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domingo, abril 25, 2021

GOMBROVICZ, VILA-MATAS, CIDA PEDROSA, BEATRIZ BRACHER & WALBER BARRETO

 

TRÍPTICO DQC: UM: No tempo que as coisas tinham graça – Era então menino presepeiro no Caçotinho, isso lá pela segunda metade dos anos 1960. A vizinhança era musical: no quintal ficava ouvindo o sax que soava intermitente pelas manhãs, finais de tarde e no meio da noite. Do lado esquerdo, um menino já solava a guitarra. Aí eu corria e me encostava à porta de sua casa para ouvi-lo: Bito, vamos tomar café? Vambora. A senhora mãe dele, com uma simpatia sorridente que era o maior afago no coração da gente, forrava a mesa, ajeitava tudo e me tinha como um da casa, servindo uma cumbuca de manteiga, pães e um apetitoso prato de batatinhas fritas. Santa mãe: ela achava a maior graça nossa gulodice, armados um duma faca de serra, lascava o pão verticalmente, tascava uma prastada de manteiga na banda do pão e inhac! Tome manteiga pra cima a cada mordida no pão. E isso enfiando o palito naquela que seria a melhor batata frita do universo! Verdade! Ainda hoje sinto o gosto na boca, inigualável. Bucho roliço, a gente corria da mesa para que ele executasse na guitarra os solos de sucessos que faziam a trilha sonora da nossa infância. Às vezes ele sapecava nas cordas umas gritadas raivosas segurando no cabo da distorção, só via seus dedos correndo dum lado pro outro no braço do instrumento e os cachorros uivavam fazendo coro do lado de fora. Nisso a gente ficava o dia inteiro, só suspendendo quando da chegada do pai dele pro almoço ou janta. À sesta, seu Louro sentava do meu lado e ficava apreciando o talento do filho nas cordas de aço. Quando não, era chutando a bola um pro outro, ou aprontando coisas de meninice. Anos de infância e adolescência, até que me mudei de lá e só o reencontrei já na segunda metade dos anos 1980, para integrar a equipe de músicos do meu show Por um novo dia. Ele já era músico prestigiado por todas as bandas e já se assinando Vavá de Aprígio. Festejamos e fizemos bonito, maior barato. Depois do evento, piquei a mula Brasil afora, só revendo o amigo muitos anos depois, para gravar os meus frevos da Folia Caeté. Comemoramos e pintou tudo às mil maravilhas, com a participação do maestro Maurício Malafaia e outros músicos da minha estima. Foi festejo que só em copos e rodadas. Tudo passou e agora é como se ouvisse o escritor espanhol Enrique Vila-Matas: Mais do que o vazio, o que importa é o conteúdo do vazio... Encontramo-nos em uma corrida louca rumo ao nada. Coisas do coração falam mais alto Marguerite Yourcenar: Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana. É a hora nostálgica da qual fala Augusto Roa Bastos: Nesses momentos, quando a humanidade como um todo está em estado de decadência, sempre existem aqueles seres excepcionais como ponto de referência. Hoje vez em quando a gente se cruza, joga conversa fora e fala dos projetos adiados para quando o genocídio e a pandemia folgarem um pouco e a gente mandar ver numas estripolias boas lembrando as presepadas de infância e das últimas curtidas sonoras das nossas audições. Vamos nessa!

 


