sexta-feira, agosto 23, 2019

GAUGUIN, NAZIK AL-MALAIKA, ASCENSO & OSCAR MENDES, DANI ACIOLI, ALOISE BAHIA & INJUSTIÇA


TEHURA DE GAUGUIN – Chega uma hora em que se tem que se valer só de si e o que fazer da vida. Emigrei com Le mariage de Loti, e o meu diário de viagem, Noa Noa. Na busca incessante por criar, saí de casa para ter paz e tranquilidade, me livrar do mundo decadente, abandonado por todos. Atravessei privações, doenças, indigência e incompreensões. Estava sufocado, tudo podre ao redor, enregelante situação. A quem amava, via-me pelas costas, intolerante, esperneio de mimada. Tudo numa degradação física e psicológica, entediado com o mundo das artes, aventurar além-mar era o que podia: havia vida além da contaminada civilização, tinha certeza. Viagens e boêmia mundo afora, o que pude, e nele todas as mulheres do Panamá, Peru, Copenhagen, Bretanha, Martinica, Brasil, Polinésia, até o Taiti, onde encontrei colorido, inspiração e liberdade. Insulado, descurava: a podridão colonial espancava uma prostituta à beira-mar. Indignação de encarar meu arredado exílio voluntário, miserável entre o bucólico exótico e selvagem erótico. Era tudo isso. Permaneci entre as ninfas de Corot, dançando no bosque sagrado de Ville-d'Avray e os infinitos mistérios cambiantes. Não havia como escapar e a vida na pobreza de Papeete, ao lado da doença, falência e miséria. Sem mantimentos, incapaz de pescar no Platô de Taravao, tropecei faminto, exausto, até desmaiar na volta para La Maison du Jouir, minha cabana, meu abrigo solitário com a diabete, a sífilis e um ataque cardiovascular. Ao acordar, a bela jovem Tehura dançava sensualmente à luz do fogo, na ilha vulnerável de Fa’ane, inspirando Manao tupapau - Espírito dos mortos em vigília. Uma menina-moça de Huahine, era ela, na verdade, Teha’amana, a doadora da força, impenetrável, com a flor tiare vermelha no ouvido, uma cicatriz na sobrancelha direita, de uma queda dum pônei na infância. Realçava essa Eva primitiva, nativa vahine, entre mangas maduras, glifos, o mar azul-turquesa, paisagens verdejantes, montanhas sombrias e rostos de pedra divididos por cachoeiras espumantes, um paraíso edênico. Durante a refeição formalizei meu amor por ela, ao dispor de frutas silvestres, sabores de fruta-pão, bananas, peixes, camarões e porcos. Ofereciam comida aos forasteiros, um ato de caridade. Cheio de felicidade, entre beijos e sexo, conversamos sobre as estrelas e me contou histórias de sua gente, para embalar meu coração exilado: O enigma que se esconde no fundo de seus olhos infantis ainda é incomunicável para mim. Ela deslizava por um bosque daquela desabitada beleza num vestido branco sensual, para ir à igreja. Os seus olhos azuis nórdicos agitou-me a rebeldia: essa barbárie me rejuvenesceu. Esculpi seu semblante, o meu terno amor. Dei-lhe colares de miçangas e anéis de latão, e para ela fiz a Merahi metua no Tehamana, o busto Tête tahitienne e uma escultura em madeira. Uma paixão tão dolorosa, circunstâncias terríveis, a vida explodiu. Deu-me o místico pensar: De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Meus olhos se fechavam e, sem entender, viam o sonho no espaço infinito que se estende, esquivo, diante de mim. A natureza exuberante e indomável, intimamente. Permanentemente empobrecido, me vi numa frustrada tentativa de suicídio com arsênio: sou escravo da sensualidade febril das mulheres polinésias. As minhas feridas sifilíticas fizeram-na me recusar. Conflitos, efeitos da doença, as manchas de pele ao Sol, a barba mal feita, um olhar alucinado, a penúria de uma vida marcada por frustrações. Não era pouco, pior a sua recusa. Passava fome, trabalhava como estivador, a saúde extremamente debilitada. Falo francamente: sou difícil e podem me chamar de hedonista. Fiz para me livrar das convenções e desbravar a vida libertária. Sei das minhas questionáveis escolhas entre o sonho e a loucura, era o meu projeto de vida inteira. Nunca fui fácil nem herói incólume, um vasto abismo: tudo muito delicado. Eu amei, muito. Dei-me o direito de ousar tudo e não neguei meus mestres. Amei com a minha possessividade sexual, a alma invadida por lembranças profundas. Amei demais e nunca me contentei em sonhar: a vida vinga o sonho na poesia. Amei desmedidamente e embora pensem que sou um mito ou algo inventado por todos, sou apenas o amor e a quem amo, mesmo incompreensível. Contudo, sou forte porque nunca sou jogado fora do curso por outras pessoas e porque faço o que há em mim. Tanto sofrimento me fez aprender e me libertar no amor e para me enterrar aqui nas remotas ilhas de Marquesas, a morrer de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Utilizando a temática que a vida nordestina lhe fornecia, compôs seus poemas, cheios de ternura e de ironia, de romantismo e de malícia, fixando, muitas vezes, num verso, numa frase, um aspecto típico da região, de um personagem, da psicologia de uma sociedade e de um povo. Gostava de, ele próprio, declamar seus versos, numa toada de jeito popular, que dava um sabor e um toque todo especial à sua poesia. [...] em que reevoca a vida nordestina, o seu folclore, os seus costumes, as suas figuras típicas, tudo numa misturada de malícia, de sensualidade, de ironia, de sátira, de sentimentalismo, de romantismo, de alegria e de tristeza, que tornava sua poesia de sabor inesquecível. [...] Escrevia, sim, em muitos dos seus poemas, na linguagem simples do povo, com seus modismos, seus idiotismos, mas não descurava de fazer poemas em linguagem correta e letrada. A sua poesia estava toda impregnada da sua terra, do seu barro, das águas de seus rios, de seus mangues, das suas frutas, da sua viração, das suas noites de luar, do dengue de suas mulheres, de suas alegrias e de suas dores.
Trechos da crônica O grande descanso de Ascenso, extraído da obra Tempo de Pernambuco – ensaios críticos (EdUFPE, 1971), do advogado, crítico literário, tradutor e escritor Oscar Mendes (1902-1983). Veja mais da obra aqui & de Ascenso Ferreira aqui.

