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segunda-feira, novembro 25, 2024

MARÍA NEGRONI, LEILA MOTTLEY, ELIZABETH BLACKBURN & SOLANO TRINDADE

 

 Imagem: Zineblog – Acervo ArtLAM.

Ao som do Live concert (2024) e do álbum First Prize (Contrastes Music, 2023), da premiada violonista russa Vera Danilina.

 

O sorriso no enredo das reminiscências... - Tudo se repete e é como se cada vez fosse inaugural. Ora dum jeito, ora de outro no álbum de fotografias empoeiradas, a divagar pela meninice dos quase 10 anos: um sorriso largo, mãos aos quartos e a pose do olho de peixe. E era tudo fascínio pelas águas pretas do brejo dos avós, ou no terreiro de casa com o cardume inquieto na beira do rio. Não podia mexer em nada dos móveis da casa, nem saber dos segredos de família, as cenas inexplicáveis, as músicas do rádio, de gente que teimava em não morrer e jogavam terra na cova dos que se foram e, cá comigo, o que os adultos faziam uns aos outros – e me assombravam como se fossem corvos criados para arrancar meus olhos e eu morresse na escuridão com cada uma delas. Era sempre quase e nem ligava, ia para algum lugar, só tinha o quintal e ali o mundo e os invisíveis se tornavam reais, a tagarelar inventando hestórias da imaginação tirada dos livros. E me deixava levar pelo ditado aprendendo novas palavras, soletrando as sílabas e fazendo força para que tudo sorrisse apesar dos pesares e das botas marchando pelo corredor da casa. Era de verdade e fazia de conta, pronto pra voar do primeiro galho pelos olhos de Maisie na mirada aguda da órfã Ana de Cria Cuervos, quando a gente só queria brincar com Machuca pelas ruas de Santiago do Chile. E parava o tempo arrancando os ponteiros do relógio louco dos pais e fugíamos pelos zis dias de noites intermináveis. Quantas vezes essa criança despregava de mim fugindo perdida pelas trevas imensas, não sabia o que dizer e o que era a inocência escapava sobrevivente a cada novo infortúnio marcado nos cabelos grisalhos em desalinho. Depois do desespero solitário reencontrava a me abraçar como se fosse o menino do Guardador de Rebanhos e era o que me dava a plenitude da eterna ressurreição. Até mais ver.

 

Millôr Fernandes: O dinheiro é a mais violenta das invenções humanas... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Graça Machel: É o significado da minha vida desde a juventude: tentar lutar pela dignidade e pela liberdade do meu próprio povo... Veja mais aqui.

Teresa Cárdenas: O pior tipo de escravidão, hoje, dispensa algemas e cativeiros: é a que impomos a nós mesmos... Veja mais aqui.

 

UM RIO CORRE POR ELE

Imagem: Acervo ArtLAM.

O rio é um nascer do sol de peixes voadores. (Isto é um presente.) Mas há dias em que o rio entrega uma mensagem contaminada, ou nenhuma mensagem: nenhuma linguagem para a estrada que flui, nenhum peixe escuro para acalmar a velocidade. (Isto também é um presente.) Havia algo aqui, antes de algo estar aqui? Ninguém responde. Mais cedo ou mais tarde, todas as coisas convergem, e o rio as leva, saltando sobre as rochas, para o porão ondulante da eternidade.

Poema da premiada escritora e tradutora argentina María Negroni. Veja mais aqui.

 

CRIATURAS NOTURNAS – [...] Mamãe costumava me dizer que sangue é tudo, mas acho que estamos todos aqui desaprendendo esse sentimento, esfregando os joelhos e pedindo a estranhos para nos consertar. [...] A ideia de afogamento não me incomoda, no entanto, já que somos feitos de água de qualquer maneira. É como se seu corpo transbordasse de si mesmo. [...] Ela é o fundo do oceano, onde toda a magia se esconde sob muitas camadas de escuridão, água e sal. [...] a arte é a maneira como nos imprimimos no mundo, então não há como nos apagar [...] O silêncio nos mata de fome, chile. Alimente-se. [...] Estou dizendo a ela como essas ruas nos abrem e removem a parte de nós que mais vale a pena manter: a criança que resta em nós. [...] A escola tem tantos buracos quanto as ruas, sempre lascando, sempre nos fazendo tropeçar. [...] Estamos sempre mostrando nossas mãos às pessoas como se fosse uma prova de que somos humanos. [...]. Trechos extraídos da obra Nightcrawling (Random House, 2022), da escritora estadunidense Leila Mottley.

 

EFEITO TELÔMERO & REJUVENESCIMENTO LONGEVO & SAUDÁVEL– [...] Até certo ponto que nos surpreendeu e ao resto da comunidade científica, os telômeros não simplesmente executam os comandos emitidos pelo seu código genético. Seus telômeros, ao que parece, estão ouvindo você. Eles absorvem as instruções que você lhes dá. A maneira como você vive pode, na verdade, dizer aos seus telômeros para acelerar o processo de envelhecimento celular. Mas também pode fazer o oposto [...] Não seja muito tímido ou exigente com suas ações. Toda a vida é uma experiência. Quanto mais experimentos você fizer, melhor. [...] As extremidades dos nossos cromossomas podem alongar-se e, como resultado, o envelhecimento é um processo dinâmico que pode ser acelerado ou retardado e, em alguns aspectos, até mesmo revertido. [...] Foi demonstrado que diversas técnicas de mente e corpo, incluindo meditação e Qigong, reduzem o estresse e aumentam a telomerase, a enzima que repõe os telômeros.[...] Ruminação é um ciclo de pensamentos repetitivos e improdutivos sobre algo que está incomodando você. Se você não tem certeza de quantas vezes rumina, agora você pode começar a notar. A maioria dos gatilhos de estresse tem vida curta, mas nós, humanos, temos a notável capacidade de dar a eles uma vida vívida e prolongada na mente, deixando-os preencher nosso espaço mental muito depois que o evento passou. Ruminação, também conhecida como melancolia, pode escorregar para um estado mais sério conhecido como ruminação depressiva, que inclui pensamentos negativos sobre si mesmo e seu futuro. Esses pensamentos podem ser tóxicos. [...]. The Telomere Effect: A Revolutionary Approach to Living Younger, Healthier, Longer (Grand Central, 2017), da bióloga Prêmio Nobel australiana, Elizabeth Blackburn, que ao ser demitida do Conselho Presidencial em Bioética, pela Administração Bush, ela assinalou que: Há uma grande sensação de que a pesquisa científica – a qual, acima de tudo, é definida como uma busca pela verdade – está sendo manipulada para fins políticos. Há evidências de que tal manipulacão vem sendo realizada a partir da sobreposição de membros nos conselhos consultivos e do atraso e da deturpação de seus relatórios. Hoje ela é membro da Science Advisory Board of the Regenerative Medicine Foundation. Veja mais aqui.

