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domingo, julho 04, 2021

JACQUES ROUBAUD, DANIEL FARRELL, MICHEL DEGUY, AMELIA PELAEZ & MARÍLIA PARENTE

 

 

TRÍPTICO DQP –- Poesia etcétera... - Ao som da Sinfonia nº 1 - Fiat Lux op. 21 (2017), do compositor, arranjador e maestro estadunidense Daniel Farrell, witch Jacksonville University Orchestra, conductor Marguerite Richardson. - A hora era aquela que eu não sabia, nem razão, triunfos ou fracasso. Era a minha íntima solitude e entre as linhas das minhas mãos se formaram imagens do Olho de Hórus, ampliadas e reproduzidas na parede em frente, como se o Udyat se tornasse o Olho-que-a-tudo-. Tive a sensação de ali se desvelarem registros acásicos, entre imagens caleidoscópicas. Identifiquei o I-Chin que logo deu lugar a imagens cabalísticas e superpostas do Sefer Yatzirah. Uma espiral diminuta foi crescendo e no centro dela a Ars magna de Lull, como se a mim fosse dada a oportunidade da sua experiência lucificadora. Uma voz invisível começou a ditar a doutrina Hokhmath ha-Tseruf de Abulafia, e logo se imprimia de forma crescente o Zairjat al’alam, que se iluminava com trigramas recombinados e formavam hexagramas alternados como boustrophedon e eu a discernir o que havia estudado da linguística filosófica de Derrida. Logo vi-me imerso em ambiguidades, anagramas recombinados como Temurah e acrósticos feito Notarikon. Como eu sabia da palavra perdida esperava Schechina. De repente tudo escureceu e ouvi os versos finais de um poema de Jacques Roubaud: ...Sob os ângulos. Quase uma poeira: / Imagem sem espessura / voz sem espessura / A terra / que te esfrega / O mundo / do qual nada mais te separa / Sob a lâmpada. Na noite. Cercado de preto. Contra a porta. Em meu peito entendia o que tudo ali se mostrava, abri os olhos e era a vida.

 


E o coração às voltas com a paixão... – Imagem: arte da pintora cubana Amelia Pelaez (1896 - 1968), ao som da Symphony No. 6 in B minor, Op. 74 Pathétique, de Tchaikovsky, witch Mariinsky Theatre Orchestra, conductor Valery Gergiev, from the Salle Pleyel in Paris, 2010. - O que me aconteceu antes foi tão inexplicável, na verdade supus que só saberia o significado muito tempo depois. E assim foi. Acontece que fui envolvido pelos secretos sentimentos de Piotr, aquele mesmo de Votkinsk, que perdeu a mãe por conta da peste e aos catorze anos de idade, a profunda depressão. Ao se recuperar, tornou-se escriturário, diplomado advogado e, sentindo-se rejeitado por todos, licenciou-se para se tornar tradutor e viajar. O retorno levou ao pedido de demissão e o ingresso no mundo dos seus sonhos: a música. Vieram os Sonhos de Inverno, A tempestade, uma carreira promissora que começa como professor para fracassar com o bailado de Ondine e a abertura-fantasia Romeu e Julieta. Exilou-se. E ao ouviu o jardineiro: um quarteto que até Tolstoi chorou. Então, vieram mais o Lago dos Cisnes e, entre escritos e aulas, um colapso nervoso. Era chegado o inverno, prostrado até uma carta com a surpresa: era Nadezhda, uma aristocrata e ateia confessa, independente: A distribuição de direitos e obrigações, conforme determinado pelas leis sociais, é especulativa e imoral. Era a sua redenção: ... nas minhas relações com você há sempre a desconfortável circunstância de que, toda vez que escrevemos um para o outro, o dinheiro aparece em cena. Dias de dedicação sem outras preocupações. Contudo, dissabores e atordoamento, Antonina e os outros, o casamento rompido em 15 dias, a tentativa de suicídio e o exílio. Apesar disso, algum tempo depois, estava consagrado. Retomou as atividades e uma outra carta surpreendente: O conto de fadas acabou. Treze anos de correspondência e eles nunca poderiam ter a dádiva do encontro, este o trato. Para ela, a Quarta. Depois, episódios dramáticos enredados e a inaceitável ausência, tudo estava lá, naquela partitura da Sexta e nas entrelinhas evocava uma paixão de emoções exacerbadas, levada até as últimas consequências. Ali estavam seus mais plenos sofrimentos: a autoconfiança arreada, o desespero e a desolação, a relação íntima recôndita pela intolerância, a peste e o precoce envelhecimento, a exaustão profunda e a misteriosa morte repentina. Era, enfim, a libertação. Fiquei bastante comovido com a história e logo me apareceu Bergson: Criamos e recriamos a todo momento... o progresso da atenção tem por efeito criar de novo não apenas o objeto percebido, mas os sistemas cada vez mais vastos aos quais ele pode se associar. Não entendi direito, a ponto de questionar o que havia entre uma coisa e outra. Foi quando apareceu tentando esclarecer, o escritor francês Michel Deguy: Os homens contam histórias que acontecem aos deuses (ou a Deus) e aos homens, e acontecem aos homens porque acontecem aos deuses e nas cosmogonias e antropogonias... A humanidade continua a transmitir a memória nas grandes narrativas, a se bater dentro dessas narrativas, a reinventar a história do mundo. Nisso era eu que precisava me reinventar, estranhices abundantes ao meu redor.

