sábado, fevereiro 12, 2022

SAROJINI NAIDU, FULNI-Ô & WANDA WITOTO, ALICE LONGWORTH & RENATA SANTANA

 

 

TRÍPTICO DQP – Ano após outro e mais. – Imagem: ArtLAM, ao som do álbum Cafurnas Fulni-ô (Tratore, 2019), com o Povo Fulni-ô & sua língua mãe Yaathê no ritual Ouricuri. - O que me diz este céu das águas desse rio que corre em minhas veias e era pra festa de passárvores que fugaram das queimadas morro acimabaixo. São nuvens de sombra carregadas de fumaça e fuligem da ganância para roubar o azul da respiração. Conto nos dedos, ano após outro e mais, basta uma mão e nela: dores seculares. Essa a minha herança ancestral, no que sou da terralma, porque tudo é difícil pros meus outros Zés e neurodivergentes, com a teimosia de vida que nos faz ressurretos na tragédia do Fecamepa que se perpetua na iniquidade e na desgovernança coisonária. Nessa escuridão o Canto da Nênia alumia pro dia chegar e trazer a ativista Wanda Ortega Witoto do Parque das Tribos: Estamos muito angustiados com nosso futuro. O indígena tem um desfecho mais desfavorável que qualquer outro grupo brasileiro, se comparar com a população branca e até negra. Tudo aqui é uma grande dificuldade, muita luta, a gente é abandonado. Não se lamenta a morte de indígena no Brasil. É com ela que revigora a força do braço, a coragem no peito e a reverberação da voz no eco de Catarina Eufémia para nos dizer de Olga: Em momentos difíceis é preciso pensar em alguma coisa bonita. Iluminar, iluminar, essa é minha missão e a do sol. Preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. E entoar o canto para resistir como se ouvisse de Lucille Clifton: Venha comemorar comigo que todos os dias algo tentou me matar e falhou. A poesia é uma questão de vida, não apenas uma questão de linguagem. E se não tenho mais que o espólio de toda desfortuna da gente geral, resta o desterro dos sonhos e a teimosia de viver em nome dos mortos de todas as injustiças.

  


Passos mancos e quejandos ... – Imagem da artista japonesa Tomie Ohtake. - O meu país é a minha cidade engalanada na festa dos prazeres e da ostentação oniomaníaca, com seus contratos e outras escusas dominações. É onde sou tão estrangeiro quanto fotografias desfiguradas pelos que foram apagados da memória das enchentes e da indiferença. Nalguma esquina inadvertida é que encontro fugidios fantasmas e da passagem deles é que me surge alguém para me dizer da escritora estadunidense Alice Longworth (1884-1980): Se você não pode dizer algo bom sobre alguém, sente-se aqui ao meu lado. Eu tenho uma filosofia simples. Preencha o que está vazio. Esvazie o que está cheio. E coce onde coça... Como não tenho para onde ir deixo que ela me leve a levitar sobre o território de onde sou e nem sabia, até ao topo do monte no qual se encontram tantos levados pela LIDIHUS da EERP-USP, porque havia um evento com estudos, reflexões, discussões, pesquisa e extensão, juntando interessados sobre as interações existentes entre o movimento da afirmação dos Direitos Humanos e o Direito à Saúde, debatendo sobre nossos direitos e das crianças e adolescentes, das mulheres e das populações indígenas e das pessoas com deficiência e das LGBTQIA+ e das em situação de rua e das que estão privadas de liberdade e das profissionais do sexo e de toda situação de vulnerabilidade que campeia em meu país. E estão todos pelas calçadas e ruas da minha cidade que é o Brasil inteiro de famélicos atentos disfarçados pela elegância da hora no anfiteatro da praça, em que uma atriz desconhecida recita os versos de um poema, Pecados da mulher, da poetativista indiana Sarojini Naidu (1879-1949): Perdoe-me o pecado dos meus olhos / -oh meu amor- se você ousou por um instante / invadir o querido santuário do seu rosto /com iguarias delícias ardentes e insistentes / como pássaros selvagens e destemidos /que percorrem o sublime templo do céu. / Perdoe-me o pecado das minhas mãos / se eles foram muito ousados / em seu desejo latejante de acariciar / sua carne, abrace -oh meu amor- / e te encher de presentes / tão inumeráveis como as areias / Ó perdoa o pecado das minhas mãos!  Perdoe-me o pecado da minha boca / oh meu amor, se ele te ofendeu / com silêncio ou canção indesejável, / se ele atacou e oprimiu você / e tomou posse dos teus lábios, / Ó perdoe-me o pecado da minha boca! / Perdoe-me o pecado do meu coração / se ele transgrediu contra a voz. / Se você tentou cativar ou violar nosso amor / para apaziguar sua chama / para saciar sua fome, / para aliviar sua dor / de sua profunda tristeza. / Ó perdoe o pecado do meu coração! Os aplausos soaram febris depois da apresentação e não sei se ouviram cada palavra ou se deixaram levar pelo eco do sistema de som apenas por estarem ali. O que é bom é que não estou só, mas como se estivéssemos todos no centro do isolamento de todas as incertezas e nenhum amanhã.

