terça-feira, outubro 20, 2020

RIMBAUD, ELFRIEDE JELINEK, ZHANG YIMOU, NENÊ CAVALCANTI & DEMÉTRIO ALBUQUERQUE


 

TRÍPTICO DQC: TERÇA FEIRA, O TRÂMITE DA SOLIDÃO – Toda noite ali na minha visão esquálida de poeta amotinado, vou sozinho cortejando a vida na catarse de Gismonti. Todas as noites tal como o mar que nunca dorme, a perseguir um grande amor, voo todas as noites no cálice da agonia onírica dos casais dançando no menir do navio e seus namorados contornando o dólmen das fadas. E eu vou só a remover do labirinto febril a meio caminho da loucura. Todas as noites ali no meio da lua cheia que é tão fêmea eu vou sozinho e voo. Ah, como é tão imprudente semear o insopitável amor perdido que a esta hora é tão pernicioso e não se pode evitar nem repelir, ah eu vou sozinho e voo. Ah, todas as noites nesta longa noite longa onde é maior a solidão - um cobertor de inefável sonho, vou sozinho e voo. Ah! Quantos sonhos eu vi acabar e valeram iludir por que não sei agora nem de mim nem de nada, muito menos de mésons, de pobres rhesus, não sei nada da cidade perdida de Nko, no meio da selva africana, onde feiticeiros mortos reencarnam no corpo de gorilas amestrados, vou sozinho, pra quê exceder às necessidades coletivas, não sei, não sei nada e vou sozinho qual neurótico homo faber a renunciar da vida e pra que viver se vou sozinho e voo só. Ah! Como eu vivo sonhando no interior das aberrações de Fellini sigo itinerante e só amaldiçoado e só por amor e é por este desejo que passo as noites em claro todas as noites nesta noite e vou só pelo inventário de quem sorri, na vigilância de quem ama, na insônia de amar.

 


O LUGAR DOS SONHOS VOADORES – Imagem: cena do drama histórico-romântico Shi mian mai fu (2004), do cineasta, roteirista e produtor chinês, Zhang Yimou. – Do meu quarto o cenário incerto. Apenas era dia e eu não sabia: o banho da guerreira cega Mei, cobiçada pela paixão de dois soldados na missão de captura a um líder do clã das adagas voadoras. O encanto dela ao lavar-se, eu entretido. Naquele mesmo e instante, uma mão pousou ao meu ombro, virei-me e era a surpreendente presença da atriz Zhang Ziyi. Como podia? Ela sorriu docemente e me disse: Vamos para Cocaigne. Hem? Para onde? Ah, saber de mesmo, só muito mais tarde ao ter às mãos o volume de Jurgen, A Comedy of Justice (1919 - Prabhat Prakashan, 2017), do escritor estadunidense James Branch Cabell (1879-1958): Ilha situada adiante de Sargyll, reino de Anaitis, conhecida como Dama do Lago, suposta filha do sol e parente da lua. Ela viaja muito, demonstrando especial interesse em tirar os ascetas da trilha espiritual que conduz à canonização. Diz a lenda que o tempo adormeceu na ilha na hora mais agradável do dia e na estação mais prazerosa do ano e pode ser visto numa ampulheta de cristal guardada numa pequena câmara azul do palácio. Há somente uma lei nesse reino insular: “Faze o que parece bom para ti”. Nada muda jamais em Cocaigne e a vida é um fluxo interminável de prazeres curiosos. Não há arrependimento. Curiosa circunstância que relevei pela singular companhia. Chegando lá, providenciou que eu fosse logo levado à biblioteca, sabia da minha preferência por livros. A recepcionista explicou: contém registros de tudo o que o homem inventou em relação a prazer, bem como manuscritos raros de Astyanassa, Elephantisis e Satades. Podem-se ver uma coleção de fórmulas dionisíacas e um quadro de posturas eróticas. Dois volumes únicos, A litania do centro das delícias e As trinta-e-duas satisfações, são o orgulho da biblioteca. Dei-me por feliz, livros aos montes, prateleiras cheias, estantes muitas, volumes folheados, do tempo passar e nem me dar conta. Fui surpreendido ao anoitecer, ela reapareceu e me contou sobre o costume do lugar: Os convidados de Cocaigne são levados para uma sala branca com placas de cobre nas paredes. Ali são banhados por quatro moças que lhes fazem carícias estonteantes com suas línguas, unhas, cabelos e mamilos. Depois são untados com quatro óleos diferentes e vestidos, para então degustar as comidas típicas da ilha: ovos, grãos de cevada, pães vermelhos triangulares e romãs, acompanhadas de vinho misturado com mel. Assim foi e me regalei além da conta. À ceia, apenas eu e ela vestida por uma túnica transparente. Jantar concluído, duas serviçais que pareciam nipônicas, de mim se ocuparam para conduzir-me à alcova. Aboletado no leito, retiraram minhas vestes e deram início a um ritual com massagem estranha: uma aos meus pés e, a outra, à cabeça; e trocavam de lugar, deslizando os dedos em minha pele, demorando cada qual em fricções carinhosas no meu sexo logo enrijecido para que, a cada volta, tateassem combinando que uma entre elas tivesse vez à felação, como se competissem em se mostrar a melhor em me proporcionar prazer. Só solfejavam uma música desconhecida, ambas excitadas com a disputa. No auge da rivalidade, eis que ela adentrou levitando, dispensou as serviçais, abriu a túnica que escorreu por seu corpo nu abaixo e se aproximou com um beijo ardente e eterno.

 


VOO ONÍRICO DA INESQUECÍVEL PAIXÃO - - Imagem: a arte da escultora Nenê Cavalcanti (Maria das Neves Cavalcanti Moreira), que já participou de inúmeras exposições com as suas obras originais. – Daqueles olhos, toda ventura; daquela boca, tentação; daquele corpo, o meu refúgio e ela ubíqua, onipresente, presença inconfundível, nenhuma distância regulamentar, precipitado por seu regato, obstinado em sua emanação. Ela, então, no meio da noite, Elfriede Jelinek: O amor aponta a direção. O desejo é seu conselheiro ignorante. Atração descontrolada, aos seus pés, sabia-me vulnerável, rendido ao amor. Rimbaud que dissesse noutras horas: É preciso reinventar o amor, toda a gente sabe. Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens. A vida é uma farsa que toda a gente se vê obrigada a representar. Ali eu que me desinventasse se pudesse e nela a minha própria reconstrução. Se eu tivesse que me safar de alguma coisa, teria que ser impune dos feitiços dela, o que jamais me passou pela cabeça, nem nunca quisesse. Sou-me nela o tanto que sou. Até mais ver.

