quinta-feira, julho 15, 2021

ARTAUD, JOHN UPDIKE, PETRA COLLINS & BARBOSA LIMA SOBRINHO

 

 

TRÍPTICO DQP – O reino do imaginário - Ao som de An imaginary landscape, for orchestra (1971), do compositor britânico Harrison Birtwistle, com a BBC Symphony Orchestra, regência Paul Daniel. – Não tenho a mínima ideia de como cheguei ao cenário. Sei que estava diante de um palco e era eu, ou melhor, o meu duplo em cena apresentando o primeiro manifesto da crueldade de Artaud. Não só. Também trechos dos Escritos de um louco e as aspirações anarquistas, porque havia queimado todos os versos para se tornar o poeta sem palavras. Mais ainda: do neutro feminino masculino nas delirantes internações por manicômios com tratamentos duvidosos, entre eletrochoques para perder o último dente que restava na boca, fratura das costelas e perda intermitente da memória, pensamento e corpo. E a voz era o gesto e ato: tremia, cavava, batia, espetava, agia. Era a manifestação da poesia e o exercício da técnica teatral no meio da guerra, do isolamento, do rebaixamento, da dependência desumana de um hospital psiquiátrico. Era para acabar com o juízo de Deus e da perda de si, diante de Van Gogh, o suicidado da sociedade. Afora trechos da linguagem e vida, de Heliogábalo ou o anarquista coroado, de textos surrealistas, dos Tarahumaras, da correspondência com Jacques Rivière e Aqui jaz. Ao final, os presentes aplaudiram a performance. Meio que desconfortável com aquilo tudo, olhei ao redor e vi o autor que veio, sentou-se ao meu lado e me disse do Nouveaux Ecrits de Rodez (Editorial Fundamentos, 1980): ... E assim é que a vida atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura crônica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem, mas sim o mundo que se tornou anormal), proposital desonestidade e notória hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma linhagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça; em suma, de crime organizado. Olhei-o e tudo fazia para não perder a lucidez: Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor e quero que eles sejam ouvidos. Afinal, estava recluso no quarto de Ivry-sur-Seine e o peyote no corpo sem órgãos: mímica, gritos e onomatopeias: ... de todo o modo, é preciso que essas chaves estejam aí, e isso nos diz respeito. De repente a luz apagou-se e era o meu país revolvendo as minhas entranhas como se a vida à deriva na imensidão sideral.

 


Das coisas do Brazil...- Com o retorno do fornecimento da energia elétrica, era outra pessoa sentada ao meu lado: o John Updike. Ele me sorriu e passou a mão um volume com o título Brazil: a novel (Orbis Fabri, 1994) e uma página com grifos no trecho: O Brasil tem poucos líderes; os portugueses não trouxeram a mesma disciplina e austeridade que os espanhóis. Até nós não fomos cruéis com eles, fomos somente brutais, sem dizer que éramos demasiados folgados para termos ideologia. A igreja foi demasiado indulgente e havia que os conventos eram bordeis. Esta era a síntese, a maneira de um professor ao que havia naquele tempo, a lição que havia dado no avião... Ao terminar de ler o trecho, virei-me para ele que deu de ombros e disse apenas tratar-se de uma versão abrasileirada de Tristão & Isolda nos anos 1960 a 1980, na verdade 22 anos de relacionamento entre uma jovem branca da classe alta e um jovem favelado de cor: privações, violências, cativeiro e reviravoltas da fortuna. Não entendi bem o que queria dizer com isso, mas não questionei, disse-lhe apenas que leria seu livro, a exemplo de outras das suas publicações. Despediu-se sorridente com uma frase: Os sonhos tornam-se realidade. Sem essa possibilidade, a natureza não nos incentivaria a tê-los. Do que me resta disso tudo são interrogações as quais não posso perder tempo em decifrá-las. Apenas me levantei e segui tentando encontrar o caminho de volta.

 


Quem se fantasia tem o direito de escolher o disfarce... - Imagem: arte da fotógrafa, modelo e artista visual canadense Petra Collins – A saída dali foi um tanto atrapalhada. Ao descer a escadaria do salão, havia muito gente dificultando o meu trajeto. Era que o memorável Barbosa Lima Sobrinho estava contando uma de suas histórias. Foi uma surpresa agradável porque dele já registrei Por amor às crianças pernambucanas e outro a respeito da Revolução Praieira. Desta feita, era um relato registrado do conto A supremacia feminina (Escrituras, 2007), no qual ele foi instado por um desses sujeitos do tipo “de Bem” que invadiu as dependências da redação e aboletou-se na sua frente para sapecar: Eu estava parado diante da Galeria Cruzeiro quando passou um cordão, um grupo de moças encantadoras. Lembravam-me as carnavalescas de outrora, promotoras da hegemonia do Brasil no continente. Considerei-as, por isso, cuidadosamente e descobri, entre elas, uma que era toda feita de graciosidade e sedução. Resolvi acompanhá-la, no desejo de verificar se merecia, da Liga dos bons costumes, a medalha de honra, prêmio de benemerência excepcional. Juro que era formosa e tinha a pele fina, olhos lânguidos e sorriso diabólico, um sorriso que descobria dentes alvíssimos e uma ânsia enorme de pecado. Movia-se o corpo flexuosamente; e os braços tinham contornos de que se adivinhava a suavidade; o colo fazia pensar em vertigens ardentes... Acompanhei-a duas horas, marcando sobre asfalto e paralelepípedo, sobre calçada e areia. Em toda a minha vida, nunca tinha visto jogo mais harmonioso de quadris! Quando lhe indaguei o nome, para inscrição no livro benemérito a que a Liga dos bons costumes desse homenagem... Ah! Água! Água! Que eu morro! (?!?) ...- Joãozinho La Garçonne! As gargalhadas soaram por todo ambiente folgando a passagem para que eu ganhasse a rua ainda com essa história ecoando no juízo para trazê-la aqui. Coisas do Brasil. Até mais ver.