 


A vida nos cacos de vidros... - E no meio disso tudo, de repente uma voz feminina de longe apareceu e sou surpreendido. Uma voz da minha terra e ecoavam em minhas entranhas. Dela, primeiro: Tristeza não existe! Que bom! E me animei. Depois uma cachoeira com todas as ventanias e poeiras que envolvem meus dias e noites: Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro. E choveu baiões e forrós nas violadas de quem já Avoada juntou os amigos e cantou no Pé de Cachimbo, no Malunguim e em casa mesmo, e era Dia de João, Vasudeva, e A Vida no Cariri Demora, na Alvorada, e Estou Desocupado Com Outras Coisas Desimportantes, e a Viagenzinha de Verão, Eu Quero Ver o Cão Mas Não Quero Ver Você, e o Amor, Disco Voador. Quem? É ela a cantora e compositora Marília Parente: A única coisa permanente na cultura popular é sua inevitável e necessária transformação, porque ela é pulsante, viva, cotidiana. Tentar aprisioná-la a um olhar de exotismo, a essa bandeira difusa de ‘preservação do forró’, é matá-la, porque ela acaba se traduzindo em produções ‘caretas’. Exaltar nossa nordestinidade, recebendo a influência do contexto em que vivemos é uma atitude política de resistência. E com a voz dela lavei a alma. Tudo muito bom! Mas agora tenho que fazer umas ginásticas para dar umas carreiras: tempos difíceis. Preciso ir lá fora para se da pedra dá leite, porque cansei de cravar as unhas na parede à cata de moeda que seja. Já rapei o tacho e as contas estão pra chegar. Vou ali, volto daqui uns dias, tá? Tomara. Até mais ver.

 

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quarta-feira, julho 15, 2020

KAWABATA, TOUSSAINT, HERMILO, CONAN DOYLE & LITERÓTICA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: A MARÉ ESTÁ BRABA, MAS NÃO PODE AMOLECER - O Brasil tem dessas coisas: a gente fica com a bronca pelo pescoço, tentando não naufragar nas crises inventadas, manipuladas e desembocadas só para quem tem e muito! E digo isso por décadas de timbungada pelas sazonais desditas que sobram das mazelas escondidas dos que comandam o país, avalie. Não dá outra, do lado de cá da corda, a coisa fica para lá do horror com tudo à deriva, pagando o pato e só lapada no toitiço. Por isso que, para mim, sempre vale o que vociferava a Emmeline Pankhurst: Nós não queremos quebrar as leis. Nós queremos fazer as leis. Por isso, nunca se renda, nunca desista da luta! E mais ainda: por já se saber de cor e salteado aqui o que o Walter Benjamim deixou sacramentado: Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe! O capitalismo nunca morrerá de morte natural. Pois é, os pilotos sabidos sempre se esconderam na horagá e, agora, mais do que nunca, estamos desgovernados não se sabe para qual fundura ao deus dará. Vamos nessa e às cegas, afinal somos todos um.

DUAS: CUIDANDO ENTRE OLHO ABERTO & OUTRO FECHADO - Entre um piscado e outro dos olhos, constato: o que há entre o desiderato e o alarido dos tormentos, só dão em prevalecentes aporias. Ou, melhor dizendo: o mesmo que um meio de campo embolado pela retranca de desalmados aventureiros que não estão nem aí pra gente na geral com o coração na mão e sem nem saber para que lado torcer. Aí tudo é só pesadelo e manadas se formam umas atrás das outras e quem fica com o olho aberto fica feito os 7 gols alemães. Sinto que aí a gente foi sacaneado de um jeito ou de outro. Vamos lá. Quando me bate alguma emoção onírica, recorro logo ao Jacques Derrida: Eu sempre sonho com uma caneta que seria uma seringa. O que não pode ser dito acima de tudo não deve ser silenciado, mas escrito. Como ninguém me ouve nem deve, meto as catanas para cima e arrocho nos garranchos até não querer mais de tão rouco. É isso.

