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quinta-feira, julho 15, 2021

ARTAUD, JOHN UPDIKE, PETRA COLLINS & BARBOSA LIMA SOBRINHO

 

 

TRÍPTICO DQP – O reino do imaginário - Ao som de An imaginary landscape, for orchestra (1971), do compositor britânico Harrison Birtwistle, com a BBC Symphony Orchestra, regência Paul Daniel.Não tenho a mínima ideia de como cheguei ao cenário. Sei que estava diante de um palco e era eu, ou melhor, o meu duplo em cena apresentando o primeiro manifesto da crueldade de Artaud. Não só. Também trechos dos Escritos de um louco e as aspirações anarquistas, porque havia queimado todos os versos para se tornar o poeta sem palavras. Mais ainda: do neutro feminino masculino nas delirantes internações por manicômios com tratamentos duvidosos, entre eletrochoques para perder o último dente que restava na boca, fratura das costelas e perda intermitente da memória, pensamento e corpo. E a voz era o gesto e ato: tremia, cavava, batia, espetava, agia. Era a manifestação da poesia e o exercício da técnica teatral no meio da guerra, do isolamento, do rebaixamento, da dependência desumana de um hospital psiquiátrico. Era para acabar com o juízo de Deus e da perda de si, diante de Van Gogh, o suicidado da sociedade. Afora trechos da linguagem e vida, de Heliogábalo ou o anarquista coroado, de textos surrealistas, dos Tarahumaras, da correspondência com Jacques Rivière e Aqui jaz. Ao final, os presentes aplaudiram a performance. Meio que desconfortável com aquilo tudo, olhei ao redor e vi o autor que veio, sentou-se ao meu lado e me disse do Nouveaux Ecrits de Rodez (Editorial Fundamentos, 1980): ... E assim é que a vida atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura crônica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem, mas sim o mundo que se tornou anormal), proposital desonestidade e notória hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma linhagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça; em suma, de crime organizado. Olhei-o e tudo fazia para não perder a lucidez: Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor e quero que eles sejam ouvidos. Afinal, estava recluso no quarto de Ivry-sur-Seine e o peyote no corpo sem órgãos: mímica, gritos e onomatopeias: ... de todo o modo, é preciso que essas chaves estejam aí, e isso nos diz respeito. De repente a luz apagou-se e era o meu país revolvendo as minhas entranhas como se a vida à deriva na imensidão sideral.

 


Das coisas do Brazil...- Com o retorno do fornecimento da energia elétrica, era outra pessoa sentada ao meu lado: o John Updike. Ele me sorriu e passou a mão um volume com o título Brazil: a novel (Orbis Fabri, 1994) e uma página com grifos no trecho: O Brasil tem poucos líderes; os portugueses não trouxeram a mesma disciplina e austeridade que os espanhóis. Até nós não fomos cruéis com eles, fomos somente brutais, sem dizer que éramos demasiados folgados para termos ideologia. A igreja foi demasiado indulgente e havia que os conventos eram bordeis. Esta era a síntese, a maneira de um professor ao que havia naquele tempo, a lição que havia dado no avião... Ao terminar de ler o trecho, virei-me para ele que deu de ombros e disse apenas tratar-se de uma versão abrasileirada de Tristão & Isolda nos anos 1960 a 1980, na verdade 22 anos de relacionamento entre uma jovem branca da classe alta e um jovem favelado de cor: privações, violências, cativeiro e reviravoltas da fortuna. Não entendi bem o que queria dizer com isso, mas não questionei, disse-lhe apenas que leria seu livro, a exemplo de outras das suas publicações. Despediu-se sorridente com uma frase: Os sonhos tornam-se realidade. Sem essa possibilidade, a natureza não nos incentivaria a tê-los. Do que me resta disso tudo são interrogações as quais não posso perder tempo em decifrá-las. Apenas me levantei e segui tentando encontrar o caminho de volta.

