Mostrando postagens com marcador Alexandra David-Néel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexandra David-Néel. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, novembro 04, 2020

GYULA KRÚDY, SARAH HALE, BERTHA VON SUTTNER, LING JIAN, CYD CHARISSE & CAVANI ROSAS

 

 

TRÍPTICO DQC: CLOSE DE MAIO - Não era, mas pareceu: tudo tão infinito dentro de mim e eu reduzido a um retângulo em que tudo se dissolve com a latomia dos viventes num caleidoscópio. Perdi o calendário, graças, nenhuma data ou acerto, resta apenas um poema num close de maio: Estou nessa rua e vou só. Minha morte se completa. Graças aos céus sou um sujeito de sorte. Mordi a maçã sem o conselho da serpente e nos meus olhos soturnos repousa a comiseração. A vida é pouca aqui. Tende, portanto, piedade da minha loucura, das minhas exacerbações. As noivas passeiam por maio e eu sobrevivo ao afago dos nubentes. Não há nada na minha euforia, apenas calçadas mormaçadas nos desejos de maio em meu vadio coração. Neste exato momento Giles Deleuze aponta no possível: As pessoas só têm charme em sua loucura, eis o que é difícil de ser entendido. O verdadeiro charme das pessoas é aquele em que elas perdem as estribeiras, é quando elas não sabem muito bem em que ponto estão. Não que elas desmoronem, pois são pessoas que não desmoronam. Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno grão de loucura da pessoa, não pode amá-la. Não pode amá-la. É aquele lado em que a pessoa está completamente... Aliás, todos nós somos um pouco dementes. Se não captar o ponto de demência de alguém... Ele pode assustar, mas, a mim, fico feliz de constatar que o ponto de demência de alguém é a fonte de seu charme. Ouvi atento, sou a vertigem do paradoxo. E uma mão repousa ao meu ombro, era ela a dizer Rachel de Queiroz: A vida é uma tarefa que não pode ser dividida com ninguém. A gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado. Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado. O seu riso apaziguador nos meus tormentos. A vida é isso: o que vai e volta sem ter direção na certeza nem paradeiro.

 


O SOM DE UMA MÃO – Imagem: arte da artista chinesa Ling Jian - Não a vi sair, escapou no meu descuido e voltei às minhas leituras. Entretido em folhear o volume, nem a vi chegar como se fosse a escritora, ativista pacifista austríaca e Nobel da Paz de 1905, Bertha von Suttner (1843-1914): Depois de amar , ajudar é o mais belo verbo do mundo! Sorri feliz com a presença dela nua recostada ao divã, a me contar uma lenda zen daquelas historias selecionadas pelo Paul Reps: Morukai, o Trovão Silencioso, era o mestre do templo Kennin e possuía um pequeno protegido, Toyo, de apenas doze anos e queria, como os demais discípulos, receber instrução do sanzen e dos koans: Você é muito jovem! Mas a criança insistiu e ficou acertado dele, ao bater do gongo ao entardecer, sentar em silêncio diante do mestre: Você pode ouvir o som de duas mãos quando batem palmas juntas, mostre o som de uma só mão! Toyo inclinou-se e foi meditar. Ao ouvir a música das gueixas teve o estalo e foi no dia seguinte na hora marcada para o mestre: Não, isto não serve, não é o som de uma mão. Então ouviu o som da água pingando e, como no dia anterior, fez o mesmo: Não, este é o som da água pingando e não o som de uma mão. Ele voltou à meditação e ouviu o suspiro do vento, também rejeitado. Ouviu o grito de uma coruja, identicamente recusado. Não era o som dos gafanhotos e o que seria? Por dez vezes esteve com o mestre e estava errado. Um ano se passou com suas reflexões profundas e finalmente ingressou na verdadeira meditação, transcendendo todos os sons: Esse não podia coletar, era o som insonoro. Toyo havia realizado o som de uma mão. Ao concluir, levantou-se, achegou-se bem perto, sorriu e citou o escritor húngaro, Gyula Krúdy (1878–1933): Na fenda entre os joelhos, o vento e o pensamento sem dúvida passavam livres. Com um beijo perdemos a noção do tempo e do mundo.

