terça-feira, junho 01, 2021

MARIO PERNIOLA, ROSANA MONNERAT, PATRÍCIA MELO & NASH LAILA

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma: à sombra de diferentes lugares... - Ao som de Alfonsina y el mar, do compositor argentino Ariel Ramírez (1921-2010). – Ah, se não perdi a memória errei o caminho, estava no fim da estrada. Sabia que ali era do litoral, mas para onde eu me virasse só dava no canavial de um lado a outro. E se não era miragem, havia aqui e ali um sinal de resto de oásis que dava para matar a sede e limpar as vistas. De fato, estava perdido ou prestes. Na cabeça martelava o frevo do amor imortal que dizia do Pontal de Coruripe só céu e mar. De onde eu vinha, nem sabia direito, quase esquecia já ter passado pela Lagoa do Pau e, pelo que já andei, ainda faltava muito no destino, parece. Do que pude saber, tinha que passar por Piaçabuçu, era o que diziam os poucos passantes solícitos que cruzavam meu trajeto. Talvez fosse possível dar Boa noite, Penedo, cantando às margens do Velho Chico. Talvez. Antes disso, não havia mais a faixa do asfalto. Ué? Olhei direito, não me haviam dito que a faixa recomeçava do outro lado, depois de um pedaço de rodagem no areal. Segui e depois de tantos passos e paisagens, um povoado. O coração bateu mais forte, dei fé nas passadas, logo vencer a distância e passar pelas edificações todas com suas janelas e portas abertas, procurando no interior delas um pé de gente para remédio. Às ruas não havia a quem perguntar, acho ser ali uma localidade fantasma. De vivo mesmo só a cana ao redor e intermitentes pés de coco. Ou uns pedaços de taboa da entrada à saída do local. Deu-me uma sensação Rimbaud: De manhã, eu tinha o olhar tão perdido e a postura tão morta, que aqueles que encontrei talvez não me vissem. Só que todos, ninguém. Acho que enlouqueci, mas não. Não, não era fantasma aquelas paragens, já distante do lugar um menino me dissera que ali em abril ocorrera um dilúvio de dois dias, causando muita destruição e desabrigados. Onde estão todos? Não sei, em casa. Não vi ninguém. Ah, o povo vive entocado. Que lugar é este? Feliz Deserto. Vi-lhe o beiço virado apontar por ali para lá longe aonde eu deveria ir. Lembrei Bukowski: Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim. Sim, procede. Mais assustado fiquei ao ouvir Mário Perniola: Não é necessário sermos grandes viajantes para perceber que o mundo contemporâneo oferece um panorama no qual está dissolvida a rígida contraposição entre sagrado e profano, entre simbólico e pragmático, entre selvagem e racional... Procurei girando as vistas ao redor, não havia ninguém. Estou, deveras, perdido.

 


Duas: A festa do fim de ano... – Imagem: arte da escultora, gravadora e artista visual Rosana Monnerat. – Ali não era uma miragem. O menino brincava no oitão da casa. Ouvimos estalidos, ou melhor, disparos. E ele: São fogos da festa! Abriu bem os olhos de alegria e correu em desabalada para um cajueiro, subindo por seu tronco, pés nos galhos e lá em cima, olhava para um lado e outro. Sabia que não eram fogos de artifícios, eram tiros. E ele, mão sobre os olhos, procurava inquieto descobrir de onde vinham. Dali a pouco ouvi uma correria e no meio dela, uma mulher desesperada chamando por Nino! Tou aqui, mãe, olha os fogos da festa! Desce daí menino, não é fogo de festa, desce já! Peraí, mãe, deixa eu ver! Desce já! Outros estampidos cruzavam o ar, procurei me proteger escondendo-me, deitado, ao lado de uma mangueira. A mulher aos gritos deitou-se, nem deu tempo insistir pela descida do menino: ele despencou lá de cima, entre galhos e folhas, caindo com um baque no chão, de costas, braços abertos, jorro de sangue na testa e no peito direito. Ao meu lado, Patrícia Melo falava de Inferno: ...o pior veio depois, um silêncio longo, um nada, nem mesmo os cachorros latiam. Agua até o nariz. É a pior parte... não há nada pior na guerra do que o silêncio. E eu já não sabia o ponto de partida, muito menos de chegada, tudo estava perdido.