 

A POESIA DE SOLANO TRINDADE

Eu ia fazer um poema para você \ mas me falaram das crueldades \ nas colônias inglesas \ e o poema não saiu \ ia falar do seu corpo \ de suas mãos \ amada \ quando soube que a polícia espancou um companheiro \ e o poema não saiu \ ia falar em canções \ no belo da natureza \ nos jardins \ nas flores \ quando falaram-me em guerra \ e o poema não saiu \ perdão amada \ por não ter construído o seu poema \ amanhã esse poema sairá \ esperemos.

Poema do escritor, pintor, ator, teatrólogo, cineasta, folclorista e ativista Solano Trindade (1908-1974). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

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&

Crônica de amor por ela aqui.


 


quarta-feira, março 27, 2019

HAZEL HENDERSON, MILLÔR FERNANDES, RUTH RACHOU, CABRA CABRIOLA & VIVA O TEATRO!


TEATRO EM ALAGOINHANDUBA - Uma trupe mabembe resolveu dar as caras por Alagoinhanduba. Tinha o grupo por objetivo uma apresentação teatral para o público daquela localidade. Logo a companhia deu conta das adversidades depois de muito pelejar para uma temporada por lá: Isso é o fim do mundo! Quase era mesmo. Após bater muita perna entre lojas e transeuntes, era hora de reorganizar as ideias: E agora? Criatividade na ponta da língua e nos passos. Por sorte ou quase isso, o prefeito Zé Peiúdo tomava umas e outras com o eleitorado na esquina: Ah, vocês são de triate, é? É. Engolem espada, equilibram no cabo, cospem fogo? Não. Ah, já sei: viram bicho, se envultam e outras palhaçadas, né? Não. A gente faz teatro, não circo. Hem? Ué, vocês fazem mesmo o quê? A gente representa! Que droga é nove? Ah, feito atua feito cinema, novela, só que ao vivo e em cores. Ah, então tem muito tiro e briga? Não. Nem karatê, boxe, faroeste, sarrafada geral? Não. Tem safadeza de furunfado? Não. Oxe, então não presta, não faz nada que a gente gosta. Pronto, agora deu o créu. Nunca viu teatro? A gente gosta de coisa com trapezista, contorcionista, dança, essas coisas que tem piada e esculhambação! É? Dá um treino aí pra gente vê como é que é! Temos que nos aprontar. Ah, meu, se é bom é assim na hora, oxe! Assim não dá, nem a pulso! Lá pras tantas tentaram se entender, o que não foi muito fácil. Se o prefeito de maus fígados era alheio e cheio da má vontade, o povo dali não era muito diferente: A gente nunca viu dessas coisas não. Aí restava se virar e tentar salvar pra não perder a viagem, arrastando malas. Os atores começaram por agir ali mesmo com uns esquetes improvisados na hora: uma birutada geral. Foi juntando gente, bulindo um com o outro, simulando desafios e repentes, o povo na maior gaitada, ao final passaram o chapéu e amealharam umas moedas e algumas cédulas. O prefeito escapuliu de ninguém nem vê-lo se picar tão de mansinho. Juntando com as reservas das algibeiras, deu para um lanche e se arrancharem como podiam numa pensão lá longe. Logo de manhã, molharam o bico com café, pão e ovos, e zarparam prontos para um espetáculo infantil no meio de rua: O lobisomem zonzo. A garotada logo apareceu, juntou bruguelo como a praga: Bicho feio! Bicho feio! E eles tiveram que interagir com a meninada. Não deu outra: implicaram com os personagens, se misturaram com trocas maliciosas de gentileza, foi um horror. Escaparam para o almoço no primeiro pavilhão e, logo no início da tarde, refizeram a cena. Mais gente se aglomerou, foi um teitei medonho: O apurado não vai dar pros gastos. Insistiram e, na boquinha da noite, voltaram pro mesmo local e encenaram uma peça pros adultos: O prêmio – a história de um presepeiro que queria ganhar só por que queria sozinho na loteria. Ah, todo mundo queria saber se o maloqueiro ganhava mesmo. Foi um deus nos acuda! É que tiveram por cenário um tablado improvisado, enquanto corria a cena por batentes e meio-fio. No meio da trama não pouparam esforços e acunharam com uma serração, afiando a língua sobre pirangueiros, má gestão pública, cornagem, trambiques e safadezas, coisas do Brasil de ontem, hoje e anteontem, e a plateia se viu revelada naquele improviso: Serra-véia, serra-gente! Teve gente que queimou ruim, outros deram corda, uma tijolada passou raspando pela cabeça de um, dois estranhos trocaram tapas, foi lapada, mal-estar, pilhéria e caçoadas. A coisa tomou jeito, a zombaria ficou mútua: toma lá dá cá. No clímax da cena, limavam tudo e o palco arreou, maior desabamento. Foi um apupo, haja mangação. O povo no maior corre-corre e a tragicomédia entrou pela perna de pinto e saiu pela perna de pato. E viva o teatro! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A globalização da produção e do consumo acarretou muito desperdício de energia no transporte e muita destruição da biodiversidade. Quando os manuais de economia forem corrigidos e todos os custos sociais e ambientais da produção forem incluídos nos preços aos consumidores, perceberemos que a produção e o comércio locais e regionais são mais eficientes. O comércio mundial pode deixar de transportar bens e passar a intercambiar serviços – porque é melhor trocar receitas do que tortas e biscoitos. Nós, humanos, adoramos compartilhar arte, poesia, literatura, filmes, ideias e invenções uns com os outros. Isto é comércio mundial sustentável, que ajuda a desenvolver a solidariedade e consciência humanas. [...] Precisamos corrigir o PIB e incluir nele todos os custos e benefícios sociais e ambientais. [...] Não pode haver consumo ético a menos que todos os custos sociais e ambientais sejam incluídos nos preços. A publicidade deveria ser regulamentada para ser veraz e não manipular os cidadãos apelando para o medo, a cobiça, a inveja e a vaidade, mas conscientizá-los a respeito dos imperativos da sustentabilidade. [...] Para promover uma economia humana justa e sustentável, temos de deixar de lado Wall Street, Londres, Frankfurt e Tóquio, os chamados “centros financeiros”. Eles se revelaram como corruptos e destruidores da riqueza real nas comunidades e nos ecossistemas. Já que agora podemos nos comunicar de tantas formas novas, podemos deixar para trás o dinheiro e os grandes bancos e fazer comércio em nível local usando apenas a informação. [...] A riqueza do mundo são os bens ecológicos do ecossistema da Terra e a produtividade desses sistemas naturais de vida (compostos por milhões de diversas espécies interagindo com os solos, os oceanos, a atmosfera), absorvendo os desperdícios dos humanos e processando os elementos de que os humanos necessitam para sobreviver: ar, água, fotossíntese, etc. Toda essa vida da biosfera interage com os humanos, quer seja ou não usado dinheiro para garantir tais transações. Os sistemas monetários que os humanos inventaram são apenas tão acurados para uma adequada promoção de tais transações, quanto ao nível de conhecimento humano e a evolução de nossos sistemas de valores (em prol da reciprocidade e cooperação com nossas espécies e todas as formas de vida). [...] Alguns critérios universais para a qualidade de vida incluem as exigências básicas de manutenção da vida para a existência humana, por exemplo, comida adequada, água, ar, etc. A Declaração Universal dos Direitos Humanos apresenta uma visão mais ampla, incluindo todas as espécies de direitos: políticos, sociais, econômicos, etc. Porém, para muitos lugares, coisas específicas são importantes, baseadas em regimes, culturas locais, valores, condições, etc.[...].
Trechos extraídos da entrevista Não podemos ignorar nossas realizações cooperativas e seus heróis e heroínas (Terra Habitada: velho desafio para a humanidade – HIU, 2005), concedida pela economista futurista, consultora e iconoclasta inglesa, Hazel Henderson, autora dos livros Transcendendo a Economia (Cultrix, 1991), Construindo um mundo onde todos ganhem (Cultrix, 1996), Além da globalização: modelando uma economia global sustentável (Cultrix, 1999) e se expressa: As mulheres sabem quanto tempo, amor e esforço leva para educar uma criança. Quando surge uma guerra, tudo isso é reduzido a nada... então, é muito importante a participação ativa das mulheres na resolução dos conflitos. Se essas mulheres tivessem sido dotadas de poder e representação plena nas negociações, a paz já estaria estabelecida há décadas. Temos o poder de alterar nosso destino. Essa também é minha visão. Na verdade, esse tem sido o meu trabalho nos últimos 30 anos. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A dança para mim é a vida. É um processo de amadurecimento, de crescer dentro de você e em relação às pessoas. É um aprendizado eterno. Para mim, a dança é a vida também. Talvez não tão religiosa como a Martha Graham menciona, mas é um ato de vida, um processo de vida muito bom e muito importante.
O livro Ruth Rachou (Casa Amarela, 2008), de Bernadette Figueiredo e Izaías Almada, traz a biografia da bailarina, atriz, coreógrafa, diretora e professora Ruth Rachou, que é a pioneira do pensamento moderno da dança no Brasil, formando uma geração de artistas. 
Veja mais aqui & aqui.