 


A JANELA DO QUARTO DE STORISENDE - Imagem: arte da atriz e bailarina estadunidense Cyd Charisse (1922-2008). - Só com o amanhecer percebi que o meu quarto possuía outras janelas. Na verdade três janelas, duas delas ofereciam uma visão clara do mundo exterior e, ao tentar abrir a terceira, ela despertou avexada aplacando a minha ação, fechando-a imediatamente com a admoestação de quem passa por essa janela não consegue escapar dos sonhos dos outros e parte numa jornada apavorante para além do mundo das aparências. Olhei-a interrogativo e só aí é que me dei conta que o meu quarto se transformara durante a noite ao do templo de Ageus de Storisende, aquele mesmo dos relatos de Jurgen, a comedy of justice (1919 - BiblioLife, 2009), Figure of Earth: a comedy of apperance (1921 - : R.M. McBride, 1926) & The hight place, a comedy of disenchamntment (1923 – R.M. McBride, 1928), do escritor estadunidense James Branch Cabell (1879-1958). Ela cuidadosamente contou da maldição da janela do castelo de Ageus de Filístia, pilhado pelo duque de Asmund, e que nesta terceira janela, exatamente a que eu estava abrindo e não me deixou, há apenas um lusco-fusco cinzento em que nada é claramente discernível e que foi exatamente por ela que Manuel, o grande herói e libertador de Poictesme, atravessou e nunca mais retornou. Surpreso e desconcertado e falou-me tal Alexandra David-Néel: Coisas definitivas sempre me horrorizaram. Existem pessoas que temem a instabilidade. Por outro lado, temo o contrário. Não gosto que amanhã seja como ontem, e a estrada só me parece atraente quando não sei aonde ela leva. A aventura será a minha única razão de ser. Contraditória e cautelosa, aproximou-se com um verso da ativista poeta estadunidense Sarah Hale (1788-1879): ... te amarei de janeiro a janeiro, até o fim dos tempos... E esquecemos janelas, sagas, terrores e exprobrações, meu corpo no seu e ela bailou de todos os jeitos e formas nua em mim por toda nossa festa. Até mais ver.

 

CAVANI ROSAS

Estou caminhando para o abstrato. Quando eu faço meditação eu vejo muitas luzes e cores. Estou tentando chegar lá.

A arte do escultor e desenhista Cavani Rosas. Veja mais aqui & aqui.

 