DOIS: Das lembranças no meio dos livros - Ao som de Saudações – Sertões Veredas (ECM, 2009), de Egberto Gismonti, com a Camerata Romeu, sob a regência de Zenaida Romeu. - Bordejava eu com meus vinte e poucos anos pela rua 7 do Livro, quando ela me deu a edição do Lítero-Pessimsta, com a publicação de um poema do meu primeiro livro. Foi uma verdadeira festa no meu coração. E trouxe junto Francisco Espinhara, Marcelo Mário Melo e Eduardo Martins pra gritaria performática duns versos independentes nos céus do Recife. Ô festa boa! Lá estávamos e eu me aprontava para Piratear recepcionando o abraço de Arnaldo Tobias e Cícero Melo, com a novidade me levaram para uma roda com Jaci, Juareiz e Paulo Caldas que ouviam as cipoadas poéticas de Ângelo Monteiro e Alberto da Cunha Melo. Era cada virada de copo e de noite, de me perder da Boa Vista e errar o caminho de volta para casa. Tempos bons. Ainda tenho entre meus livros nas estantes a coletânea Restos do fim e O cavaleiro da epifania, que são desta época. Depois que adquiri nas minhas passagens pelo Recife os livros Cântaro (2000) e Gume (2005). E agora folheando Solo para Vialejo, revejo na memória viva e verdadeira a premiada e votada poetamiga Cida Pedrosa como se me dissesse desde sempre: Eu acredito que o poema pode mudar o mundo ou uma pessoa, ou o dia de uma pessoa. E é por isso que eu escrevo. Essa é a minha maior militância de todas as minhas militâncias. E depois recitasse... : a mulher virou homem o trabalho / e a desigualdade por baixo da saia: trouxa / na cabeça camisa cáqui de mangas compridas / chapéu de palha quartinha de cabaça e só / calça comprida por baixo da saia / calça comprida por baixo da saia / calça comprida por baixo da saia. Aplausos de sempre. Beijabrações, sucesso & saudades.

 


TRÊS: Medo de fechar os olhos – Imagem do escultor, poeta e artista tcheco Gyula Kosice (1924-2016), ao som Prelude 4, de Heitor Villa-Lobos, na interpretação do violonista alemão Peter Graneis. – O medo de fechar os olhos na escuridão da infância até agora e não sabia. O medo de abrir os olhos e o bicho embaixo da cama e os monstros dos velórios do meu quarto, minha casa meu cárcere na lápide da catacumba de todo fausto que apenas ouvi dizer por que só havia decadência por todo lado desde sempre. Fechar os olhos e abri-los e o Sol tiver roubado o dia para que nunca mais amanheça e não ter como fazer as pazes com Deus no meio das alternativas de escolher e resistir, de errar e não mais. Ou abrir os olhos no fundo do mar ou no oco do abismo, no estômago de um mastodonte e perder a fronteira e cair do outro lado ou me envultar de vez porque perdi a guerra e não estou sozinho, embora não tenha ninguém por perto. Abrir os olhos e ouvir o escritor e dramaturgo polaco Witold Gombrovicz (1904-1969): Eu dei vazão à minha estupidez ... e aqui estou eu, renascido. Nosso elemento é a imaturidade sem fim. E fechá-los com o eco de Platão na cabeça: Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz. E ao abri-los ficar encadeado de doer com Gandhi insistindo: O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. E eu que nunca fui covarde com o medo de fechar os olhos e ter de retornar para um lugar que não me cabe e nem reconheço mais porque havia não sei quantas maneiras de ser diferente e perder a sinarquia dos mistagogos, inescrupulosamente desesperançado das dúvidas inquietantes por ser derrotado pela ressurreição das arruinadas verdades sagradas nas ondas do ressentimento e no deserto das ausências. E abrir os olhos e não mais ouvir Clarice: Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite... O medo de fechar os olhos como se a vida fosse uma causa perdida e eu nunca me resignei, nem me arrependi e agora é tarde recuperar o que perdi porque vi o que ninguém vu, senti o que ninguém sentiu. E enfim me salvar com a frase de Beatriz Bracher: Nenhuma palavra pode alcançara luz rosa e a transformação das pedras monumentais do amanhecer... E seguir cego sozinho sem ter para onde ir. Até mais ver.

 

A ARTE TEATRAL DE WALBER BARRETO


 

A arte do ator e professor Walber Barreto Pinheiro, que é ator e professor de Língua Portuguesa. Ele iniciou sua carreira no Projeto Arteatro, em 1996, participou do projeto Mais Educação e além de performances de teatro popular, realizou uma temporada exitosa com a encenação da peça O discurso da pura razão, do premiado dramaturgo, pintor e advogado Elmar Castelo Branco, com o qual foi premiado no Festeráguas 2019. Confira a entrevista que ele me concedeu aqui e mais Teatro aqui e aqui.