 


Quem se fantasia tem o direito de escolher o disfarce... - Imagem: arte da fotógrafa, modelo e artista visual canadense Petra Collins – A saída dali foi um tanto atrapalhada. Ao descer a escadaria do salão, havia muito gente dificultando o meu trajeto. Era que o memorável Barbosa Lima Sobrinho estava contando uma de suas histórias. Foi uma surpresa agradável porque dele já registrei Por amor às crianças pernambucanas e outro a respeito da Revolução Praieira. Desta feita, era um relato registrado do conto A supremacia feminina (Escrituras, 2007), no qual ele foi instado por um desses sujeitos do tipo “de Bem” que invadiu as dependências da redação e aboletou-se na sua frente para sapecar: Eu estava parado diante da Galeria Cruzeiro quando passou um cordão, um grupo de moças encantadoras. Lembravam-me as carnavalescas de outrora, promotoras da hegemonia do Brasil no continente. Considerei-as, por isso, cuidadosamente e descobri, entre elas, uma que era toda feita de graciosidade e sedução. Resolvi acompanhá-la, no desejo de verificar se merecia, da Liga dos bons costumes, a medalha de honra, prêmio de benemerência excepcional. Juro que era formosa e tinha a pele fina, olhos lânguidos e sorriso diabólico, um sorriso que descobria dentes alvíssimos e uma ânsia enorme de pecado. Movia-se o corpo flexuosamente; e os braços tinham contornos de que se adivinhava a suavidade; o colo fazia pensar em vertigens ardentes... Acompanhei-a duas horas, marcando sobre asfalto e paralelepípedo, sobre calçada e areia. Em toda a minha vida, nunca tinha visto jogo mais harmonioso de quadris! Quando lhe indaguei o nome, para inscrição no livro benemérito a que a Liga dos bons costumes desse homenagem... Ah! Água! Água! Que eu morro! (?!?) ...- Joãozinho La Garçonne! As gargalhadas soaram por todo ambiente folgando a passagem para que eu ganhasse a rua ainda com essa história ecoando no juízo para trazê-la aqui. Coisas do Brasil. Até mais ver.

 

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sexta-feira, julho 17, 2020

AMARÚ VANEGAS, ARNE QUINZE, ANÍSIO TEIXEIRA & LUNA VITROLIRA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: NO RASTRO DAS INCONFORMIDADES - Nestes dias de novidadeirices iterativas, logo dou uma escoimada nas redomas irredutíveis da rotina, sobrando nas minhas inquietações. Inheto, minha cabeça dá passos largos à procura do que talvez nem exista, alguma singularidade ou sei lá de perdido. Coisa que aprendi ouvindo George Gershwin: A vida é bem parecida com o jazz. É melhor quando você improvisa. Frequentemente ouço música no coração do barulho. Eu gosto de pensar na música como uma ciência emocional. É e inspirado, componho o meu blues: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer. Nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença diante da frivolidade das coisas. Ah, assim voo, o trâmite da solidão.

DUAS: DA VOZ & A PRECISÃODE VIVER - No meio das minhas inquietações, vêm à tona alguns segredos que sequer dou conta, nem existiam antes, ora, coisa da hora, do tipo Ingmar Bergman: Todos precisam aprender a viver. A cada dia, me esforço um pouquinho. A dificuldade principal está em saber quem eu sou e onde estou. É como procurar na escuridão. Se alguém me amasse como sou, talvez, finalmente, me pudesse encontrar. É preciso aprender a viver. Eu treino todos os dias. Aí abro o peito, rabisco a sussurrar: Minha voz é a coragem de amar no ultraje dos desencontros. Sou navio com rota esquecida e naufrágios muitos. Quando o nublado olhar pousa em meu rio é pressagio que paira no ventre de paixão. Quando minha vez é torrente de dor no exagero sombrio de uma canção, não é nada, é tempestade que passou e deixou danos. Quando minha voz é a coragem de amar, não é a sombra de um vendaval: é a sujeito de um eterno pavio que aceso nunca apagará.

