EITA, ZÉ BESTÃO!
- Zé Bestão sempre foi besta demais, pense
num cara broco de tão perdido, nossa! Não conheço ninguém tão desligado na vida,
chega penso que ele não é deste mundo. Será? É que ele não leva nada no olho da
maldade, seja marotagem, safadeza, ardis, qualquer dissimulação pra ele é tudo
no muito normal, natural. Pois é, aprontam com ele de todo jeito, pintam e
bordam, armam arapuca na maior cruzeta, pintam o sete pelas costas, mandam ver
se estão na esquina e ele vai, preparam a cama de gato e ele cai toda vez, fazem
dele portador de carta esculhambando destinatário e ele lá esperando resposta
na hora embaixo do maior esculacho, fazem tramóia e culpam ele pela desgraça do
meladeiro todo, cometem desatino e dizem que foi ele, roubam, melecam, traem, passam
a perna, pintam miséria e, no final, colocam a culpa nele. E ele? Pode estar no
calão, ah, nem aí, nem liga, como se nem fosse com ele, riso amarelo, cara
lisa, no final assume tudo, põe-se a resolver como se realmente fosse ele
próprio o responsável por todos os desatinos tramados. Parece que pra ele não
aconteceu nada, pois encara tão normalmente a trapaça que mais parece coisa
encomendada que ele já sabia e leva com tanto afinco como se fosse labor
profissional. Dá pra imaginar? Já teve gente que chegou junto dele no amiudado e
delatou tudo, deram-no ciência de que armaram tudo pra cima dele, que estão
sacaneando com ele o tempo todo, que isso não é justo e que ele deve tomar uma
providência e desancar todo mundo que anda goelando pra cima dele e ele com a
cara mais santa do mundo, simplesmente diz: Eu sei, tô sabendo, sim, na maior,
saquei tudo. E não vai fazer nada? Claro, ora, vou resolver tudinho. E não vai
se vingar? Pra quê? Ora, eles merecem uma boa lição. Nada, eles estão apenas brincando
comigo, na maior. Ah, mas estão sacaneando com você o tempo inteiro! Nada não,
isso é normal. Normal caraca nenhuma, porra! Danou-se! Esse leva desacerto de
todo jeito, até Zé-Corninho tira onda pra cima dele. Pode? Oxe, leva toque de
arrodeio, passa batido, paga o pato, ora, e nem aí. Leva a maior dedada até
tomar no cu e nem aí. Assim não. Nunca vi sujeito mais leso na vida. Todo mundo
no bloco do eu sozinho pra cima dele e ele na maior solidariedade, hem hem,
botam ele no front, bucha de canhão e pronto pro fuzilamento, fazem-no de
otário meio dia em ponto, deixam-no quarando em pé por horas de quase secar os
cambitos esperando pelo que nunca virá, maior bobo na roda, leva e traz de vai
e volta todo dia e o dia todo, encarcam sem pena, só punhalada no toitiço, golpe
baixo, desfeita às escondidas, trairagem suja, não sei como ele escapa, acho
que Deus protege as crianças, os doidos, os bêbados e ele! Só pode, afinal de
doido e bêbado ele tem tudo, mesmo abstêmio e são do juízo. Ô Zé Bestão, cê ta
pensando em quando morrer ir pro céu é? Ah, é, isso mesmo, pelo menos, quando
eu morrer vou direto pro paraíso, né não? Ah, é, claro que vai e como. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, novembro 16, 2017
FROMM, CHINUA ACHEBE, MILLÔR, JORGE FORBES, PSICANÁLISE, VIV ROSSER, SENSO COMUM, ZÉ BESTÃO & JAQUEIRA
EITA, ZÉ BESTÃO!