CABRA-CABRIOLA
Havia uma mulher que tinha três filhos de tenra idade, e saindo sempre à noite para angariar meios de subsistência para eles, recomendava-lhes muito insistentemente, que se prevenissem contras as astúcias da Cabra Cabriola, não abrindo a porta senão a ela própria, cuja voz e toada e particular perfeitamente conheciam. Certa noite, porém, chegado o monstro, bate à porta, e ignorando o acordo estabelecido, pede como se fosse a mãe das crianças, que a deixem entrar; mas, falando naturalmente com a sua voz forte, grossa e horrível, nada conseguiu das suas artimanhas, e saiu desesperada bramindo: "Eu sou a Cabra Cabriola, / Que come meninos aos pares, / E também comerei a vós, / Uns carochinhos de nada...". Retrocede depois, oculta-se, e aguarda a volta da mulher, e com semelhante artifício aprende-lhe a toada, e repara bem no seu metal de voz. No dia seguinte vai à casa de um ferreiro, manda bater a língua da bigorna, e conseguindo assim modificar a sua voz tornando-a mesmo igual à da mãe dos meninos, vem à noite, espreita a sua saída e depois, bate à porta cantarolando a conhecida toada: "Filhinhos, filhinhos / Abri-me a porta,/ Qu´eu sou vossa mãe;/ Trago lenha nas costas, / Sal na moleira,/ Fogo nos olhos,/ Água na boca,/ E leite nos peitos/ Para vos criar..." E as pobres crianças na persuasão de que era a sua própria mãe que assim lhes falava, abrem pressurosas e alegres a porta, e inopinadamente acometidas pela esfaimada Cabra Cabriola, são devoradas por ela.
Lenda extraída da obra Folclore pernambucano (Imprensa Nacional, 1908), de Francisco Augusto Pereira da Costa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A obra do escritor, dramaturgo, tradutor, desenhista, humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

quinta-feira, agosto 17, 2017

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele durante toda nossa infância. Espalhafato de conversa fiada, reinações de comer tempo e espaço, coisas do possível mais inventado que se possa crer: a gente vivia além da conta mesmo. Da beira do rio os meus olhos vermelhos na minha migração pra Letácio Montenegro – onde por conta de um leite achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra, fui acometido duma hepatite de meses -, daí pro Caçotinho que era a Cohab, passando pelo Beco do Mijo – no qual dei um mergulho indesejado de cima da casa na lavanderia entupida de frascos -, Beco do Capim do namorico aprumado e jogadas de bola, Rua da Aurora, Rua Nova até a Praça Ismael Gouveia, era mudando de endereço e de escola. E ele lá, no mesmo endereço de sempre: a casa de Pai Lula & Carma, reduto de nossas mais cabeludas presepadas. Adolescemos juntos: chulé, pigarros, lapadas e trapalhadas. Tudo foi tão rápido que parece que foi ontem. Quando eu chegava na casa dele, ele lá inquieto altas curtições: Beatles, João Gilberto & Bossa Nova, David Bowie, Alice Cooper, Rolling Stones, Tropicália & dos Mutantes, Woodstock, Bob Dylan & Joan Baez, Simon & Garfunkel, Elvys, Elis, Frank Zappa, Led Zeppelin, do iê-iê-iê da Jovem Guarda, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Tim Maia, maior salada com levada de tudo no meio das mais diferentes e efervescentes tendências musicais, quantas linguagens e ele incorporando de tudo no seu repertório pessoal, com seu microfone e plateia invisíveis e eu solando uma guitarra imaginária do bucho acompanhando tudo. Ele cantava tudo o que era de tons e sons, isso era década de 1970. E logo escapuliu a cantar por aí, no tempo em que havia o predomínio dos bailes com os sucessos do rádio, dos programas de auditórios, dos temas de novelas na época dos vinis marcados pelas gravadoras e os jabás. Nem vi direito e ele já cantava por aí, botando pra fora sua sensibilidade artística, participando de festivas e feiras de música, imprimindo sua personalidade, uma voz diferente, um performer afinado, ousado e cantando de tudo. Em um dado momento ele sumira, dera uma de hippie e picara a mula mundo afora. Cadê-lo? Nem sinal. Quando dei por mim, eu já estava em Recife e a gente se cruzando, trocando ideias e tons durante toda a primeira metade dos anos 1980. De lá pra cá, uma ou outras vezes, bebericando com pinoias, enterrando nossos mortos, ressurgindo a cada dia, revivendo cada hora. Foi aí que veio a maior sacada: ele aprumou uma parceria com Genésio Cavalcanti e Zé Linaldo de sair cada coisa bonita de nem saber direito no meio de tantas qual melhor. O que vale de mesmo fica na entrevista que se encontra mais abaixo, confira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RIO UNA
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar 
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
É que ele nasce pelas bandas de Capoeiras
Vai descendo as cachoeiras
Ligeiro que nem o vento
Chega em São Bento ele sorri de alegria
A correnteza tá dizendo
Se eu pudesse eu não descia
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Pede licença e entra em Cachoeirinha
É quando vê quatro vaquinhas
Bebendo do seu produto
Se eu pudesse
Eu demorava um tiquinho
Mas vou passar em Altinho
Nem que seja um minuto
Chega em Altinho
Ele se alegra e se agita
Quando vê a moça bonita
Na barreira matutina
Para Agrestina ele corre com emoção
As águas batendo nas pedras
Até parece uma canção
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Chega em Palmares
Ele mata a saudade
Passa dentro da cidade
Valente como um leão
Em Água Preta ele deixa de ser arisco
Respeita o padre Francisco 
E pede a sua benção
Aí ele entristece 
E bota pra chorar
Se despede de Barreiros
E emboca pra dentro do mar
Música extraída do álbum Meu Cantar (Cactus/RCA, 1982), do cantor e compositor Jorge de Altinho. Veja mais aqui e aqui .

