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sábado, novembro 01, 2025

ISABELLE STENGERS, JACKIE KAY, SAMANTHA SHANNON & VAL MARGARIDA

 Imagem: Acervo ArtLAM.

A cor muda com cada modulação, mas a cor dominante é a da tonalidade em que a peça é escrita. Não acontece sempre que tocas ou ouves música e não ajuda necessariamente a memorizar a música, mas é, no entanto, uma coisa bonita de experimentar...

Pensamento ao som do álbum Water (Deutsche Grammophon, 2016), da pianista francesa, Hélène Grimaud (Hélène Rose Paule Grimaud), com peças de piano de autores como Berio, Ravel, Liszt, Debussy, Fauré, Albéniz, Janácek, Toru Takemitsu, Nitin Sawhney, entre outros. Ela é fundadora do Wolf Conservation Center, de New York, e autora dos livros Variations sauvages (Robert Laffont, 2003), Leçons particulières (Robert Laffont, 2005) e Retour à Salem (Albin Michel, 2013). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Pavoa real, o arco-íris de plumas... - Céu azul de muitas nuvens na brisa da tarde e a lua quarto crescente na boca da mata: era a ilha de João Ubaldo. O arco-íris de Rubem Braga em confronto na relva: a Pavoa diante de uma cobra-de-veado sibilando freneticamente. A réptil poiquilotérmica armou-se como uma naja, tal atroz inimiga atiçando-a sarcástica, como na fábula de La Fontaine das queixas à Juno Hera. A insolência da rastejante fê-la inchar o papo colorido proeminente do Anambé-preto, com o canto grave do grande Pavó, no pescoço vermelho do Jacu-touro, no bico azul-claro do Jacupiranga. E assim invocava os poderes mágicos do sagrado Pavão Celestial para enfrentar todos os monstros míticos, todos os dilemas éticos, rios caudalosos, florestas densas e montanhas magistrais. A ave vaidosa deixou-se envolver pela sinistra, enroscando-se pelas escamas grossas de suas patas, como se olvidasse Paracelso: a ousada venenosa era seu alimento predileto, ofiófaga – não sabia dela o anjo Melek Taus, que criou todas as coisas e disso se arrependeu a chorar por 7 mil anos, para que suas lágrimas enchessem 7 jarras na extinção do inferno; muito menos de Tawûsê Melek, dos presentes de Salomão e de Oxum. A serpente agarrou-se ao tronco dela, quem perdoaria a picada e o pecado mortal do golpe píton. A emplumada bípede então piou de novo e os italianos disseram: era a voz do demônio na plumagem de anjo. E inflou incorporando em si o que era azul indiano, o verde asiático, o congolês, o Spalding, o leucístico, o papa-moscas do Pará, o arlequim, o dos ombros negros, brancos e albinos, até o de Taubaté. Assim abriu a cauda grave, recolorida e, penas arqueadas, suas garras longas e afiadas, velozes e ágeis, por trás da cabeça da víbora, a sacudí-la vigorosamente e cada bicada a dilacerá-la, até matá-la e digeri-la. Assim, um homem mata outro e quantos predadores devoram suas presas. A cena se repetia, a mesma de zis outras, revistas, repassadas. E quem testemunha sonhou como num filme em cartaz, deleite da plateia, divertido passatempo. Mas quem incrédulo presenciou o triunfo de vê-la ao Natyadharmi, guardando os seus 100 olhos de Argos Panoptes num poema de Ovídio. Viu-me ali e abriu o coração com o mantra da compaixão do Bodisatva: Om mani padme hū, Avalokiteshvara. Fez o ritual do acasalamento na dança de Krishna, enquanto transmudava na guerreira Kaumari, girando para mostrar-se deusa Santoshi, e sucessivamente era Yashumin, era Lakshmi, enfim Iemanjá com a sua paz de jardim do éden. Aproximou-se para me levar sonâmbulo à Cachoeira dos Andrades, no Vale do Mucuri. Chegando lá me levou à formosa Pedra do Lambuza e já era mais de meia noite, lua cheia de sexta pela Lagoa do Come Calado, pulsante refulgia e o ser alado levitava ao meu lado. Acomodou-me no seu privado valhacouto, com a profusão de seus insondáveis abismos na dignidade do silêncio e em mim fez um mundo povoado de lembranças secretas. Até mais ver.

 

Cecília Meireles: Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade... Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Anne Sexton: Cuidado com o intelecto, porque ele sabe tanto que não sabe nada e te deixa de cabeça para baixo, balbuciando conhecimento enquanto seu coração cai da sua boca... Aproxime o ouvido da sua alma e ouça com atenção... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Erika Mann: As ações podem ser julgadas de acordo com o tempo e o lugar, e seus valores podem mudar; mas o estilo e a linguagem (além do conteúdo) são cristalizados no momento em que são criados... Veja mais aqui & aqui.