TRÊS: MISTURANDO AS TINTAS DAS LETRAS & CORES - Nada me basta mesmo, afoito que só! Nem bem comecei a soletrar umas escritas recorrentemente desmanchadas por escansões inapropriadas, mormente confusão entre os sintagmas e outros tantos solecismos, coisa de poetastro metido a beletrista. Pois é. Ainda por cima, inventei de pincelar sem o devido domínio nem das cores primárias – resultaram inúteis as repetidas consultas ao manual do Israel Pedrosa -, meti as mãos pelas pernas e findei colando imagens sob tintas, o que deu na maior seboseira. Aí, tentando esconder minha imperícia, achei melhor deixar meio que quase monocromático abstrato para passar a ilusão dum p&b lá que meio desaprumado. É que eu havia levado ao pé da letra Rembrandt: Tente colocar em prática o que você já sabe e fazendo isso, você descobrirá, com o tempo, as coisas escondidas sobre as quais agora você se questiona. Pratique o que você sabe e isso ajudará a tornar claro o que agora você não sabe. Quanto mais perigoso, mais belo! Ah, ledo engano esse meu. Só que eu não sabia, esse o detalhe e a questão, confesso. Taí, todo dia emplaco uma no cabeçalho daqui, mesmo convencido de que nunca levei jeito para nada, sempre o imprestável: vai ser desajeitado assim no raio que parta, broco! Digo pra mim mesmo: desculpa de amarelo é comer barro, hehehehehe. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: No momento, nosso mundo de humanos é baseado no sofrimento e na destruição de milhões de não-humanos. Aperceber-se disso e fazer algo para mudar essa situação por meios pessoais e públicos, requer uma mudança de percepção, equivalente a uma conversão religiosa. Nada poderá jamais ser visto da mesma maneira, pois uma vez reconhecido o terror e a dor de outras espécies, você irá, a menos que resista à conversão, ter consciência das permutações de sofrimento interminável em que se apoia a nossa sociedade. A mediocridade não conhece nada mais do que ela mesma, mas o talento instantaneamente reconhece o gênio. Aprendi a nunca ridicularizar a opinião de ninguém, por mais estranha que possa parecer. Pensamento do escritor e médico britânico Arthur Conan Doyle (1859-1930), aquele mesmo das inventivas histórias do detetive Sherlock Holmes. Veja mais aqui.

 

OUTROS DITOS

Não me pergunta mais nada do passado. São infinitos os modos como os tesouros caem do céu...

Pensamento do escritor japonês prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972). Veja mais aqui e aqui.

 

O OSSO, DE HERMILO BORBA FILHO

[...] Na mesma comida de todos os dias, três dias depois Lonico-Soldador na sopa viu o osso: reconheceu-o, não podia se enganar; e sem ninguém lhe prestar atenção puxou o canivete e gravou na lasca do osso um W que para ele significava vai-e-volta; e comeu tudo sem a menor indisposição, até achando graça na picardia de Guará, sem o osso rico dando uma de guaxumé na sopa sem guaxumé; e nos dias que se seguiram tratou de prestar atenção à sopa dos outros e foi vendo o osso de prato em prato, ora nesse ora naquele: chegava a se levantar da sua mesa, ia lá, agarrava o osso, via o W, ria e voltava. De casa em casa, nas lides do oficio, soldando panelas, frigideiras, papeiros, tachos, Lonico-Soldador, nos almoços de cozinha, quebra da paga, foi acompanhando a vida do osso: tanto podia vir na sopa como no chambaril, como no cozido como na mão-de-vaca; viu o osso na cozinha do prefeito, na do juiz, na do médico, na do promotor, na do tabelião, voltou a vê-lo no boteco do Guará e viu-o na cozinha do padre num dia, na do pastor protestante no outro, vez por outra de novo em Guará, certa vez em casa de um seleiro que morava na Rua da Ponte, outra na de um ferroviário, o osso sempre amarelado, mas sem guaxumé, fingindo de rico sem mais sustança. Indo soldar o cano de um quintal viu-o no reco-reco da roedura de um perdigueiro, deu-o por perdido, mas no dia seguinte lá estava na rica e linda sopa do mais abastado comerciante de sexos e molhados da cidade, boiando, resplandecente, o W cada vez mais cavado; e até o fim da sua vida, que foi longa, Lonico-Soldador conviveu com o osso, vez por outra falando com o osso quando não havia ninguém por perto, não com medo do escândalo, mas com medo de que descobrissem o seu segredo [...].

Trecho do conto extraído da obra Contos (CEPE, 2017), de Hermilo Borba Filho. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

FAZER AMOR, DE JEAN-PHILIPE TOUSSAINT

[...] Mesmo antes de nos beijarmos pela primeira vez, Marie já tinha começado a chorar: Tinha sido em um táxi, havia mais de sete anos, ela estava sentada ao meu lado, com o rosto coberto de lágrimas, na penumbra do veículo que atravessava as sombras fugidias das margens do Sena e os reflexos amarelos e brancos dos carros com que cruzávamos. Aquela altura, ainda não nos tínhamos beijado, eu ainda tinha feito a mínima declaração de amor – mas será que algum dia eu já lhe fiz alguma declaração de amor? -, e fiquei lá olhando para ela, comovido, desamparado, por vê-la chorar daquele jeito ali ao meu lado [...].