RIO UNA – A despeito da opinião dos entendidos, que prognosticavam uma trovoada de maiores proporções para o dia seguinte, o tempo amanheceu firme, sol quente de verão. Mas o povo em geral se mostrava satisfeito, certo de que nem tão cedo faltaria água na cidade. O Una transbordara, os açudes dos arredores estavam sangrando, as cisternas das casas residenciais com o seu fornecimento garantido para muitos meses. Comentavam-se nos cafés, nas barbearias, na farmácia, os estragos causados pela chuva. Estragos, todavia, benfazejos, que a todos contentavam. [...] Trecho extraído da obra Jutaí menino (Bagaço, 1995), do escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui.

O FUTURO DO HOMEM – Há muito distúrbio e corrupção no mundo; as pessoas vivem extremamente perturbadas. É perigoso andar pelas ruas. Quando falamos em estar livres do medo, queremos a liberdade exterior – estar livres do caos, da anarquia, da ditadura. Mas nunca investigamos nem queremos saber se há uma liberdade interior, uma mente livre. Essa liberdade é real ou teórica? Consideramos o Estado como um obstáculo à liberdade. Os comunistas e outros povos totalitaristas afirmam que não existe essa tal de liberdade; o Estado, o governo, é a única autoridade. E estão suprimindo todas as formas de liberdade. Que espécie de liberdade, portanto, querem? A externa? Fora de nós? Ou a liberdade interior? Quando falamos de liberdade, trata-se de liberdade de escolha entre este e aquele governo, aqui e lá, entre liberdade exterior e interior? A psique interna sempre conquista o exterior. a psique, isto é, a estrutura interior do homem (seus pensamentos, suas emoções, ambições, ações, ganância) sempre conquista o exterior. assim, onde buscar a liberdade? Podemos estar livres da nacionalidade que nos dá uma sensação de segurança? Pode haver liberdade em relação a todas as superstições, dogmas e religiões? Só poderá surgir uma nova civilização através da verdadeira religião, e não através da superstição e do dogma nem das religiões tradicionais. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, & aqui.

DESENVOLVIMENTO & FATOR HUMANO - [...] o desenvolvimento econômico, na forma em que ele se processa hoje em dia, é essencialmente uma questão de criação e assimilação de progresso tecnológico. Essa afirmação deveria ser completada por outra: o progresso tecnológico é principalmente uma questão de qualidade do fator humano. Estamos aqui em face do mais complexo de todos os problemas que coloca uma política de desenvolvimento: melhorar o fator humano toma tempo e somente é possível se se dispõe de matrizes adequadas. Abundantes estudos hoje disponíveis demonstram que o nível de desenvolvimento de um país é função da massa de investimentos incorporados no fator humano. Desta forma, o problema do progresso tecnológico e o da melhor do fator humano, estarão sempre intimamente relacionados. [...]. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui e aqui.

VIVER A VIDA - Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. [...] “Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida – você não precisa de mitologia”. Não acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito em ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato? Um de nossos problemas, hoje em dia , é que não estamos familiarizados com a literatura do espírito. Estamos interessados nas notícias do dia e nos problemas do momento. Antigamente, o campus de uma universidade era uma espécie de área hermeticamente fechada, onde as notícias do dia não se chocavam com a atenção que você dedicava à vida interior, nem com a magnífica herança humana que recebemos de nossa grande tradição – Platão, Confúcio, o Buda, Goethe e outros, que falam dos valores eternos, que têm a ver com o centro de nossas vidas. Quando um dia você ficar velho e, tendo as necessidades imediatas todas atendidas, então se voltar para a vida interior, aí bem, se você não souber onde está ou o que é esse centro, você vai sofrer. As literaturas grega e latina e a Bíblia costumavam fazer parte da educação de toda gente. Tendo sido suprimidas, toda uma tradição de informação mitológica do Ocidente se perdeu. Muitas histórias se conservavam, de hábito, na mente das pessoas. Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.[...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), também autor da obra Mito e transformação (Ágora, 2008), nos quais defende que “o individuo precisa aprender a viver pelo seu próprio mito, o caminho para encontrar o seu mito é encontrar o seu entusiasmo”.

AS AMIZADES - [...] E eu fico apenas a refletir que as amizades políticas são sempre e naturalmente passageiras. Mas as que se firmaram sobre um ideal, no serviço de uma casa nobre, vão buscar, na eternidade de seus motivos, a força e a sobrevivência, que os interesses humanos não sabem e não podem encontrar. Trecho de Por amor às crianças pernambucanas (Jornal do Brasil, 23/11/1969), extraído da obra Assuntos pernambucanos (Tempo Brasileiro/Fundarpe, 1986), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000).

AS MULHERES, SEMPRE POR CIMA - Ainda que as acusações continuem apontando-nos como execráveis porcos chauvinistas, nós, com o cavalheirismo que o tempo nos ensinou, estamos sempre apoiando a mulher (da alta classe média) e tudo que ela representa em sua luta destemida em prol de não sabemos lá o quê. [...] Você ainda gosta de mulher? [...] Millôr Fernandes, jornalista, idade indefinível. Ex-praticante de tiro ao alvo sobre alvos vivos, na Argélia: “Como sexo, as mulheres são insuportáveis. Mas na hora do sexo não tem nada melhor”. Quando cara diz que fala por experiência é porque ainda não adquiriu a experiência pra calar a boca. [...] O ideal de nossos governantes é um cavalo que chegue em primeiro sem fazer cocô. [...] Há muitas formas de ser útil ao país. Uma delas é se locupletar discretamente. [...]. Trechos extraídos da obra Que país é este? (Nordica, 1978), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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ENTREVISTA MARQUINHOS CABRAL
Confira a entrevista & arte de Marquinhos Cabral aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, maio 05, 2016

