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terça-feira, julho 13, 2021

PAULINA CHIZIANE, RÓMULO GALLEGOS, TERESINHA GONZAGA, BRENDA MARQUES PENA & IMERSÃO LATINA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Da arte vida... Imagens: Arte do artista visual & poeta Tchello D’Barros, ao som do tema de Impressões Seresteiras, de Villa Lobos, com arranjo e adaptação para violão de Silvio Santisteban. - Geruzilda enviuvou ainda jovem, só lhe restava o filho que era os pés da doida: todo mundo aparecia com reclamações por conta das suas travessuras. Ao chamá-lo para a reprimenda, a cara mais lisa dele amolecia o coração dela. Até que a parentalha pegou pesado. Ora, o menino tinha os maus bofes do pai: Veja se não é, cagado e cuspido! A todo instante ela conferia: parecia mesmo que o defunto esculpia nele todas as maledicências. Ela entristeceu com isso: não havia nele nada dela, era incorrigível, puxava em tudo ao pai. Encostada na desolação do canto da casa, guardava o sono dele. Eis que aparece a madrinha, Gelcidália: Que é que há comadre? Ao tomar ciência de tudo, olhou pro afilhado, virou-se para ela e parecia copiar o ocorrido d’O escultor invisível, do escritor venezuelano Rómulo Gallegos (1884-1969): - Que coisa tão esquisita! – disse. – Você não reparou que esta criança tem duas caras? Uma quando está acordado: cara de mau; outra, quando está adormecida. Então, parece-se muito com você. Repare: é o seu vivo retrato quando era pequena. Aí ela animou-se: É mesmo, comadre? Ora se é, anime-se. Pelo menos; então, tem jeito num tem? Sossegue, é só um menino. E assim disse com aquele tom poético de Paulina Chiziane: A vida é como a água, nunca esquece o seu caminho. A água vai para o céu, mas volta a cair na terra. Vai para o subterrâneo, mas volta à superfície. A vida é um eterno ir e voltar. O corpo é apenas uma carcaça onde a alma constrói a sua morada... Pois é, a vida passa e ao mundo tudo se revela.

 


Ah, a vida imita a arte sempre... - Essa foi a primeira entre as colisões do Bidião com o padre Quiba. E se deu no dia em que a matriarca Maroca bateu as botas. Foi assim: certa manhã lá ia o menino de calças curtas e seboseira nas ventas, passando pela casarão da ricaça. Estranhou as portas abertas, pulou o muro, roubou umas pitangas e foi entrando casa adentro. Procurou dos empregados e deu com o lugar mais limpo. Ouviu um choramingado distante e seguiu procurando onde, bateu pra todo lado e seguiu escadaria acima, até o quarto suntuosíssimo da baronesa. Passou pela porta entreaberta e lá estava ela deitada na sua enorme cama. Ao vê-lo chamou com um gesto de mão, pediu que se aproximasse e com dificuldade disse para ele chamar o padre urgentemente. Que foi? Ela insistia. Assim foi num pé e voltou no outro. Aboletou-se do lado dela: Vou morrer, meu filho, cadê o padre que não chega para a extrema-unção. Depois de horas chegou o vigário todo afobado, expulsando-o do ambiente. Saiu a contragosto, sentou-se na escadaria e ali ficou matutando. Não demorou muito o pároco saiu às pressas revirando tudo dentro da casa. Ao se livrar das passadas avexadas do religioso, ele levantou-se e foi até ela que dava os últimos suspiros. Ao percebê-la imóvel, resolveu ir embora e na saída o padre mandou-o carregar uma poltrona velha e jogar no lixo. Tentou pegá-la e não conseguia de tão pesada. Saiu e voltou com um carro-de-mão. Muito esforço para conduzir aquela cadeira grandiosa. Até que conseguiu colocá-la sobre a sua condução e, ao invés de sacudi-la, levou pro seu próprio quarto e aboletou-se como o barão. Ali ficou ajeitando canto para ela. No outro dia seguiu pro enterro postando-se na cabeceira do caixão. Nisso, percebeu que o olho da defunta abria e fechava. Psiu! Era ela, estava viva. Foi conferir de perto e, antes que pudesse gritar, ela sussurrou um segredo ao seu ouvido e, depois da revelação, morreu de vez. Seguiu toda cerimonia até se certificar de que fora mesmo sepultada. Pronto, acabou-se. Aquilo remoía sua cabeça e preferiu transparecer, ficando o resto da tarde toda intrigado com o que ela disse. Chegou a noite, resolveu passear. Ao passar pelo cinema estava em cartaz a comédia The Twelve Chairs (1970), do Mel Brooks, anunciada como Banzé na Rússia. Juntou os trocados do bolso e foi assistir. Não sabia ele que era uma entre as dezoito adaptações da película de 1928, da dupla Ilya Ilf e Yevgeny Petrov e que ganhara, inclusive, uma versão brasileira intitulada Treze cadeiras (1957), estrelada por Oscarito e produzido pela memorável Atlântida. Olhos grudados na tela, bastaram as primeiras cenas: matou a charada. No outro dia a cidade em peso acordava com um manuscrito embaixo da porta: O padre Quiba surrupiou as poltronas da Maroca! Pense numa bronca!

 


Vidarte & vice-versa... - Ao desembarcar no aeroporto do Recife, oriundo do Rio de Janeiro, ao invés de seguir o meu roteiro, fui levado por um desvio de percurso, atendendo um pedido irrecusável: conhecer a arte da ceramista e artesã Teresinha Gonzaga, lá no Alto do Moura, em Caruaru. Gente! Diante daquilo tudo, fiquei sabendo que era de uma família de louçeiros que vendiam peças utilitárias confeccionadas em barro, para serem vendidas na feira da cidade, o que a fez iniciar no ofício desde menina. Herdou o nome do marido artesão, substituindo o sobrenome familiar de Gonçalves Simões, e junto com seus filhos expõe peças decorativas, figurativas e utilitárias. Pense no monte de potes, jarras, panelas, pratos, luminárias, bonecos de barro e o cotidiano nordestino. Tudo muito surpreendente. Acontece que, ao mesmo tempo, sou contemplado com outra grata surpresa: a de conhecer a arte da ativista-imersiva-poeta-baterista-jornalista, Brenda Marques Pena, que se assina sujeita coletiva multifacetária, que me chegou com um mote bem glosado: O que podemos fazer é ter bastante paciência e aproveitar para ler muito, fazer o que gosta em casa e também nos comunicarmos virtualmente. Nós estamos separados por hora e quanto mais nos isolarmos agora, estaremos em breve juntos. Aproveitemos para aprender com este momento que tem muitas lições para a humanidade. Podemos aprimorar nós mesmos sempre. Seja solidário. Há muita gente que precisa de apoio e uma ligação, um carinho, mesmo que virtual, faz muita diferença! Curioso como sou, fiquei logo sabendo que ela é a fundadiretora do Instituto Imersão Latina (IMEL), do Círculo de Poetas e Narradores do Mercosul e da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), em Minas Gerais, afora ser integrante dos coletivos de escrituras Migrante e o Nós da Poesia. Não perdeu tempo e me convidou para participar do Semanário Latinoamericano, produzido e apresentado por ela e Raúl Larrosa, no Imersão Migrante, em homenagem aos 85 anos do Hermeto Pascoal, com participação de Lucia Helena Issa (Rio de Janeiro/RJ), Alexandre Santos (Recife/PE), Nelson Giles (São Lourenço/RS) e Izabel Gadelha (Acará/PA). Tudo muito bom. Infelizmente não pude entrar ao vivo, mas a minha martelada Tataritaritatá se fez presente, com a intervenção luxuosa do Tchello d’Barros. Muito obrigado, beijabrações paratodos & até mais ver.