 

DELA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Já me falaram dela. \ Como ela sempre, sempre. \ Como ela nunca, nunca. \ Eu observei e ouvi, \ mas ainda assim me apaixonei por ela, \ como ela sempre, sempre. \ Como ela nunca, nunca. \ Na pequena noite corajosa, seus lábios, momentos de borboleta. \ Tentei pegá-la e ela riu uma gargalhada tão alta \ que me partiu em duas, \ mas então me contaram sobre ela, \ como ela sempre, sempre. \ Como ela nunca, nunca. \ Nós duas ouvimos o vento. \ Nós duas galopamos a passos largos. \ Nós duas, para cima e para longe, \ para longe, para longe. \ E agora ela se foi, como disse que iria. \ Mas então me falaram sobre ela \ – como ela sempre, sempre iria.

Poema extraído da obra Life Mask (Bloodaxe, 2005), da escritora e dramaturga britânica Jackie Kay (Jacqueline Margaret Kay), autora de obras como Other Lovers (1993), Trumpet (1998) e Red Dust Road (2011). Veja mais aqui.

 

O PRIORADO DA ÁRVORE LARANJA - [...] Podemos ser pequenos e jovens, mas abalaremos o mundo por nossas crenças. [...] Não consigo dormir porque tenho medo não só dos monstros que estão à minha porta, mas também dos monstros que a minha própria mente consegue criar. Aqueles que vivem dentro de mim. [...] Quando a história não consegue esclarecer a verdade, o mito cria a sua própria versão. [...] Algumas verdades são mais seguras quando enterradas. Alguns castelos são melhores quando permanecem no céu. Há esperança em histórias que ainda não foram contadas. [...] Mas quando o coração fica muito cheio, ele transborda. E o meu, inevitavelmente, transborda para uma página. [...]. Trechos extraídos da obra The Priory of the Orange Tree (Bloomsbury Publishing , 2020), da escritora inglesa Samantha Shannon, autora de obras como The Song Rising (2017), The Mime Order (2015) e The Bone Season (2013).

 

EM TEMPOS CATASTRÓFICOS: RESISTINDO À BARBÁRIE QUE SE APROXIMA - [...] Ao escrever este livro, situo-me entre aqueles que querem ser herdeiros de uma história de lutas travadas contra o estado de guerra perpétuo que o capitalismo impõe. É a questão de como herdar essa história hoje que me faz escrever. […] Esse ato primordial que torna o homem genuinamente ele mesmo precede todas as ações individuais; mas imediatamente após ser posto em liberdade exuberante, esse ato afunda na noite da inconsciência. Não se trata de um ato que possa acontecer uma vez e depois cessar; é um ato permanente, um ato sem fim e, consequentemente, nunca mais poderá ser trazido à consciência. Para que o homem conheça esse ato, a própria consciência teria que retornar ao nada, à liberdade ilimitada, e deixaria de ser consciência. Esse ato ocorre uma vez e imediatamente afunda novamente nas profundezas insondáveis; e a natureza adquire permanência precisamente por meio dele. Da mesma forma, essa vontade, posta uma vez no início e então conduzida para o exterior, deve imediatamente afundar na inconsciência. Só assim é possível um começo, um começo que não deixa de ser um começo, um começo verdadeiramente eterno. Pois também aqui é verdade que o começo não pode se conhecer. Esse ato, uma vez feito, é feito por toda a eternidade. A decisão de que de alguma forma deve realmente começar não deve ser trazida de volta à consciência; não deve ser revogada, pois isso equivaleria a ser retomada. Se, ao tomar uma decisão, alguém retém o direito de reexaminar sua escolha, nunca dará um passo adiante. […] É a barbárie que hoje é tristemente previsível. Mas o teste aqui é, mais uma vez, abandonar sem nostalgia nem desencanto o estilo épico e sua grande narrativa de emancipação, na qual o Homem aprende a pensar por si mesmo, sem precisar mais de próteses artificiais. Essa grande narrativa nos envenenou, não porque nos tivesse atraído com a perspectiva ilusória da emancipação humana, mas porque nos deu uma versão degradada dessa emancipação, marcada pelo desprezo por aqueles povos e civilizações que nossas categorias julgaram muito antes de nos comprometermos a trazer-lhes, com seu consentimento ou pela força, nossa iluminação. Não nos reconhecemos em seus rituais, suas crenças, seus fetiches, essas próteses artificiais das quais fomos capazes de nos libertar? […]. Trechos extraídos da obra In Catastrophic Times. Resisting the Coming Barbarism ( Open Humanities Press 2015), da filósofa e historiadora belga Isabelle Stengers. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE NAIF DE VAL MARGARIDA

A arte da artista e professora Val Margarida, que participou do Festival Internacional de Guarabira (FIAN); expôs na Feira de Arte de Goiás (Fargo) e foi selecionada para participar do Encontro Nacional de Arte Naif do Centro-Oeste-E BANCO/2019. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 

