DOS TEMORES DA
INFÂNCIA AOS ARROUBOS JUVENIS - Imagem: Bewitched park, do pintor
israelense de origem bielorrussa Leonid
Afremov - O coração de Jesus no alto da sala era uma lembrança
incômoda na memória. Na minha meninice, um coração vivo, sangrando, me
perseguia o dia inteiro até assombração no meio dos temores noturnos. Pesadelos
numa infância medrosa. Reclamava pra minha mãe e me escondia no cós da saia
dela. Ela falava e eu não compreendia. Pra meu alívio, um dia, espatifou-se na
sala e ela virou-se pra mim e disse: - Foi você. Não havia como, mas ela disse.
Ainda lembro na minha tenra idade os olhos furiosos dela. Pior foi no dia da minha
recusa em fazer primeira comunhão e crisma, não aceitava Jesus preso na cruz.
Para mim, ele já estava livre disso, nós que carregássemos a nossa, o que, pra
mim, tornou-se a própria vida. Foi na transição entre a puerícia e a
adolescência que descobri os pré-socráticos e a mitologia grega, dando início
às minhas divagações que aprumaram andanças por religiões: Vedas, Alcorão,
Mahabharata, a Bíblia, Tanakh, Analectos, Torah, Gita, Upanishades, Talmude, Zend-Avesta,
o kardecismo, muitos e, no meio disso, por tantas vezes me ofereceram a Rosa de
Lutero tão simpática. Entretanto, menino adolescendo já não me via cristão, um
pensador livre. Nunca fui ateu, quase. Ao nutrir simpatia pelos quackers, pelo
Taoísmo e pelo zen-budismo, optei pela espiritualidade, não precisava mais
professar qualquer fé, nem havia mais necessidade de acreditar, eu sabia – e
sei – que existe e onde está: em mim e em tudo, esse o meu panteísmo
particular. Outras leituras me fascinaram, uma delas e de um fôlego só: a Tábua
de Esmeralda e Corpus Hermeticum. Releituras imprescindíveis. Anos depois
retomei os estudos, relendo a História dos Hebreus de Flavio Josefo, o
judaísmo-cristão e todos os demais livros já lidos na adolescência, até O Livro
dos Mortos, cabala e por aí vai. Nutro profundo respeito por todas as crenças e
seus fiéis – cada qual, cabeças e respostas. Entretanto, como não tenho certeza
de nada, não sei coisa alguma, mantenh0 postado pela espiritualidade porque sou
pleno de dúvidas, carregado de perguntas, graças a Deus! Isso é o que me faz
viver! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui. TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
segunda-feira, janeiro 09, 2017
ESTRELLA BOHADANA, MARIANA AYDAR, LEONID AFREMOV, NUNO RAMOS & INFÂNCIA & JUVENTUDE
DOS TEMORES DA
INFÂNCIA AOS ARROUBOS JUVENIS - Imagem: Bewitched park, do pintor
israelense de origem bielorrussa Leonid
Afremov - O coração de Jesus no alto da sala era uma lembrança
incômoda na memória. Na minha meninice, um coração vivo, sangrando, me
perseguia o dia inteiro até assombração no meio dos temores noturnos. Pesadelos
numa infância medrosa. Reclamava pra minha mãe e me escondia no cós da saia
dela. Ela falava e eu não compreendia. Pra meu alívio, um dia, espatifou-se na
sala e ela virou-se pra mim e disse: - Foi você. Não havia como, mas ela disse.
Ainda lembro na minha tenra idade os olhos furiosos dela. Pior foi no dia da minha
recusa em fazer primeira comunhão e crisma, não aceitava Jesus preso na cruz.
