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quinta-feira, novembro 16, 2017

FROMM, CHINUA ACHEBE, MILLÔR, JORGE FORBES, PSICANÁLISE, VIV ROSSER, SENSO COMUM, ZÉ BESTÃO & JAQUEIRA

EITA, ZÉ BESTÃO! - Zé Bestão sempre foi besta demais, pense num cara broco de tão perdido, nossa! Não conheço ninguém tão desligado na vida, chega penso que ele não é deste mundo. Será? É que ele não leva nada no olho da maldade, seja marotagem, safadeza, ardis, qualquer dissimulação pra ele é tudo no muito normal, natural. Pois é, aprontam com ele de todo jeito, pintam e bordam, armam arapuca na maior cruzeta, pintam o sete pelas costas, mandam ver se estão na esquina e ele vai, preparam a cama de gato e ele cai toda vez, fazem dele portador de carta esculhambando destinatário e ele lá esperando resposta na hora embaixo do maior esculacho, fazem tramóia e culpam ele pela desgraça do meladeiro todo, cometem desatino e dizem que foi ele, roubam, melecam, traem, passam a perna, pintam miséria e, no final, colocam a culpa nele. E ele? Pode estar no calão, ah, nem aí, nem liga, como se nem fosse com ele, riso amarelo, cara lisa, no final assume tudo, põe-se a resolver como se realmente fosse ele próprio o responsável por todos os desatinos tramados. Parece que pra ele não aconteceu nada, pois encara tão normalmente a trapaça que mais parece coisa encomendada que ele já sabia e leva com tanto afinco como se fosse labor profissional. Dá pra imaginar? Já teve gente que chegou junto dele no amiudado e delatou tudo, deram-no ciência de que armaram tudo pra cima dele, que estão sacaneando com ele o tempo todo, que isso não é justo e que ele deve tomar uma providência e desancar todo mundo que anda goelando pra cima dele e ele com a cara mais santa do mundo, simplesmente diz: Eu sei, tô sabendo, sim, na maior, saquei tudo. E não vai fazer nada? Claro, ora, vou resolver tudinho. E não vai se vingar? Pra quê? Ora, eles merecem uma boa lição. Nada, eles estão apenas brincando comigo, na maior. Ah, mas estão sacaneando com você o tempo inteiro! Nada não, isso é normal. Normal caraca nenhuma, porra! Danou-se! Esse leva desacerto de todo jeito, até Zé-Corninho tira onda pra cima dele. Pode? Oxe, leva toque de arrodeio, passa batido, paga o pato, ora, e nem aí. Leva a maior dedada até tomar no cu e nem aí. Assim não. Nunca vi sujeito mais leso na vida. Todo mundo no bloco do eu sozinho pra cima dele e ele na maior solidariedade, hem hem, botam ele no front, bucha de canhão e pronto pro fuzilamento, fazem-no de otário meio dia em ponto, deixam-no quarando em pé por horas de quase secar os cambitos esperando pelo que nunca virá, maior bobo na roda, leva e traz de vai e volta todo dia e o dia todo, encarcam sem pena, só punhalada no toitiço, golpe baixo, desfeita às escondidas, trairagem suja, não sei como ele escapa, acho que Deus protege as crianças, os doidos, os bêbados e ele! Só pode, afinal de doido e bêbado ele tem tudo, mesmo abstêmio e são do juízo. Ô Zé Bestão, cê ta pensando em quando morrer ir pro céu é? Ah, é, isso mesmo, pelo menos, quando eu morrer vou direto pro paraíso, né não? Ah, é, claro que vai e como. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Les indes galantes, do compositor francês Jean-Pierre Rameau (1683-1764); Rapsody in blue de Gershwinm, The Chopin Project & Prelude in B minor de Rachmaninoff com a pianista russa Lola Astanova; Amores absurdos e show do cantor, compositor e arranjador Celso Viáfora; e Selvática, Longe de onde & Eu menti pra você da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O senso comum contém inumeráveis interpretações pré-científicas ou quase-científicas sobre a realidade cotidiana, que admite como certas. [...]. O método que julgamos o  mais conveniente para esclarecer os fundamentos do conhecimento na vida cotidiana é o da análise fenomenológica, método puramente descritivo, e como tal “empírico” mas não “científico”. [...] A análise fenomenológica da vida cotidiana, ou melhor, da experiência subjetiva da vida cotidiana, abstém-se de qualquer hipótese causal ou genética, assim como de afirmações relativas ao status ontológico dos fenômenos analisados. [...]. Trechos extraídos de A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento (Vozes, 1973), de Peter L. Berger & Thomas Luckmann. Veja mais aqui e aqui.

JAQUEIRA - O povoado surgiu a partir de um ponto de parada dos almocreves, que eram os homens que transportavam cargas em animais para abastecer de gêneros alimentícios, vestuário e outras mercadorias para povoados, vilas e cidades da região entre a localidade de Una (hoje Palmares) e Lagoa dos Gatos, que era um centro abastecedor. Tal parada devia-se a duas jaqueiras que ofereciam uma boa sombra e tornou-se ponto de encontro entre os almocreves, gerando um pequeno comércio no local. A partir daí, surgiram as primeiras residências, durante o século XIX. A estação ferroviária em Jaqueira foi inaugurada em 28 de setembro 1883, o que integrou a vila ao litoral em Recife. Pela ferrovia a cidade passou a ser abastecida, bem como era escoada a produção de açúcar das usinas da região. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, com o nome de colônia Isabel, subordinado ao município de Palmas. Em 1911, passa a denominar-se Jaqueira e mantida subordinada ao município de Palmares. Em 1933 passa à jurisdição do município de Maraial. O município foi criado em 28 de setembro de 1995 e instalado em 1 de janeiro de 1997. Veja mais aqui.