 

 

segunda-feira, maio 08, 2017

O JULGAMENTO DE GANDHI, OS EXTREMOS DE HOBSBAWN, POTY LAZZAROTTO & SOLILÓQUIO

SOLILÓQUIO - Ainda ontem minha juventude: um menino semeava o futuro tropeçando no presente entre estrelas, a voz contra o muro, pedras e errâncias, distâncias que trilhei sem fim. O que ficou de quem partiu, perdas no tempo que não esqueci entre o choro a desaguar lapsos e lembranças na solidão restante dos escombros de agora e o que sobrou de mim. Sou rio afora por terras que deixei, mais que nunca a perseverança como o dia teima amanhecer pelos passos da esperança na janela insone que sou chuva torrencial na madrugada. É tudo que tenho cão sem dono e me valho de quase não ter outra opção, enquanto há muito mais em mim do que sou e nem sabia, só aos poucos a cada dia, ao ver-me tão patético quanto fui aprendiz de feiticeiro, cada qual seus caminhos e utopias, nunca é tarde para ir além dos medos e das convicções. Sei das minhas vulnerabilidades e com quantos defeitos me refiz perdido pelas estradas da existência. Parecia saber mais que sei e descobri a minha mentira com todas as simulações. Tive que me despir de mim mesmo, corpalma, tudo que sou e não, ao espelho o desconhecido, aquele que enterrei a pulso vingava impávido, o que se queria expresso restava falível destronado no envoltório da sordidez. Aos pedaços, catei cada um como quem junta as próprias cinzas e, na colheita, um grão de esperança. Reduzido a nada, dei fé do infinito que emergiu das minhas entranhas desfeitas, e me descobri maior que minhas fraquezas e infortúnios. Convalesci mãos espalmadas no horizonte e refeito peito aberto pronto para colher os sonhos nos galhos da vida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

O JULGAMENTO DE GANDHI
Gandhi nasceu em Porbandar, noivou aos oito anos, casou-se aos doze, cursou as escolas públicas e aos dezenove estudou Direito na Universidade de Londres. Após o jantar quase morre: “Passei noites sem dormir; tinha a impressão de ser um assassino”, não costumava comer carne animal. Estava em vias de conquistar riqueza e respeitabilidade, subitamente renunciou a tudo e definiu o que defender: a causa dos oprimidos contra a injustiça dos opressores, a causa da justiça contra a força. O primeiro passo foi provar a ilegalidade do decreto Asiatic Exclusion Act, destinado a deter a imigração e o despojamento de todos os direitos indianos na África do Sul. Ao vencer a causa, abandonou a advocacia por considerá-la “uma profissão imoral”, tornando-se “um dos esbulhados”, recusado nos hotéis, expulso dos trens, cuspido por todos. A partir de então, entrou em greve religiosa contra toda violência: “O soldado nunca deve temer a morte! O agressor poderá matar alguns de nós; nunca, porém, poderá escravizar os restantes”. O seu objetivo: liquidar o inimigo transformando-o em amigo. A princípio, nem brancos nem hindus compreendiam aquele homem singular e seus métodos curiosos: “Servir-vos-ei como a irmãos meus; mas não me submeterei a vós na qualidade de amos”. Muitos hindus opunham-se violentamente com irrisão: “desobediência à injustiça, coragem de morrer sem matar”. Acreditava na vitória: “Sei que muitas pessoas no Ocidente – e mesmo aqui no Oriente – julgam impossível uma vitória não-violenta. Reconheço que podemos estar longe de alcançá-la; que talvez não se verifique durante a minha existência. Podem ser necessárias muitas gerações. Mas no fim o triunfo há de vir. Nenhum inimigo pode ser bastante forte ou bastante feroz para resistir ao fogo do amor”. No dia 6 de abril de 1919, a primeira campanha de afetuosa desobediência, o hartal, cessão pública de trabalho em toda a Índia e, por causa disso o governo reprimiu o movimento e mandou prendê-lo: “De que serve agora a tua fé, contra as balas e as bombas do inimigo?”. Respondeu: “Os estrangeiros são bem-vindos como hóspedes; como usurpadores, não os desejamos aqui”. Então o juiz Broomsfield elogiou Gandhi e o condenou à prisão pela ilegalidade de seu procedimento e, sobre o assunto, um aluno da Faculdade de Direito falou: “Isto pode ser legal, senhor, mas não é justo”. O professor reagiu com um sorriso: “Se quer justiça, moço, atravesse a rua e entre na Escola de Teologia; aqui é a Escola de Direito”. Gandhi sabedor das leis, também sabia o que esperar do seu julgamento: “Com os meus sofrimentos, proponho-me conquistar o mundo”.
Trechos extraídos de Gandhi (Globo, 1979), contando a vida do advogado e fundador do Estado moderno indiano Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Mãe é mãe & Deus proteja a minha, a sua, a nossa & o da mãe-joana & e das mães (do guarda, do juiz de futebol e dos políticos) que são coitadas!, Inteligência emocional de John Gottman, o teatro de Máximo Gorki, a poesia de Jorge Tufic, a música de Caetano Veloso, Travessuras de mãe de Denise Fraga, a arte de Luciah Lopez , a pintura de Gustav Klimt & Lena Gal aqui.