 


Terceiro ato... – Imagem: arte da pintora e gravurista francesa Joan Mitchell (1925-1992) – Sobe o pano da noite e a manhã expõe o cenário de mais um espetáculo a cada dia. Como se eu tivesse este dia e esta manhã foi possível encontrar brecha qualquer, assim como se me permitisse sair de um túnel diário para o que quer que fosse de diferente no cotidiano, pelo menos, por instante fugaz que desse. Não sabia e zis enredos no que sou de um só, a presenciar do alto o que seria uma trilha de formigas dispersas por todas as direções e lugares. Sequer eu sabia de nada, só para me espantar com o movimento porque é possível criar sonhoutros é possível sim. Em um ponto qualquer lá está a saudade da mulher que sinto e vivo do que foi mãe e que partiu para nunca mais. Ela me aponta possíveis formas de viver, a me salvar dos abismos e fracassos, sou abençoado por isso e grato. E era como se minha mãe ressuscitada me dissesse Lou Salomé: A vida humana- Ah! / A vida sobretudo - é poesia. / Inconscientes, nós a vivemos, dia a dia / passo a passo- mas em sua intangível / plenitude ela vive e se nos traduz em poesia. Ah, poesia. E me trouxe na tarde quase noite daquele momento a expressão de Renata Santana que sorria e soltava um verso: nós somos os bandidos molhados. Mais sorriu pro meu prazer com versoutro: você é um deus de plantão no final do mês. E mais que admirado recebi o prêmio máximo dela: estou só / mas estou comigo / quando não resta / mais nada / resta um. E mais um, quando não outro e tantos e quantas. Nunca será demais dizer que só a poesia torna a vida suportável. Até mais ver.

 

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segunda-feira, fevereiro 07, 2022

LAURA INGALLS WILDER, IZAURA RUFINO FISCHER, RITA VON HUNTY & JOÃO CÂMARA

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre devires e distopias... - Ao som do álbum Dedicado a você (1967), de Rogério Duprat. – Ouço a música do dia, as ruas dão nas estradas caminhos afora e se por trás das montanhas ao redor da minha cidade, o dia dorme, a noite é viva para que ninguém, ninguém mesmo, Anteu vunerável arrede dali - resíduos que sobram de mim entre o latente e o que se perdeu. Não vejo ninguém e voo perdido, até que a escritora estadunidense Laura Ingalls Wilder (19867-1957) me saúda com um sorriso: Uma boa risada supera mais dificuldades e dissipa mais nuvens negras do que qualquer outra coisa. Estou começando a entender que são as coisas simples e doces da vida, que são as verdadeiras. Entendo o que fala, mas sei que meu povo teima temores de certo fantasma vermelho que atenta suas vidas e pode se danar pelo precipício. Nada mais bizarro porque não enxergam nada mais além do colorido das vitrines ou imersos nos seus rancores por desejar o ócio da riqueza dos seus sonhos triturados queimando a carne, enquanto singram pela milenar mentira do crucifixo entre as mãos, pedintes de paz que só fazem guerrear porque a escola é a grande vaca reprodutora dos estúpidos que se escondem medrosos com a tela acesa na sala. É só o que veem e não vivem. Eu sei que a vergonha do meu país não é de hoje! Como disse Antônio Cândido: A vergonha do Brasil sobreviveria até em páginas de poetas imortais, como uma de Heine em que o poeta fala no capitão negreiro que deixou trezentos escravos no Rio. É tudo tão deprimente, quando nem me dou conta de cruzar com Michel Laub que me fala: ... sobre o que era ser jovem numa América tomada por corporações, individualismo e falta de perspectivas... Bem que me lembro que me vivi ilhado por tudo isso, nada mais sem graça e os que passam e voltam logo somem nas sombras que se alimentam do meu sangue e não viverei tanto para ver este século 21 seguir à revelia de todos.

 