 

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segunda-feira, junho 04, 2018

KAFKA, AUDEN, PAULINA CHIZIANE, HERMETO, LUKÁCS, ALAIN RESNAIS, FLÁVIO DE CARVALHO & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


É CADA UMA QUE DÁ DEZ – Imagem: arte do arquiteto, pintor, teatrólogo e escritor Flávio de Carvalho (1899-1973). - Toda madrugada na janela eu converso com ela, a estrela libertária que me guia e ouve, falo pelos cotovelos todos os meus ais e paradoxos. Foi ela quem me ensinou a rir da minha loucura e admirar a dos outros, escondida – cada um esconde como pode; eu escancaro das tripas, coração. Daqui dá pra vê-la a me mostrar o pêndulo das pessoas no agito das vitrines e vidraças, rolês e danças, rodoviárias e aeroportos; ah, sou levado pros invisíveis nos antros dos guetos, abrigos, hospitais, presídios, quanta devastação e o meu coração dói. Vivemos, quer queira quer não, pelo apreço e sofrimento do que tenha ou não, do querem às mãos, braços dados e o que possa a imaginação dos quereres, quanta calamidade nos sentimentos arrebatados. Ninguém é poupado, vassalos da poção do amor na inquietude da paixão e o álibi luzente, as armadilhas dos amantes ancestrais e a vida é a vida, nada e nada mais. Do inopinado sempre o desaviso: o alerta dos sentidos no flerte e o prelúdio, tudo se mistura entre a mira e o alvo, prevalece o frêmito carnal, a chama eletrizante que pulsa na pele e veias, carecimentos e dissipações, clamores e entregas. Nesse torvelinho a razão é o estorvo, seja lá o que Deus quiser, príncipes encantados e donzelas imaculadas que sempre estiveram à espera do amor, o verdadeiro; e o sorvedouro idílico vai na valsa onírica de rosas e nuvens, nada pras ameaças que assomam tácitas entre passos e piruetas. No desfecho, quase impossível sobreviver à provação, quase se morre de tão obcecado e rendido. E em cada um os seus tenebrosos porões e sótãos, entre o que enobrece e o que aflige, o que ama e odeia. Até que a fera ruge, a luz se apaga no coração, quanta fúria e crueldade de sobra e por troco. Aprendi a domar meus monstros com as palavras suaves: o segredo da poesia. Ninguém merece nossos esturros, somos nós mesmos que pagamos o pato, ora. Isso eu sei, guardo comigo. Conquanto, soluções de plantão: é só passar a bronca pro outro, pronto, livrou-se, lavou as mãos, resolvido. No final, luzes e sombras, o casulo se esvai no escuro da solidão e silêncio. Contudo, quem aprende a lição, hem, na verdade olvida, como eu: fazendo uma merda atrás da outra. Porquanto tenha só abusado da sorte na areia da praia, lazer domingueiro ou de feriadão, o castelo de areia, lá vem o mar subindo manso, a maré e não, a onda, não, lá vem, não, pelo amor de Deus não, a água nem aí, não, acabou-se o que era doce. Pra quem vive na corda bamba qualquer sopapo é crucial e haja catabi entrando pela perna de pinto e saindo pela perna de pato. É a vida e lá se vão os ventos omnidirecionais com seus encantos e desamores no fortuito embalo das paixões. É cada uma que dá dez! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e multi-instrumentista Hermeto Pascoal: Live in Montreaux, Zumbumbê bum-á, Slave Mass, Cérebro Magnético, Natureza Universal ao Vivo & Live in Jazz Sous Les Pommiers; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ah, aprende-se o que é preciso que de aprenda! Aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne. A natureza do macaco escapou de mim frenética, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um símio, teve de renunciar às aulas e ser internado em um sanatório. Felizmente saiu logo de lá. [...] Seja como for, no conjunto eu alcanço o que queria alcançar. Não se diga que o esforço não valeu a pena. No mais, não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; [...]. Pensamentos extraídos de Um relatório para uma Academia (Companhia das Letras, 1999), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

ONTOLOGIA – [...] No trabalho estão contidas in nuce todas as determinações que, como veremos, constituem a essência do novo dentro do ser social. O trabalho pode ser considerado, pois, como fenômeno originário [Urphänomen], como modelo do ser social; o esclarecimento destas determinações proporciona já, portanto, uma imagem tão clara acerca de suas características essenciais, que parece metodologicamente vantajoso começar com sua análise [...] A posição do fim se origina numa necessidade humano-social; mas, a fim de que chegue a uma posição autêntica do fim, a investigação dos meios (isto é, o conhecimento da natureza) deve ter alcançado um determinado nível, coerente com esses meios; se esse nível ainda não foi alcançado, a posição do fim permanece como projeto meramente utópico, uma espécie de sonho [...]. O ponto, pois, no qual o trabalho se relaciona, desde o ponto de vista da ontologia do ser social, com o surgimento do pensamento científico e sua evolução, é precisamente o âmbito por nós denominado investigação dos meios [...] quando os resultados do reflexo não existente se cristalizam numa práxis estruturada em termos de alternativa, a partir daquilo que existe somente de maneira natural, pode surgir algo existente no marco do ser social – por exemplo, uma faca ou um machado –, isto é, surge uma forma de objetividade desse ser existente total e radicalmente nova. Pois, a pedra, na sua existência e em seu ser-em-si natural, nada tem a ver com a faca ou o machado [...] Enquanto ser biológico, o ser humano é um produto da evolução natural. Com sua autorrealização, que, naturalmente, também nele mesmo pode significar um retrocesso dos limites naturais, mas nunca o desaparecimento, a plena superação desses limites, o ser humano ingressa num novo ser e por ele mesmo fundado: o ser social [...] todas as representações ontológicas dos seres humanos, independentemente do grau de consciência em que isso ocorre, são amplamente influenciadas pela sociedade, e não vem ao caso se o componente dominante é o da vida cotidiana, o da fé religiosa etc. Essas representações cumprem um papel extremamente influente na práxis social dos seres humanos, condensando-se com frequência em um poder social real [...] superação da mudez meramente orgânica do gênero, sua continuação no gênero articulado, em desenvolvimento, do ser humano que se forma enquanto ente social, é – considerada desde um ponto de vista ontológico-genético – o mesmo ato que o do surgimento da liberdade [...]. Trechos extraídos da obra Ontología del ser social: el trabajo (Herramienta, 2004), do filósofo, crítico literário e teórico marxista húngaro Georg Lukács (1885-1971). Veja mais aqui e aqui.