E mais:
A literatura de Aníbal Machado, Teoria da alienação de István Mészarós, Semiologia da representação de André Helbo, o cinema de Roberto Rossellini & Anna Magnani, a música de Keith Jarret, Erótica pornográfica de J. J. Sobral, a pintura de Jean-Léon Gérome.& Almeida Junior aqui.
Direitos humanos fundamentais aqui.
A arte de Dhara - Maria Alzira Barros aqui.
Exercício de admiração de Emil Cioran. Abril despedaçado de Ismail Kadaré, O teatro de arte de Meyerhold, Fridha Khalo, A música de Badi Assad, A pintura de Karel Appel, Carlota Joaquina & Clube Caiubi de Compositores aqui.
Brincarte do Nitolino, Tratado lógico-filosófico de Ludwig Wittgenstein, o teatro futurista de Filippo Marinetti, a literatura de Azar Nafisi, a música de Nelson Freire, a pintura de Eugène Delacroix, Augustine de Charcot, a arte de SoKo, a fotografia de John De Mirjian, a cangaceira Dadá & O eco da trombeta de Maria Iraci Leal aqui.
A sina de Agar, A nascente de Ayn Rand, o teatro de Jean-Louis Barrault, Mundos oscilantes de Adalgisa Nery, a literatura de Anita Loos, a música de Cláudia Riccitelli & The Bossa Nova exciting Jazz Samba Rhythms, a pintura de Jose Gutierrez de la Vega & Amor como princípio de Delasnieve Daspet aqui.
Canto de circo de Osman Lins, a arte de Paul Éluard, a música de Paulo César Pinheiro, o teatro de Adolphe Appia, a poesia de Alberto de Oliveira, o cinema de Pedro Almodóvar & Penélope Cruz, a pintura de Francesco Hayez & José Malhoa, A travessia poética de Valéria Pisauro & Programa Tataritaritatá aqui.
Três poemas & a dança revelou o amor... aqui.
A dança dos meninos, a poesia de Manuel Bandeira & João Cabral de Melo Neto, A dançarina de Yasunari Kawabata, A dança poética de Amiri Baraka, A dançarina do Kama Sutra de Kama Sutra, de Vatsyayana, a música de Isabel Soveral & António Chagas Rosa, a pintura de Jose Manuel Abraham, Pas de Deux & a fotografia de M. Richard Kirstel, Dança Alagoas & Ary Buarque aqui.
O voo da mulher & mulheres no mundo, o teatro de Federico Garcia Lorca, Os adoradores de cabras de Gianni Guadalupi & Alberto Manguel, a música de Duke Ellington, o cinema de Lars von Trier & Nicole Kidman, a arte de Tatiana Parcero & Caco Galhardo, Como veio a primeira chuva & Pétalas do Silêncio de Rô Lopes aqui.
O dono da razão, a poesia de Murilo Mendes, Identidade e etnia de Carlos Rodrigues Brandão, Fundamentos da educação de Maria Sérgio Michaliszyn, a pintura de Mônica Alves Torres & Jules Pascin, a arte de Francisco Zúñiga & a música de Ju Martins aqui.
Não era pra ser, nem foi, Entre a vida e a morte de Nathalie Sarraute, a música de Galina Ustvolskaya, a fotografia de Takashi Aman, o ativismo de Emmeline Parnkhurst, o cinema de Sarah Gravon & Carey Mulligan, a gravura de Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, a arte de Paul-Émile Chabas & Carlos Alberto Santos aqui.
A esperança equilibrista, O espaço da cidadania de Milton Santos, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, Os saberes da educação de Edgar Morin, a música de Vivaldi & Michala Petri, a fotografia de Andreas Feininger, a pintura de Gianluca Mantovani & Jose De la Barra, a arte de Daniele Lunghin & Dave Stevens aqui.
Eita! Vou por ali no que vem e que vai, a literatura de Ítalo Calvino, Os tempos da Praieira de Costa Porto, a poesia de Louise Glück, Neurofilosofia & Neurociências, a música de Edson Zampronha, Betina Muller & Mike Edwards, a arte de Laszlo Moholy-Nagy & Anke Catesby aqui.
O aperto que virou vexame trágico, As estratégias sensíveis de Muniz Sodré, a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, Tecnologias: memórias e esquecimentos de Maria Cristina Franco Ferraz, a fotografia de Alexander Yakovlev, a arte de William Mulready & Doris Savard, a pintura de Angelo Hasse, a música de Asaph Eleutério, Ricardo Loureiro & Rádio Estrada 55 aqui.
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A ERA DOS EXTREMOS DE ERIC HOBSBAWN
[...] Vivemos num mundo conquistado, desenraizado e transformado pelo titânico processo econômico e tecnocientífico do desenvolvimento do capitalismo, que domina os dois ou três últimos séculos. Sabemos, ou pelo menos é razoável supor, que ele não pode prosseguir ad infinitum. O futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica. As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar. [...] Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade é a escuridão. [...].
Trechos da obra Era dos extremos: o breve século XX – 1914 – 1991 (Companhia das Letras, 1994), do historiador egípcio Eric Hobsbawm (1917-2012). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
arte do gravurista, ceramista, desenhista e muralista Poty Lazzarotto (1924-1998)
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