Duas ou três coisas de nada... – Imagem: Arte de Carybé – Mas que dia é hoje e nem sei das horas, faz tempo que ontem se repete cabisbaixo por quantos anos de escuridão e incúria. Vivo de acenos esporádicos, quando não abruptos encontros, a exemplo do escritor hondurenho Augusto Monterroso Bonilla (1921-2003) que de longe traz suas dores: Você sofre de uma das doenças mais normais da raça humana: a necessidade de se comunicar com seus pares... Sim? E prossegue: Acredite em si mesmo, mas não tanto; duvide de você, mas nem tanto. Quando você sentir dúvida, acredite; quando você crê, duvide. Nisto reside a única sabedoria verdadeira que pode acompanhar um escritor. Sim, eu sei, e como apareceu, sumiu. Às vezes um ou outro aparece sem novidades, a exemplo de Amos Oz que me dizia baixinho coisas que gritava dentro dele a me surpreender: Às vezes é exatamente a fala tranquila que desperta a ira e a agressão dos opositores... Nossos ancestrais inventaram o sentimento de culpa. Depois vieram os cristãos e fizeram o marketing com um sucesso colossal por todo o mundo. Mas a patente é nossa. Eu, como judeu, tenho sentimentos de culpa terríveis por termos inventado o sentimento de culpa. E mais adiante apenas o canavial de nenhuma esperança. Ele deu-me as costas para que a pesquisadora Izaura Rufino Fischer alertasse: O problema tem raízes na concentração da terra e se expressa de forma diferenciada nos vários recantos do país. Na Zona da Mata de Pernambuco, a cultura própria do latifúndio dá nitidez às desigualdades sociais e ao antagonismo de classes... O que resta de dor, pés no chão, olhar no horizonte, voo sem rota prevista porque a tarde é quase a mesma no calendário.

 


De pés e caminhos... - Imagem: Arte de João Câmara. - O tempo sangra e mais adiante o que poderia ser e não é. Se não tenho onde cair morto, resta penar vida afora, tropeços e falência. A mãe que se foi ainda vive em mim órfão da vida. De um lado pra outro a soberba deselegante, vozes do umbigo e desfile da indiferença. Quase não reconheço ninguém porque tudo é muito estranho e hostil, exceto sorrisos amigáveis e passageiros que logo se vão sem deixar rastro. E se uma ou outra vistosa me chama a atenção, logo fenece pro meu desinteresse. Outra é a Mamie Van Doren: Eu nunca quis ser uma esposa troféu. Eu queria fazer sozinha. Eu não queria depender de um homem... O meu melhor trunfo é o meu cérebro. Sem meu cérebro, não acho que o resto de mim estaria muito quente. Sou solidário e compreendo a milenar imposição patriarcal. Surpresa agradável é dar de cara com a professora e atriz Rita Von Hunty: Precisamos visibilizar os corpos e vozes ainda tão invisíveis... Ao mesmo tempo eu tento quebrar o estereótipo também de que todo professor é homem, branco e pedante. Não existe só um jeito de ser intelectual... Com a possibilidade da morte, podemos criar mecanismos para realizar os próprios desejos, antes que seja tarde demais. E isto pode ser positivo. Ouço dela o eco que povoa minhas ideias insistindo que não temos nada a perder, a não ser quebrar de vez e definitivamente todos os nossos grilhões: não ceder à paralisia do medo nem à tristeza da maldade é o primeiro passo... O que sei é que certeza alguma ditará o que fazer, as dúvidas me fazem respirar e sinto que posso renascer a cada momento. Até mais ver.

 

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domingo, janeiro 30, 2022

V. ALEIXANDRE, AUGUSTINA BESSA-LUÍS, ARMANDO LÔBO & JULIA BONDAR

 

 

TRÍPTICO DQP – Veneno Bento... – Inspirado ao som do recém-lançado álbum homônimo (Projeto Mucambo/CO.MO, 2022), de Armando Lôbo. - Nenhuma pegada e a rodagem sou eu na pisada de quem se perdeu pelas paragens do Catimbau dum sonho de Samico e não sei onde mais as curvas dos ventos. É só a poeira no vestido da mulher com seu manto vermelho, e se eu não sei quem é, segue ao meu lado e meus passos por onde houver caminho. Não sei se a Fera do Sol na seca da minha cabeça de voo matagreste pro litoral, e é para lá talvez o galope porque foi um sonho de Luiza na miragem de Marcela que dançava branca com Isaac no que restou de açude ali e acolá. Ouço o poeta aboiar lá longe para animar o gibão do fantasma vaqueiro que comigo perseguia o regaço no chão batido, como se o lengotengo fosse Romero altivo no que foi Raimundo de Lua&Barbalho e o lamento das horas, porque apagaram as lendas que as nuvens choraram noutro lugar. É só o abismo no dedilhado das violas e se disparo veloz é a voz de Surama que carpe incelenças porque vou subir até satori, onde Sue solfeja com se fosse um coral de fêmeas. Levo aboiado no peito e a disparada segura para driblar tocaias & hybris, morena ou cabocla, a salvação na alquimia da zabumba. Preciso já a garganta seca, se não há veneno bento não há vida, fica tudo incolor até que o diabo apareça no fundo da garrafa com episódios da vida de Block e sirva de unguento para salvar a noite de todos os dias e as coisas tais como são. O gole de nenhum castigo ou recompensa, à custa do que sou, sem engano ou tédio, ouvindo Luís Jardim: O que há de bom em nós é herança da criança que fomos. E as cores são muitas na festa do amanhecer.