Para mim, ele já estava livre disso, nós que carregássemos a nossa, o que, pra
mim, tornou-se a própria vida. Foi na transição entre a puerícia e a
adolescência que descobri os pré-socráticos e a mitologia grega, dando início
às minhas divagações que aprumaram andanças por religiões: Vedas, Alcorão,
Mahabharata, a Bíblia, Tanakh, Analectos, Torah, Gita, Upanishades, Talmude, Zend-Avesta,
o kardecismo, muitos e, no meio disso, por tantas vezes me ofereceram a Rosa de
Lutero tão simpática. Entretanto, menino adolescendo já não me via cristão, um
pensador livre. Nunca fui ateu, quase. Ao nutrir simpatia pelos quackers, pelo
Taoísmo e pelo zen-budismo, optei pela espiritualidade, não precisava mais
professar qualquer fé, nem havia mais necessidade de acreditar, eu sabia – e
sei – que existe e onde está: em mim e em tudo, esse o meu panteísmo
particular. Outras leituras me fascinaram, uma delas e de um fôlego só: a Tábua
de Esmeralda e Corpus Hermeticum. Releituras imprescindíveis. Anos depois
retomei os estudos, relendo a História dos Hebreus de Flavio Josefo, o
judaísmo-cristão e todos os demais livros já lidos na adolescência, até O Livro
dos Mortos, cabala e por aí vai. Nutro profundo respeito por todas as crenças e
seus fiéis – cada qual, cabeças e respostas. Entretanto, como não tenho certeza
de nada, não sei coisa alguma, mantenh0 postado pela espiritualidade porque sou
pleno de dúvidas, carregado de perguntas, graças a Deus! Isso é o que me faz
viver! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui. quinta-feira, março 26, 2015
HERMETO, ZARATUSTRA, ADLER, TENNESSEE, FRANKL, CORSO, GUEDY & AURORA.
AURORA: UMA CANÇÃO – Pelos idos de 1977 nasceu essa canção.
Eu já tinha pelejado de tudo antes disso, mas nada que prestasse. Até duas
outras anteriores que eu havia inscrito numa feira música valiam a pena e não
resistiram ao tempo: esqueci, se perderam. Por isso, essa foi a minha primeira
composição musical de verdade. Bati o centro e fiquei ancho cantando aqui, ali
e acolá. Só ganhou estatuto de vivente mesmo quando a cantora Sonia Mello gravou a canção com o meu
poema Minha Voz, juntos. Foi aí que
eu percebi a razão dela ter resistido a todas as outras que eu tinha então
pelejado e feito. Por isso, taí a letra dela: Eu quero aurora dos meus olhos
/ viver a eclosão do dia /este parto retratado / no rastro meu que se vadia / pra
lá das mãos / pra lá do mar / nas veredas deste céu / que vai além do meu
cantar / da minha voz que traz / este céu que desvirgina / as entranhas do meu
corpo / que se perde pelos vales / e só me resta seguir, ir / nas veias mornas
da manhã / até abrir as comportas do meu coração. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A CIÊNCIA DA NATUREZA
HUMANA – O livro A ciência da natureza humana (Companhia
Editora Nacional, 1957), do médico, psicólogo e filósofo austríaco Alfred Adler (1870-1937), traz os
fundamentos do sistema holístico da Psicologia Individual. Na obra destaco:
[...] Desde a mais tenra idade, passa a perceber que existem
outros seres humanos capazes de satisfazer completamente suas necessidades mais
urgentes, melhor preparados para viver. [...] a criança
aprende a dar valor excessivo ao tamanho que habilita uma pessoas a abrir uma
porta, ou à força que habilita a transportar objetos pesados, ou ao direito de
dar ordens e exigir obediência. Desperta em sua alma um desejo de crescer, de
ficar tão forte como os outros, ou mesmo mais forte ainda. Dominar aqueles que
vê junto a si faz-se então seu principal propósito de vida. [...] A mente não conhece nenhuma lei natural já
que o objetivo está sempre mudando. Se, porém, um indivíduo tem um objetivo
constante, nesse caso cada tendência psíquica deve sofrer certa compulsão, como
se alguma lei natural a influenciasse. Leis que governam a vida psíquica
existem – mas são leis feitas pelo homem. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
ASSIM FALOU ZARATUSTRA – Hoje se comemora o nascimento do poeta
e profeta persa Zaratustra ou
Zoroastro que viveu provavelmente em meados do séc. VIIaC. Por sua difusão dos
segredos e da verdade suprema de Ahura Mazda, ele foi o criador da religião
Masdeísta, tornando-se, por isso, um dos primeiros teólogos da história, que
possuía o objetivo de erradicar o politeísmo reinante, possuindo uma dimensão
ético-espiritual elevada. Foi o filósofo e poeta alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) que escreveu o livro Assim falou Zaratustra: um livro para todos
e ninguém (1883-85), do qual destaco: Zaratustra,
porém, olhava para o povo e se admirava. Depois falou assim: O homem é uma
corda, atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre um abismo.
Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso
arrepiar-se e parar. O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um
fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir
[...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
LOGOTERAPIA: EM BUSCA DE
SENTIDO – O livro Em
busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração (Vozes, 1991), do
neurologista e psiquiatra austríaco Viktor
Frankl (1905-1997), traz a experiência do autor vivida no campo de
concentração, quando, segundo seu relato, ocorre a sua liberdade interior e
passa a definir os conceitos fundamentais da logoterapia e a tese do otimismo
trágico. Da obra destaco o trecho O
sentido da vida: Duvido que um médico
possa responder esta questão em termos genéricos. Isto porque o sentido da vida
difere de pessoa para pessoa, de um dia para o outro, de uma hora para outra. O
que importa, por conseguinte, não é o sentido da vida de um modo geral, mas
antes o sentido específico da vida de uma pessoa em dado momento. Formular esta
questão em termos gerais seria compatível a perguntar a um campeão de xadrez:
“Diga-me, mestre, qual o melhor lance do mundo?” Simplesmente não existe algo
como o melhor lance ou um bom lance à parte de uma situação específica num jogo
e da personalidade peculiar do adversário. O mesmo é válido para a existência
humana. Não se deveria procurar um sentido abstrato da vida. Cada qual tem sua
própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma
tarefa concreta, que está a exigir realização. Nisto a pessoa não pode ser
substituída, nem pode sua vida ser representada. Assim, a tarefa de cada um é tão
singular como a sua oportunidade específica de levá-la a cabo [...]. Veja
mais aqui, aqui, aqui e aqui.
GASOLINA & LADY VESTAL – O livro Gasolina & Lady Vestal – Poesia Urbana (L&PM, 1985), do
poeta estadunidense da geração beat, Gregory
Corso (1930-2001), é a reunião dos primeiros livros do autor, com prefácio
do poeta estadunidense Allen Guinsberg que adverte: Abra esse livro como se uma caixa de brinquedos malucos, tenha nas mãos
um refinamento de beleza extraído de uma atmosfera destrutiva. Essas
combinações são imaginárias e puras, de acordo com o desejo individual
(portanto universal) de Corso. Do livro destaco O Sol (poema automático):
Sol hipnótico! sagrada quase eterna
esfera! taça em chamas! balbuciar do dia! / Sol, solar teia de calor! seca taça
tropical! sede de aranha! Sol, não água! / Sol miséria sol ira sol doença sol
morte sol podre sol relíquia! / Sol baixo e torto sobre o céu africano,
derramado quase vazio, ampola oca, osso do sol, pedra do sol, sol de aço,
relógio de sol. / Sol dinossauro do elétrico movimento extinto e fossilizado,
balbucie! / Sol, temporada das temporadas, pegar o verdadeiro peixe solar, na
verde costa tomando sol como loucura. / Sol eros infernal superreal
conglomeração de ira miasmática! / Sol, seres do pôr do sol chocados na desértica
vida, cai! / Sol circo! tenda de hélio, apolo, rá, sol, sun, triunfem! / O sol
como uma fumegante nave caiu no lago Teliphicci. / O sol como um fumegante
disco gelatinoso escorreu pelos alpes Telephiccianos / O sol comanda a noite e
segue a noite e comanda a noite. / O sol pode ser conduzido por uma carruagem.
/ O sol como um fumegante pirulito pode ser chupado. / O sol tem a forma de um
dedo curvo que te chama. /O sol gira anda dança foge corre. / O sol favorece a
cítrica palmeira de tuberculosos pulmões / O sol engole o lago e alpes de
Teliphicci a cada ascensão. / O sol não sabe o que é gostar ou não gostar / O
sol toda minha vida caiu no lago Teliphicci. / Ó profundidade constante onde
tudo além é a verdadeira Bizancio. Veja mais aqui, aqui & aqui.