 


Três: Onde o deserto feliz... - Estava desolado e caminhei a esmo, se não perdido já havia esquecido o destino e mais ainda ao me deparar com uma jovem que chorava à beira da estrada. Prudentemente procurei saber se precisava de alguma coisa e ela me escorraçou aos gritos. Está bem, se precisar de alguma coisa é só falar. Peraí. Sim? Estava desorientada, procurava por um alemão, acho. E desabafou sobre a ruina da família, a fuga para o Recife e se desdizia desesperada, a prostituição, a loucura do amor, o tráfico de animais, a dureza da vida, o sofrimento. Não sabia o que fazer, ela não tinha mais que uns quinze anos de idade e fora violentada pelo padrasto e era o que mais a repugnava, a ponto de esmurrar meu peito e deitar a cabeça ao meu ombro aos prantos. As pessoas apareceram e se reuniam interrogativas ao redor, nem tinha tempo de me explicar direito, não sei se me acusavam ou se compreendiam o que estava ocorrendo. Havia uma hostilidade no ar. Para minha salvação, ela se recompôs e era a atriz Nash Laila a me dizer: Tanta coisa… A gente está vivendo um momento muito sensível. O mundo está muito caretão. A gente tem que quebrar tudo, para ter um pouco de afeto. No nosso trabalho, mexemos com fogo. Gente é uma coisa que amo e odeio. Admirado fiquei com sua desenvoltura. Era como se ela atuasse na Valsa nº 6, do Nelson Rodrigues. Cada vez mais não sabia o que fazer. À minha cabeça cenas, frases, desencontros, tudo desconexo, mal conseguia fazer uma leitura do momento. O que sei, melhor dizendo, quem tem o amor ao alcance, tem outra chance de ouvir todos os seus sentimentos para a pluralidade real da vida. O amor ainda faz sentido hoje?

 


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segunda-feira, maio 31, 2021

LECHIN, INÊS PEDROSA, LAFERRIÈRE, ANNA VINNITSKAYA & RECIFE

 

 

TRÍPTICO DQP – Uma, renascente a cada dia – Ao som Klavierkonzert in G-Dur zum, de Maurice Ravel, com a pianista russa Anna Vinnitskaya em Abschluss der Asien-Tournee des NDR Elbphilharmonie Orchesters. Es dirigiert der designierte Chefdirigent Alan Gilbert. - O dia amanheceu e é maravilhoso viver! Não sou mais o mesmo, outro sorriso, outras caminhadas: um malabarista na corda bamba e no jazz. Sei que é outro dia, nova data, mas se me parece ontem ou anteontem. E o sorriso da Inês Pedrosa reafirmava que estávamos no século XXI: ...espero que seja o século do desaparecimento do gênero, ou seja, o século da invenção da paridade entre homens e mulheres. Quase que esqueci com o seu sorriso que tem gente que vive noutros séculos passados, enquanto eu retornava à estaca zero, recomeçava sempre, todos os dias. E Dany Laferrière me dizia: Nenhum retorno é temporário... Como a gente não sabe a data de nossa morte, não temos como saber o que é de fato temporário.... população viva em uma diáspora. Sigo adiante, teimosia minha e a vida como êxodo: de cara pro caos, viver em areias movediças. Renascente a toda hora, em todos os momentos, a cada dia todos os dias.

 


Duas, escapando do genocídio – A notícia era o zunzum de cochichos: cheio dos quequeos, meteu-se em bravata, vingou-se esfaqueando a amásia e, num acesso de raiva extrema, enfiou o dedo no cu, assoprou forte e entrou em combustão! Como é que é? Isso mesmo. Nem deu tempo dos milicos pegar o tal corcunda glutão, prendê-lo e atirá-lo num camburão. Restou um tolotinho de nada dele. Ela estava só pele e osso, botou os bofes pela boca, sugada pelo astuto. Morreu? Evidentemente. E o réu? O cara era tão pirangueiro, que nem deu para transportar sua desgraça pro calvário. Dizia não ter tempo nem para respirar, quanto mais pruma diversão, só atos repulsivos. Que história é essa? Foi, já deu. É peta! Estão falando. Mas, ô Doro, como é que você está escapando da pandemia? Oxe, eu tomo os cachetes da cloroquina e daquele outro pra lombriga, dia sim, dia não. Mas não protege nada! Ah, tem vacina por acaso? Está faltando. Pois tá, o Coisonaro falou, tá dito, ele é o mito! Das costas ocas? Nada, você já viu ele tossir, tá cheio de gogo nos broncos lá dele, meu! Vixe! É cada uma que dá dez! Dou onze, só não dou mais porque a madama me botou de casa pra fora! Por qual motivo? Ela mandou eu lavar os penicos do cagador no banheiro, não fui. Oxe! E aí? Já viu homem limpar merda? Já. Onde, só se for esgotando fossa. Não, ajudar nos serviços domésticos não tira a homência de ninguém! A-rá, isso é papo de oposição, comunista da porra! Vôte! Fazia coro ao Belfagor do Maquiavel, só sendo misógino! Mais falava como se saísse daquele clube secreto de A gula do beija-flor (Bertrand Brasil, 2006), do escritor boliviano Juan Claudio Lechin: ...historicamente apenas a presença da mulher fez o homem gaguejar, desviar o olhar e estremecer... É verdade, meu! Nada. Concordo com aquela de que violá-las dou o caminho da liberdade... Só se for o caminho da casa da peste, seu folgado! Eu mesmo me aproveito delas: Um doente sempre comove as mulheres. Cada uma delas tem uma enfermeira do por dentro. Para ele, isso é amar as mulheres, fodendo beldades na solidão da punheta! E você acha isso justo? Ah, meu, qual é a sua, de qual lado você está? E saiu mais puto que antes.