A POESIA DE NAZIK AL-MALAIKA
CALENDÁRIO: Para os nossos passos houve um passado; está morto / Por centenas de anos. / Os anos apagaram sua memória / E eles o colocaram entre os mortos. / Nós procuramos por muito tempo / Suas estrelas desaparecidas / Nós recorremos ao impossível / Para restaurar sua vida. / Nós tentamos, atravessando os séculos, / Traga-o de volta ao seu começo, / Na esperança de recuperar nossos sentimentos, / E nós retornamos de mãos vazias. / Nós passamos pela escuridão / Franked o impassível, imóvel, / Desenterrando ossos empilhados / E nós não encontramos o perdido. / Nós vimos frentes lá / Que eles não viram porque eram cegos, / Olhos auto-absorvidos na vida / Silencioso, porque eles eram mudos. / Nós vimos restos de corações / Embalsamado com a memória. / Em vão tentaram encontrar / O significado... eram restos. / Nós vimos lábios vazios / Eles não fizeram reclamações ou sentem fome / E mãos murchas e dobradas / Cujo infortúnio não causou lágrimas. / Nós nos perguntamos sobre o nosso passado / E nós nos deparamos com um caixão. / Lá, no túmulo, o tempo se desvaneceu. / Voltamos ao calendário: / Você pode enganar os dias? / E ouvimos gritos nos restos / Depois do sarcasmo das figuras. Nós vimos o esperado amanhã / Arrastando sua metade paralisada, / Arrastando sua metade desprezada, / Está meio congelado, inerte. / Lá, um livro fechado / E a velha música acabou. / Amanhã a vida germinará / Nas feridas do tempo doloroso. / A voz de ontem será perdida / No turbilhão profundo do tempo / E nos sentiremos em nossos óculos / A palpitação do sonho que acorda. /
Poemas da obra Faíscas e cinzas (1949), da poeta iraquiana Nazik Al-Malaika (1923-2007). Veja mais aqui & aqui.
&
POEMAS DE JOSÉ ALOISE BAHIA
O PAÍS QUE NÃO CONHEÇO DEU-ME UM BISAVÔ: o país que não conheço deu-me um bisavô, / navegante simples em seu barco cheio/ de peixes, que sempre volta à terra firme. / o país que não conheço deu-me um bisavô, / encantador de histórias do céu, fogo e ar. / lá no meio da baía vislumbra um castelo./ lá no meio da baía vislumbra um cardume./ o país que não conheço deu-me um bisavô, / bisavô dourado feito sol em ondas extensas, / bisavô que tarda e não falha a içar às velas, / bisavô que cedo madruga: que faz despertar / o mar que em mim se agita, me embarca / em tamanha travessia e liberta imagens / que chegam num turbilhão de norte a sul...
SONETOS NUM CORPO DILACERADO: Pelas fagulhas cortantes do desejo, de tão quente, queimam o rosto. Bambeiam as pernas. Faz amolecer os braços. Dispara a circulação. Ofega o pulmão. Decepa tudo. O tronco subsiste devido à presença do suco gástrico recheado de 14 linhas apropriadas contra o ataque de qualquer veneno disponível no campo do olhar.
NOVELO NUM CARRETEL: De uma infância distante e radical, onde rolavam cilindros dinâmicos, para um fluxo maduro: a desintegração num encontro explosível em manchas de cores aleatórias. Fundo, forma espaço — embate pessoal nas entranhas. Evidências do impossível no labirinto branco da tela revelam uma ponte: Minotauro palpitante.
Poemas do poeta e jornalista mineiro José Aloise Bahia. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu tenho uma produção que surge num repertório. É um repertório de construção do feminino, da mulher no mundo, na história, sobre como a gente sempre foi subjugada na construção de uma identidade cultural feminina. O lugar do feminino nessa relação sempre foi uma construção social de subjugação, de ser colocada no lugar da castidade ou no oposto disso.
A arte da artista visual e jornalista Dani Acioli. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE GAUGUIN
Devo confessar que também sou mulher e que estou sempre preparado para aplaudir uma mulher que é mais ousada do que eu e é igual a um homem na luta pela liberdade de comportamento Eu fecho meus olhos para ver.
A arte inspirada na sua musa Tehura – a vahine, ou seja, a esposa nativa taitiana também nomeada Teha'amana, que é tratada no filme Gauiguin: Voyage to Tahiti (2017), dirigido por Edouard Deluc e inspirado no diário Noa Noa (Poseidon, 1943), quando o pintor Paul Gauguin decidiu por conta próprio exilar-se no Taiti. Lá ele espera reencontrar a pintura livre, selvagem, fora dos códigos morais, políticos e estéticos europeus, enfrentando a solidão, a pobreza e a doença. É quando ele se reúne com Tehura, a quem dedica terno amor e a transforma em tema de suas obras.
Veja a obra do pintor do pós-impressionismo francês Paul Gauguin (1848-1903) aqui, aqui & aqui.
&
Dia Internacional de Combate a Injustiça aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, agosto 22, 2019

DOROTHY PARKER, BENTO PRADO, HENRI CARTIER-BRESSON, MÔNICA MARTELLI & ENQUANTO A AMAZÔNIA AGONIZA...


