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sexta-feira, outubro 18, 2019

KAZUO ISHIGURO, OLALLA COCIÑA, BERNA REALE, MARQUINHOS CABRAL, FEARP & PATRIOTISMO


DAS COISAS DE HOJE EM DIA & OUTROS TERÉNS – UMA: INDIGNAÇÃO – As praias paradisíacas do Nordeste brasileiro amanheceram, de repente, repletas de manchas de óleo por toda parte. Eita! Que foi que houve? Línguas negras? Nada. Ah, não bastam moradores e banhistas torná-las mijacagadores, tem que emporcalhar ainda mais, é? O que motivou, de verdade, ninguém sabe (ou sabem e não querem dizer, pior ainda). Deveras, o paraíso não é aqui, realmente. DOIS: BOTANDO BANCA – Assim como fez Michelangelo diante de sua obra-prima, a estátua de Moisés, também o fez Biritoaldo, no primeiro dia em que conseguiu juntar no mealheiro por anos a fio, o tanto para aquisição de um seminovo não sei que ano, saindo para passear e, repentinamente, empancar no meio de uma rodagem deserta. Ele virava a chave, o bicho roncava, peidava e não pegava. Arretou-se e saiu furioso do carro, aos gritos: Vai, fala, borreia do estopô calango! Fala, diz por que me deixa na mão, justo aqui e agora, quando mais preciso, trepeça! Vai, fala, covarde! Eita mandú desgraçado! E saiu chutando tudo! O automóvel era tão prejudicado que desabou às suas pernadas e murros: caiu uma porta e a outra envergou; amassou lataria e para-choques, empenou os para-lamas, trincaram os vidros todos, arrearam os faróis, murcharam os pneus, uma bronca! Vai desmanchar é? E parecia mesmo. Tanto que brigou, esperneou, esmurrou, só faltou tocar fogo. Isso é uma lástima! E mais pelejou, não deu; voltou a pé, injuriado. TRÊS: SIMPLES ASSIM: Etelvidita telefona para o então namorado dela, o Dalvinácio: Alô? Oi, amor! Precisamos conversar. Claro, meu amor, chego já aí. Não, será agora. Fale. Não somos mais um casal. Como assim? Somos modernos, não somos? Claro, amor. Amores líquidos, né? Hem? Seguinte: arrumei outro namorado, lindo de morrer e, por causa disso, a gente será só amigos, pode ser? Teibei. Vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: DO PATRIOTISMO – Hoje vou fazer aqui diferente: ao invés de um só, um bocado. Seguinte: Era eu menino ainda e já mentia dizendo que sabia ler e escrever. Então, com quatro anos de idade, me matricularam numa escola para que eu me tornasse gente e não uma mentira. Não conseguiram. Um mês depois, eu ainda maravilhado com o ambiente escolar, professora e coleguinhas, merenda e travessuras, veio o Golpe de 64. A partir de então, comecei a ouvir palavras como patriotismo, moral & civismo e outros que tais. E essas me perseguiram desde o primário pelo ginasial, segundo grau, faculdades de Letras, Jornalismo e Direito e, até hoje, não sei o que significam, principalmente patriotismo que é a palavra mais falada desde o início deste ano. Como embrulharam minha cabeça a respeito do assunto, trago alguns ilustres pensantes que trataram sobre o patriotismo. Por exemplo, para o filósofo e matemático inglês Bertrand Russel (1872-1970), o patriotismo “é a disposição para matar e morrer por razões triviais”. Já para o escritor e humorista estadunidense Mark Twain (1835 – 1910), o patriotismo “não passa de uma grosseira cascata: é uma palavra que apenas comemora um roubo. Não há um palmo de terra no mundo que não represente o entra-e-sai de sucessivos proprietários”. Da mesma forma expressa o dramaturgo, escritor e jornalista irlandês George Bernard Shaw (1856-1950): “O patriotismo é uma forma perniciosa e psicopata de idiotia”. Não menos irônico expressa também o escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900), queO patriotismo é a virtude dos viciosos”. Resolvi ir mais além e encontrei o jornalista, ensaista, satirista e crítico cultural estadunidense Henry Louis Mencken (1880-1956) dizendo que: “Quando se ouve um homem falar de seu amor por seu país, podem saber que ele espera ser pago por isso”. Também o escritor, filósofo, dramaturgo, jornalista e crítico de arte inglês, Gilbert Keith Chesterton (1874–1936), atinou para o fato de que “Meu país, certo ou errado, é como dizer: minha mãe, bêbada ou sóbria”. Já o filósofo, dramaturgo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1986), acha que “A pátria, a honra, a liberdade... Nada disso! O Universo gira em torno de um par de nádegas e isso é tudo...”. Por sua vez, o filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) diz que: “Um homem que se respeite não tem pátria. Uma pátria é um visco”. Por fim, o escritor, lexicógrafo e moralista inglês Samuel Johson (1709-1784) arremata que o patriotismo é “O último refugio dos canalhas”. Bem... Tomara que todo este levantamento tenha sido tão esclarecedor para vocês, leitores, como foi para mim. E vamos aprumar a conversa!