Trecho extraído da obra Fazer amor (Globo, 2005), do escritor, cineasta e fotógrafo belga Jean-Philippe Toussaint. Veja mais aqui & aqui.

 

A MULHER DO ALGODÃO
[...] em uma escola particular, onde começaram a circular boatos sobre uma tal mulher loura que aparecia no banheiro das crianças em busca de seu filho morto. [...] E todos os dias estudantes saiam correndo do banheiro gritando: “Eu vi a loura! Eu vi a loura!” O pavor era grande. [...] Certa vez, minha irmã mais velha – que estudava na mesma escola que eu – sentiu vontade de ir ao banheiro durante a aula. Mas ninguém poderia acompanhá-la naquele momento. As escadarias do colégio estavam desertas: já no caminho ela sentiu um calafrio! E o banheiro estava escuro. Ao entrar, minha irmã dirigiu-se ao cubículo mais próximo da porta, pois já pensava em ter que fugir. Trancou-se na tentativa de ficar segura, usou o sanitário de olhos fechados e, de repente, sentiu uma presença. Abriu os olhos e lá estava a loura parada em sua frente. Tinha cabelos longos e claros, e uma expressão muito triste que só não chamava mais atenção do que os chumaços de algodão ensanguentados no nariz. Por um momento, a minha irmã pensou em fugir, mas a passagem estava bloqueada pela mulher. Tentou se acalmar um pouco e ficou ali durante alguns segundos observando o fantasma que, do mesmo jeito que apareceu, desapareceu sem deixar nenhum vestígio. [...].
A MULHER DO ALGODÃO - Trechos de um relato extraído da obra Histórias medonhas d’O Recife Assombrado (Bagaço, 2002), organizado por Roberto Beltrão. Veja mais aqui.

A DANÇA DE CRISTINA MOURA
A confusão da arte contemporânea, o lugar do público e do intérprete, o processo artístico, o estar em cena. O espetáculo fala do que vivemos hoje.
CRISTINA MOURA - A arte da coreógrafa, atriz, diretora, bailarina e artista múltipla Cristina Moura, que estudou e tornou-se membro da companhia EnDança e, depois, ingressou no Coletivo Improviso. Desenvolveu as performances Como um idiota (Like an Idiot - 2003), Im-Pulso e o mais recente solo Agô. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
RecorDança, um acervo do projeto de pesquisa, documentação e difusão da memória da dança, realizado pela Associação Reviva, desde 2003, reunindo o registro digitalizado de fotos, vídeos e programas de espetáculos produzidos na Região Metropolitana do Recife.
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Os ambulantes de deus, do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976) aqui.
A obra do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973) aqui & aqui.
A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui.
Sísifo, do poeta Marcus Accioly (1943-2017) aqui.
Pintando na Praça aqui & aqui.
Das quedas, perdas e danos aqui.
&
Gameleira aqui & aqui.
 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA: SOU NELA...

Atordoado por seu encanto a noite voava dos porões de seu ser para me inebriar com a sua astuta entrega nua celebrando o apogeu de nosso gozo inenarrável...

Veja mais Literótica aqui & aqui.

 



segunda-feira, julho 16, 2018

DERRIDA, ZATZ, RUBEM ALVES, ROSALIA DE CASTRO, BEETHOVEN, KLIMT, SCHÖNBERG, LOJA DE RÉPTEIS, BOZ VAKHSHORI & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