 

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quarta-feira, julho 14, 2021

GERTRUDE BELL, FLORENCE BASCOM, LILA ZALI & PABLO PORFIRIO

 

 

TRÍPTICO DQP – Reino dos sonhos... - Ao som de Pepperland (George Martin), na interpretação de Robertinho de Recife. - Onde eu estava, outro era o Reino dos Sonhos: não era Pepperland, nem o lago de George Gamow, nem a ilha de Samósata. De nada me valeu o tanto de estudos a respeito das interpretações de Freud. Se havia penetrado o universo de Jung, tive que indagar a mim mesmo: Será aquele do The other side - Die andere Seite (Rowohlt Taschenbuch, 2010), do Alfred Kubin? Só sei entre montanhas, uma Celestial. Tudo o mais é plano, algumas colinas, grandes florestas, um lago, um rio dividindo o território visível. Cruzei alguém: Onde estou? Perla, a terra de Patera. Quem? O extravagante ricaço que aqui chegou em busca de caçar o raríssimo tigre persa. Foi ferido pela fera e curado pelo chefe da tribo nativa, em um rito bizarro e indescritível. Curado, ele se apropriou destas terras, separou do mundo circundante com grande muralha e fortificações poderosas. Aqui é o refúgio para todos os insatisfeitos com a civilização e só uma porta que serve tanto para entrada como saída. É por ali. Se você está aqui, saiba: foi um golpe do destino - só os predestinados aqui chegam. Disse-me e saiu. Fiquei sem saber o que fazer. Foi, então, que dei de cara com a geóloga estadunidense Florence Bascom (1862-1945), que assim se reportou: O fascínio de qualquer busca pela verdade não está na obtenção, que na melhor das hipóteses é considerada muito relativa, mas na busca, onde todos os poderes da mente e do caráter são colocados em ação e absorvidos pela tarefa. Sente-se em contato com algo que é infinito e encontra uma alegria além da expressão em soar o abismo da ciência e os segredos da mente infinita. E lá estava eu outra vez, meu navio a sorte inventa.

 


A dança da morte... - Caminhei a esmo e me deparei com o fechamento de uma companhia de Ballet: a Pacifica. Foram cinquenta anos de atividades e muitos altos e baixos, soube. Havia uma tristeza no ar e esbarrei numa bela mulher. Ela olhou-me com seus olhos consternados. Não sabia, mas logo percebi que estava diante da fundadora e coreógrafa, a bailarina estadunidense Lila Zali (1918- 2003). Depois de um tempo com o olhar perdido nas imediações, virou-se e me falou: Você não pode pensar em fantasias como as pessoas estão fazendo e sobre as luzes e tudo mais e ainda ser capaz de dançar... como dançarina, você tem que ser egoísta; você tem que sempre se concentrar em si mesmo... Nós sobrevivemos perseverando e não cometendo o erro que a maioria das companhias de balé cometem ao começar muito grande... Começamos minúsculos e crescemos muito lentamente. Mas ficou... Senti sua voz embargada, seguiu em frente e o silêncio ficou no vazio de tudo, como se ela ecoasse aos meus ouvidos: Hoje não mais. Nenhum sobrevivente. Vi-me sozinho no meio de um momentâneo deserto, do qual emergia um Grand Guignol, como se enredado no meio do bailado de uma cena do Dracula: Pages from a Virgin's Diary (2002), do diretor canadense Guy Maddin. E a Lucy Westenra que fugia do vampiro cruel era a atriz canadense Tara Birtwhistle estirada no chão. Ao dar pela minha presença ergueu-se com um sedutor pedido de socorro. Eu me sentia o próprio Bram Stoker e logo surgiria Mira na pele da atriz Cindy Marie-Small armada com um crucifixo, desarmando-se ao constatar que eu era de paz. Lá estava eu entre as duas belas, até ser interrompido pela escritora britânica Gertrude Bell (1868-1926): A mais degradante das paixões humanas é o medo da morte... Na luta de mão desesperada para a vida, não há elemento de nobreza... Não tenha medo do trabalho duro. Nada que valha a pena vem facilmente. Não deixe que os outros o desencorajem ou digam que você não pode fazer isso. Na minha época, disseram-me que as mulheres não faziam química. Não vi razão para não podermos... Puxou-me pelo braço e me disse para dormir, era o melhor que eu podia fazer, sem mesmo saber como ou, sei lá. Ela acomodou-se em baixo de uma árvore frondosa e me chamou: Venha, vamos sonhar.