A POESIA DE OLALLA COCIÑA
ESCAVAÇÃO - Se eu dormir, os tecidos são reconstruídos / e a semana passa / a vida é apagada mais do que parece. / Eu sou caroços / esporos de calor simples / sem conteúdo, sem alfabeto / mas às segundas-feiras eu perco tudo de novo / e eu me aproximo daquela velha escavação / onde encontramos algo diferente / para o que foi procurado. / Eu peso esse desapego / que arruinou o trabalho / e não consigo lavar o pobre pano / o que nós colocamos / para cobrir um cocar sagrado e não corrompido / não a terra escura / colado na última polpa das unhas.
ESCAVAÇÃO - Foi difícil se reconstruir / e acontece uma semana / apagar a vida mais do que parece. / Eu são borborotos / esporos de calor simples / conteúdo sen, alfabeto sen / mas vou perder tudo de novo / e chegar a essa velha escavação / onde pegamos algo diferente / o que foi procurado.
CONDOLÊNCIAS - Eu estava te seguindo / e não dou lavagem ou pano ruim / que nós podemos / para cobrir unha touca sagrado, incorruptível / em uma terra moura / apegadiña a última carne que você lhes der. / Uma pequena pepita estava faltando / na boca / procurando / terra fértil. / Uma pepita espancada / Em uma pequena parte de você. / Mas existem placas de gelo / debaixo da sua língua / que você não deixa ir / que você não sai / Unha pebida tiny / se perder / na boca / Procurando por terra fértil. / Unha pebida que bate / Nenhuma pequena parte de você. / Mas existem placas xeo / debaixo da língua / que você não deve deixar de lado, / O que você diz.
OLALLA COCIÑA – Poemas extraídos da obra Vestir la noche (XIV Prêmio de Fundação de Poesia 2016, Centro PEN Galicia, 2017), da premiada poeta e jornalista galega Olalla Cociña Lozano. Veja mais aqui.
&
DE ONDE VENHO, DE MARQUINHOS CABRAL
Quer saber de onde venho? / Sente aqui pra escutar / Venho da terra das Palmeiras / Do mais bonito lugar. / Venho dos rios Una e Pirangi / Venho dos versos dos poetas gigantes / Venho das vozes dos cantores / No serviço de alto-falantes. / Venho lá dos canaviais / Venho do meio dos montes / Venho de dentro das matas / Venho dos becos, ruas e pontes. / Venho do rei Zumbi, / De Dandara e Ganga Zumba / Venho dos terreiros dos caboclos, / Venho das guerras e das quizumbas. / Venho das noites de festa / Em frente da catedral / Venho das novenas nos bairros / Venho das noites de natal. / Venho do forró lá no pátio / Venho da folia da estação / Venho dos desfiles do 7 de setembro / Venho das noites de São João. / Venho do cine teatro Apollo / Venho de todos esses lugares / Quer mesmo saber de onde venho?  EU VENHO DA MINHA QUERIDA PALMARES.
Poema do cantor Marquinhos Cabral. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Ser artista e mulher ao mesmo tempo, aí já são dois deméritos. Meu trabalho é sobre como a violência se torna uma coisa aceitável, compartilhada, naturalizada. As pessoas têm um prazer mórbido com uma notícia desagradável, elas compartilham, querem ver. Passei oito meses dentro do departamento de necrópsia da polícia, fotografando vísceras humanas e cadáveres.  Eles eram submetidos a alguns exercícios exaustivos de polichinelo ou agachamento, onde todos ficavam ao redor, presenciando. Aquela cena humilhante me chamou muito a atenção como artista. Mas no mundo da segurança pública, da polícia, tu lidas com a crueza da vida. E é impossível não se sensibilizar com aquilo. Não sou de museu, gosto da rua. Precisava ganhar mais dinheiro. As pessoas entravam e ficavam dançando, até perceber que o som era de violência.
BERNA REALE - A arte da artista visual e perita criminal Berna Reale, que meio do uso de seu corpo em performances e instalações, propõe reflexão sobre o momento sociopolítico contemporâneo com especial ênfase na temática da violência. Ela estudou arte na Universidade Federal do Pará (UFPA) e participou de diferentes exposições (individuais e coletivas) no Brasil e no exterior. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE KAZUO ISHIGURO
Cabe a cada um de nós fazer o máximo da própria vida.
A obra do escritor japonês Kazuo Ishiguro aqui.
&
FESTIVAL DE ARTES DO ENGENHO PAUL – FEARP - O Festival de Artes do Engenho Paul (FEARP), em sua segunda edição, acontecerá entre os dias 24 a 27 de outubro, no Engenho Paul, em Palmares – Pernambuco, envolvendo atividades artísticas, com artesanato, pintura, literatura, música, poesia, teatro, oficinas, histórias e manifestações culturais. Veja detalhes da programação aqui.