 


Todo ápice cambaleia... – Inspirado no livro homônimo e inédito de Vital Corrêa de Araújo. - A beira do abismo é redonda e a poesia em queda livre no que não sabia de Heisenberg: O Universo não é apenas mais estranho do que pensamos, é mais estranho do que podemos pensar. A eternidade é inútil, o infinito é pequeno, quem não desmoronou, quem não soterrado pelas circunstâncias imprevistas. Quando eu vi a equação de Torricelli era a minha maçã de Newton e eu só queria o pomo da imortalidade de Idun, ledo engano. Nem adiantou ter feito o décimo primeiro trabalho de Hércules, as maçãs douradas do Jardim das Hespérides foram escondidas por Afrodite porque sou Sísifo e fadado à queda de Camus. Não sabia que a banana era a musa paradisíaca de Lineu, tudo porque desci ao inferno de Rimbaud como se fosse Galileu no alto da Torre de Pisa. Quanto equívoco e era eu a árvore envenenada de Blake, sonhando com as da Ilha de Avalon onde foi forjada Excalibur. Para quem perdido, só restava a estrofe final da Felicidade do poeta Nobel italiano V. Aleixandre (1898-1984): Canto o céu feliz, o azul que se desponta, / canto a felicidade de amar doces criaturas, / De amar o que nasce sobre as pedras limpas, / agua, flor, folha, sede, lâmina, rio ou vento, / amorosa presença de um dia que sei existe. Precisava desse dia, acaso existisse e talvez o que não sabia, porque me perdi por quantos parágrafos e tantos se opuseram ao que fiz ou deixei de fazer, feitos que nem lembro e imputam o que nada elucida, ah, chutei as evidências centrípetas e os segredos suspensos nos livros, aliás, pus tudo de lado para depois, era só do que me servia, a esperança nos tendões do amanhã.

 


A salvação de Pítia... - Imagem: arte da artista visual ucraniana Julia Bondar. - O que fiz ou deixei de fazer? Mandei meu ego dar uma volta no quarteirão e fui trocar de alma. Sim. A primeira que encontrei foi a dela: a camponesa consagrada pitonisa de Apolo na dança das chamas e eu mais que dionisíaco como se buscasse a árvore Bo entre o nascimento e a morte. Era uma jovem delgada que aspirava um fumo aromático das folhas de louro e da farinha de cevada queimada num altar jamais visto e me fez passar pelo oikis até o adyton que ficava no subsolo, para se agachar na frente de um túmulo no que se podia saber da fonte de Cassotis. Depois do ritual explicou-me que tudo foi feito para oficiar como se eu fosse um deus insular. Logo se entusiasmou só porque fui sorteado pela promancia e consagrou a mim a sua virgindade sob o império de Piton. Era bom para quem errou demais da conta e  me serviu purificada depois dos ritos preparatórios na fonte de Castália que brotou ao pé das Fedríades. Nem deu para piscar o olho e ela logo se arranchou nua com seu sexo no meu a dançar com tremores e convulsões agitadas, enquanto no êxtase dos lábios frases desconexas aravam meu coração e aliviavam o jugo da fatalidade, e temperavam de piedade o frio rigor das velhas leis e ensinavam a não desesperar. Depois do gozo extraordinário, ela me deu o talismã de ônfalo – a pedra sagrada encerrada em uma rede fita de lã branca, o umbigo do mundo. Fiquei maravilhado e lá para as tantas, já saciada de mim, disse-me Augustina Bessa-Luís: Só se pode sentir a evidência das coisas até um certo ponto: além disso, ou nos rebaixamos ou nos aproximamos do sentimento superior que nos liberta. De fato, o verdadeiro estado de liberdade é o de ultrapassar a imaginação. Era a cantiga da nova hora e o universo dentro de mim. E lá fui eu além do tempespaço sem ter que me valer da angústia do amanhã. Até mais ver.

 

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domingo, janeiro 23, 2022

ELLA WILCOX, NOAM GORDON, KELLY VERDANA, TARIK ALI, MORGAN LLYWELYN, JOUBERT & ÁLVARO LINS

 

 