 


Três, o Recife: “...entre as palmas dos coqueiros, meu amor, eu me lembro”... (ao som de Coqueiros, Geraldo Azevedo). – É noite no Recife, mesmo de dia – como na pintura de Dani Acioli: De pecado o céu tá cheio! E aqui em baixo está tudo muito pior. Antes, havia o cheiro de sargaço e o que beirava os olhos dela era festa na pracinha do Diário. Hoje não mais, as trevas da barbárie. Não sei quando parti descalço, nem como foi que cheguei pela Imbiribeira e foi por ela que saí pro sul, choro da chuva solfejando a canção enquanto sangrava pelos quatro cantos. Sonhava cabelos soltos à espera de um disco-voador qualquer, outras paragens para quem restou qualquer sorte, expiando todas as culpas e penas infligidas. Sempre pus tudo a perder e quase nem havia tempo de piscar o olho, iminente encruzilhada, cada esquina ocupada sem ter nem como escapar. Era outro tempo e agora a polícia militar ainda solta cães, jatos de pimenta e tiros de borracha como se quisesse tapar a boca da multidão, abafar os gritos, esconder o genocídio. Alguém disse e é mesmo: sujeitos dessa têmpora padecem de problemas diversos, repressão, obscurantismo, estupidez. Não há como conter, o mundo era... o Recife.

 


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sábado, maio 15, 2021

JARAUTA, XINRAN, CAMILLE O’SULLIVAN & MANUEL EUDÓCIO


  

TRÍPTICO DQC: LIÇÕES DA VIDA, DESAFIOS DO FUTURO - Esse o tempo da gangorra, tantos paradoxos: a história de cada um entre o sonho e o desespero. Quem dera fosse outro o momento, mas não. Não tenho a mínima ideia de como será daqui pra diante, nem eu, nem você, nem ninguém, a não ser mastigar emoções se nada mais der certo, ou seja lá o que for que aconteça. Olho pros lados, não sem antes saber que apesar de partir e repartir, tudo me faltou e quase tive medo, porque respirar é sempre o melhor a ser feito, e me faltou oxigênio. Bem... Saída alguma e num lance de dados e armadilhas acompanho os giros entre o refratário e o reflexivo. Não sei o que vou fazer agora, o desafio de decidir para onde ir ou não, coisa do tipo que faço no mote de Pinto de Monteiro: Tiro de onde não tem e boto onde não cabe. É só o que resta mesmo a fazer nessa insegura passagem que se prolifera à desgraça e o que desaparece de benesse, a sempre véspera inoportuna, coisa minha, amor fati. Então Xinran me disse: Quando alguém mergulha nas próprias recordações, abre uma porta para o passado; a estrada lá dentro tem muitas ramificações e a cada vez o trajeto é diferente. Perdi o que se foi e nem acaso virá, diferente mesmo. E muito. Francisco Jarauta alertava: ... O desafio está no futuro e não no passado. O pior é que me esqueci, nenhum remorso ou sequela, ações de nenhuma escolha e fora da lógica. Só sei de algo que não cabe no dizer, só compreendê-lo, senti-lo. Vamos à luta!

 