- Zé Bestão sempre foi besta demais, pense
num cara broco de tão perdido, nossa! Não conheço ninguém tão desligado na vida,
chega penso que ele não é deste mundo. Será? É que ele não leva nada no olho da
maldade, seja marotagem, safadeza, ardis, qualquer dissimulação pra ele é tudo
no muito normal, natural. Pois é, aprontam com ele de todo jeito, pintam e
bordam, armam arapuca na maior cruzeta, pintam o sete pelas costas, mandam ver
se estão na esquina e ele vai, preparam a cama de gato e ele cai toda vez, fazem
dele portador de carta esculhambando destinatário e ele lá esperando resposta
na hora embaixo do maior esculacho, fazem tramóia e culpam ele pela desgraça do
meladeiro todo, cometem desatino e dizem que foi ele, roubam, melecam, traem, passam
a perna, pintam miséria e, no final, colocam a culpa nele. E ele? Pode estar no
calão, ah, nem aí, nem liga, como se nem fosse com ele, riso amarelo, cara
lisa, no final assume tudo, põe-se a resolver como se realmente fosse ele
próprio o responsável por todos os desatinos tramados. Parece que pra ele não
aconteceu nada, pois encara tão normalmente a trapaça que mais parece coisa
encomendada que ele já sabia e leva com tanto afinco como se fosse labor
profissional. Dá pra imaginar? Já teve gente que chegou junto dele no amiudado e
delatou tudo, deram-no ciência de que armaram tudo pra cima dele, que estão
sacaneando com ele o tempo todo, que isso não é justo e que ele deve tomar uma
providência e desancar todo mundo que anda goelando pra cima dele e ele com a
cara mais santa do mundo, simplesmente diz: Eu sei, tô sabendo, sim, na maior,
saquei tudo. E não vai fazer nada? Claro, ora, vou resolver tudinho. E não vai
se vingar? Pra quê? Ora, eles merecem uma boa lição. Nada, eles estão apenas brincando
comigo, na maior. Ah, mas estão sacaneando com você o tempo inteiro! Nada não,
isso é normal. Normal caraca nenhuma, porra! Danou-se! Esse leva desacerto de
todo jeito, até Zé-Corninho tira onda pra cima dele. Pode? Oxe, leva toque de
arrodeio, passa batido, paga o pato, ora, e nem aí. Leva a maior dedada até
tomar no cu e nem aí. Assim não. Nunca vi sujeito mais leso na vida. Todo mundo
no bloco do eu sozinho pra cima dele e ele na maior solidariedade, hem hem,
botam ele no front, bucha de canhão e pronto pro fuzilamento, fazem-no de
otário meio dia em ponto, deixam-no quarando em pé por horas de quase secar os
cambitos esperando pelo que nunca virá, maior bobo na roda, leva e traz de vai
e volta todo dia e o dia todo, encarcam sem pena, só punhalada no toitiço, golpe
baixo, desfeita às escondidas, trairagem suja, não sei como ele escapa, acho
que Deus protege as crianças, os doidos, os bêbados e ele! Só pode, afinal de
doido e bêbado ele tem tudo, mesmo abstêmio e são do juízo. Ô Zé Bestão, cê ta
pensando em quando morrer ir pro céu é? Ah, é, isso mesmo, pelo menos, quando
eu morrer vou direto pro paraíso, né não? Ah, é, claro que vai e como. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.segunda-feira, fevereiro 22, 2016
MANSFIELD, ÁNGEL RAMA, BEAUVOIR, GILKA MACHADO & BANDA DE MANÉ PRETO
A BANDA DE MANÉ PRETO - Gente, eu já
ouvi de tudo, mas essa banda é a maior tronchura. Juro! Eles são tanto hors
concours, como sui generis e mais superlativos exagerados que deixam a idéia
tanto para infortúnios como para fenômenos inexplicáveis. Isso mesmo. Essa a
atitude assumida por eles. E começa pelo nome: o primeiro de batismo foi
“Zumbido da porra”, mas logo mudaram porque os integrantes não acharam a menor
graça. Depois foi “Arrepiando as pregas”, satisfazendo a todos pela ausência de
coisa melhor. Enfim, vieram os “Zoando a fole”, “Torando tudo” até passar pelo
“Cacete a quatro” e, enfim, depois de muita lengalenga chegaram no “Além do 8 e
do 80”. Na verdade, por causa das imprestáveis idéias que beiravam o cúmulo do
insensato, nome em definitivo, até hoje, não tem, sendo, portanto, conhecida
apenas por Banda de Mané Preto. Pela atitude bisonha deles, a questão passa a
ser uma das características fundamentais da banda: os inomináveis. Isso, claro,
sintetizando bem a idéia que eles querem passar da bizarrice embrulhada toda. O
som. Bem, o som da banda se parece com algo que, segundo a enrolada de língua