ENQUANTO A AMAZÔNIA AGONIZA... - O Brasil, não se sabe como, sobrevive: levando no bambo entre baboseiras e avarias, aos trancos dos arremedos, emulações, simulacros. Tanto mau gosto, avalie. Tem gente para tudo: os que não se reconhecem, nem a si nem aos outros, e se tratam por gente inculta e feia, com suas mesuras de Jecas e Macunaímas: canibais que se fartam da hipocrisia às cipoadas de aprendizes de feiticeiro, às graves ofensas extemporâneas, perdidos nas encruzilhadas desse mundão arrevirado e de porteira escancarada. Quando não engulham hipnotizados com o noticiário escandaloso e questionável dos plumitivos oficiais, a misturar razão com sentimento, crendice com parafuso, responsabilidade com dever, tudo a mesma bosta onímoda, ora! Dizem de si por melhores que os outros: se acham. E se passam por moralistas a desancar gregos e troianos, quanto disparate nas diatribes: tudo com o rabo de fora, endeusando qualquer justiceiro de meia pataca e a crença nos políticos que esfregam as mãos e lambem os beiços de segunda a segunda, que nem cantiga de grilo, e mentem chega o cu apita. Gente que bate no peito o aperto do juízo e juntam umas merrecas, carro para passear, qualquer casebre é palacete: mais parece lápide ou sanitário público com suas calçadas escorregadias; bossam de pular no rio, amostrados, a boia furada: Chamem o bombeiro! E dão conselhos às novas gerações já de cabeça vetusta pelo passadismo e nariz no quintal alheio: festeiros varridos, engasgados com as grifes paraguaias e as sereias do consumo, flagelados anseios por mão beijada só para haurir vida boa e lambuzada à tripa forra – desgarrados falsos nostálgicos, aprendem a gastar energia despendida com ajeitados e corrupios do jeitinho, sem distinguir ouro de merda e reclamando da violência, como se fosse nada demais furar fila, avançar o sinal e se arrumarem incólumes como se fosse polícia à paisana na maior carteirada. Não sabem o que será do Brasil de uma hora para outra, ninguém; nem onde vai parar esse trem desgovernado: esgotado pela carestia, esmagado pelas canalhices e covardia. Tantos. Enquanto a Amazônia agoniza... as queimadas na farra de ruralistas e grileiros armados até as pestanas com sua capangagem, o Brasil, não se sabe como, sobrevive: quentura de rachar, frio de tremer. Impunidade e tergiversações. E ainda dizem que a Mãe Natura endoideceu. Afinal, quem é são no meio dessa medonha doidice, ora. Resta o sorriso para curar a humanidade, quem há de. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] É incontestável, assim, que não há no Brasil um conjunto de obras filosóficas que componha um sistema ou uma tradição autônoma. Mas, justamente por isso, talvez possamos falar de uma experiência particular da filosofia no Brasil, que tem essa carência como horizonte. Talvez, a maneira mais adequada de descrever a situação da filosofia do Brasil seja a de mostrar como os pensadores assumem essa carência da cultura nacional e como interrogam, através dela, a possibilidade de sua própria filosofia. [...] Muitos são os estudos sobre a filosofia no Brasil e cada um traz consigo não só uma imagem diferente do que foi a história de nosso pensamento, como também uma ideia diversa da natureza da própria filosofia e das tarefas do filósofo num país subdesenvolvido. [...] Talvez a expectativa de uma “filosofia brasileira” esteja, de fato, essencialmente associada a essa perspectiva política, cuja inconsistência veio à luz com o golpe militar de 1º de Abril de 1964. Talvez seja por essa razão, ainda, que a preocupação com a filosofia brasileira ou com a sua história seja tão rara entre as mais jovens gerações de estudiosos de filosofia [...] e protestam menos – ou de maneira diferente – contra o caráter “técnico” dos cursos que recebem. Se isto for verdade, a “atmosfera” que procuramos descrever nestas páginas já não será tão atual. Mas as “atmosferas” só se tornam visíveis e descritíveis quando já não são “vividas” sem distância e iniciam o seu eclipse.
Trechos extraídos da obra Alguns ensaios: filosofia, literatura e psicanálise (Paz e Terra, 2000), do filósofo, escritor, professor, crítico literário e tradutor Bento Prado Júnior (1937-2007).