 


O despertar do sonho... - Era manhã e acordei assustado, sozinho. Não me sentia lá muito bem, um pressentimento de que estava revivendo um momento que já passara há muito tempo. Sim, na minha infância, quando soldados armados entravam na minha casa e caçavam pelos quartos, sala, cozinha, quintal, a casa toda e eu não entendia nada na minha inocência de quatro anos de idade. Da primeira vez que investiram, lembro bem, até admirei as botas, as armas, a farda, a marcha... mas com a constância de suas invasões adquiri temor e antipatia: eram bastante hostis. Cresci olhando bem para todos os fardados que cruzavam minha caminhada. Foram mais de longos vinte e tantos anos de muito ódio e treva que deles emanavam. Quando me dei por gente não havia como nutrir mesmo nenhuma simpatia, tanto é que à época do alistamento, eu já havia contraído matrimônio e fui dispensado, graças! Seria o inferno, ou melhor: mais um. Mas por que estou sentindo tudo isso agora? Dei pela presença do historiador Pablo Porfirio que lia trechos do seu livro Medo, comunismo e revolução – Pernambuco 1959-1964 (EdUFPE, 2009): ... Foram localizados, sobretudo, os discursos e as práticas sociais que procuravam racionalizar o perigo e a ameaça do comunismo, identificados nas mobilizações dos trabalhadores rurais, tornando-os uma realidade latente para setores da população. Deste modo, a ideia de perigo, defendida e propagada pelos latifundiários, resultava de um conjunto de esforços coordenados que relacionavam vários aspectos da sociedade e faziam emergir uma real ameaça comunista, que colocaria em risco a família, a religião e a paz social. Sim, já havia me dado conta disso. E? ...Essas ações não resultavam de simples histeria ou mera imaginação. Eram estratégias coordenadas, que integravam a imprensa, as discussões políticas e o cotidiano. Criavam modos de pensar, os quais faziam a ideia de perigo e a ameaça comunista ser aceita como verdadeira por parcelas da sociedade... Um conluio para o horror, eu sei... E? ... desenhar um movimento que contribuiu no estabelecimento e validade da dinâmica de uma ditadura militar... foi instituída e socialmente aceita uma crescente rede social crédula na existência de uma perigosa realidade e no caráter salvador do golpe civil e militar de 1964. Agora entendi o meu pressentimento. O presente aos sobressaltos, tão caro para nossa liberdade, para nossa integridade, tudo por um fio: escândalos, ameaças... Já faz tempo, alguns anos, sei, há muito tempo que decifro essa narrativa golpista, um atrás do outro para roubar a nossa paz, a nossa vida. É preciso prestar bem atenção, estar bem atento, não é só a pandemia a me roubar o sono, o meu o país destroçado. Até mais ver.

 

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terça-feira, julho 13, 2021

PAULINA CHIZIANE, RÓMULO GALLEGOS, TERESINHA GONZAGA, BRENDA MARQUES PENA & IMERSÃO LATINA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Da arte vida... Imagens: Arte do artista visual & poeta Tchello D’Barros, ao som do tema de Impressões Seresteiras, de Villa Lobos, com arranjo e adaptação para violão de Silvio Santisteban. - Geruzilda enviuvou ainda jovem, só lhe restava o filho que era os pés da doida: todo mundo aparecia com reclamações por conta das suas travessuras. Ao chamá-lo para a reprimenda, a cara mais lisa dele amolecia o coração dela. Até que a parentalha pegou pesado. Ora, o menino tinha os maus bofes do pai: Veja se não é, cagado e cuspido! A todo instante ela conferia: parecia mesmo que o defunto esculpia nele todas as maledicências. Ela entristeceu com isso: não havia nele nada dela, era incorrigível, puxava em tudo ao pai. Encostada na desolação do canto da casa, guardava o sono dele. Eis que aparece a madrinha, Gelcidália: Que é que há comadre? Ao tomar ciência de tudo, olhou pro afilhado, virou-se para ela e parecia copiar o ocorrido d’O escultor invisível, do escritor venezuelano Rómulo Gallegos (1884-1969): - Que coisa tão esquisita! – disse. – Você não reparou que esta criança tem duas caras? Uma quando está acordado: cara de mau; outra, quando está adormecida. Então, parece-se muito com você. Repare: é o seu vivo retrato quando era pequena. Aí ela animou-se: É mesmo, comadre? Ora se é, anime-se. Pelo menos; então, tem jeito num tem? Sossegue, é só um menino. E assim disse com aquele tom poético de Paulina Chiziane: A vida é como a água, nunca esquece o seu caminho. A água vai para o céu, mas volta a cair na terra. Vai para o subterrâneo, mas volta à superfície. A vida é um eterno ir e voltar. O corpo é apenas uma carcaça onde a alma constrói a sua morada... Pois é, a vida passa e ao mundo tudo se revela.

