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segunda-feira, abril 29, 2024

SAM HARRIS, DANIELA CAMACHO, CHO NAM-JOO & CRIANÇAS PERNAMBUCANAS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do grupo instrumental MaKaMo, formado pelas instrumentistas e compositoras Moema Macêdo (bandolim), Maíra Macêdo (cavaquinho), Karol Maciel (acordeon) e Gabi Carvalho (violão).

 

UM DIA NOUTRO DE AMANHÃS & ONTENS... – Naquela do quando chove ou estia, a boia embalada pelo vaivém dos sonhos em redemoinhos trazia a surpresa da véspera pra reinvenção de outro amanhã. Nem havia senão e sem precisar o porquê dos quando nem onde as coisas do fim. Mas quem nunca tremeu diante do perigo, quem jamais se aperreou com adversidades: a felicidade urgente adoecendo cada vez mais gente, enquanto livros intactos de alta literatura na biblioteca do telecentro de Campestre são jogados no lixo das Alagoas. A indignação em dia ressoava como se tomasse vulto pelas acrobacias dos ventos ecoando Han Kang: O tempo era uma onda, quase cruel na sua implacabilidade... Então, se um doido bateu à sua porta é só atinar pro ditado do remédio de um é o outro, afora afastar todo mau olhado, com a irrecusável oportunidade de se habilitar à sabedoria e, de quebra, ganhar um salvo conduto para a sorte grande, afinal todo louco é amigo de Deus. É só voar com uns versos de Maria Negroni: A vida é uma jornada rumo ao nada e escrever é um atalho... mortalmente infinito \ sonhamos que somos... Como o nome chama as coisas é preciso ter cuidado, falar baixo para não acordá-las e saber que tudo acontece do impensável: falar pode trair a alma, como diz a lição nativa. E isso vale também para quem tem posses que vão dali pracolá e a perder de vista, mesmo que tenha perdido no tempo o que seja de dentro de si mesmo e restar só o perecível do lado de fora pra valer as rezas de infinitas velas na morte inevitável. Nunca é demais aprender com Niède Guidon: O que eu quero é olhar os outros nos olhos. É não ter que esconder nada. Tudo o que fiz aqui, procurei fazer o melhor possível... Se já perdia a conta de quantos recomeços, não será além da conta reinventar a vida uma vez mais, até que chegue a hora, quem sabe, da remissão neste primitivo tempo em que vivemos... Até mais ver.

 

OS NOMES DOS DEFINITIVOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Um único objeto: \ soco de palavras ilegíveis em papel branco \ carcinoma diz em letras pretas \ (… tempo parou um dois vinte e quatro segundos \ parado. tempo …) \ câncer de flor impreciso no local da língua da \ glândula parótida \ (… trezentos e dezenove segundos e assim por diante \ até o final dos números …) \ engolir saliva pela última vez. muito lentamente \ na cama do hospital está nevando \ tumor pérola milagre minúsculo \ tumor substantivo propenso à multiplicação \ como a palavra floresta \ Há uma floresta em chamas na floresta: \ flor textual ereta convallaria não morra \ parasita cefalantera sem sentido fuja da fumaça \ arraste sua coroa \ afunde a espada fugaz neste corpo para sempre \ cirurgicamente docemente \ á aberto, anestesiado em outro mundo, \ estabelecerei a ordem dos instrumentos \ diante do esplendor do sangue, as mãos dos homens são mais graciosas \ (… seis sete quando aquele pavor parcimonioso parou …) \ O perigo que não se vê não existe. até que alguém, \ no momento menos esperado, \ ordene que você coloque uma máscara que se pareça com você. \ nêutrons prótons frutos da vertiginosa \ rapidez crianças vêm até mim \ lentamente tremo e fico com o rosto muito branco \lentamente a ferida está desperta \ para o animal que estou curando não é um hábito terrestre\ —ir ao local da música para fugir do medo \ —não. música da madrugada é falsa \ Deixei-me cair na mesa \ odeio o ausente que deixou seus cavalos \ amarrados ao meu sonho \ as cordas do violino \ o colar de salamandra da enforcada \ Eu digo que a doença vai me ajudar a viver \ Eu digo que a seca contém a floresta \ gaultheria insana evergreen combate \ a catástrofe humilhação punição é felicidade \ o tumor, um choque, uma vontade de dizer coisas horríveis.

Poema da premiada poeta e tradutora mexicana Daniela Camacho, fundadora da revista El Puro Cuento e autora das obras En la punta de la lengua (2007), Aire seria (2008), Plegarias para insomnes (2008), Pasaporte (2012) e Experiencia Butoh (Amargord, 2018), entre outros.