BALADA DE AMOR AO VENTO - [...] Meu pai, minha mãe, meus avós e todos os defuntos. Aceitei esta oferta, esta humilhação, que é o testemunho da minha partida. Vou agora pertencer à outra família, mas ficam estas vacas que me substituem1. Que estas vacas lobolem mais almas, que aumentem o número da nossa família, que tragam esposas para este lar, de modo que nunca falte água, nem milho, nem lume [...] É como vos digo, cada mundo tem a sua beleza. No campo é mais belo o rosto queimado de sol. São belas as pernas fortes e musculosas, os calcanhares rachados que galgam quilómetros para que em casa nunca falte água, nem milho, nem lume. São mais belas as mãos calosas, os corpos que lutam ao lado do sol, do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna [...] venceu-me a carne, venceu-me o coração, sou apenas a escrava do sentimento que é mais forte do que eu [...]. Trechos extraídos da obra Balada de amor ao vento (Ndjira, 2010), da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Veja mais aqui e aqui.

DOS POEMAS BREVES E DOS POEMAS BREVES - I - Receio haja muitos caixa-d’óculos filisteus / que preferem o museu Britânico ao próprio Deus. II - Honremos, como ideal, / o homem vertical, / embora valorizemos / só o horizontal, mesmo. III - Rostos particulares em lugares públicos / É coisa mais gentil e mais sensata / Do que, em lugares particulares, rostos públicos. IV - a esperança de um poeta: ser, / Como os queijos de certos vales, / Local, mas estimado alhures. V - Quem poderá jamais imaginar / Calvino, Pascal ou Nietzsche / Como um róseo garoto rechonchudo? VI - sem mãe capaz de amá-lo / Descartes divorciou / a mente da matéria. Poemas do poeta, dramaturgo e editor britânico Wystan Hugh Auden (1907-1973). Veja mais aqui.

A ARTE DE ALAIN RESNAIS
Já destaquei aqui On connaît la chanson (Amores Parisienses, 1997) e o premiado documentário Noite e Neblina (Nuit et brouillard, 1955), do cineasta francês Alain Resnais (1922-2014). Poderia ter muitos outros destaques, a exemplo do polêmico e belíssimo drama-romance Hiroshima mon amour (1959), com roteiro da Marguerita Duras; o drama romântico Mélo (Melodia infiel, 1986), baseado na peça homônima de Henri Bernstein de 1929; o drama ficção científica Je t’aime, je t’aime (Eu te amo, eu te amo, 1968), contando uma viagem no tempo de um suicida que pode reviver; e o drama Muriel ou o Tempo de um Regresso (1963), e muitos tantos outros da lavra. Veja mais aqui e aqui.


O livro Ora pro nobis Scania Vabis, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do arquiteto, pintor, teatrólogo e escritor Flávio de Carvalho (1899-1973).
Veja mais aqui.
&
Devoção de amor, a literatura de Philip Roth, o teatro de Maria Clara Machado & a arte de Luciah Lopez aqui.
 