deles na pronúncia desdentada, deixa apenas entender, assim, de relance que se
trata de alguma coisa que se identifique perto do pós-dodecafônico, do
ultratonal. Explicação: não tem. Isso porque primeiro não se entende nada do
que dizem e porque foram duas palavras escolhidas a dedo por eles para
justificar alguma coisa de proposta sonora. Com certeza, gente, John Cage
ficaria de queixo caído se visse. Inacreditável mesmo tanta microfonia,
dissonância, pancada, ruído, barulho, doidice, inaptidão, tranqueira,
busuntice, tudo junto no maior pandemônio. Doideira pura. Os integrantes: 5
maloqueiros que se dizem lá à maneira deles - e quase não se deixando entender
-como indie, trash, headbanger, darks, hard, groove, heavy, grunges, punk, ska,
blacks, surf music, cover drags e o escambau, ou tudo isso junto na maior pauleira
com mais uma porrada de coisa não identificável. O cantor, ou melhor, como ele
mesmo se diz crooner, é o Mané Preto, sujeito aparentemente meio que
aluado-abilolado que é dito personal traineé de galo-de-briga e achegado a um
criatório de coleópteros, que só aparece de noite zanzando com os lábios pocados
de choque elétrico de tanto babar no microfone e sempre fazendo sua performance
no palco com seu ar de defunto de olhos arregalados, na companhia de dois
enfermeiros prontos com uma camisa-de-força para sacudirem o rapaz no primeiro
hospício que encontrarem. O guitarrista mesmo é um sujeito com cara de bad boy,
cintura-de-ovo, uma roupa surrada colada no couro porque nunca foi trocada nem
lavada vez que ele é avesso à higiene seja de que natureza for, só toca com um
alicate na boca para não engolir a língua de tanto sopapo nos solos arrancados.
O contra-baixista é um vesgo bisonho e banguela, todo ajegado e troncudo, que
toca um instrumento que mais parece um cabo de vassoura enfiado numa bacia,
sempre desligado para que o sujeito não seja eletrocutado assim sem mais nem
menos. Mas que o troço faz uma barulheira infernal, faz. Como? Não sei. O
tecladista que é um magricela varapau só toca de sarongue e luvas daquelas de
eletricista, o que dá maior estranhice ainda, vez que coloca todos os dedos por
todos os tons ao mesmo tempo, não dando para se identificar qualquer linha
melódica possível. Ou seja, é um verdadeiro desarranjo a coisa toda. O
baterista, esse o mais presepeiro com cara de calango e jeitão de bacamarteiro,
toca um bocado de bombo com penduricalhos de toda natureza, mais uns artefatos
meio amalucados e, com certeza, ignoráveis, que vão desde o peido-de-véia até
um punhado de morteiros e granadas. O disco: não tem; isso por dois motivos. O
primeiro, é que só nos ensaios causaram tantos desastres nos estúdios que
ninguém quer vê-los nem pintado a ouro. O segundo, porque conforme apreciação
mais cuidadosa e cientificamente comprovada, o cd executado poderia
possibilitar um apocalipse no recinto do ouvinte. Resultado: opção deles pela
marginália, completamente fora dos veículos de comunicação, sobrevivendo,
apenas, dos imprevisíveis shows prestigiados pela platéia cativa que ninguém
nunca viu nem sabe quem é. O show: esse nunca tem hora, nem data nem local
marcado. A agenda, pelo que se sabe é só no boca a boca. Isso por serem pior
que Tim Maia e, também, por não contarem nunca com o apoio da polícia e demais
autoridades que querem enquadrá-los nos diversos artigos e incisos do Código
Penal pelo desmantelo provocado a cada tocada. Claro, no primeiro acorde da
abertura morre logo um de ninguém saber de quê. Dizem os linguarudos que quem
só prestigia os “concertos” deles é somente caboeta-de-funerária, papa-defunto,
coveiro e vendedor de seguro. Claro, isso todo mundo precavido com indumentária
preventiva, né, só para se aproveitar dos bestas que passam desavisadamente por
onde ocorre o estrupício. A última apresentação: uma catástrofe. Só com a
subida deles ao palco, bastou contarem 1, 2, 3 caiu a calça de um idoso que
saiu berrando que queriam estuprá-lo. Enquanto o baterista marcava nas baquetas
pipocou uma lâmpada. Quando fizeram que iam tocar, caiu uma parede e matou logo
dois. Quando o acorde foi executado, tiveram que chamar o corpo de bombeiros
para apagar tudo. Maior bronca de buruçu da gota! Pelas razões mencionadas eles