 

NASCIDA EM 1982 – [...] O mundo mudou muito, mas as pequenas regras, contratos e costumes não, o que significa que o mundo não mudou nada. [...] As garotas burras são burras demais, as garotas inteligentes são muito espertas e as garotas comuns são muito comuns? [...] Enquanto os infratores temiam perder uma pequena parte de seus privilégios, as vítimas corriam o risco de perder tudo [...] Você tem razão. Num mundo onde os médicos podem curar o cancro e fazer transplantes de coração, não existe um único comprimido para tratar as cólicas menstruais. ‘O mundo quer que nosso útero esteja livre de drogas. Como terrenos sagrados numa floresta virgem. [...] Não sei se vou me casar ou se vou ter filhos. Ou talvez eu morra antes de fazer isso. Por que tenho que negar a mim mesmo algo que quero agora para me preparar para um futuro que pode ou não chegar? [...] cresceu ouvindo ordens para ser cautelosa, para se vestir de maneira conservadora, para ser “elegante”. Que é sua função evitar lugares, horários do dia e pessoas perigosas. A culpa é sua por não perceber e não evitar. [...] Pessoas que tomam um analgésico ao menor sinal de enxaqueca, ou que precisam de creme anestésico para remover uma verruga, exigem que as mulheres que dão à luz suportem com prazer a dor, a exaustão e o medo mortal. Como se isso fosse amor maternal. Esta ideia de “amor maternal” está se espalhando como um dogma religioso. [...] As mulheres assumem todas as tarefas menores e complicadas sem serem solicitadas, enquanto os homens nunca o fazem. Não importa se são novos ou os mais novos - eles nunca fazem nada que não lhes seja dito para fazer. Mas por que as mulheres simplesmente assumem as responsabilidades? [...]. Trechos extraídos da obra Kim Jiyoung, Born 1982 (Intrínseca, 2022), da escritora sul-coreana Cho Nam-joo.

 

ACORDANDO PARA ESPIRITUALIDADE SEM RELIGIÃO – Nós temos uma escolha. Temos duas opções como seres humanos. Temos uma escolha entre conversação e guerra. É isso. Conversa e violência. E a fé é um obstáculo à conversa. Teologia é ignorância com asas... Pensamento do escritor, filósofo e neurocientista estadunidense Sam Harris, que na sua obra Waking Up: A Guide to Spirituality Without Religion (Simon & Schuster, 2015), expressa que:  [...] Nossas mentes são tudo o que temos. Eles são tudo o que já tivemos. E são tudo o que podemos oferecer aos outros. Isso pode não ser óbvio, especialmente quando há aspectos da sua vida que parecem precisar de melhorias – quando seus objetivos não são alcançados, ou você está lutando para encontrar uma carreira, ou tem relacionamentos que precisam ser reparados. Mas é a verdade. Cada experiência que você já teve foi moldada por sua mente. Todo relacionamento é tão bom ou tão ruim por causa das mentes envolvidas. Se você está perpetuamente irritado, deprimido, confuso e sem amor, ou se sua atenção está em outro lugar, não importa o quão bem-sucedido você se torna ou quem está em sua vida – você não desfrutará de nada disso. [...] Minha mente começa a parecer um videogame: posso jogá-lo de maneira inteligente, aprendendo mais a cada rodada, ou posso ser morto no mesmo lugar pelo mesmo monstro, repetidas vezes. [...] Se, como muitas pessoas, você tende a ser vagamente infeliz a maior parte do tempo, pode ser muito útil criar um sentimento de gratidão simplesmente contemplando todas as coisas terríveis que não aconteceram com você, ou pensando em quantas pessoas o fariam. considere suas orações respondidas se eles pudessem viver como você está agora. O simples fato de você ter tempo para ler este livro o coloca em companhia muito rara. Muitas pessoas na Terra neste momento nem conseguem imaginar a liberdade que vocês atualmente consideram garantida. [...] Por um lado, a sabedoria não é nada mais profundo do que a capacidade de seguir os próprios conselhos. [...] Não há nada passivo na atenção plena. Poderíamos até dizer que expressa um tipo específico de paixão – uma paixão por discernir o que é subjetivamente real em cada momento. É um modo de cognição que é, acima de tudo, sem distrações, receptivo e (em última análise) não-conceitual. Estar atento não é uma questão de pensar mais claramente sobre a experiência; é o ato de vivenciar com mais clareza, incluindo o surgimento dos próprios pensamentos. Mindfulness é uma consciência vívida de tudo o que aparece na mente ou no corpo – pensamentos, sensações, humores – sem se apegar ao que é agradável ou recuar diante do que é desagradável. [...] Algumas pessoas ficam satisfeitas em meio à privação e ao perigo, enquanto outras ficam infelizes, apesar de terem toda a sorte do mundo. Isto não quer dizer que as circunstâncias externas não importem. Mas é a sua mente, e não as próprias circunstâncias, que determina a qualidade da sua vida. Sua mente é a base de tudo que você vivencia e de cada contribuição que você dá à vida de outras pessoas. Diante desse fato, faz sentido treiná-lo. [...] A espiritualidade deve ser diferenciada da religião – porque pessoas de todas as religiões, e de nenhuma, tiveram os mesmos tipos de experiências espirituais [...] A forma como prestamos atenção ao momento presente determina em grande parte o caráter da nossa experiência e, portanto, a qualidade das nossas vidas. Os místicos e os contemplativos têm feito esta afirmação há muito tempo – mas um corpo crescente de investigação científica confirma-a agora. [...] todos nós buscamos a realização enquanto vivemos à mercê de experiências mutáveis. Tudo o que adquirimos na vida se dispersa. Nossos corpos envelhecem. Nossos relacionamentos desaparecem. Mesmo os prazeres mais intensos duram apenas alguns momentos. E todas as manhãs somos expulsos da cama pelos nossos pensamentos. [...] O sentimento que chamamos de “eu” é em si o produto do pensamento. Ter um ego é a sensação de estar pensando sem saber que você está pensando [...] Simplesmente aceitar que somos preguiçosos, distraídos, mesquinhos, facilmente provocados pela raiva e propensos a desperdiçar nosso tempo de maneiras das quais nos arrependeremos mais tarde não é um caminho para a felicidade. [...] Cada momento do dia – na verdade, cada momento da vida – oferece uma oportunidade de estar relaxado e receptivo ou de sofrer desnecessariamente. [...] A realidade da sua vida é sempre agora. E perceber isso, veremos, é libertador. Na verdade, acho que não há nada mais importante para entender se você quiser ser feliz neste mundo. [...]. Ele é autor das obras Free will (2012), Lying (2013) e The moral landscape: how science can determine human values (2010). Veja mais aqui.