 


Ah, a vida imita a arte sempre... - Essa foi a primeira entre as colisões do Bidião com o padre Quiba. E se deu no dia em que a matriarca Maroca bateu as botas. Foi assim: certa manhã lá ia o menino de calças curtas e seboseira nas ventas, passando pela casarão da ricaça. Estranhou as portas abertas, pulou o muro, roubou umas pitangas e foi entrando casa adentro. Procurou dos empregados e deu com o lugar mais limpo. Ouviu um choramingado distante e seguiu procurando onde, bateu pra todo lado e seguiu escadaria acima, até o quarto suntuosíssimo da baronesa. Passou pela porta entreaberta e lá estava ela deitada na sua enorme cama. Ao vê-lo chamou com um gesto de mão, pediu que se aproximasse e com dificuldade disse para ele chamar o padre urgentemente. Que foi? Ela insistia. Assim foi num pé e voltou no outro. Aboletou-se do lado dela: Vou morrer, meu filho, cadê o padre que não chega para a extrema-unção. Depois de horas chegou o vigário todo afobado, expulsando-o do ambiente. Saiu a contragosto, sentou-se na escadaria e ali ficou matutando. Não demorou muito o pároco saiu às pressas revirando tudo dentro da casa. Ao se livrar das passadas avexadas do religioso, ele levantou-se e foi até ela que dava os últimos suspiros. Ao percebê-la imóvel, resolveu ir embora e na saída o padre mandou-o carregar uma poltrona velha e jogar no lixo. Tentou pegá-la e não conseguia de tão pesada. Saiu e voltou com um carro-de-mão. Muito esforço para conduzir aquela cadeira grandiosa. Até que conseguiu colocá-la sobre a sua condução e, ao invés de sacudi-la, levou pro seu próprio quarto e aboletou-se como o barão. Ali ficou ajeitando canto para ela. No outro dia seguiu pro enterro postando-se na cabeceira do caixão. Nisso, percebeu que o olho da defunta abria e fechava. Psiu! Era ela, estava viva. Foi conferir de perto e, antes que pudesse gritar, ela sussurrou um segredo ao seu ouvido e, depois da revelação, morreu de vez. Seguiu toda cerimonia até se certificar de que fora mesmo sepultada. Pronto, acabou-se. Aquilo remoía sua cabeça e preferiu transparecer, ficando o resto da tarde toda intrigado com o que ela disse. Chegou a noite, resolveu passear. Ao passar pelo cinema estava em cartaz a comédia The Twelve Chairs (1970), do Mel Brooks, anunciada como Banzé na Rússia. Juntou os trocados do bolso e foi assistir. Não sabia ele que era uma entre as dezoito adaptações da película de 1928, da dupla Ilya Ilf e Yevgeny Petrov e que ganhara, inclusive, uma versão brasileira intitulada Treze cadeiras (1957), estrelada por Oscarito e produzido pela memorável Atlântida. Olhos grudados na tela, bastaram as primeiras cenas: matou a charada. No outro dia a cidade em peso acordava com um manuscrito embaixo da porta: O padre Quiba surrupiou as poltronas da Maroca! Pense numa bronca!

 


Vidarte & vice-versa... - Ao desembarcar no aeroporto do Recife, oriundo do Rio de Janeiro, ao invés de seguir o meu roteiro, fui levado por um desvio de percurso, atendendo um pedido irrecusável: conhecer a arte da ceramista e artesã Teresinha Gonzaga, lá no Alto do Moura, em Caruaru. Gente! Diante daquilo tudo, fiquei sabendo que era de uma família de louçeiros que vendiam peças utilitárias confeccionadas em barro, para serem vendidas na feira da cidade, o que a fez iniciar no ofício desde menina. Herdou o nome do marido artesão, substituindo o sobrenome familiar de Gonçalves Simões, e junto com seus filhos expõe peças decorativas, figurativas e utilitárias. Pense no monte de potes, jarras, panelas, pratos, luminárias, bonecos de barro e o cotidiano nordestino. Tudo muito surpreendente. Acontece que, ao mesmo tempo, sou contemplado com outra grata surpresa: a de conhecer a arte da ativista-imersiva-poeta-baterista-jornalista, Brenda Marques Pena, que se assina sujeita coletiva multifacetária, que me chegou com um mote bem glosado: O que podemos fazer é ter bastante paciência e aproveitar para ler muito, fazer o que gosta em casa e também nos comunicarmos virtualmente. Nós estamos separados por hora e quanto mais nos isolarmos agora, estaremos em breve juntos. Aproveitemos para aprender com este momento que tem muitas lições para a humanidade. Podemos aprimorar nós mesmos sempre. Seja solidário. Há muita gente que precisa de apoio e uma ligação, um carinho, mesmo que virtual, faz muita diferença! Curioso como sou, fiquei logo sabendo que ela é a fundadiretora do Instituto Imersão Latina (IMEL), do Círculo de Poetas e Narradores do Mercosul e da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), em Minas Gerais, afora ser integrante dos coletivos de escrituras Migrante e o Nós da Poesia. Não perdeu tempo e me convidou para participar do Semanário Latinoamericano, produzido e apresentado por ela e Raúl Larrosa, no Imersão Migrante, em homenagem aos 85 anos do Hermeto Pascoal, com participação de Lucia Helena Issa (Rio de Janeiro/RJ), Alexandre Santos (Recife/PE), Nelson Giles (São Lourenço/RS) e Izabel Gadelha (Acará/PA). Tudo muito bom. Infelizmente não pude entrar ao vivo, mas a minha martelada Tataritaritatá se fez presente, com a intervenção luxuosa do Tchello d’Barros. Muito obrigado, beijabrações paratodos & até mais ver.