O TEATRO DE MÔNICA MARTELLI
Somos mulheres independentes, trabalhamos e somos exigentes. A gente não quer só um cara que ponha presunto e leite dentro de casa. Queremos um parceiro que nos incentive.
A premiada peça teatral Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou (2011), da atriz Mônica Martelli, trata da vida das mulheres solteiras e da incessante busca por um grande amor, numa visão bem-humorada da mulher do terceiro milênio: independente, bem-sucedida e com dificuldades de encontrar um homem que saiba compartilhar tal liberdade. De uma forma bem divertida, Fernanda, 35 anos, solteira, jornalista que trabalha com festas de casamento, está em busca do amor e se envolve tão intensamente com os vários tipos de homens que chega a ficar muito parecida com eles, independentemente do físico, da condição social, racial ou econômica. Em algum momento, cada um dos rapazes se mostra o grande amor de Fernanda. Ela se relaciona com um político, um rico playboy, um alternativo do sul da Bahia e um gay. O tempo que gasta com os homens daria para ter dado uma volta ao mundo e ainda ter estudado a história de todas as civilizações. A vida para ela sem um amor é uma vida em preto e branco. A peça teatral foi transformada em filme e série de televisão. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração. Afortunado realmente é o homem conhece precisamente a si mesmo e tem uma noção correta entre o que ele pode conseguir e o que ele pode usar.
A arte do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Veja mais aquiaqui e aqui.

A OBRA DE DOROTHY PARKER
Quando você jurar lhe pertencer, arrepiada e sorrindo, e ele te jurar seu amor ser imortal, infindo - moça é bom escrever: Um de vocês está mentindo.
A obra da escritora, dramaturga e crítica estadunidense Dorothy Parker (1893-1967) aqui e aqui.
 

quarta-feira, agosto 21, 2019

VARGAS LLOSA, MAURO LEONEL, ISABEL MARQUES, BELTANE & ABRAÇADOS NO FOGO


ABRAÇADOS NO FOGO – Uma vareta de madeira dura, a sua fricção numa covinha feita num ramo seco de palmeira, a faísca, eis o Sol refulgente no horizonte à palma da mão. Um graveto, a brasa, um tição, e se alastra da chama para as labaredas: não há vida sem fogo, vive no ar. Um elemento cosmogônico, símbolo sagrado nos rituais dos meus ancestrais. Dizem: de Akasha se originou e é usado desde então: a luz, o verão, o calor e a expansão, doa vida e preserva; desagrega, decompõe, dissipa e fermenta, a combustão: queima ao ser aquecido ao ponto de ignição. Com ele as fogueiras aqueciam no frio, afugentavam animais selvagens; iluminavam os caminhos e a locomoção nas cavernas; cozinha alimentos, produz cerâmicas, molda metais, vapor, borracha, tijolos. Dele, outros ditados: Fênix para o Sul, o Dragão, a Quimera; da salamandra que dele se alimenta: a justiça e paz, renovação, superação, proteção e amor à natureza. Tatwa Tejas, o triângulo vermelho dos hindus, Deus-Pai dos Wicca. Daí em diante, da iniciação à iluminação: hora de comungar de si ao Um, tudo e todos. De todos os benefícios, trapaceiros prosperam, ignorantes sucumbem. E ao usá-lo para limpar a terra, as abomináveis queimadas e o desmatamento afetando habitats de plantas e animais, a extinção – o culto da morte. O que chamam de fim apocalíptico, o crime insano de atear fogo em vegetações nativas contra a humanidade. De cada um a soberba ou humildade, abraçados àquele casal tragicamente carbonizado estamos nós. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
A introdução do uso indiscriminado da queimada, como técnica de preparo dos terrenos para a agricultura, é atribuída equivocadamente aos povos tribais de floresta. Tanto entre cientistas, quanto entre leigos, a crença de ser o uso descontrolado do fogo um legado indígena é tida como verdadeira. Monteiro Lobato foi mais longe, atribuindo a destruição de recursos naturais pelo fogo ao desprezado caipira, que teria recebido tal legado do seu ancestral índio. Estas interpretações não levam em conta a degradação humana, a perda da solidariedade e da mútua ajuda que decorrem, por sua vez, da perda do domínio do pequeno produtor familiar e do grupo tribal sobre a terra motivada pela concentração fundiária, que passou, com a agricultura colonial de exportação, ao controle dos grandes latifúndios, destruindo as culturas de subsistência e a troca de excedentes, em favor da monocultura. [...] a diferença entre o uso que os índios e as culturas de exportação fazem da queimada não é apenas identificável na escala da área desmatada, mas na sua integração e adequação com o meio: a indígena, permitindo a recuperação da floresta, promovendo a diversidade e o adensamento; a não-indígena, queimando e desmatando de forma irreversível. As primeiras levas de seringueiros que entraram na Amazônia, por terem sido conduzidas pela mão do índio foram menos predatórias. Os colonos e pecuaristas do último surto de ocupação contaram com US$ 1 bilhão em incentivos para queimar, e os lotes de colonos que apenas seriam reconhecidos se fossem queimados, eram considerados pelo Incra como produção, ao contrário do saber indígena. Os últimos 30 anos, com o avanço descontrolado da fronteira, é que vieram dar o sinal de alerta até o ponto atual em que o Brasil se encontra por causa do desmatamento por queimada: entre os dez países mais poluidores do mundo em emissões de gás carbônico, podendo, segundo cenários apresentados por estudos do Inpe na última reunião da SBPE, comprometer a temperatura da região e do planeta. Além disso, corre o risco de savanização de amplas faixas da atual cobertura florestal, repetindo o passado de destruição da Mata Atlântica. Das 280 milhões de toneladas de carbono emitidas pelo Brasil, grande parte seriam devidas ao desmatamento por queimadas. O modo adequado de uso dos recursos naturais pelos índios na floresta tropical deveria, assim - ao contrário da crença arrogante e preconceituosa -, orientar a correção dos antigos e dos novos assentamentos, adicionado às contemporâneas pesquisas agroflorestais e de mercado, privilegiando a agricultura familiar sustentável, compatibilizando o ecossistema com as necessidades sociais de milhões de brasileiros.
Trechos extraídos do estudo O uso do fogo: o manejo indígena e a piromania da monocultura (Estudos Avançados, 2000), do professor e pesquisador da USP e da Unesp, Mauro Leonel.