 

POR AMOR ÀS CRIANÇAS PERNAMBUCANAS

[…] E eu fico apenas a refletir que as amizades políticas são sempre e naturalmente passageiras. Mas as que se firmaram sobre um ideal, no serviço de uma causa nobre, vão buscar, na eternidade de seus motivos, a força e a sobrevivência, que os interesses humanos não sabem e não podem encontrar [...]

Trecho da crônica Por amor às crianças pernambucanas, extraída da obra Assuntos pernambucanos (Fundarpe, 1986), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000), tratando acerca de temas como Guerra dos Mascates, dos engenhos centrais às usinas de açúcar, a Revolução Praieira, Nelson Chaves, Antonio Carneiro Leão, a pernambucanidade de Freyre, Mauro Mota, Joaquim Nabuco, Urbano Sabino, Oliveira Lima, o socialismo de Abreu e Lima, o separatismo e a restauração pernambucana, missões de capuchinhos franceses, Capitania de Pernambuco, a nêmesis de Capistrano de Abreu, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

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Crônica de amor por ela aqui.

 


quarta-feira, julho 15, 2020

RASGA CORAÇÃO DE VIANINHA, MAYANA ZATZ, EADWEARD MUYBRIDGE & DOSSIÊ FEMINILIDADE



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: QUASE UM CLAUSTRÔMANO, EITA! - Desde que me entendo por gente, ouço do perigo a nos espreitar: olha a tuia de aerólitos e cometas ameaçando cair! Molejo de cintura e espinhaço, lá vem bala perdida! Tirou fino, raspão! Ande na linha e se ligue no trem, ora! O raio torra, prestenção no desmantelo, tanto mata sapo como espalha merda, se avie! Vixe, o estrupício! E por aí vai, peibufe etc e coisa e tal. Até aquela da Cartomante de Ivan/Martins: Nos dias de hoje é bom que se proteja... Não ande nos bares, esqueça os amigos, Não pare nas praças, não corra perigo. Não fale do medo que temos da vida... Há quanto tempo a gente ligado para escapar na hora do revestrés! E a vida segue: quem teme não vive! Vou de Oduvaldo Vianna Filho: Não estamos atrás de novidades. Estamos atrás de descobertas. Não somos profissionais do espanto. Para achar a água, é preciso descer terra adentro, enchacar-se no lodo. Mas há os que preferem olhar os céus e esperar pelas chuvas. Em tempos de pandemia, para quem não é claustrofóbico, nem como eu que ando meio agorafóbico ou demofóbico, fica em casa, pega um livro e dá uma lida boa, ou ouve uma música daquelas bem grandonas, ou assiste um filme daqueles de empenar o juízo e deixar você pensando um bocado de tempo no que o diretor queria dizer, enfim, é isso que faço e adorando ficar em casa.

DUAS: DAS ESCORREGADAS & LIÇÕES DA VIDA – Ah, se a gente for se engasgar com os temores que nos metem na vida, a gente não vive. Minha vó costumava dizer que cobra que não anda, não engole sapo: morre de fome. Eu que sempre fui presepeiro, nunca deixei de me arriscar, mesmo quando me sentia altamente seguro. Afinal, só em viver, corre o risco de qualquer forma: para morrer basta estar vivo. Tanto é que um dia desses numa aula de Neuropsicologia, do professor Nicolaas Grosse Vale, dei de cara com essa do Alexander Luria: os anos de desastre nos proporcionaram a maior oportunidade no avanço da ciência. Conversar é um milagre. Comigo foi assim mesmo: tagarela que só, dos tropeços e quedas, tudo que havia para aprender.