O FALSO GRANDE AMOR – [...] O caso mais freqüente e evidente de alienação talvez seja o do falso “grande amor”. Um home apaixona-se entusiasticamente por uma mulher; depois de ter correspondido a principio, ela é tomada de crescentes dúvidas e rompe a relação. Ele é assaltado por uma depressão que quase o leva ao suicídio. A vida deixa de ter sentido para ele. Conscientemente, explica a situação como um resultado lógico do que aconteceu. Acredita que pela primeira vez sentiu um amor real, que com aquela mulher e somente com ela poderia experimentar o amor e a felicidade. Se ela o deixa, não haverá nenhuma outra pessoa que possa despertar-lhe a mesma relação. Perdendo-a, acredita ter pedido sua única oportunidade de amar. Portanto, é melhor morrer. Embora tudo isso lhe pareça convincente, seus amigos podem fazer algumas perguntas: Por que um homem que até então parecia menos capaz de amar do que a pessoa média apaixona-se de forma tão completa que prefere morrer a viver sem ser amado? Por que, estando tão enamorado, se recusa a fazer concessões, a abrir mão de certas exigências que entram em choque com as exigências da mulher amada? Por que será que, ao falar de sua perda, ele fala principalmente de si, do que lhe aconteceu, e mostra um interesse relativamente pequeno pelos sentimentos da mulher que tanto ama? Se conversarmos com o infeliz homem mais demoradamente, não nos surpreenderemos ao ouvi-lo dizer, a certa altura, que se sente completamente vazio, tão vazio como se seu coração tivesse ficado com a namorada perdida. Se ele pudesse compreender o sentido dessa afirmação, perceberia que seu sofrimento é proveniente da alienação. Jamais foi capaz de amar ativamente, de deixar o circulo mágico de seu próprio ego, de exteriorizar-se e tornar-se uno com outro ser humano. O que fez foi transferir seu anseio de amor para a moça e sentir que com ela experimentava seu “amor”, quando na realidade experimentava apenas a ilusão de amar. Quanto mais ele transfere para ela seu anseio de amor, bem como de vida, felicidade, etc., tanto mais pobre se torna e mais vazio se sente, longe dela. Estava sob a ilusão de amar, quando na realidade transformara a mulher num ídolo, na deusa do amor, e acreditava que unindo-se a ela experimentava o amor. Fora capaz de despertar nela uma reação, mas não fora capaz de superar sua própria mudez interior. Perdê-la não é perder, como ele acredita, a pessoa a quem ama, perde-se como uma pessoa potencialmente amante. [...]. Trecho extraído da obra Meu encontro com Marx e Freud (Zahar, 1969), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Veja mais aqui e aqui.

CULTURA, REPRESSÃO & SONHOS - [...] a repressão não destrói a representação dolorosa: mesma mantida em estado inconsciente, ela permanece ativa, tentando retornar ao sistema consciente. O resultado desse conflito, que envlve um verdadeiro jogo de forças, é a produção das chamadas formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos (ou atos falhos) e chistes (piadas e ditos de espírito) que seria frutos de uma espécie de “negociação” entre os sistemas. As representações reprimidas podem vir a ser readmitidas na consciência (retorno do reprimido), contanto que passem por um processo de deformação que as tornem irreconhecíveis, deixando assim de despertar angustia no sujeito [...]. articular a vida psíquica individual com a vida social e os limites que esta impõe ao indivíduo, a começar pela interdição do incesto. Em nome das exigências culturais, a satisfação pulsional é grandemente cerceada, inclusive em seus aspectos agressivos e destrutivos. Embora indivíduos ganhem com isso a possibilidade de conviver em grupo, ressentem-se profundamente de tais renúncias. A cultura é, pois, construída sobre a base da repressão, o que faz com que o homem cultive uma hostilidade permanente contra ela. [...]. Trechos extraídos de Luzes e sombras: Freud e o advento da psicanálise, de Inês Loureiro, extraído da obra História da psicologia: rumos e percursos (Nau, 2005), organizado por Ana Maria Jacó-Vilela, Arthur Arruda Leal Ferreira e Francisco Teixeira Portugal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O MUNDO SE DESPEDAÇA - [...] Até aquele momento, Okoye se expressara de maneira simples, mas a meia dúzia de frases seguintes tomou a forma de provérbios. Entre os ibos, a arte da conversação é tida em alto conceito, e os provérbios são o azeite de dendê com o qual as palavras são engolidas. Okoye era um grande conversador e falou durante muito tempo, dando voltas em torno do assunto até finalmente abordá‑lo. Em resumo, pedia a Unoka que lhe devolvesse os duzentos cauris que lhe emprestara havia mais de dois anos. Tão logo este percebeu aonde o amigo queria chegar, estourou em gargalhadas. Riu alto, durante muito tempo, de modo claro como o agogô, e tinha lágrimas nos olhos. O visitante, espantado, continuou sentado, sem fala. Afinal, Unoka conseguiu dar‑lhe uma resposta, entremeada de novas explosões de riso. [...]. Trecho extraído de O mundo se despedaça (Companhia das Letras, 2009), do escritor e crítico literário nigeriano Chinua Achebe (1930-2013). Veja mais aqui.

NOVIDADE, SÓ A PRIMEIRA (À VANGUARDA QUE SE CRÊ VANGUARDA) - Garanto: / o primeiro poeta que rimou / foi um espanto! / Mais, muito mais, / Meu irmão, / do que o primeiro / que não. Poema extraído do livro Poemas (L&PM, 1984), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O SILÊNCIO DAS GERAÇÕES, DE JORGE FORBES
Ex-ergo: O pai matou o filhinho; a filhinha matou o pai e a mãe; o aluno incendiou a escola; a senhora se suicidou. E todos pareciam tão sadios, iguais a toda gente! Está todo mundo perdido: maior que o medo, é o suspense. Surgem calmantes de ocasião, sempre três: psicose, moral e possessão. Voltam o chicote, as lições de moral e cívica e o ato de contrição. Um mundo reacionário se anuncia e Bush, no círculo oval de seu pensamento, reedita as peripécias do grande ditador. Oh tempos, oh costumes! O pai refestelado em sua poltrona de domingo, acabou de ouvir fantásticas explicações sobre o mundo atual. Eram três especialistas em comportamento, concordantes com a necessidade de voltar à velha disciplina: “educação se dá em casa e chinelo e palmatória não deviam estar aposentados”. Ele está mais tranqüilo; nem dormia mais direito, com medo de ser assassinado. Chegou a pensar que se existem nos aeroportos detectores de metais, como não descobriram ainda os detectores de “mentais”? Seu sonho de segurança tinha ficado abalado com aquela psiquiatra esfaqueada pela filha. – “Como é que não previu? Não era psiquiatra? Santo de casa não faz milagre”, reconfortou-se. Três dias depois, Mariana, coordenadora do Padre Félix, colégio de classe média alta dos Jardins, constata boquiaberta que mais de cinqüenta por cento dos meninos chegaram ao colégio com rosto macerado: apanharam em casa. Corre a seu supervisor – “Há um silêncio entre as gerações”, diz ele, que está difícil de ser assimilado. Não há uma só educação padrão, standard, logo, o que há são educações, no plural. E se há educações há que se escolher. Preferir uma ou outra é opção pessoal. Não há uma razão para que seja essa e não aquela. É um querer mais que um saber, e o querer não se compreende totalmente, é arbitrário. Confundem arbitrário com abuso de poder e, no entanto, arbitrário só diz daquilo que não se demonstra pela dedução. Sim, meu filho, essa é a minha opção. É claro que existem outras formas. Melhores? Não sei, pode ser, mas essa é a minha e eu sou seu pai, eu sou sua mãe. Você vai mudar de casa? Não adiantará, as opções mudam mas não o arbitrário, o silêncio da razão. Pais detestam falar assim pois invariavelmente, o filho vai dizer: “Eu não gosto de você”. Ai! Nem pai, nem professor suportam esse “eu não gosto de você”. Tratam de falar manso, buscar explicações, convencimentos, concordâncias e o que melhor conseguem é transmitir que tudo se explica, que não há limite à razão. E o filho, proibido de dizer “eu não gosto de você” vai se encharcando na angústia do ilimitado: bateu um carro? Dou outro. Perdeu um ano? Ganhou maturidade. Matou um índio? Te absolvo. Eu te compreendo em qualquer coisa, meu filho. E o filho da compreensão ilimitada se tatua: uma fronteira no corpo: se bate: um limite à expansão; mata, se droga, se mata. Não mamãe e papai, nem compreensão geral, nem palmatória. Se há uma herança digna da paternidade é a de que nem tudo se explica, não porque não se queira mas, simplesmente, por ser impossível. É, meu filho, tem um silêncio entre nós dois, a ponte da palavra não nos contém. Vamos nos perder? Pode ser que não, sobre esse silêncio podemos inventar. Teve um Drummond que de uma pedra no meio do caminho, em vez de jogá-la no outro, poetou. Teve um Chico e um Milton que cantaram uma coisa que não tem nome nem nunca terá. O limite da palavra é a invenção, é só poder suportar: melhor esse risco que a desgraça razoável. Meu filho, senta aqui, não nos compreendemos, e daí? Pôr do sol, mergulho em Fernando de Noronha, brigadeiro, beijo, avião decolando, chuva na mata, precisa de explicação? Tem tanta boa coisa no silêncio. PSIU!
Extraído da obra Você quer o que deseja? (Best Seller, 2004), do médico psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Viv Rosser.
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segunda-feira, fevereiro 22, 2016