O FOGO
Imagem: Fire, art by Kostas Korovilas.
ORIGEM DO FOGO: Outrora os índios viram o macaco acendendo o fogo e aprenderam a acendê-lo do mesmo modo.
[...] Ficando só, o macaco atritou com as mãos um galho com outro e obteve chama e luz. Acendeu lenha, assou o peixe e depois saboreou. [...].
Trechos extraídos da obra Os Bororos orientais(EN, 1942), de Antonio Colbacchini e César Albisetti.
O ROUBO DO FOGO: Em priscas eras o urubu-rei foi dono do fogo. Por isso, os Tembé secavam a carne expondo-a ao calor do sol. Então resolveram roubar o fogo do urubu-rei. Começaram por matar uma anta. Deixaram-na estendida no chão e, depois de três dias, o bicho estava podre, bulindo de vermes. Vendo a carniça lá embaixo, o urubu-rei desceu acompanhado de seus parentes. Para melhor se banquetearem despiram a vestimenta de penas, assumindo a forma de gente. Tinham trazido um tição aceso e com ele fizeram grande fogueira. Cataram os vermes, os envolveram em folhas de mato e assaram. Os Tembé que se mantinham escondidos, à espreita, tocaram para lá. Mas os urubus bateram as asas e levaram consigo o fogo para um lugar seguro. Assim, os índios perderam o trabalho de tantos dias. A seguir, fizeram uma tocaia ao pé da carniça e um velho pajé ali se escondeu. Os urubus voltaram àquele lugar e fizeram seu fogo, desta vez bem mais próximo da tocaia. – Quando eu fugir, levarei comigo um tição aceso! -, disse o pajé consigo mesmo. quando os urubus despiram sua vestimenta de penas, viraram homens e se puseram a assar os vermes, ele deu um pulo para a frente e os bichos ficaram espavoridos. Correram para suas vestes de penas e começaram a vestir-se, atabalhoadamente. O velho aproveitou-se da confusão, pegou um tição aceso e fugiu. Os pássaros juntaram o resto do fogo e voaram, levando-o consigo. Então, o pajé ateou fogo em todas as árvores com as quais hoje se faz fogo e que são: urucuiva, cuatipuruiva, ivira e muitas outras.
Extraído da obra Mitos dos índios Tembé do Pará e Maranhão (Sociologia – ESPSP-MME, 1951), de Curt Nimuendaju Unkel. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Cenas do Beltane Fire Festival, um evento anual de artes participativas e drama ritual, ocorrido em Calton Hill, em Edimburgo, na Escócia. É um evento inspirado nas tradições gaélicas e no antigo festival celta de Beltane, realizando danças pagãs e elementais, com exibição deslumbrante celebração do fogo, pela passagem da primavera para o verão. Veja mais aquiaqui.
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CORPOS CIDADÃOS DE ISABEL MARQUES
[...] Corpos cidadãos, nesse sentido, não são apenas aqueles a quem outros outorgam o direito de dançar. O corpo cidadão é um corpo que escolhe dançar, que pode escolher o que dançar, como dançar. O corpo que pode escolher, assumindo e refletindo criticamente, sempre, sobre suas escolhas, pode escolher também como dialogar com o mundo em que vive. Face da mesma moeda, corpos cidadãos deveriam se comprometer com a construção desse mundo, dançando. Ao propormos a educação de corpos lúdicos em nossas salas de aula de dança, propomos também a possibilidade de que esses corpos sejam capazes de criar e de recriar suas danças e, assim, a sociedade. Ao sugerirmos a educação de corpos relacionais, acreditamos na possibilidade de olhar, de perceber e de articular danças entre pessoas. Ao sermos capazes de criticar em nossos corpos, ou seja, dançando, seremos também capazes de construir e desconstruir o mundo em que vivemos. Enfim, ao apostarmos na educação de corpos cidadãos em salas de aula de dança estaremos também apostando na capacidade dialógica dos corpos que dançam e, assim, na capacidade humana de “sair da concha” e de estar no mundo com seus corpos.
Trecho extraído do estudo Notas sobre o corpo e o ensino de dança (Caderno Pedagógico, 2011), da bailarina, coreógrafa e professora Isabel Marques, que é autora de diversos livros na área e diretora da Caleidos Cia de Dança. Veja mais aqui.

A OBRA DE MARIO VARGAS LLOSA
Você não pode lutar consigo mesmo, pois essa batalha tem apenas um perdedor.
A obra do escritor, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010 aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, agosto 20, 2019