TRÊS: DAS QUEDAS, OS IDEAIS – Quase sempre vou dormir nos escombros e, dia seguinte, depois de uma boa noite de sono, acordo pronto para dar o pontapé na estaca zero como se estivesse renascendo a cada dia. Escoriações duram alguns dias, passa. Numa dessas, estava eu condoído das lapadas ocasionais, no curso de Jornalismo assistindo uma palestra do saudoso Barbosa Lima Sobrinho, quando ele encerrou dizendo: Não posso renegar o sacrifício de lutar e defender os ideais de toda a minha vida. A luta dá razão à vida. Eita! Injeção de ânimo dessa, levantei na hora para aplaudir, nem lembrava mais de dor nem de nada, queria era agir, assim viver. E vamos nessa! Até amanhã, depois conto outra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Queremos identificar as variantes genéticas de risco e aquelas protetoras. Como temos grande interesse em descobrir os genes protetores, vamos focar nos superidosos [...] As pessoas me perguntam como um centenário conseguiu sobreviver ao coronavírus. E eu respondo que é exatamente por ser um centenário. Em algumas famílias temos casos de pessoas que suportam inúmeras situações adversas do ambiente. [...]. Trechos da entrevista O que explica resistência de superidosos ao coronavírus? (Boas Novas, 2020), da bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz, que sobre os estudos ela explicou: Essa pesquisa começou em março e nós já estamos coletando amostras de voluntários. A gente quer entender por que algumas pessoas se infectam com o novo coronavírus e desencadeiam um quadro mais grave, enquanto outros convivem de perto com pessoas infectadas e não desenvolvem nenhum sintoma. Nós acreditamos que isso é devido à genética. Temos as pessoas assintomáticas e existem outros que não possuem sintomas e que os exames dão todos negativos – estas, são chamadas de pessoas resistentes. Portanto, temos um interesse enorme em entender como isto funciona e qual a frequência destas pessoas na população. Atualmente, estima-se que as que têm anticorpos são aquelas que foram expostas e são assintomáticas, mas não sabemos quantos não possuem anticorpos e podem ser resistentes. E arremata: O mundo não será mais o mesmo pós-coronavírus. Por conclusão, ela diz que: Sempre há resistência quando a ciência avança. Veja mais aqui & aqui.

RASGA CORAÇÃO DE VIANNINHA
[...] MANGUARI: O que significa ser espontâneo num mundo de três bilhões de pessoas, não somos o clube dos quinhentos... que é ser espontâneo? LUCA: Chi, ele nem sabe mais o que é ser espontâneo [...] LUCA: Verdade que quase 70 por cento das mulheres nunca tiveram prazer sexual? [...] E o capitalismo também é culpado? MANGUARI: Acho que é... claro que é... LUCA: Na Rússia como é? Cinco coitos por quinquênio? MANGUARI: ... primeiro, parece que foi amor livre, depois... acho que teve um Sexpol - é política sexual... agora, parece que é muito moralista... o proletariado é moralista... LUCA: Por quê? Ele não é a vanguarda revolucionária? [...] LUCA: ... gás S02, brometos, DDT, 40 toneladas de corante, é isso que as pessoas comem! Vocês estão comendo coisas mortas, fúnebres, e isso é que explode dentro do sangue de vocês! Hein? E para fugir desta morte, hein? Essa ansiedade! Pra afogar essa ansiedade vocês resolveram fazer o reino da fartura e pulam em cima da natureza, querem domá-la à porrada e comem morte e engolem carnes, bloqueiam o corpo, os poros, sobra o cérebro pensando incendiado em descobrir um jeito de não viver e a tensão toma conta de tudo e vocês só parem guerras, as guerras pela justiça, pela liberdade, dignidade e nada descarrega a tensão, o cheiro de podre vem de dentro, o sexo entra pelas frestas, sobra o sexo nas noites solitárias martelando, então mais guerra e napalm e guerras... [...]. LUCA: ... Já foram encontrados pinguins com inseticida no corpo, a Europa já destruiu todo seu ambiente natural, diversas espécies de animais só existem nos jardins zoológicos, as borboletas estão acabando, vocês vivem no meio de fezes, gás carbônico, asfalto, ataques cardíacos, pílulas, solidão... essa civilização é um fracasso, quem fica nela e se interessa por ela, essas pessoas é que perderam o interesse pela vida... eu é que devia te chamar pra largar tudo isso... é na pele a vida, é dentro da gente, vocês não sabem mais se maravilhar! Eu não estou largado pai, ontem estive na porta de uma fábrica de inseticida, fui explicar pros operários que eles não podem produzir isso... [...].
RASGA CORAÇÃO DE VIANNINHA - Trecho do texto teatral Rasga coração (SNT, 1979), do dramaturgo, ator e diretor de teatro e televisão, Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha, que sobre a peça teatral escreveu: Rasga Coração é uma homenagem ao lutador anônimo político, aos campeões das lutas populares; preito de gratidão à velha guarda, à geração que me antecedeu, que foi a que politizou em profundidade a consciência do país… Em segundo lugar, quis fazer uma peça que estudasse as diferenças entre o novo e o revolucionário. O revolucionário nem sempre é novo e o novo nem sempre é revolucionário. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A FOTOGRAFIA DE EADWEARD MUYBRIDGE
A arte do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge (1830-1904), inventor do zoopraxiscópio que detectava o movimento na projeção de retratos, precursor da película de celuloide com seus experimentos. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Como pode o gesto artístico funcionar como chave de acesso a modos de existência e de pensamento de um ‘ser ou tornar-se mulher’ como potência e ação? Como compreender as sutis dinâmicas de poder que os imaginários de masculinidades e feminilidades reproduzem para além das cenas e movimentos nos palcos?
O Dossiê Feminilidade é um projeto desenvolvido pela professora Lady Selma Albernaz (UFPE), a performer Rebeca Gondim (Coletivo Rua das Vadias) e a atriz, pedagoga e ativista Mayza Dias de Toledo (Coletivo Flor do Mangue Recife) que levam a pensar o espaço da arte tanto como reprodutor de violências relacionadas a gênero e ao feminino quanto como potência para formação de novos olhares sobre essas questões.
&
Cana Caiana - Poemas de Ascenso Ferreira, do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956) aqui & aqui.
Sobrados e mocambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) aqui.
Bando de mônadas, de Vital Corrêa de Araújo aqui.
Frevo – Uma apresentação coreológica, da historiadora e pesquisadora doutora em Dança pela University of Surrey, Maria Goretti Rocha de Oliveira aqui.
Vulvas Livres aqui.
Lampioa & Zé Bunito aqui.
&
Tacaimbó aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, novembro 21, 2017