DOIS: VEIO & SE FOI - Giro era meio biruta, isso desde menino. Um tanto estranho: sorria para tudo, mesmo se malvadassem ou maldissessem dele. Brincava de adivinhar o dia seguinte e esquecia o que passou. Era uma graça, a gente se dava bem e às gargalhadas. E cresceu, de rapazola a homem feito, do mesmo jeito: dentes abertos no quarador para tudo e todas as coisas. E o que viesse, traçava sem cara feia, maior boa vontade. Mesmo quando aprontavam ou se aproveitassem pra cima dele, nem ligava. Boa praça, sempre de bem com a vida. Diziam até que sua chegada curava qualquer enfermo, quando não ressuscitava na hora. Ao procurá-lo depois, o canto mais limpo. Ninguém sabia onde morava ou vivia esses anos todos, só do alvoroço da passarada e outros bichos da brabeza mais furiosa, tudo comendo na mão dele, acompanhando seus passos. Aparecia do nada e sumia tal como viera: sem dar notícia nem paradeiro. Você viu o Giro? Não. Ah, meu Deus, por onde ele andará? A senhora é a mãe dele? Sou. E cadê? Nem sinal dele. Era de vê-la desolada, aos prantos confessionais: O Giro eu encontrei numa favela, enrolado numa tipoia, com placenta e tudo. Foi numa segunda-feira fatídica, tudo queimado: gente, barracos, tudo. Só ele lá no meio das cinzas, o milagre. Havia acabado de nascer, um santo. Hoje é aniversário dele. Nasceu no dia 5 de fevereiro? Sim, de 1962. Ei, peraí! O que foi? Num diga! Parecia o sismo de Pompeia de novo: o Anticristo. Como assim? O 666! É mesmo? Valha-me, gnósticos, cinco vezes! O terreno está preparado, o quarto período. Vôte! Benzodeus! Como é que é? É o que estou dizendo. Será? O Giro, essa não! Ele foi encontrado num incêndio, não subiu do mar, não tem cor de escarlate, nem jeito da besta! Ah, bestão ele é. E o que tem isso a ver com o troço? Sei não, hem? Ouvi Carol Bensimon: Temos que aceitar que não temos mais ídolos. Temos que aceitar que criticamos os tempos irônicos, mas somos irônicos de vez em quando. Temos que aceitar que nós também vamos sucumbir às tendências. E o Giro, hem? Sai pra lá, cruz-credo! Ah, ele está pelo meio mundo, de mãos dadas com a vida dele e a de todo mundo. Ah, tá.

 


TRÊS: SOMBRAS DO CORAÇÃO - Gilvanícila e as lembranças do pai, coisa boa no coração. Não entendia a mãe só aos maus tratos, ruindade injustificável com ela, só sendo, mas por que seria, queimava de interrogações. Não havia ideia alguma que lhe desse a razão de tanto desprezo por parte da mãe, nem queria vê-la. Pode? Mas desconfiou do tio que esquecera na marra, doía demais o que passou. Era como se ela fosse Camille O’Sullivan pronta para o The rape of Lucrece: a batalha na noite de Ardea, enquanto Tarquin e a lindeza dela, a entretia com os feitos historiados, o desejo dilacerando escondido nele e a invasão do quarto enquanto ela dormia. Acordou amedrontada com a mão intrusa em seu seio: ou cede ou morrerá. Isso não, me poupe; inexorável, enfim estuprada. Dela, uma carta para Collatine voltar como se fosse seu pai salvador. Não teve coragem de contar, a mãe vingativa que depôs. E uma faca suicida prestes a derramá-la com todas as culpas do mundo para o pentâmetro iâmbico de rima real e mais de mil oitocentos e cinquenta e cinco versos, duzentas e sessenta estrofes de sete versos. Era tudo muito pouco, não fosse o pai sucumbir na hora exata da delação: Ah, meu pai, por que você me abandonou? O tio era um monstro escorraçado, fez de tudo para apagá-lo do seu sofrimento, dá-lo por inexistente, nunca visto nem sabido. Só na hora da mãe às últimas no hospital, teve ciência de tudo. Guardando-se em suas sombras, disse-me usando das palavras do escritor estadunidense Lyman Frank Baum (1856-1919): Existem coisas piores no mundo do que ser um espantalho. Não há ser vivo que não tenha medo quando enfrenta o perigo. A verdadeira coragem é enfrentar o perigo quando se tem medo. Despetalada em lágrimas, recostou-se ao meu ombro solidário. Até mais ver.

 

A ARTE DE MANOEL EUDÓCIO


A arte do ceramista e escultor
Manuel Eudócio (1931-2016), Patrimônio Vivo de Pernambuco, retratando em sua arte o cotidiano popular e o folclore pernambucano. Veja mais aqui e aqui.

 



sábado, maio 01, 2021

SEBALD, BARICCO, YASMINA KHADRA, KIM EDWARDS & GENTIL PORTO FILHO

 

 

TRÍPTICO DQC: O tio-irmão se foi e fiquei só mais uma vez - O brejo no quintal e o meio da rua principal, a infância no que não era água escura, apenas um nome inocente. Aquele Zito – coisito de carinho, mimo -, ser caçula como todos somos e com uma obediência cega por meu pai que nunca tive até a descoberta do fracasso e senilidade dele, aí passou para o plano da compreensão, porque era o filho do mais velho que era meu pai e, por isso, meu irmão. E o respeito submisso o fez doutor Rildo que foi para mim nada mais além do nome, alcançar a rebeldia insubordinada – era enfim ele por ele mesmo – de vereador a vice-prefeito que, também, para mim, não era mais que outra nomeação distante, porque arrombamos com toda hierarquia: ser o primeiro neto deu-me o poder sobre o tio mais novo, a equidade. E ríamos e discordávamos no meio da nossa cumplicidade. Nada do que fomos além de nós mesmos em nós mesmos não valia nada. Como ele era bissexto, envelheci primeiro, antes dele e recitando a epístola aos poetas que virão de Manuel Scorza – apesar dele ter passado não sei quantos anos além de mim. O que ficou de mesmo foi essa isonomia e as mãos dalas pela proximidade de sonhos, anseios similares, apesar de distintos, claro, mas dois num só, na verdade três mosqueteiros: eu, ele e todas as coisas, enquanto apreendia as quatro narrativas longas dos emigrantes, do escritor alemão W. G. Sebald (1944-2001): O certo, porém, é que o sofrimento espiritual é praticamente infinito. Quando se acredita ter atingido o último limite, sempre há novos tormentos. A pessoa cai de abismo em abismo. E éramos um pelo outro no pacto de sangue que sequer celebramos e nem a morte nos separou porque se ele está morto seja lá onde for, está vivo em mim, como dissera Alessandro Baricco: Os mortos morrem, mas continuam a falar em nossa voz. Aumentou minha solidão, mas é assim que sou e vamos sempre juntos.