 

A ARTE DE DEMÉTRIO ALBUQUERQUE

Não basta você só fazer arte, você tem que colocá-la bem, mostrá-la.

A arte do premiado arquiteto, escultor e pintor Demétrio Albuquerque, autor do monumento Tortura Nunca Mais, residiu no Japão para desenvolver a arte da cerâmica Yakimono e possui seu ateliê em Olinda. Veja mais aqui & aqui.

  



segunda-feira, outubro 19, 2020

MIGUEL ASTURIAS, LAURA PERRUDIN, FANNIE HURST, NATHALIE SARRAUTE, ANTÓNIO OLE, MESTRE BARACHO, CAFUNÉ & LEILA DINIZ

 

TRÍPTICO DQC: SEGUNDA FEIRA, O TRÂMITE DA SOLIDÃO – Não estou morto e respirei aliviado. Veio o sol e não sei nada, nem me eternizo. Não tenho ninguém para ficar comigo a esta hora e as pessoas patéticas e tolas, saíram para não sei quê nem onde: fabricam sonhos nas ruas. Os barulhos indômitos refazem a cidade de pernas pro ar. Sorrio e choro, lavando o destino. Nenhuma ressurreição no tempo: o sisifismo louco dos dias e a contagem regressiva das horas. Coabita comigo as imagens de ontem e a migração dos ponteiros no corrimão tortuoso da manhã. Ademais, me deprimo com tudo isso: tudo no espelho. Não estou morto e respirei aliviado com o amanhecer.

 


DOIS CAFUNÉS & O INFERNO DO MUNDO É O MAIOR PARAÍSO!!!! - Imagem: curtindo os álbuns Impressões (Volatinos, 2015), Venenos & antídotos (Volatinos, 2017) & Perspectives & Avatars (Laurent Carrier, 2020), da cantora, musicista, compositora, harpista, autora e produtora francesa, Laura Perrudin. - Solitário em Stonehenge, não sabia como havia chegado ali. Dedilho outsider a lira a herança do inominável e a perseguição incomunicável da bestialização dos desmemoriados a me esboroar dia a dia. Demolido estou e nem me importo, faço perguntas, não tenho respostas. Prefiro insolente de tudo cantarolar: Eu adoro uma iaiá, / que quando está de maré, / me chama, muito em segredo, / pra me dar seu cafuné. / Abre o cabelo de banda, / dá-me quatro cafuné / raiva de homem não dura / pra mansidão de mulher. / Não sei que jeito ela tem / no revolver dos dedinhos, / qu’eu fecho os olhos, suspiro / quando sinto os estalinhos. Ouvi um riso agradável. Quem? Dela só a pergunta: Cafuné? Em resposta àqueles olhos lindos, citei O médio São Francisco: uma sociedade de pastores guerreiros (Brasiliana/CEN/INL, 1983), do ensaísta, jornalista e escritor Wilson Lins (1919-20014): o cafuné bem catado pelos dedos lerdos da mucama quente, influem poderosamente no perfil psicológico do homem rural, refletindo na sua vida doméstica e explicando a sua tendência para viver o mais possível dentro de casa. Ela lindamente mais se ria a repetir: Cafuné? Sim? Nome engraçado, poético. Expliquei com mais detalhes, ao que ela, aparência de Fannie Hurst na capa da Esquina do Pecado (Record, 1958), a me dizer Nathalie Sarraute: A poesia numa obra é o que faz aparecer o invisível. Como é que se aplica? Demonstrei e ela deitou minha cabeça no seu colo: Assim? Sim. Como dizia musa imortal Leila Diniz: Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco. Ah, se nunca acabasse, tudo seria festa. Eu sei, amanhã é outro dia e não mais.

 


TRÊS PALAVRAS & UMA ESPERANÇA - Imagem: a arte do artista visual, cineasta e multiartista angolano António Ole – O quarto, a distopia e o mundo devastado. Invisíveis ocupam meu espaço, isso eu sei, afora fantasmas resilientes que povoam minha loucura e os indiferentes passantes que sequer sabem que flagro uma barata pelos cantos e uma aranha tece da quina do teto, haja vista sejam meus adoráveis inquilinos, aliás, sei que outros de ultradimensões ou sei lá povoam meus espaços, todos convidados para o banquete da minha solidão. É muito melhor sentir assim do que sem fazer nada como se carregasse pedras num labor inútil. Um gafanhoto voou de um lado para outro e todos os cantos do quarto. Enfim, era uma Esperança, pousou ao meu ombro e o milagre aconteceu na voz de Miguel Ángel Asturias: Seja de que forma a vida te trate, à medida que o tempo vai passando tens sempre a sensação que perdeste a vida no próprio ato de a viver. Que maravilha! Fiquei feliz com o inusitado. Sei, não estou recluso ao meu quarto por medo de morrer, nada disso, para não disseminar nem contaminar os outros. A sindemia pulverizada no meu rumo, vou assim mesmo. Para outroutras, se eu morresse agorinha mesmo, já iria tarde. Voo. Até mais ver.

 

A ARTE DE MESTRE BARACHO

Essa ciranda quem me deu foi Lia / Que mora na ilha / de Itamaracá. 

Ó cirandeiro / cirandeiro ó/ a pedra do seu anel/ brilha mais do que o sol...

Formiga come do que carrega, / lá não deu pra mim, / eu inventei outra ideia.

Agora fico bem satisfeito porque morro, mas meu nome fica na história como o rei sem coroa.

A arte de um dos ícones da cultura popular pernambucana, Antonio Baracho da Silva (1907-1988), o Mestre Baracho, o Rei da Ciranda & o Mestre de Maracatu. Veja mais aqui & aqui.