 

sexta-feira, setembro 07, 2018

THIAGO DE MELLO, JOÃO UBALDO, PAULO FREIRE, DARCY RIBEIRO, SEBASTIÃO SALGADO & BRASIL


QUE BRASIL É ESTE? - Ainda ontem perguntaram: que droga de país é este, mas diziam como se fosse esse, coisa de não ter nada a ver. Pra quem disse assim, o problema era só meu, não era dele, só daquele, e insistia pra mim: é seu! E mais dizia: Você e todos não sabem votar! Tenho dito! Será o Benedito? Isso entrava noite pelo dia, maior o esculacho, metendo bronca a pacutia. Em riba da fivela, insistia o soberbo: se fosse eu resolvia na sola, pena de morte, só degola, coisa certa no corte, sem pantim. Ah, se fosse assim, garantia, seria outra coisa, não sobraria raposa pra farra no galinheiro. A culpa é do brasileiro – e ele que exaltava a si, assim não se achava, ôôôôôô. Esse o Brasil do vitupério e nunca foi levado a sério por quem quer que seja, ou que pragueja por ter dado de bandeja o que era e o que não era de seu, ôôôôôô. Onde tudo escureceu porque afanaram sem escarcéu, todas as estrelas do céu, de ficar só no hora veja, no aperto até gagueja, sem conseguir enganar nem a si mesmo, pintando todo de escorreito, só no deixa disso, ôôôôôô. Esse é o país do reboliço, de burlar o compromisso e qualquer avença aquiliana, feito fizeram com Mariana ou no Alto Xingu, pra todos tomarem... café, ôôôôôô, sem saber que são carniça pronta só pra urubu, ôôôôôô. Tudo é só caroço no angu para maior congestão, vale só corrupção a pisar todos os mortos, aos trancos e barrancos, de só pegar se for ao arranco das noticias fabricadas, ôôôôôô, pras comemorações de nada a requebrar de felicidade urgente efêmera, ôôôôôô, como se durasse o final feliz da telenovela e a juntar bufunfa escusa no pé do cipa, enquanto muitos choraram a desdita com a cabeça pelas tabelas, ôôôôôô. O país que tudo se leva no bico ou nas coxas, aos esparros porque tem a coisa roxa, a dançar qualquer batuque na lata, cantarolando que nem saci na academia e corredores do Arroio ao Chuí, porque é sempre carnaval e daí ou coisa correlata, seja por bem ou por mal, ôôôôôô, isso aqui ôôôôôôô é isso aqui. Mas que Brasil é este do incêndio de museu e o que toma o que é meu ou seu como se dele fosse, quando a má notícia trouxe de que tudo se perdeu com a plataforma P36 da Petrobras, a sair abanando o rabinho atrás, enquanto a gente espreme entre as pernas, coisa que agora vira eterna para nunca mais, ôôôôôô. O que é que a gente faz se podres poderes levam a geringonça, com tantas mãos tão sonsas de quase nem adivinhar o sangue da canela à rótula, se tudo é na força da espórtula, seja guerra, seja paz, ôôôôôô. E tanto faz se caeté exterminado ou qualquer tupi-guarani despejado terrafora, com pretos e gringos excluídos, a perder os possuídos em cada passo alvissareiro que o país desce a ribanceira, falta freio na ladeira, viva o povo brasileiro, ôôôôôô. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música de Chico Buarque, Maria Rita, Gal Costa, Leila Pinheiro, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, A Cor do Som, Caju & Castanha, Capital Inicial, Auri Viola & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Não há educação fora das sociedades humanas e não há homem no vazio. [...] Há uma pluralidade nas relações do homem com o mundo, na medida em que responde à ampla variedade dos seus desafios. Em que não se esgota num tipo padronizado de resposta. A sua pluralidade não é só em face dos diferentes desafios que partem do seu contexto, mas em face de um mesmo desafio. No jogo constante de suas respostas, altera-se no próprio ato de responder. Organiza-se. Escolhe a melhor resposta. Testa-se. Age. Faz tudo isso com a certeza de quem usa uma ferramenta, com a consciência de quem está diante de algo que o desafia. Nas relações que o homem estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. E há também uma nota presente de criticidade. [...] Mas, infelizmente, o que se sente, dia a dia, com mais força aqui, menos ali, em qualquer dos mundos em que o mundo se divide, é o homem simples esmagado, diminuído e acomodado, convertido em espectador, dirigido pelo poder dos mitos que forças sociais poderosas criam para ele. Mitos que, voltando-se contra ele, o destroem e aniquilam. É o homem tragicamente assustado, temendo a convivência autêntica e até duvidando de sua possibilidade. Ao mesmo tempo, porém, inclinando-se a um gregarismo que implica, ao lado do medo da solidão, que se alonga como “medo da liberdade”, na justaposição de indivíduos a quem falta um vínculo crítico e amoroso, que a transformaria numa unidade cooperadora, que seria a convivência autêntica. [...] encarávamos e encaramos a educação como um esforço de libertação do homem e não como um instrumento a mais de sua dominação. [...] que a palavra seja compreendida pelo homem na sua justa significação: como uma força de transformação do mundo. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que o homem, embora analfabeto, descobrindo a relatividade da ignorância e da sabedoria, retira um dos fundamentos para a sua manipulação pelas falsas elites. Só assim a alfabetização tem sentido. Na medida em que, implicando em todo este esforço de reflexão do homem sobre si e sobre o mundo em que e com que está, o faz descobrir “que o mundo é seu também, que o seu trabalho não é a pena que paga por ser homem, mas um modo de amar — e ajudar o mundo a ser melhor”. [...]. Trecho extraído Educação como prática da liberdade (Paz e Terra, 1967), do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui.