TRÍPTICO DQP – Só a poesia torna a vida suportável...- Ao som do Klavierkonzert nº 20 in d-moll KV 466 - 1. Allegro 2. Romance 3. Rondo: Allegro assai (1785), de Wolfgang Amadeus Mozart, na interpretação da pianista austríaca Ingrid Haebler, com a Klavier London Symphony Orchestra Dirigent: Alceo Galliera – Tempoutros, naveganamnese... Jovem impúbere e o teatro à flor da pele. Andava às tontas até ser encaminhado por Enock Queiroz, Gildásio Santana e Maurício Melo, afora o amável casal Dudu e Léa – esta atriz de muitos palcos -, pra conversar com seu Odyllo da banca de jornal - que era Costa para todos e Ferreira como ator. Sim, dos palcos de Fenelon Barreto e que protagonizou, entre outras peças, o Náufrago do Mafalda. Dele as instruções para melhor conduzir a Adoração que eu queria montar com o Luizinho Barreto. A paciente e dedicada ilustração dele para mim era de suma importância, ouvia-o atentamente, experiência que contava. Tantas vezes a ele recorri para esclarecer esta ou aquela cena, sempre saindo do encontro mais pujante quanto invencível. Depois do malogro da empresa, todos os dias eu pegava o jornal diário e indagava de dona Maria: Cadê seu Odyllo? E de lá de dentro ele se aproximava com um bom dia e troca de algumas ideias: Este o sobrevivente das tragédias! Ele com um meio sorriso, reiterava: Nas peças de Felelon só quem escapava mesmo era Enock que era o ponto e fugia antes do final, senão nem ele saía vivo! Ressuscitado depois de tantas apresentações, guardava ele as boas lembranças de quantas vezes não enlouqueceu em cena, quantos naufrágios, quanto enlutamento e desespero. E a gente se ria contando do sucesso que explodia quando fechava o pano. Era a glória! Os olhos dele chega marejavam. Pois bem, o tempo passou e, dia deste, do inesperado me aparece a conterrânea Odyla Gorette Fronrath em vídeo e fotos. Sim, com o seu Vida aos 50 – Teste os seus limites, enfrente os seus medos e não deixe que nada impeça você de pelo menos tentar. Conversa vai e vem, seu Odyllo? Sim. Nossa, que maravilha! E conversamos um bocado e com ela outra lembrança, um dia que o pai dela me falou do jornalista, advogado e crítico literário da Academia Brasileira de Letras, Álvaro Lins (1912-1970): Durante algum tempo – e ainda hoje em certos meios – a história nada mais significava do que um peso morto, isto é: luxo de erudição, para uns; amontoado de fatos e datas, para outros. Tudo mais ou menos frio e inerte como se o passado fora um outro mundo, uma região estrangeira. Pois há quem não compreenda a verdadeira significação do tempo; neste caso, o que está para trás sendo uma paisagem distante e indiferente. Sim, foi dele que ouvi pela primeira vez o nome do imortal acadêmico caruaruense. E o que dissera me soava como um alerta para os que têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem, só se arrastam e se debatem espíritos rasos e fúteis do ódio e do egoísmo na tagarelice da insipidez do proselitismo, nas tolices de endeusamentos conservadores das religiões e superstições ou dos preconceitos das convicções e das disparatadas panaceias carregadas de recalques e com todo o tipo de restrição disso ou daquilo. Sim, uma advertência para quem bebeu as águas nos infernos de Lete para olvidar do passado inglório da história, como real pusilanimidade, pois se prestar atenção a um detalhe irrecorrível, saberá que, por maior que seja a indiferença, as ninfas das nove noites amantes de Mnemósine estarão sempre em riste. Por isso só a poesia, viva.

 


Menoscabo aos pávidos... Imagens da artista canadense Claire Wilks (1933-2017). - Lá estava eu no meio do Trilema de Epicuro e exumado pelo bombardeio estúpido daqueles do Efeito Dunning-Kruger. Ninguém merece. É como se eu esquecesse o que repetia o escritor estadunidense Noam Gordon (1926-2021): A vida é gloriosa, mas pode ser considerada cruel. Sim, mais do que nunca é preciso sobreviver às bravatas dos insensatos com seus dislates e platitudes! Ouço bem Tarik Ali: Como vivemos nossas vidas não depende, infelizmente, apenas de nós. Circunstâncias, boas ou ruins, intervêm constantemente. Uma pessoa próxima a nós morre. Uma pessoa não tão próxima de nós continua vivendo. Todas essas coisas afetam a forma como vivemos... Afinal, vivemos em um mundo onde as ilusões são sagradas e a verdade, profana. Ah, não! Se os desmiolados esdrúxulos pintam de azul o horror e querem por que querem impor sua bizarrice sobre os telhados e peitos abertos nas calçadas e ruas para contaminar a miséria tenebrosa como se fossem ofertas faustosas, estou careca de saber daquela do moralista francês Joseph Joubert (1754-1824): O medo depende da imaginação; a covardia, do caráter. E muito mais do que fez a poeta estadunidense Ella Wheeler Wilcox (1850-1919): Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes. Para quem acha que não há quem salve a dor da traição, sigo adiante.