 


 


sexta-feira, outubro 16, 2020

CARL SAGAN, HANNE DARBOVEN, HAROLDO DE CAMPOS, REGINA GOUVEIA, QUINTANA & PAULO MEIRA


  

TRÍPTICO DQC: PLANOLÂNDIA NO FECAMEPA - Ao som de Planolândia (Quarto Dimensões, 2019), o primeiro álbum de uma trilogia do trabalho conceitual desenvolvido pelo trio musical Pedro Ben, Davi Abel e Iegor Rainer. - Despertei com uma música jamais ouvida e meu quarto transformado numa sala de cinema. Ouvia duas pessoas discordantes em refutação mútua. Na verdade, eram três, ou quatro, aliás, muitos. Destacou-se entre eles um vulto não reconhecido que se apresentou como sendo o logógrafo, geógrafo e mitógrafo grego, Hecateu (550-480aC): A Terra é plana! Prova disso é o que diz Tales, Leucipo e Demócrito. Como é? Novo tumulto entre eles. Um terceiro depois identificado como sendo o astrônomo e matemático grego, Aristarco (210-230aC) mencionou: A Terra gira em torno do Sol! Logo em seguida Ptolomeu (90-168dC), com o seu Almagesto: A Terra é o centro do Universo! Ouvi alguém gritar que ele havia plagiado Hiparco, rejeitado Aristarco e que o seu único benefício foi ter criado o astrolábio. Novo tumulto, muitas vozes que se sobrepunham umas sobre as outras, até emergir no meio da discordância geral a figura de Copérnico, comprovado por Giordano e Galileu, que falou como se pusesse um ponto final na discussão. Novo tumulto e a censura imposta pela inquisição a respeito do que ele disse. Toma frente o britânico Parallax Rowbotham (1816-1885) defendendo o seu panfleto Zetetic Astronomy (1849): A Terra é plana! Isso deu gás pro John Hampden apresentar Um novo manual de cosmografia bíblica (1877), o que deu uma turbinada na ideia do inglês William Carpenter a publicar Cem provas de que a Terra não é um globo (1885), fato este que redundou na gritaria de pregadores, professores e outros que fundaram a Sociedade Zetética Universal, em 1893, defendendo ser a Bíblia a autoridade inquestionável e, por consequência, o definitivo terraplanismo, mantido pelas escolas de Zion e sob o argumento de que é uma tese ignorada. No zoadeiro ouvi que em 1956 foi criada a Sociedade da Terra Plana, no Reino Unido, que resistiu a tudo, inclusive ignorando o Sputinik, até ter sua sede incendiada e o evento de morte do mentor em 1990. Eita! A narrativa registrava o renascimento da instituição em 2004 e desde então tornou-se bandeira dos hackers Anonymous, incluindo a tese de que a gravidade é uma mentira, baseado nos estudos do teorista William Carpenter (1830-1996), do líder Charles K. Johnson (1924-2001), do presidente sul-africano Paul Kruger (1825-1904), do evangelista Wilbur Glenn Voliva (1870-1942), e das ações do ator David Wolfe, do jogador de basquete Kyrie Irving, de um aluno PhD tunisiano e da campanha GoFoundMe do rapper B.o.B. Ah, não! Que papo é esse? Um livro entrou em cena, o The Myth of the Flat Earth, de Jeffrey Russel. Sim? Logo um outro: o Flatland - A Romance of Many Dimensions (1884), de Edwin Abbott Abbott (1838-1926). Este último me chamou muito atenção porque dele foi fonte para uma série de filmes a respeito do tema e no Brasil foi traduzido com o título de Planolândia: um romance de muitas dimensões (Pictorial, 2019). Nossa! Que doidice, meu! Tudo isso é muito bizarro! Cá, comigo: e Einstein? E os buracos de minhoca e os objetos da quarta dimensão? E a faixa de Möebius? No meio das minhas indagações apareceu uma animação desconhecida: Dr. Quantum visita Planolândia - Quem somos nós? – Uma nova evolução. Depois, mais outra: Dr. Quantum dupla fenda. Sim? Cheio de interrogações e sem entender patavina do que se passava ali, surgiu o risonho Carl Sagan. Graças, foi uma longa conversa e esclareceu tintim por tintim falando sobre um Pálido Ponto Azul, a geometria euclidiana, a física newtoniana, a relatividade einsteiniana, a quadridimensionalidade e mais outras e tantas coisas. Ah, tá. Da minha parte a compreensão de que há seres que ocupam as mais diversas dimensões, sabendo que há quem viva na bidimensionalmente, nós estamos na tridimensional; e eu sou crisantempespaço proutras multipluridimensões. É isso aí.

 


NOVA DOSAGEM & DE NOVO – Imagem: a artista conceitual alemã Hanne Darboven (1941-2009). – Estava mergulhado nas minhas reflexões quando ela achegou-se mansamente e recitou-me com o sotaque de estrangeira: O nosso Universo é quadrimensional, / a quarta dimensão é fundamental / e já não faz sentido a seta do tempo. / Daí eu não saber se este sofrimento, / esta dor aguda que me invade o peito, / afinal é causa ou será efeito. Belo poema e ela falou-me ser este intitulado Indeterminismo, da poeta Regina Gouveia. Fiquei impressionado com a presença dela ali ao meu lado e entregou-me algumas publicações: Ciência para meninos em poemas pequeninos (Porto, 2014); Entre margens (Lua de Marfim, 2013), Terras de Cieiro (CMAlfândeha da Fé, 2013), Quando mel escorre nas searas (Lua de Marfim, 2016), Quando o mistério se dilui na penumbra - Magnetismo terrestre (Autor, 2017) e Requiem pelo planeta azul / Reflexões e Interferências (Autor, 2017), todos da mesma autora. Recitou-me, ainda, Máquina do Mundo: Não havia espaço / Não havia tempo. / Apenas um nada, grávido de tudo, / Numa ínfima parte do segundo, / o nada deu à luz a máquina do mundo / que irrompeu do útero e, despudorada, / foi abrindo frestas / uma escuridão densa e recatada. Não conhecia nem a autora nem quem recitou os poemas dela. Disse-me apenas num inglês peculiar: I am Hanne. E sorriu apanhando um livro que eu havia separado para ler: Crisantempo - no espaço curvo nasce um (Perspectiva, 1998). Inclinou-se e fitou-me interrogativa, respondi-lhe ser a reunião com as últimas produções e o percurso inventivo de Haroldo de Campos. Ela sinalizou que sabia de quem se tratava, abriu o volume e leu ao seu modo o poema diana caçadora: agora resta ver / (mas é preciso saber ver) / como o arco da deusa caçadora / por um triz / não lhe toca - / trivia ride le ninfe etterne / a escorreita / (divinal) bundinha. Sorriu lindamente, meneou a cabeça, sobrancelhas arqueadas e inquiriu: What's in it for me. Intuitivamente recitei o primeiro que me veio à cabeça, o Pequeno poema didático, de Mário Quintana: Todos os poemas são um mesmo poema, Todos os porres são o mesmo porre, Não é de uma vez que se morre… Todas as horas são horas extremas! Ela repetiu várias vezes as duas últimas palavras: Horas extremas... Horas extremas. E falou que eu era uma hora extrema.