MANSFIELD, ÁNGEL RAMA, BEAUVOIR, GILKA MACHADO & BANDA DE MANÉ PRETO

 


A BANDA DE MANÉ PRETO - Gente, eu já ouvi de tudo, mas essa banda é a maior tronchura. Juro! Eles são tanto hors concours, como sui generis e mais superlativos exagerados que deixam a idéia tanto para infortúnios como para fenômenos inexplicáveis. Isso mesmo. Essa a atitude assumida por eles. E começa pelo nome: o primeiro de batismo foi “Zumbido da porra”, mas logo mudaram porque os integrantes não acharam a menor graça. Depois foi “Arrepiando as pregas”, satisfazendo a todos pela ausência de coisa melhor. Enfim, vieram os “Zoando a fole”, “Torando tudo” até passar pelo “Cacete a quatro” e, enfim, depois de muita lengalenga chegaram no “Além do 8 e do 80”. Na verdade, por causa das imprestáveis idéias que beiravam o cúmulo do insensato, nome em definitivo, até hoje, não tem, sendo, portanto, conhecida apenas por Banda de Mané Preto. Pela atitude bisonha deles, a questão passa a ser uma das características fundamentais da banda: os inomináveis. Isso, claro, sintetizando bem a idéia que eles querem passar da bizarrice embrulhada toda. O som. Bem, o som da banda se parece com algo que, segundo a enrolada de língua deles na pronúncia desdentada, deixa apenas entender, assim, de relance que se trata de alguma coisa que se identifique perto do pós-dodecafônico, do ultratonal. Explicação: não tem. Isso porque primeiro não se entende nada do que dizem e porque foram duas palavras escolhidas a dedo por eles para justificar alguma coisa de proposta sonora. Com certeza, gente, John Cage ficaria de queixo caído se visse. Inacreditável mesmo tanta microfonia, dissonância, pancada, ruído, barulho, doidice, inaptidão, tranqueira, busuntice, tudo junto no maior pandemônio. Doideira pura. Os integrantes: 5 maloqueiros que se dizem lá à maneira deles - e quase não se deixando entender -como indie, trash, headbanger, darks, hard, groove, heavy, grunges, punk, ska, blacks, surf music, cover drags e o escambau, ou tudo isso junto na maior pauleira com mais uma porrada de coisa não identificável. O cantor, ou melhor, como ele mesmo se diz crooner, é o Mané Preto, sujeito aparentemente meio que aluado-abilolado que é dito personal traineé de galo-de-briga e achegado a um criatório de coleópteros, que só aparece de noite zanzando com os lábios pocados de choque elétrico de tanto babar no microfone e sempre fazendo sua performance no palco com seu ar de defunto de olhos arregalados, na companhia de dois enfermeiros prontos com uma camisa-de-força para sacudirem o rapaz no primeiro hospício que encontrarem. O guitarrista mesmo é um sujeito com cara de bad boy, cintura-de-ovo, uma roupa surrada colada no couro porque nunca foi trocada nem lavada vez que ele é avesso à higiene seja de que natureza for, só toca com um alicate na boca para não engolir a língua de tanto sopapo nos solos arrancados. O contra-baixista é um vesgo bisonho e banguela, todo ajegado e troncudo, que toca um instrumento que mais parece um cabo de vassoura enfiado numa bacia, sempre desligado para que o sujeito não seja eletrocutado assim sem mais nem menos. Mas que o troço faz uma barulheira infernal, faz. Como? Não sei. O tecladista que é um magricela varapau só toca de sarongue e luvas daquelas de eletricista, o que dá maior estranhice ainda, vez que coloca todos os dedos por todos os tons ao mesmo tempo, não dando para se identificar qualquer linha melódica possível. Ou seja, é um verdadeiro desarranjo a coisa toda. O baterista, esse o mais presepeiro com cara de calango e jeitão de bacamarteiro, toca um bocado de bombo com penduricalhos de toda natureza, mais uns artefatos meio amalucados e, com certeza, ignoráveis, que vão desde o peido-de-véia até um punhado de morteiros e granadas. O disco: não tem; isso por dois motivos. O primeiro, é que só nos ensaios causaram tantos desastres nos estúdios que ninguém quer vê-los nem pintado a ouro. O segundo, porque conforme apreciação mais cuidadosa e cientificamente comprovada, o cd executado poderia possibilitar um apocalipse no recinto do ouvinte. Resultado: opção deles pela marginália, completamente fora dos veículos de comunicação, sobrevivendo, apenas, dos imprevisíveis shows prestigiados pela platéia cativa que ninguém nunca viu nem sabe quem é. O show: esse nunca tem hora, nem data nem local marcado. A agenda, pelo que se sabe é só no boca a boca. Isso por serem pior que Tim Maia e, também, por não contarem nunca com o apoio da polícia e demais autoridades que querem enquadrá-los nos diversos artigos e incisos do Código Penal pelo desmantelo provocado a cada tocada. Claro, no primeiro acorde da abertura morre logo um de ninguém saber de quê. Dizem os linguarudos que quem só prestigia os “concertos” deles é somente caboeta-de-funerária, papa-defunto, coveiro e vendedor de seguro. Claro, isso todo mundo precavido com indumentária preventiva, né, só para se aproveitar dos bestas que passam desavisadamente por onde ocorre o estrupício. A última apresentação: uma catástrofe. Só com a subida deles ao palco, bastou contarem 1, 2, 3 caiu a calça de um idoso que saiu berrando que queriam estuprá-lo. Enquanto o baterista marcava nas baquetas pipocou uma lâmpada. Quando fizeram que iam tocar, caiu uma parede e matou logo dois. Quando o acorde foi executado, tiveram que chamar o corpo de bombeiros para apagar tudo. Maior bronca de buruçu da gota! Pelas razões mencionadas eles conseguem ser os famosos mais anônimos, além de premiados detestáveis e contraditoriamente celebrados por uma trupe que prestigiam todas as suas sandices. Ainda ontem cruzei com Mané Preto todo sorridente como se nada tivesse ocorrido. - E aí, Mane, tudo em riba? -, perguntei. - Tudo iscorrendo na calha. – respondeu-me. - E os shows? - Ah, rapaize, os bombêros atrapaiaram o shô da genti. Toda veizi aconteci isso. Essis cara parece que tem acordo com minha mulé e minha sogra Bushit. - Ué, por que? - Os cara num gostam, né? Quano tô em casa a mulé e a sogra só mi trata com uma saraivada de panela que só faiz galo no meu quengo. Quano vô pra rua fazê shô, os bombêros tascam maió aguacêro n´eu. - É mesmo, por que? - O som da genti é per... per.... per.... pefumático, pefomá... profumático, pe.... pé de pasparaio a quatro, ora! - Performático? - Isso, isso mesmo. E a mulé e a sogra só me chama de traste imprestáve. Coisa de lôco mermo, rapaize. Num sei mai o qui fazê, ora. É parece mais que Mané Preto e sua trupe, que são gente boa pra caraca, querem mesmo tocar fogo no mundo, literalmente, com toda maluquice de suas desarmonias antimusicais. Dá pra ver. Eu, de mim mesmo, adoro essas invencionices! Bié, bié, glup, glup! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - O prazer de ler é dobrado quando se vive com outra pessoa que compartilha os mesmos livros... O que sinto por você não pode ser expresso em combinações de frases; ou grita alto ou permanece dolorosamente silencioso, mas eu prometo — supera palavras. Supera mundos... Sempre senti que o grande privilégio, alívio e conforto da amizade era que não era preciso explicar nada... A mente que eu amo deve ter lugares selvagens, um pomar emaranhado onde ameixas escuras caem na grama densa, um pequeno bosque coberto de vegetação, a chance de uma ou duas cobras, uma piscina cuja profundidade ninguém imaginou e caminhos cheios de flores plantadas pela mente... Pensamento da escritora e crítica neozelandesa Katherine Mansfield (Kathleen Mansfield Murry, nascida Beauchamp – 1888-1923). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SEGUNDO SEXO – [...] o homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem. Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o ‘sexo’ para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro [...]. Trecho extraído da obra O segundo sexo (2 vols., Difusão Européia do Livro, 1967), da filósofa, escritora, ativista e feminista franca Simone de Beauvoir (Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CIDADE DAS LETRAS – [...] os intelectuais não servem apenas a um poder, como também são proprietários de um poder [...], Trecho extraído da obra La ciudad letrada (1984), do escritor e crítico literário uruguaio Ángel Rama (Ángel Antonio Rama Facal – 1926-1983), introuditor da teoria da transcultururação, ao estudar a concepção, o planejamento e a consolidação das cidades latino-americanas, desde a destruição da asteca Tenochtitlán, em 1521, até a inauguração de Brasília, na década de 1960, traçando um paralelo entre os projetos urbanísticos e o ideal desejado de urbe limpa, estéril e civilizada.