 

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domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina Moraes – A leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

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domingo, julho 04, 2021

JACQUES ROUBAUD, DANIEL FARRELL, MICHEL DEGUY, AMELIA PELAEZ & MARÍLIA PARENTE

 

 

TRÍPTICO DQP –- Poesia etcétera... - Ao som da Sinfonia nº 1 - Fiat Lux op. 21 (2017), do compositor, arranjador e maestro estadunidense Daniel Farrell, witch Jacksonville University Orchestra, conductor Marguerite Richardson. - A hora era aquela que eu não sabia, nem razão, triunfos ou fracasso. Era a minha íntima solitude e entre as linhas das minhas mãos se formaram imagens do Olho de Hórus, ampliadas e reproduzidas na parede em frente, como se o Udyat se tornasse o Olho-que-a-tudo-vê. Tive a sensação de ali se desvelarem registros acásicos, entre imagens caleidoscópicas. Identifiquei o I-Chin que logo deu lugar a imagens cabalísticas e superpostas do Sefer Yatzirah. Uma espiral diminuta foi crescendo e no centro dela a Ars magna de Lull, como se a mim fosse dada a oportunidade da sua experiência lucificadora. Uma voz invisível começou a ditar a doutrina Hokhmath ha-Tseruf de Abulafia, e logo se imprimia de forma crescente o Zairjat al’alam, que se iluminava com trigramas recombinados e formavam hexagramas alternados como boustrophedon e eu a discernir o que havia estudado da linguística filosófica de Derrida. Logo vi-me imerso em ambiguidades, anagramas recombinados como Temurah e acrósticos feito Notarikon. Como eu sabia da palavra perdida esperava Schechina. De repente tudo escureceu e ouvi os versos finais de um poema de Jacques Roubaud: ...Sob os ângulos. Quase uma poeira: / Imagem sem espessura / voz sem espessura / A terra / que te esfrega / O mundo / do qual nada mais te separa / Sob a lâmpada. Na noite. Cercado de preto. Contra a porta. Em meu peito entendia o que tudo ali se mostrava, abri os olhos e era a vida.

 


E o coração às voltas com a paixão... – Imagem: arte da pintora cubana Amelia Pelaez (1896 - 1968), ao som da Symphony No. 6 in B minor, Op. 74 Pathétique, de Tchaikovsky, witch Mariinsky Theatre Orchestra, conductor Valery Gergiev, from the Salle Pleyel in Paris, 2010. - O que me aconteceu antes foi tão inexplicável, na verdade supus que só saberia o significado muito tempo depois. E assim foi. Acontece que fui envolvido pelos secretos sentimentos de Piotr, aquele mesmo de Votkinsk, que perdeu a mãe por conta da peste e aos catorze anos de idade, a profunda depressão. Ao se recuperar, tornou-se escriturário, diplomado advogado e, sentindo-se rejeitado por todos, licenciou-se para se tornar tradutor e viajar. O retorno levou ao pedido de demissão e o ingresso no mundo dos seus sonhos: a música. Vieram os Sonhos de Inverno, A tempestade, uma carreira promissora que começa como professor para fracassar com o bailado de Ondine e a abertura-fantasia Romeu e Julieta. Exilou-se. E ao ouviu o jardineiro: um quarteto que até Tolstoi chorou. Então, vieram mais o Lago dos Cisnes e, entre escritos e aulas, um colapso nervoso. Era chegado o inverno, prostrado até uma carta com a surpresa: era Nadezhda, uma aristocrata e ateia confessa, independente: A distribuição de direitos e obrigações, conforme determinado pelas leis sociais, é especulativa e imoral. Era a sua redenção: ... nas minhas relações com você há sempre a desconfortável circunstância de que, toda vez que escrevemos um para o outro, o dinheiro aparece em cena. Dias de dedicação sem outras preocupações. Contudo, dissabores e atordoamento, Antonina e os outros, o casamento rompido em 15 dias, a tentativa de suicídio e o exílio. Apesar disso, algum tempo depois, estava consagrado. Retomou as atividades e uma outra carta surpreendente: O conto de fadas acabou. Treze anos de correspondência e eles nunca poderiam ter a dádiva do encontro, este o trato. Para ela, a Quarta. Depois, episódios dramáticos enredados e a inaceitável ausência, tudo estava lá, naquela partitura da Sexta e nas entrelinhas evocava uma paixão de emoções exacerbadas, levada até as últimas consequências. Ali estavam seus mais plenos sofrimentos: a autoconfiança arreada, o desespero e a desolação, a relação íntima recôndita pela intolerância, a peste e o precoce envelhecimento, a exaustão profunda e a misteriosa morte repentina. Era, enfim, a libertação. Fiquei bastante comovido com a história e logo me apareceu Bergson: Criamos e recriamos a todo momento... o progresso da atenção tem por efeito criar de novo não apenas o objeto percebido, mas os sistemas cada vez mais vastos aos quais ele pode se associar. Não entendi direito, a ponto de questionar o que havia entre uma coisa e outra. Foi quando apareceu tentando esclarecer, o escritor francês Michel Deguy: Os homens contam histórias que acontecem aos deuses (ou a Deus) e aos homens, e acontecem aos homens porque acontecem aos deuses e nas cosmogonias e antropogonias... A humanidade continua a transmitir a memória nas grandes narrativas, a se bater dentro dessas narrativas, a reinventar a história do mundo. Nisso era eu que precisava me reinventar, estranhices abundantes ao meu redor.