 


A VIAGEM DELA QUE SE DEU EM MIM – Imagem: Kulturgeschichte, da artista conceitual alemã Hanne Darboven (1941-2009). - Levou-me pela mão por diversos salões até que visualizei a placa com o nome do evento. Olhei para ela e ela a mim. Indaguei: Você? Sim. Era ela e a sua arte, eu sabia, desconfiado adivinhava. E fiquei maravilhado com cada uma das obras ali expostas, eram muitas, demais. Conferia uma a uma, pelas tantas daquela imensa exposição. Eis que ela puxou-me levando-me corredor afora até uma área livre do anexo. Sacou do bolso do blusão um cigarro, ofereceu-me o maço, retirei um e tragamos nossa hipnose mútua fixada um no outro, no meio daquele ambiente bastante arborizado. Ela nos meus olhos e eu nos dela, calados, a fumaça do nosso trago atravessando nosso olhar fixo um no outro. Havia um ar de satisfação no meio do sorriso comedido dela. Eu não conseguia pensar em nada, a não ser naqueles olhos azuis compenetrados, interrogativos, provocadores. Era como se conversássemos silenciosa e intimamente. Sabia o que ela me dizia e acredito que adivinhava o que se passava em mim. Depois de longo tempo ela aproximou-se, beijou-me os lábios e me permitiu a descoberta do que jamais fosse possível. Até mais ver.

 

O MARCO AMADOR, DE PAULO MEIRA


O marco amador: Bordas de Silêncio, Las Outras, Cursos, A perder de vista, 15 minutos de Alice Coelho – Catálogo Prêmio de Artes Plásticas Marcantônio Vilaça (Funarte, 2014), do premiado artista visual, designer gráfico e professor Paulo de Araújo Meira Júnior, que desenvolve obras em diversas linguagens como vídeo, jogos eletrônicos e vídeo instalações e co-fundador do coletivo Camelo. Veja mais aqui e aqui.

 



quinta-feira, outubro 15, 2020

OLALLA COCIÑA, GREENAWAY, HANNAH ARENDT, CACILDA BECKER, BESSA-LUÍS, NÍNIVE CALDAS & RODOLFO LOEPERT


  

TRÍPTICO DQC: PRIMEIRO ATO: O ÁTIMO DO ENCONTRO - Meu quarto e o mundo: a parede acendeu para meu espanto! Não me acostumara ainda com isso, a solidão persistente. A imagem refletida desta vez era do Coliseu e lá longe uma mulher vestida tal qual a coreógrafa belga, Anne Teresa de Keersmaeker na Rosa de Greenaway, gesticulava sozinha, dançava, fazia acrobacias e gesticulava. Pude ver-lhe o talhe, estonteantemente sensual. Aproximou-se e recitou Hannah Arendt: O novo sempre aparece contra esmagadoras chances estatísticas e suas probabilidades, que, para todos os efeitos práticos, todos os dias equivale a certeza; o novo, portanto, sempre aparece sob o disfarce de um milagre. Novos passos e a bailarina radiante às piruetas, rolando no chão e com expressões performáticas a explorar todo espaço do monumento. Bailarina? Demorou a responder e, depois de se contorcer aos rebolados remexendo-se descalça, chegou bem perto dos meus lábios e disse-me ser o seu sonho: o de bailar ao ar livre. De repente, virou-se e tornou a virar como se fosse Augustina Bessa-Luís: Que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição? A frivolidade é também uma forma de hipocrisia porque as pessoas não são aquilo. A pessoa, quanto mais frívola nos parece, mais esconde a sua natureza profunda. Aproximou-se mais ofegante e inesperadamente beijou-me com sofreguidão. Quase sem fôlego me rendi ao seu ataque sedutor, vasculhando sua escultural compleição. Abraçou-me com fervor incendiando todo meu ser eletrizado pela cobiça de tê-la mais que inteira e nua. Soltou-me bruscamente, saiu até um recanto extremo e distante, apanhou um par de sapatos e voltou apressada: Vamos! Quem era ela, qual o seu nome, não sei. Queria saber. Olhou-me compenetrada, deu-me a mão e saímos enamorados sem rumo tarde afora.

 


SEGUNDO ATO: O FOGO DO FECAMEPA - Imagem: O Coliseu, Roma - Itália, do fotógrafo Rodolfo Loepert – Personagens da cena: Máscara que chora (MQC), Máscara que ri (MQR) e Coisomínion (C) – MQC: Eita, os cometas estão tirando cada fino na terra, hem? MQR: Vixe! Aquela num é a atriz Cacilda Becker? Pelo vestido colado no corpo, ela está sem calcinha! Nossa que pernas! C: Quero que todos se fodam! MQC: Se um meteoro desse cai aqui, babau! MQR: Hahahahahaha! C: Tou com Jesus, os outros que se fodam! (Ouve-se manchetes do noticiário. Som de BG) Locutor em off: No Fecamepa as últimas notícias: Fogo dizima a Amazônia, o Pantanal e várias áreas do território brasileiro! (Aumenta o BG - Labaredas tomam conta do coliseu, ao fundo matas queimadas se sobressaem. Som de música tétrica). MQC: O noticiário aqui é muito deprimente, além de falso e trágico, também é tendencioso. MQR: Ora, ora, vamos todos consumir, maior queima nas vitrines! Tudo vira cinzas no carnaval do capitalismo! C: Queria mesmo que desse uma enchente dessas bem avassaladoras com fogo, trovões, relâmpagos, explosões e tudo pra dizimar de vez com a raça dos comunistas, dos pretos, gays, pobres e principalmente da desgraça nordestina, ô pragas! MQC: Essas notícias são de matar um do coração! MQR: Vamos comprar mais, vamos queimar as promoções! Tem cada coisa barata, liquidação dessa nunca se viu, essa é a hora de comprar mesmo, ou agora ou nunca! C: Se eu fosse o presidente eu botava esse povo todo numa câmara de gás, tudo amarrado em nome de Jesus, aleluia! Aleluia! (Baixa o pano).