 

ÂNSIA MÚLTIPLA - Beija-me Amor, \ beija-me sempre e mais e muito mais, \ – em minha boca esperam outras bocas \ os beijos deliciosos que me dás! \ Beija-me ainda, \ ainda mais! \ Em mim sempre acharás \ à tua vinda \ ternuras virginais. \ Beija-me mais, põe o mais cálido calor \ nos beijos que me deres, \ pois viva em mim a alma de todas as mulheres \ que morreram sem amor!… Poema extraído da obra Mulher nua (1922), da poeta Gilka Machado (Gilka da Costa de Melo Machado – 1893-1980). Veja mais aqui & aqui.

 


ROGER CRUZ
 – A arte do desenhista de história em banda-desenhada, Roger Cruz, em três momentos distintos. Veja mais aquiaquiaqui e aqui.





PSICANÁLISE – O termo psicanálise, segundo Roudinesco (1998) é oriundo de Psychoanalyse, termo criado por Sigmund Freud, em 1896, para nomear um método particular de psicoterapia (ou tratamento pela fala) proveniente do processo catártico (catarse*), de Josef Breuer e pautado na exploração do inconsciente, com a ajuda da associação livre, por parte do paciente, e da interpretação, por parte do psicanalista. Por extensão, dá-se o nome de psicanálise: ao tratamento conduzido de acordo com esse método; à disciplina fundada por Freud (e somente a ela), na medida em que abrange um método terapêutico, uma organização clínica, uma técnica psicanalítica, um sistema de pensamento e uma modalidade de transmissão do saber (análise didática, supervisão) que se apoia na transferência e permite formar praticantes do inconsciente; ao movimento psicanalítico, isto é, a uma escola de pensamento que engloba todas as correntes do freudismo. No plano clínico, ela é também a única a situar a transferência como fazendo parte dessa mesma universalidade e a propor que ela seja analisada no próprio interior do tratamento, como protótipo de qualquer relação de poder entre o terapeuta e o paciente e, em caráter mais genérico, entre um mestre e um discípulo. Sob esse aspecto, a psicanálise remete à tradição socrática e platônica da filosofia. Por isso é que empregou o princípio iniciático da análise didática, exigindo que se submeta à análise qualquer um que deseje tornar-se psicanalista. Freud foi o iniciador de uma inversão do olhar médico que consistiu em levar em conta, no discurso da ciência, as teorias elaboradas pelos próprios doentes a respeito de seus sintomas e seu malestar. Mediante essa reviravolta, a psicanálise esteve na origem dos grandes trabalhos históricos do século XX sobre a loucura e a sexualidade. Foi num artigo de 1896, redigido em francês e intitulado “A hereditariedade e a etiologia das neuroses”, que Freud empregou pela primeira vez a palavra psico-análise. Após muitas hesitações, cuja evolução pode-se acompanhar na correspondência entre Freud e Carl Gustav Jung, a palavra psicanálise se imporia em francês em 1919 (em lugar de psico-análise), ao lado de Psychoanalyse, já aceita no alemão em 1909 (em vez de Psychanalyse) e de psychoanalysis, em inglês (muitas vezes grafada como Psycho-analysis ou Psycho-Analysis). Em 1910, em “As perspectivas futuras da terapia psicanalítica”, Freud delimitou um enquadre “técnico” para a análise, afirmando que esta tinha por objetivo vencer as resistências. Essa tese seria discutida muitas vezes, e os problemas da técnica seriam objeto de diversos outros artigos, além de debates e cisões na história do movimento psicanalítico, desde Sandor Ferenczi até Jacques Lacan. Inspirando-se no modelo darwinista, Freud quis incluir a psicanálise entre as ciências da natureza, ou, pelo menos, conferir-lhe um estatuto de ciência dita “natural”. E por causa da dupla pertença da psicanálise (ao campo das ciências da natureza e ao das artes da interpretação) que sua chamada refutação “científica” produziu-se no campo da terapêutica. A história da psicanálise mostra que as resistências erguidas contra ela, bem como seus conflitos internos, sempre foram o sintoma de seu progresso atuante, de sua propensão a fabricar dogmas e de sua capacidade de refutá-los. Essa postagem, portanto, é o pontapé inicial para uma série de outras postagens a respeito da temática. Para tanto, segue abaixo uma bibliografia suplementar para melhor conhecimento a respeito do tema. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ALBERTI, S.; FIGUEREDO, C. (Orgs.). Psicanálise e saúde mental: uma aposta. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006.
ATKINSON, Richard; HILGARD, Ernest; ATKINSON, Rita; BEM, Daryl; HOEKSENA, Susan. Introdução à Psicologia. São Paulo: Cengage, 2011.
BOCK, A.M et al.  Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001
DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.
ETCHEGOYEN, R. Horacio. Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FADIMAN, James; ROBERT, Frag. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 2002.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
LAPLANCHE; Jonh; PONTALIS, J. B. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
MEZAN, Renato. Interfaces da psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2002.
MORRIS, Charles; MAISTO, Alberto. Introdução à psicologia. São Paulo: Pretence Hall, 2004.
MYERS, David. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. Historia da psicologia moderna. São Paulo: Cengage Learning, 2012.
ZIMERMAN, David. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artemd, 2008.
______. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica, clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 2007.
______. Manual de técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artmed, 2004.