conseguem ser os famosos mais anônimos, além de premiados detestáveis e
contraditoriamente celebrados por uma trupe que prestigiam todas as suas
sandices. Ainda ontem cruzei com Mané Preto todo sorridente como se nada
tivesse ocorrido. - E aí, Mane, tudo em riba? -, perguntei. - Tudo iscorrendo
na calha. – respondeu-me. - E os shows? - Ah, rapaize, os bombêros atrapaiaram
o shô da genti. Toda veizi aconteci isso. Essis cara parece que tem acordo com
minha mulé e minha sogra Bushit. - Ué, por que? - Os cara num gostam, né? Quano
tô em casa a mulé e a sogra só mi trata com uma saraivada de panela que só faiz
galo no meu quengo. Quano vô pra rua fazê shô, os bombêros tascam maió aguacêro
n´eu. - É mesmo, por que? - O som da genti é per... per.... per.... pefumático,
pefomá... profumático, pe.... pé de pasparaio a quatro, ora! - Performático? -
Isso, isso mesmo. E a mulé e a sogra só me chama de traste imprestáve. Coisa de
lôco mermo, rapaize. Num sei mai o qui fazê, ora. É parece mais que Mané Preto
e sua trupe, que são gente boa pra caraca, querem mesmo tocar fogo no mundo,
literalmente, com toda maluquice de suas desarmonias antimusicais. Dá pra ver.
Eu, de mim mesmo, adoro essas invencionices! Bié, bié, glup, glup! © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.
DITOS & DESDITOS - O prazer de ler é dobrado quando se vive
com outra pessoa que compartilha os mesmos livros... O que sinto por você não
pode ser expresso em combinações de frases; ou grita alto ou permanece
dolorosamente silencioso, mas eu prometo — supera palavras. Supera mundos... Sempre
senti que o grande privilégio, alívio e conforto da amizade era que não era
preciso explicar nada... A
mente que eu amo deve ter lugares selvagens, um pomar emaranhado onde ameixas
escuras caem na grama densa, um pequeno bosque coberto de vegetação, a chance
de uma ou duas cobras, uma piscina cuja profundidade ninguém imaginou e
caminhos cheios de flores plantadas pela mente... Pensamento da escritora e
crítica neozelandesa Katherine Mansfield
(Kathleen Mansfield Murry, nascida Beauchamp – 1888-1923). Veja mais aqui, aqui,
aqui & aqui.
SEGUNDO SEXO – [...] o homem é pensável sem a mulher. Ela não,
sem o homem. Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o
‘sexo’ para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado:
para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e
diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o
inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro [...]. Trecho extraído da obra O segundo
sexo (2 vols., Difusão Européia do Livro, 1967), da filósofa, escritora,
ativista e feminista franca Simone de Beauvoir (Simone
Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Veja mais aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
CIDADE
DAS LETRAS – [...] os
intelectuais não servem apenas a um poder, como também são proprietários de um
poder [...], Trecho extraído da obra La ciudad letrada (1984), do escritor e crítico literário
uruguaio Ángel Rama (Ángel
Antonio Rama Facal – 1926-1983), introuditor da teoria da transcultururação, ao
estudar a concepção, o planejamento e a consolidação das cidades
latino-americanas, desde a destruição da asteca Tenochtitlán, em 1521, até a
inauguração de Brasília, na década de 1960, traçando um paralelo entre os
projetos urbanísticos e o ideal desejado de urbe limpa, estéril e civilizada.
ÂNSIA MÚLTIPLA - Beija-me Amor, \ beija-me sempre e mais e
muito mais, \ – em minha boca esperam outras bocas \ os beijos deliciosos que
me dás! \ Beija-me ainda, \ ainda mais! \ Em mim sempre acharás \ à tua vinda \
ternuras virginais. \ Beija-me mais, põe o mais cálido calor \ nos beijos que
me deres, \ pois viva em mim a alma de todas as mulheres \ que morreram sem
amor!… Poema extraído da obra Mulher nua (1922), da poeta Gilka
Machado (Gilka da Costa de Melo Machado – 1893-1980). Veja mais aqui &
aqui.
quinta-feira, fevereiro 18, 2016
SILVINA OCAMPO, BALDWIN, HARAWAY, CAPMANY, SOLNIT, FREUD & ZÉ PEIÚDO
SACANAGENS, RESUMO DA OPERETA
– Zé Peiúdo sempre foi na vantagem. O que aprontou? Nem lhe conto: cacunda
alheia, seu poleiro. Volta e meia, os dentes arreganhados insuspeitáveis, conversa
tinha de afiada, de derrubar avião, trovejar no verão e tocar fogo embaixo d’água.