HAROLDO DE CAMPOS, MAGRITTE, GISMONTI, KUNDERA, CÉLIA LABANCA, POESIA ABSOLUTA, PRAIEIRA & CORTÊS

O VÔO DE MAGRITTE - Imagem: The Kiss (1951), do pintor belga Rene Magritte (1898-1967). - Um salto e sei a minha pequenez: quero voar. Antes me fosse possível abrir os flancos, projetar o espaço e ser-me além do tempo. Um pulo e os tropeços, um passo e os baques, um pinote e as quedas, degraus, atropelos, escadas e correiras, ladeiras e embaladas: humano sou, quero mais. O sonho do voo: cadê minhas asas! Num esforço abro minhas portas, estavam trancadas, tenho de escancará-las. Se assim não fizer, serei só fracassos. Forço meus flancos, braços abertos: sou maior que a mim mesmo, posso ir prali, pracolá e voar. Sei disso, posso, vou. Os pássaros passam e a sua ascensão na minha quimera: as nuvens às mãos, pro alto eu vou de olhos fechados e visualizo descampados, planícies, maravilhas, torpezas, calamidades. Hei de melhorar a mim para compreender o que posso. Quisera ensinar a olhar daqui de cima, quão ínfimos, quão íntimos somos tudo e todos. Aprendo a arte, sou o dom: o coração alado e o universo nos olhos – vejo que posso ser mais que sou, ainda, ir além, alcançar a imensidão. Aprendo mais: pra guerra faço Paz, sorrio e aprendo o Sol. Sei de ontem, sou hoje, vivo amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial do compositor, arranjador, cantor & multinstrumentista Egberto Gismonti, reunindo seus álbuns Em família (1981), Feixe de Luz: todo começo é involuntário (1988), Fantasia (1992), e apresentações ao vivo com a Orquestra Corações Futuristas, com trio no Montreal Jazz Festival, com Jane Duboc, Al Di Meola, John McLaughlin, Paco De Lucia, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Hamilton de Holanda. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – O eterno retorno é uma ideia misteriosa, e Nietzsche, com essa ideia, colocou muitos filósofos em dificuldade; pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que ssa repetição ainda vai se repetir infinitdamente! O que significa esse mito insensato? [...]. Trecho extraído da obra A insustentável leveza do ser (Rio Gráfica, 1983), do escritor tcheco Milan Kundera. Veja mais aqui.

A REVOLUÇÃO PRAIEIRA – [...] Muitos sacrifícios custou realmente a luta da Praia ao povo pernambucano. O número de mortos e feridos excedeu o que se havia registrado nas revoluções anteriores. Depredações, perseguições, prejuízos de toda sorte atingiram a população da província. Entre os próprios chefes da política, opu entre os comandavam a revolução, não foram pequenas as baixas, nem faltou para eles o castigo imperial. [...] No processo do Recife, foram pronunciados 54 indiciados no movimento, sem contar os condenados em outras comarcas da província. [...]. Trecho de A revolução praieira, extraída de Assuntos pernambucanos (Tempo Brasileiro/Fundarpe, 1086), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CORTÊS – O município de Cortês é forado pelo distrito sede e pelos povoados Agrovila, Barra de Jangada e Usina Pedrosa. Surgiu a partir do sítio homônimo, em 1872, localizado às margens do Rio Sirinhaém, no então distrito de Ilha de Flores, comarca de Bonito. Em 17 de abril de 1875, ocorreu a passagem da estrada de ferro de Ribeirão a Bonito, mas a construção foi interrompida, sendo em Cortês a estação terminal. Em 1892 instalou-se na região a Usina Pedrosa, impulsionando o desenvolvimento local. Em 5 de janeiro de 1911 foi criado o distrito, pertencente ao distrito de Amaraji e o povoado tornava-se vila. O município foi criado em 29 de dezembro de 1953. Veja mais aqui.