sexta-feira, novembro 03, 2017

BETINHO, HENRY MILLER, ALZIRA RUFINO, VITAL CORRÊA DE ARAÚJO, CYANE PACHECO, LUCIAH LOPEZ & CUPIRA

POESIA VITAL ABSOLUTA - Imagem: arte da artista plástica e desenhista Cyane Pacheco. - Desde daquela hora Pirata de 1982, dúbios passos trocando pés e pernas pelo meio fio, calçadas, asfaltos entre o Capibaribe e o Beberibe até a Livro 7 – tudo acontecia ali, asas livres na rua - para voar o céu do Recife além do Brasil e planeta. Mais fizera da intromissão do verbo a minha invocação pra saber do Burocracial e sem saber do Título Provisório nem que Só às paredes confesso, o Palpo a quimera e o tremor, ou Ora Pro Nobis Scania Vabis. Só agora, a vida à deriva e de pernas pro ar, dei de cara com o Bando de Mônadas revisitando Liebniz, quando o poeta se confessa atravessando o pomar do apocalipse, preparando seu próprio féretro pra viver aos extremos e além deles, insepulto na sua morte voluntária entre poemas surgidos do nada da intuição, confissões, loucuras de Catuama abarcando úteros e partos abandonados nas ruas de Palmares, com as cinzas do ego pelo céu vagaroso de Garanhuns, palavra como valor de troça nas metades perdidas do ser pra viver além da redoma de si, dos limites do plano cartesiano, das medidas e comprimentos. A sua Poesia Absoluta é feita de vida: sem explicações, regras, significados ou necessidade de compreensão: vive, apenas, simplesmente, e o poeta cônscio de sua natural vitalidade vocifera lírica paradoxal enraivecida por oxímoros que recriam sintagmas destronando hierarquias, taxonomias, distinções, porque o id vital é um jumento priápico celebrando a paudurescência das orgias dionisíacas na festa dos escombros da decadente sociedade neoposmoderna e despótica, tão corajosa quanto Dom Quixote enfrentando seus gigantes moinhos, tão desafiador quanto o eco de eu oco de Eliot e as provocações dos muitos eus Pound, Zizek, Cummings, Valéry, Wittgenstein, demasiadamente humano Nietzsche e tão ousado quanto o lance de dados de Mallarmé, tão intenso quanto as disparadas do Finnegans de Joyce, tão iconoclasta quanto o brincarte de Ascenso, tão paradoxal quanto a vida daquela tribo do Informe de Brodie da cegueira de Borges traduzida por Hermilo. É correr risco, o sema mata e ler VCA causa AVC e o leitor pode se perder no meio da poesia pura doída e doida contra o euismo poético com seus monósticos de carbono priapoéticos – respire fundo antes de usar – para a sublime incompreensão total: entender não é preciso, poetar livremente sim, isso sim é preciso, a talvez sincera confissão final no futuro que não virá nunca nas meditações do abismo profeta pra quem sabe Deus nos detalhes (nas reentrâncias de um punhal navalha e cutelo), demolindo sintaxes e sentidos – só o significante, nada de significados, esses pra lata de lixo! - pelas rieiras inóspitas das faces humanas com o peso da culpa, dos esgares, da usura nos omoplatas e o tempo escancarado sem horas nem contagem nem medidores no labirinto imprevisível: nada de inspiração, piração é a palavra de ordem! Que diga, ué! E só, dizer  e dizer mesmo sem ter nem pra quê, ora! O que é ao se revelar pode – ou deve - ser reconhecido como outra coisa, outras mais, muitas: do útero à cova, tudo, a semente, o fruto. Salve, salve, Vital Corrêa de Araújo (Veja mais abaixo). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal: Slave Mass & Live Montreux Jazz Festuval; a compositora, pianista e escritora Jocy Oliveira: Estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos, Solares, Medea Ballade & Noturno de um piano; a iniciativa de criação da arte erudita com elementos da cultura popular Orquestra Armorial & Quinteto Armorial, oriundos do movimento criado pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna: Chamada & Do romance ao galope nordestino; e a artista experimental e performática compositora estadunidense Laurie Anderson: Homeland & Mister Heartbreak. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] No Brasil, a história é longa. Houve um tempo, antes de os portugueses chegarem, em que os povos indígenas viviam seus regimes comunitários em que cabia todo o mundo, uma sociedade de todas as gentes, ninguém era excluído. Não eram todos iguais, mas todos estavam contemplados com alguma parte do que era de todos. É fantástico pensar esse mundo onde cada pessoa tem um lugar, onde ninguém está excluído. Com a chegada dos portugueses, que naquela época se consideravam a modernidade, começou o regime da escravidão e da exclusão. Índios dizimados, negros africanos escravizados como assalariados, migrantes, trabalhadores de todo o tipo desse tremendo apartheid chamado Brasil. Brasil onde a terra nunca foi bem dividida, sempre concentrada. A riqueza grande, fabulosa para muito pouca gente. E o poder nas mãos de quem tem chicote, cerca de arame farpado, grupos armados. Depois, o poder de quem tem informação e meios de comunicação. Primeiro, a oligarquia e, depois, todos os outros senhores desta terra e dos bens que nela se produzem. Assim foi que se produziu o Brasil para chegarmos hoje a 80% de pobres e milhões de indigentes divididos entre o campo e a cidade. E isso num país onde o que não falta é riqueza. A matemática brasileira soma, acumula e multiplica, não aprendeu a dividir, a compartir. Aqui, o bolo sempre cresce, nunca é dividido. Hoje, temos uma bomba social explodindo nas nossas grandes cidades, literalmente. A miséria concentrada nas grandes cidades foi tomando forma de mendigos, alcoólatras, crianças de rua, contrabando, ilegalidade, marginalidade, roubo, seqüestro e narcotráfico que se confronta com as próprias forças armadas. E crescendo. As pessoas foram sendo excluídas, mas insistem em sobreviver à margem. Os ricos passaram a viver no medo, em bunkers onde se protegem da sociedade que criaram. Essa é uma bomba terrível e que não foi nem está sendo efetivamente desativada, cresce seu poder de destruição como se fosse um fato inexorável que todos vêem, mas não podem evitar. [...]. Trecho extraído do texto Democracia e cidadania (Democracia Viva, 28 – 1997) do sociólogo e ativista dos direitos humanos, Herbert de Souza – Betinho (1935-1997). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ABELHAS CUPIRA - [...] Como as demais cidades, Cupira nasceu de uma pequena povoação localizada em torno de uma capela, sob a iniciativa do senhor Aleleuia, à margem de uma lagoa, onde existia uma grande barauna. Nesta baraúna, árvore grande e frondosa, fizeram “morada” umas abelhas conhecidas por Cupira. O local ficou sendo escolhido pelo povo como ponto de reunião para “acerto” de negócios e conversações, e ficou conhecido como Cupira, a pequena povoação pertencente ao município de Panelas. O distrito de Cupira foi criado pela Lei municipal 10, de 30 de março de 1900, com sede na povoação de Taboleiro. Passou a denominar-se Cupira em virtude da Lei municipal 56, de 7 de dezembro de 1914. O Decreto estadual 1818, de 29 de dezembro de 1953, criou o município de Cupira, desmembrado de Panelas e elevando sua sede à categora de vila. Sua instalação ocorreu em 20 de 1954. Anualmente, no dia 29 de dezembro, o município comemora a sua emancipação política. Administrativamente é formado pelos distritos sede, Lage de São José e pelo povoado de Gravatá Açu. Trecho extraído da obra Enciclopedia dos Municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aquiaqui.

ESCREVER E VIVERO escrever, como a própria vida, é uma viagem de descobrimento. A aventura é de caráter metafísico; é uma maneira de aproximação indireta com a vida, de aquisição de uma visão total do universo, não parcial. Com freqüência, escrevo coisas que não entendo, embora certo de que depois me parecerão claras e significativas. Tenho fé no homem que está escrevendo, no homem que sou eu, no escritor. E não creio nas palavras, mesmo quando as junta o homem mais hábl: creio na linguagem, que é algo que está mais além das palavras, algo do qual as palavras não oferecem mais do que uma ilusão inadequada. As palavras só existem separadamente nos cérebros eruditos, filólogos, etimólogos, etc. As palavras divorciadas da linguagem são coisa morta e não entregam segredos. Como o princípio do universo, como o imperturbável Absoluto – o Uno, o Todo -, assim o criador, ou seja, o artista, se expressa a partir e por meio da imperfeição. Esse é o tecido da vida, o verdadeiro signo do vivente. A arte nada ensina, senão a significação da vida. A grande obra será inveitavelmente obscura, exceto por um punhado de homens, para aqueles que, como o próprio autor, foram iniciados nos mistérios. Uma vez realmente aceita, a arte deixa de sê-lo. Constitui apenas um substituto, uma linguagem simbólica que substitui algo que deverá ser captado diretamente. Mas para que isso seja possível, o homem terá de transformar-se em um ser totalmente religioso e não simplesmente em um crente, em um primeiro motor, em um deus em ato. Inevitavelmente, chegará a sê-lo. E de todos os rodeios ao longo dessa senda, a arte é o mais glorioso, o mais fecundo, o mais instrutivo. Texto escrito pelo controverso escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980), extraído da obra O escritor e seu fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor argentino Ernesto Sábato. Veja mais aqui e aqui.