domingo, maio 01, 2016

GANDHI, HESÍODO, TARSILA, MILTON & CHICO, TRABALHO & PRIMEIRO DE MAIO

PRIMEIRO DE MAIO - O melhor dia de trabalho é o primeiro de maio porque é feriado, isso quando não cai num dia de domingo, senão é mesmo que nada, ora. Afora esse dia, só os finais de semana que são denominados de repouso remunerado, ou as férias remuneradas. Tá bom. O resto é tudo dia de branco: maior trampo. Posso estar redondamente enganado, mas isso não faz a menor diferença. Isso é só pra dar um pontapé nesse papo, manifestando minha insatisfação com a usual conceituação do labor humano numa ótica convencional do processo industrial e capitalista. Fugindo do reducionismo de que o trabalho é apenas uma atividade que produz algo para outras pessoas, e de que é a atividade que dignifica ou de que Deus ajuda a quem madruga trabalhando, há também quem diga que ele serve para aquisição do domínio sobre si mesmo e adquirir sentimento de valor pessoal mediante a avaliação dos outros sobre os seus resultados, o que dá no mesmo. O que quero ressaltar é que o homem começou a trabalhar pela primeira vez quando lhe deu fome: ou caçava, ou morria. Precisando sobreviver, saiu explorando o espaço ao seu redor, a natureza. Depois de encher a pança, a sesta. Cansado de coçar o saco, investiu na desbravação do ambiente, foi aí que aprendeu a usar de madeiras e ossos, a lascar a pedra, a dominar o fogo e a cerâmica, a criar animais, a cultivar plantas, a inventar a roda e a fundir os metais na criação de armas rudimentares pra caça. Com isso, foram se sobrassaindo os mais sabidos e os mais fortes: uns sabidos passaram a governar, outros a filosofar, enquanto os que não eram lá tão bem providos das ideias, usavam da força. Apareceram, então, os dois lados da moeda: as histórias dos gloriosos trabalhos de Hércules e os inglórios de Sísifo, contadas por Homero e Hesíodo. E assim foi desde então, nascendo o primeiro ditado de que trabalha o feio pro bonito comer e que, depois, virou o da faina de mouro quem desfruta é o esperto, estes os manhosos que se prestam a dar continuidade ao trabalho das parcas: Cloto segurava a roca, Láquesis virava o fuso e Átropos em seguida cortava o fio, tudo isso porque as deusas infernais viviam de tecer a trama humana. Huuummmmm. Entendeu? No meio disso, dizem, havia também os que trabalhavam pro bispo: sem lucro, sem glória ou proveito. Eita! Tudo isso dando conta de como a evolução do trabalho foi da escravidão até os dias de hoje, nos quais quem gosta de trabalho é workaholic – ou melhor, quem é viciado em trabalho, trabalhador compulsivo e dependente do trabalho. Alguns poucos deles são multimilionários: estão a serviço de quem? Outros, uns tantos como eu, trabalham porque fazem o que gostam e só por isso. Outros muitos tantos possuem emprego: gozam das benesses da boa vida no reino da incompetência e ganham sem fazer nada, só ocupando os outros e dando trabalho à humanidade com a disfuncionalidade da burocracia, pois adoram dar nó cego e ver os outros pra lá e pra cá fazendo papel de bestas. Mais outros tantos trabalham apenas para ter o seu sustento, andar na moda e usufruir do status