PUSCHKIN, CORA CORALINA, DÉCIO PIGNATARI, MEDINA AYLLÓN & BAILE PERFUMADO


NATALIE DE PUSCHKIN – Ah, Natalie, para quem sempre celebrou a liberdade, você surpreendeu minha vida de exilado pelas guerras e insurreições. Aquele inverno no mundo e na minha vida, uma menina tímida naquele baile, já cobiçada deusa da aldeia Karian, rainha de Tambov, o presente do meu destino: nunca tinha visto ninguém mais linda, nunca. Não bastava seu pai no mundo da lua, a sua mãe irritadiça, religiosa fanática, difícil, e eu um reles sujeito com versos no coração e nada nos bolsos. Que podia além da minha perseverança, se nem havia chão para abrigo. Quando me disseram não, deprimi – o oco do mundo no peito e a dor lancinante da desgraça. Na solidão do Cáucaso, escrevi: Quando a vi pela primeira vez, me apaixonei. Eu pedi a sua mão, pleno de rosas no ar, a resposta de quase enlouquecer. Graças a Tolstoi pude acessar sua casa. Ainda bem, enfim, o consentimento: renasci e me tornei feliz, apesar do anel no chão e a vela se apagar aos maus presságios. Nada podia superar minha felicidade ao seu lado. Não havia de ser nada. A ida para Moscou me deixou estúpido, sei. Ainda bem que em São Petersburgo estávamos felizes e você radiante, a mais linda do lugar: era a minha vida, a vida de poeta libertário e descendente feio de negros, não valia nada. Na sua ausência escrevi setenta e oito cartas para a madona do meu poema – avistei o Bridgewater Madonna de Raphael e a sua presença era real. As senhoras ao meu redor implicavam para ver-lhe o retrato. Elas não perdoaram por não tê-lo. Insistiam. Usei de Rafael e do poema, diante da imagem da minha Madona loira por consolo. Ela se parecia com você como duas gotas de água, e eu compraria se não custasse tanto. Nunca esperei por um amor grande e puro do centésimo décimo terceiro amor. Nunca esperei nada. Minha musa, o meu eterno amor, a cigana previu que seria exatamente por isso que eu morreria: de amor. Você me deu vida, eu só a morte. Estava escrito. Ao vê-la de joelhos, chorosa: Use luto por um tempo. Então se case com um bom homem. Sangro. Sangro no coração e nas vísceras. Lutei, lutaria com quem mais aparecesse; e lutarei por você até me tornar, apenas, uma estátua ao seu lado. Até sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Povo infeliz, terra infeliz. ...Nós começamos com a ideia de "revolução agrária", que depois foi amenizada para "reforma agrária", que virou "revisão agrária", que se transformou em "estatuto da terra" - que já não significa mais nada. [...] Terra desgraçada, povo desgraçado. [...] Para nós, o osso - para os outros, o filé. A nós, só nos são dados assistir os primeiros ensaios, as primeiras fofocas, os primeiros cortes, os primeiros jogos de entrosamento contra esparros de categoria inferior e média. Assim que o quadro começa a tinir - vai-se embora. Cobre-se de biglórias lá fora e volta para recepções apoteóticas e mal tem tempo para algumas exibições extras (a maioria, no exterior), porque logo os clubes reclamam os direitos sobre os seus craques - e a seleção se desfaz. E começamos tudo de novo: embora mais desdentados do que tamanduá, já nos acostumamos a roer ossos. Para o povo brasileiro, o desespero-é-um-hábito - e a esperança, um vício. Povo infeliz, terra desgraçada. [...] Terra infeliz, terra desgraçada. [...] Povo infeliz, desgraçada terra. Acredito que os leitores, sorrindo mentalmente, gostariam de lembrar-me que, nisto tudo, voltei a esquecer do tutu, dos dólares. Não, não esqueci - esquecer quem há-de? Mas relembro também que já fomos campeões do mundo de futebol antes de começarem a rolar as auríferas águas. Se não soubermos nem pudermos fazê-lo de novo, então - chega de campeões! De que vale tê-los apenas como saltimbancos pelas estradas do mundo, de que vale tê-los apenas como medalhas de nossa pro-sápia, sem lhes ter visto os heróicos feitos? Quem quiser, que aceite o nosso bagulho: chega de campeões! Não vamos mais exportar campeões, não vamos mais exportar coisa nenhuma, não vamos mais exportar nossa gente - nem mesmo presidentes-da-república, como tem sido nosso luxo e moda ultimamente. É isto mesmo: não vamos exportar mais nada - pelo menos enquanto guaraná não for coca-cola. [...].
Trecho de Chega de campeões! – 2, extraído da obra Contracomunicação (Ateliê, 2004), do escritor, advogado, sociólogo, professor, tradutor e teórico da comunicação Décio Pignatari (1927-2012). Veja mais aqui, aqui & aqui.

BAILE PERFUMADO
[...] O filme recria uma história real: a trajetória do fotógrafo e cinegrafista libanês Benjamin Abrahão (Duda Mamberti), a única pessoa que ousou se aproximar e filmar Lampião (Luiz Carlos Vasconcelos) e seu bando de cangaceiros. O enredo foi sugerido a Lírio Ferreira e Paula Caldas pelo crítico e cineasta Fernando Spencer. Transformado em roteiro em parceria com Hilton Lacerda, com a consultoria do historiador Frederico Pernambucano de Mello, o projeto ganhou o Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro. As filmagens foram feita em seis cidades de Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco. [...].
Trecho extraído do livro A aventura do Baile Perfumado: 20 anos depois (CEPE, 2016), organizado por Amanda Mansur e Paulo Cunha, sobre o filme Baile Perfumado (1996), dirigido por Lirio Ferreira e Paulo Caldas, que narra a história do envolvimento do mascate libanês Benjamin Abrahão com o bando de Lampião no sertão brasileiro. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor espanhol Juan María Medina Ayllón. Veja mais aquiaqui.