O POVO BRASILEIRO - [...] A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente. A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação. [...] Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos rústicos de ser dos brasileiros, que permitem distinguilos, hoje, como sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalobrasileiros, teutobrasileiros, nipobrasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população. [...] O povonação não surge no Brasil da evolução de formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas, mas se conjugam para atender às suas necessidades de sobrevivência e progresso. Surge, isto sim, da concentração de uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável. Nessas condições, exacerbase o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando as oposições para acumular, debaixo da uniformidade étnicocultural e da unidade nacional, tensões dissociativas de caráter traumático. Em consequência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois lusobrasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas. Boa expressão desse pavor pânico é a brutalidade repressiva contra qualquer insurgência e a predisposição autoritária do poder central, que não admite qualquer alteração da ordem vigente. A estratificação social separa e opõe, assim, os brasileiros ricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miseráveis, mais do que corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que a vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural. A façanha que representou o processo de fusão racial e cultural é negada, desse modo, no nível aparentemente mais fluido das relações sociais, opondo à unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica um povo de 160 milhões de habitantes, a dilaceração desse mesmo povo por uma estratificação classista de nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber. O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, "democracia racial", raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpôlo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povomassa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis. Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão. [...]. Trechos da obra O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (Companhia das Letras, 1995), do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais aqui.

VIVA O POVO BRASILEIRO – [...] Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres, portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração [...] Levantaram as imagens nos altares [...] Depois da doutrina das mulheres, que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens, sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes. [...] Na doutrina da tarde, às vezes se ensinava a aprisionar em desenhos intermináveis a língua até então falada na aldeia, como consequência de que, pouco mais tarde, os padres mostravam como usar apropriadamente essa língua, corrigindo erros e impropriedades. [...] Mas estaria aqui mesmo, esse orixá? Que vinha fazer tão longe de seus terreiros e de seu povo [...] Zé Popó resolveu que estava pensando bobagens, dando corda demais ao pensamento. [...] Dia bonito, felizmente, dia claro, até podia dizer cheiroso. Mas os matos, que há nos matos? Se é Oxóssi nos matos, que faz ele nesses matos? [...] Zé Popó pulou para atender a um chamado do oficial e, a caminho, viu um grupo de soldados saindo às carreiras da floresta. [...] chiou e explodiu uma espécie de rojão, soou o toque de chamada ligeira, soldados formigaram de todos os cantos desfazendo os sarilhos como se fossem de palitos [...] os oficiais começaram a gritar [...]. Veio a República e ela pregou que tanto fazia como tanto fez, que nem rei nem presidente estava pensando no povo e podiam esperar até vida pior. Como de fato foi o que se viu depois, a seca piorando, as terras sendo tomadas dos pobres, a escravidão pior do que antes, o coronel mandando mais que o imperador de Roma, o povo de cabeça baixa, os despossuídos cada vez mais despossuídos e os possuídos cada vez mais despossuídos, por isso se dizendo que a República trouxe a lei do Cão. [...] – Estamos aqui em missão oficial, com o objetivo de reprimir uma rebelião contra os integrantes da República. A República, uma conquista do povo brasileiro, [...]. Os senhores não devem fidelidade à Coroa de Bragança, como desobedientemente, sediciosamente professam, violando a lei e afrontando a autoridade [...]. – Não devemos nada a ninguém, todos nos devem! – disse uma voz de mulher vinda do canto escuro do salão. [...] – Deixe estar - disse. – É dona Maria da Fé. – O povo brasileiro não deve nada a ninguém, tenente. [...] Que nos dá a República? Dá-nos mais pobreza. Que nos manda a República? Manda seu exército nos matar. A história de vocês sempre foi de guerra contra o próprio povo de sua nação [...]. Aqui neste sertão, morrerão muitos desses heróis, mas o povo não morrerá, porque é impossível que o povo morra [...]. Vocês são traidores do seu povo e assim deveriam morrer. E vão morrer. [...], porque ainda não será esta expedição que esmagará o povo de Canudos. [...] Viva o povo brasileiro! Viva a nós! [...]. Trechos extraídos da obra Viva o povo brasileiro (Nova Fronteira, 1984), do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Veja mais aqui.

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA – Peço licença para algumas coisas. / Primeiramente para desfraldar / este canto de amor publicamente. / Sucede que só sei dizer amor / quando reparto o ramo azul de estrelas / que em meu peito floresce de menino. / Peço licença para soletrar, / no alfabeto do sol pernambucano, / a palavra ti-jo-lo, por exemplo, / e poder ver que dentro dela vivem / paredes, aconchegos e janelas, / e descobrir que todos os fonemas / são mágicos sinais que vão se abrindo / constelação de girassóis gerando / em círculos de amor que de repente / estalam como flor no chão da casa. / Às vezes nem há casa: é só o chão. / Mas sobre o chão quem reina agora é um homem / diferente, que acaba de nascer: / porque unindo pedaços de palavras / aos poucos vai unindo argila e orvalho, / tristeza e pão, cambão e beija-flor, / e acaba por unir a própria vida / no seu peito partida e repartida / quando afinal descobre num clarão / que o mundo é seu também, que o seu trabalho / não é a pena que paga por ser homem, / mas um modo de amar — e de ajudar / o mundo a ser melhor. Peço licença / para avisar que, ao gosto de Jesus, / este homem renascido é um homem novo: / ele atravessa os campos espalhando / a boa-nova, e chama os companheiros / a pelejar no limpo, fronte a fronte, / contra o bicho de quatrocentos anos, / mas cujo fel espesso não resiste / a quarenta horas de total ternura. / Peço licença para terminar / soletrando a canção de rebeldia / que existe nos fonemas da alegria: / canção de amor geral que eu vi crescer / nos olhos do homem que aprendeu a ler. Poema extraído da obra Faz escuro mas eu canto: porque a manhã vai chegar (Civilização Brasileira, 1965), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui.