Veja mais sobre:
O cis, o efêmero & eu aqui.

E mais:
Cancioneiro da imigração de Anna Maria Kieffer & Ecologia Social de Murray Bookchin aqui.
A poesia de Sylvia Plath & a Filosofia da Miséria de Proudhon aqui.
Antonio Gramsci & Blinded Beast de Yasuzo Masumura & Mako Midori aqui.
Mabel Collins & Jiddu Krishnamurti aqui.
Christiane Torloni & a Clínica de Freud aqui.
Paulo Moura, Pedro Onofre, Gustavo Adolfo Bécquer, Marcos Rey, Mihaly von Zick, Marta Moyano, Virna Teixeira aqui.
A irmã da noite aqui.
A obra de Tomás de Aquino & Comunicação em prosa moderna de Othon M. Garcia aqui.
Essa menina é o amor aqui.
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quinta-feira, fevereiro 18, 2016

SILVINA OCAMPO, BALDWIN, HARAWAY, CAPMANY, SOLNIT, FREUD & ZÉ PEIÚDO

 


SACANAGENS, RESUMO DA OPERETA – Zé Peiúdo sempre foi na vantagem. O que aprontou? Nem lhe conto: cacunda alheia, seu poleiro. Volta e meia, os dentes arreganhados insuspeitáveis, conversa tinha de afiada, de derrubar avião, trovejar no verão e tocar fogo embaixo d’água. Deixasse e o truque escurecia o Sol, acendia a Lua e dava voltas no vento dele chegar bem mansinho na brisa da mordida. E do ajeitado duma mão à outra, o maior caqueado: a hipnose da afanação. Vai ver e logo um desavisado: Roubaram minha carteira! Num diga, quem terá sido esse salafrário? Ele paparicando ali o ofendido. Se fosse comprar, vendia; se era para pagar, tomava; e o alesado sorria felizardo eternamente grato. Oi? Assim é ele se achegando, dentadura arreganhada no quarador, com o héhéhé ufano no barrunfo do bafo, a volta grossa pelo pescoço com um crucifixo exibindo o peitoril musculoso, uma pulseira larga no punho esquerdo, um relógio no pulso direito e uma fivela enorme com H maiúsculo sustentando a pança saliente, tudo ourinado de engomadinho, camisa por dentro da calça vincada nos saltos do par de botas, se passando por pobre coitado, seu criado. Batia no peito: Não tenho esposa! Só, como ele mesmo dizia às intimidades, concubinas, meia dúzia de sonsas fulanas que, todo dia, manhã, tarde e noite, no cavoucado, passeava nelas montado na lambreta do seu veraneio de pernas pro ar, sua eterna vilegiatura. Na vera: um harém exclusivo, mesmo. Sogra? Deus me livre, é muita chateação, nem avisa e inventa enredo com dente trincado - razão de seu endereço incerto, domicílio escuso. Ademais, o seu drama: Só trato com gente séria! E chama todos pelo apelido, seja cangalha ou zambeta, estranhos e embecados, seus cupinchas de corriola, a levá-los na pontinha dos dedos, conforme os secretos ventos semeados e tempestades colhidas, todo dissimulado: Bata quem dê as cartas, a gente joga e faz o jogado. Outro dia mesmo, sem quê nem pra quê, sacou do bolso um molho de pedras que, pra ele, cochichando: valia uma fortuna, mais que ouro. Como assim? Ora, segredava: era como as disfarçava pra ninguém botar o olho grande de querê-lo roubar. Xô, pra lá! Oxente! Era nesse brincado a enrolada de areia como tesouro, mato feito riqueza, capim o bem mais valioso, assim, assim. E nisso vendia gato por lebre, gabiru por bezerro de elite, calangos por cavalos de corrida, enfim, fazia de tardígrados, rotíferos e mixobolos os mais avultados criatórios de seus negócios milionários. Sou lá besta de entregar de bandeja fortuna pra bandido! Vai nessa não, é fria! A transação empacou? Ou vai ou racha! Ganhava a guerra no grito, aproveitando-se do eclipse pra fazer o rapa. Ah, meu, vacilou, só se vê é o coice de se estrepar. Foi de lascar. O que escapuliu ficou pelo caminho, direção é qualquer lugar com o fim longe. Vai no apurado: de gigolô a proxeneta abastado, os truques de tais e coisas, tudo na base do jabaculê, a usura nefanda, muambas, jogatinas, meretrício, fraudes, trampolinagens, tudo no seu clandestino esconderijo, com todos os ardis aos malassombros, de, um quarto de hora depois, roncar sossegado: Cada qual sua cota de merda, da coisa na penumbra estourar no furico alheio, com salves pelo estrupício. Passava a perna e aguentava os perdigotos do freguês, o falatório dos bedeguebas na caixa dos peitos: Ora, ora, é a vida, é só dar a volta por trás do acaso, oxe, tinindo, não se agrada a todo mundo. Dizem dele a cretinice no corpo todo emendado: intervenções cirúrgicas, reitera faroso. Mas, menino, respeite as caras! A ficha corrida na boca do povo, os cacarecos de magníficos e vassalos cobrando seu dono, a dança da morte no cabo da foice, zás, findou prostrado pela peixeirada dum desafeto. Essa foi uma, afora as outras de tanto, taí, a carne toda lapeada, marcado delito, cada um. Vamos e venhamos, gente não é alimária, hoje esquentou e amanhã vai chover. Ele aos pinotes. Dou fé.