A MULHER QUE ESPERAVA O
AMOR – A peça teatral Um bonde chamado desejo (A Streetcar Named Desire – ganhadora do Prêmio Politzer de 1948) do dramaturgo
estadunidense Tennessee William (1911-1983)
conta a história da protagonista, Blanche Dubois, e a aversão dela pelo marido
grosseiro e ignorante da irmã, Stella. Após a ruína da família, cada uma das
irmãs seguira destino próprio. Stella adaptou-se ao mundo de seu marido e
Blanche manteve a postura aristocrática de gestos finos e sensibilidade
exacerbada. Entretanto, a personagem principal foi muito infeliz na sua vida
amorosa: seu marido homossexual cometeu suicídio, provocando-lhe profunda
depressão. Acusada de seduzir um aluno adolescente, Blanche acaba demitida como
imoral, recorrendo à casa da irmã, decepcionando o marido dela. Mas eis que a
irmã grávida dará a luz, o cunhado Stanley, completamente embriagado a violenta
provocando o seu enlouquecimento e consequente internação num hospício. A peça
foi adaptada para o cinema em 1951, dirigido pelo cineasta greco-americano Ilias
Kazantzóglu (1909-2003), garantindo o Oscar de melhor atriz para a atriz
britânica Vivien Lweigh – a Lady Olivier (1913-1967) - e de atrizes
coadjuvantes para Kim Hunter e Karl Maden. Em 1999, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar faz a sua adaptação da
peça para o drama All About My Mother
(Todo sobre mi madre), ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro. No filme
de Almodóvar, destaque para Penélope Cruz. Também merece destaque a
interpretação de Leona Cavalli. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui. sábado, agosto 04, 2012
MONIQUE WITTIG, FRANK HERBERT, MICHAEL MCCLURE, ATHOS BULCÃO, MARILYN, HUNDERTWASSER, VIEIRA, JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES
A arte do escultor e pintor Athos
Bulcão (1918-2008).
PARÊNTESIS
LUXURIOSOS - I - (entre eu e eu, um homem e um animal. Um homem que se
inicia, ilumina, transcende e comunga imanente com tudo e todas as coisas. Um
animal lobo sedento e insaciável, soturno e insone. Quando equilibra o ser,
domando e apascentando a fera indômita de si próprio, o eflúvio místico da
sabedoria se insinua e eis que, na calmaria dos sentidos, surge do inopinado
uma mulher linda e nua, olhos manhosos, rosto belo, boca sedutora, cabelos
sedosos ao ombro, seios de fruta deliciosa, braços convidativos, ancas
arredondadas, ventre palpitante, coxas e pernas bem delineadas. Esconde-se,
então, o homem e se pronuncia o animal indomável que arde perante a imagem
carnal mais cobiçada, até alcançar o lado extremo do prazer que ela
proporciona. É nisso que assimilo Zaratustra,
no momento em que "o homem é uma
corda atada entre o animal e o além do homem, uma corda sobre o abismo".
E essa rede abissal se forma desde remota infância, menininho miúdo, bolinha
risonha, arrodeado e paparicado por mulheres e por todos os lados: tias,
primas, sobrinhas, madrinhas, afilhadas, enteadas, vizinhas. Tudo cheirando meu
ventre miúdo e acendendo minha incipiente satisfação. Havia até uma delas que
cochilava com meu pingulizinho na boca de manhã, ou de tarde, ou de noite. Eu
quietinho, nem chorava. Só esperneava com fome ou por falta de uma mulher ao
meu lado. Assim fui crescendo, deitando no chão só para ver o segredo embaixo
das saias. Minha tia se aperreava quando saía do banheiro enrolada numa toalha
que eu me escondia embaixo. Aprontava das muitas. Fechadura de portas de quarto
de fêmea, era o meu predileto passatempo. Até meus quatro anos quando conheci a
professora peituda e bunduda, dela nascia meu gosto felliniano pelas desproporções, a ponto de colocar um espelhinho no
sapato só para flagrar suas intimidades. Quanto mais peituda, mais se acentuava
minha paixão infantil. Mesmo, e uma coisa curiosa ocorreu alguns anos atrás
quando uma amiga minha, Cleonice, uma daquelas pessoas que a gente tem afinidade
parecendo mais que já foi íntima da gente noutra encarnação, e eu gozava de sua
estreita amizade.; até o dia em que, anos e anos no meio de tantas e tantas
transparências confidenciais trocadas na maior cumplicidade de amigos,
entreguei minha fantasia sexual: volumosos seios e carnes excedentes. Ao
término do almoço no restaurante, ela saiu muda, acompanhando meu palavreado,
eu nem me tocando que algo havia desgostado nela. Não havia como eu perceber
que a anatomia que havia descrito, batia de cara com o seu ser. Eu não possuía