RESGATE & CRIOULAI - Sou negra ponto final / devolvo- me a identidade / rasgo minha certidão / sou negra / sem reticências / sem vírgulas sem ausências / sou negra balacobaco / sou negra noite cansaço / sou negra / Ponto final. II - eu sou crioula decente / não sou vil / estou nas cordas / em equilíbrio / de um Brasil / a minha cor apavora / essa raça agride ouvi dizer / não é nos dentes do negro / não é no sexo do negro / é na arte do negro / de viver / melhor dizendo / sobreviver / com essa coisa que arrasta / o tronco que tentam esconder / mas esses troncos existem / no conviver / os troncos estão nas favelas / vejo troncos nas vielas / nas moradias fedidas / nas peles sem esperança / nas enxurradas de não / no jogo das damas e reis / eu me perdi / nas rotas dos estiletes / nas celas e nos engodos / negro carretel de rolo / querem fazer um mundo / marginal crioulo. Poemas da poeta e ativista política atuante no Movimento Negro e no Movimento das Mulheres Negras, Alzira Rufino. Veja mais aqui.

A ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica e desenhista Cyane Pacheco.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
NUVENS & CÉU DE PALMARES DE LUCIAH LOPEZ
No fim do mundo, um pé de sonhos
que mais parece ser__________um pé de nuvens.
Meu olhar afirma: são penas nuvens!
Meu coração me diz: são os teus sonhos nascendo outra vez.
Poena da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez
Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

Veja mais:
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
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CINCO TERCETOS DE PALMARES – VITAL CORRÊA DE ARAUJO
Caminho pela tarde imaginária
Descendo de hunos e coivaras.
Das horas perdidas vestígios fumegam
Nas absolutas avenidas da vida não me demoro.
A sombra do Porto (do Recife) se arrastava do cais
E ferros das naves pareciam efêmeros (grilhões).
Ao absurdo cotidiano do homem do mundo
À cata de usuras obesas e salvações vãs.
(Gaia para salvar-se prescindirá da vida humana).
Reino das Águias, 15/05/2014
ADENDO: A ordem é o caos e sintagmas voam pelo meu peito como águias.
Poema extraído da obra Semata (Autor, 2017), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui.
 

sábado, setembro 09, 2017

ERNESTO CARDENAL, DANAH ZOHAR, LUMUMBA, THOMAS MERTON, LUCIAH LOPEZ & ZÉ LINALDO!

O TALENDO DE LINALDO QUE É DE ZÉ & MARTINS! - Conheci Linaldo como filho do Sargento Lapércio Martins. Eita! Quem? É filho do sargento! Oxe! Pense num sujeito filho de um amigo que só tinha de polícia a apresentação, vez que desde molecote, por conta das folgadas da trupe do meu pai, sempre gritava: - Sargento! E o Lapércio dava continência com uma cara fechada de autoridade maior que general! Pense na munganga que era! Depois, era a maior risadagem entre eles. Aí, eu pirralho ficava: - Sargento! E o homem se transformava numa careta feiosa daquelas de meter medo até em assombração. Eu ficava parado no ar, de nem piscar os olhos, atento, até explodirem as gaitadas frouxas. Grande Lapércio, nem sei se ele subiu de patente, nem queria saber, pra mim era mais que coronel, privando da amizade entre pilhérias e camaradagens. Pois bem, se o pai era assim, imagine o filho, como os demais irmãos dele Laércio, Lobinho, Levi, tudo da minha laia. Saudades da boa, outros tempos. Doutra feita, vejo um batuque de Linaldo, ao lado de Cikó, maior clima de som. Eu, enxerido como sempre, queria era participar da levada boa deles. E peguei a viola e me intrometi entre eles, muito arretado, a dupla era excepcional, eu ficava ancho, cometendo minhas desafinações e trastejados, e, por cima, me achando o rei da cocada preta, pelo suingue que eles imprimiam no que eu inventasse de cantar. A plateia que agüentava querendo de volta a dupla. Foi aí que, um dia, me deparo com Edição Extraordinária, um álbum dos tempos do vinil, simplesmente bom demais. Curti da primeira à última faixa, até estava premiado pela minha parceria com Mazinho, cantada pela dupla Linaldo & Cikó. Cá comigo eu dizia: essa dupla dá o maior cloro. E deu. Os dois, pra lá de ótimos; até juntei os dois com Kruel e Robinho, prum show que eu tencionava fazer, ensaiando no quarto-estúdio do Mané Preto: o som demais de me deixar embevecido e o ambiente dos ensaios matava a gente de rir. Por isso escrevi a croniqueta A banda de Mané Preto. Foi o que sobrou vez que o show gorou. Daí por diante, Linaldo & Cikó, cada um pro seu lado depois de um tanto de sucesso que fizeram. Deles fiquei acompanhando o trabalho solo de cada um, sempre bom demais. Até que Linaldo me surpreendeu mais uma vez e continua me surpreendendo até hoje: músico dos bons, pesquisador, compositor versátil da melhor cepa, gente de uma aura boníssima, cabra de honrar a espécie humana. O sujeito canta divinamente, jeito seu exclusivo, músico da estirpe dos bons, o que faz deixa todo mundo de boca aberta e queixo caído, enfim, um artista de primeira. Já ouvi seus sons de trás pra frente e vice-versa, vai ser bom assim no palco pros aplausos, meus! Ainda por cima, faz parte dum trio pra lá espetacular: ele, o poeta Genésio Cavalcanti e o cantor Marquinhos Cabral. Ô trio que dá gosto de ouvir e curtir. Coisa do tipo que Deus faz e o diabo ajunta: perfeito. E, acima de tudo, meu amigo. Tenho orgulho dessa amizade, coisa que faz valer a pena viver. E de me embevecer com o talento de Linaldo, o Zé Linaldo, o Linaldo Martins. Aplausos de pé. E vejam a entrevista que ele me concedeu mais abaixo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais com o compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal; a compositora, pianista e escritora Jocy Oliveira; a iniciativa de criação da arte erudita com elementos da cultura popular Orquestra Armorial & Quinteto Armorial, oriundos do movimento criado pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna; e a artista experimental e performática compositora estadunidense Laurie Anderson. Para conferir é só ligar o som e curtir.