 


TERCEIRO ATO: QUEM DELA ERA - Anoiteceu um céu de nenhuma estrela. Não sabia onde estávamos, havíamos envolvidos por uma multidão atenta a uma encenação histriônica. Ela ria e mais apertava minha mão contra o seio. Sussurrou ao meu ouvido da saudade de tudo e queria saber como andava o país depois da ditadura militar, não havia tido notícia e entristecida ao tomar conhecimento das últimas que lhe contara do retrocesso todo e desgoverno geral. Fez-me sentar ali mesmo na calçada ao seu lado, uma lágrima escorreu na sua face e consternada incorporou a si mesma: Viver é ir ao encontro. Não se pode viver em estado de contemplação. Tudo está a nossa espera É uma questão de coragem e amor. Cacilda? Sim, sou eu: Eu não sou mais só eu, eu sou um pouco mistura com o teatro. Sou um instrumento da minha arte, sou meu próprio violino. De cada personagem que representei guardei uma "descoberta" para mim, de mim mesma. Quando quero, quero. Quero de fato. E vou buscar. Não espero nada de ninguém com relação às coisas materiais, é claro. Tenho confiança cega em mim, apesar das insuficiências toco tudo para a frente. Sempre foi assim. Ouvi atentamente suas palavras e sua voz embargada encostando seu semblante ao meu ombro, chorosa, falou-me da sua molecagem em Pega Fogo (1950), da estreia da menina n’A morte da borboleta (1930), do Ritual do Fogo do ginasial, dos palcos e cenas peças e filmes, das Paredes de Sartre (1950), da Dama das dos Seis de Pirandello (1951), das Camélias, Antígona, da Stuart de Schiller (1955), da Jornada de O’Neill (1958), da Moeda de Abílio (1960), da Velha Senhora de Dürrenmatt (1962), da Noite de Tennessee (1964), do Medo de Virginia Woolf (1965), da fúria santa, do diário e da ditadura militar e do aneurisma naquela fatídica tarde junina como Estragon do Godot de Beckett. Contou-me mais como se vingasse a vida aos prantos, levantei-lhe a face e não era ela, era a linda Olalla Cociña, a Tigresa: o teu amor vivendo nas jaulas dos circos / ou no teatro / (chamaram-te dramática seguido, acabaste sendo). / os ossos que adoras amarrando o cabo da vida / ao da morte / (a morte prematura / a morte desejada e que não chega / não querer viver assim mas também esse medo a morrer). / ir virando-a: ser / inconsistente. Um beijo e naqueles lábios eu flutuava o poema por infinitas galáxias do não sabido. Até mais ver.

 

A ARTE DE NÍNIVE CALDAS

A arte da atriz Nínive Caldas que iniciou a sua carreira no teatro em 2009 e desde então vem atuando com destaque em vários espetáculos e com vasta experiência em cinema, teatro e publicidade. Atualmente é apresentadora do programa Na direção delas, da TV Brasil. Veja mais aqui e aqui.


 



quarta-feira, outubro 14, 2020

LOU SALOMÉ, CUMMINGS, KHATERINE MANSFIELD, JACOB BOEHME, MARTA SOARES, HÉLIO FEIJÓ & O TEMPO DE ALSONDONS


  

TRÍPTICO DQC: PRÓLOGO DA TIRINETA – Perdi a completa noção do tempo. O que fazer, não sabia. De repente meti a mão no bolso, nenhuma cédula ou moeda, mas havia algo lá causando incômodo. Puxei do fundo, saquei um punhado de sonhos! Nossa! Cuidadosamente tive de deixá-los intocáveis, bem acomodados onde estava. Um deles buliçoso ficou na minha mão. Soltei e fez-se uma sombra de ave desconhecida que tomava vulto. Ficou enorme, assustei-me. Possivelmente nem era um sonho meu, devia nem ter mexido. Aos poucos a certidão: todo ambiente transformou-se no quintal da infância nunca mais visto: o aroma aprazível, o ruído da pisada agradável nas folhas do chão, o gosto de fruteira no ar, os galhos do abacateiro que eu gostava de me atrepar, o gorjeio dos pássaros em polvorosa, os calangos correndo em ziguezague pelo muro, a vaga entre as folhas da bananeira na parte do muro que eu gostava de me pendurar nas traquinagens, coisas distantes e inesquecíveis. O desejo da criancice imperou e me fez apoiar o pé na raiz da mangueira, mãos pelo reboco até avistar, por cima do parapeito, uma desconhecida a se banhar nua na lavanderia. Aquietei-me. Não era aquela que meus olhos infantis costumavam apreciar. Essa era mais morena, corpanzil robusto, formas bem delineadas. Percebi seus grandes olhos negros agateados ao me flagrar. Foi muito rápido. Outra olhadela e, a constatação, que era muito bonita com seus lábios ressaltados, seios eminentes, ancas simpaticamente arredondadas sobre coxas e pernas vigorosas, um verdadeiro milagre da natureza. Ao ser novamente descoberto, esquivo na timidez e ela pouco se importava, até sorriu-me graciosa. Com a minha insistência em vê-la, acenou-me: Vem! Eita! Pulei imediatamente e um lodaçal no outro lado do muro me deixou em apuros, como se estivesse entre areias movediças. Ela estendeu-me a mão em socorro e não consegui me segurar. Escapuli para despencar num poço sem fundo de nunca mais parar de cair e ouvi-la Lou Salomé: A vida humana – ah / A vida sobretudo – é poesia. ; Inconscientes, nós a vivemos, dia a dia / passo a passo – mas em sua intangível / plenitude ela vive e se nos traduz em poesia. / Longe, muito longe da antiga frase / ‘Faz de tua vida uma obra de arte!’; / Não somos nós nossa obra de arte. Não sabia onde ia parar, sei que a vertigem foi maior.

 


A TRAMA ABSURDA – Havia então perdido toda noção de tempo e espaço, não sabia nem onde estava. Vi um cotoco de vela e marquei para aprumar direção. Adiantou nada. Pensei haver por ali uma lamparina ou clepsidra ou ampulheta, sandglasse, merkhet, gnômon, pêndulos, cronômetros, ou os pneumáticos de Popp e Resch, o acrônimo Atmos, o de Flora, ora, ora, no meio da roda viva nem preciso mais de nada da horometria, marcador nenhum de tempo é preciso, para quê? É o mesmo de contar o inexistente. Se não sei mais onde estou, de necessário mesmo, prefiro o mais curioso deles no lugar onde fui parar: em Alsondons. Sim, soube por Robert-Martin Lesuire, François-Augustin Quillau e Victor Desenne, na publicação do L’aventurier français, mémories de Grégoire Merveil (Paris, 1792 – Nabu Press, 2013): [...] o velho método de medir o tempo, no qual uma menina de seios nus sobe num pedestal situado na praça principal e um rapaz põe as mãos nos seis dela, contando em voz alta as batidas de seu coração: cada batida corresponde a um segundo. E era a minha mão no seio da vizinha que reaparecera e eu contando as batidas do seu coração. O dia amanheceu e, de repente, Jacob Boehme ecoou na minha fantasia: No Amor, há certa grandeza e expansão do coração que é inexprimível, pois dilata a alma tanto quanto a inteira criação de Deus. E isso será verdadeiramente experimentado por ti, para além de todas as palavras, quando o Trono do Amor se estabelecer em teu coração. Nós, homens, temos um livro em comum que aponta para Deus. Cada um tem isso dentro de si, que é o inestimável Nome de Deus. Sim, ouvi atento. Ela ao meu lado a tudo também ouviu, deitou minha cabeça em seu seio desnudo e cantarolou um sensual acalanto para que eu dormisse em sua carne e não mais soubesse de nada além da vida nela, porque lá fora todos se matavam e se beijavam num estrepitoso morticínio.