quinta-feira, agosto 17, 2017

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele durante toda nossa infância. Espalhafato de conversa fiada, reinações de comer tempo e espaço, coisas do possível mais inventado que se possa crer: a gente vivia além da conta mesmo. Da beira do rio os meus olhos vermelhos na minha migração pra Letácio Montenegro – onde por conta de um leite achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra, fui acometido duma hepatite de meses -, daí pro Caçotinho que era a Cohab, passando pelo Beco do Mijo – no qual dei um mergulho indesejado de cima da casa na lavanderia entupida de frascos -, Beco do Capim do namorico aprumado e jogadas de bola, Rua da Aurora, Rua Nova até a Praça Ismael Gouveia, era mudando de endereço e de escola. E ele lá, no mesmo endereço de sempre: a casa de Pai Lula & Carma, reduto de nossas mais cabeludas presepadas. Adolescemos juntos: chulé, pigarros, lapadas e trapalhadas. Tudo foi tão rápido que parece que foi ontem. Quando eu chegava na casa dele, ele lá inquieto altas curtições: Beatles, João Gilberto & Bossa Nova, David Bowie, Alice Cooper, Rolling Stones, Tropicália & dos Mutantes, Woodstock, Bob Dylan & Joan Baez, Simon & Garfunkel, Elvys, Elis, Frank Zappa, Led Zeppelin, do iê-iê-iê da Jovem Guarda, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Tim Maia, maior salada com levada de tudo no meio das mais diferentes e efervescentes tendências musicais, quantas linguagens e ele incorporando de tudo no seu repertório pessoal, com seu microfone e plateia invisíveis e eu solando uma guitarra imaginária do bucho acompanhando tudo. Ele cantava tudo o que era de tons e sons, isso era década de 1970. E logo escapuliu a cantar por aí, no tempo em que havia o predomínio dos bailes com os sucessos do rádio, dos programas de auditórios, dos temas de novelas na época dos vinis marcados pelas gravadoras e os jabás. Nem vi direito e ele já cantava por aí, botando pra fora sua sensibilidade artística, participando de festivas e feiras de música, imprimindo sua personalidade, uma voz diferente, um performer afinado, ousado e cantando de tudo. Em um dado momento ele sumira, dera uma de hippie e picara a mula mundo afora. Cadê-lo? Nem sinal. Quando dei por mim, eu já estava em Recife e a gente se cruzando, trocando ideias e tons durante toda a primeira metade dos anos 1980. De lá pra cá, uma ou outras vezes, bebericando com pinoias, enterrando nossos mortos, ressurgindo a cada dia, revivendo cada hora. Foi aí que veio a maior sacada: ele aprumou uma parceria com Genésio Cavalcanti e Zé Linaldo de sair cada coisa bonita de nem saber direito no meio de tantas qual melhor. O que vale de mesmo fica na entrevista que se encontra mais abaixo, confira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RIO UNA
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar 
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
É que ele nasce pelas bandas de Capoeiras
Vai descendo as cachoeiras
Ligeiro que nem o vento
Chega em São Bento ele sorri de alegria
A correnteza tá dizendo
Se eu pudesse eu não descia
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Pede licença e entra em Cachoeirinha
É quando vê quatro vaquinhas
Bebendo do seu produto
Se eu pudesse
Eu demorava um tiquinho
Mas vou passar em Altinho
Nem que seja um minuto
Chega em Altinho
Ele se alegra e se agita
Quando vê a moça bonita
Na barreira matutina
Para Agrestina ele corre com emoção
As águas batendo nas pedras
Até parece uma canção
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Chega em Palmares
Ele mata a saudade
Passa dentro da cidade
Valente como um leão
Em Água Preta ele deixa de ser arisco
Respeita o padre Francisco 
E pede a sua benção
Aí ele entristece 
E bota pra chorar
Se despede de Barreiros
E emboca pra dentro do mar
Música extraída do álbum Meu Cantar (Cactus/RCA, 1982), do cantor e compositor Jorge de Altinho. Veja mais aquiaqui .