quinta-feira, outubro 24, 2019

ELFRIEDE JELINEK, ALEXANDRA DAVID-NÉEL, FERNANDO ROSA & MAMULENGOS DE HERALDO LINS


SE NÃO FOR DE PERNAS PRO AR, ESTÁ DE CABEÇA PARA BAIXO OU TANTO FAZ – UMA: COMO NASCEU O FABO? – Assim: era uma vez uma tribo, a dos Teaca – que significava “mato verde do calango bom”. Isso para lá de mil e não sei quanto, nem sei onde direito. Vivia por aí entre mata e rio, à beira de morros e litoral. Um dia lá, avistou-se um troço que vinha lá longe, entre o céu e o mar. Que droga é nove? Vem boiando no parati. Aboticou: não era só um, mas dois; não, três, na verdade. Aquilo vinha, chegou e desceu um barbudo, catingoso, cara pálida: o peró. Deu com o nativo: Ei! O aborígene caiu morto só com o bafo. Ao segundo bugre que apareceu, deu-lhe a mão: o autóctone sucumbiu sem vida ao mínimo contato. O terceiro selvagem, ah, uma índia nua, fogosa e aos risinhos. Lindeza, pá! Ajeitou-se, tangeu, bandeou e regalou-se; e ela aguentou submissa a catinga e o fungado no cangote. Ui, que negocinho bom! Emprenhou-la enquanto preava. Nasceu o primeiro Fabo: o mameluco. O curumim crescia entre ouitê e cunhatãs, ê – ê, e o estranho aos desmandos no cangote da indiada esmarrida e dizimada. Tempo passava, o giracá da infância tornou-se um jovem uidadera que encarou o invasor caraiué: Ovuei! O peró nem aí, fazia que não era com ele. Pai! Ô pai! Ah, bastardo, você não é porque meus filhos estão na metrópole! E deu-lhe as costas. E ele insistiu: Pai, o que faço? Curiboca, desgraçado, mate o índio! E com fúria, o Fabo dizimou a todos. Serviço feito, encarou: Pai, matei o índio! Não sou seu pai, já disse, e vá se foder para lá. Mas pai! Rejeitado, procurou parentes e sobreviventes: todos mortos do seu sangue. Vagou sozinho mata adentro, até encontrar outro mestiço, depois outro e uma outra, com ela e outros construíram a civilização alagoinhandubense. DUAS: E AS FABAS? O PAPO DELAS UM SÉCULO DEPOIS – Mulher, eu não te conto! O que foi? Lembra daquela fulana assim assado cruz credo lalari larará, que a gente viu na grota naquele dia da festa? Ah, sim, lembro. Num te conto! Conta logo, vai! Ela viu passarinho verde! Meeeesmo! Verdíssimo! E quem é o varapau bengaludo? Ah, praquela tem que ser disso pra lá! É sim, mas quem é o tal? Não vi, não sei, só me disseram. E deu certo? Ah, me contaram que ela está pra cima e pra baixo com epifá e simpatias para segurar o macho! Ih! Também um trubufu daqueles, quer o quê? Seja quem for, certo ou não, desencalhou. Que coisa, né? Sortuda, a bicha. É. Eu, hem? TRÊS: A FARRA DOS FABOS – O DISPARATE DA MUNDIÇADA: Todos nós somos Fabos, táoquei, porra! E não tem essa só de Papo de Fabo! A gente é quem faz e manda, caga raio e deixa como está e bem quiser, coisominion e chega de blábláblá! Não tem rem-rem-rem, rá-rá-rá nem como é que é! Esse bregueço de filho de Caim é a mãe, porra! Afinal, água ruim, peixe pior! A canalhada dos contra é que vão se ver, com a gente é naquela do que é meu é meu, o que é teu é teu, Deus por cima e o resto por fora! E que se dane! O que é, é; o que não é, nunca será. E com a gente é: Tudo certo, Fabo! E viva o Fecamepa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A paixão pelas viagens, o tipo de obrigação religiosa que elas constituem para mim me levariam a aproveitar a menor oportunidade de aventura exótica. [...] Quantas viagens fiz através de mundos diferentes! E apesar disso, como sou parisiense, pensei sorrindo... Um sorriso consternado, mais triste do que um soluço... [...] Será que existe algo mais fascinante do que duas vias férreas que se estendem até o horizonte! que uma estrada que vai, que vai... [...] São meus sonhos de menininha selvagem que vivo hoje... todas as belas imagens dos livros de Jules Verne. [...]. Trechos extraídos da obra A lâmpada da sabedoria (Rocher, 2006), da escritora e exploradora francesa Alexandra David-Néel (1868-1969). Veja mais aqui.

O MAMULENGO DE HERALDO LINS
Eu queria muito trabalhar com teatro. Tentei fazer teatro de palco com gente, mas é complicado demais. As pessoas nem sempre tem o compromisso, a responsabilidade com o teatro e com a plateia. Me frustrei com o teatro de palco por isso. Desfiz a sociedade com o meu amigo porque ele chegava bêbado para trabalhar, esquecia o texto, sua voz ficava prejudicada por causa da bebida. Isso comprometia a qualidade do show e eu queria fazer um teatro de mamulengos profissional, queria sair do amadorismo. Quando eu comecei a trabalhar com os bonecos percebi que eles me obedeciam, eu tinha o controle da situação. Eu podia ser o diretor de um teatro cujos atores são bonecos que eu posso manipular. A qualidade do espetáculo depende de mim, o compromisso com a plateia, o cumprimento de horários e contratos também são de minha responsabilidade. Trabalhando sozinho na apresentação fiquei livre do estresse de ter que contar com o outro, que nem sempre corresponde ao que eu espero dele, entende? [...] Quando comecei com o teatro de bonecos, o show tinha uma duração de uma hora e vinte minutos. [...] Dois anos depois, já com o afastamento do teatro, refiz os bonecos e até hoje permaneço fazendo shows. [...].
MAMULENGO DE HERALDO LINS – Trechos extraídos da obra Show de Mamulengos de Heraldo Lins: construções e transformações de um espetáculo na cultura popular (EdUFRN, 2014), da professora e antropóloga Zildalte Ramos de Macêdo, sobre a arte do mamulengueiro Heraldo Lins. Veja mais aqui.