CREDIBILIDADE DA IMPRENSA BRASILEIRA


CREDIBILIDADE DA IMPRENSA BRASILEIRA – No início dos anos 1980, eu participei e fundei com amigos a revista A Região – projeto que redundou depois na fundação das Edições Bagaço, então Movimento de Apoio Cultural Edições Bagaço -, o que me proporcionou a apresentação do programa radiofônico semanal Horagá, na Rádio Cultura dos Palmares AM e me tornar membro da Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP). Por causa disso, anos depois assumi o Departamento de Jornalismo da emissora Quilombo dos Palmares FM, na qual escrevia e apresentava as notícias e o Grande Jornal, bem como um programa semanal aos domingos, Panorama, com a seção Destaque, veiculando entrevistas realizadas com grandes nomes da música brasileira e das artes em geral. Por essas atividades me tornei diretor regional do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco, na gestão de Roberto Calou, afora escrever artigos opinativos na seção Opinião, do Diário de Pernambuco. A partir de então comecei a me debruçar em estudos sobre a imprensa brasileira, enquanto na segunda metade dos anos 1990, escrevia regularmente artigos opinativos que foram publicados na seção Opinião do jornal Gazeta de Alagoas e em outros órgãos da imprensa de outros estados brasileiros. Nos anos 2000, tive a experiência de levar o meu programa Tataritaritatá para integrar o Alagoas Frente e Verso, na Rádio Difusora de Alagoas e, posteriormente, encetar a parceria que redundou no Projeto MCLAM, em Minas Gerais. Nesse tempo todo, entre estudos e reflexões, tentei discernir sobre o desenvolvimento histórico da imprensa brasileira, fato que me levou a indagar em que mãos e reduto se encontravam atrelados os veículos de comunicação de massa neste país. Tive a triste constatação de que mesmo se tratando de uma concessão pública, os veículos de comunicação nos mais diversos estados da federação, fazem parte da propriedade de um poderio privado bastante robusto e tentacular que, mesmo insistentemente tidos por seus proprietários como imparciais, não conseguem esconder o rabo preso até o pescoço da parcialidade, além de se configurarem na confusão entre os interesses corporativos privados e o princípio da supremacia do interesse público. Quer dizer, no frigir dos ovos, é só o que vemos hoje em dia na privatização do público e publicização do privado. Exemplos disso, os jornais impressos são invariavelmente possessões de famílias tradicionais detentoras de poder que cultuam hoje apenas a veiculação de matéria paga e o engessamento da cultura do release, manchetes criadas na emergência do momento, fotos, palavras e mais praticamente nada. As emissoras de rádio, idem e que além da famigerada cultura do jabá e das panelinhas balcanizadas, estão enriquecidas de blábláblá, alardes sanguinolentos, abobrinhas e entretenimento duvidoso. As redes de TV – algumas nem deveriam ser consideradas redes de televisão de tão decadentes e por não passarem de canais de marketing -, quando não são fábricas de alienados e estúpidos, são ridiculamente promotoras de um entretenimento pernicioso de baixo nível e fabricação de celebridades para satisfação do lazer da nossa carência econômica, afetiva e educacional. Espremendo tudo, duas coisas: uma, tudo isso não é nada mais nada menos do que já dizia Emily Dickinson: a punição do mérito e o castigo do talento; dois, o resultado de tudo é ter de digerir um caldo bastante abjeto e que é resultado dos equívocos paradoxais da patriamada. Enfim, tudo medido pela usual inflação da audiência, quando não, no atendimento dos mais escusos interesses, atropelada pela oferta de brebotes baratos e por eventos que se tornam espetaculares para perplexidade geral. Até aquelas da TV paga estão contaminadas, salvo, no meio de tudo isso, raríssimas exceções aqui e ali. Tudo isso só me faz concluir que imprensa hoje signifique show business e sirva apenas para o flagelo de nossa indigência intelectual para o voyeurismo e vampirismo modernos, consagrados à promoção patética dos segundos de fama de todos os infelizes insatisfeitos com a vida, com as pessoas e com o mundo. Aí vem a questão: qual a credibilidade da imprensa brasileira? No mínimo, duvidosa. Ela só poderá ter valia pros babaovos dos oportunistas vencedores da nossa malfadada história. Isso é uma bronca e das brabas, que o digam Observatório da Imprensa, do jornalista e escritor Alberto Dines, e o Ver TV, do sociólogo e jornalista Lalo Leal – quem os vê? Sei não. Por isso que a gente vez ou outra vê protestos da população contra determinados canais de TV e outras emissoras e jornais que se posicionam a serviço de poderosos e outras coisitas mas. Tenho pra mim que ou estou mais que redondamente equivocado entre a queda e o abismo da existência, ou isso é pra lá de perigosíssimo. Sei não, mesmo. Mas isso nem vem ao caso, tudo que se vê nos jornais, nas rádios e tvs são pra lá de efêmeros, eclodem aqui, fazem estrago ali e dias depois todo mundo esqueceu e a vida prossegue. A coitada da alma maculada que vai penar com o preconceito e o opróbrio pro resto da vida. Se não tiver culpa no cartório, tem que dar a volta por cima. Pois é. Sei não. Talvez eu que esteja acometido pelo saudosismo estéril e senil que tanto combati a minha vida inteira, ou pela ranzinzice peculiar aos que se acham ver além do visível, ou, ainda, que por cegueira progressiva da idade, tenha me tornado um refém da próxima velhice incorrigível e rabugenta. Acredito que não, quem sabe? Que coisa! Mas vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

EPÍGRAFE 
O pensamento sobre a imprensa do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: a imprensa do Brasil.


Curtindo o antológico álbum Eduardo Gudin & Notícias dum Brasil (Dabliú, 1994), do violonista e compositor Eduardo Gudin & participação da cantora Mônica Salmaso, do baixista Arismar do Espírito Santo & participação especial de Ivan Lins.

PESQUISA
História da Imprensa no Brasil (Mauad, 1998), do historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999). Veja mais aqui.

LEITURA
Beijo no asfalto (Teatro, 1960 - Nova Fronteira, 1995), do escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA 

Já dizia o escritor espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616): Onde quer que a virtude se encontre em grau eminente, é perseguida; poucos ou nenhum dos famosos varões do passado deixou de ser caluniado pela malícia. Veja mais aqui.

Veja mais Machado de Assis, Safo, Herbert Marcuse, Amos Oz, Anton Vivaldi, Frederic Edwin Church, Caroline Dale, François Gerard, Ronald Golias, Audrey Hepburn & Keith Haring aqui. E também Alvorada, Karl Marx, Miklós Radnóti, Soren Kierkegaard, Constantin Stanislavski, Luiz Ruffato, Ingmar Bergman, Federico Fellini, Isabel Magalhães, Anna Maria Kieffer & Harriet Andersson aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: a mais nova integrante voluntária do Projeto Tataritaritatá: a jornalista e modelo albanesa Enki Bracaj, que prometeu enviar uma foto dela do jeito que ela quer fazer apresentação dos nossos noticiários (ou seja, completamente nua). Aguardem.
Veja aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