TRÊS: AH, QUANDO É DIA DE SEXTA? - Ah, uma sexta dessa me deparei com uma coisa assim do Luís de Góngora: Flores dão às pessoas certos exemplos; que o jardim que estava ontem poderia ser estéril hoje. Ah, era sexta mesmo, no punho uma garatuja no papel: Não fosse a tarde ter o mormaço da vida, não teria eu tantos sentimentos nesta hora, sentimentos de dor e compaixão. Não fosse o amor o termômetro desta vida, não teria eu nada para dizer agora, vez que as palavras me escondem. Só quem me compreenderá, talvez, ingênuo, sonhador, a qualquer hora do entardecer, de longe a montanha ao sol-posto, de onde faz sombra esfriando o mormaço do meu coração: um reles mortal com monograma nos olhos, pela noite no mar da solidão. Nessa hora todas as evidências levam a nada para quem foi benzido de copas com a felicidade no descarte: o doce mel se derramou em grande profusão. Fui açoitado pelo ronco da onça suçuarana e por isso virei mundo no Rabicho da Geralda, mandei boas novas e escrevi aos familiares como se esperasse algum dia a remissão ou acaso louvado por vestais. Enterrei o trevo de paus na volta do cruzeiro e só pude ver o vencedor com um laço de fita no braço e uma salva de palmas. Ali, quantas imagens não eram labaredas desde que me tive por gente que vivo a morrer de sede. Deixo minha emoção no meu adeus. Até depois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública. Educar é crescer. E crescer é viver. Educação é, assim, vida no sentido mais autêntico da palavra. Como a medicina, a educação é uma arte. E arte é algo de muito mais complexo e de muito mais completo que uma ciência. A não existência de cooperação ou interação entre ciência e filosofia levou a chamada "ciência da educação" a não "ter" filosofia, o que corresponde realmente a aceitar a filosofia do status quo e a trabalhar no sentido da tradição escolar. Pensamento do jurista, educador e escritor Anísio Teixeira (1900-1971), refletindo sobre a educação brasileira. Dele ainda é possível destacar: A sabedoria é a subordinação do saber ao interesse humano e não ao próprio interesse do saber pelo saber e muito menos a interesses parciais ou de certos grupos humanos. No fim das contas, a teoria é a mais prática das coisas, porque, tendo sido resultado do estudo das coisas no aspecto mais geral possível, acaba por se tornar de utilidade universal. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE AMARÚ VANEGAS
ENTÃO AMOR - Desejo de monstro / transformando o amante em seu próprio carrasco. / Submissão, / roupas de plástico com o ferro ganho; /a mordida / suculento, / cicatriz expectante / machucado à beira da vergonha. / Bem-vindo a pegada fervendo na carne, / uma peça ilusória / untar as dobradiças das portas proibidas, / suas fechaduras. / Nós valemos o abjeto, / perversão, / novas falhas. / Entao amor.
SEGREDOS - Transparência cruzada: sozinha, / Sem pés. / Beije o corpo / antes de fechar o caixão. / Entortar a ressurreição. / Cubra com sedas. / Nas cinzas do piano / a sombra move os dedos / despindo o maior silêncio. / É sentido, apenas.
DESEJO - Você tentou roubar minha palavra / como o fogo dos deuses. / Pobre, / não sabias. / Palavra / é algo que ninguém tem na boca, / nem no peito. / O meu está no desejo.
AMARÚ VANEGAS - Poemas da premiada escritora, engenheira, atriz, diretora e produtora de teatro e cinema venezuelana, Amarú Vanegas, que é Magister Scientiae em literatura latino-americana e caribenha, fundadora do Catharsis Theatre e da Purple Cultural Foundation. Ela publicou o monólogo teatral Mortis (Venezuela, 2001) e a coleção de poesia El canto del pez (Venezuela, 2007). Veja mais aqui.

A ARTE DE ARNE QUINZE
Habitação, por definição, não é apenas um fato, consiste em uma miríade de visões. Todo mundo pensa que encontrou o modus vivendi ideal, mas eventualmente todos nós estamos enraizados em estruturas específicas. Estou sempre curioso sobre como os outros definem viver. Vivemos em espaços fechados com medo de abrir nossas janelas e portas.
ARNE QUINZE - A arte do pintor, escultor, desenhista, grafiteiro e artista conceitual belga Arne Quinze, mais conhecido por suas grandes obras nas ruas, muitas vezes controversas. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Sou uma mulher que tem corações / Cada um em seu próprio ritmo / pulsando em lugares diferentes / nos meus olhos / no meu riso / nos meus dedos / no meu umbigo / e se você for descendo / descendo / descendo / descendo um pouco mais / encontra mais um / onde começa o infinito.
A arte da poeta e performer Luna Vitrolira, autora do livro Aquenda, o amor às vezes é isso (finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2019, na categoria Poesia).
&
A obra do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968) aqui, aqui & aqui.
Crônicas, do poeta, radialista e compositor Antônio Maria (1921-1964) aqui.
Cultura afrodescendente, carnaval & Célia Labanca aqui.
José Durán y Durán & As Noites da Cultura Palmarense aqui.
A música do cantor e compositor Lucas Kallango aqui.
Passando a limpo aqui.
&
Venturosa aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, outubro 07, 2016