DAS COISAS DA MINHA TERRA - [...] Como se vê, por lá havia mesmo de tudo. passavam até boiadas! [...] Seríamos medo das boiadas, invariavelmente, todo fim de tarde, durante o ano inteiro, assume ela. Na época de Carnaval, amedrotavam-nas os caboclinhos, que, sendo lindos manifestantes da resistência cultural do estado, ao chegarem àquela ruam em seus típicos trajes de índios, correndo com passos firmes de ir e vir, para frente e para trás, sempre em filas indianas, frenéticos e fortes, marcadas pelos tacapes que portavam e com seus enormes cocares, quase as levavam, à morte. Por aflição [...] nenhuma delas tinha medo, no entanto, quando também aos domingos de todos os carnavais, à tardinha, por lá passava o Maracatu de Dona Santa cumprindo seu itinerári. Maracatu-rei, referencia para todas as nações. Dona Santa era negra simpática e enorme de gorda. Segurava a boneca do maracatu que tinha saia longa, ricamente bordada com fitas coloridas, enfeitada de babados e de bicos de organdi e bordado inglês, que lhe encobria a mão esquerda. [...] Ela e seu grupo na dança de rodas cantavam e dançavam as eternas modinhas infantis: “Atirei o pau no gato”, “Eu vim de tororó”, “Terezinha de Jesus”, “Eu sou pobre, pobre, pobre”, “Une-dune-tê” e “Escravos de Jó”, quando não jogavam pedrinhas sentadas na calçada, ou pulavam academia, cujos traços eram feitos na calçada a giz [...] Quando lhes sobrava energia, jogavam ainda, e como sempre no meio da rua [...], meninas contra meninos, o jogo de espião, que também chamavam queimado. [...]. Trechos extraídos da obra Aminta (Bagaço, 2008), da escritora Célia Labanca. Veja mais aqui.

AUTO DO POSSESSO – CENA 1 – UM GIGATE SUGA A NOITE PELOS EUCALIPTOS – O AMANTE Dá-me, ó amada de olhos vítreos, / que eu te celebre nos jardis suspensos / onde o delírio abriu as pétalas do álcool! A AMADA Ouve: / agora, junto ao mar / um enxadrista joga. O AMANTE O outono junto ao mar... / amiga, parte a cápsula do sábado, / e vê que dancem no ar os dervixes do vento. A AMADA Odeio o mar. / Odeio o ruído do mar. O vento. / Olha a porfia dos cavalos pretos / no teu vizinho que jogou xadrez! O ENXADRISTA (para o Amante) Que fazer dos peões do levante / e do velho rei calvo? / Que fazer da rainha branca / apavorada entre os roques? A AMADA Jogá-la ao mar, / eu disse: é jogá-la ao mar. O AMANTE Amiga, dá-me que eu cante / à luz de uma estrela crua; / onde teu corpo jazia, coalhado de rosas mornas; / onde os rostos dos suicidas entrementes se devoram; / onde nasce um lírio adunco, à luz de uma estrela crua. CENA II – O ESPELHO DIANTE DO MAR – O POSSESSO A que vai morrer naságuas / vestiu-se de insônia e tule, / fiou seus cabelos verdes / na roda do vento sul. / A que vai morrer nas águas / caminha entre lampadários, / fugida do ás de espadas, / é a doida que vem do sul. O EXORCISTA No sexto dia tu eras / a voz que imprecava ao céu. / Eras o bruxo e sentavas / à esguelha de Capricórnio. A AMADA ... Jogá-la ao mar. O EXORCISTA Colheste o lótus salobro / no turvo arrioi da frebe / que desce um monte calvo / por sete bocas de treva. O POSSESSO Que pode a face da lua / contra sua tépida face / de lua mal-sazonada? / Que podem os olhos d’água / contra seus olhos que acenam / fanais e espumas à água? AMADA E O EXORCISTA (a um tempo) Em disse: é jogá-la ao mar! O EXADRISTA Modera, ó bispo noturno, / a faina em meu tabuleiro / e atende: um poeta nasce / nos bulbos do mês de agosto. CENA III – A MONTANHA E O VALE – O ENXADRISTA Teu filho nasce do vente / duma virgem do Tibet, / cuja flor, polinizei-a / nas estrufas do desmaio. / Ele será o feiticeiro de Radja Gomba, / e a sua voz precipita as rolas carnívoras / quando o YAMA polofronte / dança no círculo das mãos. O EXORCISTA por isso, / renuncia! O ENXADRISTA Proporá libações nos sabats de setembro, / onde magas desnudas assolam o quadrante / amarradas à crina dos javalis. O EXORCISTA Por isso, / renuncia! A AMADA Rude e cruento, o amor! / Meu seio lhe dará moderação e páscoa. / Enfraqueço na água o vinho dos meus lábios, / e minha carne sabe a pão ázimo ou trevo. O EXORCISTA Renuncia, / oh renuncia! O POSSESSO Certo poderei acalentar-te o púbis / minado de papoulas! / Dá-me, ó rês submissa, que eu celebre, / e que erga o teu corpo no meu canto / como um troféu no topo dos cristais! O ENXADRISTA Mulher, / eis aí teu filho. Poema extraído da obra Melhores poemas Haroldo de Campos (Global, 2000), reunindo poemas de do poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2002), organizado por Inês Oseki Dépré. Veja mais aqui e aqui.