RIO UNA – A despeito da opinião dos entendidos, que prognosticavam uma trovoada de maiores proporções para o dia seguinte, o tempo amanheceu firme, sol quente de verão. Mas o povo em geral se mostrava satisfeito, certo de que nem tão cedo faltaria água na cidade. O Una transbordara, os açudes dos arredores estavam sangrando, as cisternas das casas residenciais com o seu fornecimento garantido para muitos meses. Comentavam-se nos cafés, nas barbearias, na farmácia, os estragos causados pela chuva. Estragos, todavia, benfazejos, que a todos contentavam. [...] Trecho extraído da obra Jutaí menino (Bagaço, 1995), do escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui.

O FUTURO DO HOMEM – Há muito distúrbio e corrupção no mundo; as pessoas vivem extremamente perturbadas. É perigoso andar pelas ruas. Quando falamos em estar livres do medo, queremos a liberdade exterior – estar livres do caos, da anarquia, da ditadura. Mas nunca investigamos nem queremos saber se há uma liberdade interior, uma mente livre. Essa liberdade é real ou teórica? Consideramos o Estado como um obstáculo à liberdade. Os comunistas e outros povos totalitaristas afirmam que não existe essa tal de liberdade; o Estado, o governo, é a única autoridade. E estão suprimindo todas as formas de liberdade. Que espécie de liberdade, portanto, querem? A externa? Fora de nós? Ou a liberdade interior? Quando falamos de liberdade, trata-se de liberdade de escolha entre este e aquele governo, aqui e lá, entre liberdade exterior e interior? A psique interna sempre conquista o exterior. a psique, isto é, a estrutura interior do homem (seus pensamentos, suas emoções, ambições, ações, ganância) sempre conquista o exterior. assim, onde buscar a liberdade? Podemos estar livres da nacionalidade que nos dá uma sensação de segurança? Pode haver liberdade em relação a todas as superstições, dogmas e religiões? Só poderá surgir uma nova civilização através da verdadeira religião, e não através da superstição e do dogma nem das religiões tradicionais. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, & aqui.

DESENVOLVIMENTO & FATOR HUMANO - [...] o desenvolvimento econômico, na forma em que ele se processa hoje em dia, é essencialmente uma questão de criação e assimilação de progresso tecnológico. Essa afirmação deveria ser completada por outra: o progresso tecnológico é principalmente uma questão de qualidade do fator humano. Estamos aqui em face do mais complexo de todos os problemas que coloca uma política de desenvolvimento: melhorar o fator humano toma tempo e somente é possível se se dispõe de matrizes adequadas. Abundantes estudos hoje disponíveis demonstram que o nível de desenvolvimento de um país é função da massa de investimentos incorporados no fator humano. Desta forma, o problema do progresso tecnológico e o da melhor do fator humano, estarão sempre intimamente relacionados. [...]. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui e aqui.