A ARTE PARA IMORTAL AMADA – Imagem: art by Boz Vakhshori. - Os tons e a surdez: restava mais nada, a vida era só um detalhe de Deus. Desde muito jovem condenado por Albrechtsberger: nunca aprendeu nem aprenderá, é um caso perdido. Jovem leão enjaulado, nada mais que um louco espanhol do gênio fogoso e língua mordaz: um campônio que desbancava a etiqueta da nobreza à custa de suas próprias mãos: príncipes, muitos; gênio, só eu. Umas poucas mordidas de mosquitos jamais poderão sofrear um garanhão, mesmo com os sintomas da surdez à flor da idade: a solidão é a minha religião. Saía à conquista das damas do remoinho social de Viena, com as cartas de plebeu e suas queixas inconsoláveis para Amada Imortal que pedia fizesse tudo para que ela pudesse viver com ele. Harmonias e melodias cresceram: Für Elise – à cantora de ópera Elisabeth Röckel do pedido de casamento malogrado; a frágil Antonie Brentano, Madalena Willmann, Josephine Brunsvik, outras tantas e muitas, elas sabiam: não se flerta com um Deus feio e surdo. Para ele, devia viver como exilado: vagar para longe sem rumo, até que possa voar em teus braços, e possa dizer que estou inteiramente em casa contigo, permanecendo meu fiel e único tesouro. Eis daí o cântico da liberdade Fidelio baseado em Bouilly; as sonatas, ao Luar no Lago Lucerna suíço, quase uma fantasia melancólica; a Patética, Appassionata, trinta e duas ao todo, mais Concertos, Oratórios, Missas, Quartetos, Septeto, Trios, Missas, Fantasias, Bagatelas, Lieds à amada longínqua, todas com tragicidade profunda e humorismo exuberante. Vieram sinfonias, a primeira, a gênese; a segunda, o horrível dragão que se retorce negando-se a expirar; a revolução ternária da terceira, interpretando as ideias de Deus; o eterno mistério da quarta, o amor, a paixão e a dúvida existencial; a do Destino, Eroica, em memória de um grande homem e sua obsessão Liberté, Égalité, Fraternité; a sexta Pastoral, o citadino que vai para o campo e mergulha em sentimentos bucólicos, a tempestade e o Hino de Ação de Graças; a poética sétima explorando todos os níveis da consciência de si mesmo; a emancipação da oitava, a transformação; a sublime elevação fraternal da nona: foi para isso que Deus criou o mundo! Com os versos da Ode à Alegria de Schiller e a chegada da fictícia copista Anna Holz, o segredo. Se não fosse A raiva pelo tostão perdido - rondó em sol maior, e o Testamento de Heiligenstadt para Caspar e Nicolaus, nunca enviado e guardado na gaveta, a depressão e suicídio que levaram o eremita rebelde na casca da rudeza, um hipocondríaco: devo a mim mesmo, ao gênero humano e ao Todo-Poderoso, a arte apenas me susteve. É que a felicidade não foi feita para ele: não fui feito pra felicidade, quem sente intensamente, sofre intensamente. A felicidade do artista está dentro dele mesmo porque a arte justifica o sofrimento da vida: Sede abraçados pelo amor, milhões! Aí vai um beijo para o mundo inteiro, a tônica da vida é o amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor alemão Arnold Schönberg (1874-1952): Pierrot Lunaire, Transfugured Night for String Sextet op. 4, Verkl&arte Nacht op 4 & Pélleas und Melisande op 5 & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Onde e como se produz esse descentramento como pensamento da estruturalidade da estrutura? Para designar esta produção, seria algum tanto ingênuo referirmo-nos a um acontecimento, a uma doutrina ou ao nome de um autor. Esta produção pertence certamente à totalidade de uma época, que é a nossa,  mas ela já começou há muito a anunciar-se e a trabalhar. [...] Se a totalização não tem sentido, não é porque a infinidade de um campo não possa ser coberta por um olhar ou um discurso finitos, mas porque a natureza do campo – a saber, uma linguagem e uma linguagem infinita – exclui a totalização. [...] Este campo permite estas substituições infinitas porque, em vez de ser um campo inesgotável, como na hipótese clássica, em vez de ser demasiado grande, lhe falta alguma coisa, a saber, um centro que detenha e funde o jogo das substituições. [...]. Trechos extraídos da obra A escritura e a diferença (Perspectiva, 2002), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

AVANÇOS & RETROCESSOS: CIÊNCIA & RELIGIÃO - [...] Desde o início de 2004, as notícias sobre células-tronco têm sido animadoras: pacientes são tratados, pesquisadores coreanos têm sucesso na clonagem terapêutica, células-tronco embrionárias formam neurônios. Enquanto a ciência avança a passos gigantescos no exterior, o Brasil luta para conseguir iniciar pesquisas com células-tronco embrionárias. Conseguiremos recuperar o tempo perdido? [...] O que precisa ser desmistificado? Por que as células-tronco embrionárias são tão importantes? Somente as células-tronco embrionárias são pluripotentes. [...] A esperança é que inúmeras condições, muitas delas letais na infância ou no início da idade adulta, tais como algumas doenças neuromusculares, diabetes, mal de Parkinson, lesões de medula possam ser tratadas pela substituição ou correção de células ou tecidos defeituosos. [...]. Mas, para chegar lá, ainda temos inúmeros obstáculos a vencer. [...] Utilizar células-tronco de embriões congelados equivale a um aborto, afirmam alguns grupos religiosos. Definitivamente não! No aborto provocado, interrompe-se a vida de um feto que está dentro do útero da mãe. Já no caso de embriões congelados em um tubo de ensaio nas clínicas de fertilização, não há chance de vida se não houver introdução do embrião dentro do útero. Na prática, esses embriões ficam congelados por anos, tornam-se inviáveis e são descartados. Do ponto de vista científico, a grande vantagem das células-tronco retiradas de um embrião congelado é que, até a fase de cento e poucas células, elas são pluripotentes. [...] A expectativa de um tratamento para inúmeros pacientes condenados deve estar acima de dogmas religiosos. [...]. Trechos extraídos de Conseguiremos recuperar o tempo perdido? (Folha de São Paulo, 2005), da bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz, Veja mais aqui.