 


Truz era o meu verbo... - Imagem da artista visual alemã Silke Host - Quantas quedas, tombos e topadoutras, não herdei sozinho as múltiplas maldições terceiromundistas. Se este é o meu pecado, mantenho-me desobediente! Ao procurar identificar qual o meu verbo, ouvi algo mais ameno e afetivo da enfermeira e professora Kelly Graziani Giacchero Vedana: Se perdoe. Perdoe pela falta de tempo consigo; pelas vezes que disse sim quando deveria ter dito não; perdoe seu passado, você não sabia das coisas que sabe hoje. Não seja severa assim. Você não merece carregar todo esse peso nas costas. Olhe no espelho e diga: eu te perdoo, tudo vai ficar bem daqui para frente. E lá estava eu na InspirAção para melhor ouvir e entender o que me dizia Morgan Llywelyn: A intuição é a voz do espírito dentro de você. O único poder que um homem tem que não pode ser tirado dele é o poder de não fazer nada. Nós nascemos sozinhos e morremos sozinhos, eu aceito isso. Mas por que, Deus, temos que ficar sozinhos no meio? Os corpos se desgastam para nos lembrar que são temporários e nos forçam a pensar mais em nossos espíritos. Sim e se hoje tudo anda em marcha à ré pelas trevas da ignorância maldita, não se pode ficar com um pé atrás: um passo a mais e outro adiante, não há por que nem como se calar. Até mais ver.

 

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domingo, janeiro 16, 2022

LUCIA ETXEBARRIA, IAN MCEWAN, ELVIRA NAVARRO PONFERRADA, JAVIER CERCAS & PELÓPIDAS SOARES

 

 

TRÍPTICO DQP – É de lástima a pele dos pusilânimes... – Imagem inspirada no livro homônimo de Vital Corrêa de Araújo, ao som do Piano Pieces for Children - Japanese Festival (1955), do compositor japonês Nakata Yoshinao (1923-2000). - Diacaso, entrechos... Nenhumoutra escolha. Olhalgaravias... Encontroutros no pasto dos infames com metano cru, insanos que duram mortes. Se dialvorecia tal noitescura não era apenas jogoxímoros: era vidagora, feito garotórfão & escolabandonado, trabalhexcessivo, mortesforço pra fortunaventura, inocentinsensato... Um futurilusório: empregrana poucurtíssima, flordidade degenerazões. E o cineastiraniano Jafar Panâhi em riste: Isto não é um filme. Não era mesmo! E eu aos homoteleutos de idos ados udos edos e odos. Tudo. Para onde foram todos? A resposta com o escritorespanhol Javier Cercas: O que as mentiras e calúnias têm de pior é que quase sempre acabam nos contaminando, porque é muito difícil não ceder à tentação de nos defendermos delas tornando-nos mentirosos e caluniadores. E não era só a sindemia e o desgoverno coisonário: era o reinado da estupidez e da morte. Não fosse a jornalistescritora espanhola Lucia Etxebarria: A ignorância é uma traidora que se aliou à imaginação... Eu me tornaria um quase talvez grego desesquecido de tudo e teimando posteridade.

 


A tragédia nossa de cada dia... - Imagem: a arte do artista bengalês Javed Jalil - E daí? Era o dilúvio. Os deuses lamentavam a criação da humanidade, levados pela resolução de exterminá-la definitivamente. Um deles, Ea, apiedou-se da raça humana e revelou a Umnapishtim o projeto, aconselhando-o confeccionar uma barca com medidas exatas e nela subisse com todos os seus, só assim escaparia da inundação do mundo: Tudo quanto tinha embarquei, toda semente de vida subiu, toda minha família e parentela, porque o senhor das trevas fará chover impurezas, entrei na embarcação e fechei a porta. Mesmo assim, a desordem. Eu e eles. E o predito se fez violento por seis dias e seis noites, os deuses se arrependeram; os nossos, não. Quase quatranos e a impunidade verdadeira, quantos aproveitadores, coniventes todos. E as águas romperam as margens, subestimaram as Pedreiras, inundaram a praça da matriz e os que haviam subido o Matadouro não foram poupados. Só me restou ouvir de Ian McEwan em Amsterdam: Sabemos tão pouco uns dos outros. Jazemos quase que submersos, como blocos de gelo, mostrando apenas a parte branca e fria de nossos eus sociais. Ali estava uma rara visão, por baixo das ondas, do tumulto e da privacidade de um homem, da sua dignidade posta de cabeça pra baixo pela necessidade avassaladora de fantasia pura, de pensamento puro, por aquele elemento humano irredutível – a mente. Não podia ser, não, jamais. Nem havia razão alguma de ser justamente eu o escolhido para assistir todessa aluvião.

 


