catedral / Venho das novenas nos bairros / Venho das noites de natal. / Venho do forró lá no pátio / Venho da folia da estação / Venho dos desfiles do 7 de setembro / Venho das noites de São João. / Venho do cine teatro Apollo / Venho de todos esses lugares / Quer mesmo saber de onde venho?  EU VENHO DA MINHA QUERIDA PALMARES.
Poema do cantor Marquinhos Cabral. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Ser artista e mulher ao mesmo tempo, aí já são dois deméritos. Meu trabalho é sobre como a violência se torna uma coisa aceitável, compartilhada, naturalizada. As pessoas têm um prazer mórbido com uma notícia desagradável, elas compartilham, querem ver. Passei oito meses dentro do departamento de necrópsia da polícia, fotografando vísceras humanas e cadáveres.  Eles eram submetidos a alguns exercícios exaustivos de polichinelo ou agachamento, onde todos ficavam ao redor, presenciando. Aquela cena humilhante me chamou muito a atenção como artista. Mas no mundo da segurança pública, da polícia, tu lidas com a crueza da vida. E é impossível não se sensibilizar com aquilo. Não sou de museu, gosto da rua. Precisava ganhar mais dinheiro. As pessoas entravam e ficavam dançando, até perceber que o som era de violência.
BERNA REALE - A arte da artista visual e perita criminal Berna Reale, que meio do uso de seu corpo em performances e instalações, propõe reflexão sobre o momento sociopolítico contemporâneo com especial ênfase na temática da violência. Ela estudou arte na Universidade Federal do Pará (UFPA) e participou de diferentes exposições (individuais e coletivas) no Brasil e no exterior. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE KAZUO ISHIGURO
Cabe a cada um de nós fazer o máximo da própria vida.
A obra do escritor japonês Kazuo Ishiguro aqui.
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FESTIVAL DE ARTES DO ENGENHO PAUL – FEARP - O Festival de Artes do Engenho Paul (FEARP), em sua segunda edição, acontecerá entre os dias 24 a 27 de outubro, no Engenho Paul, em Palmares – Pernambuco, envolvendo atividades artísticas, com artesanato, pintura, literatura, música, poesia, teatro, oficinas, histórias e manifestações culturais. Veja detalhes da programação aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...