TRES POEMAS DE PUSHKIN
AMEI-TE... Amei-te – e pode ainda ser que parte / do amor esteja viva na minha alma. / Mas isto, pois em nada hei de magoar-te, / não deve mais tirar a tua calma. / Sem esperança e mudo em meu quebranto, / morto de ciúme e timidez também, / eu te amei tão sincero e terno quanto / permita Deus que te ame um outro alguém.
POEMA: Se um dia esta vida te desiludir, / Não fiques triste ou aborrecida! / Num dia sombrio, resigna-te: / Tem confiança, dias melhores virão. / O coração vive no futuro; então; / E se a sombra invade o presente: / Tudo é efémero, tudo passará; / E o que passou torna-se, então saudoso.
MADONA: Eu nunca quis decorar minha morada média / Com linhas e filas de fotos finas e célebres, / Tirar dos convidados alguns reclusos aduladores e supersticiosos, / Atender como visões inteligentes dos especialistas têm fluído. / Não, no canto simples onde meu trabalho é feito, / Eu só queria, mas uma testemunha pintada / E apenas um: a partir dos céus, da lona, / A Virgem pura, apresentando seu amado Filho / Majestosa, ela e ele com sabedoria em seus olhos - / Há calmamente assistir em glória, sob um céu radiante, / Sozinho em Sião, sem anjos presentes. / Eles são o suficiente para mim. Madonna, você foi / Revelado para mim pela doce / Transcendência de Deus Todo Poderoso, / O modelo mais puro, da mais pura alegria da rainha. / Não há muitas pinturas de mestres antigos / Eu sempre quis decorar minha morada / De modo que o visitante se maravilhou com eles supersticiosamente, / Ouvindo o importante julgamento dos conhecedores. / Em um simples canto meu, em meio a um trabalho lento,/ Uma foto que eu queria ser para sempre uma espectadora / Um: para mim da tela, como nuvens, / Nosso Abençoado e Nosso Divino Salvador - / Ela é com grandeza, ele é com razão em seus olhos - / Eles pareciam mansos, na glória e nos raios, / Sozinho, sem anjos, sob a palma de Sião. / Meus desejos se tornaram realidade. Criador / Ele te enviou para mim, minha Madona, / O mais puro encanta a mais pura amostra.
Poemas do poeta, dramaturgo e fundador da moderna literatura russa Alexander Pushkin (1799-1837), dedicado à sua amada Natalie – Natalia Nikolayena Pushkina-Lanskaya (1812-1863). Veja mais aquiaqui & aqui.

A OBRA DE CORA CORALINA
Poeta não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso.
A obra da poeta Cora Coralina (1889-1985) aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, agosto 19, 2019