VAN GOGH, CHARTIER, IVO TONET, NIETZSCHE, EVELINE HECKER, PRELJOCAJ, CARYL CHURCHILL, KALEB MARTYN, JEFFS, AS MIL & UMA NOITES, LUCIAH & VIOLÊNCIA


INEDITORIAL: A VIDA POR UMA PEÍNHA DE NADA! – Salve, salve, gentamiga! Vida de louco essa da gente! Sai de casa – cobra que não anda, não engole sapo! Tudo congestionado: haja trampo, filas, semáforos, maior trupé & tudo offline, greve, discussões no viva voz, acenos risonhos & falsos, GPS, pisada no acelerador & embreagem, coça o cocuruto, frenagens, ajeita a gola e o penteado pelo retrovisor, ponto morto, nervosismo nas mãos zapeando no dial, blábláblá, manchetes, outdoors, mãos à barriga, sirenes, pigarro, sinalizadores, aquilo que precisa comprar, esqueceu o remédio, algo remói no quengo, ah, o passado – só vem coisa ruim na memória -, consumo, eita, não há tempo, tudo perdido, online vinte e quatro horas no ar e não dá pra nada, seria ótimo um cafezinho quente, nada, remexe as cumbucas, algibeiras, bolsos, confere a dentadura, alisa o cabelo, remexe as orelhas, alisa a nuca, tudo é muito difícil – será o Benedito? -, ah, que nada, sisifismo, a guilhotina das horas, a Espada de Dâmocles, o sonho de Ícaro, a condição de Fênix, não há mais tempo nem como seguir adiante, tudo interrompido, está tudo perdido, preciso viver e a vida por uma peínha de nada. Vixe! E como hoje é o Dia do Compositor, resta solfejar Sinal Fechado, de Paulinho da Viola. Enquanto isso, vamos pras novidades: na edição de hoje a crise da atualidade por Ivo Tonet, o leitor & a leitura de Roger Chartier, a Gaia Ciência de Nietzsche, a violência de Necilda de Moura Santana, o Livro das Mil e Umas Noites, a pintura de Vincent van Gogh & Umberto Boccioni, a dança de Angelin Preljocaj, o teatro de Caryl Churchill, a música de Eveline Hecker, a escultura de Kaleb Martyn, o cinema de Christine Jeffs, o Congresso de Psicoterapia, a poesia e arte de Luciah Lopez, minhas parcerias musicais & a croniqueta Sonho real amanhecido. No mais, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá aqui.

Veja mais sobre:
A primeira vez no avião, Fernando Sabino, Manuel Bentevi, Nana de Castro, Jean-Paul Riopelle, Kiriku e a feiticeira, Inteligências Múltiplas & Aline Barros aqui.

E mais:
Proezas do Biritoaldo: Quando o banguelo vê esmola grande fica mais assanhado que pinto no lixo! Aqui.
Big Shit Bôbras: o paredão – quem vai tomar no cu? & Thérése Philosophe aqui.
Tolinho & Bestinha: Quando a lei do semideus é cachaça, tapa e gaia aqui.
O cinema no Brasil aqui.
Fecamepa: a independência do Brasil aqui.