CENAS DA VIDA – [...] Na verdade, acho que não existe povo no Brasil. Somos um bando de bois e vacas infestados por bernes gordos que não saem de nossas costas. Santo Agostinho disse que “povo é um conjunto de pessoas racionais unidas pelo mesmo sonho”. O Geraldo Vandré disse a mesma coisa, com poesia diferente: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. É isso: há de haver uma canção que todos cantam e que indica o caminho. O Chico, nos anos de ditadura, esperto como ele só, falou de um jeito que os milicos não entenderam (milicos e cientistas são duros de entender metáfora. Sobre os milicos eu já sabia. Sobre os cientistas aprendi na última reunião da SBPC). Falou de uma Banda. “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Aí ele desanda a falar do faroleiro que contava vantagem, da namorada que contava as estrelas, do homem rico que contava o dinheiro, da moça feia debruçada na janela, cada um com o seu sonho pequeno. Mas foi só a Banda tocar para que cada um deles se esquecesse dos sonhos pequenos por amor ao sonho grande. Começaram a seguir a Banda: viraram povo. Um povo nasce quando as pessoas trocam seus sonhos pequenos (individuais) por um sonho grande (comum). Um líder político é aquele que ajuda um povo a nascer. Mas um povo só nasce quando os indivíduos são seduzidos por um sonho de beleza. A beleza do sonho é a comida que mantém a vida do povo. [...] Que sonho temos? Moeda estável, sem inflação? Mas isso não é sonho que chegue para formar um povo. É verdade que inflação é barco furado. Com barco furado não se navega. Verdade é também que moeda estável é barco sem furo. Mas barco sem furo não basta pra navegar. Pra navegar é preciso sonhar com um porto. Esse porto, na linguagem da política, tem o nome de utopia. Vão me dizer que utopias são inatingíveis. [...] A mágica presença das estrelas! É isso que os políticos nos roubaram. Os povos estão sempre dispostos a passar pelas mais duras provações, desde que essas mesmas provações tenham um sentido: as dores de parto são bem-vindas pelo filho que vai nascer. O presidente se esqueceu do povo. O povo não é o seu “outros significantes”. Por isso ele não gasta tempo para fazer o povo sonhar. Estamos “desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor…”. O tempo da ditadura era noite. Mas no céu havia estrelas. Eu sonhava. Veio o dia. Mas a noite continuou. Céu sem estrelas. Já não sonhamos. Resta-nos a dura vida sem sonhos. [...]. Trechos da crônica O fim da banda, extraído da obra Cenas da vida (Papirus/Speculum, 1997), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMASCANTIGA: Eu cantar, cantar, cantei; / a graça não era muita, / pois nunca por meu pesar, / fui eu menina graciosa. / Cantei como foi possível, / dando voltas e mais voltas / assim como quem não sabe / perfeitamente uma cousa. / Porém depois de mansinho / e um pouco mais alto agora, / fui soltando essas cantigas / como quem não quer a cousa. / Eu bem quisera, é verdade, / que elas fossem mais bonitas; / eu bem quisera que nelas / bailasse o sol com as pombas, / as brancas águas com a luz, / e os ares mansos com as rosas. / Que nelas claras se vissem / a espuma das verdes ondas, / do céu as brancas estrelas / da terá as plantas formosas, / as névoas de cor sombria / que lá nas montanhas voam; / os pios do triste mocho, / as campainhas que dobram / a primavera que ri, / e os passarinhos que voam. / E canta que canta, enquanto / os corações tristes choram. / Isto e ainda mais quisera / dizer com língua graciosa; / mas onde a graça me falta, / o sentimento me sobra. / Entretanto isto não basta / par explicar certas cousas / que, às vezes, por fora um canta / enquanto por dentro chora./ Não me expliquei qual quisera: / sou de pouca explicação; / se graça em cantar não tenho, / o amor da terra me afoga. / Eu cantar, cantar, cantei, / a graça não era muita, / mas que fazer —  desgraçada! — / se não nasci mais graciosa. AONDE IREI COMIGO? ONDE ME ESCONDEREI? - Aonde irei comigo? Onde me esconderei, / que já ninguém me veja e eu não veja ninguém? / A luz do dia assombra-me, pasma-me a das estrelas, / e os olhares dos homens na alma me penetram. / Pois o que guardo dentro em mim penso que ao rosto / me sai, como do mar ao fim um corpo morto / Houvesse, e que saísse!...; mas não, te levo dentro, / fantasma pavoroso dos meus remordimentos! Poemas da escritora espanhola Rosalia de Castro (1837-1885)