DEBUSSY, JOÃO CABRAL, KATIA KIMIECK, LYSIA CONDÉ, IREMAR MARINHO, GABRIEL PETRIBÚ & LEANDRO VAZ


AS MULHERES DE DEBUSSY - Elas, sempre elas. Elas, todas elas, a razão da minha vida. Desde a mãe, menino que fui e me fiz procedendo de modo reservado, quieto, meditativo, não passava mesmo de um cínico, enojado do mundo dos homens e apaixonado por elas. Elas e a música. Não fosse a tia Clémentine, seria ninguém. Tudo começa em Cannes e ela me mostrando o mundo e todas as coisas. De lá o desfile com Antoinette, mãe de Charles, a segunda professora: Devo a ela o pouco que sei de música. A Nadyezhda, o encanto e o motor das artes: as harmonias orientais, a escala grega, as modulações chinesas, a música russa, ah, as ideias heterodoxas por estranhas combinações. Eu precisava de alguém para amar: a bela Marie, jovem soprano, esposa do riquíssimo arquiteto, a quem dei poemas de Banville e Leconte de Lisle. Também para ela as aulas de canto e ela me ensinou a arte do amor: o carinho, a sedução, escolhia minhas roupas e instruía na literatura e nos caminhos da vida. Para ela, melodias para cantar com sua boca de fada melodiosa. Insuportável a sua ausência, compunha tudo para ela. Eu amava com meus cabelos ao vento, anarquista rixoso, sonhador irrequieto, o cigarro e uma música rebelde no coração. Queria cadência nova, estranha sequência de cores, combinação sutil de sons, ecos de vozes encantadas vindas de mundos desconhecidos. A voz da sereia do amor: a Vascnier, para ela dediquei canções: Fêtes galantes e Quatre chansons de jeunesse. Tanta sedução teria de ser homenageada. Porém, tinha que escolher entre a bolsa do Prix de Rome ou ela. Sofrimento e solidão. No regresso à França, duas peças ao Conservatório foram consideradas pelos jurados como indignas de um homem de talento. Ao ser reprovado, exultei: Graças a Deus consegui, finalmente, escrever alguma coisa original. Foram os braços da dançarina Gaby e seus olhos verdes que me valeram: o queixo vigoroso, exalando sensualidade e exotismo, e o amor. Para ela o primeiro ato da ópera inacabada, Rodrigue et Chimène. A vanguarda boêmia e a cantora Thérèse me encantaram com todos os ornamentos românticos em Bruxelas. Para ela: um Quarteto de Cordas e o Prélude à L'après midi d'un faune. Ah, minha impaciência, ninguém publicava as composições, queriam-me que escrevesse música simples, popular. A estupidez dos alunos. Ainda bem que existia o Café Weber para distrair com copos de vinho e meus amigos Verlaine, Chausson, Mallarmé. Escrevia, o domínio das palavras e dos sons, epigramas. Desprezava o passo de ganso e elmo de ferro do Wagner: se tivesse sido mais humano, teria sido realmente divino. Massenet, um fabricante de perfume: cheiro agradável, mas artificial. Só por meus pais que aceitei a cruz da Legião de Honra, nada disso me interessava: menosprezo a humildade e a inveja mesquinha. Queria mesmo quebrar as regras, desafiar as convenções. Foi Lilly, a Lily-Lilo, a modelo e Pelléas et Mélisande, de Maeterlink: a princesa em busca da felicidade e a sua frágil saúde, incrivelmente bela como um personagem de uma antiga lenda. Eu me mataria se ela não casasse comigo. Para ela as Sirenes do Nocturnes. Contudo, era possessiva e, ao mesmo tempo, carinhosa. Não me poupou de uma tragédia. Adeus ao passado com um recitativo simples, calmaria de um rio profundo. Ondas que brincavam ao luar. O mar. Noturnos. O poema em prosa, Natal das crianças sem lar, era a 1ª Guerra Mundial, as criancinhas francesas que perderam o seu lar por causa da invasão alemã. Crianças refugiadas, perdidas no inferno do campo de batalha. Às vésperas do Natal não celebrado: o frio, a fome, o medo e a incerteza do futuro: Trazei a vitória, por fim, às crianças de França! Desdenhava o materialismo do mundo e os homens de negócio. Não conseguia evitar a companhia das mulheres. Para minha salvação, Chouchou, a Emma, mãe de um aluno, cantora sofisticada e brilhante. Fiquei obcecado. Para ela: Children's Corner. Na vida tropeço na menor pedra. A fuga, o escândalo, a tentativa de suicídio dela e o divórcio. As mulheres, uma hera na parede. Mas, sempre o medo de ficar sozinho. Ainda inquieto, lançava olhares cobiçosos em outras direções: o mundo, o universo, mulheres e mulheres, só mulheres. Só elas. A tortura do fim, um cadáver ambulante. O estralejar dos canhões alemães. Tornei-me um asteroide e uma cratera de Mercúrio. Não valeria nada se não fossem elas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o poeta contemporâneo ficou limitado a um tipo de poema incompatível às condições da existência do leitor moderno, condições a que este não pode fugir. [...] o que os poetas contemporâneos obtiveram, foi o chamado “poema” moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar. [...] Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito.
Trechos de A função moderna da poesia, extraídos de Prosa (Nova Fronteira, 1998),
do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, escultora, ilustradora e arte-educadora Katia Kimieck. Veja mais aquiaqui & aqui.
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A ARTE DE GABRIEL PETRIBÚ
Desde muito novo meu pai desenhava e pintava, logo me interessei pela pintura por causa dele.
A arte do artista visual Gabriel Petribú. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE LYSIA CONDÉ
A música sempre fez parte da minha vida. Eu sempre cantei. Na minha adolescência participei de grupo de teatro. Era selecionada em todas as peças que tinha alguma possibilidade de cantar. Alguns amigos me chamavam para cantar, esporadicamente, em casamentos. Já morando em Natal, eu fui fazer o curso básico de canto na Escola de Música. Participei dos recitais da escola e fiquei entrosada com os músicos da cidade. Então, surgiram convites para dar canja nos lugares e quando vi já tava envolvida profissionalmente. Antes de me reconhecer como cantora, as pessoas já me apresentavam dessa forma.
Curtindo a música de requintada delicadeza da talentosa cantora, socióloga e professora Lysia Condé, formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e estudou na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal – RN, onde reside atualmente. Ela foi a ganhadora do Festival Música Potiguar Brasileira, da FM Universitária. Veja mais aqui.
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A MÚSICA DE LEANDRO VAZ
Amar é arriscar – se / Amar é entender / Amar é deixar ir / Amar também é perder.
A música do poeta, cantor e compositor Leandro Vaz, autor do livro Eugenia (2017) e do álbum autoral musical Madrigal (Cocar, 2018), viabilizado pelo Funcultura-PE, este último com arte do designer Guilherme Luigi e gravuras de Regina Carvalho. (Dica da cantora Maíra Moura). Veja mais aqui.

A OBRA DE DEBUSSY
Nunca encerrarei as minhas ideias musicais nos edifícios dos velhos modelos. Dar-lhes-ei espaço, liberdade, vida!
Umas poucas pessoas apreciarão as minhas obras. E quanto ao resto, ça m’est égal, não me importa o que possam pensar.
Faço o meu piano trabalhar tanto que ele transpira como um ser humano.
Não tenho feito outra coisa senão realizar experimentos a fim de satisfazer o meu gosto pelo inexpressível.
Eles queriam que eu lhes fizesse cortesias desengonçadas e os cumprimentasse como um dançarino.
O artista na civilização moderna será sempre uma criatura cuja utilidade só há de ser reconhecida após a sua morte.
A arte devia se divorciar do comercialismo... a ideia de negociar uma composição musical como uma lata de toucinho ou um barril de cerveja é, para mim, tão triste quanto ridícula.
O que temo é o resultado da paz que virá depois da guerra.
A obra do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) aqui, aqui & aqui
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A POESIA DE IREMAR MARINHO
Lanço este manifesto / Do partido dentro / Manifesto meu partido / Comunista neste pranto / Não há mais o que falar de mim / Nem da carne / Nem dos ossos / Nem do sangue / Não há mais o que esperar aqui / Nem mais rumo / Nem mais rota / Nenhum horizonte / Já nasci diante / Sou menos valia / Já morri bem antes / Rosas amanhecem vermelhas.
A poesia do jornalista, publicitário, advogado e escritor Iremar Marinho de Barros aqui, aqui & aqui.


DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...