VIVER A VIDA - Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. [...] Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida – você não precisa de mitologia”. Não acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito em ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato? Um de nossos problemas, hoje em dia , é que não estamos familiarizados com a literatura do espírito. Estamos interessados nas notícias do dia e nos problemas do momento. Antigamente, o campus de uma universidade era uma espécie de área hermeticamente fechada, onde as notícias do dia não se chocavam com a atenção que você dedicava à vida interior, nem com a magnífica herança humana que recebemos de nossa grande tradição – Platão, Confúcio, o Buda, Goethe e outros, que falam dos valores eternos, que têm a ver com o centro de nossas vidas. Quando um dia você ficar velho e, tendo as necessidades imediatas todas atendidas, então se voltar para a vida interior, aí bem, se você não souber onde está ou o que é esse centro, você vai sofrer. As literaturas grega e latina e a Bíblia costumavam fazer parte da educação de toda gente. Tendo sido suprimidas, toda uma tradição de informação mitológica do Ocidente se perdeu. Muitas histórias se conservavam, de hábito, na mente das pessoas. Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.[...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), também autor da obra Mito e transformação (Ágora, 2008), nos quais defende que “o individuo precisa aprender a viver pelo seu próprio mito, o caminho para encontrar o seu mito é encontrar o seu entusiasmo”.

AS AMIZADES - [...] E eu fico apenas a refletir que as amizades políticas são sempre e naturalmente passageiras. Mas as que se firmaram sobre um ideal, no serviço de uma casa nobre, vão buscar, na eternidade de seus motivos, a força e a sobrevivência, que os interesses humanos não sabem e não podem encontrar. Trecho de Por amor às crianças pernambucanas (Jornal do Brasil, 23/11/1969), extraído da obra Assuntos pernambucanos (Tempo Brasileiro/Fundarpe, 1986), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000).

AS MULHERES, SEMPRE POR CIMA - Ainda que as acusações continuem apontando-nos como execráveis porcos chauvinistas, nós, com o cavalheirismo que o tempo nos ensinou, estamos sempre apoiando a mulher (da alta classe média) e tudo que ela representa em sua luta destemida em prol de não sabemos lá o quê. [...] Você ainda gosta de mulher? [...] Millôr Fernandes, jornalista, idade indefinível. Ex-praticante de tiro ao alvo sobre alvos vivos, na Argélia: “Como sexo, as mulheres são insuportáveis. Mas na hora do sexo não tem nada melhor”. Quando cara diz que fala por experiência é porque ainda não adquiriu a experiência pra calar a boca. [...] O ideal de nossos governantes é um cavalo que chegue em primeiro sem fazer cocô. [...] Há muitas formas de ser útil ao país. Uma delas é se locupletar discretamente. [...]. Trechos extraídos da obra Que país é este? (Nordica, 1978), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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ENTREVISTA MARQUINHOS CABRAL
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, julho 13, 2017