O BRASIL DE SEBASTIÃO SALGADO
Fotos da série Serra Pelada, do fotógrafo Sebastião Salgado. Veja mais aqui e aqui.

AGENDA
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, julho 19, 2018

BATAILLE, GUBAIDULINA, MARCUSE, JOÃO UBALDO, CORBIÈRE, MARIA AGUILAR, FRINEIA, VERA & MÁRCIA NUNES


O SONHO DE VERA – Imagem: arte da artista espanhola Maria José Aguilar Gutierrez. - Desde criança Paulina chamava atenção em Toulouse. Aos quatro anos já tocava piano feito gente grande. Aos seis impressionava plateias. Aos dez escrevia versos recitados em impressionantes recitais e saraus. Aos quinze enfrentava filas de pretendentes, formando claque inarredável. Aos vinte não podia sair às compras sem a companhia de uma multidão colada aos gestos e poses. Sua chegada incomum, aonde quer que fosse causava os mais diversos transtornos, desastrosos prejuízos, congestionamentos inusitados. Atrapalhava desde o funcionamento das instituições e negócios, dificultando o passeio e a vida religiosa da localidade, todos não paravam de lhe atormentar com galanteios e mesuras. Foi preciso intervenção de autoridades para coibir seus passeios de tarde, suas aparições na varanda, sua ida à feira ou mesmo a festas no final de semana. Os reclamos emergiam de toda parte, promovendo uma ação jurídica para determinar que aparecesse apenas duas vezes por semana na sacada de sua residência, nada mais. A cobiça era tamanha de envolver o clero, a corte e os mais proeminentes de todos os países e continentes. Filas enormes se faziam em frente a sua casa, consumindo seus dias de clausura. Diante da sua recusa a todas propostas dos candidatos, passou a ser o alvo de tramas forjadas não só pelas mulheres invejosas, como pelos mais importantes homens do mundo, acusando-lhe de feitiços ao coração dos mais inocentes cristãos de toda parte, como de esnobe bruxa causadora da ruina de nobres e plebeus em todos os rincões. Aumentava o seu confinamento a jactância dos mais afoitos, como as blasfêmias de mulheres e religiosos, sem poder mais sair, nem se debruçar à janela, apenas para realizar seus concertos e apresentações públicas, sob rigorosa segurança. Estava aprisionada em sua própria venustidade, tornando-se a reedição da sina milenar da formosa Frineia, aquela hetaira grega Mnesaretea que durante o Festival de Posidão, em Elêusis, despiu-se colocando suas vestes de lado, soltou os cabelos e mergulhou nua no mar, à vista do povo, tornando-se exaltada como a Afrodite Anadyomène do pintor Apeles, retratada antes do Areópago por Jean-León Gerôme e pela estátua da Afrodite de Cnido de Praxíteles, cantada por Baudelaire, Rilke e Saint-Saëns. Por conta disso foi condenada sem direito a defesa. Em situação idêntica estava Paulina de Viguière, acusada não só de profanar os antigos Mistérios de Elêusis quase nem mais vigentes, como o de disseminar a loucura dos homens e arruiná-los para a queda como uma Eva despudorada, e afrontar os dogmas da Inquisição. A acusação foi apresentada perante o tribunal, por um furioso Savonarola de plantão reencarnado de Anaxímenes de Lâmpsaco, numa sessão pública que entrava pelo terceiro dia de duração, e convocá-la a comparecer imediatamente para receber a sentença. Acuada em sua residência, recebeu a visita do defensor Hipérides que chegara ao seu socorro, orientando-a a desnudar-se perante a corte judicial. Recusou-se terminantemente, sob a alegação de quem não deve não teme. Olvidou de todos os conselhos, seguiu de fronte erguida para enfrentar seus algozes, acompanhada pelos oficiais aos apupos, ameaças e difamações vociferadas pela população que seguia em seu encalço. Ao chegar ao recinto apinhado, sua presença causou o maior estardalhaço no júri. Denúncias surgiam de todos os lados, imputando-lhe os mais hediondos crimes. Viu-se, então, obrigada a atender o conselho, e no meio da solenidade desnudou-se e todos ficaram hipnotizados com a sua extrema beleza. Mesmo que a sua nudez fosse considerada como de fato era divinal, não podia vacilar. E ao se ajoelharem, todos cabisbaixos, em sua homenagem, tratou de fugir e seguir seu destino. A partir de então foi perseguida pelos quatro cantos do mundo, pela marcha inexorável dos mais poderosos exércitos, todos ávidos por capturá-la. Ao se evadir, atravessou os pontos cardeais, todos os hemisférios e polos, sem que ela jamais sossegasse, nem encontrasse paradeiro seguro. Não havia mais como escapar, nem pra onde, jamais se veria livre desse fadário, sozinha, apavorada e sem ter a quem recorrer nessas horas de extremo apuro. Aos gritos e lavada em suor Vera acordou-se desesperada. Demorou a perceber o pesadelo recorrente que lhe atormentava o sono por noites seguidas. Era madrugada, alguém batia à porta e ouvia-se uma voz de mulher idosa chamando-a pelo nome. Assustada ainda com o sonho dantesco, teve coragem de ir, perguntando atrás da porta quem era, sou eu, eu quem, sou eu, Vera, abra, preciso lhe falar. A voz parecia amigável e constatou ao abrir a portinhola. Abra, sou sua amiga de muito tempo, minha filha, na verdade você é fruto do meu ventre por milênios, desde os tempos da Frinéia de Téspis na Beócia, de Paulina de Viguière e de outras tantas belas que, como você, foram agraciadas com a formosura das deusas do Olimpo e de todas as Eras. Quanta coincidência aquela anciã tratar exatamente do que ocorrera em seu pesadelo. Ela prosseguiu em tom ameno e amigável: a sua salvação, minha filha, chega com um dever: todas as noites, antes de dormir, você deve acender duas velas nos castiçais e, de joelhos, rezar a oração de Ísis, sua mãe que sou eu. Ao ouvir aquilo, Vera arrepiou-se. Ainda sonolenta, procurou entender tudo aquilo, fechou os olhos buscando forças para enxergar melhor aquela que falava e, ao abri-los, não havia ninguém. Atravessou a porta procurando de um lado a outro, nenhum sinal de nada na rua, nem de movimento, o canto mais limpo. Aterrorizada com tudo, Vera escondeu-se embaixo do travesseiro e tentou dormir, não conseguia. Voltava-se, inquieta, não achava canto nem conforto. Ao se levantar para tomar água, encontrou sobre a mesa a oração manuscrita em ouro com uma caligrafia de letras arredondadas, num papel estranhíssimo de cor púrpura e, a partir de então, jamais dormiu sem homenagear a deusa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da compositora russa Sofia Gubaidulina: Fachwerk, Sonata, In Tempus Praesens & Fachwerk for bayan percussion and string orchestra & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Somos seres descontínuos, indivíduos que morrem isoladamente em uma aventura inteligível, mas temos a nostalgia da continuidade perdida. Suportamos mal a situação que nos sujeita à individualidade do acaso, à individualidade perecível que somos. Ao mesmo tempo em que temos o desejo angustiado da duração deste perecível, temos a obsessão por uma continuidade primeira, que nos religa geralmente ao ser. [...]. Trecho extraído da obra O erotismo (Arx, 2004), do escritor francês Georges Bataille (1897-1962). Veja mais aquiaqui e aqui.