A ARTE DE FERNANDO ROSA
A arte do artista visual e fotógrafo Fernando Rosa. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
As regras da arte não existem, porque o que faz da arte arte é o fato de ela não obedecer a nenhuma regra.
A obra da novelista e autora de peças teatrais austríaca e Prêmio Nobel de Literatura de 2004, Elfriede Jelinek
Veja mais aquiaqui.


segunda-feira, outubro 24, 2016

GOETHE, DAVID-NÉEL, GORZ, SCHUBERT, LYGIA CLARK, MITSUKO UCHIDA, ABRAMOVIĆ, MAKHMALBAF, HALPRIN, SIMONE SPOLADORE, GREENOUGH, CARL WARNER, TCHELLO, CURRIN, LAURA BARBOSA, TRABALHO & SERVIÇO SOCIAL

INEDITORIAL: DE GOLPE EM GOLPE A GENTE VAI APRENDENDO – Imagens: arte da pintora e escultora brasileira Lygia Clark (1920-1988) - O Brasil é uma anomalia pra lá de carnavalesca! Isso a gente já está careca de saber! Parece mais que a gente está acometido duma doença braba dessa incurável e sacudido de carona numa eterna ambulância feita dum mandú que só pega no empurrão, sem freios nem direção, dando-nos a impressão de que vai tudo se acabar com a sirene ligada no maior SOS de bateria arriada. Um desmantelo dos grandes e na maior correria como se fosse entre o acidente e o atendimento médico que nunca acontecerá, porque o motorista é um barbeiro muito do feladaputa que sai fazendo corrupios no volante, visitando parentes, aderentes, achegados, gregos & troianos fora do trajeto pra casa da peste, não distinguindo buraco de rieira, catombos e atoleiros. Como esse desgracento condutor é tão grosso de direção que sua inabilidade faz acelerar até o canto do ronco do motor quase estuporar tudo, sapecando uns freios de arrumação de nos jogar feito pacote solto no bate-volta, afora fazer uso da máquina pública pra se arrumar como pode, dirigindo a dita como se fosse um presente que lhe caiu no colo da estimação pra só mandar ver e deixar a cangalha destroçada no final e mais nada. A coisa é tão truculenta que chega dá pra ver a hora de estourar tudo motor, caixa de marcha & o escambau no maior pipoco da danação, da gente findar desvalido sem saber pra onde ir nem recorrer. Como parece mesmo que não tem jeito nem tão cedo, tenho a sensação de que a gente vai desgovernado, descendo a ribanceira pra se estrepar lá embaixo no abismo, tudo fodido e mal pago. Do jeito que vai, não vai dá outra: ou fecha os olhos para ver como é que fica, ou encara em riba da fivela pra mode ver o que a gente pode fazer pra mudar essa desgraceira toda. Senão, senão! Só uns vinte anos de atraso a mais na nossa tragédia, avalie. Diante disso, melhor mesmo a gente se aprumar nas novidades do dia: na edição de hoje destaque para a arte de Lygia Clark, as iniciações tibetanas de Alexandra David-Néel, a música de Schubert com Mitsuko Uchida, o trabalhod e André Gorz, a prática e a teoria de José Paulo Netto, a literatura de Goethe, a dança de Anna Halprin, o cinema de Mohsen Makhmalbaf, a escultura de Horatio Greenough, a arte de Marina Abramovic, a fotografia de Carl Warner, a arte de Simone Spoladore, o Encontro Clio-Psyché, a entrevista de Tchello d’Barros, a palestra e oficina de Literatura de Cordel, a pintura de John Currin & Laura Barbosa, a a croniqueta O vexame da maior presepada. Se quiser veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Voar é preciso, viver não é preciso!, Doris Lessing, Luis Buñuel, Leonardo Boff, Hans Magnus Enzensberger, Guilherme Faria, Joseph Kosma, Sérgio Telles, Alfredo Martirena, O riso doído, Psicanálise & Sociedade dos poetas mortos aqui.