essa maledicência. Não, Cleo, eu nunca cantei uma mulher. Minha timidez nunca
permitiu e nunca, jamais fui possuído por tal ousadia. Sempre usei de outras
mais sutis alternativas - abordagens com uma olhada tímida e persistente,
provocando esbarrar na pessoa, deixando a coisa fluir com naturalidade, em
tempo algum com uma cantada - para conseguir as mulheres que me deram a graça dos
meus braços e provando de meu corpo. Cleo não entendera isso, e eu perdera uma
linda amizade. Mas eu não vou aqui fazer um relato como a da Thérèse Philosophe, muito menos um
diário como o de Kierkegaard porque voo
pelo que persuade a não amar apenas uma, mas muitas e que deus fique com o céu,
que eu fico com ela, nem uma pregação do hedonismo sofista de que nada é mais
importante que o prazer. Não. Devo dizer que sempre ambicionei encontrar o
Eldorado, não pela busca da riqueza ou outros louros, mas pela justiça e equidade
social.; sempre procurei Canãa nalgum lugar, alhures; sempre invoquei Shangri-lá, a Cidade do Sol de Campanela, a L"an 2440 de Mercier, a Nova
Atlântida de Francis Bacon, a Utopia
de Thomas Moore, e todos esses
lugares inatingíveis, só foram reunidos para mim, no corpo de uma mulher. Esta
sim, a minha busca real, onde sou todo em minha pequenez; inteiro com meus
pedaços; forte com as minhas fraquezas; adulto com minhas infantilidades;
perfeito com todas as minhas imperfeições. Nela eu me completo com a sua
compreensão e com a minha descarga animal da tensão biológica como a chuva que
cai do espírito do universo para fertilizar a terra. É nela que me realizo,
considerando o que mencionara Jung
que "o animal humano sempre viceja
quando não é premido pela dura necessidade" e aprendendo com ele que
"é no coração onde reside todo drama
e toda excentricidade". E a quem nascera com o coração capaz de amar a
mulher, restaria não só a sede da volubilidade erroneamente detectada, mas a de
amá-las todas, fielmente, em sua beleza e em sua razão de ser. Parece que foi Vinícuis de Moraes quem dissera que amava
muitas mulheres mas que era fiel a cada uma. É neste sentido que deixo a minha
imaginação viajar ao doce enleio do jeito feminino...).... ©Luiz Alberto
Machado. Direitos Reservados. Veja mais aqui e aqui,
DITOS &
DESDITOS - Não há males na
Natureza, há apenas males do Homem. O teu direito de janela – o teu dever de árvore. Homens e mulheres
criativos, tens o direito de enfeitar a teu gosto, e tão longe quanto teu. Devemos, finalmente, acabar com o fato de as pessoas se
mudarem para seus aposentos como galinhas e coelhos em seus galinheiros. A
linha reta é ímpia e imoral. Pensamento do artista austríaco Friedensreich Hundertwasser (Friedrich Stowasser – 1928-2000).
ALGUÉM FALOU: Estou com fogo entre os dentes e
ainda nada além da minha página em branco. É bem possível que uma obra de
literatura funcione como uma máquina de guerra em sua época. Pensamento da escritora francesa Monique
Wittig (1935-2003), autora das obras L'opoponax (1964) e Les Guérillères (1969),
entre outras.
OUTRA QUE FALOU... - A vida é o
que acontece conosco enquanto estamos ocupados fazendo planos... Pensamento
da atriz estadunidense Marilyn Monroe (Norma Jeane Mortenson – 1926-1962). Veja
mais aqui,
A POESIA – [...] Em todos os tempos, a poesia será sempre um lance de dados, um jogo de azar entre paixão e razão. por isso, a linha em que elas se inserem será permanente mesmo diante de eventual desfavor crítico, para além das alternativas, que definem, hoje como ontem, o sentido dinâmico da criação. [...]. Trecho extraído da obra A tempestade engarrafada – ensaios (EGBA, 1995), do escritor, jornalista e professor João Carlos Teixeira Gomes. Veja mais aqui e aqui.
ENGENHO – [...] Que coisa
já na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno, que qualquer desses vossos
engenhos? Por isso foi tão bem recebida aquela bela e discreta definição de
quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno [...] as caldeiras ou lagos ferventes vomitando espumas, exalando nuvens de
vapores, o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite,
trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momentos de trégua,
nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina, não poderá duvidar que é uma
semelhança do inferno [...]. Trecho do Sermão XIV extraído de Os
Sermões do Padre
Antônio Vieira (1608-1697). Veja mais aqui, aqui e aqui.