terça-feira, novembro 10, 2015

SALGADINHO, SCHILLER, MILLÔR, BOAVENTURA, MORRICONE, KERTÉSZ & MUITO MAIS NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SALGADINHO: DE RIACHO PRA ESGOTO – Em continuidade às atividades desenvolvidas no projeto de pesquisa Psicologia Ambiental: a arte na educação da comunidade do Riacho Salgadinho – Maceió, exigência da disciplina Estágio Básico, ministrada pela professora doutora Daniela Botti da Rocha, estivemos nesta segunda feira, na comunidade do Poço Azul, local onde havia a nascente do riacho em questão. Lá estivemos e procuramos pela referida fonte, até encontrar o morador João Felix da Silva, sentado no batente de sua casa, residente ali desde o ano de 1972. Em conversa conosco, ele fez questão de enfatizar que quando ali chegara, bastava pisar forte no chão que jorrava água em abundância, de surgir um olho d’água na hora, ou estourar dali a uns cinco metros de distância. Agua torrente, abundante. Mas um dia de poucos anos atrás a nascente do Poço Azul secou. Assim também se dera com a outra fonte, a Fonte da Correnteza. Agora, onde eram essas duas fontes, existem sítios com plantações e moradias. E ensinou-nos como chegar ao local onde existia a fonte do Poço Azul: só plantações, deveras. Disse ele que a Casal esteve no local e perfurou 200 metros, mas não dando a água qualquer sinal de vida. Do que podemos achar do que poderia ser a nascente do Salgadinho, hoje brota um esgoto a céu aberto que começa na comunidade de Poço Azul, que segundo o depoente, pertence à comunidade de Antares, mas tem outra parte que pertence ao bairro de Jardim Petrópolis, muito embora ele reafirme enfaticamente ser aquilo tudo ali mesmo do bairro de Tabuleiro dos Martins. Conversa concluída, descemos a ladeira e encontramos onde era situada a fonte do Salgadinho, hoje sítio com suas plantações. E logo após, o surgimento de esgoto que serve para escoar os dejetos das residências e depósito de lixo. Com consternação, imaginamos: o esgoto começa ali e finda lá na foz da praia da Avenida, no bairro de Jaraguá, em Maceió. Um imenso esgoto a céu aberto desde 2006. Agora precisamos saber o andamento do Inquérito Civil Público de nº 1.11.000.001.521/2010-25, publicado na Portaria nº 157, na edição 229, página 62, do Diário da Justiça, do dia 17 de novembro de 2010, instaurado pelo Procurador da República, Bruno Baiocchi Vieira e em diligência na Polícia Federal, a cargo do delegado Felipe Vasconcelos e do agente federal Carlos. O Salgadinho agora é só lembrança dos tempos em que a população se reunia em suas margens para se banhar de água doce depois da saída do mar. E vamos aprumar a conversa aqui e aqui.

 Imagem: A Supine Female Nude, with Drapery over her Head, do pintor do Romantismo inglês, Joseph Mallord William Turner (1775-1851)


Curtindo o álbum L'Umanoide - Amanti D'Oltretomba (1965/1992), do compositor, arranjador e maestro italiano Ennio Morricone.

ESTÁTUAS QUANDO OLHAM PARA OS PÉS – No livro Crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência (Cortez, 2002), do jurista e professor Boaventura de Sousa Santos, encontro o capítulo Epistemologia das estátuas quando olham para os pés: a ciência e o direito na transição paradigmática, do qual destaco o trecho: Há um desassossego no ar. Temos a sensação de estar na orla do tempo entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu. O desassossego resulta de uma experiência paradoxal: a vivência simultânea de excessos de determinismo e de excessos de indeterminismo. [...] Graças à investigação e à teoria feministas, sabe-se hoje que os espelhos, sendo um objeto de uso corrente desde há muitos séculos, são usados de modo diferente pelos homens e pelas mulheres e que essa diferença é uma das marcas da dominação masculina. Enquanto os homens usam espelho por raízes utilitárias, fazem-no pouco frequentemente e não confundem a imagem do que veem com aquilo que são, as mulheres têm de si própria uma imagem mais visual, mais dependente do espelho, e usam-no mais frequentemente, para construir uma identidade que lhes permita funcionar numa sociedade em que não ser narcísico é considerado não feminino [...] as sociedades são a imagem que têm de si vistas nos espelhos que constroem para reproduzir as identificações dominantes num dado momento histórico. São os espelhos que, ao criar sistemas e praticas de semelhança, correspondência e identidade, asseguram as rotinas que sustentam a vida em sociedade. Uma sociedade sem espelhos é uma sociedade aterrorizada pelo seu próprio temor. Há duas diferenças fundamentais entre o uso de espelhos pelos indivíduos e o uso dos espelhos pela sociedade. A primeira diferença é, obviamente, que os espelhos da sociedade não são físico, de vidro. São conjuntos de instituições, normatividades, ideologias que estabelecem correspondências e hierarquias entre campos infinitamente vastos de práticas sociais. São essas correspondências e hierarquias que permitem reiterar identificações até ao ponto de estas se transformarem em identidades. [...] A segunda diferença é que os espelhos sociais, porque são eles próprios processos sociais, têm vida própria e as contingências dessa vida podem alterar profundamente a sua funcionalidade enquanto espelhos. [...] Vejam mais aqui, aqui e aqui.