O SER QUÂNTICO DE DANAH ZOHAR - [...] Todo o mundo da matéria, incluindo nossos próprios corpos, é feito de átomos e seus componentes ainda menores, e as leis que governam esses pequenos pedacinhos de realidade básica transbordam para nossa vida diária. Um único fóton, ou "partícula" de luz, afeta a sensibilidade do nervo ótico. O princípio da incerteza que governa o comportamento dos elétrons desempenha um papel na estrutura dos acidentes genéticos que contribuem para o processo de envelhecimento e para a evolução de certos tipos de câncer, sendo que o próprio processo evolutivo talvez seja afetado de maneira semelhante. [...] Uma visão de mundo bem-sucedida deve, no final, reunir todos esses níveis — pessoal, social e espiritual — num só todo coerente. Se o fizer, o indivíduo tem acesso a algum sentido de quem ele é, por que está aqui, como se relaciona com os outros e que comportamentos são desejáveis. Se não fizer, o mundo que ele deveria articular será fragmentado, e o indivíduo sofrerá alienação em algum nível, talvez em todos. [...] Tendo feito essa ligação, tendo visto que a física da consciência humana emerge de processos quânticos no interior do cérebro e que, conseqüentemente, a consciência humana e todo o mundo de sua criação partilham de uma física comum com tudo mais no Universo — com o corpo humano, com todas as outras coisas vivas e criaturas, com a física básica da matéria e do relacionamento e com o estado básico coerente do vácuo quântico em si —, torna-se impossível imaginar um único aspecto de nossas vidas que não seja abarcado nesse todo coerente único. A cosmovisão quântica transcende a dicotomia entre mente e corpo, entre interior e exterior, revelando-nos que as unidades básicas constitutivas da mente (bósons) e as unidades básicas constitutivas da matéria (férmions) brotam de um substrato quântico comum (o vácuo) e estão empenhadas num diálogo mutuamente criativo, cujas raízes remontam ao próprio cerne da criação da realidade. Em outros termos, a mente é relacionamento e a matéria é aquilo que é relacionado. Nenhuma delas, sozinha, poderia evoluir ou expressar algo. Juntas, elas nos dão os seres humanos e o mundo. [...] Em resumo, a cosmovisão quântica enfatiza o relacionamento dinâmico como a base de tudo o que existe. Diz que nosso mundo surge através de um diálogo mutuamente criativo entre mente e corpo (interior e exterior, sujeito e objeto), entre o indivíduo e seu contexto material e pessoal, e entre a cultura humana e o mundo da natureza. Dá-nos uma visão do ser do homem como livre e responsável, reagindo aos outros e ao ambiente, essencialmente relacionado e naturalmente comprometido, e, a cada instante, criativo. Trechos extraídos da obra O ser quântico: Uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência, baseada na nova física (Best Seller, 1990), da física e filósofa estadunidense Danah Zohar, tratando sobre uma física da vida diária, a consciência e o cérebro, um modelo mecânico-quântico da consciência, mente e corpo, a sobrevivência do ser e a imortalidade quântica, fundamentos de uma nova psicologia quântica, a liberdade do ser e a responsabilidade quântica, o mundo material e a estética quântica, criatividade e liberdade, a cosmovisão quântica, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui aqui e aqui.

O CÂNTICO DOS CANTOS DE ERNESTO CARDENAL – Amada, teu ventre tem cheiro de terra recém aberta e a terra recém molhada. /— A sulco recém molhado por meu amado. / Toda matéria está construída com duas partículas: / prótons e elétrons; / os prótons são positivos e os elétrons negativos, / macho e fêmea. / Um nascimento não é por acidente / mas por união. / E prótons e elétrons no gás estelar estão sexuados. / Daí a evolução do universo. / Uma atração irresistível / entre partícula subatômica positiva e negativa. / Daí os átomos, as estrelas, nós. / Esta é a coesão do universo. / Amor essencial! Essencial / que estás no coração do universo! / Atração que gerou todas as coisas. / O universo inteiro é uma boda. / Pedaço de matéria estelar, / um átomo teu é como um sistema solar, e teu corpo / como um sistema de galáxias com milhões de sóis. / A atração. A atração. / Os elétrons giram dentro dos átomos, / os satélites giram arredor dos planetas, / os planetas arredor da galáxia arredor / de um centro de gravidade comum. / A gravidade que move o sol e todas as estrelas. Poema Cântico dos cantos, extraído da obra Cántico cósmico (Trotta, 1993), do escritor, sacerdote e teólogo nicaragüense Ernesto Cardenal. (Tradução do poeta e tradutor Antonio Miranda)