 


EPÍLOGO DAS CULMINÂNCIASImagem: cena da instalação coreográfica de dança, performance e vídeo O banho (2004), da premiada coreógrafa e bailarina Marta Soares, refletindo sobre a subjetividade de Sebastiana de Mello Freire (1887-1961), dona Yayá, uma homenagem à mulher da elite paulistana que foi diagnosticada como doente mental entre 1919/1961: Eu trabalho nas minhas criações, entre outras coisas, os traumas de ter crescido em uma pequena cidade do Interior de São Paulo, durante a ditadura militar, numa sociedade patriarcal. Acredito ser esse um dos motivos pelo qual venho criando danças sobre a impossibilidade de dançar. – Estávamos na banheira, seu sexo aprisionava o meu mordiscando-o deliciosamente, suas pernas me envolvia não me permitindo qualquer afastamento. Atracados prazerosamente, ela me beijava sussurrando sua vida, passado, desapontamentos, traumas e frustrações. Na voz dela Katherine Mansfield: Realmente, não creio na alma humana, nem nunca cri. Tenho a convicção de que as pessoas são como as malas: cheias de coisas diversas, são expedidas, atiradas, empurradas, lançadas ao chão, perdidas e reencontradas, até que, por fim um Último Transportador as atira para o Último Comboio. Beijei-a com poemas e canções que fiz para ela e leu-me um poema de Cummings: Não ser ninguém a não ser você mesmo, / num mundo que faz todo o possível, noite e dia, / para transformá-lo em outra pessoa / significa travar a batalha mais dura / que um ser humano pode enfrentar; / e, essencialmente, jamais parar de lutar. Dos seus olhos saltavam estrelas e ela as colocava como adereços nos cabelos, aformoseando-se para jogá-las aos beijos para mim, deixando-me iluminado com a sua saliva e, desejando-a cada vez mais, deitou sua cabeça sobre o meu ventre alisando carinhosamente meu sexo rijo entre os lábios e dedos para que tudo fosse recheado pela magia dos prazeres. E se entre a vida e a morte redivivos desfalecíamos e tornava-nos a ressuscitar porque ela bailava nua no meu corpo e eu no dela às voltas do planeta. Até mais ver.

 

A ARTE DE HÉLIO FEIJÓ

A arte do premiado poeta, pintor, desenhista e arquiteto Hélio Feijó (1913-1991), um dos mais completos e inovadores artistas na história da arte pernambucana, fundador do Grupo dos Independentes (1933) e da Sociedade de Arte Moderna (1947). Veja mais aqui & aqui.

 



segunda-feira, outubro 12, 2020

MONTALE, ALBAN BERG, ELIANE PROLIK, POLANSKI, NÍSIA FLORESTA, TICIANO & NELSON FERREIRA

 

 

TRÍPTICO: DIÁRIO DO QUARTO CALEIDOSCÓPIO – PRIMEIRO ATO - Ao som de Lyric suíte for string concert, de Alban Berg - É sempre noite. Lá fora o mundo barulhento e o genocídio: fúria, bravata, infâmia, fanatismo, ganancia, amolações triviais. Parece nonsense e tudo sob suspeita: as pessoas se tornaram revoltosos vulcões eruptivos e se detratam uns aos outros. A parede acende como uma tela cinematográfica: a Via Láctea. Um meteoro surge da quina do teto, acompanho seu percurso descendente até se espatifar num ponto qualquer do piso. Da explosão, um minúsculo ser caminha em minha direção, cresce a cada passo, já quase dois metros, reconheço Barão de Munchausen que me acena, faz uma mesura e me aponta para outro minúsculo que aparece do mesmo lugar que saiu. Também cresce a cada passada, já reconheço, é Alice: Você está completamente pirado! Um segredo: as melhores pessoas são assim. Ela pisca um olho, chama o companheiro que está com as pestanas arqueadas olhando para mim com um escárnio e braços abertos. Ambos seguem de volta e desaparecem. Não era sonho, sabia, era o alerta para o inimigo invisível e o medo da contaminação: lavar bem as mãos, tudo esterilizado. Do meu quarto, o caleidoscópio: a toca do meu coelho. Não preguei o olho, a parede acendia e apagava, parecia me convidar para atravessar a galáxia. Mantenho-me quieto, cabeça aos joelhos, até o fim uma oração de serenidade: um dia de cada vez e as circunstâncias, assim seja! Um esforço fora do comum, nada funciona direito com o desgoverno. O pangaré gostou ou não? Não sei, cuidado com o monstro, ele está em Brasília. Que toquem fogo no mundo, ninguém sobreviverá.

 


SEGUNDO ATO DO CADERNO DE NOTAS – Imagem: arte da escultora, desenhista e gravurista Eliane Prolik. – A cena: Ela saiu do escritório e foi visitar a família em Cachoeira do Sul. Lá informou que ia se mudar de Canoas para São Paulo. A despedida e a estrada aberta. Aos vinte sete anos, a militância no VPR. Era 17 de maio, preparos para o aniversário dia 25. A surpresa de 4 tiros, 1 no braço, outro no peito, 2 nas costas alcançando a coluna. Nenhuma festa mais, a família desestruturada: o pai soube por um delegado do assassinato e morre de desgosto. A irmã Valmira se mata. Apenas uma tabuleta ao vento esquecida com a inscrição: Alceri Maria Gomes da Silva (1943-1970). Juntou-se a Labibe e Catarina, lá haverá justiça, pelo menos. Diante de mim, Nísia Floresta: Flutuando como barco sem rumo ao sabor do vento neste mar borrascoso que se chama mundo, a mulher foi até aqui conduzida segundo o egoísmo, o interesse pessoal, predominante nos homens de todas as nações. Ela sorri e me oferece um botão do lírio da felicidade. As imagens são tantas: asfixiados numa câmara de gás das autocracias e, ao lado, jogaram pela janela um idoso numa cadeira de rodas. Outras cenas superpostas: joelho fardado no pescoço de um negro indefeso, agressões físicas, tortura, caça policial, tiros. No meio disso tudo sou O Pianista de Polanski e ouvi alguém dizer que ali outro abotoou o paletó, pronto, viagem perdida: Se fosse de morte matada, pelo menos! Quem ainda acredita no Estado: nunca cumpriu a sua parte, sempre se desvia para interesses e comodidade. O que ainda nos resta além do extermínio, não sei.