E mais:
Vivendo e aprendendo a jogar, Lygia Fagundes Telles, Ziraldo, Luciano Berio, Christine Lau, Nilza Menezes, Antonio Januzelli – Janô, Todd Solondz & O Retorno da deusa aqui.
A arte de Tammy Luciano aqui.
A educação na Sociologia de Max Weber aqui.
A educação nos anos 70 e as desigualdades sociais aqui.
As trelas do Doro: a capotada do guarda aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o muxôxo dá num engasgo, o peso enverga o espinhaço de chega ficar de venta esfolando no chão aqui.

DESTAQUE: LIÇÕES DAS INICIAÇÕES TIBETANAS
É necessária uma vigilância contínua para se preservar das faltas que podem ser cometidas pelo corpo, pela palavra e pelo espírito [...] Estudai com imparcialidade todas as doutrinas que vos são acessíveis, sejam quais forem suas tendências. [...] Para manter-se independente é necessário estar livre de desejos. Quem não quiser dar a ninguém a oportunidade de passar-lhe uma corda no nariz para conduzi-lo como se conduzem bois, deve estar livre de toda espécie de apegos. [...].
Trechos extraídos da obra Iniciações tibetanas (Civilização Brasileira, 1976), da escritora e exploradora francesa Alexandra David-Néel (1868-1969).

O VEXAME DA MAIOR PRESEPADA – Vitalina andava com a orelha na frente da pulga, devido certos procedimentos escusos do Tomé, duns segredinhos mal explicados por ele, que deixaram ela pra lá de vigilante na cola. Conferindo tintim por tintim dos ocorridos, ele sempre dava uma tapiada boa que não convencia. Foi aí que ela resolveu ter com a Vera, a principal suspeita de que ele andava enrabichado pras bandas dela. Quando ela viu Vera passando na calçada, não teve dúvidas e confidenciou, entre cochichos e falsas intimidades: acho que o Tomé está me traindo! Oxe, aquele broco? Tá não mulher, ele é doido por tu. Tenho certeza. Tire isso da cabeça, quem quer aquele abestalhado fora tu, mulher? Sei não, tô de mutuca pra cima dele, tem saia no meio prele andar todo com desculpas esfarrapadas. Indagora dei uma brigada com ele, dele sair doidinho do juízo. Num esquenta, mulher, ele só vê tu no zoom. Deixa disso. E mal Vera chegou em casa, abrindo a porta com as chaves na fechadura, o Tomé chegou aperreado: tô num mato sem cachorro. Ah, a Vitalina tá toda desconfiada docê mermo. Onde essa mulé vai pensá uma coisa dessa de mim? Ocê tá dando trela pra alguém? Tô não. Olhe, ela acha que você está mijando fora do caco. Nada, eu tô tão aperreado que o juízo num funciona direito, até o carro empancou. Vixe! É bronca. Preciso dum copo d’água. Fique aí que não quero intriga com ela, vou buscar. Ele então sentou na cadeira da varanda, bebeu o copo d’água e começou sua lamurienta falta de sorte. Horas e horas de deprecações e azares. Lá pras tantas, Vera quase estourando de raiva de ter que aguentar aquilo, mandou ele embora, não antes olhar se a Vitalina estava por ali pra não virar a coisa pra banda dela. Ah, Vitalina estava lavando a calçada, olhando pros lados o tempo todo. Então Vera resolveu dar carona pro rapaz, desde que ele fosse na mala do carro. Assim acertaram e ao sair de casa, Vitalina veio às carreiras: mulher, me leva no emprego do sujeito que eu quero dar um flagra nele. Pronto! O circo estava armado, pois foi ela dizendo isso, abrindo a porta e se aboletando logo na cadeira do passageiro. Vera quase teve um troço e teve de levá-la nos cafundós de Judas. Quando Vitalina desceu, ela correu e liberou o cabra que estava na mala, todo vomitado e sem saber nem quem era. Vera, às pressas, foi explicando e empurrando ele pra dentro do trabalho. Aí ela correu pro volante e quando engatou a primeira marcha, lá vem Vitalina com Tomé pedindo carona pra voltar pra casa: ô mulé, me leva de volta que ele não está passando bem. Pronto, era a hora do enterro voltando! Apesar dele estar malemolente, ela não arredou o pé das desconfianças e baixou o calão numa briga de quase arrebentar tudo. Bate boca pesado, Vera teve que ter paciência para se safar dessa por todo o trajeto com aquela baixaria, quando, enfim, chegou na casa deles, despachou os dois e saiu dizendo: acabem com essa fuleragem, vocês se merecem, dois cachorros! E olhe que nem se casaram ainda, imagine. Ah, zarpou injuriada pelo vexame. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.