Se tarde passou a hora... - Imagem: arte da artista argentina Helena Wierzbicki. - Prondecêfoi? Mundoco, imagemalogrou. Como foi mesmo, hem? Ela nua me levou para uma solenidade hierogâmica. Estava perdido e nada sabia. Era um simples mortal com o talismã da morada, ora diante do leão, ora da pomba. Ela havia chorado a desgraça como se sentisse as dores do parto e vociferou soberana, com sua bela voz para Ninlil sem Enlil, Ereshkigal sem Nergal, Babu sem Ningirsu, mais Nana, Ininni, Ninharsag, todas e as tríades delas: Acaso dei a luz ao meu povo para que seja dizimado entre si? Os deuses inexoráveis: todos fraquejaram e tentaram contra eles. Irritados com a ignominia, infligiram o golpe desditoso, torturando infortunados. Ela protestou: Estamos cercados de demônios para fazer os meus sua presa, são os sete da montanha do ocidente, crescidos na montanha do levante, habitantes dos buracos da terra, cobertos de brilho! Nadadiantou. A deusa-grão Nidaba braçabertos para me proteger e contou da Criação: Prepara-te. Que tu e eu combatamos. Perdi a razão e fiquei fora de mim, quase chorei. Ela recitou um encantamento da fórmula mágica que o Georges Conteneau escreveu sobre as mulheres de Assur e Babilônia. E depois me fez fugir para salvar nossas vidas. Em fuga cruzei com saudoso centenário Pelópidas Soares: Outro sol se levanta... E eu não via porque havia pressa em tudo, o mundo enlouquecido. E foi preciso que a escritorespanhola Elvira Navarro Ponferrada me avisasse: Não quero dizer que estou fazendo algo super novo, mas para mim é, estou passando por territórios que não tinha explorado antes, e isso é o que é divertido, o que é estimulante. É isso que me interessa como criadora, não concebo que a criação possa ser diferente. Tenho a impressão de que muitas coisas chamamos de periferia. Mas nossas próprias regiões de sombra também estão na periferia, tentamos não vê-las e encurralá-las. E me apontou para a Vitória Régia como se eu fosse o deus do seu panteão e não era: um desvalido a mais no pesadelo da existência. Até mais ver.

 

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domingo, janeiro 09, 2022

MAURICIO ROSENCOF, MONIKA LUNIAK, MICHAEL PALMER & GENINHA ROSA BORGES

 

 

TRÍPTICO DQP – Diário da memória... - Ao som dos álbuns Open Source (2020), Fullblast (2009) e No Gravity (2005), do compositor e multi-instrumentista Kiko Loureiro. – Um dia noutro como se o futuro fosse o presente que insistia no passado. Não mais ontem, chega! Agora arrombava inclemente com o que os alienômanos insistem em manter de suas platitudes, mimetizam o que ouso, emulam o que detesto. Se o tom distópico é mais que sinfonia inaudível, meus olhos sabem o que não viram. De resto um voo sem águia por companhia, pés nas folhas e o aroma da infância era eu menino da beira do rio, rompendo o que restava de ínvia mata feito aquela pequenina Maelys que se deparou com a nudez pálida de Brune Renault, dada pelo Cadavre exquis (2012) da Léa Mysius. Ali fiquei a vê-la desacordada entre juncos, como se fosse esperança de quem se realiza no destaque pros olhos do paraíso. Cuidei dela por horas, na verdade fui mais buliçoso que providente, até arrastá-la ao abrigo inventado da minha solidão de nunca mais voltar para casa. Estendida na cama improvisada cultuei como se morta não estivesse. Sim, aquela pele era tudo dos seus despojos acaso eu pudesse renascê-la do meu íntimo de sonhos pouco prováveis. Foram dois dias até mexer as pálpebras e me achar mais desamparado, como se espantasse com minha companhia jamais vista. Aos poucos recobrou os sentidos e revitalizada disse-me buscar os faróis da alma de RuPaul que nunca soubera e que vicejou porque podia ser Béatrice Lourmel, a tenente da Transferts (2017). Viu-me os olhos perdidos e me disse John Green reticente: Meus pensamentos são estrelas que eu não consigo arrumar em constelações... A verdade resiste à simplicidade. O que fazer diante daquilo era o que mais me chamava atenção e adormeci entre seus braços e seios, não previa reencontro nem quando.

 