 


TERCEIRO ATO: MANUSCRITOS DO CADERNO, NOVELA INSTANTÂNEA – Imagem: Perseu & Andrômeda (1554), de Ticiano. - Lá vou eu... Atravessava o pátio da rodoviária, um troço e lá estou enfermo, estirado no piso. Quando dei por mim, o meu quarto era uma enfermaria hospitalar, empurrada para lá e para cá. O mundo girava e eu imóvel, uma dor profunda no peito, nenhuma ilusão, desiderato pras cucuias. À espera de uma revelação, caí no vazio, não sei se haverá como emendar a vida. Sou saudade de tudo. Ouvia alguém alertar: Cuidado com o degrau. E o Paradoxo de Zenão era um poema de Montale: Vós, palavras, traís em vão o ataque / secreto, o vento que sopra no coração. / A razão mais verdadeira é de quem cala. Já sabia o solo minado, um passo em falso, cara ou coroa: a sorte estava lançada. O poder das escolhas e perdi pilares, extensores e pontes, quanta mendacidade ao meu redor. Minha especialidade? Viver, apenas. Fraqueza? Seguir. Sempre vou e, quando dou fé, todos estão voltando. Que descascasse o abacaxi, o pau ia cantar, com certeza. Sobrevivi a todo tipo de recusa e fui soterrado por enorme pedra. Isso há anos. Qualquer reincidência ou é efetiva ou duvidosa. Falando às paredes sou o que quiser que eu seja, nada mais. Até mais ver.

 

NELSON FERREIRA, O MORENO BOM

Felinto, Pedro Salgado, / Guilherme, Fenelon / Cadê teus blocos famosos? / Bloco das flores, Andaluzas, Pirilampos, apôis-fum / Dos carnavais saudosos / Na alta madrugada / O coro entoava / Do bloco a marcha-regresso / E era um sucesso dos tempos ideais / Do velho Raul Moraes / Adeus, adeus minha gente / Que já cantamos bastante / Recife adormecia / Ficava a sonhar / Ao som da triste melodia.

Evocação nº 1, frevo de bloco do compositor, músico e maestro Nelson Ferreira (1902-1976), autor de inúmeras composições nos mais diversos estilos, como canção, foxtrote, tango e, sobretudo, frevos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



sexta-feira, outubro 09, 2020

JOÃO CABRAL, JODY WILLIAMS, TAIGUARA, CORTELA, JORDAN PETERSON, ELZA BARROSO, RAÇA & JUSTIÇA


  

TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... VALUNA, UM RIO, UMA MULHER - Ô de casa, dá licença!?! Nasci entre um rio e um sorriso de mulher! Para sempre Carma no meu coração, como as matas de não mais, só canaviais florados, pastos, loteamentos ou queimadas nos matagais. Como o rio, quase não mais, não mais acari, nem carito, nem ambulantes de Deus. Ah, o poema de João Cabral: A um rio sempre espera / um mais vasto e ancho mar. / Para a agente que desce / é que nem sempre existe esse mar, / pois eles não encontram / na cidade que imaginavam mar / senão outro deserto / de pântanos perto do mar. / Por entre esta cidade / ainda mais lenta é minha pisada; / retardo enquanto posso / os últimos dias da jornada. / Não há talhas que ver, / muito menos o que tombar: / há apenas esta gente/ e minha simpatia calada. Para mim só as visagens emolduradas na memória. Só com os detritos da invernada ou intermitência das enchentes ameaçadoras é que presenciam e revivem, logo depois nem se lembram de nada com varrições de ganância e egoísmo nos aterros, assolações, laivos e imundícies, muito lixo invade minha casa e Mário Sérgio Cortela me diz: Se não quiser uma cidade suja, não deposite lixo na urna. E Jody Williams reitera: Acredito que é meu direito e minha responsabilidade trabalhar para criar um mundo que não glorifique a violência e a guerra, mas que busquemos soluções diferentes para nossos problemas comuns. Então, invento e me reinvento: do meu peito a fonte a escorrer do corpo pelas mãos à foz dos meus pés, a singrar o mar que tudo banha no meu chão. Então brinco entre peixes e aguapés e algas que são aves e gorjeiam nos galhos das almas feitas abusões risíveis e amedrontadoras, enquanto faço a vida e sou Valuna, Bacuna, Diauna, Unadia, Rio Una.

 


DUAS HORAS: ONDE ESTOU QUE NÃO SEI... - Imagem: O luar (Dois Irmãos), do pintor Ismael Nery - Ah, assim tão só, sou indefinível. Afinal, fiz o melhor que pude e foi pouco, nem me satisfiz. Encaro o perigo e não me enquadro em regra nenhuma, nem uso chapéus ou máscaras, dou a cara nua à tapa. Nunca desisti e apesar de subterrâneo sempre estive longe da positividade tóxica, porque sei que não há pote de ouro algum no fim do arco-íris. Sou absurdo para todos os olhos, uns tantos paradoxos a mais. Ouvi o psicólogo canadense Jordan Peterson: A maneira apropriada de se consertar o mundo não é consertando o mundo; não há razão para se presumir que você sequer seja capaz dessa tarefa. Mas, você pode consertar a si mesmo; não causará nenhum mal a ninguém fazendo isso. E, nesse caso, pelo menos, você fará do mundo um lugar melhor. Assim, coração peito aberto, não sei onde estou: se perdido na Groenlândia ou tremendo de frio na Terra do Fogo, ou onde quer que seja, apátrida ex-humano, qualquer coisa entre seres vivos, voo para ser-me.