TOLERÂNCIA & IMBECILIZAÇÃO - […] A tolerância com a imbecilização sistemática de crianças e adultos pela publicidade e propaganda, a libertação do espírito destrutivo ao volante dos automóveis, o recrutamento e treinamento de forças militares especiais, a importante e benevolente tolerância com a fraude declarada no comércio, no desperdício, na obsolescência planejada, não são distorções ou aberrações, constituem a própria essência que fomenta a tolerância como meio de perpetuar a luta pela vida e suprimir as alternativas [...]. Trecho extraído da obra Crítica da tolerância pura (Zahar, 1970), do sociólogo e filósofo alemão pertencente à Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse (1898-1979), em parceria com Robert Paul Wolff & Barrington Moore Jr. Veja mais aqui e aqui.

BONS CONSELHOSNão seja tutelado, não seja colonizado, não seja calado, não seja ignorante, não seja submisso, não seja indiferente, não seja amargo, não seja intolerante, não seja medroso, não seja burro. Meu pai nunca me deu estes conselhos da forma sistematizada que está aí. mas deu todos, inclusive mostrando como era que se fazia.[...]. Trecho extraído da obra Dez bons conselhos de meu pai (Companhia das Letrinhas, 2017), do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - O CACHIMBO DO POETA: Sou o Cachimbo de um poeta, / Sua ama: que a Besta lhe aquieta. / Quando um sonho cego apanha / A fronte em seu louco trajeto, / Fumego… e ele, no seu teto, / Já não vê as teias de aranha. / …Eu dou-lhe um céu de paisagens: / Nuvens, mar, deserto, miragens; / – Seu olho morto ali se perde… / E quando a névoa se faz pesada / Crê ver uma sombra passada, / – E minha boquilha ele morde… / Outra tormenta desabrida / Solta-lhe alma, corrente e vida! / …Sinto-me que apago. – Ele dorme – AVENTURA GALANTE E A VENTURA: (Odor della feminità). Eu faço o ponto, quando belo vai o dia, / Para a passante que, com satisfação, / À ponta da sombrinha me fisgaria / O piscar da pupila, a pele do coração. / E acho que estou feliz – um pouco – é a vida: / O mendigo distrai a fome na bebida… / Um belo dia – triste ofício! – eu, assim, / – Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim. / – Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também! / Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém, / Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões / E… estendeu-me a mão, e… / me deu uns tostões. Poemas do poeta francês Tristan Corbière (Édouard-Joachim Corbière - 1845-1875). Veja mais aqui.