LIQUIDAÇÃO – A obra Liquidação (Companhia das Letras, 2005), do escritor húngaro e prêmio Nobel de Literatura de 2002, Imre Kertész, conta a história um escritor húngaro que se suicida e deixa como legado uma peça de teatro intitulada Liquidação. Um dos personagens do manuscrito é o editor de B. Amargo, o protagonista que, analisando a peça e investigando o passado do amigo morto, descobre as causas mais profundas de um gesto tão radical. O suicida é uma das poucas crianças nascidas em Auschwitz, e o suicídio remete à condição individual possível em meio à armadilha histórica. Da obra destaco o trecho: Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo. O pai dele se chamava assim. E o avô também. Por conta disso, Amargo foi registrado como Amargo no cartório: essa é, portanto, a realidade, a que - como cabe à realidade - Amargo hoje em dia não atribui muita importância. Nos últimos tempos - num dos anos derradeiros do milênio que se encerra, digamos, no início da primavera de 1999, num final de manhã ensolarado -, a realidade se tornara, para Amargo, um conceito problemático, e, o que era mais grave, um estado problemático. Um estado em que - segundo os sentimentos mais íntimos de Amargo - a realidade era o que mais faltava. Se de algum modo o obrigavam a usar a palavra, Amargo sempre acrescentava: "a assim chamada realidade". Entretanto, isso era apenas uma frágil compensação, que não o satisfazia. Amargo, nos últimos tempos, ficava muito à janela e olhava para a rua. A rua oferecia a visão comum e costumeira do cotidiano costumeiro das ruas de Budapeste. Junto da calçada imunda e manchada de lixo, óleo e sujeira de cachorros, havia carros, nos recessos de um metro entre as paredes leprosas, descascadas, das casas, os pedestres comuns e costumeiros perseguiam seus afazeres, e a expressão contrariada dos rostos refletia os pensamentos sombrios. Alguns deles, talvez na pressa, para se desviar da fileira de gansos rastejantes, desciam da calçada, e nisso o coro das buzinas rancorosas dos automóveis derrubava toda esperança irracional depositada no abandono da fila. Nos bancos da praça em frente que ainda conservavam o assento, sentavam-se à toa os desabrigados da redondeza, com os embrulhos, as sacolas, as garrafas plásticas. Acima de uma barba desgrenhada vibrava um gorro vermelho tricotado, e a borla pendente balançava alegre junto da pelugem repugnante. Um homem com o barrete puído de oficial de um exército inexistente vestia um sobretudo pesado de inverno, sem botões, desbotado, preso na cintura por um elegante cinto de seda, de flores coloridas, que lembrava o adereço de um robe de mulher. Numa perna feminina cheia de nódulos que emergia de uma calça jeans, um sapato de noite prateado com a sola gasta; mais adiante, no gramado estreito, ralo, jazia de joelhos encolhidos, numa imobilidade catatônica, como uma bola de trapos, uma figura indistinta, derrubada pelo álcool ou pela droga, quem sabe pelos dois. Enquanto observava os desabrigados, Amargo de súbito percebeu que uma vez mais observava os desabrigados. Sem dúvida, ultimamente Amargo dedicava muita atenção aos desabrigados. Era capaz de dissipar - na verdade, de seu tempo sem valor - até meias horas à janela, fascinado como um voyeur, que não consegue se desligar da visão obscena estendida em sua frente. Além disso, a posição de espreita sensual era acompanhada em Amargo de uma culpa, uma aversão enojada que por fim resultava num medo da existência, numa angústia nauseante. No instante em que a angústia ganhava contornos inconfundíveis, Amargo, como se tivesse alcançado o objetivo mais obscuro de seu ato obscuro, dava as costas à janela, satisfeito, e se dirigia à mesa, onde se espalhavam diversos papéis datilografados, revirados e dispersos, como pássaros mortos. O próprio Amargo sabia que, na ligação imperiosa que, ultimamente, a despeito de sua consciência e discordância, estabelecera com os desabrigados, havia alguma coisa de preocupante. Na verdade, sofria como se fosse de uma doença. Deveria decidir deixar de se aproximar da janela. Ou somente se aproximaria dela pela necessidade de arejar o quarto ou por uma razão assim prática. Porém, depois, de súbito se surpreendia de novo à janela a observar os desabrigados. Amargo desconfiava que por trás da estranha obsessão se escondia um significado apreensível. Ou melhor, sentia que, se conseguisse decifrar o significado, compreenderia melhor sua própria vida, que, ultimamente, não compreendia. Sentia que da continuidade palpável um dia conhecida como individualidade o separavam abismos. Para Amargo, a pergunta hamletiana não soava como ser ou não ser, mas como sou ou não sou. Amargo folheou distraído um dos escritos sobre a mesa. Tratava-se de uma pilha espessa de papéis, o manuscrito de uma peça de teatro. Na folha de rosto, o título, Liquidação, e o gênero, "Comédia em três atos". Embaixo, "Passada em Budapeste, em 1990". Pegou a folha de papel entre os dedos para seguir folheando, mas acabou por se entregar ao prazer discutível de ler os detalhes do cenário: (A sala sombria do editor numa editora sombria. Paredes gastas, estantes de livros decrépitas, entre os livros expostos faltas gritantes, abandono; embora não haja nenhum sinal de mudança, em tudo impera a provisoriedade desoladora das mudanças. Na sala, quatro escrivaninhas, quatro lugares de trabalho. Sobre as mesas, máquinas de escrever, manuscritos, dossiês. Janelas dando para um quintal. Uma porta no fundo, para o corredor. Em algum lugar, ao longe, o brilho do sol de um fim de manhã, na sala sombria da editora, iluminação sombria artificial. Na sala, Kürti, a esposa, Sára, e o dr. Obláth. Constrangidos, expectantes, sentam-se ao redor de uma mesa que mais tarde se revela pertencer a Amargo.) [...] Veja mais aqui.

A DIGNIDADE DAS MULHERES – No livro A poesia magistral de Schiller, do poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805), destaco o poema A dignidade das mulheres: Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem / Rosas sublimes na vida terrena, / Entrançam do amor o venturoso laço / E, através do véu casto das Graças, / Alimentam, vigilantes, o fogo eterno / De sentimentos mais belos, com mão sagrada. / Nos limites eternos da Verdade, o homem / Vagueia sem cessar, na sua rebeldia, / Impelido por pensamentos inquietos, / Precipita-se no oceano da sua fantasia. / Com avidez agarra o longe, / Seu coração jamais conhece a calma, / Incessante, em estrelas distantes, / Busca a imagem do seu sonho. / Mas, com olhares de encanto e fascínio, / As mulheres chamam a si o fugitivo, / Trazendo-o a mais avisados caminhos. / Na mais modesta cabana materna / Foram deixadas, com modos mais brandos, / As filhas fiéis da Natureza piedosa. / Adverso é o esforço do homem, / Com força desmesurada, / Sem paragem nem descanso, / Atravessa o rebelde a sua vida. / Logo destrói tudo o que alcança; / Jamais termina o seu desejo de luta. / Jamais, como cabeça da Hidra, / Eternamente cai e se renova. / Mas, felizes, entre mais calmos rumores, / Irrompem as mulheres, num instante de flores, / Propiciando zelo e cuidadoso amor, / Mais livres, no seu concertado agir, / Mais propensas que o homem à sabedoria / E ao círculo infindável da poesia. / Severo, orgulhoso, autárcico, / O peito frio do homem não conhece / Efusivo coração que a outro se ajuste, / Nem o amor, deleite dos deuses, / Das almas desconhece a permuta, / Às lágrimas não se entrega nunca, / A própria luta pela vida tempera / Com mais rudeza ainda a sua força. / Mas, como que tocada ao de leve pelo Zéfiro, / Célere, a harpa eólica estremece, / Tal é a alma sensível da mulher. / Com angustiada ternura, perante o sofrimento, / O seu seio amoroso vibra, nos seus olhos / Brilham pérolas de orvalho sublime. / Nos reinos do poder masculino, / Vence, por direito, a força, / Pela espada se impõe o cita / E escravo se torna o persa, / Esgrimem-se entre si, em fúria, / Ambições selvagens, rudes, / E a voz rouca de Éris domina, / Quando a Cárite se põe em fuga. / Porém, com modos brandos e persuasivos, / As mulheres conduzem o ceptro dos costumes, / Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama, / Às forças hostis que se odeiam / Ensinam a maneira de ser harmoniosa, / E reúnem o que no eterno se derrama. Também o poema Ectasy por Laura: Laura, se você olhar com ternura / Para o raio deslumbrante / Meu espírito a vida, feliz de novo, / Explosão ligada / Desliza com o sol de maio. / E se eu olhar em seus olhos plácidos / Sem sombras e sem véus, / Respiração em êxtase, / Auras do céu. / Se o som acento / Ao ar livre dá o seu lábio com um suspiro / E doce harmonia / De estrelas douradas; / Eu ouço o coro de anjos, / E absorveu minha alma / No amor transparente em êxtase. / Se na dança harmoniosa / Seu pé desliza como a onda tímido, / Ama a tropa misteriosa / Agita o olhar de asa; / A árvore de jogadas, atrás de você, seus ramos / Ouviram-se como só a lira de Orfeu, / Minhas plantas e da terra andamos / Turbilhão em turbilhão. / Se os seus olhos, o flash puro, / Amar o fogo inflamado, / Bate o mármore duro árido / E dá chamadas interurbanas vitais. / A fantasia sonhada no prazer / Contempla o presente já segura / Quando eu li nos seus olhos, a minha Laura! Veja mais aqui e aqui.