LOJA DE RÉPTEIS
O curta-metragem Loja de Répteis, do cineasta Pedro Severien, é um drama psicológico que conta a história que se passa no Recife, de horror expressionista vivida por um casal, um dono de loja de repteis e sua esposa, que é quieto e mantem uma estranha conexão com os animais, e ela está disposta a se livrar daquilo

Os livros ID & A poesia salva a alma & muito mais na Agenda aqui.
&
A música de Beethoven aqui, aqui, aqui e aqui
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Ele via a mulher como um ser superior, uma figura dominante que estava acima dos homens. As mulheres retratadas quase sempre são poderosas – mesmo quando as retrata aparentemente submissas, parece uma concessão que a mulher fez como um gesto nobre a fraqueza masculina em resistir ao seu poder.
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e sua eterna musa inspiradora, a designer de moda e empresária austríaca Emilie Louise Flöge (1874-1953).
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Porque era sábado no Una, Mal de Arquivo de Jacques Derrida, Guido Bilharinho, o teatro Oficina de José Celso Martinez Correa, a arte de Hamid Zavareei, a música de Paulo Moura, Eugénia Melo e Castro, Pat Metheny & Tomoko Mukaiyama aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

quinta-feira, março 15, 2018

DERRIDA, SARTRE, PONTOPPIDAN, HEINE, OSWALDO MONTENEGRO & FERNANDA CANAUD, MARCUS ACCIOLY, CYANE PACHECO & BANDO DE MÔNADAS



BANDO DE MÔNADAS - Imagem: arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco. - O poema e sete verdades, o lance do destino. Sou apenas palavras em ordem secreta, ao sopro do barro, aos olhos ávidos dos vivos. O reconhecimento da cumplicidade é o começo da inocência. O reconhecimento da necessidade é o começo da liberdade. O poema é um mundo enterrado num homem. Em mim lavra safra de murmúrios. A palavra por nossas veias trânsito da alma. Quanto mais estrelas, mais céu noturno. Quanto mais tempo, mais eternidade. O terceiro poema, caligrafia de sombras, parvo e torpe itinerário, sombra que enardece até a incandescência. O intérprete dentro do poema não é pranto de coração, nem turbilhão incontido de emoção rimada: o belvedere do significante mira o significado. Eis a moça que passa na manhã revelada, rompem-se os véus da volúpia. Eis a moça que passa ao largo do sonho. Quando ela passa me habita de silêncio, grassam ternuras espessas. Eis a moça e estridente desejo com seios estrelados, rosa dos mamilos para o pomar das mãos, último refugio da lascívia pura. Vivo amor sem treva ou tortura, à sublime leveza da nudez feminina, à folha ou falha da erva atapeta o púbis da menina, deixe apenas o poema debruçar-te sobre ti, deixando rastros de aromas, pira de perfumes, rendas de narinas. Eis a moça que cessa seu encanto noturno, refugio-me nos punhais acesos da solidão, dores de ouro e prata nos ermos intrincados da alma nas furiosas veredas das horas. Eu não sei onde quando aos erros te levaram, moendas do tempo leva à completa embriaguez verbal. À longa e grata satisfação do abismo e do adjetivo, ao eterno trabalho do pó, ao inútil trabalho dos lírios, estranho tornado de aromas. Eis cortejo doloroso de cinzas rosas no páramo, eis cinzas dos sonhos, que a vida ferina em coivaras tornou correndo a última rua do mundo, que buscas peregrino da aurora cavalgando ginetes de estrelas por estradas que a luz avassala. Busco o rosto que Narciso toldou com seu orgulho e espelhos para mirar-te jóias suspensas dum escrínio azul. Há lágrimas magnólias caindo do ramalhete dos olhos, do jardim do rosto despencado. O poema surge e ressurge. O poema acontece. Acontece, súbito relâmpago, voragem que escurece o jugo das palavras, incorpora-se à paisagem do tempo como a lava do vulcão à geografia do olho, encarna-se na passagem do fruto como a boca no mundo, emerge dado, acontecido, fato de palavras construído, o trama do inverso vertido para temperar metáforas, alicates metonímicos. O poema ergue-se de um reservatório de escombros, a essencia nua do trovar escuro não é a recolha de uma messe de letras de uma legião de dores. Poetas sucumbem ou se salvam. Vem a poesia ao poema em fragmentos de mundos, sob tempestades ou calmaria de palavras, da água para naufrágios, da ira para deserdados, de dor para os desamados, tudo para nada, sêmen e fuga, sete poemas sem causa, as mônadas dos sábados. Exortação ao leitor: faça alguma coisa, não deixe cair da mão esquerda a bandeira esfarrapada do poema, a vida não é digna dos incautos. Troque ócio pelo verso, rima por vício, cure com poesia enfermidade do tédio, sal da luz, a tona da verdade. (Letra-colagem para música sobre o poema Bando de mônadas, de Vital Corrêa de Araújo). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco. Veja mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor e compositor Oswaldo Montenegro: Ao vivo 25 anos, 3x4 & Escondido no tempo; a pianista e compositora Fernanda Chaves Canaud: Radamés Gnatali, Lua Branca de Chiquinha Gonzaga & Coração que sente de Ernesto Nazareth; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ser poeta é saber abandonar a palavra. Deixá-la falar sozinha, o que só pode fazer escrevendo. [...]. Pensamento extraído da obra A escritura e a diferença (Perspectiva, 1971), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui.