O JULGAMENTO DE FRINEIA
Ocorrido por volta de 400aC, o caso da cortesã Frineia inspirou várias obras de artes, como a obra Il processo di Frine (Majell, 2004) do escritor Edoardo Scarfoglio; a série cinematográfica Altri tempi (1951), com o epílogo Il processo di Frine, de Alessandro Blasetti, bem como Apeles, Jean-Léon Gerome, Baudelaire, Rilke, Saint-Saëns, Antonio Parreiras e até o poeta brasileiro Olavo Bilac, sem contar com a homenagem feita por Eugéne Joseph Dalporte ao denominar o asteroide 1201 Phyrne, descoberto em 15 de setembro de 1933. Veja mais aqui, aqui & aqui.

Lançamento do livro Lembranças, apenas de Márcia Nunes & muito mais na Agenda aqui.
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As muitas da Vera aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

A arte da artista espanhola Maria José Aguilar Gutierrez.
Veja mais aqui.
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Quando se sentir só, fale comigo!, a poesia de Vladimir Maiakovski, a literatura de Ernest Hemingway, a arte de Cildo Meireles, A caverna das mãos na Argentina, a música de John McLaughlin, Felicja Blumental, Wagnert Tiso e Ida Presti aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


quarta-feira, fevereiro 03, 2016

ALVORADA, NERUDA, GISMONTI, UBALDO, PALMA, CAPIBA, AUTISMO, GERMINA, ASTA VONZODAS & MUITO MAIS!!!

FOLIA TATARITARITATÁ: ALVORADA (Imagem: Arte-vídeo da saudosa Derinha Rocha) Sou madrugador. Sempre acordo antes das quatro horas e quando chega perto das cinco da matina, presencio sempre o maravilhoso espetáculo do amanhecer. E nessa hora, recito O Sol nasce para todos como se fosse a minha primeira oração do dia. Em seguida, complemento com o Hino ao Sol, de Akhenaton. Nesse momento, a cada dia, ocorre o meu renascimento: um novo dia, novas esperanças, novas perspectivas. E inspirado pelos raios solares desabrochando no horizonte, projeto o meu dia na paz e no amor. Foi com essa inspiração que certa manhã eu acordei e pude contemplar o nascer do sol, esse momento mágico que me fez pensar no ontem, no hoje e no amanhã. Impregnado pela grandiosidade espetacular da aurora (eu já havia composto uma canção com esse título com a mesma sensação de felicidade e paz que cada raiar do dia me proporciona), quando compus o frevo Alvorada: Venha pegar a alvorada / Na barra do dia / No sol a raiar / Essa mais pura magia / Da nossa folia / Feliz de cantar / Venha pegar a alvorada / Na troça vadia / No passo a pular / Venha pra sã fantasia / Sem a pacutia / Ou pantim de chiar / Faça a partir desse dia / A sua sadia vontade de paz / Que a vida tem valia / Se a gente é quem faz. Composto esse frevo, foi gravado no estúdio do amigo Vavá de Aprígio e arranjo de Maurício Malafaia, passando a ser um dos temas da Folia Caeté, hoje integrando a Folia Tataritaritatá. Veja o videoclipe da música aqui. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

E veja mais:

PICADINHO
Imagem: Meu frevo, da artista plástica Cristiane Campos.


Curtindo Frevo & o álbum Nó Caipira (Carmo, 1993), do compositor, multinstrumentista e arranjador de Egberto Gismonti. Veja mais aqui.

EPÍGRAFESempre ouvi dizer que numa mulher não se bate nem com uma flor... loura ou morena, não importa a cor, não se bate nem com uma flor, trecho da letra do frevo-canção Cala boca, menino, do compositor e músico Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa – 1904-1997). Veja mais aqui.

O CÉREBRO AUTISTA – No livro O cérebro autista: pensando através do espectro (Record, 2015), de Temple Grandin e Richard Panek, destaco o trecho: [...] Estamos muito distantes do tempo em que os médicos diziam aos pais de crianças autistas que não havia saída e a única opção humana era a condenação de passar a vida numa instituição. Ainda há um longo caminho a percorrer, claro. A ignorância e as interpretações incorretas sempre são difíceis de superar quando passam a fazer parte do sistema de crenças de uma sociedade. [...] Mas tenho certeza de que qualquer que seja o pensamento sobre o autismo, ele vai incorporar a necessidade de considera-lo isoladamente, cérebro por cérebro, filamento por filamento do DNA, característica por característica, ponto forte por ponto forte e, talvez, o mais importante, individuo por individuo. Veja mais aqui e aqui.