NASRUDIN DE SHAH, BEATLES, ORAGE, GÊNESIS, LIZ WEST, PINK FLOYD, HUJBER GUNTER, LED ZEPPELIN & MARQUINHOS CABRAL

O DEDO MINDINHO DO PÉ DIREITO – Imagem: arte da escultora e artista britânica Liz West - Estavam Mamão e Afredo se estranhando como de costume. Eram comuns desavenças entre ambos, coisa que a turma do deixa-disso já nem se incomodava, só quando iam às vias de fato. Aí não, quando se enganchavam num caqueado truculento, cara dum, focinho de outro, tapas pra que te quero, a escaramuça era logo apartada. Enquanto os desaforos persistiam, tudo bem; mas quando ia pro corpo a corpo, a coisa enfeiava tendo em vista provocar mais vítimas além dos dois querelantes. Mesmo sendo do mesmo tope, um arrotava superioridade sobre o outro, dos mais infamantes apelidos, aos mais desmoralizantes deboches, aos insultos mútuos: - Aquilo ali é uma ticaca de nada! É? E tu? Sai pra lá, tiquinho! Cala boca aí, punhetinha, senão quebro teus dentes, pixote! Vem, porqueira, que eu arranco tuas pregas, cheira-peido! Esse fi-duma-poldra pensa que tem tamanho, isso foi feito nas coxas, pinguelo de gente. E tu, pirralho? Isso é mirocho dum desgraçado das costas ocas, que não serve nem pra gente foder o cu de tão fedorento que é! A-há! E tu, pivete? Só dorme de cu esperando consolo duma brachola no rego, pigmeu de merda! Ah, fui que fiquei entalado num cotoco, foi, seu fubica? Pior querer ser polícia, babar o ovo de todo mundo e se passar de araque, fiapo de gente! Olhe que dou uma mãozada nas suas gaias de você nunca mais acertar juízo na vida, seu pinguelo encruado! Vai pra lá, espirro de pica! Eu ainda lasco esse tamborete de zona! Ah, se pego! E isso era de manhã pra tarde, entrando na noite, virando a madrugada, direto feito cantiga de grilo. Assim foi um dia quando um dos dois sapecou uma pérola como essas: - Isso é lá gente que se apresente! Num passa dum dedo mindinho do pé direito! Como? Alguém alheio aos ultrajes malucos, questionou: - Mindinho do pé direito? Sim, porque do esquerdo nem se fala! Pois ele é uma pisada mesmo no calo dali! Tresloucados como eram, o que diziam servia apenas pro risível, nada mais. Na arenga não diziam coisa com coisa, sujo falando do malavado: - Sai pra lá, enguiçado! Vai cheirar peido, pintor de rodapé! Quer briga, quer, bostinha-azeda? Vai te lascar, barrica fidaputa! Êpa! Que é que é isso, gente! É esse tolote de gente querendo me enfezar aqui que tô quieto, só pra me azucrinar! Oxe, um burrico desse querendo ser sabido, sai-te, tampinha! E sapecavam elogios injuriosos um ao outro por horas, dias, semanas, meses, anos. Nunca soube de uma trégua entre eles, sempre com uma dedada no frosquete, uma cotovelada no pau da venta, uma munhecada nos dentes, esse o tratamento amistoso entre os pariceiros, avalie na hora do bafafá. Mas o dedo mindinho do pé direito, foi demais. Como é mesmo? Respondeu um deles: - É porque é o mais insignificante dos dedos, igualzinho a ele que num vale um cocô de louro! Rapazes, vamos acabar com essa ingresia que já passou dos limites. Logo eram obrigado aos cumprimentos, apertos de mãos, abraços e deixa disso. Não dez segundos e lá estavam eles às voltas com desacordos: - Cara dum, cu de outro, quem abrir da vela é gafanhoto! Nessa hora o parrudo Zé Peiúdo entrou em cena, afastou os dois e mandou ver: Quando Deus andou no mundo, deixou grilo e gafanhoto, e deixou homem pequeno pra cheirar o cu dos outros. Quem é que encara, hem? Qual dos dois vai encarar? Ficou só mas mas, dali a pouco ninguém nem deu o sumiço dos dois, devem estar se esfregando nas quizílias por aí. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

NASRUDIN DE SHAH
[...] Nasrudin às vezes levava pessoas para viajar em seu barco. Um dia, um pedagogo exigente contratou-o para transportá-lo ao outro lado de um rio muito largo. Assim que se lançaram á água, o sábio perguntou-se se faria mal tempo. “Não me pergunte nada sobre isto”, disse Nasrudin. “Você nunca estudou gramática?” “Não”, disse o Mulla. “Neste caso, metade de sua vida foi desperdiçada”. O Mulla não disse nada. Logo desabou uma terrível tempestade. O pequeno e desorientado barco de Mulla começou a encher de água. Ele se inclinou para o companheiro. “Alguma vez você aprendeu a nadar?” “Não”, disse o pedante. “Nesse caso, caro mestre, toda sua vida foi perdida, pois estamos afundando. [...].
Trechos da obra As façanhas do incomparável Mulá Nasrudin (Roça Nova, 2016), do escritor e mestre Sufi indiano Indries Shah (1924-1996), contando histórias humorísticas das aventuras do sábio do folclore oriental, que vão do humor à iniciação ao pensamento profundo.

Veja mais sobre:
Cruzetas, os mandacarus de fogo, Concepção dialética da história de Antonio Gramsci, Sob o céu dos trópicos de Olavo Dantas, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, a pintura de Eliseo Visconti, a fotografia de Rita-Barreto, a arte de Benício & a música de Rosana Sabença aqui.