A LIBERDADE DE LUMUMBA – [...] Desta luta, que foi de lágrimas, fogo e sangue, estamos orgulhosos até ao mais profundo de nós mesmos, pois foi uma luta nobre e justa, uma luta indispensável para por fim à humilhante escravidão que nos era imposta pela força. Qual foi a nossa sorte durante 80 anos de regime colonial, as nossas  feridas estão ainda muito frescas e muito dolorosas para que nós possamos removê-las da nossa memória; nós conhecemos o trabalho exaustivo, exigido em troca de salários que não nos permitiam nem comer para matar a nossa fome, nem nos vestir ou morar decentemente, nem criar nossos filhos como seres amados. Nós conhecemos as ironias, os insultos, as pancadas que devíamos suportar, de manhã, de tarde e de noite, porque éramos negros. Quem esquecerá que a um negro se dizia “tu”, certamente não como se diz a um amigo, mas porque o respeitável “vous” era reservado somente aos brancos? Nós conhecemos a pilhagem de nossas terras, espoliadas em nome de textos pretensamente legais que não faziam mais do que reconhecer o direito do mais forte. Nós conhecemos o que era a lei não ser a mesma, caso se tratasse de um branco ou de um negro, confortável para uns, cruel e desumana para os outros. Nós conhecemos os sofrimentos atrozes dos que foram degredados por opiniões políticas ou por crenças religiosas, exilados em sua própria pátria, com sorte pior do que a morte. Nós conhecemos o que era haver casas magníficas para os brancos e palhoças miseráveis para os negros, ou, nas lojas ditas europeias, um negro nem poder entrar, ou, nas barcaças, um negro viajar como um galináceo, aos pés do branco em sua cabine de luxo. Quem esquecerá, enfim, os fuzilamentos onde pereceram tantos de nossos irmãos, as masmorras onde foram brutalmente atirados aqueles que não queriam mais se submeter ao regime de injustiça, opressão e exploração? Tudo isso, meus irmãos, nós temos sofrido profundamente. Mas, também, tudo isso, nós, que fomos escolhidos, pelo voto dos seus representantes eleitos, para governar o nosso amado país, nós, que sofremos em nosso corpo e em nosso coração a opressão colonialista, dizemos a vocês, em voz alta: tudo isso finalmente acabou. A República do Congo foi proclamada e o nosso querido país está agora nas mãos dos seus próprios filhos. Juntos, meus irmãos, minhas irmãs, começaremos uma nova luta, uma luta sublime que levará o nosso país à paz, à prosperidade e à grandeza. Juntos, nós vamos estabelecer a justiça social e assegurar que cada um receba a justa remuneração por seu trabalho. Mostraremos ao mundo o que pode fazer o homem negro quando trabalha em liberdade, e faremos do Congo o centro de iluminação de toda a África. Nós vigiaremos para que as terras de nossa pátria tragam benefícios verdadeiramente para seus filhos. Nós vamos rever todas as leis de outrora e fazer novas, que serão justas e nobres. Nós vamos pôr fim à opressão do pensamento livre e fazer com que todos os cidadãos gozem plenamente das liberdades fundamentais previstas na Declaração dos Direitos do Homem. Nós vamos suprimir eficazmente toda discriminação, seja ela qual for, e dar a cada um o justo lugar que merece sua dignidade humana, seu trabalho e sua dedicação ao país. Nós faremos reinar, não a paz dos fuzis e das baionetas, mas a paz dos corações e da boa vontade. Para tudo isto, queridos compatriotas, podem estar seguros de que poderemos contar não somente com as nossas enormes forças e as nossas imensas riquezas, mas também com a ajuda de numerosos países estrangeiros, cuja colaboração, sempre que for leal e não procurar nos impor uma política, seja ela qual for, aceitaremos sempre. Nesse domínio, a Bélgica, que compreende enfim o sentido da História, não tentando opor-se à nossa independência, está disposta a conceder-nos sua ajuda e amizade, e um tratado foi assinado nesse sentido entre nossos dois países iguais e independentes. Essa cooperação, estou seguro, será vantajosa para os dois países. De nosso lado, mantendo-nos alertas, saberemos respeitar os compromissos livremente consentidos. Assim, tanto interna quanto externamente, o Congo, nossa querida república que meu governo irá criar, será um país rico, livre e próspero. Mas, para que cheguemos sem atraso a esse objetivo, peço a todos, legisladores e cidadãos congoleses, que me ajudem com todas as suas forças. Peço a todos que esqueçam as querelas tribais que nos esgotam e que nos fazem correr o risco de sermos desprezados no exterior. Peço à minoria parlamentar que ajude meu governo com uma oposição construtiva, ficando estritamente dentro das vias legais e democráticas. Peço a todos que não recuem diante de nenhum sacrifício para assegurar o ressurgir da nossa grandiosa tarefa. Peço a todos, finalmente, que respeitem incondicionalmente a vida e os bens de seus concidadãos e dos estrangeiros estabelecidos em nosso país. [...] Trecho do discurso do líder e fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), Patrice Lumumba (1925-1961), defendendo consistentemente a solidariedade entre os povos da África para além dos limites de nação, etnia, cultura, classe e gênero, encorajando a luta não-violenta contra o colonialismo e convocando ao diálogo os países desenvolvidos e em desenvolvimento, brutalmente assassinado no dia 17 de janeiro de 1961, depois de um golpe de estado no Congo, promovido pela Bélgica e Estados Unidos, cujas circunstâncias continuam sendo um mistério e a identidade de seus assassinos desconhecida. Tradução do Movimento para a Paz e a Democracia em Angola (MPDA).

O AMOR DE MERTON – [...] O amor é o nosso verdadeiro destino. Não encontramos o sentido da vida sozinhos, e sim com outro. Não descobrimos o segredo de nossas vidas apenas por meio de estudo e de cálculo em nossas meditações isoladas. O sentido de nossa vida é um segredo que nos tem de ser revelado no amor, por aquele que amamos. E, se esse amor for irreal, o segredo não será encontrado, o sentido jamais se revelará, a mensagem jamais será decodificada. No melhor dos casos, receberemos uma mensagem embaralhada e parcial, que nos enganará e confundirá. Só seremos plenamente reais quando nos permitir-nos amar — seja uma pessoa humana ou Deus. [...] Trecho extraído da obra Amor e vida (Martins Fontes, 2003), do escritor francês, ativista social, monge trapista e estudioso sobre a espiritualidade e as religiões comparadas, Thomas Merton (1915-1968), defensor do pacifismo e do ecumenismo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
PAISAGEM INTERIOR
eu morro sufocada neste álbum de retratos, que a descontinuidade do Tempo faz azular. Quanto mais eu contemplo os detalhes das penas dos pássaros, mais me dou conta de que não posso voar -, e num impulso me lanço ao abraço feito pintura de tinta guache e me penduro no dorso da ilusão de viver em você. Ah, os seus instintos mais primitivos a invocar-me a docilidade de quem vive à margem da realidade na luminosidade nos seus olhos de sol e poucas são as palavras que o Tempo nos participa, porque nem o rio, nem a floresta, nem a montanha ou mesmo o mundo inferior pode separar o que provem de nossa alma e pode ser refletida no espelho d'água - benéfica e cristalina água que sacia a sede de todas as sedes: a felicidade de ser assim, tão sua.
Prosa poética da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. 
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ARTE E ENTREVISTA DE ZÉ LINALDO
A arte na entrevista do músico, compositor, intérprete, arteducador e produtor cultural Zé Linaldo. Veja detalhes aqui.
 

segunda-feira, julho 24, 2017

HERMETO, SANGUINETI, JOCY OLIVEIRA, KEN LOACH, LAURIE ANDERSON, ORQUESTRA ARMORIAL, FARAUT, EUGENE J. MARTIN & DIÁRIO DE BORDO