COMPUTA, COMPUTADOR, COMPUTA – Na peça teatral Computa, computador, computa (Nórdica, 1972), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012), destaco o trecho inicial: BLACK-OUT (Luz que se acende lentamente, em resistência. Cenário todo branco, vagas coisas pintadas de cores violentas. Atriz, deitada no chão, em posição fetal, cabeça para baixo em direção à platéia. Imóvel. Música de fundo, em crescendo.) VOZ MASCULINA (Off, em tom de comunicado noticioso) Temos o triste dever de comunicar o nascimento, hoje, às três horas da manha, do cidadão dois bilhões quatrocentos e cinqüenta e cinco milhões, setecentos e oitenta e sete mil, trezentos e vinte e dois. O nascituro, do sexo feminino, veio ao mundo a pesar das providencias das autoridades e de todos os esforços da ciência, que tentaram evitar por todas as maneiras o odioso acontecimento. Vítima de um ato criminoso de dois cidadãos de sexos opostos que se entregaram a práticas sexuais há muito condenadas, o cidadão em questão foi gerado pelos processos mais obsoletos, trazendo dores e aflições durante nove meses a uma cidadã prestante, e ingressou – completamente despreparado – num meio ambiente impróprio, numa ecologia à qual dificilmente se adaptará. Os médicos constataram condições intelectuais especulativas que... (Voz baixando, se afasta, tornado-se inaudível. A atriz vai se mexendo lentamente ate nascer. Durante todo o inicio se esforça violentamente para sair, ate que sua cabeça salta de dentro do plástico no qual está envolvida. Ela sai da concha. Esfrega os olhos. Olha em volta, tudo muito lentamente, ad libitium.) ATRIZ Olá, classe média. (Procura. Faz como quem abre janela.) (Acende e apaga a luz.) É. Bom. Aqui estou eu. Eu estou aqui. O fundamental é saber que é que eu vim fazer aqui? Bem. Vamos ver. Alguém vai me dizer. Vai aparecer alguém. (Procura. Depois:) Hei! Tem alguém aí? (Continua procurando, levanta papeis imaginários.) Vai ver que não tem nenhuma Seção de Informações. (Procura mais.) Nenhuma mensagem. Quer dizer, vou ter que descobrir sozinha. Passo a passo, gesto a gesto, vou Ter que descobri tudo sozinha. Será que a idéia geral é essa? Vou Ter que inventar o meu lugar, o que fazer, palavra por palavra? A! ( Escuta.) B! ( Escuta.) C! ( Escuta.) Abecedê. (Escuta. Ri.) Estou começando a inventar o alfabeto. Daqui pra inventar a comunicação é só um passo. Problema é com quem comunicar. (Olha em volta.) Imaginem se eu tiver que inventar meu próprio enredo. Imaginem se eu tiver que improvisar. A casa cheia e eu tendo que improvisar. (Discursiva.) Meus amigos, não há amigos. Senhores e senhoras, cheguei e, para provar estou aqui. (Ri.) Não está mal. Sou obrigada a reconhecer que tenho um certo talento. Meus senhores, tudo é igual mas a distancia é grande. Todo homem tem direito a sessenta anos de cadeia. Se eu fosse o papa vendia tudo e ia embora. Pois Roma não se desfez num dia. O silencio é de prata, tempo é dinheiro, mas nem tudo que reluz é ouro. O homem só está fora de perigo quando bate as botas. O dinheiro compra o cão, o canil e o abanador do rabo. “Não sou um tarado sexual”, dizia o outro, “mas quando eu nasci já tinha uma mulher na cama. Pior, era minha própria mãe.” Errar é humano. Botar a culpa nos outros também. A Semântica é o ópio dos psicanalistas. Os homens não fervem à mesma temperatura. Os limites de cada um terminam onde terminam os limites da autoridade. (Pensa.) Estou ficando mais audaciosa. Será que tudo é permitido? O lar é inviolável mas é bom cada cidadão usar cadeados e trancas bem resistentes. Indultar eles não indultam mas todo ano botam mais um elo na corrente. Viram? Acho que sou uma vocação filosófica desagregadora. O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima. (Pensa. E, com orgulho diz:) Vejam essa: Todo homem é criminoso até prova em contrario. Não sou bacana? Não sou corajosa? Não sou...eficaz? (Se eintusiasmando.) O pensamento é totalmente livre. Exprimi-lo, porém, é toda uma outra conversa. O poder público fica dividido em executivo, exercicutivo e executado. A justiça será igual para todos, sendo que para os ricos um pouco mais igual do que pros pobres. É garantida a liberdade de cátedra. Cada um pode comprar quantas cadeias quiser. Boa, heim? Eu acho que vou dar certo. (Entra homem policialesco, se coloca no fundo do palco, não diz nada, mais vai grilando a atriz. Com um papel e um lápis toma nota do que ela diz. A atriz vai murchando, desconfiada.) Há certas testemunhas que justificam qualquer crime. Uma coisa, amigo, eu posso lhe garantir. O seu complexo de inferioridade não é inferior ao de ninguém. Todo homem tem direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo. (Homem no fundo, bate palmas mandando parar. Entra outro homem.) HOMEM II Temos ordem de interromper sua representação. (Os homens falam sem agressividade mas seguros na sua autoridade.) [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

ECSTASY – O drama romântico Ectasy (Êxtase, 1933), dirigido pelo cineasta, roteirista e ator checo Gustav Machatý (1901-1962), escrito por František Horky, Gustav Machatý, Jacques A. Koerpel, e Robert Horky, conta a história de uma jovem que se casa com um homem rico, e que depois de abandonar seu breve casamento sem paixão, ela conhece um jovem engenheiro viril que se torna seu amante. O filme é maravilhosamente encatador e foi bastante ousado para época por causa das cenas da belíssima e encantadora atriz austríaca Hedy Lamarr (1914-2000), nadando nua e abordando temas como orgasmo feminino e trazendo cenas fascinantemente lindas de entregas corporais. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
As mulheres nas esculturas de Emílio Fiaschi (1858-1941)
Veja mais aqui.
Veja mais no MCLAM: Hoje é um dia especial! É dia do programa Tataritaritatá, um programa diferente, especial e que será como se fosse pra nunca mais. Acontecerá a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial, inesquecível e apaixonante de Meimei Corrêa, essa grande mulher que brindou meu coração e minha vida. Por isso mesmo, o programa hoje é só gratidão: obrigado, Meimei, obrigado por tudo, obrigado, obrigado, obrigado. Na programação, os meus amigos e parceiros: Sonia Mello, Ricardo Machado, Mazinho, Jarbas Barros, Wilson Monteiro, Cikó Macedo, Sonekka, Zé Linaldo, Santanna o Cantador, Félix Porfírio, Ozi dos Palmares & Daniel Pissetti Machado. Obrigado pra vocês, também. E com meus reiterados agradecimentos, desejo para Meimei - a eterna e maravilhosa parceira que faz feliz meu coração - toda felicidade do universo! E que a sua caminhada seja repleta de alegria, sucesso e realizações com tudo que você merece. Para conferir online acesse aqui .


GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...