 


A vida nos cacos de vidros... - E no meio disso tudo, de repente uma voz feminina de longe apareceu e sou surpreendido. Uma voz da minha terra e ecoavam em minhas entranhas. Dela, primeiro: Tristeza não existe! Que bom! E me animei. Depois uma cachoeira com todas as ventanias e poeiras que envolvem meus dias e noites: Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro. E choveu baiões e forrós nas violadas de quem já Avoada juntou os amigos e cantou no Pé de Cachimbo, no Malunguim e em casa mesmo, e era Dia de João, Vasudeva, e A Vida no Cariri Demora, na Alvorada, e Estou Desocupado Com Outras Coisas Desimportantes, e a Viagenzinha de Verão, Eu Quero Ver o Cão Mas Não Quero Ver Você, e o Amor, Disco Voador. Quem? É ela a cantora e compositora Marília Parente: A única coisa permanente na cultura popular é sua inevitável e necessária transformação, porque ela é pulsante, viva, cotidiana. Tentar aprisioná-la a um olhar de exotismo, a essa bandeira difusa de ‘preservação do forró’, é matá-la, porque ela acaba se traduzindo em produções ‘caretas’. Exaltar nossa nordestinidade, recebendo a influência do contexto em que vivemos é uma atitude política de resistência. E com a voz dela lavei a alma. Tudo muito bom! Mas agora tenho que fazer umas ginásticas para dar umas carreiras: tempos difíceis. Preciso ir lá fora para se da pedra dá leite, porque cansei de cravar as unhas na parede à cata de moeda que seja. Já rapei o tacho e as contas estão pra chegar. Vou ali, volto daqui uns dias, tá? Tomara. Até mais ver.

 

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sexta-feira, julho 02, 2021

RAOUL HAUSMANN, LEOPOLDO ZEA, MARIO BUNGE & A DONZELA DE JÚLIO DE BERENGUER

 

 

TRÍPTICO DQP –- Dia a mais ou de menos... Imagens: as artes do artista visual e escritor austríaco Raoul Hausmann (1886-1971), ao som das óperas Licht - Die sieben Tage der Woche, a espiral eterna da semana de Karlheinz Stockhausen. - Com ele se dera o mesmo como Em declive, de Horacio Quiroga: Guiava o seu carango feliz da vida por ter trapaceado o algoz, ter escanteado um terceiro concorrente e saído vitorioso sozinho daquela licitação vultosa. Era o ás da jogada, sabia armar, sair por cima e passar a perna em quem ousasse desafiá-lo na competição da vida. Nessa hora até aumentou o som e olhou de lado o saco com a dinheirama: Sou o melhor, u-ru! Mais adiante resolveu dobrar numa transversal, encostar embaixo de uma árvore, puxar o saco e contar as cédulas. Nesse instante ocorreu um curto circuito agitando o ambiente ao redor, ele nem aí. Algo caiu sobre o teto do veículo. Nem ligou, queria mesmo saber o total do volume que amealhara. Assim entretido, quase nem percebeu uma picada firme ao pescoço, só se dando conta do que ocorrera ao passar a mão para demover o que mordia ali e perceber uma mancha de sangue colorindo o dinheiro. Era dos seus dedos: Hem? Passou a outra mão no lugar afetado e constatou que o sangue provinha de lá. Que foi isso? Olhou de lado e viu uma cobra assanhada na janela do carro, pronta para um novo ataque. Conseguiu sacudi-la para longe e vê-la descer pelo exterior do para-brisa. Num impulso fugitivo, virou a chave, acionou o motor, engatou a primeira e saiu imediatamente. Será que houve? Logo sentiu seus olhos turvarem, um inchaço sobressaía-lhe do local atingido, tonteou, sentia as mãos adormecerem e uma sede medonha, um queimor por dentro do peito. Esforçou-se para enxergar uma farmácia ou clínica médica, um hospital, o que fosse, no meio do trânsito agigantado de uma hora para outra. Ouvia buzinadas insistentes enquanto procurava de um lado a outro, onde estacionar para se medicar. Tentou se lembrar das proximidades de alguma emergência, não conseguia mais enxergar direito, acelerou e se sentiu num deserto, estacionou na primeira vaga encontrada e tentou enxugar o suor que lhe descia abundante pelas faces. Algo apertava a garganta e forçava sua memória a ponto de se lembrar de coisas esquecidas de muito. Confesso tudo que fiz, mas onde estou? Os pais, a família, os filhos, parentes e amigos, todos pareciam vivos e reprovadores na sua ideia. O que fiz? Parecia mais aprisionado no dito do Kurt Vonnegut: Bem, aqui estamos, presos no âmbar deste momento. Não há porquê. Agitou-se, afrouxou a gravata, desatacou os botões da camisa, calor insuportável, vertigens e nenhum socorro, aí fechou os olhos e tentou respirar. Tudo rememorado. O futuro? Nem soube direito como pensar agora sobre isso, seria temerário, mas sabia que seria deserção não cogitar, como considerara Milton Santos: Não se trata do futuro como certeza, porque isso seria desmentir a sua definição, mas como tendência. Aí se sentiu cada vez mais anestesiado, como se considerasse o que escrevera Evelin Lau: Para onde foram os sentimentos quando desapareceram? Eles deixaram um traço químico em algum lugar em nossas mentes, de modo que se pudéssemos olhar para dentro de nós, veríamos através dos padrões dos neurônios algumas das coisas importantes que aconteceram conosco em nossas vidas? Por um instante tentou raciocinar, a confusão das ideias o fizera duvidar até de si. Novamente fechou os olhos e... parou de respirar.