 

DAS COISAS QUE VÃO & VOLTAM

QUANDO O FUTURO CHEGA AO PRESENTE

ARENGA DE ANTANHO

CONTANDO HISTÓRIA

CANDIDATO FAZ TUDO CARA DE PAU NA MAIOR RESPONSA

A VOLTA DE ZÉ PEIÚDO



 

DITOS & DESDITOS - O amor não começa nem termina da maneira como parecemos pensar. O amor é uma batalha, o amor é uma guerra; o amor é um amadurecimento... Você acha que a sua dor e a sua mágoa são inéditas na história do mundo, mas então você lê... Toda arte é uma espécie de confissão, mais ou menos oblíqua. Todos os artistas, se quiserem sobreviver, são forçados, por fim, a contar toda a história; a vomitar a angústia... Pensamentro do escritor e dramaturgo estadunidense James Baldwin (James Arthur Baldwin – 1924-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: A verdade precisa ser dita porque se não for dita não existe. Não existe verdade interior diferente da verdade que se fala, e por isso aprendemos a mentir para nós mesmos, a fingir, a ter medo do risco das palavras... A desilusão nada mais é do que o desaparecimento súbito de uma certeza... Pensamento da escritora, ativista, feminista e dramaturga catalã, Aurèlia Capmany (Maria Aurèlia Capmany i Farnés – 1918-1991). Veja mais aqui.

 

OS HOMENS EXPLICAM TUDO – [...] Homens continuam me explicando coisas. E nenhum homem jamais pediu desculpas por explicar, de forma equivocada, coisas que eu sei e eles não. [...] Algumas mulheres são apagadas aos poucos; outras, de uma só vez. Algumas reaparecem. Toda mulher que surge trava uma batalha contra as forças que a querem fazer desaparecer. Ela luta contra as forças que pretendem contar a sua história em seu lugar, ou excluí-la da narrativa, da genealogia, dos direitos do homem e do Estado de direito. A capacidade de contar a própria história — seja em palavras ou imagens — já é uma vitória, já é um ato de revolta. [...] Há uma abundância de estupros e violência contra as mulheres neste país e nesta Terra, embora isso quase nunca seja tratado como uma questão de direitos civis ou direitos humanos, nem como uma crise ou sequer um padrão. A violência não tem raça, classe, religião ou nacionalidade, mas tem gênero. [...]. Trechos extraídos da obra Men Explain Things to Me (Haymarket Books, 2014), da escritora estadunidense Rebecca Solnit, autora de obras como The Faraway Nearby (2013), Storming the Gates of Paradise: Landscapes for Politics (2007), A Field Guide to Getting Lost (2005), Hope in the Dark: The Untold History of People Power (2004) e Wanderlust: A History of Walking (2000). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ESPELHOS - Seria inútil cobrir espelhos \ para que as pessoas lá dentro não saiam \ que se alojaram lá \ esperando que alguém seja refletido \ e ameaçadora ou piamente, despercebido, \ poderiam deixar o luminoso \ habitando onde vivem, \ para nos atacar ou nos proteger ou nos perverter. \ Desde o seu início que me lembro \ uma corte celestial e diabólica me assistiu: \ quando minha babá Celestina abotoou seu casaco \ (É verdade que ela estava tingindo o cabelo \ e para surpreendê-la aventurei-me ao lado de sua reflexão) \ quatro libélulas esvoaçavam sobre \ anunciando chuva, um raspou minha bochecha e eles saíram \ da área onde ela foi refletida; \ eles me seguiram sempre ou a seguiram, \ com a sua morte desapareceram, \ exceto na véspera de uma tempestade. \ Quando minha mãe se vestiu para ir ao baile \ e prendeu a banda em seu cinto de veludo roxo \ um anjo partiu com ela quando ela apagou a luz \ acompanhou-a até o carro \ e é por isso que acredito que ela voltou naquela noite \em que eu tremia de medo pela sua morte. \ Quando o professor de ballet \ curtsied dentro do quadro de ébano, três pessoas com máscaras \ saiu cantando e me visitou em um sonho. \ Quando o médico ascende no elevador \ fixo sua gravata \ cinquenta rostos com aventais brancos, \ que eu não consegui examinar, furtivamente brotou \ daquela pequena lua perfeitamente iluminada. \ Quando a Susana me disse na loja de doces \ meu cabelo está uma bagunça, \ ela olhou para si mesma na tampa do compacto, \ imprudentemente eu disse "Deixe-me ver", \ Eu me inclinei para o círculo brilhante: \ um diálogo turbulento nos sobressaltou, \ três jovens com colares, \ fino, de ter sido fechado em um círculo minúsculo, \ malicioso, \ sentou-se à nossa mesa. \ Desde aquele dia, todos eles interferiram \ em nossas chamadas telefônicas. \ Meu cachorro, que se admirava atentamente uma vez, \ latido insistentemente, \ mais astuto ele tinha visto uma certa corporalidade \ deixando o espelho: \ um coelho branco macio me visitou uma tarde. \ Mas não vou listar os gatos, \ os cavalos, as gazelas, as tartarugas, \ os necrofílicos, \ os canibais, os não nascidos, \ os gnomos, os gigantes, os onanistas, \ que saiu dos espelhos onde imprudentemente \ Olhei ao lado de outras pessoas que não os viram \ cegos pela sua própria imagem. \ Agora já não partilho um espelho com ninguém \ porque se o meu reflexo aproveitar a oportunidade \ para deixá-los livres, exércitos de outras pessoas, \ um mundo demasiado numeroso \ estará tomando forma embora seja difícil parar \ porque o espelho dirá "cresce e multiplica" \ a ponto de desalojar o universo \ secretamente esperando por isso \ depois de ter repetido tanto tempo \ na água, na obsidiana, \ em metais e em espelhos subsequentes. \ Também não devemos pensar que a coisa toda é horrível. \ Os sem-abrigo vão abrigar-se \ dentro dos espelhos \ (eles nunca terão vivido em lugares tão luminosos) \ eles sairão por sua vez \ quando os que estavam refletindo \ contemplar-se esquecendo de sua experiência. Poema da escritora argentina Silvina Ocampo (Silvina Inocência Ocampo – 1903-1993). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

VIVER COM O PROBLEMA – [...] Importa com quais matérias pensamos outras matérias; importa quais histórias contamos para contar outras histórias; importa quais nós dão nós em nós, quais pensamentos pensam pensamentos, quais descrições descrevem descrições, quais laços atam laços. Importa quais histórias criam mundos, quais mundos criam histórias. [...] Nossa tarefa é causar agitação, provocar uma resposta contundente a eventos devastadores, bem como acalmar águas turbulentas e reconstruir lugares de tranquilidade. [...] O Antropoceno marca descontinuidades severas; o que vier depois não será como o que veio antes. Acredito que nossa tarefa é tornar o Antropoceno o mais curto e breve possível e cultivar, uns com os outros e de todas as formas imagináveis, as épocas vindouras capazes de restaurar refúgios. [...] Já são tantas as perdas, e haverá muitas mais. Um florescimento generativo renovado não pode brotar de mitos de imortalidade ou da incapacidade de "tornar-se-com" os mortos e os extintos. [...]. Trechos extraídos da obra Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene (Duke University Press 2016), da filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway (Donna J. Haraway), autora do Manifesto Ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX (1985) e de Simians, Cyborgs, and Women: The Reinvention of Nature (1995). Veja mais aqui & aqui.