 


DOIS: Cassemblas – Comartefatos, brinquedadas, trouvobjetos, vidartes - Aqui estou e muitoutros eus, isso de mim mesmo. É assim: de primeiro ouvi e o ouvido fez-se minha fala, Fiat Lux et cétera e tal. E em mim a descoberta do que não ouvi nem se falou: do que sou e de tudo duma só vez emanavam e eu capturando os pedaços que voavam de mim não sei de onde, de dentro sim, e sentia sem que pudesse compreender, o ilógico, algo não-ego, outro eu e muitoutros de mim mesmo brotavam do meu coração e cresciam a se enraizarem além dos meus pés e se elevavam além da minha cabeça e tamanho, como se minha alma não fosse só minha e não mais eu, incorporando a mim e todo universo. Foi de repente e me vi Sônia Guajajara empunhando a vida e era ao mesmo tempo o pedinte aboletado na esquina e o escritor argelino Yasmina Khadra: Quando um mosquito se deixa apanhar numa teia, não pode querer mal à aranha. E não só, o primeiro passo esquecido, o sorriso de Carma, a última esquina passada onde não encontrei minha mãe que se foi para nunca mais, cenas que não vi, o que não percebi e o esquecido, as árvores do quintal da infância, os rios que atravessei e me deixei levar, os enfermos das emergências hospitalares, os quase vivos e os quase mortos, ouvindo Gotas de oceano da cantautorótimaravilhosa Camila Inês e contra-o-ponto da vã filosofia porque tudo é fugaz sereia morena Leiria e o eco na mente de Kim Edwards: Não se pode deter o tempo. Não se pode raptar a luz. Tudo o que se pode fazer é virar o rosto para cima e deixar a chuva cair. Ser em si o outro e muitoutros não é nada pacífico, isso eu sei; mas nada pude fazer: guerras e tempestades permitidas, política de boa vizinhança. E me apaziguo ao desconhecido, tenho de seguir adiante.

 


TRÊS: Livro fechado – Abri e fui comodamente palavra por palavra, frase por frase, período por período, página por página até a linhultima da paginultima: Por outro lado, o caixeiro, para ser caixeiro-viajante de verdade, não precisa de escrúpulos, o que lhe deixa em posição de igualdade em relação à natural falta de escrúpulos do primata, mas com a vantagem de poder desfrutar dos privilégios da linguagem. Logo no início fui avisado: De histórias, o cemitério anda cheio. Era para saber: Viver lentamente para morrer rapidamente. E outro alerta: ...fuja mesmo e não se atrase. Lá pras tantas, outros recados no meio de muitos tantos: Ou talvez até não precise de nada, se você vislumbrar a própria divindade que há em você. O que me dizia, não olvidava: ... porque o tempo urge. Urge para que você dê aquele passo que vai lhe tirar da sua condição de vítima. Ali estava o que eu não disse e estava dito, o que não fiz e estava feito, o que não escrevi e estava sacramentadamente escrito. Deveria ter lido de antemão o prefácio d’A saga do Zeitgeist Cowboy contra o inferno do Fabio Victor, outra obra de arte, mas não passei batido: ... é um labirinto, um jogo de espelhos, um caleidoscópio instigante e vertiginoso. Um manifesto-ensaio-provocação-em-prosa-poética, no limite da prosa, no fio da navalha da poesia. Um achado, esta síntese. Justo quando lembrei comovido daquela passagem que diz: Amar o próximo é importante. Nem que seja só um amigo, daqueles capazes de saltar muros e fugir de guardas com você. Capazes também de roubar um carro com você, mas, sobretudo, de dividir o próprio futuro que se faz com ele no presente. O que eu não sabia, tudo muito e demais: um livro fechado que abri e li porque sou o que restou do meu pai. Até mais ver.