Deixasse e o truque escurecia o Sol, acendia a Lua e dava voltas no vento dele
chegar bem mansinho na brisa da mordida. E do ajeitado duma mão à outra, o
maior caqueado: a hipnose da afanação. Vai ver e logo um desavisado: Roubaram
minha carteira! Num diga, quem terá sido esse salafrário? Ele paparicando ali o
ofendido. Se fosse comprar, vendia; se era para pagar, tomava; e o alesado
sorria felizardo eternamente grato. Oi? Assim é ele se achegando, dentadura arreganhada
no quarador, com o héhéhé ufano no barrunfo do bafo, a volta grossa pelo pescoço
com um crucifixo exibindo o peitoril musculoso, uma pulseira larga no punho esquerdo,
um relógio no pulso direito e uma fivela enorme com H maiúsculo sustentando a
pança saliente, tudo ourinado de engomadinho, camisa por dentro da calça vincada
nos saltos do par de botas, se passando por pobre coitado, seu criado. Batia no
peito: Não tenho esposa! Só, como ele mesmo dizia às intimidades, concubinas,
meia dúzia de sonsas fulanas que, todo dia, manhã, tarde e noite, no cavoucado,
passeava nelas montado na lambreta do seu veraneio de pernas pro ar, sua eterna
vilegiatura. Na vera: um harém exclusivo, mesmo. Sogra? Deus me livre, é muita
chateação, nem avisa e inventa enredo com dente trincado - razão de seu endereço
incerto, domicílio escuso. Ademais, o seu drama: Só trato com gente séria! E chama
todos pelo apelido, seja cangalha ou zambeta, estranhos e embecados, seus cupinchas
de corriola, a levá-los na pontinha dos dedos, conforme os secretos ventos
semeados e tempestades colhidas, todo dissimulado: Bata quem dê as cartas, a
gente joga e faz o jogado. Outro dia mesmo, sem quê nem pra quê, sacou do bolso
um molho de pedras que, pra ele, cochichando: valia uma fortuna, mais que ouro.
Como assim? Ora, segredava: era como as disfarçava pra ninguém botar o olho
grande de querê-lo roubar. Xô, pra lá! Oxente! Era nesse brincado a enrolada de
areia como tesouro, mato feito riqueza, capim o bem mais valioso, assim, assim.
E nisso vendia gato por lebre, gabiru por bezerro de elite, calangos por
cavalos de corrida, enfim, fazia de tardígrados, rotíferos e mixobolos os mais
avultados criatórios de seus negócios milionários. Sou lá besta de entregar de
bandeja fortuna pra bandido! Vai nessa não, é fria! A transação empacou? Ou vai
ou racha! Ganhava a guerra no grito, aproveitando-se do eclipse pra fazer o
rapa. Ah, meu, vacilou, só se vê é o coice de se estrepar. Foi de lascar. O que
escapuliu ficou pelo caminho, direção é qualquer lugar com o fim longe. Vai no
apurado: de gigolô a proxeneta abastado, os truques de tais e coisas, tudo na
base do jabaculê, a usura nefanda, muambas, jogatinas, meretrício, fraudes, trampolinagens,
tudo no seu clandestino esconderijo, com todos os ardis aos malassombros, de, um
quarto de hora depois, roncar sossegado: Cada qual sua cota de merda, da coisa na
penumbra estourar no furico alheio, com salves pelo estrupício. Passava a perna
e aguentava os perdigotos do freguês, o falatório dos bedeguebas na caixa dos
peitos: Ora, ora, é a vida, é só dar a volta por trás do acaso, oxe, tinindo, não
se agrada a todo mundo. Dizem dele a cretinice no corpo todo emendado:
intervenções cirúrgicas, reitera faroso. Mas, menino, respeite as caras! A
ficha corrida na boca do povo, os cacarecos de magníficos e vassalos cobrando
seu dono, a dança da morte no cabo da foice, zás, findou prostrado pela peixeirada
dum desafeto. Essa foi uma, afora as outras de tanto, taí, a carne toda lapeada,
marcado delito, cada um. Vamos e venhamos, gente não é alimária, hoje esquentou
e amanhã vai chover. Ele aos pinotes. Dou fé.