 


CHRISTIANE TORLONI
– A trajetória da atriz Christiane Torlone - La Torloni, é mercada por participações engajadas em movimentos históricos como Diretas Já, a luta pela democracia e o fim da ditadura, entre outros envolvimentos em causas sociais. Ela iniciou no teatro com As preciosas ridículas (1979), Bodas de papel (1980), As lágrimas amargas de Petra von Kant (1981), Tio Vânia (1984), O lobo de Rayban (1988), Orlando (1989), 10 elevado a menos 43 – Extasis (1993), Hamlet (1994), Salomé, Salomé (1997), Joana D’Arc, a revolta (2000), Blue Room (2002), A paixão de Cristo: o auto de Deus (2004), Mulheres por um fio (2005) e A loba de Ray-ban (2009). No cinema ela estreou com Ariella (1980), O beijo no asfalto (1981), Eros, o deus do amor (1981), Rio Babilônia (1982), Das tripas coração (1982), O bom burguês (1983), Aguenta, coração (1984), Águia na cabeça (1984), Besame mucho (1987), Eu (1987), Perfume de Gardênia (1993), Cinema de lágrimas (1995), Ismael e Adalgisa (2001), Onde andará Dulce Veiga? (2007) e Chico Xavier (2010). Fez muito sucesso na televisão participando de novelas e seriados. Veja mais aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