 

A ARTE DE GENTIL PORTO FILHO



[...] Sinceramente, não sei bem o que fiz neste livro. Sentei em frente ao computador como se diante de uma tela em branco. O único princípio que me impus foi justamente o de escrever sem projeto nem processos preestabelecidos. Parece-me que havia apenas a necessidade de escrever livremente [...]. Talvez pelo fato de ter a necessidade de escrever livremente, tenha me levado a este fluxo de imagens e percepções. Do título do livro, penso que me veio como uma síntese de ideias contraditórias. Parecia-me um trabalho fechado nele mesmo, aparentemente independente do exterior. Ao mesmo tempo, me parecia também o mais aberto possível, porque sem temas, estruturas ou técnicas predefinidas, o que também me recordou da Caixa de Pandora. Uma caixa fechada, mas para ser aberta e liberar ‘todos os males do mundo’. [...].

A arte do escritor, professor, pesquisador e artista plástico, Gentil Porto Filho, autor da obra Livro Fechado (Autor, 2020), que é professor de Teoria da Arte e formação em arquitetura. Veja mais aqui e aqui.


 


domingo, abril 25, 2021

GOMBROVICZ, VILA-MATAS, CIDA PEDROSA, BEATRIZ BRACHER & WALBER BARRETO

 

TRÍPTICO DQC: UM: No tempo que as coisas tinham graça – Era então menino presepeiro no Caçotinho, isso lá pela segunda metade dos anos 1960. A vizinhança era musical: no quintal ficava ouvindo o sax que soava intermitente pelas manhãs, finais de tarde e no meio da noite. Do lado esquerdo, um menino já solava a guitarra. Aí eu corria e me encostava à porta de sua casa para ouvi-lo: Bito, vamos tomar café? Vambora. A senhora mãe dele, com uma simpatia sorridente que era o maior afago no coração da gente, forrava a mesa, ajeitava tudo e me tinha como um da casa, servindo uma cumbuca de manteiga, pães e um apetitoso prato de batatinhas fritas. Santa mãe: ela achava a maior graça nossa gulodice, armados um duma faca de serra, lascava o pão verticalmente, tascava uma prastada de manteiga na banda do pão e inhac! Tome manteiga pra cima a cada mordida no pão. E isso enfiando o palito naquela que seria a melhor batata frita do universo! Verdade! Ainda hoje sinto o gosto na boca, inigualável. Bucho roliço, a gente corria da mesa para que ele executasse na guitarra os solos de sucessos que faziam a trilha sonora da nossa infância. Às vezes ele sapecava nas cordas umas gritadas raivosas segurando no cabo da distorção, só via seus dedos correndo dum lado pro outro no braço do instrumento e os cachorros uivavam fazendo coro do lado de fora. Nisso a gente ficava o dia inteiro, só suspendendo quando da chegada do pai dele pro almoço ou janta. À sesta, seu Louro sentava do meu lado e ficava apreciando o talento do filho nas cordas de aço. Quando não, era chutando a bola um pro outro, ou aprontando coisas de meninice. Anos de infância e adolescência, até que me mudei de lá e só o reencontrei já na segunda metade dos anos 1980, para integrar a equipe de músicos do meu show Por um novo dia. Ele já era músico prestigiado por todas as bandas e já se assinando Vavá de Aprígio. Festejamos e fizemos bonito, maior barato. Depois do evento, piquei a mula Brasil afora, só revendo o amigo muitos anos depois, para gravar os meus frevos da Folia Caeté. Comemoramos e pintou tudo às mil maravilhas, com a participação do maestro Maurício Malafaia e outros músicos da minha estima. Foi festejo que só em copos e rodadas. Tudo passou e agora é como se ouvisse o escritor espanhol Enrique Vila-Matas: Mais do que o vazio, o que importa é o conteúdo do vazio... Encontramo-nos em uma corrida louca rumo ao nada. Coisas do coração falam mais alto Marguerite Yourcenar: Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana. É a hora nostálgica da qual fala Augusto Roa Bastos: Nesses momentos, quando a humanidade como um todo está em estado de decadência, sempre existem aqueles seres excepcionais como ponto de referência. Hoje vez em quando a gente se cruza, joga conversa fora e fala dos projetos adiados para quando o genocídio e a pandemia folgarem um pouco e a gente mandar ver numas estripolias boas lembrando as presepadas de infância e das últimas curtidas sonoras das nossas audições. Vamos nessa!