DESTAQUE: A CRISE DA ATUALIDADE
[...] Sabemos que é da natureza do capitalismo sofrer crises periódicas. Essas, a nosso ver, têm sua raiz nos problemas oriundos do processo de acumulação do capital. Gostaríamos de sublinhar isso enfaticamente para deixar claro que a matriz geradora da crise é sempre material e não espiritual. E, com isso, para opor-nos firmemente à ideia, muito difundida, de que o mundo está em crise por causa da perda dos “verdadeiros” valores tradicionais. Não se trata de nenhum economicismo, ou seja, de afirmar que a causa direta e imediata de todos os problemas atuais da humanidade está na economia. Trata-se apenas de deixar claro que a raiz mais profunda da crise que o mundo vive hoje está nas relações que os homens estabelecem entre si na produção da riqueza material. Assegurado isso, também deve ser deixado bem claro que há uma relação de determinação recíproca entre essa raiz e as outras dimensões da realidade social. Do mesmo modo, também há uma influência recíproca entre todas as dimensões que compõem a totalidade social. [...] A falência dos valores tradicionais que, de alguma forma, faziam uma referência maior ao aspecto comunitário, deve-se exatamente a essa exacerbação daquilo que é a própria essência do capitalismo: a concorrência. Afinal, o valor suprema dessa forma de sociabilidade é o ter. não por um suposto egoísmo humano natural, MS como imposição da lógica da reprodução do capital, que se espraia por toda a vida cotidiana. Daí porque a preocupação com o bem comum, a solidariedade, um agir eticamente orientado são, no mais das vezes, um discurso vazio ou apenas expressões pontuais e superficiais que não podem transformar-se, de modo permanente e profundo, em vida cotidiana. Do mesmo modo, a ação coletiva para a solução dos problemas sociais se vê tremendamente dificultada por um mundo onde a lei maior é a lei do “salve-se quem puder”. E, por último, podemos ainda fazer referência aos gravíssimos problemas que afetam a relação do homem com a natureza. Apenas para referir: poluição da atmosfera, de rios e lagos, destruição de ecossistemas e da camada de ozônio, aquecimento global e milhares de outros. Como resultado do uso indiscriminado, predatório, anáquico e agressivo – típico do capitalismo -, está em risco a própria existência de todas as formas de vida. Não obstante esforços e boas intenções, a lógica do capital é, por sua natureza – anárquica e concorrencial -, predatória e destrutiva. E é essa lógica, levada ao extremo pela crise atual, que impede uma relação harmônica do ser humano com a natureza. Eis aí algumas das expressões socioculturais que marcam a crise da sociabilidade capitalista atual.
Trechos extraídos de Expressões socioculturais da crise capitalista na atualidade (Coleção de Textos, 2012), do professor Ivo Tonet. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SONHO REAL AMANHECIDO (Imagem: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez) - Imerso na escuridão da viagem noturna do Sol, o coração na mão, a loucura na ponta dos dedos, o olhar perdido de nenhum momento. Tudo paralisado, só eu que cresço me bastando com os limites dos quatro cantos do quarto. Nada mais resta que valer-me dos arranhões falando pras paredes: a ilusão de que, possa espantar meus fantasmas e conciliar o sono na madrugada calorenta. Tenho o teto por limite, o chão por abrigo. A solidão é fria e meu corpo lavado em suor resiste. Num canto me recolho: estou entregue à própria sorte. E me perco entre sonhos e pesadelos, até não saber-me, mais nada. Sou, então, surpreendido com um estalido: passos em minha direção. Creio irreal, sonho de sonhos. E uma mão quente fêmea afetuosa toca-me os pés entre o frio da solidão e o meu fervor corporal. É bem-vinda. Alisa a pele das minhas pernas, alcança-me as coxas, envolve o meu sexo um beijo reluzente e sinto a respiração das narinas na minha pele, o seu olfato explorando minha púbis e ascendendo vagarosamente até o meu tórax. É quando me dou conta de seu vulto onírico que se acerca de mim, faro pelos flancos, ombros, lábios e rondando minhas faces como a me identificar na escuridão. Um ponto de luz tímido surge como se emanasse de sua hipófise e, num crescendo, deu-me o formato de um rosto iluminado que reverberava por todo ambiente e me envolvia numa reslumbrância de paz e prazer. Esfreguei os olhos, abri-os bem e pude ver: era ela, Freyaravi: a transformação da deusa na cunhã kaingang, a carne da vida a trazer o Sol no ser para amanhecer o amor na festa da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

UMA MÚSICA: 
Curtindo o belíssimo álbum Ponte Aérea (Biscoito Fino, 2004), da cantora e professora de canto Eveline Hecker, interpretando composições de José Miguel Wisnik.

 Imagem: Parisian Novels (1887), do pintor pós-impressionista neerlandês Vincent van Gogh (1853-1890).

O LEITOR & A LEITURA - [...] A leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. Segunda a bela imagem de Michel de Certeau, o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido pela leitura, o texto não tem de modo algum – ou ao menos totalmente – o sentido que lhe atribui seu autor, seu editor ou seus comentadores. Toda história da leitura supõe, em se princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livre lhe pretende impor. Mas esta liberdade leitora não é jamais absoluta. Ela é cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas de leitura. Os gestos mudam segundo os tempos e lugares, os objetos lidos e as razões de ler. Novas atitudes são inventadas, outras se extinguem. Do rolo antigo ao códex medieval, do livro impresso ao texto eletrônico, várias rupturas maiores dividem a longa história das maneiras de ler. Elas colocam em jogo a relação entre o corpo e o livro, os possíveis usos da escrita e as categorias intelectuais que asseguram a sua compreensão. [...]. Trecho extraído da obra A aventura do livor: do leitor ao navegador (UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 1999), do historiador francês Roger Chartier. Veja mais aqui.