DUAS HISTÓRIAS CLÍNICAS, DE SIGMUND FREUD - [...] Minha impressão é de que o quadro da vida sexual de uma criança apresentado nessa observação do pequeno Hans está muito de acordo com o relato que forneci (baseando meus pontos de vista em exames psicanalíticos de adultos) nos meus Três Ensaios. Mas antes de entrar nos detalhes dessa concordância, devo tratar de duas objeções que serão levantadas contra o fato de eu fazer uso da presente análise para esse fim. A primeira objeção é quanto ao fato de que Hans não era uma criança normal, mas (como os eventos - a própria doença, de fato - mostraram) tinha uma predisposição para a neurose, e era um jovem “degenerado”; seria ilegítimo, portanto, aplicar-se a outras crianças normais conclusões que talvez pudessem ser verdadeiras em relação a ele. Devo adiar a consideração dessa objeção, de vez que ela só limita o valor da observação, e não o anula completamente. De acordo com a segunda e menos comprometedora objeção, uma análise de uma criança conduzida por seu pai, que foi instilado ao trabalho com meus pontos de vista teóricos e infectado com meus preconceitos, deve ser inteiramente desprovida de qualquer valor objetivo. Uma criança, dirão, é necessariamente muito sugestionável, e muito mais por seu próprio pai do que talvez por qualquer outra pessoa; ela permitirá que qualquer coisa lhe seja forçada, por causa da gratidão a seu pai por lhe dar tanta atenção; nenhuma das suas afirmações pode ter qualquer valor de evidência, e tudo o que ela produz sob a forma de associações, fantasias e sonhos tomará, naturalmente, a direção para a qual está sendo pressionada por todos os meios possíveis. Mais uma vez, em suma, a coisa toda é simplesmente `sugestão’ - a única diferença é que, no caso de uma criança, ela pode ser desmascarada muito mais facilmente do que no caso de um adulto. Coisa singular. Lembro-me, quando comecei a me intrometer no conflito de opiniões científicas há vinte e dois anos atrás, de com que zombaria a geração mais velha de neurologistas e psiquiatras dessa época recebeu as afirmações sobre a sugestão e seus efeitos. Desde então a situação mudou fundamentalmente. A aversão original converteu-se numa aceitação por demais pronta; e isso aconteceu não só como consequência da impressão que o trabalho de Liébeault e Bernheim e de seus alunos não podia deixar de criar no curso dessas duas décadas, mas também porque desde então se descobriu que grande economia de pensamento pode ser feita com o uso da chamada `sugestão’. Ninguém sabe e ninguém se importa com o que seja sugestão, de onde ela vem, ou quando surge - basta que tudo de estranho na região da psicologia seja rotulado de `sugestão’. Não compartilho do ponto de vista, que está em voga atualmente, de que as afirmações feitas pelas crianças são invariavelmente arbitrárias e indignas de confiança. O arbitrário não tem existência na vida mental. A não-confiabilidade das afirmações das crianças é devida à predominância da sua imaginação, exatamente como a não-confiabilidade das afirmações das pessoas crescidas é devida à predominância dos seus preconceitos. Quanto ao resto, mesmo as crianças não mentem sem um motivo, e no todo são mais inclinadas para um amor da verdade do que os mais velhos. Se fôssemos rejeitar a raiz e os ramos das declarações do pequeno Hans certamente deveríamos estar-lhe fazendo uma grave injustiça. Ao contrário, podemos distinguir claramente as ocasiões em que ele estava falsificando os fatos ou guardando-os sob a força compelidora de uma resistência, as ocasiões em que, estando indeciso, concordava com seu pai (de modo que aquilo que ele dissesse não fosse tomado como evidência), e as ocasiões em que, livre de qualquer pressão, ele explodia numa torrente de informação sobre o que estava realmente acontecendo dentro dele e sobre coisas que até então ninguém sabia, a não ser ele mesmo. As declarações feitas por adultos não oferecem maior certeza. É um fato lamentável que nenhum relatório de uma psicanálise possa reproduzir as impressões recebidas pelo analista enquanto ele a conduz, e que um sentido final de convicção nunca possa ser obtido pela leitura sobre ela, mas somente experimentando-a diretamente. Contudo, essa incapacidade aplica-se em igual grau a análises de adultos. O pequeno Hans é descrito por seus pais como uma criança alegre, franca, e assim ele deve ter sido, considerando-se a educação dada por seus pais, que consistia essencialmente na omissão dos nossos costumeiros pecados educacionais. Enquanto podia levar avante suas pesquisas num estado de feliz naïvété, sem nenhuma suspeita dos conflitos que estavam para surgir a partir destas, ele não escondeu nada; e as observações feitas durante o período anterior à fobia não admitem dúvida ou reserva. Foi com a eclosão da doença e durante a análise que começaram a aparecer as discrepâncias entre o que ele dizia e o que ele pensava; isso acontecia em parte porque o material inconsciente, que ele era incapaz de controlar, de repente se estava forçando sobre ele, e em parte porque o conteúdo de seus pensamentos provocava reservas em relação às suas relações com seus pais. Minha opinião imparcial é que essas dificuldades não resultaram maiores do que em muitas análises de adultos. É verdade que durante a análise teve que ser contada a Hans muita coisa que ele mesmo não podia dizer, ele teve de ser apresentado a pensamentos que até então ele não tinha mostrado sinais de possuir, e sua atenção teve de ser voltada para a direção da qual seu pai estava esperando que surgisse algo. Isso diminui o valor de evidência da análise, mas o processo é o mesmo em todos os casos. Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa. Em uma psicanálise o médico sempre dá a seu paciente (às vezes em maior e às vezes em menor escala) as ideias conscientes antecipadas, com a ajuda das quais ele se coloca em posição de reconhecer e de compreender o material inconsciente. Há alguns pacientes que necessitam mais de tal assistência e alguns que necessitam menos, mas não há nenhum que passe sem alguma assistência. Leves distúrbios podem, às vezes, ser levados a um fim pelos esforços não auxiliados do sujeito, mas nunca uma neurose - uma coisa que se colocou contra o ego como um elemento estranho a ele. Para obter o melhor de tal elemento, outra pessoa precisa ser trazida para dentro, e na medida em que essa pessoa puder auxiliar, a neurose será curável. Se está na própria natureza de qualquer neurose afastar-se da `outra pessoa’ - e isso parece ser uma das características dos estados agrupados sob o nome de demência precoce -, então, por esta razão, tal estado será incurável por quaisquer esforços de nossa parte. É verdade que uma criança, devido ao pequeno desenvolvimento dos seus sistemas intelectuais, requer uma assistência especialmente enérgica. Mas, afinal, a informação que o médico dá ao seu paciente deriva, por sua vez, de experiência analítica; e, de fato, isso é suficientemente convincente se, à custa dessa intervenção do médico, ficamos habilitados para descobrir a estrutura do material patogênico e, simultaneamente, para dissipá-lo. Contudo, mesmo durante a análise, o pequeno paciente deu sinal de independência suficiente para colocá-lo acima da acusação de `sugestão’. Como todas as outras crianças, ele aplicava suas teorias sexuais infantis ao material à sua frente, sem ter recebido qualquer encorajamento para agir assim. Essas teorias estão extremamente distantes da mente adulta. Na verdade, nesse caso eu realmente deixei de avisar ao pai de Hans que o menino seria impelido a aproximar-se do tema do parto por meio do complexo excretório. Essa negligência da minha parte, apesar de ter levado a uma fase obscura na análise, foi, todavia, o meio de produzir uma boa parte de evidência da legitimidade e da independência dos processos mentais de Hans. Ele se tornou de repente, ocupado com `lumf‘: sem que seu pai, que se supunha estar praticando sugestão sobre ele, tivesse a menor ideia de como ele tinha chegado a esse tema, ou o que iria sair daí. Seu pai também não pode ser sobrecarregado com nenhuma responsabilidade pela produção das duas fantasias do bombeiro, que surgiram com o `complexo de castração’ de Hans, adquirido muito cedo. É preciso confessar aqui que, fora o interesse teórico, ocultei inteiramente do pai de Hans minha expectativa de que acabaria havendo um pouco de tal conexão, de modo a não interferir no valor de uma parte de evidência que não vem muitas vezes à compreensão da pessoa. [...] O assunto contido nas páginas a seguir será de duas categorias. Primeiramente, fornecerei alguns extratos fragmentários oriundos da história de um caso de neurose obsessiva. Esse caso, julgado por sua extensão, pelos danos de suas consequências e pelo próprio ponto de vista do paciente a seu respeito, merece ser classificado como um caso relativamente sério. O tratamento, que durou cerca de um ano, acarretou o restabelecimento completo da personalidade do paciente, bem com a extinção de suas inibições. Em segundo lugar, partindo-se desse caso e levando-se em consideração outros casos que analisei anteriormente, farei algumas assertivas de caráter aforístico, fora de conexão, sobre a gênese e o mecanismo mais estritamente psicológico dos processos obsessivos; assim, espero desenvolver as minhas primeiras observações sobre o assunto, publicadas em 1896. [...] Aquilo que se descreve oficialmente como uma `ideia obsessiva’ mostra, por conseguinte, em sua deformação a partir de seu teor original; vestígios da luta defensiva primária. Sua deformação possibilita que esta persista, de vez que o pensamento consciente é, pois, impelido a compreendê-la mal, como se fosse um sonho; isso porque também os sonhos são um produto da conciliação e da deformação, e são mal compreendidos pelo pensamento desperto. [....] A predileção dos neuróticos obsessivos pela incerteza e pela dúvida leva-os a orientar seus pensamentos de preferência para aqueles temas perante os quais toda a humanidade está incerta e nossos conhecimentos e julgamentos necessariamente expostos a dúvida. Os principais temas dessa natureza são paternidade, duração da vida, vida após a morte e memória - na qual todos nós costumamos acreditar, sem possuirmos a menor garantia de sua fidedignidade. Nas neuroses obsessivas, a incerteza da memória é utilizada em toda a sua extensão como auxiliar na formação de sintomas; e conheceremos diretamente o papel desempenhado no conteúdo real dos pensamentos do paciente pelas questões sobre a duração da vida e a vida depois da morte. Contudo, como uma transição mais adequada, considerarei em primeiro lugar um vestígio particular de superstição em nosso paciente, ao qual já aludi, e que, sem dúvida, terá confundido a mais de um de meus leitores. DUAS HISTÓRIAS CLÍNICAS – A obra Duas histórias clínicas – o pequeno Hans e o homem dos ratos, de Sigmund Freud, trata acerca da análise de uma fobia em um  menino de cinco anos, abordando o caso clinico e análise, discussão, pós-escrito, e notas sobre um caso de neurose obsessiva, abordando extrato do caso clínico, o inicio do tratamento, sexualidade infantil, o grande medo obsessivo, iniciação na natureza do tratamento, algumas ideias obsessivas e sua explicação, a causa precipitadora da doença, o complexo paterno e a solução da ideia do rato, considerações teóricas, algumas características das estruturas obsessivas, algumas peculiaridades psicológicas dos neuróticos obsessivos, sua atitude perante a realidade, a superstição e a morte, a vida instintual dos neuróticos obsessivos e as origens da compulsão e da dúvida, addendum: registro original do caso e um apêndice com alguns escritos de Freud que tratam da ansiedade, das fobias em crianças e de neurose obsessiva. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
FREUD, Sigmund. Duas histórias clínicas – o pequeno Hans e o homem dos ratos. Rio de Janeiro: Imago, 1980.


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