POESIA ABSOLUTA NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Apresentação da Poesia Absoluta aos estudantes da rede pública de ensino, na Biblioteca Fenelon Barreto, pelo cantor, compositor e poeta Zé Ripe. Veja mais aqui.

Veja mais:
O pensamento de Voltaire aqui e aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor belga Rene Magritte (1898-1967).
Veja mais aqui.


quinta-feira, agosto 17, 2017

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele durante toda nossa infância. Espalhafato de conversa fiada, reinações de comer tempo e espaço, coisas do possível mais inventado que se possa crer: a gente vivia além da conta mesmo. Da beira do rio os meus olhos vermelhos na minha migração pra Letácio Montenegro – onde por conta de um leite achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra, fui acometido duma hepatite de meses -, daí pro Caçotinho que era a Cohab, passando pelo Beco do Mijo – no qual dei um mergulho indesejado de cima da casa na lavanderia entupida de frascos -, Beco do Capim do namorico aprumado e jogadas de bola, Rua da Aurora, Rua Nova até a Praça Ismael Gouveia, era mudando de endereço e de escola. E ele lá, no mesmo endereço de sempre: a casa de Pai Lula & Carma, reduto de nossas mais cabeludas presepadas. Adolescemos juntos: chulé, pigarros, lapadas e trapalhadas. Tudo foi tão rápido que parece que foi ontem. Quando eu chegava na casa dele, ele lá inquieto altas curtições: Beatles, João Gilberto & Bossa Nova, David Bowie, Alice Cooper, Rolling Stones, Tropicália & dos Mutantes, Woodstock, Bob Dylan & Joan Baez, Simon & Garfunkel, Elvys, Elis, Frank Zappa, Led Zeppelin, do iê-iê-iê da Jovem Guarda, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Tim Maia, maior salada com levada de tudo no meio das mais diferentes e efervescentes tendências musicais, quantas linguagens e ele incorporando de tudo no seu repertório pessoal, com seu microfone e plateia invisíveis e eu solando uma guitarra imaginária do bucho acompanhando tudo. Ele cantava tudo o que era de tons e sons, isso era década de 1970. E logo escapuliu a cantar por aí, no tempo em que havia o predomínio dos bailes com os sucessos do rádio, dos programas de auditórios, dos temas de novelas na época dos vinis marcados pelas gravadoras e os jabás. Nem vi direito e ele já cantava por aí, botando pra fora sua sensibilidade artística, participando de festivas e feiras de música, imprimindo sua personalidade, uma voz diferente, um performer afinado, ousado e cantando de tudo. Em um dado momento ele sumira, dera uma de hippie e picara a mula mundo afora. Cadê-lo? Nem sinal. Quando dei por mim, eu já estava em Recife e a gente se cruzando, trocando ideias e tons durante toda a primeira metade dos anos 1980. De lá pra cá, uma ou outras vezes, bebericando com pinoias, enterrando nossos mortos, ressurgindo a cada dia, revivendo cada hora. Foi aí que veio a maior sacada: ele aprumou uma parceria com Genésio Cavalcanti e Zé Linaldo de sair cada coisa bonita de nem saber direito no meio de tantas qual melhor. O que vale de mesmo fica na entrevista que se encontra mais abaixo, confira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RIO UNA
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar 
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
É que ele nasce pelas bandas de Capoeiras
Vai descendo as cachoeiras
Ligeiro que nem o vento
Chega em São Bento ele sorri de alegria
A correnteza tá dizendo
Se eu pudesse eu não descia
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Pede licença e entra em Cachoeirinha
É quando vê quatro vaquinhas
Bebendo do seu produto
Se eu pudesse
Eu demorava um tiquinho
Mas vou passar em Altinho
Nem que seja um minuto
Chega em Altinho
Ele se alegra e se agita
Quando vê a moça bonita
Na barreira matutina
Para Agrestina ele corre com emoção
As águas batendo nas pedras
Até parece uma canção
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Chega em Palmares
Ele mata a saudade
Passa dentro da cidade
Valente como um leão
Em Água Preta ele deixa de ser arisco
Respeita o padre Francisco 
E pede a sua benção
Aí ele entristece 
E bota pra chorar
Se despede de Barreiros
E emboca pra dentro do mar
Música extraída do álbum Meu Cantar (Cactus/RCA, 1982), do cantor e compositor Jorge de Altinho. Veja mais aqui e aqui .

RIO UNA – A despeito da opinião dos entendidos, que prognosticavam uma trovoada de maiores proporções para o dia seguinte, o tempo amanheceu firme, sol quente de verão. Mas o povo em geral se mostrava satisfeito, certo de que nem tão cedo faltaria água na cidade. O Una transbordara, os açudes dos arredores estavam sangrando, as cisternas das casas residenciais com o seu fornecimento garantido para muitos meses. Comentavam-se nos cafés, nas barbearias, na farmácia, os estragos causados pela chuva. Estragos, todavia, benfazejos, que a todos contentavam. [...] Trecho extraído da obra Jutaí menino (Bagaço, 1995), do escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui.