A LITERATURA - [...] Um grito de dor é sinal da dor que o provoca. Mas um canto de dor é ao mesmo tempo a própria dor e uma outra coisa que não a dor. Ou, se se quiser adotar o vocabulário existencialista, é uma dor que não existe mais, é uma dor que é [...]. Não porque o artista tenha paixões mais ricas ou mais variadas, mas porque suas paixões, que talvez estejam na origem do tema inventado, ao se incorporarem às notas, sofreram uma transubstanciação [...]. Trechos extraídos da obra Que é literatura? (Ática, 1989), do filósofo, dramaturgo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1986). Veja mais aqui.

AMOR DE MOCIDADE – [...] Se procurava tornar-ser bonita, não era para Jesper. Cada vez que eu pronunciava o nome do noivo, uma sombra passava pelo seu rosto. Era outro, um adventício, que conquistara seu coração e dava ao seu olhar um curioso brilho vacilante. Desde algum, ela adquirira uma atitude um pouco misteriosa, e sucedia-lje, se a contrariavam, ter verdadeiras crises de cólera. Era má, principalmente com Jesper. Uma noite em que ele quisera colocá-la à forçã sobre os seus joelhos, ela mordera-lhe fortemente o rosto. Eu tentava como sempre interrogá-la para desvendar seu segredo; mas desta vez nada me foi possível obter. Ela bancava a ingênua e respondia com gestos evasivos às minhas perguntas. Sondei a mãe, pensando que talvez soubesse alguma coisa: falou-me de um moço que “ficou por aqui toda uma tarde, para tomar uma xícara de café”; mas não pude obter nenhuma informação precisa, nenhuma explicação concreta. Eu pensava com ionquietude o que sucederia a Jesper surpreendesse um dia Martha com um estranho. Sabia que ele continuava a montar guarda nas vizinhanças do albergue, munido de um grosso bordão. Martha, de uma gaveta da cômoda, tirou roupa limpa, meias, um lenço, ao mesmo tempo que um laço de veludo negro com um medalhão âmbar, e pôs tudo sobre uma cadeira, junto ao espelho. Sem perceber, cantarolava uma canção, enquanto prendia os cabelos, punha as ligas e dava o laço nos sapatos. Um belo jovem caminhava nos bosques, sorriso nos lábios, alegria no olhar. De subido, lembrou-se que também havia na gaveta os antigos brincos de prata de sua mãe. Havendo calçado apenas uma das meias, aproximou-se saltitando da cômoda, e experimentou-os. Voltava a cabeça para um lado e outro, diante do espelho, após o que teve um gesto de satisfação. Uma donzela se aproximou timidamente, os olhos baixos. Havia nesses pedaços de canção alguma coisa que despertou minha curiosidade. Não pertenciam às nossas habituais canções. Entretanto, eu tinha a impressão de conhecer as palavras. [...]. Trecho extraído de O urso polar e outras novelas (Delta, 1963), do escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan (1857-1943), Prêmio Nobel de Literatura de 1917.

POEMAVem, linda peixeirinha, / Trégua aos anzóis e aos remos. /Senta-te aqui comigo, / Mãos dadas conversemos. / Inclina a cabecinha / E não temas assim: / Não te fias do oceano? / Pois fia-te de mim. / Minh’alma, como o oceano, / Tem tufões, correntezas, / E muitas lindas pérolas / Jazem nas profundezas. Poema do poeta romântico alemão Heinrich Heine (1797 – 1856). Veja mais aqui e aqui.

A poesia de Rogério Generoso,
Viva Marcus Accioly (1943-2017) na APLE & muito mais na Agenda aqui.
&
Pelos caminhos da vida, a Lenda dos Índios Tembé, a música de Benedicto Lacerda - Benê, a arte de Alessandro Biffignandi, a fotografia de Diane Arbus, Ligia Scholze Borges Tomarchio, a pintura de Clodomiro Amazonas & Ferdinand Hodler aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...