de estar empregado, exercendo o “estar” na profissão sem ter a menor vocação e não ter nada a ver com a mesma. Outrantos vivem pendurados nas circunstâncias: não levam desaforo pra casa, não se submetem à hierarquia e pintam o sete pro que der e vier, lícita ou ilicitamente se virando como podem pra defender as gambiarras do seu sustento e o que é seu. Muitoutrantos fazem o que podem com o que tiveram de oportunidades de qualificação ou semiqualificação ou mesmo diplomação que esconde a desqualificação, para serem digeridos pela meritocracia da colocação no cumprimento rígido de procedimentos e dos manuais internos, evitando-se o batalhão de reserva dos excluídos: outros fabos incompetentes. E por aí lá vai teibei. Pelo que posso ter de ideia, dos que possuem empregos majestosos aos que exercem suas profissões, sejam elas das mais humildes às mais chiques, ninguém está feliz com o que faz e com o quanto que ganha, excetuando-se, evidemente, aqueles que fazem o que gostam, reitero. Injustiças sempre vigoram e não é difícil encontrar um médico choramingando, ou um advogado se lamentando ou um engenheiro apertado: todos falam que trabalham demais para ter o que possuem ou para adquirir o que precisam. E que tudo tem o preço da impossibilidade de compra, exigindo-se aquela valsa de meses na aquição. O que quero mesmo levar em conta é que na vida, ou a gente está dormindo, ou trabalhando – óbvio que tem gente que faz outras tantas coisas, mas que aqui não vem ao caso. Ou seja, no dia a dia de uma penca de anos ou a vida toda, a gente está correndo atrás, se cansa e vai dormir; quando acorda, pé na bunda pra labuta, uns feito cantiga de grilo de domingo a domingo, a maioria de segunda a sexta, outros que vão até depois do meio dia de sábado, afora outro bocado de finórios que nem sabe o que é isso e que só dão o ar da graça um dia, dois ou mais por semana. Em suma: a gente vive pra trabalhar e vice-versa. Há o ditado de quem trabalha enrica - isso num país sério, até pode ser; porque aqui, só se amonta no bufunfa quem tem atributos corporais de chamar atenção, ou o sabido que sabe levar o que é dos outros, ou quem vive com dedo pronto pra rapar no gatilho e tomar o que é alheio. Pronto. Eu mesmo trabalho desde os dez anos de idade e nunca saí do lugar, pudera, nunca fiz nada que prestasse mesmo. Taí outro ditado: a ocupação laboral traz recompensas econômicas que determinam o padrão de vida e status social de cada um. Tradução: é mesmo? Parece. Mas quem trabalha de mesmo, veste a camisa na maior pilha, dá o sangue a ponto de se lascar todo, acabar com a saúde e findar da caridade alheia: inútil e chacoalhado de não valer um tostão furado. E quem comeu o vigor da gente, como é que fica? Eu hem!?! Como não estou dizendo coisa coisa, nem sou de reclamar, vou na do Hino Nacional “deitado eternamente em berço esplêndido”, entoando a Filosofia do Ascenso: Hora de comer, comer; hora de dormir, dormir; hora de vadiar, vadiar. Hora de trabalhar: pernas pro ar que ninguém é de ferro! Principalmente porque é Dia do Trabalho e, ainda por cima, é domingo, ora. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