Imagem: Matter, do pintor e escultor italiano do movimento futurista, Umberto Boccioni (1882-1916).

PERNSAMENTO DO DIA: A VIOLÊNCIA NOSSA DE CADA DIA - [...] Precisamos pensar esse processo de violência em que vivemos, pensar um processo de não culpabilizar famílias e pessoas por esses processos e, sim, pensar a dinâmica e os processos sociais que estão cada vez mais marginalizando parcelas significativas de nossa população, especialmente os jovens, hoje suas vítimas preferenciais. [...] Falar em violência e em drogas significa enfrentar todo o processo de violação dos direitos sociais, de exclusão social, de destituição de direitos, que parcela significativa da nossa população vive. Ela tem seus direitos negados, muitos estão abaixo da linha da pobreza, em situações que aviltam a condição de ser humano, de viver com dignidade, enfim. Discutir violência pressupõe partir dessa “violência-mãe”, que é todo o processo de exclusão social que geral uma série de outras refrações. Dentre elas, o desemprego, a fome, a miséria, o não acesso às políticas públicas fazem parte do cotidiano dessa população e conformam a sua existência, toda a sua forma de vida e sobrevida. A ausência desse poder público, que deveria garantir direitos constitucionais, relega essa população á própria sorte e ao desafio de construir estratégias para a sua sobrevivência, buscando diferentes formas de garanti-la. [...]. Trecho extraído de Violência e drogas (Em Foco, novembro de 2005), da professora Necilda de Moura Santana. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LIVRO DAS MIL E UMAS NOITES - [...] dez escravos em trajes femininos copulando, ali, com suas concubinas e criadas, além da cena da cunhada com o escravo Mas’ud. [...] que dez escravos em trajes femininos dormiram entre suas concubinas e mulheres durante a noite e o dia [...] Olharam para a porta secreta, que fora aberta e da qual saiu a esposa do Rei Sãhriyãr, conforme o hábito, entre vinte jovens; caminharam sob as árvores até chegar ao sopé do palácio em que ambos estavam, tiraram as roupas femininas, e eis que era dez escravos que se lançaram sobre as dez jovens e as possuíram. Quanto à senhora, ela gritou: “Ó Mas’ud! Ó Mas’ud!”, e eis que um escravo negro pulou ligeiro de cima de uma árvore no chão, enchaminhou-se até ela e disse: “O que você tem, sua arrombada? Eu sou Sa’duddin!”. Então a mulher riu e se deitou de costas, e o escravo se lançou sobre ela e nela se satisfez, bem como os escravos. Em seguida, os escravos levantaram-se, vestiram os trajes femininos que estavam usando e se misturaram às moças, entrando todos no palácio e fechando a porta. Quanto a Mas’ud, ele pulou o muro, caiu na estrada e tomou seu rumo. [...]. Trechos extraídos da obra Livro das mil e uma noites (Globo, 2005), organizado e traduzido por Mamede Mustafa Jarouche. Veja mais aqui

 Imagem: a dança contemporâne4a do coreógrafo e dançarino francês Angelin Preljocaj.

UM NÚMERO – A peça teatral Um número, da dramaturga britânica Caryl Churchill, é uma ficção científica de fundo psicológico e social, que conta a história de um menino maltratado pelo pai e, por consequência, torna-se revoltado e agressivo. Um processo de clonagem tenta fazê-lo renascer como uma criança dócil. Sem conhecimento do pai, o laboratório também termina por produzir outras vinte cópias. Com isso, a peça expressa a patologia social da violência juvenil e das brutais torcidas de futebol na classe média adolescente, material recorrente na obra do autor que traz em suas obras os abusos de poder e temas como a política sexual e feminismo. A peça foi encenada no Brasil, com direção de Bete Coelho, no Sesc Belenzinho, São Paulo, em 2004. Veja mais aqui.


Imagem: a escultura de Kaleb Martyn.