O ENCONTRO – No conto O encontro: crônica da época do vice-rei Arcebispo (Cultix, 1962), do escritor peruano Ricardo Palma (1833-1919), destaco o trecho: [...] A chegada de Gertrudes à fazenda, despertou no capelão e no médico todo o apetite que desperta uma guloseima. Sua reverendíssima fradesca deu de padecer de distrações quando abria seu livro de horas; e o médico boticário, preocupou-se com a mocinha a tal ponto que certa ocasião ministrou a um dos seus doentes jalapa em vez de goma-arábica e mais depressa do que se jogasse um dado, quase o despacha sem postilhão para o país das caveiras. Alguém disse (e se ninguém pensou em dizer tal balela, eu a diria) que um rival tem olhos de telescópio para descobrir, não digo um cometa minúsculo, mas uma pulga no céu dos seus amores. Assim se explica que o capelão não tardasse em compreender e adquirir provas de que entre Pantaleão e Gertrudes existia o que em politica chamava um dos nossos homens de “conveniências criminosas”. O despeitado rival pensou então em vingar-se e foi á condessa com a nova, alegando hipocritamente que era um escândalo e uma tração à tão honrada casa, que dois escravos se entretivessem com baixezas, que a moral e a religião condenam. Bobagem! Os sinos não tocaram a repiques. [...]. Veja mais aqui.

POEMA – No livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (José Olympio, 1982), do poeta chileno e Prêmio Nobel de Literatura de 1971, Pablo Neruda (1904-1973), destaco o poema XV: Gosto de ti calada porque estás como ausente, / e me ouves de longe, e esta voz não te toca. / Parece que os teus olhos foram de ti voando / e parece que um beijo fechou a tua boca. / Como todas as coisas estão cheias da minha alma / tu emerge das coisas, cheia da alma minha. / Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma, / e pareces-te com a palavra melancolia. / Gosto de ti calada e estás como distante. / E estás como queixando-te, borboleta em arrulho. / E ouves-me de longe, e esta voz não te alcança: / vais deixar que eu me cale com o silêncio teu. / Vais deixar que eu te fale também com o teu silêncio / claro como uma lâmpada, simples como um anel. / Tu és igual à noite, calada e constelada. / O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão simples. / Gosto de ti calada porque estás como ausente. / Distante e dolorosa como se houvesses morrido. / Uma palavra então, um teu sorriso bastam. / E eu estou alegre, alegre porque não é verdade. Veja mais aqui e aqui.

A CASA DOS BUDAS DITOSOS – Tive oportunidade em 2004, depois de ler o livro, de assistir ao belíssimo espetáculo A casa dos Budas ditosos, do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), uma montagem apresentada no DirectTV Music Hall, em São Paulo, com direção de Domingos de Oliveira e representação da premiada atriz e escritora Fernanda Torres em cena, contando a história de uma mulher teoricamente livre de repressões sexuais e com o sonho universal de prazer sem culpa na visão tropical-melancolia do autor. Aplausos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

THE WAYWARD CLOUD – O filme The Wayward Cloud (O sabor da melancia, 2005), dirigido por Tsai Ming-liang, conta a história de uma seca fenomenal que atinge Taipei, na mesma intensidade com que melancias passam a brotar em todas as partes da cidade. Em meio ao caos e à aridez, um casal se encontra: ela estocando água desesperadamente; ele participa de filmes pornôs. O destaque do filme vai para a atriz Chen Shiang-Chyi. Veja mais aqui.

GERMINA – Está no ar a mais nova edição da Germina - Revista de Literatura e Arte, editada por Silvana Guimarães, Mariza Lourenço & Priscila Merizzio. A revista dispõe de um corpo de colaboradores de alto nível, trazendo nesta edição Anderson Borges Costa, Luiz Ruffato, José Aloise Bahia, Raíssa Xhristina & Rodrigo Colares, Claudia Alves, Rosângela Vieira Rocha, Dara Scully, Mauricio Lanzara, Chico Lopes, Fernanda Bender, Adair Carvalhais Júnior & muito mais. Para conferir é só clicar em cima do nome da revista acima e mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Folguedos de Pernambuco (Art naïf, 2012) de Digerson Araújo.

DEDICATÓRIA
Acende a lareira, faz frio / (detesto frio) /me pegue no colo, com meu pijama lilás / (pantufa de urso) / dispenso o tinto / [hoje não me cai bem] / mas não me levante a blusa / (que entra o frio) / antes, me cante cantigas / que hoje criança, quero ninar. / abaixe a música / (quero-a suave) / que hoje estou triste, / com vontade de chorar... / Não...não diga nada, / só me embale nos braços / deixe pra limpar depois os traços / desta lágrima a rolar. / Assim...deixe que eu me encaixe / na curva do teu queixo, / me conte uma estória / (que não seja de medo) / e assim que eu adormeça, / sele em minha testa um beijo, / vele meu sono, até o sol raiar. / Hoje sou criança, / com vontade de chorar... (Hoje sou).
A edição de hoje é dedicada à poeta, pedagoga, editora e jornalista Asta Vonzodas.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
Veja aquiaqui, aqui, aquiaqui.

Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Big Shit Bôbras, Georg Trakl, Paul Auster, Sarah Kane, Gertrude Stein, Marion Cotillard, Felix Mendelssohn, as sopranos Maristela Araujo & Meire Norma & muito mais aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...