 


DOIS: Das lembranças no meio dos livros - Ao som de Saudações – Sertões Veredas (ECM, 2009), de Egberto Gismonti, com a Camerata Romeu, sob a regência de Zenaida Romeu. - Bordejava eu com meus vinte e poucos anos pela rua 7 do Livro, quando ela me deu a edição do Lítero-Pessimsta, com a publicação de um poema do meu primeiro livro. Foi uma verdadeira festa no meu coração. E trouxe junto Francisco Espinhara, Marcelo Mário Melo e Eduardo Martins pra gritaria performática duns versos independentes nos céus do Recife. Ô festa boa! Lá estávamos e eu me aprontava para Piratear recepcionando o abraço de Arnaldo Tobias e Cícero Melo, com a novidade me levaram para uma roda com Jaci, Juareiz e Paulo Caldas que ouviam as cipoadas poéticas de Ângelo Monteiro e Alberto da Cunha Melo. Era cada virada de copo e de noite, de me perder da Boa Vista e errar o caminho de volta para casa. Tempos bons. Ainda tenho entre meus livros nas estantes a coletânea Restos do fim e O cavaleiro da epifania, que são desta época. Depois que adquiri nas minhas passagens pelo Recife os livros Cântaro (2000) e Gume (2005). E agora folheando Solo para Vialejo, revejo na memória viva e verdadeira a premiada e votada poetamiga Cida Pedrosa como se me dissesse desde sempre: Eu acredito que o poema pode mudar o mundo ou uma pessoa, ou o dia de uma pessoa. E é por isso que eu escrevo. Essa é a minha maior militância de todas as minhas militâncias. E depois recitasse... : a mulher virou homem o trabalho / e a desigualdade por baixo da saia: trouxa / na cabeça camisa cáqui de mangas compridas / chapéu de palha quartinha de cabaça e só / calça comprida por baixo da saia / calça comprida por baixo da saia / calça comprida por baixo da saia. Aplausos de sempre. Beijabrações, sucesso & saudades.

 


TRÊS: Medo de fechar os olhos – Imagem do escultor, poeta e artista tcheco Gyula Kosice (1924-2016), ao som Prelude 4, de Heitor Villa-Lobos, na interpretação do violonista alemão Peter Graneis. – O medo de fechar os olhos na escuridão da infância até agora e não sabia. O medo de abrir os olhos e o bicho embaixo da cama e os monstros dos velórios do meu quarto, minha casa meu cárcere na lápide da catacumba de todo fausto que apenas ouvi dizer por que só havia decadência por todo lado desde sempre. Fechar os olhos e abri-los e o Sol tiver roubado o dia para que nunca mais amanheça e não ter como fazer as pazes com Deus no meio das alternativas de escolher e resistir, de errar e não mais. Ou abrir os olhos no fundo do mar ou no oco do abismo, no estômago de um mastodonte e perder a fronteira e cair do outro lado ou me envultar de vez porque perdi a guerra e não estou sozinho, embora não tenha ninguém por perto. Abrir os olhos e ouvir o escritor e dramaturgo polaco Witold Gombrovicz (1904-1969): Eu dei vazão à minha estupidez ... e aqui estou eu, renascido. Nosso elemento é a imaturidade sem fim. E fechá-los com o eco de Platão na cabeça: Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz. E ao abri-los ficar encadeado de doer com Gandhi insistindo: O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. E eu que nunca fui covarde com o medo de fechar os olhos e ter de retornar para um lugar que não me cabe e nem reconheço mais porque havia não sei quantas maneiras de ser diferente e perder a sinarquia dos mistagogos, inescrupulosamente desesperançado das dúvidas inquietantes por ser derrotado pela ressurreição das arruinadas verdades sagradas nas ondas do ressentimento e no deserto das ausências. E abrir os olhos e não mais ouvir Clarice: Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite... O medo de fechar os olhos como se a vida fosse uma causa perdida e eu nunca me resignei, nem me arrependi e agora é tarde recuperar o que perdi porque vi o que ninguém vu, senti o que ninguém sentiu. E enfim me salvar com a frase de Beatriz Bracher: Nenhuma palavra pode alcançara luz rosa e a transformação das pedras monumentais do amanhecer... E seguir cego sozinho sem ter para onde ir. Até mais ver.

 

A ARTE TEATRAL DE WALBER BARRETO


 

A arte do ator e professor Walber Barreto Pinheiro, que é ator e professor de Língua Portuguesa. Ele iniciou sua carreira no Projeto Arteatro, em 1996, participou do projeto Mais Educação e além de performances de teatro popular, realizou uma temporada exitosa com a encenação da peça O discurso da pura razão, do premiado dramaturgo, pintor e advogado Elmar Castelo Branco, com o qual foi premiado no Festeráguas 2019. Confira a entrevista que ele me concedeu aqui e mais Teatro aqui e aqui.