DUNE – [...] Em
tempos, os homens entregavam o pensamento às máquinas, na esperança de que isso
os libertasse. Mas só permitiu que outros homens com máquinas os escravizassem [...] O mistério da vida não é um problema para resolver, mas
uma realidade para experimentar. [...] Nas
profundezas do inconsciente humano há uma necessidade generalizada de um
universo lógico que faça sentido. Mas o universo real está sempre um passo além da lógica. [...]. Trechos extraídos da obra Dune (Ace, 1990), do escritor e jornalista estadunidense Frank
Herbert (1920-1986).
PEIOTE – I - Livre – sentidos claros – sentado na cadeira
preta – De balanço – / paredes brancas refletindo a cor de nuvens / movendo
sobre o sol. Intimidades! Os quartos / sem importância — mas como divisões de
todo espaço / de toda hediondez e graça. Eu ouço / a música de mim e a anoto / sem
esperar leitor. Eu passo fantasias como / Me são cantadas em Vozes-de-Circe. Eu
vago / entre os povos de mim mesmo e sei de tudo / Que preciso saber. / EU SEI
DE TUDO! EU PASSO PARA O QUARTO / uma cama dourada se põe a radiar a luz
inteira / o ar enche de linhas e borrões de prata. / Eu rio pra mim mesmo. Sei
de tudo / que há para saber. Eu vejo tudo que há / para sentir. Fiz as pazes
com a dor / na minha barriga. A resposta / pro amor é minha voz. O tempo não
existe! / Nem resposta nenhuma. Ao sentimento, meu sentir é a resposta. / À
alegria, resposta é alegria sem sentir. / O quarto é um querubim de muitas
cores / feito de ar e reluzentes tons. A dor no meu estômago / é quente e
terna. Estou sorrindo. A dor / em mil pontadas, sem angústia. / A luz altera o
quarto de amarelo a roxo! / O espaço amarronzado atrás da porta é o ouro / íntimo,
silencioso e calmo. Terra natal / de Brahms. Sei tudo / que é preciso que eu
saiba. Não há pressa. / Eu leio os sensos dos muros riscados, tetos pensos. / Estou
à parte. Os olhos fecho em divindade e dor. / Solenemente eu pisco à insolente
alegria. / Sorrio pra mim mesmo em movimentos. Andando / apresso o passo com
cuidado. Preencho / o espaço com meu ser. Eu sei o segredo e os distintos / traços
da fumaça que vem de minha boca. / Eu sou, sem atenção, parte de tudo. À parte
/ estou do que é triste e belo. Eu sei de tudo. / (VASTIDÃO / E dura
intensidade — dentro de mim. Não mais / uma nuvem / mas carnal feito pedra.
Como Herácles / de primevos vigor e substância. / Não temendo sequer o fim do
encanto / mas aceitando. / As coisas belas não são pra nós, / mas miro. Estando
entre elas. /E a coisa indígena. É à vera! / Aqui no apê é mais tribal minha
mente.) / ESTÔMAGO!!! / O tempo não existe. Eis que visita um cara / que é deus
das raposas / traz sujeira nas unhas de sua pata / recente do covil. / Sorrimos
um ao outro em reconhecimento. / Estou livre do tempo. Aceito sem triunfo /— um
fato. / Se fecho os olhos há clarões de luz. / Meus olhos já não focam, saltam.
Eu vejo que tenho três pés. / Eu vi de uma só vez sete lugares! / Inclina o
assoalho – o quarto oblíqua / coisas derretem / dentro de outras coisas.
Clarões / de luz / e fusões. Eu espero / olhando a coisa física passar. / Estou
numa mesa de tempo e espaço. /! ES-TÔMA-GO! / Escrevendo a música da vida / em
versos. / Ouvindo os bons sons da guitarra / em cores. / Sentindo a carne a me
tocar. / Enxergo o caos liberto das palavras / na página. / (suprema graça) / (O
doce Yeats de esferais haxixes.) /Minha barriga e eu somos dois caras / unidos
pela / vida. / ESTE É O PODEROSO CONHECIMENTO / sorrimos com ele. / Da janela
eu olho pra melancolia azul-cinzenta / da lugubridade. / Tô aquecido. No dragão
do espaço. / Eu fito as nuvens vendo / suas convoluções brumosas. / Os turbilhões do
vapor / Pequenarei as nuvens 'té que sumam. / Elas se tornam peixe e comem uma
à outra. / E mudam como espíritos de Dante / a se tornar no céu mais alto
imóvel garça / pra me desafiar. Poema do escritor, dramaturgo e compositor
estadunidense Michael McClure (1932-2020). Veja mais aqui.
NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS
Imagem: Acervo ArtLAM . Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...
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