DIÁRIO DE BORDO - Imagem: A Nutcracker (2000), do pintor afro-americano Eugene J. Martin (1938-2005). - Recomeça segunda a semana, ânimo na fé e pé direito, apruma o estreito sem prantos, o que não afunda bóia, nem é para tanto, distnguir o que é jóia do que não vale quanto e o que é que é, no entanto. Segue à risca, sai do espanto que é terça, arrisca e petisca, ter saúde e saudade na cabeça é o que equivale enquanto debreia da primeira pra segunda espessa e trisca até sair da porneia, não pela metade se vale a pena, não se enganche na azaléia arisca, nem o que na hora se empena. Ah, já é quarta ou quarentena, reveja o roteiro, outros dramas na contracena, entre o falso e o verdadeiro, outro é o cheiro da açucena, outros carreiros e força na habena. A quinta é serena na manhã, pra tudo tem jeito, quem não está sóbrio é tantã, pra quem não sabe direito tem o tino, o opróbrio é coisa malsã, coisa de bater pino, levar-se em defeito pro desatino, engata o cambão. Já é sexta no coração e nem bate o sino, se não é besta, muda o destino e se apronta, revisa as contas e o apurado, tira a prova dos nove, tudo examinado nas catanas, o que deu já foi, o que não deu, só na outra, tanto faz dezenove ou coisa escrota, tanto fez ou fedeu arrependido, quem não ganha perde e só ao menos tem aprendido. Chega sábado e o final de semana, bem entendido, a coisa muda de figura, se um pingo ou destamanho, criatura, leva nos peitos até bingo pra reaver os ganhos, embolsa o tacanho que já é domingo e o que fez da vida? Achada ou perdida, qualquer jeito, olha pra trás e nada feito, o que tiver por troco é o que sobrou na desvalida, quem olha pros lados ou domina a direção ou cai na contramão, nunca é tarde pra quem não tem tempo ou lugar, preste atenção, pra quem faz ou fez, busca fartura, só escassez, se quer acertar vá de talvez e agora? Sonhe acordado, não viva dormindo, olha a hora se desfez, nem é mais domingo, é segunda outra vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

ÚLTIMO PASSEIO DE EDOARDO SANGUINETI
Eu sou o sonho asmático, fantasmático, mecano e automático e patético, e paródico
Patológico, psicológico pneumático, de uma voz vivaz em contra-luz, com filigrana
Honesta, de mesmo grão e trama, e grama, arcaico tanto, é apotropalco tanto,
De me ficar entalado, empalhado, fossilizado, entre as quelas de suas teias telegráficas, holográficas, oleográficas, gráficas, para assustar-te os teus mortos tortos,
Espantalhesco fonema fresco, antomorceguesco epirema picaresco, faunesco grotesco, simiesco, poetema piratesco, papagaiesco, galesco, falante em ponto
E linha, em ponto e vírgula, perturbador compungido, provocador estafante tripudiante
Diarróico logorróico, alfabético estóico, estético emético, herpético energético, erótico
Hermético, harpa sonora até agora vibrante, carpa canora timidamente abocante, e por
Fortuna, ao teu anzol afiado, ao teu chamado, numa má hora muito andantye, face de lua
Galante minguante, croante pensante:
Assim dizia e, dizendo assim, a minha voz sumiu.
Ultimo passeio, poema extraído da obra Bisbidis (Febrinelli, 1987), do escritor italiano Edoardo Sanguineti (1930-2010).

Veja mais sobre:
Se não vai de um jeito, vai de outro, A marcha da insensatez de Barbara Tuchman, Eduque com carinho de Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, a música de Kyung-Wha Chung, a pintura de Joan Miró & Eugène Leroy, a arte de Anna Dart & Eugene J. Martin,.a poesia de Bárbara Lia, a fotografia de Faisal Iskandar, Revista Poética Brasileira & Mhário Lincoln aqui.

E mais:
Processo civilizador de Norbert Elias, O caminho dos sonhos de Marie-Louise von Franz, Simon Bolívar, sonetos de Lope de Vega, a música de Saint-Saëns & Denise Duval, Salomé de Oscar Wilde, o cinema de Carlos Saura, a arte de Sarah Bernhardt, a pintura de Ernst Hochschartner & Janet Agnes Cumbrae Stewart aqui.
Eu etiqueta de Carlos Drummond de Andrade, Formação da Literatura Brasileira de Antônio Cândido, a música de Adolphe-Charles Adam, a pintura de Antonio Bedotti Organofone, a arte de Benedito Pontes & a poesia de Ana Mello aqui.
Robimagaiver & pipoco da porra aqui.
Dr. Ciuça Gorda & os cavaleiros do pós-calipso do nó cego, As aporias de Zenão de Eleia, os sonetos de Francesco Petrarca, O teatro situação de Jean-Paul Sartre, Viridiana de Luis Buñuel & Silvia Pinal, a escultura de Denise Barros, a música de Carlos Santana, a pintura de Max Liebermann & Georgy Kurasov aqui.
Sou mato, sou mata, sou Mata Atlântica, A hora dos ruminantes de José J. Veiga, Técnicas de teatro popular de Augusto Boal, a música de Peter Scartabello, a arte de Patricia Galvão – Pagu & Pristine Cartera, a pintura de Georges Rouault & Tom Fedro aqui.
O desenlace da paquera entre Melzinha & Brothão, Aracelli, meu amor de José Louzeiro, Violência doméstica & sexual de Lucidalva Mª do Nascimento, a música de Geraldo Azevedo & Neila Tavares, Violência contra a mulher, a arte de Yukari Terakado, Nina Kuriloff & Geneviève Salamone, Marcha das Vadias, Todo homem que maltrata uma mulher não merece jamais qualquer perdão aqui.
Sujeito, indivíduo, quem?, Principios fundamentais de Filosofia, Folhas da relva de Walt Whitman, Ecce homo de Friedrich Nietzsche, Bailarina de Claudio Adrian Natoli, a música de Emmanuelle Haïm, a arte de Emerson Pingarilho & Kate Wiloch, Sally Trace, a pintura de Lasar Segall & Carolyn Anderson aqui.
Se não deu e fedeu, só na outra, meu!, A literatura fantástica de Tzvetan Todorov, 47 contos de Juan Carlos Onetti, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a música de Yann Tiersen, a fotografia de JR, a pintura de Asha Carolyn Young, a xilogravura de Marcelo Soares, a arte de Luiz Paulo Baravelli, Kenny Cole & Tom Wesselmann aqui.
O sisifismo da semana, Tempo & expressão literária de Raúl H. Castagnino, Quingunbo & a poesia norte-americana, a pintura de Mary Addison Hackett & Alain Bonnefoit., a música de Paulinho da Costa & Meghan Lindsay, a arte de Steve Hester & Robert Rauschenberg, a arte urbana de Nina Moraes & Trampo aqui.
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PÃO & ROSAS DE KEN LOACH
O filme Pão & Rosas (Bread and Roses, 2000), do engajado cineasta britânico Ken Loach, conta a história de um ativista estadunidense que luta pelos direitos dos oprimidos e cruza com duas imigrantes mexicanas que trabalham como faxineiras em um prédio comercial que abraçam sua causa e lutam contra os patrões, colocando em risco o emprego delas e as relações familiares até o direito de permanência em território americano.  Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal; a compositora, pianista e escritora Jocy Oliveira; a iniciativa de criação da arte erudita com elementos da cultura popular Orquestra Armorial & Quinteto Armorial, oriundos do movimento criado pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna; e a artista experimental e performática compositora estadunidense Laurie Anderson. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor & multi-artista francês Philippe Faraut.
Veja mais aqui.
 

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...