E mais:
No colo do pai de Hanif Kureishi, Viagem nas primeiras horas de Wole Soyinka, A crise na América Latina de Emir Sader, Técnica teatral de Erwin Piscator, a arte de Václav Hollar, a pintura de Carl Kricheldor & Isaac Lazarus Israels, a música de João Bosco, o cinema de Stelvio Massi & Joan Collins aqui.
Curto e grosso: O balanço da copa, O anti-édipo de Deleuze & Guattari, poemas de Arthur Rimbaud, Infância, imagem & literatura aqui.
Dois poemetos de amor pra ela: Beiju & Gula voraz aqui.
Frínico & o povo chora, Direito Ambiental, Educação Sexual, Psicopatologia, Psicose, perversão & neurose aqui.
Nem te conto & Big Shit Bôbras, O lobo da estepe de Hermann Hesse, Repenso o mundo de Wislawa Szymborska, Elegias & sátiras de Xenófanes de Colofão, a música de Gluck & Sylvia McNair, o cinema de Phil Karlson & Marilyn Monroe, a pintura de Richard Geiger & Philippe de Rougemont, a arte de Osvaldo Jalil & Bia Sion aqui.
E se nada acontecesse, nada valeria, Agá de Hermilo Borba Filho, Fábulas de Leonardo da Vinci, a música de Tomoko Mukaiyama, As glândulas endócrinas de M. W. Kapp, Compassos Cia de Danças, a arte de Eric Gill & Perron, A pintura de Bruno Di Maio & Madalena Tavares aqui.
É domingo nas mãos, Cinema de Ascenso Ferreira, A obra de arte & a reprodução de Walter Benjamim, Cinema Brasileiro, O que será de Chico Buarque, a pintura de Giuseppe Cacciapuoti & Umberto Brunelleschi aqui.
Aprendendo no compasso da vida, A psicologia social de Arthur Ramos, Sharon & minha sogra de Suad Amiry, a música de Nação Zumbi, o pensamento de Roger Bacon, Hans Richter & Transhumance, a arte de Georges Ribemont-Dessaignes & Jiddu Saldanha aqui.
O dia amanhece e é maravilhoso viver, A literatura brasileira de Afrânio Coutinho, O teatro de Françoise Sagan & Catherine Deneuve, o pensamento de Aristóteles, a música de Maggie Cole & a Sinfonia Pornográfica de Charles Baptiste, a pintura de Orly Faya, a arte de Hannah Höch & Arte Yoga aqui.
A filharada de Zé Corninho, Travessia marítima de Thomas Mann, O casamento de Anne Morrow Lindbergh, a música de Charlotte Moorman, O homem & a natureza de Alan Watts, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, Emmanuelle Seigner, a arte de Hansen Bahia & Attila Richard Lukacs aqui.
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CONSCIÊNCIA DAS ESCOLHAS DE ORAGE
[...] Você está conscientemente ciente das escolhas que faz e das decisões que toma? Você acorda de manhã e se propõe a levantar-se. Pergunte a si mesmo se quer se levantar. E seja honesto quanto a isto. Você toma banho – é realmente por que gosta ou, se pudesse, você se esquivaria? Você toma café – é exatamente o desjejum de que você gosta, em espécie e quantidade? É o seu desjejum que você faz ou simplesmente o desjejum definido pela sociedade? Você quer na verdade comer ou não? Você vai pro seu escritório... você decide sobre os deveres domésticos e sociais do dia – eles são suas preferências naturais? Por sua livre escolha você estaria onde está? Fazendo o que faz? Pressupondo que, no presente, você aceita a situação geral, você está fazendo aquilo de que gosta em detalhes? Você fala disto, daquilo ou das pessoas como lhe agrada?Você realmente gosta ou apenas finge gostar destas coisas e pessoas? (Lembre-se de que não é uma questão de agir sobre seus gostos ou aversões, mas apenas de descobrir quais eles são realmente. Passe o dia oferecendo-se a cada momento uma oportunidade nova para se questionar – eu realmente gosto disto ou não? A noite chega, com as goras de lazer, o que você na realidade gostaria de fazer? O que de fato o diverte, teatro ou cinema, bate-papo, leitura, música, jogos e exatamente quais? Fazer aquilo de que gosta não pode continuar se repetindo muitas vezes mais tarde. Na verdade. Você pode deixar que isto aconteça por si mesmo. O que é importante é saber do que você gosta. [...].
Trecho do exercício Você sabe do que gosta, você gosta do que faz?, extraído da obra Psychological exercises and essays (Janus, 1965), do professor e intelectual britânico Alfred Richard Orage (1873- 1934).

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá as comemorações do Dia Mundial do Rock com especiais dos The Beatles, Gênesis, Pink Floyd & Led Zeppelin & os seus maiores sucessos em shows ao vivo e em concertos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, poeta, músico, fotógrafo e performer tcheco Hujber Gunter.
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DEDICATÓRIA: MARQUINHOS CABRAL
A edição de hoje é dedicada ao cantor Marquinhos Cabral, homenagem pela passagem do Dia do Cantor.
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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