QUANDO O FUTURO CHEGA AO PRESENTE
CANDIDATO FAZ TUDO CARA DE PAU NA MAIOR RESPONSA
DITOS & DESDITOS
- O amor não começa nem termina da maneira como parecemos pensar. O amor é
uma batalha, o amor é uma guerra; o amor é um amadurecimento... Você acha que a
sua dor e a sua mágoa são inéditas na história do mundo, mas então você lê... Toda
arte é uma espécie de confissão, mais ou menos oblíqua. Todos os artistas, se
quiserem sobreviver, são forçados, por fim, a contar toda a história; a vomitar
a angústia... Pensamentro do escritor e dramaturgo estadunidense James
Baldwin (James Arthur
Baldwin – 1924-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU: A verdade precisa ser dita porque se não
for dita não existe. Não existe verdade interior diferente da verdade que se
fala, e por isso aprendemos a mentir para nós mesmos, a fingir, a ter medo do
risco das palavras... A desilusão nada mais é do que o desaparecimento súbito
de uma certeza... Pensamento
da escritora, ativista, feminista e dramaturga catalã, Aurèlia Capmany (Maria
Aurèlia Capmany i Farnés – 1918-1991). Veja mais aqui.
OS HOMENS EXPLICAM
TUDO – [...] Homens continuam me explicando coisas. E nenhum homem jamais
pediu desculpas por explicar, de forma equivocada, coisas que eu sei e eles não.
[...] Algumas mulheres são apagadas aos poucos; outras, de uma só vez. Algumas
reaparecem. Toda mulher que surge trava uma batalha contra as forças que a
querem fazer desaparecer. Ela luta contra as forças que pretendem contar a sua
história em seu lugar, ou excluí-la da narrativa, da genealogia, dos direitos
do homem e do Estado de direito. A capacidade de contar a própria história —
seja em palavras ou imagens — já é uma vitória, já é um ato de revolta. [...]
Há uma abundância de estupros e violência contra as mulheres neste país e
nesta Terra, embora isso quase nunca seja tratado como uma questão de direitos
civis ou direitos humanos, nem como uma crise ou sequer um padrão. A violência
não tem raça, classe, religião ou nacionalidade, mas tem gênero. [...]. Trechos
extraídos da obra Men Explain Things to Me (Haymarket Books, 2014), da
escritora estadunidense Rebecca Solnit, autora de
obras como The Faraway Nearby (2013), Storming the Gates of
Paradise: Landscapes for Politics (2007), A Field Guide to Getting Lost
(2005), Hope in the Dark: The Untold History of People Power (2004) e Wanderlust:
A History of Walking (2000). Veja
mais aqui, aqui & aqui.