 


TRÊS MINUTOS & TODAS ELAS SÃO NELA... – Imagem: Art by Elza Barroso - Ah, é ela Calíope voz melíflua aos ouvidos do meu coração; é Clio proclamando a história do que foi e será, é Erato a versar a maior poesia; é Melpômene alisando minha pele para fechar as feridas cálidas do meu corpo; é Polímnia nua no meu corpo para iniciação de todos os mistérios da vida; é Tália em flor para a entrega perfumada do amor; é Terpsícore para dançar de Sol na minha escuridão; é Urânia esplendorosa para que eu seja o universo em seus domínios; é ela Euterpe para que eu cante Taiguara: Teu sonho não acabou... / Lá onde estive o sonho acabou / Cá onde eu te encontro só começou / Lá colhi uma estrela pra te trazer... / Ah! Eu preciso, eu preciso muito... Ah, beijo os lábios dela e o seu sexo é Deus irradiando vida no meu em festa cósmica de todos os renascimentos. E nela fervo por todos os céus dos paraísos e todos os infernos do mundo e sou mais que dia ao amanhecer. E ela luz&ar como se nem fosse ou nunca foi. Até mais ver.

 

RAÇA & JUSTIÇA

[...] Há uma dimensão antagonística, um “conflito racial” que não é redutível a um fundamento único, jurídico ou não, ou seja, a condição da verdadeira emancipação racial, como movimento da opacidade à transparência, fluxo de justiça, é uma opacidade constitutiva que nenhum fundamento jurídico, político, moral ou epistemológico pode erradicar. A construção da justiça e da democracia, racial ou não, será sempre habitada por uma incompletude e provisoriedade inultrapassáveis, assim como as identidades que as instituem. [...].

Trecho extraídos da obra Raça e Justiça: o mito da democracia racial e o racismo institucional no fluxo de justiça (Massangana, 2009), do sociólogo e professor Ronaldo Laurentino de Sales Júnior. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


 


quinta-feira, outubro 08, 2020

ARTHUR CLARKE, JODI PICOULT, STEVEN PRESSFIELD, LUISA DORR, PAUL TILLICH, TALIA & JOAQUIM CARDOZO

 


TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... SOLIDÃO, SOLITUDE... - Sou paisagem errante desbotada entre manada de pusilânimes bestuntos com seus clamores desesperados, mútua insensatez e nenhum nexo, o mofo da rejeição. Às vezes ou sempre é tudo tão desolado e trago do caótico no meu pedaço de vida. Nenhuma mágoa ou culpa, talvez aniquilado por situações circunflexas e até oblíquas não sei como. Sobrevivo a tanto, porta afora, rua acima, às vezes me perco com o que tive e sonhei. Hibernei na impermanência, enquanto falácias da falsa dicotomia queriam-me no xeque mate, como se tivesse que padecer a um justiçamento social, quando não difamado porque nenhuma dor me acomete, nem a de seguir só. Sabia do filósofo alemão Paul Tillich (1886-1965): A vida é dura... e nem sempre é justa. Mas isso não quer dizer que ela não possa ser boa, gratificante e prazerosa. Ainda há muitas razões para dizer sim à vida. Apesar de despojado, eu digo eternamente e só não vivo ao desabrigo perturbador, porque optei doravante à desaparição. Nada a temer nem nunca me apavorei com o escritor e inventor britânico, Arthur Clarke (1917-2008): Existem duas possibilidades... Ou estamos sozinhos no universo ou não estamos. Ambas são igualmente aterrorizantes. E ele me aconselhou de vera: A única maneira de se definir o limite do possível é ir além dele, para o impossível. Por isso, naquela de viver ou sobreviver, escolhi: é tudo ou nada. Patafísico, voo pela solitude.

 


DOIS DITIRAMBOS DA EXPEDIÇÃO VOLUNTÁRIA - Imagem: foto da atriz performática, dramaturga e diretora Carolina Bianchi – Recluso à minha solidão, dei de cara com ela: chamou-me Lobo e apresentou assim de sopetão o Cara de Cavalo e a Cia. Dos Outros, para que fôssemos ao Panorama Sur. Aí ela me disse: Mata-me de prazer, vai! Quiero hacer el amor. E de cabeça: Me voy a saltar sobre tu cuerpo! U-hu! Eu uivei no nosso Rêverie. E fizemos Expedição a Marte e de mãos dadas pelas Utopyas to every day life! Na sua carne, a minha Escrita Incandescente, para nossos Solos Impossíveis, tudo Hardcore from the heart! E nos beijamos e nos entregamos repetindo o desafio de Steven Pressfield: Todo sol lança uma sombra e a sombra do gênio é a Resistência. Por mais forte que seja o chamado de nossa alma para a realização, igualmente potentes são as forças da Resistência reunidas contra ele. Ah, aquelera parceira luzidia das mil&umas loucuras de amorecer a vida por escalas cromáticas que desfazíamos diatônicas para enlanguescermos no experimental dodecafônico, atonal, e eu redivivo na sua ancoragem para ser-me o que sou nela.

 


TRÊS VEZES & SE É PARA IR VAMOS LOGO! – Imagem: arte da fotógrafa Luisa Dorr. - Nua ela era então Talia comigo no Jardim de Epicuro ou no Walden de Thoureau, a nos deliciar dos prazeres da nossa ataraxiaponia, experimentando o amor entre os ventos e ramos de hera. E me contou da escritora estadunidense Jodi Picoult: Talvez o que somos não esteja tão relacionado com o que fazemos, mas mais com o que somos capazes de fazer quando menos esperamos. As coisas extraordinárias estão sempre escondidas em lugares onde as pessoas nunca se lembram de procurar. E nela o que havia por vasculhar dos mistérios e graças. E o que eu tinha a mais era o topo da montanha que ela me deu para contemplar o quão imensa é a vida no horizonte da infinitude. E me fez deus e eu, servo dela, aprendi a ser feliz. Até mais ver.

 

O CORONEL DE MACAMBIRA, JOAQUIM CARDOZO

[...] Capitão: [...] Sou conde condecorado / Senhor de grande solar / Comigo trago mandato / De tudo remediar / Sou conde condecorado / Com a cruz do Tempo e do Ar / Sou comandantes das nuvens / Errante no pelejar. [...].

Trecho extraído da peça teatral O coronel de Macambira: bumba-meu-boi, em dois quadros (FCCR, 2005), do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978), autor de outros textos teatrais, tais como De uma Noite de Festa (1971), Marechal, Boi de Carro (1975), Os Anjos e os Demônios de Deus (1897), O Capataz de Salema e Antônio Conselheiro, ambas de 1978. Referência extraída do artigo A cultura popular nordestina no engenho teatral moderno de Joaquim Cardozo (Revista Diálogos – set. / out., 2018), de Nadja Maira Baltazar da Silva e Jairo Nogueira Luna. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


 


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...