O FUTURO DO HOMEM – Há muito distúrbio e corrupção no mundo; as pessoas vivem extremamente perturbadas. É perigoso andar pelas ruas. Quando falamos em estar livres do medo, queremos a liberdade exterior – estar livres do caos, da anarquia, da ditadura. Mas nunca investigamos nem queremos saber se há uma liberdade interior, uma mente livre. Essa liberdade é real ou teórica? Consideramos o Estado como um obstáculo à liberdade. Os comunistas e outros povos totalitaristas afirmam que não existe essa tal de liberdade; o Estado, o governo, é a única autoridade. E estão suprimindo todas as formas de liberdade. Que espécie de liberdade, portanto, querem? A externa? Fora de nós? Ou a liberdade interior? Quando falamos de liberdade, trata-se de liberdade de escolha entre este e aquele governo, aqui e lá, entre liberdade exterior e interior? A psique interna sempre conquista o exterior. a psique, isto é, a estrutura interior do homem (seus pensamentos, suas emoções, ambições, ações, ganância) sempre conquista o exterior. assim, onde buscar a liberdade? Podemos estar livres da nacionalidade que nos dá uma sensação de segurança? Pode haver liberdade em relação a todas as superstições, dogmas e religiões? Só poderá surgir uma nova civilização através da verdadeira religião, e não através da superstição e do dogma nem das religiões tradicionais. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, & aqui.

DESENVOLVIMENTO & FATOR HUMANO - [...] o desenvolvimento econômico, na forma em que ele se processa hoje em dia, é essencialmente uma questão de criação e assimilação de progresso tecnológico. Essa afirmação deveria ser completada por outra: o progresso tecnológico é principalmente uma questão de qualidade do fator humano. Estamos aqui em face do mais complexo de todos os problemas que coloca uma política de desenvolvimento: melhorar o fator humano toma tempo e somente é possível se se dispõe de matrizes adequadas. Abundantes estudos hoje disponíveis demonstram que o nível de desenvolvimento de um país é função da massa de investimentos incorporados no fator humano. Desta forma, o problema do progresso tecnológico e o da melhor do fator humano, estarão sempre intimamente relacionados. [...]. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui e aqui.

VIVER A VIDA - Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. [...] “Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida – você não precisa de mitologia”. Não acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito em ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato? Um de nossos problemas, hoje em dia , é que não estamos familiarizados com a literatura do espírito. Estamos interessados nas notícias do dia e nos problemas do momento. Antigamente, o campus de uma universidade era uma espécie de área hermeticamente fechada, onde as notícias do dia não se chocavam com a atenção que você dedicava à vida interior, nem com a magnífica herança humana que recebemos de nossa grande tradição – Platão, Confúcio, o Buda, Goethe e outros, que falam dos valores eternos, que têm a ver com o centro de nossas vidas. Quando um dia você ficar velho e, tendo as necessidades imediatas todas atendidas, então se voltar para a vida interior, aí bem, se você não souber onde está ou o que é esse centro, você vai sofrer. As literaturas grega e latina e a Bíblia costumavam fazer parte da educação de toda gente. Tendo sido suprimidas, toda uma tradição de informação mitológica do Ocidente se perdeu. Muitas histórias se conservavam, de hábito, na mente das pessoas. Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.[...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), também autor da obra Mito e transformação (Ágora, 2008), nos quais defende que “o individuo precisa aprender a viver pelo seu próprio mito, o caminho para encontrar o seu mito é encontrar o seu entusiasmo”.

AS AMIZADES - [...] E eu fico apenas a refletir que as amizades políticas são sempre e naturalmente passageiras. Mas as que se firmaram sobre um ideal, no serviço de uma casa nobre, vão buscar, na eternidade de seus motivos, a força e a sobrevivência, que os interesses humanos não sabem e não podem encontrar. Trecho de Por amor às crianças pernambucanas (Jornal do Brasil, 23/11/1969), extraído da obra Assuntos pernambucanos (Tempo Brasileiro/Fundarpe, 1986), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000).

AS MULHERES, SEMPRE POR CIMA - Ainda que as acusações continuem apontando-nos como execráveis porcos chauvinistas, nós, com o cavalheirismo que o tempo nos ensinou, estamos sempre apoiando a mulher (da alta classe média) e tudo que ela representa em sua luta destemida em prol de não sabemos lá o quê. [...] Você ainda gosta de mulher? [...] Millôr Fernandes, jornalista, idade indefinível. Ex-praticante de tiro ao alvo sobre alvos vivos, na Argélia: “Como sexo, as mulheres são insuportáveis. Mas na hora do sexo não tem nada melhor”. Quando cara diz que fala por experiência é porque ainda não adquiriu a experiência pra calar a boca. [...] O ideal de nossos governantes é um cavalo que chegue em primeiro sem fazer cocô. [...] Há muitas formas de ser útil ao país. Uma delas é se locupletar discretamente. [...]. Trechos extraídos da obra Que país é este? (Nordica, 1978), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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ENTREVISTA MARQUINHOS CABRAL
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...