 


Outra assim do nada... - Eram cinco irmãos: Chico, Harpo, Gummo, Zeppo e o caçula Groucho. Homenagem do Maia pai, um fanático apreciador dos comediantes estadunidenses. Era um prestidigitador, enquanto a mãe uma bailarina cantatriz que mais encantava por seus dotes corporais que por talento, mas juntos enrolavam bem plateias incultas. Os meninos cresceram e como ele andava ocupado demais com a criação de novos truques, ela providenciou encaminhar os meninos para um futuro promissor, já que quatro deles eram bem hilários com propensões a comediantes, enquanto Groucho um chorão incorrigível. Atinou bem ela e criou com eles o grupo A Diva e as Mascotes Musicais. Veio então a peste e levou o mais velho. Não desanimou e formou o Quinteto Pastelão. Não demorou, outro sucumbiu, agora: Os quatro rouxinóis. Mais um deu baixa com a epidemia, era o Trio Manda Brasa. Aí foi a vez dela, pro saco. Xi, restou a dupla: Feliz e Chorão. Este último findou sozinho, seguindo os passos do pai e o superou com habilidosas lágrimas: tornou-se o Mago Chorão Maia. Nem ele sabia a razão do sucesso, foi levado de roldão e alcançou o estrelato. O pai ficou pelo caminho e ele nem deu tempo de procurá-lo porque estava assediado por muitos, a ponto de poderosos brigarem por sua predileção. No auge percebeu que escolheu errado, defendera com unhas e dentes, enganando a todos e fora abandonado por seu pretenso protetor, expulso de palcos e plateias. Recolheu-se solitário gozando do prestígio de rabiscar tantas páginas, imitando o astro: Memórias de um amante esquálido. Caiu na graça. Juntou uns trocados e bancou a tipografia: os adquirentes elogiavam, mas ele sabia que era falsidade. Depois publicou outro volume, copiando os títulos do ídolo: Eu e eu. Filosofia? Não, garatujas das ideias. E pensava intrigado no que dissera o filósofo mexicano Leopoldo Zea (1912- 2004): A filosofia deve ser uma espécie de olhos da sociedade. Até que tentara mesmo filosofar, mas desistiu quando soube filósofo argentino Mario Bunge (1919-2020): Não acredito em filosofias eternas, perenes, acredito que filosofia é fazer permanentemente. Preferiu seguir os passos do seu homônimo famoso e juntou um volume com As cartas. Vendeu aos montes, tudo copiado. Findou mesmo debruçado sobre suas definitivas memórias: O triste fim de Groucho Maia. Maldição do Fecamepa. 

 


Pinoia, não, de fato... – Verdade, essa aconteceu aqui perto: um poderoso senhor de engenho viu sua única filha crescer e tornar-se aformoseada moça cobiçada: Com essa ninguém casa! A debutante ficou inquieta e ele em riste: Só casa com macho rico! Aí ela botou as unhas de fora e poucos dias depois apresentava o namorado. Que é que você faz da vida? Sou trabalhador, enfrento qualquer situação, não tenho medo de nada e só um defeito. Qual? Sou pobre. Arrede da minha vista, traste! A filha caiu no maior pranto por meses e ele lá inexorável. Alguns meses depois apareceu um jovem ricaço que se apaixonou por ela e foi logo levado à sala da casa grande: Quero a mão da sua filha em casamento! E o que é que você tem? O noviço passou horas contando do que tinha e podia, dando ideia de não saber tudo que possuía. O pai ajeitou o bucho na fivela e largou na cara do petulante: Oxe, essa riquezinha que você tem não dá pra comprar de papel higiênico pra limpar a bunda da minha filha! Vôte. Apressado o namorado saiu e ela correu atrás dele para saber do resultado: Sai pra lá, cagona! E desapareceu do mapa. Tinha certeza eu que esse fato era exclusivo das terras da Mata Sul e não era: dei de cara com o relato no meio das páginas dum livreto: História de Santa Cruz do Capibaribe (Autor, 2003), escrito pelo autodidata Júlio de Berenguer – Júlio Ferreira de Araújo. Procurei saber melhor a respeito dele: só citações em estudos a respeito da localidade, nada mais. E ela? Coitada, ainda ontem a vi desamparada, nua e deitada na areia da praia, posando pro retratista Raoul. Até mais ver.