 Imagem: Segunda classe (1933), da pintora brasileira Tarsila do Amaral (1897-1973). Veja mais aqui.

PRIMEIRO DE MAIO 
(Milton Nascimento & Chico Buarque)

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã.

PESQUISA
 Adam Smith (1723-1790), fudador da escola liberal clássica: O trabalho é a verdadeira e única fonte da riqueza das nações, pois os produtos, industriais ou agrícolas, são obtidos pelo esforço humano, que se torna sempre mais eficiente pela especialização. Agindo de acordo com seus interesses, o homem é conduzido, por mão invisível, ao desenvolvimento do bem comum.
David Ricardo (1772-1823), economista e político britânico: A base de todo o valor econômico é o trabalho-valor. O valor de troca de uma mercadoria é calculado pela quantidade de trabalho empregado na fabricação do produto. As máquinas têm como objetivo diminuir o valor de troca do produto. As máquinas também são trabalho humano acumulado.
Kark Marx (1818-1883), filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista: Não é o trabalho em si que interessa ao capitalista, mas a mercadoria, não por seu valor de uso, mas por seu valor de troca. Se o capital conseguir produzir, em certo período de tempo, com duas máquinas o equivalente em produtos ao que cinquenta operários conseguiriam, ele ficará com as duas máquinas. Ao capitalista interessa baixar os preços de custo do produto, para acumular mais capital. Para isso, só lhe resta uma saída: diminuir o custo do trabalho. Isso pode ser conseguido diminuindo os salários, ou, ainda, substituindo o trabalho humano pela máquina, cada vez mais aperfeiçoada. O fruto do lucro no capital é um trabalho humano não pago: se o trabalhador consegue o que precisa em seis das oito horas que trabalha, as duas horas restantes ele trabalha para manter o capital e garantir que se reproduza, o capital assim obtido é a mais-valia.
Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

EPÍGRAFE
Os sete pecados sociais, do advogado, idealizador e fundador do moderno Estado indiano, Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), o grande Mahatma Gandhi. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Os trabalhos e os dias (Hedra, 2013), poema épico do poeta oral grego Hesíodo (cerca de 750-650aC). Veja mais aquiaqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Para quem tá naquela da fábula de Esopo - de que a formiga só trabalha porque não sabe cantar -, no dia mundial do trabalhador, como toda formiga que se preze, ela comemora o Dia da Literatura Brasileira. Cuma? Eita! E quem quer saber disso? Pois é, uma data dessa só prova que a literatura do Brasil só serve pra estrangeiro ver.

Veja mais Salmo da Cana, o Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, Auguste Rodin, Chico Buarque, Peisândro de Rodes, Monteiro Lobato, Hércules, Hesíodo, Émile Zola, Vinicius de Moraes, Cândido Portinari, Jorge Luis Borges, Nelson Rodrigues, Charlie Chaplin, Magda Mraz & Darlene Glória aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
1º de Maio, Dia do Trabalhador: comemoração da secretária do Tataritaritatá!
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.



MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...