A viúva inominada... - Imagem: arte da pintora polonesa Monika Luniak. - Não, era outra e sequer sabia a razão pela qual revia depois de décadas insones e anos perdidos, aquela viúva cujo nome não poderia ser dito nem lembrado. Estava coberta por um véu que recaía da cabeça ao peito, deixando à mostra apenas os lábios aliciadores e parte da face desmaiada. Enviou uma mensagem distante por um pombo-correio porque se aproximava o Carnaval do Arlequim de Miró e eu era o seu convidado. Nem bem o abraço ardente, alisou minhas faces, deu-me as costas e saiu com um aviso de espera. Logo revia Bagoas a me saudar com a notícia da blitzkrieg no Império Bizantino: Ah, apronte-se que vamos pro Cabaré Voltaire! Hem? Era tudo muito desconexo, aliás, como a vida sempre foi em mim: um quarto escuro. A lembrança era a voz dela ao meu ouvido. Vi-a chegar do inopinado: o Violino d’Ingres: ela como se fosse a minha Kiki do eu Ray. Levou-me nua a passear pelo adro do grande pátio das Murtas, na arquitetura de sonhos do palácio Jenna el-Arif que nunca vira antes, e percorremos o estreito onde jorram jatos de água até atravessar a sala da Bênção, a das Duas Irmãs, para chegar na dos Segredos com suas alcovas e banheiras de mármore. Levou-me até o gineceu onde escravas aguardavam-na para o hammam. Dispensou todas, exceto o eunuco que a encaminhou à terma privada. Sentou-se sobre um banco de mármore para sauna e o serviçal untou seu corpo com ocra esfregada para depois enxaguá-la com massagem. Encerrando o ritual enrolou-a numa toalha de esponja cor de romã e a fez repousar. Tudo assistia. O emasculado piscou um olho: Aprenda. Deu-lhe hidromel e depois poliu seus dentes com pedra-pome, com a oferta de uma mistura de nácar, casca de ovos e carvão moído. Mascava bételes e viu-me ali desconfortável. Sorriu-me enquanto cochichava algo ao ouvido do escravo e saiu com um adeusinho na ponta dos dedos. Ele atravessou comigo corredores que deram num amplo salão. Lá estavam várias pessoas estranhas. O poeta Abu Nuwas que disse cheio de graça: Menos de cinco é a solidão; mais de cinco, é o bazar! Todos riram. E fui convocado à festança enquanto o semíviro me confidenciava ser ele o seu amante, advertindo que seria jamais de bom tom servir juntar duas iguarias que não combinassem, demonstrando ser um excelente conhecedor tanto da exegese corânica como da arte culinária, lançando-se em uma longa e brilhante dissertação gastronômica. Apenas foi interrompido pela muito simpática poeta Zamab que falava doutro, o Al-Shereshi: A morte apodera-se de todos. O luto é mais triste que a brancura dos cabelos. Viu-me e sorriu. Depois ela recitou poemas sobre sexo e vinho, e contou de uma sessão do hammam que foi a mais dura prova de sua vida: Se eu soubesse antes o que me iriam fazer passar, eu teria sem dúvida renunciado ao casamento. E contou sua desdita. Todos riram e ela recitou O colar da pomba e a triste sina de Ibn Hazm. Houve quem mencionasse sobre a caminhada aviltante, e ouviu por resposta que só se salva da Lei de Talião nos Lupanares de Andaluzia. Gargalhadas de todos quando apareceu alguém que soou como interdito. Apenas sei que era abstêmio e ofereceram-lhe uma bebida com a indicação no rótulo: Suco de frutas, Lojas de Ishaq al-Wasoto. Serviu-se e sentou-se com empolgação, agarrando a garrafa e virando copos, um atrás do outro, alegando sede dumas três garrafas. Assim dispuseram e dali a pouco o estranho desmoronou completamente embriagado. Quem? Silêncio total. Arrastaram-no não sei para onde. Fiquei só, avalie.

 


Lição de sobrevivente – Imagem: gravura do artista visual sul-africano William Kentridge. – Que dia era, se sexta ou sábado, só sei que revi aquela sonhada com seus cabelos acobreados e unhas brilhantes, como se chegasse na liteira para me surpreender alta madrugada, tal Giselle Beiguelman a me falar do egoscópio e sua poétrica, como das retóricas visuais e biopolíticas do mundo covídico. Não tinha eu mais que o horror de saber qual seria o meu verso se a formiga sequer precisava do viés moral nem nunca distinguiu o carvão do diamante, nem decifrou o círculo de Giotto, ou do Ensō, muito menos da autobiografia dos versos de Michael Palmer: Às vezes temos que bater no fundo antes de descobrir a vida. Nunca compare o seu interior com outra pessoa do lado de fora. A presença dela era magnífica em todos os sentidos, meus órgãos festejavam e nem cabia em mim mesmo, já dela e para ela. Foi preciso que uma semana ou mais dias, não sei, para ter a dimensão da posse dela sobre mim. Se ouvisse Douglas Adams saberia: Não acredite em nada que você lê na rede. Exceto isto. Bem, incluindo isso, suponho. Resumindo: É um fato bem conhecido que todos que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. E não discernia de nada, se tivesse saída ou reconhecesse um novo renascimento, nada impossível. Só que ela chegou como se fosse Geninha da Rosa Borges: nascedouro e permanência. Era nela que eu revivia o que mais desejava, não fosse a ausência quase suicida. Onde? Deu-me uns versos de Mauricio Rosencof: se este fosse meu último / poema, / insubmisso e triste, / roído mas inteiro, / uma única palavra escreveria: / companheiro. E tal como ele diria: Eu sou os que foram. E se nos perdemos mais de uma vez, a festa não era só o reencontro: era dela a alma. Foi aí que enfrentei meus monstros e o abismo outra vez na ampulheta do peito vazio, legado de xexéu escasso porque a flurona roubou a eudaimonia e o diploma – o pergaminho da superstição popular de Lima Barreto, que deu para mim o mesmo triste fim de Policarpo: Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança, não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Cada um agora está mais vivo que antes, apesar de tudo. Nada mais. Vidaviva, vivavida. Até mais ver.

 

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