 

 

sábado, abril 10, 2021

TERESA WILMS MONTT, CORÍN TELLADO, VONNEGUT, BRUNO KIEFER, ČIURLIONIS, MESTRE SOLÓN & GILVAN LEMOS


  

TRÍPTICO DQC: UMA ÚNICA VEZ &ALGUNS DIAS – Ao som de Saudade, do compositor Bruno Kiefer (1923-1987), na interpretação da pianista Liliane Kans e do clarinetista Diego Grendene, no Encontro Brasileiro de Clarinetistas e Claronista, recolhida do álbum O clarinete na obra de Bruno Kiefer (Tratore, 2020). – Aterrissei - aeronave com motor ligado: só para reabastecer, matar um taquinho da imensa saudade e cair no mundo, muito ainda a desenrolar por aí. Não dá para esperar o desfecho do desgoverno genocida – cuido cá de mim e de quem mais no braço elástico por aí. Lamentavelmente tem muita gente que não está nem aí. E a prova é tanta que apenas 25% decidiram e mandam ver se segurando de todo jeito no grito – também, pudera, só: a covardia oportunista e deixa ver como é que fica. Ora, ora. Outros 25% esperneiam titubeando a cama de gato e o contrapé da topada. E os 50% restantes ou roncam ou ignoram. Pode? Pois é. Fazer a minha parte é o que me resta. Confesso estar ainda naquela: umúnica vez & alguns dias. Nada não. Sei que tenho sete vidas e não é a primeira vez, nem a última; se encontrei, reencontrarei, oxalá; só não sei quando. Ainda me surpreendo com a Corín Tellado: Acho que somos muito parecidos. As mulheres param e os homens urinam na parede, só isso. Eu sou homens maravilhosos e sensíveis. Mais ainda com o escritor alemão Kurt Vonnegut (1922-2007): Temos que pular de penhascos continuamente e desenvolver nossas asas durante a queda. Cuidado com o que você finge ser, pois você é o que finge ser. Pois é, ainda muito me surpreendo e me espanto sempre, sigo ressurreto das encruzilhadas, cantarolando do Chico: Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz...

 


DOIS: SOU UM BONECO DO MAMULENGO - Ao som de La cesta de flores, op. 9, da compositora e maestrina venezuelana María Teresa Carreño García de Sena (1853-1917), na interpretação da pianista venezuelana Clara Rodríguez, professora do Royal College of Music, de Londres. – Nas minhas andanças, paisagens e indiferença. Encarei meu alter ego e eu que era o boneco do mamulengo – o Tião de Hermilo -, não me reconheci: eu tenho vida, os outros são iguais. Foi o Mestre Solón quem advertiu: Antes de existir o homem, existiu o boneco. E mais Schopenhauer: Às vezes converso com os homens do mesmo modo como as crianças conversam com seus bonecos: embora ele saiba que o boneco não a compreende, usando uma visão agradável e consciente, consegue divertir-se com a comunicação. Então, abri os olhos e a vida às minhas mãos, ventríloquo da Lindanor Celina: Evidente que a vida é tudo entremeado, sal de lágrimas, mel de riso e as amarguras dos desesperos, dos ciúmes... Meu medo é que sigas sempre desse jeito, atraindo abismos. De porta fechada e piso em falso, muito equilibrei, sou não-eu: fiz do outro o que sou.

 


TRÊS: REENCONTRO MARCADO - Imagem: Veiled Woman (1907), do pintor e compositor lituano Mikalojus Konstantinas Čiurlionis (1875-1911), também autor da música Miške (In The Forest/Five Preludes – Marco-Polo, 1990), na interpretação da Slovak Philharmonic Orchestra, maestro Juozas Domarkas. - A solidão dói: talho que não mata. Para quem sabe, criativa: reinvento a mim mesmo e o mundo. A chuva torrencial e invento pouso ensolarado; se calorão, concebo aragem à sombra pitombeira e um poema de Teresa Wilms Montt: Diante da minha janela fechada, pergunto ao tempo quanto mais terei de viver. Sombras inundam minhas cortinas, e a claridade mal marca uma linha tênue. O relógio está hesitando de um coração doente. Em um gesto convulsivo, minhas mãos se contraem no papel. Eles buscam o apoio da terra. E sou encontro e muitos desencontros: aprendi muito – a maior parte desse aprendizado restou inútil, valha-me! Muito mais para aprender e a minha vida é pouca. Se em cima da hora, pronto para outra viagem, um reencontro, o reencontro marcado. Até mais ver.

 

A LITERATURA DE GILVAN LEMOS



Os aventureiros, oportunistas, desonestos, macomunados com o poder conseguem o que pleiteiam; os honestos, classificados de bestas, prosseguem inconformados, em sua vidinha obscura.

A literatura de Gilvan Lemos (1928-2015), autor de obra como Noturno sem música (Nordeste, 1958), Jutaí menino (Cruzeiro, 1968), Emissários do diabo (Civilização Brasileira, 1968), Os olhos da treva (Civilização Brasileira, 1975), O anjo do quarto dia (Globo, 1976), Os pardais estão voltando (Guararapes, 1983), Espaço terrestre (Civilização Brasileira, 1983), Cecília entre os leões (Bagaço, 1994), A lenda dos cem (Civilização Brasileira, 1995), Morcego cego (Record, 1998), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...