ESPELHOS - Seria
inútil cobrir espelhos \ para que as pessoas lá dentro não saiam \ que se
alojaram lá \ esperando que alguém seja refletido \ e ameaçadora ou piamente,
despercebido, \ poderiam deixar o luminoso \ habitando onde vivem, \ para nos
atacar ou nos proteger ou nos perverter. \ Desde o seu início que me lembro \ uma
corte celestial e diabólica me assistiu: \ quando minha babá Celestina abotoou
seu casaco \ (É verdade que ela estava tingindo o cabelo \ e para surpreendê-la
aventurei-me ao lado de sua reflexão) \ quatro libélulas esvoaçavam sobre \ anunciando
chuva, um raspou minha bochecha e eles saíram \ da área onde ela foi refletida;
\ eles me seguiram sempre ou a seguiram, \ com a sua morte desapareceram, \ exceto
na véspera de uma tempestade. \ Quando minha mãe se vestiu para ir ao baile \ e
prendeu a banda em seu cinto de veludo roxo \ um anjo partiu com ela quando ela
apagou a luz \ acompanhou-a até o carro \ e é por isso que acredito que ela
voltou naquela noite \em que eu tremia de medo pela sua morte. \ Quando o
professor de ballet \ curtsied dentro do quadro de ébano, três pessoas com
máscaras \ saiu cantando e me visitou em um sonho. \ Quando o médico ascende no
elevador \ fixo sua gravata \ cinquenta rostos com aventais brancos, \ que eu
não consegui examinar, furtivamente brotou \ daquela pequena lua perfeitamente
iluminada. \ Quando a Susana me disse na loja de doces \ meu cabelo está uma
bagunça, \ ela olhou para si mesma na tampa do compacto, \ imprudentemente eu
disse "Deixe-me ver", \ Eu me inclinei para o círculo brilhante: \ um
diálogo turbulento nos sobressaltou, \ três jovens com colares, \ fino, de ter
sido fechado em um círculo minúsculo, \ malicioso, \ sentou-se à nossa mesa. \ Desde
aquele dia, todos eles interferiram \ em nossas chamadas telefônicas. \ Meu
cachorro, que se admirava atentamente uma vez, \ latido insistentemente, \ mais
astuto ele tinha visto uma certa corporalidade \ deixando o espelho: \ um
coelho branco macio me visitou uma tarde. \ Mas não vou listar os gatos, \ os
cavalos, as gazelas, as tartarugas, \ os necrofílicos, \ os canibais, os não
nascidos, \ os gnomos, os gigantes, os onanistas, \ que saiu dos espelhos onde
imprudentemente \ Olhei ao lado de outras pessoas que não os viram \ cegos pela
sua própria imagem. \ Agora já não partilho um espelho com ninguém \ porque se
o meu reflexo aproveitar a oportunidade \ para deixá-los livres, exércitos de
outras pessoas, \ um mundo demasiado numeroso \ estará tomando forma embora
seja difícil parar \ porque o espelho dirá "cresce e multiplica" \ a
ponto de desalojar o universo \ secretamente esperando por isso \ depois de ter
repetido tanto tempo \ na água, na obsidiana, \ em metais e em espelhos
subsequentes. \ Também não devemos pensar que a coisa toda é horrível. \ Os
sem-abrigo vão abrigar-se \ dentro dos espelhos \ (eles nunca terão vivido em
lugares tão luminosos) \ eles sairão por sua vez \ quando os que estavam
refletindo \ contemplar-se esquecendo de sua experiência.
Poema da escritora argentina Silvina
Ocampo (Silvina Inocência
Ocampo – 1903-1993). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
VIVER
COM O PROBLEMA – [...] Importa com
quais matérias pensamos outras matérias; importa quais histórias contamos para
contar outras histórias; importa quais nós dão nós em nós, quais pensamentos
pensam pensamentos, quais descrições descrevem descrições, quais laços atam
laços. Importa quais histórias criam mundos, quais mundos criam histórias. [...] Nossa tarefa é causar
agitação, provocar uma resposta contundente a eventos devastadores, bem como
acalmar águas turbulentas e reconstruir lugares de tranquilidade. [...] O
Antropoceno marca descontinuidades severas; o que vier depois não será como o
que veio antes. Acredito que nossa tarefa é tornar o Antropoceno o mais curto e
breve possível e cultivar, uns com os outros e de todas as formas imagináveis,
as épocas vindouras capazes de restaurar refúgios. [...] Já são tantas
as perdas, e haverá muitas mais. Um florescimento generativo renovado não pode
brotar de mitos de imortalidade ou da incapacidade de "tornar-se-com"
os mortos e os extintos. [...]. Trechos extraídos da obra Staying with the
Trouble: Making Kin in the Chthulucene (Duke University Press 2016), da filósofa
e zoóloga estadunidense Donna Haraway (Donna J. Haraway), autora do Manifesto
Ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX
(1985) e de Simians, Cyborgs, and Women: The Reinvention of Nature
(1995). Veja mais aqui & aqui.
DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS
Imagem: Acervo ArtLAM . Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...
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Imagem: Acervo ArtLAM . Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...
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PACIÊNCIA – A belíssima canção Paciência , uma parceria musical de Lenine e Dudu Falcão, traduz uma reflexão intro-extrospectiva dos ...
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A arte do pintor modernista japonês Tsugouharu Foujita (1886-1968). PROEZAS DO BIRITOALDO - XI - Quando a corda arrebenta, a...
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