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quinta-feira, julho 01, 2021

DOROTHEA MACKELLAR, EDWARD ALBEE, MARIA ADELAIDE AMARAL & VITAL SANTOS

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma coisa é outra ou Braszil... - Ao som e imagens de Don't go to Brazil - One advice: never set foot on Brazilian soil, original score composed by the very talented DIMMI - O Braszil é uma coisa e outras noutras numas! É pobre endeusador de ricaço para a pisada das pregas voarem e nem aí! É futebol de domingo todo dia da semana porque é a única hora que bota os bofes pra fora, descasca o árbitro e manda ver e fim de papo, lavou a alma e sai dali para aguentar ser enrabado em todo momento pela mulher, chefe e polícia, se vira! É dançarino de ocasião para qualquer bronca! É moralista que deita bufunfa pro ajeitado e pinota ineivado pra ser salvo por engano na pena de todos os pecados ! E tem mais, muito mais, maior rol e muitos. Assim como há quem não se toque derrapando na folgança, há também quem misture as bolas e saia por aí largando cropólitos depois de tantos ditos aos borborigmos. Nem sabem de Leibniz: Sabemos de quase nada adequadamente, de poucas coisas a priori, e da maioria por meio da experiência. Nem isso. Como sou mais um entre tanto, não me furto a repetir Maria Adelaide Amaral: As diferenças não podem ser maiores que os afetos.... pessoais, politicas... a vida é maior que isso, a vida é maior que a gente. Não é como você vive, mas o modo como escolhe viver. Eu tô chorando pelo que podia ter sido e não foi. Chorar é mais barato e não tem efeito colateral. O que vejo de mesmo: mãos e pés atados nas encruzilhadas da ideia. Afinal, estante pode servir de degraus pro conhecimento, não para subir no teto, tá? Vambora.

 


Uma coisa é uma coisa... – Imagem: arte da poeta, artista visual e pesquisadora Kátia Maciel. - Quando ouvi pela primeira vez os versos da escritora australiana Dorothea Mackellar (1885-1968): Eu amo um país queimado pelo sol / A terra de planícies arrebatadoras, / De cadeias de montanhas irregulares, / de secas e chuvas e inundações... Confesso, não pude disfarçar: eu os vi como se fossem meus, o meu país e todos nós. Mas logo as cenas em espirais labirínticas: a matança dos nossos originários desde a invasão colonizadora para repartição das capitanias hereditárias até então; o tráfico e a escravização dos negros para a sina dos afrodescendentes desde a introdução do canavial e sua monocultura secular até o extermínio nas ruas, gabinetes e batidas policiais de agorinha mesmo; as enroladas e patifarias de sempre que saltaram da casa grande para os suntuosos palácios governamentais com suas garras elásticas nortoeste suleste pelas gavetas, fechaduras e frestas, por baixo das portas, cobogós, persianas, camas e lençóis, pelos nordestamazônicos, sudestesul atlanticandino e caribenho. De um para todos os lados a patriamada odiante e ao ver a minha e a vida dos patrícios valendo não mais que 1 dólar, a imundície das relações institucionais, a nojeira das propinas azeitando as engrenagens da administração pública e as entranhas apodrecidas dos poderes, vergonha é o que falta para que se sustente desdantanho o desgoverno do Fecamepa, Braszilzilzilzilzil!

 


Outra coisa é outra, nada mais... - Maravilhado também quando pela primeira vez assisti ao premiado Auto das 7 Luas de Barro (1979), um musical escrito em versos sobre o Mestre Vitalino, do premiadíssimo teatrólogo Vital Santos (1948-2013). Depois, entre as suas 28 peças, tive a oportunidade de ver A Feira de Caruaru, A noite dos tambores silenciosos, Árvore dos Mamulengos, O sol feriu a terra e a chaga se alastrou, Rua do Lixo 24, A menor pausa, Recortes de Infância, Solta o boi na rua e Olha pro céu meu amor. E também espetáculos musicais que ele dirigiu do Quinteto Violado, Elba Ramalho e do premiadíssimo Grupo Feira de Teatro Popular de Caruaru, entre outros. Pelo que soube, foi ele o fundador dos grupos Evolução (1966) e o Grupo Feira de Teatro Popular. Foi durante a experiência de conhecer o seu teatro que recolhi do dramaturgo estadunidense Edward Albee (1928-2016): Um dramaturgo é alguém que deixa suas entranhas rolarem no palco... Escrevo para descobrir do que estou falando. Até mais ver.

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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...