Curtindo os álbuns (8 cds) Plays Schubert (Decca, 2004), com músicas do compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828), na interpretação da pianista Mitsuko Uchida. Veja mais aqui.

O TRABALHO - [...] Para todas as classes industriais anteriores, conservar intacto o antigo modo de produção era condição prévia de sua existência [...] a burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produção, isto é, o conjunto das relações sociais [...] A organização científica do trabalho industrial constituiu o esforço constante para distinguir o trabalho, categoria econômica quantificável, da pessoa viva do trabalhador. [...] A verdadeira racionalidade consiste em transformar o trabalho em “atividade pessoal”, mas em um nível superior, em que “a união voluntária” dos indivíduos substituirá a divisão capitalista do trabalho pela “colaboração voluntária” e submeterá o processo social de produção ao controle dos produtores associados. Cada indivíduo será “na qualidade de indivíduo”, por meio da colaboração voluntária, mestre e senhor da to talidade das forças produtivas; seu “trabalho” será “atividade autônoma” (Selbsttatigkeit) do “indivíduo total”. [...] Ela impedirá que vivam a execução de sua tarefa como cooperação e pertencimento a um grupo. Sua “solidariedade orgânica” (o próprio Durkheim reconheceu-o) não existe como uma relação vivida para eles, mas apenas para o observador externo que crê perceber uma colaboração auto-regougada ali onde, na realidade, há uma organização do tipo militar, por pré-recortes de tarefas complementares. [...] O indivíduo socializado pelo consumo não é mais um indivíduo socialmente integrado, mas um indivíduo levado a desejar “ser ele mesmo” distinguindo-se dos outros que, canalizado socialmente ao consumo, aos outros só se assemelha pela recusa em assumir, por meio de uma ação comum, a condição comum. [...] O trabalho só aparece agora como “fragmentado, subsumido no processo de conjunto da maquinaria” de tal modo que, diante de seu “potente organismo”, o trabalhador individual experimenta “a insignificância de seu agir”: não é mais “que um acessório vivo dessa maquinaria”, sua capacidade de trabalho, infinitamente diminuída, desaparece no produto qualquer relação com a necessidade imediata do produtor e, portanto, qualquer relação com seu valor de uso imediato”. O processo de trabalho foi “transformado em um processo científico, subjugando as forças da natureza a seu serviço” e “o trabalho do indivíduo agora só é produtivo à medida que se insere no conjunto dos trabalhos que submetem a natureza”. [...]. Trechos extraídos da obra Adeus ao proletariado - para além do socialismo (Forense/Universitária, 1987), do filósofo austro-francês André Gorz (1923-2007), também conhecido pelo pseudônimo Michel Bosquet. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem: a arte do escultor e arquiteto estadunidense Horatio Greenough (1805-1852).

PENSAMENTO DO DIA: SISTEMATIZAÇÃO DA PRÁTICA E TEORIA – [...] nenhuma das vertentes racionalistas do pensamento moderno considera que o conhecimento do social é a apropriação, pelo sujeito, das aparências dos fenômenos – parece consensual que a fenomenalidade é tão-somente o ponto de partida, embora obrigatório do conhecimento. O que as discrimina e especifica, pois, está para além deste consenso, que aponta como alvo do conhecer a processualidade em que emergem os fenômenos sociais. [...]. Trecho extraído das Notas para a discussão da sistematização da prática e teoria em Serviço Social (Cadernos ABESS – Cortez, 1989), do professor doutor em Serviço Social pela PUC-SP, José Paulo Netto.