RAIN – O filme Rain (Chuva de verão, 2001), dirigido pela diretora neozelandesa Christine Jeffs, é baseado no romance homônimo de Kirsty Gunn, contando a história de uma menina que está em férias numa casa de praia, quando se dá o casamento de seus pais que se encontra à beira do divórcio, enquanto sua mãe se envolve com um fotógrafo. O destaque fica por conta da performance da atriz neozelandesa Alicia Fulford-Wierzbicki. Veja mais aqui.


AGENDA: XII CONGRESSO DE PSICOTERAPIA – Acontecerá entre os dias 20 e 22 de outubro, no Hotel Everest - Centro Histórico, Porto Alegre, RS, o XII Congresso Latino-americano de Pesquisa em Psicoterapia (SPR-LA) e o IV Simpósio de Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Psicologia – Unisinos, com tema central voltado para as Interações terapêuticas, procurando a promoção da pesquisa aplicada às distintas situações que envolvem intervenções clínicas em situações de sofrimento psicológico e em processos de saúde-doença em diferentes contextos, além de estar voltado para a integração entre a pesquisa e a prática clínica de forma a incentivar a interlocução desses saberes. O Congresso é destinado aos profissionais liberais, psicólogos, psicanalistas, médicos, terapeutas de família, bem como, estudantes de graduação e pós-graduação e pesquisadores das referidas áreas. Veja mais aqui e aqui.

E mais
SÔNIA MELLO – A cantora Sônia Mello gravou duas das minhas canções, Desejo & Aurora/Minha Voz, no seu cd Desejo, sendo indicada ao Grammy 2010. Ela me concedeu uma entrevista que povo ser conferida aqui.
SANTANNA, O CANTADOR – O cantor e compositor Santanna, o Cantador foi um dos meus primeiros parceiros. Fizemos juntos muitas músicas, algumas que inseri nos meus shows, como Cantilena, e a primeira delas, Nunca chore por mim, que ele gravou em dois dos seus álbuns. Veja a história da parceria aqui e aqui.
RICARDO MACHADO – O cantor e compositor Ricardo Machado gravou duas das minhas músicas, a primeira O amor & o poema de Fernando Fiorese que musiquei, Porque cantar já não muda em manhã. Ricardo possui formação erudita, é cantor lírico, tenor, e já gravou dois álbuns. Veja o talento dele aqui.
MAZINHO – Jucimar Luis de Mélo Siqueira, ou simplesmente Mazinho, é um dos meus parceiros mais assíduos. Fizemos juntos algumas canções, como Entrega, Querência e Cobiça. A primeira delas ele gravou no seu álbum Simplesmente, ao lado de Zé Linaldo. Veja a história dessa parceria aqui e aqui.
SONEKKA – O cantor e compositor Sonekka – Osmar Lazzarini, é o meu parceiro na música Itinerância. Sujeitos dos bons e um dos fundadores do Clube Caiubi de Compositores. Veja a história da parceria e uma entrevista que fiz com ele aqui, aqui e aqui.
WILSON MONTEIRO – O cantor Wilson Monteiro gravou dois dos meus xotes no seu cd Cantarolando. Foram elas Cantador & Desnorteio. Veja a história disso aqui.
OZI DOS PALMARES – O cantor e compositor Ozi dos Palmares foi um dos meus primeiros parceiros na vida. Fizemos juntos a canção Estigma que foi gravado no seu primeiro cd. Veja a história da parceria e uma entrevista que fiz com ele aqui, aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] Uma moral poderia mesmo ter crescido a partir de um erro: mesmo com essa noção, o problema de seu valor ainda não teria sido tocado. – Ninguém, portanto, examinou até agora o valor dessa mais célebre de todas as medicinas, chamada moral: para o que, é preciso, primeiro de tudo, alguma vez... pô-lo em questão. Pois bem! Essa é justamente nossa obra.
Trecho extraído do Livro V – Moral como problema - , da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arre! Não demora, venha logo já não aguento o tesão a subir-me pelas pernas
lambendo feito labareda queimando a pele, venha!
Já arriei as defesas quero você no chão ou sobre a mesa já não importa o lençol de seda ou a cama macia, sou sua puta ditosa sua fêmea cheirosa
safada, manhosa querendo você entre as coxas numa foda gostosa até me deixar exangue, acabada, largada , gemendo baixinho no seu ouvido:
_Vai amor, goza gostoso, ah, meu amor goza eu quero goza amor, eu amo você!
Ditosa, poema/imagem/foto, arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...