 Imagens: a arte da artista performativa sérvia Marina Abramović, em diversas exposições explorando as relações entre o artista e a platéia, os limites do corpo e as possibilidades da mente. Veja mais aqui.

O CORAÇÃO HUMANO - [...] que é então o coração humano? [...] Que é o homem, para ousar lamentar-se a respeito de si mesmo? [...] Quero fruir o presente e considerar o passado como passado. Você tem razão: os homens sofreriam menos se não se aplicassem tanto (e Deus sabe por que eles são assim!) a invocar os males idos e vividos, em vez de esforçar-se por tornar suportável um presente medíocre. [...] os mal-entendidos e a indolência talvez produzam mais discórdias no mundo do que a duplicidade e a maldade; pelo menos, estas duas últimas são mais raras. [...]. Trechos extraídos da obra Werther (Abril, 1971), do escritor do Romantismo alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE SIMONE SPOLADORE – A trajetória da atriz Simone Spoladore teve início em 1995, quando participou de espetáculos curitibanos, a exemplo da peça teatral Meno Male,com direção de Sale Wolokita, Juventude de Felipe Hirsch e Onde estiveste à noite, de Edson Bueno. A partir de então passou a participar de curtas-metragens e longas, até integrar o elenco de Lavoura Arcaica (2001) e Desmundo (2003). Estreia na televisão com a minissérie Os Maias (2001), participando depois de telenovelas da Globo e da Record. Assim, dividindo suas atuações no teatro, cinema e televisão ela vai construindo uma carreira meritória de aplausos e sucesso.


Imagem: a arte do fotógrafo inglês Carl Warner.

SAFAR E GHANDEHAR – O premiado filme iraniano Safar e Ghandehar (A caminho de Kandahar, 2001), dirigido por Mohsen Makhmalbaf, conta a história de uma jovem jornalista afegã que reside no Canadá e decide retornar ao seu país, após receber uma carta de sua irmã relatando que irá se suicidar antes que ocorra o próximo eclipse solar. A partir do momento de sua entrada no país, ela se atualiza sobre a situação do Afeganistão e vive momentos de suspense para ir ao encontro da irmã. Veja mais aqui.


Imagens: a arte experimental da dançarina e coreógrafa pós-moderna estadunidense Anna Halprin.

AGENDA: ENCONTRO CLIO-PSYCHÉ – Acontecerá entre os dias 9 e 11 de novembro, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o XII Encontro Clio-Psyché – Saberes Psi: outros sujeitos, outras histórias, com o objetivo de trazer reflexões historiográficas que envolvam os eixos as ciências do Homem entre a criança e o menor; a insanidade, desvio e loucura; gênero e sexualidade: construção e desconstrução; minorias étnicas e outras reflexões. Informações por mail: encontrocliopsyche@gmail.com; Sítio: http://encontrocliopsyche.wix.com/xiicliopsyche - Endereço: UERJ - Rua São Francisco Xavier, 524. Veja mais aqui e aqui.


ENTREVISTA: TCHELLO D´BARROS – Depois de uma boa conversa regada a umas cervejas, o poeta e artista visual Tchello d’Barros concedeu uma entrevista exclusiva para o Guia de Poesia do Projeto SobreSites, falando de sua trajetória e projetos. Confira a entrevista & muito mais aqui.

REGISTRO: OFICINA DE CORDEL
A publicação do meu folheto de cordel Tataritaritatá (Nascente, 2008) que, inicialmente, era uma martelada e, depois, virou mesmo um martelo agalopado, se deu pelo resultado de palestras e oficinas de literatura de cordel que ministrei em diversos colégios e eventos. Tenho ministrado essas palestras e oficinas regularmente e, aproveito o ensejo, para trazer todo o projeto aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens: a arte do pintor estadunidense John Currin, que desenvolve pinturas figurativas satíricas que lidam com temas sexuais e sociais provocativas.
Vej mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Peace and Love, Laura Barbosa
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...